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domingo, 6 de outubro de 2013

Especial Elysium - Elysium é de esquerda,apologia socialista ou eficiente propaganda do "Obamacare"?


Passou ao largo do radar de muitos jornalistas no Brasil e também do grande público, mais preocupado com as participações de Wagner Moura e Alice Braga no segundo filme da carreira de Neil Blomkamp, uma discussão que polarizou os estratos culturais e políticos da mídia americana na esteira do lançamento de Elysium.
A direita americana chiou por considerar o filme um libelo esquerdista de marca maior. A esquerda disse que o filme não conseguiu tangenciar a segregação a que alude, mas elogiou suas boas intenções. Fato é que o filme de Blomkamp tem forte veia política, minorada pela mão pesada do estúdio, mas que acaba - por vias tortas – fazendo apologia ao socialismo sim. Talvez não fosse essa a intenção de Bloomkamp e a julgar por Distrito 9 – seu espetacular filme de estreia – é possível dizer que não era mesmo essa a intenção. Apesar de ser muito clara sua identificação com o ideário da esquerda, e não poderia ser diferente considerando que o diretor cresceu sob a sombra do Apartheid na África do Sul, seu comentário em Elysium parece deslocado do norte apontado pelo filme anterior. Se isso revela uma deficiência na forma com que finalizou seu filme – a culpa só pode ser dividida parcialmente com o estúdio nessa matéria – demonstra também a atualidade de Elysium em um aspecto que domina o debate social e político nos EUA neste momento. Diz respeito ao plano de saúde aprovado pelo governo Obama em 2012 em que os ricos pagam impostos mais onerosos para custear o acesso dos pobres à Saúde. Esse plano, que virou lei e teve sua constitucionalidade reconhecida pela Suprema Corte americana, é alvo de grande acirramento entre republicanos e democratas e está por trás da paralisação do governo federal pela não aprovação de uma emenda orçamentária no congresso.
Os republicanos, maiores representantes dos abastados, querem que a lei – já em vigor – seja adiada em um ano. Obama não aceita negociar. Em Elysium, o principal mote do filme é a necessidade de acesso à saúde. A tal da cama milagrosa que cura de câncer a fraturas é uma metáfora eficiente do estado das coisas nos EUA. Nesse espectro, Elysium é de uma felicidade tremenda. Ainda que acidental. Naturalmente, entre o pensamento da esquerda e a apologia canhestra que resultou, ser propaganda da maior cartada da administração Obama não estava nos planos de Neil Blomkamp. Mas ver o filme nessa ótica é um adendo e tanto. Para o filme e para o debate que acontece às margens dele.


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Spotlight on - Cinema de crise

Enquanto se avizinha a próxima temporada do Oscar, já se deflagra uma expectativa nos bastidores para quem acompanha com intimidade, profissionalismo, paixão e reflexão o cinema como um todo.
Os principais pleiteantes ao Oscar nessa fase pré-corrida, em comum, têm uma característica de lidar e abordar, de alguma maneira, circunstâncias de crise. Seja ela existencial, como nos casos de Gravidade – em que uma mulher abalada com a morte da filha precisa lutar para sobreviver na imensidão do espaço, 12 years a slave – em que um homem livre é sequestrado e vendido como escravo, Blue Jasmine – em que uma ex-rica precisa se adaptar à vida de pobre, Álbum de família – sobre dificuldades familiares embaladas por uma doença fatal; ou crises de fundo mais sociológico como em O lobo de Wall Street, em que Martin Scorsese investiga os porões dos anos 90 em busca dos frangalhos da geração yuppie.
Cate Blanchett como uma mulher que precisa se reinventar em Blue
Jasmine:
cinema de crise é cinema cheio de oportunidades
Esse cinema de crise saiu fortalecido da última edição do festival de Veneza. Como já discutido anteriormente em Claquete, o documentário Sacro GRA é um filme que fala implicitamente da crise econômica que afeta com requintes de crueldade o país e, sua consagração em Veneza, sinaliza para a crise da qual o cinema de arte precisa se deslocar. Mas não é só o cinema de arte que está encapsulado nessa crise. O cinemão, como demonstrou a última temporada do verão americano, também está em crise. Executivos estão encomendando estudos e análises para saber que diabos os (poucos, mas expressivos) sucessos e (muitos) fracassos da temporada significam.
Como se vê, há crise por todos os cantos. De Woody Allen a Martin Scorsese, passando pelo novo de Spike Jonze (Her)em que um homem se apaixona pela voz de seu computador – uma versão mais robusta do Siri. “É sobre a nossa necessidade de se conectar. É sobre solidão, também”, disse Spike Jonze para uma atenta plateia no último festival de Toronto.
Para um filme ser dramaticamente eficiente é necessário que haja um conflito, mas a convergência de filmes que abordam crise e que são, eles mesmos, representações dessa crise (como o vencedor de Veneza) extrapola os limites da coincidência. Esse recorte ainda deverá ser mais explorado, até porque não há garantias formais de que a corrida pelo Oscar tomará as formas que neste momento se imagina. A tendência de se falar de crise não é essencialmente nova. Já teve seus ciclos ao longo da história do cinema. Mas como em toda crise há oportunidades, muita coisa boa pode estar a caminho.

sábado, 2 de março de 2013

Carta do editor - A temporada do Oscar acabou. E agora?



Foi uma jornada e tanto! Intensa como poucas. Com esta Carta do editor, o especial Oscar Watch 2013 está oficialmente encerrado. Foram 50 postagens que compuseram, ao longo de três meses, uma das coberturas mais completas, contextualizadas e analíticas da imprensa brasileira sobre a temporada de premiações do cinema, em geral, e do Oscar, em particular.
Com o fim da temporada de premiações, os cinéfilos podem respirar e se preparar para as novidades do ano que já está em curso. Claquete apresenta algumas. A primeira é uma coluna mensal dedicada ao cinema europeu. A coluna abordará filmes, artistas, festivais ou movimentos cinematográficos circunscritos ao velho continente. A coluna se chama Euro & Travelling e objetiva estabelecer uma cota mensal do cinema europeu, por vezes sufocado pela agenda hollywoodiana no blog. Outra novidade é Espaço Claquete. A seção tem como objetivo destacar filmes – sejam eles cults, polêmicos ou que passaram abaixo do radar de público e crítica e que não foram resenhados previamente no blog. Espaço Claquete também abraçará os lançamentos direto em DVD e Blu-Ray. A periodicidade, a princípio, é livre.
A outra novidade quem vai determinar é o leitor. Qual coluna já extinta do blog você gostaria que retornasse? Durante todo o mês de março será possível votar, quantas vezes quiser, em sua favorita. Em abril ela estará de volta. As candidatas são as sessões Contexto, Movies Great Partnerships, Claquete repercute e Tira-teima. Clique nos nomes das colunas para ver exemplares delas já publicadas em Claquete.
O mês de março apresenta ainda bons lançamentos nos cinemas como Killer Joe – matador de aluguel – já duas vezes adiado por aqui; Bem vindo aos 40, novo trabalho de Judd Apatow; Dentro de casa, novo filme de François Ozon e Linha de ação, que opõe Russel Crowe e Mark Wahlberg. Para todos os efeitos, o ano está só começando.

domingo, 25 de março de 2012

Insight

Vamos falar de sexo?


Com Shame em cartaz, parece irresistível falar sobre sexo no cinema. A fita de Steve McQueen demonstra o suplício cotidiano de um homem viciado em sexo, mas vai além: enfoca a solidão contemporânea e a volatilidade das relações interpessoais em tempos como os que vivemos. O tema da fita inglesa premiada no último festival de Veneza, ainda que não seja essencialmente uma novidade, é abordado de maneira corajosa, sem amarras e com forte propulsão sensorial. Mais do que qualquer coisa, McQueen parece interessado em envolver, de maneira provocativa, seu espectador no debate que propõe. Nesse sentido, Shame se diferencia de produções como o francês Para poucos, exibido recentemente nos cinemas paulistanos e que deve chegar em DVD ainda no primeiro semestre. Embora a fita francesa de Antony Cordier apresente uma discussão tão profunda a respeito do sexo e se valha da mesma liberdade praticada por McQueen com seu filme, não há o interesse de colocar o espectador no centro de debate. É, antes de qualquer coisa, uma opção estética e deve ser respeitada. Em Shame, as escolhas de McQueen se provam muito felizes.

Os quatro protagonistas de Para poucos, cuja crítica pode ser lida aqui: dois casais começam a se namorar e, aos poucos, vão descobrindo novos limites para relacionamentos e sexo


Closer-perto demais, por exemplo, recorre a uma lógica teatral para falar de sexo. Há muita verborragia e nenhum sexo em um filme que se permite ser cru, cruel, sensual, excitante, dramático, conflitante e, por vezes, áspero. Mike Nichols confia nos atores e em um texto absolutamente maravilhoso para construir o painel que objetiva. Até mesmo por sua procedência nas artes plásticas, é compreensível que McQueen avance em termos de linguagem na dialética narrativa que almeja com Shame. Sam Mendes, nesse contexto, foi mais conservador na linguagem, mas não no discurso em Beleza americana. O sexo é o principal catalisador para as mudanças que acometem os personagens. As frustrações dos personagens estão ligadas intimamente às respectivas vidas sexuais. O principal motor da radical mudança sofrida pelo protagonista tem a ver com o desejo latente pela amiga de sua filha. A hipocrisia é o alvo de Mendes e, para ele e para o roteirista Alan Ball, não há como falar de hipocrisia sem mirar no sexo.

Natalie Portman e Clive Owen em cena de Closer-perto demais, eleito o melhor filme da década passada pelo blog: um filme que aborda as sombras de toda e qualquer relação amorosa e não se vale de subterfúgios para fazê-lo


Personagens trágicos: Lester (Kevin Spacey), de Beleza americana, e Brandon (Michael Fassbender), de Shame, têm no sexo catalisadores de angústias e insatisfação; ainda que lidem com sexo de maneira totalmente diferente

Os quatro filmes citados constituem um espelho interessante sobre como o sexo é abordado tematicamente no cinema, e, também, sobre as possibilidades estéticas e discursivas disponíveis para tal.
Desde O último tango em Paris, um filme idealizado para falar da nossa relação com o sexo não era tão significativo. São 40 anos entre o filme protagonizado por Marlon Brando e Maria Schneider e Shame. E os 40 anos podem ser sentidos. Confrontando os dois filmes é possível percebê-los candidamente como retratos de suas respectivas eras. Não obstante, compartilham de algumas particularidades. Se o filme de Bertolucci foi proibido em muitos países, inclusive no Brasil, à época de seu lançamento, Shame foi banido nos EUA das salas de cinema da rede Cinemark que o considerou “pornográfico e abaixo do nível de qualidade exigido pela rede”. Coincidentemente, ou não, o filme não integra a programação da rede no Brasil.
O diretor Steve McQueen, que fez campanha assídua para que Michael Fassbender fosse indicado ao Oscar, provocou dizendo que a esnobada se deu em razão dos “americanos temerem o sexo”. Talvez seja verdade. Muito provavelmente é um exagero da parte de McQueen. De qualquer maneira, passa por Shame a mudança desse panorama. 

terça-feira, 12 de julho de 2011

Dois anos em dez cenas

Cena 1 – Bem vindos ao Claquete!

“Olá, como é bom tê-los aqui. Antes de mais nada, agradeço a atenção e boa vontade em dar uma "espiadinha" aqui. Aproveito para pedir paciência. A disciplina é uma dama difícil de ser conquistada e ainda estou dominando a arte de "bloggar".
Isso dito, estou muito feliz de recebê-lo(a) e prometo que farei de tudo para recebê-lo(a) aqui mais vezes. Portanto sugestões, críticas e tudo aquilo que você potencial leitor(a) de Claquete julgar necessário será bem vindo aqui. Por este escriba regozijante de prazer em poder lhe ser útil de alguma maneira.
Sem mais delongas portanto. Esse editorial visa apenas dar o pontapé inicial. O conceito do blog e tudo o mais, vocês vão descobrindo com as visitas que espero receber. Vai valer a pena, isso eu posso garantir.


Vejo vocês logo mais,
grande abraço
Reinaldo

Com esse curto e visivelmente empolgado editorial, Claquete deu as boas vindas ao leitor em 12 de julho de 2009. Foram 4 postagens naquele dia. A linha editorial do blog ainda estava em definição, mas já era nítido o interesse de dialogar com o cinéfilo. Contexto, produção jornalística e análise se transformariam em marcas reconhecíveis de Claquete.


Cena 2 – a primeira crítica
A crítica do filme A proposta, estrelado por Sandra Bullock e Ryan Reynolds, foi a primeira a ser publicada no blog. Ainda no dia 12 de julho, o filme Closer-perto demais seria o primeiro destacado da extinta seção Filme do dia.

Quem quiser (re)ler a primeira crítica publicada no blog basta clicar aqui.



Cena 3 – um Movie Pass
Decidido a incrementar a experiência cinéfila, o blog concebeu a seção Movie Pass. A seção tinha como finalidade destacar, apresentar e contextualizar filmes cult de variadas épocas e nacionalidades. A principio a seção era semanal, tornou-se quinzenal e foi mensal antes de ser aposentada. Na natureza selvagem, de Sean Penn foi o primeiro destaque. Entre outras lembranças, figuraram os filmes Caos Calmo, A fronteira do alvorada, As pontes de Madison, O homem que não estava lá, O nevoeiro, Um homem sério, Arrasta-me para o inferno, Sexo, mentiras e videotape, À deriva, Cidade baixa, XXY e Casablanca.



Cena 4 – surge o Insight
Com o objetivo de aclarar temas inerentes ao cinema, contextualizar detalhes de bastidores e prover perspectiva, o blog lançou em agosto de 2009 a seção Insight. Uma das grandes campeãs de bilheteria de Claquete. Vários leitores já expressaram sua preferência pela seção que, desde o lançamento, é publicada semanalmente aos domingos.



Cena 5 – Os especiais vieram, foram e podem voltar
Foram instituídos em outubro de 2009 os especiais mensais do blog. Funcionava da seguinte maneira: lá pelo dia 15 de cada mês, era promovida uma enquete em que o leitor escolhia o filme que gostaria que recebesse uma cobertura especial do blog. Bastardos inglórios, de Quentin Tarantino foi o primeiro. Em alguns meses, os dois filmes mais votados eram tema de especiais, como em novembro de 2009 quando Lua nova e Abraços partidos ganharam coberturas especiais em Claquete.
A partir de julho de 2010, o especial do mês passou a ser uma escolha editorial. A mudança objetivava dar mais tranquilidade e autonomia para o editor do blog elaborar pautas e realizar as matérias. Durante essa encarnação, foram tema de especiais os filmes A origem, Wall street: o dinheiro nunca dorme, A rede social, Homens em fúria entre outros.
Todos os especiais podem ser acessados na página exclusiva que o blog reserva para eles. É possível acessá-la clicando aqui.
Com a chegada de 2011, e uma nova reorganização do blog, os especiais foram deixados de lado. Surgia a figura do Filme em destaque. Matérias analíticas, recheadas de bastidores e curiosidades publicadas às vésperas do lançamento do filme em questão. O turista, Cisne negro, Biutiful, Um lugar qualquer, Thor, O discurso do rei, 127 horas, Meia noite em Paris e Velozes e furiosos 5: operação Rio são alguns dos filmes que ilustraram a mais democrática cobertura especial que Claquete viabiliza. Contudo, estão em análise novos formatos para incrementar ainda mais essas coberturas tão especiais desses filmes não menos especiais.



Cena 6 – A melhor, sem modéstia, cobertura da temporada do Oscar
Já foram duas edições do Oscar watch, um especial de três meses com a finalidade de cobrir de cabo a rabo a temporada do Oscar. Em diversas reportagens, artigos e demais textos analíticos, o leitor de Claquete teve acesso a uma verdadeira avalanche de informações de bastidores, sempre contextualizadas e com a devida carga opinativa, acerca dos rumos da temporada de premiações. Oscar watch é seguramente um dos pilares da qualidade jornalística de Claquete.

A rede social (foto) foi um dos filmes que foram tema do "Especial do mês" de Claquete: outras produções das mais diversas procedências foram Tetro, Homem de ferro 2, Nine, O mundo imaginário do doutor Parnassus, Atividade paranormal e Ilha do medo.



Cena 7 – reformulações
Como já ficou evidenciado nessa matéria especial, foram muitas as reformulações as quais o blog foi submetido. Uma, inclusive, de design. Em julho de 2010, na ocasião do primeiro aniversário, um novo template foi lançado. Mais arejado, espaçoso e com cores mais fortes e nítidas.
As reformulações existem para melhorar o blog. A evolução é algo que devemos perseguir com obstinação. A ideia é deixar Claquete cada vez mais atraente, dinâmica, inteligente e fiel aos princípios que a norteiam.
Contudo, algumas marcas inerentes a identidade do blog são insolúveis. Uma delas é a foto da home. A princípio, alguns leitores foram vitimados pela estranheza de ver fotos (ou banners) diferentes de diferentes filmes diariamente na home do blog. Aos poucos, a estranheza foi cedendo a expectativa pelas imagens escolhidas para ilustrar o blog. Muitos leitores já confessaram a admiração, alguns até se permitiram guardar as imagens para si.
Outra marca do blog é a constante busca pela análise. Pelo contexto. Sempre fornecendo material reflexivo para o leitor. Com isso em mente a coluna Contexto vigorou por mais de um ano e a mesma finalidade pauta a nova Questões cinematográficas. Cinema é cultura e é cultura acumulativa. O dogma não é mera articulação de ideias, Claquete procura estreitar o conceito da realidade com análises embasadas que nunca desaparecerão. Pelo contrário, estarão cada vez mais enraizadas nas reformulações as quais o blog for submetido.


Cena 8 – o leitor
Foram poucos no começo. Claquete, no entanto, foi ganhando leitores com fôlego invejável. A audiência atual do blog é respeitável (cerca de 5 mil visualizações por mês). É um número e tanto para um blog sem patrocínio ou suporte de um grande provedor. Essa conquista, no entanto, é inteiramente depositada na conta do leitor. Essa figura tão importante, benquista e decisiva. São os leitores que fazem Claquete, um blog que até o momento segue sem fins lucrativos, persistir. A paixão pelo cinema que une os leitores nesse espaço é, também, o sopro da vida de Claquete.



Cena 9 – os blogs parceiros
Todos esses blogs listados ao lado sob o título “minha lista de blogs” são jóia rara dentro da blogsfera cinéfila. Todos contribuem, a sua maneira, para um debate oxigenado pela sétima arte. Contudo, alguns merecem destaque por serem editados por pessoas que, além de sobejarem em matéria de cinema, fazem questão de bater ponto aqui em Claquete. Tornando a experiência de editar este blog muito mais prazerosa. Portanto, uma distinção honrosa a Amanda Aouad, Ana Kamila de Azevedo, Elton Telles, Rodrigo Mendes, Alan Raspante, Madame Lumière e Cássio Bezerra.

O blog CinePipocaCult, da baiana Amanda Aouad: um espaço em que o cinema é a matéria prima


Cena 10 – o futuro
O desejo de continuar usufruindo da sua companhia cresce a cada dia. O objetivo de Claquete não é tímido, tão pouco modesto. A ideia é ser o seu site de cinema. Uma referência. A história está sendo construída. O convite, reiterado, é para que você venha fazer parte desse projeto. Afinal, o aniversário é nosso.

Grande abraço,
Reinaldo Matheus Glioche

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Editorial - O cinema e suas questões

Uma das principais vocações de Claquete, em sua proposta de cobertura jornalística, é pensar o cinema em toda a sua amplitude e representatividade. Desde a mais frívola noção da indústria até a concepção mais erudita de arte. Alinhavam-se dentro desse escopo inovações estéticas, star system, fofocas, reflexões, bilheterias e crítica de cinema. Há muito mais também. Por isso o sucesso de algumas seções como Insight (publicada todos os domingos), Claquete repercute (segundo domingo de todo mês) e da extinta Contexto (que para quem não conhece, vale a pena descobrir em sua atemporalidade).
Para agregar valor a essa demanda, e também substância, estréia neste mês em Claquete a coluna Questões cinematográficas. O objetivo da coluna será iluminar, como antecipa o nome, questões intrínsecas ao horizonte cinematográfico. Seja recuperando algum tema da seção Insight e desenvolvendo-o ou repercutindo algum aspecto que se relacione intimamente com o cinema nos campos da produção, comercialização, distribuição ou percepção. Questões cinematográficas será uma coluna com alma apaixonada e razão social. Esse amálgama será publicado todo terceiro domingo do mês. Claquete documenta, que cederá o lugar à Questões cinematográficas, deixa de ter periodicidade definida, mas segue firme no blog.
Em abril, também chega o blockbuster Thor – o filme que abre o verão americano nos cinemas. A chegada do Deus do trovão inspira a seção Tira-teima do mês e renderá duas reportagens especiais: uma sobre o filme propriamente dito e outra sobre os principais lançamentos da temporada pipoca em Hollywood.
A mostra Panorama destacará os filmes de Sofia Coppola e a última seção Insight do mês discutirá os rumos do cinema da terceira mulher indicada pela academia ao Oscar de melhor direção. A escolha dessa data coincide com o lançamento de seu último filme, Um lugar qualquer, nas locadoras brasileiras. Se quiser ler a crítica desse filme, e  matar a curiosidade do que vem por aí, o leitor pode clicar aqui.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

OSCAR WATCH 2011 - Contexto

Por que esses dez filmes?

É o segundo ano consecutivo que a academia seleciona dez indicados para concorrer ao Oscar de melhor filme. Já é pacífico que a medida visa uma maior popularização da cerimônia de TV, um impacto maior nas bilheterias e na reverberação midiática da marca Oscar. Mas quais são os predicados dos dez filmes escolhidos para concorrer ao prêmio máximo do cinema em 2011?
Um primeiro olhar sugere um ecletismo que, pautado pelo equilíbrio, reforça a escolha da academia. Estamos diante de uma seleção de invejável fôlego. Há cinco filmes independentes em disputa (Cisne negro, 127 horas, Minhas mães e meu pai, Inverno da alma e O discurso do rei), três legítimos blockbusters de estúdio (A rede social, A origem e Toy story 3) e dois filmes “baratos” de estúdio (O vencedor e Bravura indômita). Todos de inegável qualidade. Essa equação não foi bem resolvida ano passado, quando os blockbusters eram qualitativamente pálidos (Um sonho possível e Avatar) e o desnível entre outras produções concorrentes era muito grande. É difícil conseguir alguma equidade qualitativa até mesmo com cinco indicados, obter isso com dez é um feito e tanto. Esse dado leva a conclusão de que foi um bom ano. A academia reconheceu a originalidade de projetos modernos e modernosos (A origem e A rede social), prestigiou os independentes que se esmeram no elenco e na história (Inverno da alma e Minhas mães e meu pai que dividem quatro indicações idênticas) e saudou o tradicional nas figuras do western (Bravura indômita), da fita inglesa de época (O discurso do rei) e do filme que traz o boxe como parábola (O vencedor). Chamou a atenção o destaque que esses três filmes receberam da academia. Maior do que muitos supunham ser justificável. Isso ocorreu porque depois de alinhar-se a crítica na edição de 2010, a academia se encontra na necessidade de marcar território novamente. Por isso, filmes tão tradicionais lideram a disputa.

Cartaz conceitual de Bravura indômita, um dos principais concorrentes ao Oscar 2011: filme tradicional com a chancela dos irmãos Coen


Mas a academia está dividida. Entre a engenhosidade narrativa de filmes como A rede social e A origem e a segurança secular de obras como O discurso do rei e O vencedor. De qualquer jeito a lista do Oscar 2011 sinaliza bons tempos. A superação do ser humano continua a ser um dos pilares do Oscar. Ela está presente de variadas formas em 127 horas, O discurso do rei, Bravura indômita e O vencedor. Começa a ruir a barreira que separava a boa ficção científica do Oscar. Pelo terceiro ano seguido um filme de ficção se enfileira entre os melhores. Batman – o cavaleiro das trevas em 2009 (que ao não ter emplacado a candidatura a melhor filme, tornou-se a grande razão de ser dessa mudança para dez indicados), Distrito 9 em 2010 e A origem esse ano. Ainda levará mais algum tempo para que a barreira seja totalmente transposta. A qualidade desses filmes, é bom que se diga, precisará continuar em alta. Ao reconhecer a leveza de um filme que aborda uma família chefiada por um casal de lésbicas, cuja rotina é tão problemática quanto outra qualquer, a academia atesta a preocupação social de não parecer pró-ativa demais. Nem de menos. A violência e as deturpações do mundo nos últimos tempos também têm garantido vez no Oscar. Inverno da alma não tem a apoteose de Os infiltrados, nem o pessimismo de Onde os fracos não têm vez, mas se sustenta na comparação. E, aquele que Claquete já pontuou como o filme do Oscar, A rede social é o filme que transborda conteúdo, relevância e reflexão. Tudo embalado em ótimo entretenimento. Pode não ser escolhido o melhor filme do ano, mas sua presença na lista fará com que os outros imediatamente – na revisão histórica – se tornem um pouco melhores.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Retrospectiva 2010 - Contexto

O ano em revista

2010 vai chegando ao fim e o ano foi muito intenso no cinema e, principalmente, para o cinema. O que fica de 2010? Como esse ano serviu para ajustar perspectivas da indústria? O cinema foi arte em 2010? Quais filmes marcaram? Quem dominou a cena? São perguntas perenes que a última seção Contexto do ano abordará.
A primeira grande lembrança de 2010 estará relacionada a um filme de 2009. Avatar alcançou seus “major records” neste ano. Sagrou-se a maior bilheteria da história do cinema (U$ 2,7 bilhões) e popularizou de vez o 3D (embora este já fosse popular). Avatar foi, ainda, a maior bilheteria de um filme internacional nos cinemas brasileiros. Sim, porque no geral foi prata da casa. Tropa de elite 2 tornou-se o maior blockbuster da história de nosso cinema. Lançado e produzido nos moldes hollwoodianos, Tropa de elite 2 está na vanguarda e ainda será muito importante para evolução do mercado de cinema no país.
Mas Tropa 2 não foi o melhor filme nacional a aportar nos cinemas. Boas surpresas estiveram em campos opostos. Laís Bodansky aliou trejeitos autorais a uma linguagem pop e multifacetada para fazer o melhor filme sobre teens dos últimos anos. As melhores coisas do mundo é a prova definitiva de que o cinema brasileiro pode ser mais cinema e menos brasileiro. Marco Ricca, por sua vez, estreou com o pe direito como cineasta. É dele o melhor filme nacional do ano, Cabeça a prêmio. Um filme pensativo passado no centro-oeste brasileiro e que se esmera na força de um elenco coeso. Ricca rejeitou a possibilidade de mastigar seu filme para o público, assim como o fizeram o mestre Martin Scorsese em Ilha do medo e Christopher Nolan (que anda merecendo a alcunha de mestre) em A origem. Ambos, também em simetrias opostas, deram verdadeiras aulas de direção e de como contar uma história (até certo ponto simples) de maneira sofisticada.

Chris Nolan fazendo pose: depois de duas obras primas, ele anda merecendo a alcunha de mestre



Sofisticação teve David Fincher ao apoderar-se de uma história com potencial explosivo (a criação do Facebook e os litígios que se seguiram) para pintar o retrato de uma geração em A rede social. Tudo com dinamismo e agilidade, elevando o roteiro (que como diria Hitchcock é a chave de todo o filme) ao seu devido status.
Status foi o que adquiriu Kathryn Bigelow em 2010. Uma diretora competente, mas longe de ser a mais representativa entre as muitas mulheres que dirigem, até porque pouco se vale de um olhar feminino em seus filmes (Caçadores de emoção e K-19 para citar dois exemplos). O Oscar de direção a ela entregue, o primeiro concedido a uma mulher, lhe aferiu uma importância que sua obra não pressupunha.
O Oscar para Guerra ao terror, aliás, reacendeu a importância da crítica de cinema. Há algum tempo o noticiário cultural atentava para um distanciamento dos grandes prêmios do sentimento da crítica e de como a crítica de cinema havia se tornado um instrumento de pouco valor (pelo menos do ponto de vista das bilheterias). Contudo, para cada Crepúsculo que prescinde da crítica mais por ser um produto com público já pré-estabelecido e vacinado do que pela qualidade que apresenta, surge um A origem que se não fosse pela atividade da crítica não teria o fôlego que demonstrou nas bilheterias. Em 2010 comentou-se muito cinema. Não só em Claquete, mas em todo o eixo cultural. Desde o filme de Lula (que fracassou) até o filme que Polanski rodou como alegoria da própria condição em relação aos Estados Unidos (O escritor fantasma).

Cena do independente Guerra ao terror: os seis Oscars concedidos ao filme de Bigelow devolveram à crítica de cinema uma importância perdida


Os festivais de cinema foram surpreendentemente pouco cativantes em 2010. Cannes exerceu fascínio, mais pelas estrelas e pelo status que ocupa no calendário cinematográfico do que pela qualidade dos filmes exibidos. Tim Burton (que presidiu o júri em Cannes) e Quentin Tarantino (que presidiu em Veneza) decepcionaram em suas seleções.
O cinema europeu provocou pouco interesse em 2010. Só triunfou em festivais realizados fora do continente. Na Europa, a Ásia e os Estados Unidos continuaram a ter as cinematografias de maior destaque. Na América Latina, o bom momento do cinema brasileiro (com sucessos de público enfileirados) foi eclipsado pela força do cinema argentino que venceu o Oscar com o ótimo O segredo dos seus olhos. Dos hermanos também veio Abutres. Dois filmes que ganharam destaque internacional que o maior dos sucessos nacionais (Tropa 2) não deve nem mesmo arranhar. Merecidamente em ambos os casos, diga-se.

Ricardo Darín em cena do oscarizado O segredo dos seus olhos: o ator esteve presente nos dois grandes sucessos de crítica (e público) do cinema argentino em 2010


O verão americano, aquela famigerada temporada pipoca que todos adoram odiar ou odeiam adorar, não foi das mais entusiasmantes. Afora A origem e Toy story 3, não se pode dizer que nenhum filme marcou. Mas tivemos Robert Downey Jr. provando mais uma vez que é o cara em Hollywood, as animações se viabilizando mais e mais como o melhor custo benefício de uma indústria sempre em movimento como a do cinema e o ocaso do produtor Jerry Bruckheimer que sem Johnny Depp teve dois relativos fracassos no verão (O príncipe da Pérsia: areias do tempo e O aprendiz de feiticeiro). Aliás, 2010 trouxe a primeira má atuação de Johnny Depp em anos. Mas Alice no país das maravilhas será uma mancha maior no currículo de Tim Burton. Mas a revisita a obra de Lewis Carroll rendeu um bilhão de dólares e ajudou o cinema a registrar um aumento de rendimento (e na venda dos ingressos também) em 2010. Se o lado comercial vai bem, o artístico vai muito bem obrigado. Apesar dos festivais falharem em apresentar tendências e renovações neste ano, em nenhum outro ano o mainstream foi tão autoral. Além de Fincher, Nolan, Scorsese e a Pixar (com Toy story 3), tivemos anseios artísticos manifestados em projetos tão díspares como Um homem misterioso (estrelado por George Clooney e dirigido por um fotógrafo) e Atração perigosa (em que Ben Affleck exalta o que o cinema tem de melhor em um filme de autor embalado em fórmulas comerciais).
O saldo que se vislumbra é de que 2010 foi um bom ano para o cinema. Embora em linhas gerais tenham prevalecido os filmes medianos, houve uns cinco ou seis grandes filmes e muita coisa ainda se desdobrará de dois deles em especial: A origem e A rede social. Mas isso, já é outro contexto.

Martin Scorsese mostrou em A ilha do medo porque é um dos maiores diretores de cinema de todos os tempos




Reminiscências de 2010

+ Leonardo DiCaprio explorou com duas ótimas atuações os limites da mente nos filmes A origem e Ilha do medo


+ O cinema independente, após ser consagrado com o Oscar concedido a Guerra ao terror, viveu o mais fracos de seus últimos 5 anos


+ Josh Brolin esteve em quatro filmes em 2010 (Jonah Hex, Você vai conhecer o homem dos seus sonhos, Wall street – o dinheiro nunca dorme e, no ainda inédito, Bravura indômita). Um ator que fica melhor a cada novo trabalho. E 2010 deu uma boa noção disso.


+ Tivemos dois filmes de Woody Allen lançados comercialmente no Brasil este ano. Tudo pode dar certo em abril e Você vai conhecer o homem dos seus sonhos em novembro. Uma raridade bem recebida...


+ Christopher Nolan ratificou sua condição de visionário ao negar-se a dirigir o terceiro Batman em 3D. Na contramão de James Cameron, Nolan vê a tecnologia como uma efemeridade narrativa


+ O cinema nacional deve retrair em 2011 depois do excelente 2010. Pelo menos em termos de bilheteria...


+ O Blu-Ray vai pegando aos poucos, mas não representará a revolução que foi o DVD. Tão pouco essa revolução está nos downloads e distribuição online de filmes. No Brasil, em especial, o arrefecimento deste setor se deu antes da devida alavanca. A banda larga brasileira inviabiliza esse modelo de negócios.


+ Os atores voltaram a atrair interesse nos cinemas em 2010. Sem grandes sagas (com Harry Potter chegando ao fim) e com uma exaustão de filmes adaptados de outras mídias (como Homem de ferro 2 e Eclipse), 2010 deixa o caminho para uma mudança de posicionamento de alguns estúdios


+ Astros deverão estar novamente na ordem do dia nos próximos anos


+ O que não quer dizer que as adaptações estão fora da jogada, apenas prevê-se um equilíbrio maior nessa equação


+ Martin Scorsese e Roman Polanski lideraram, com seus filmes, a rotina de excelentes trabalhos de direção no ano. Também merecem destaque Pablo Trapero, José Padilha, David Fincher e Chris Nolan

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Contexto

Painéis irresolutos

A vida durante a guerra é um drama que objetiva expor e discutir algumas fragilidades humanas. A necessidade por perdão é um tema central da nova fita de Todd Solondz, mas ela não é a única questão proposta no painel do cineasta. Há o desamor crescente e patológico em uma sociedade que se caracteriza primordialmente pelo egoísmo com que cada indivíduo trata suas relações sociais. E esse é justamente o ponto gravitacional de A vida durante a guerra, como era também o de Felicidade (1998), filme ao qual Solondz revisita com o novo lançamento. Ao retomar os mesmos personagens e seus dilemas congelados no tempo, Solondz tenta avançar nas proposições do filme dos anos 90. No entanto, o eco que se ouve aqui não se mostra muito profundo.

Cena de A vida durante a guerra: personagens sofrem para
explicar o conceito de terrorismo para uma criança

É contumaz do cinema se prestar a construir painéis como o que se vê nos dois filmes de Solondz. A prerrogativa de explicar o mundo através de esquematizações amplificadas é tentadora. Paul Haggis tentou pelo viés do preconceito racial em Crash – no limite, Fernando Meirelles se apropriou de Saramago e apresentou uma mescla de pessimismo com esperança sobre os rumos da civilização em Ensaio sobre a cegueira e Tomas Vinterberg articulou, em uma reunião familiar, uma dinâmica bem parecida com a empregada em todos os filmes citados anteriormente no histórico Festa de família.
Em comum, esses dramas têm a proposta de a partir de painéis, ainda que irresolutos e inconclusivos, esmiuçar os intestinos das relações humanas.
Não se chega sempre aos mesmos resultados. Nem em termos cinematográficos, muito menos em parâmetros sociológicos. A dramaturgia de Solondz, por exemplo, é muito mais rasa do que a de Saramago brilhantemente transposta para o cinema pelo diretor brasileiro.
Nem que os realizadores quisessem esses painéis poderiam ser resolvidos. Já que ainda estamos contando nossa própria história. Essa, no final das contas, é a graça de produções como Crash- no limite a A vida durante a guerra. Mesmo que por graça aí, entendamos sina.



Se você gostou do tema abordado nesta seção Contexto e pretende repercuti-lo sob esse e outros pontos de vista, Claquete recomenda:

Felicidade (Happiness, EUA 1998), de Todd Solondz
Festa de família (Festen, DIN 1998), de Tomas Vinterberg
Magnólia (Magnólia, EUA 1999), de Paul T. Anderson
Crash - no limite (Crash, EUA 2005), de Paul Haggis
Ensaio sobre a cegueira (Blindness, CAN/JAP/BRA 2008), de Fernando Meirelles

domingo, 31 de outubro de 2010

ESPECIAL HOMENS EM FÚRIA - Contexto

Quando o outro é o espelho

Em Homens em fúria, somos apresentados a dois homens enrustidos. Não no sentido de orientação sexual geralmente atribuído ao termo, mas no sentido de esconderem seus anseios nas profundezas do inconsciente. Esse expediente dramático é muito eficiente para o cinema e para a literatura, pois possibilita um valioso conflito. Homens em fúria (Stone, EUS 2010), porém, não se detém apenas a esse componente. Na trama, Jack (Robert De Niro) e Stone (Edward Norton) apresentam visões de mundo opostas. E atravessam momentos opostos também. Ambos já vivenciaram os fatos definidores de suas vidas (no caso de Stone o crime que cometeu e no de Jack uma atitude em particular que vemos no prólogo do filme). Ambos estão às voltas com a religiosidade. Jack perambula pela igreja, mas não consegue se conectar. Stone recorre a fé para manter a serenidade que parece lhe escapar quando o conhecemos. Jack é conservador e parece acreditar nas instituições (como família, lei, Deus), embora nunca tenhamos certeza se ele acredita ou se nós acreditamos que ele acredita. Stone não dá a mínima para as instituições, até o momento em que percebe que essa postura lhe atribula mais do que ele imaginava.

Em Filadélfia, visões de mundo antagônicas se chocam em uma experiência definidora


Estamos diante de um clássico confrontamento materializado na figura de dois personagens poderosos. O ponto de intersecção passa por questões ligadas a moral e a fé. Debater a humanidade, nesses moldes, é algo que o cinema faz com certo apreço. Essa dicotomia está presente no argumento de filmes tão dispares como Filadélfia (em que advogado preconceituoso vivido por Denzel Washignton vai desvincilhando-se de seu preconceito conforme avança na defesa do personagem vivido por Tom Hanks) e Batman –o cavaleiro das trevas (em que o caótico coringa exorta as disfunções do mundo a um Batman unidimensional). O mais interessante a se observar na proposição desse exercício são as diferentes soluções aventadas nessas obras. Mesmo distintas, elas se relacionam no sentido de prover um comentário profundo das angústias humanas. A psicologia dos personagens e seus dramas legitimam esses filmes como estudos do homem e o meio.

Em 500 dias com ela, Tom acredita no amor e Summer não. O filme não terminará sem que o choque dessas visões de mundo produza mudanças na vida dos dois


Se você gostou da seção deste mês e deseja repercutir o tema abordado sob esse e outros pontos de vista, Claquete recomenda:


Filadélfia (Philadelphia, EUA 1993), de Jonathan Demme
Antes de partir (The bucket list, EUA 2007), de Rob Reiner
Batman – o cavaleiro das trevas (Batman – the dark Knight, EUA 2008), de Christopher Nolan
Tropa de elite (Brasil 2007), de José Padilha
500 dias com ela (500 days of Summer, EUA 2009), de Marc Webb

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

ESPECIAL WALL STREET - O DINHEIRO NUNCA DORME: Contexto

O capitalismo devassado


Oliver Stone parece imbuído de mostrar que o capitalismo é uma chaga social. Seu cinema recente parece pautado em desconstruir o modelo econômico ocidentalizado que rege 97% das nações. Wall street – o dinheiro nunca dorme, embora engrosse o coro, não chega a ser tão xiita quanto se podia imaginar. Tão pouco Stone é tão vaticinante em sua crítica quanto outros cineastas como Costas-Gravas, Jean Luc Godard ou Claude Chabrol, morto recentemente.
No filme, reencontramos Gordon Gekko no momento em que planeja se reerguer, embora isso não esteja claro de pronto. Stone realiza aqui outro conto moral partindo do cenário proposto pela crise econômica desencadeada em wall street em setembro de 2008. Ele mostra que Gekko pode ter mudado pouco, mas que o mundo das finanças mudou e muito. E para pior, sacramenta o diretor esquerdista. A figura de Bretton James (Josh Brolin) e de Louis Zabel (Frank Langella) dão viço a esse comentário.
Desbravar o sistema capitalista parece ser o passatempo preferido de Oliver Stone. Há 23 anos ele lançou o icônico Wall street em que explicitava os pormenores do mercado financeiro. O cinema se presta, embora nem sempre dotado do cinismo presente nos trabalhos de Stone, a desenvolver análises sobre o tema. O documentário The corporation (2004) desnuda as relações escusas de grandes empresas como Nike e Coca-cola. Entre os entrevistados do filme está o polêmico (e também esquerdista ferrenho) Michael Moore. Moore, aliás, rodou sua própria perola anticapitalista. Capitalismo:uma história de amor (2009) tenta, com os habituais subterfúgios narrativos do diretor, relacionar o capitalismo a todo o mal inerente a vida em sociedade. Apesar de ter algumas verdades, Capitalismo: uma história de amor não é tão contundente quanto The corporation.
Esquivando-se um pouco dos documentários, a ficção também é prolífera em enquadrar o capitalismo e suas vicissitudes. Geralmente de forma muito mais assertiva e bem humorada, como na comédia de erros As loucuras de Dick e Jane (2005) em que Jim Carrey perde seu emprego quando a economia americana míngua e precisa roubar para se sustentar. Ou na deliciosa comédia O diabo veste Prada (2006) em que os sonhos e o idealismo de uma recém formada se confrontam com a dura realidade do mercado de trabalho. Em O corte, o grego Costas-Gravas cria uma bem humorada e inusitada situação. Seu protagonista resolve matar todos os seus concorrentes à uma vaga de emprego. Um conto capitalista de extrema acuidade, sem perder o bom humor.
A melhor parábola sobre os efeitos do capitalismo, no entanto, talvez seja O sucesso a qualquer preço. No filme de James Foley, com roteiro do dramaturgo David Mamet, um grupo de vendedores tem que alcançar uma meta no final do mês para preservar seus empregos.
O cinema faz parte da lógica capitalista. A maior prova disso é a pujança hollywoodiana. Isso não impede de se fazer auto- análise. E Wall street – o dinheiro nunca dorme é certeiro na radiografia que faz de nós mesmos.

Mery Streep e Anne Hathaway em uma deliciosa fábula capitalista


Se você gostou do tema abordado nesta coluna e deseja repercuti-lo sob esse e outros pontos de vista, Claquete recomenda:


O sucesso a qualquer preço (EUA 1992), de James Foley
The corporation (Can, EUA 2004), de Mark Achbar, Jennifer Abbott e Joel Bakan
Capitalismo: uma história de amor (EUA 2009), de Michael Moore
O corte (GRE/ALE 2005), de Costas-Gravas
O diabo veste Prada (EUA 2006), de David Frankel
As loucuras de Dick and Jane (EUA 2005), de Dean Parisot
Wall street – poder e cobiça (EUA 1987), de Oliver Stone

domingo, 29 de agosto de 2010

Contexto


Uma aflição peculiar...

Um dos plots do muito bem construído Cabeça a prêmio, filme dirigido por Marco Ricca que está em cartaz atualmente nos cinemas brasileiros, é a conturbada relação de um pai com sua filha. É, sem dúvidas, a principal linha narrativa do filme e o núcleo cujo desfecho mais impressiona. De qualquer maneira, o que se verifica em Cabeça a prêmio é a coroação de uma teoria psicanalítica muito em voga no cinema: o complexo de Electra. Em um aprofundamento de questões mal resolvidas relacionadas a paternidade. No filme de Ricca, Mirão (Fulvio Stefanini) não é um pai presente para Elaine (Alice Braga). Pior do que isso, é um pai cheio de segredos e envolvido em negócios escusos. Esse afastamento crônico e todo o ressentimento que advém dele são muito bem trabalhados pelos atores e pelo texto de Marçal Aquino (que serve ao roteiro do filme).
O envolvimento paterno com a ilicitude em geral, e com o crime em particular, já rendeu grandes filmes como Caminho sem volta e fitas eficientes como Poder absoluto em que Laura Linney faz a filha de um Clint Eastwood ladrão de obras de arte.

Mirão a esmo: Em Cabeça a prêmio flagramos um pai que se debate por suas (más) escolhas...



Mas o cinema foi especialmente feliz ao enquadrar o avesso desse sentimento. A partir da perspectiva paterna como em filmes como As confissões de Schmidt, de Alexander Payne, em que Jack Nicholson depois de perder a mulher, tenta se ajeitar com a filha. Ou mesmo na comédia romântica Menina dos olhos, de Kevin Smith. Em Guerra dos mundos, de Steven Spielberg, o mundo como nós o conhecemos precisa chegar perto do fim para que Tom Cruise se redima como pai. Catarse semelhante ocorre em Armageddon, outro filme catástrofe que se mira nas omissões de um pai (Bruce Willis) para com sua filha (Liv Tyler) e remete a seu sacrifício final para que ela possa viver um grande amor.
Em A prova, o relacionamento entre pai e filha é minado pela genialidade dele. Novamente, a chance para redenção se apresenta. A redenção também pode vir em uma figura paterna alternativa. É o que ocorre em O profissional, em que uma ainda criança Natalie Portman é “adotada” pelo matador profissional vivido por Jean Reno.

Tim Robbins, Tom Cruise e Dakota Fanning em cena de Guerra dos mundos: no limite, um pai melhor


Jean Reno mostra como se faz em O profissional: pai postiço que é pai de verdade

Curiosamente todos esses filmes captam o mesmo estado de espírito e a mesma fase do complexo de Electra. O que difere são suas resoluções. O novo filme de Sofia Coppola (Somewhere), que estréia no próximo festival de Veneza, vem agregar valor a essa seara. Na trama, um ator famoso (vivido pelo nem tão famoso Stephen Dorff) tem sua rotina desestabilizada com a chegada de sua filha de 11 anos (vivida pela irmã caçula de Dakota Fanning, Elle).
Espera-se da cineasta que ela enriqueça essa paleta de cores com seu cinema sensível e inclinado a perspectiva feminina. De qualquer jeito, não será fácil superar a trágica e poderosa trajetória de Mirão e Alice.

A outra Fanning: a irmã mais nova de Dakota é a nova leading lady de Sofia Coppola em Somewhere


Se você gostou deste artigo e quiser repercuti-lo sob esse e outros pontos de vista, Claquete recomenda:

Armageddon, de Michael Bay (EUA 1998)
A Prova, de John Madden (The proof, EUA 2005)
Menina dos olhos, de Kevin Smith (Jersey girl, EUA 2004)
As confissões de Schmidt, de Alexander Payne (About Schmidt, EUA 2002)
O profissional, de Lu Besson (Leon, FRA 1994)
Caminho sem volta, de James Gray (The yards, EUA 2000)

domingo, 25 de julho de 2010

Contexto

Quando fazer rir da política é um bom (e inteligente) negócio

A política brasileira pode ser considerada um excelente celeiro para o humor nem sempre sofisticado do brasileiro. Figuras como Lula, Severino Cavalcanti, José Sarney, Roberto Jefferson, Collor, Paulo Maluf e Fernando Henrique Cardoso são alguns componentes de uma fauna tão multifacetada quanto dotada, em si, de poderosos elementos cômicos.
O cinema se habituou a reverberar essa curiosidade cultural. A ideia de político bonachão, cafajeste, popularesco, embora esteja intrinsecamente relacionada a nossa cultura, não é patrimônio brasileiro. Filmes estrangeiros já se valeram de figuras históricas, tanto em filmes biográficos quanto em tramas ficcionais, para explicar o imponderável através de um viés humoristíco.
Dentro desse contexto, o filme O bem amado, baseado no texto de Dias Gomes, vem engrossar as fileiras de produções como Chá com Mussolini (1999), de Franco Zeffirelli, Jogos do poder (2007), de Mike Nichols, Segredos do poder (1998), de Mike Nichols, O grande ditador (1940), de Charles Chaplin, Mera coincidência (1997), de Barry Levinson, A comédia do poder (2006), de François Ozon, entre tantos outros.

No calor da segunda guerra mundial, Charles Chaplin ousou ridicularizar a figura de Hitler em O grande ditador
Em comum, essas fitas têm a proposta de fazer rir no mesmo compasso que pretendem fazer o espectador pensar. As abordagens são sempre inspiradas e, quando não reproduzem fielmente, se esmeram grandemente em figuras e eventos reais.
Em O Bem amado, Odorico Paraguaçu, personagem vivido com gosto por Marco Nanini, é o prefeito da fictícia cidade de Sucupira no litoral baiano. Corrupto, cheio de malandragens e traquinagens, é dono de uma lábia e carisma que estão acima de qualquer suspeita. O fluxo de O bem amado, dirigido com propriedade por Guel Arraes, não traz nada de novo em relação àquelas máximas familiares a quem entende de política ou a quem entende de humor. O mérito está justamente na ambientação, na construção do comentário e na introdução de aspectos novos, trabalhando com a memória do espectador, a um uma estrutura narrativa manjada.
Independentemente das virtudes e das falhas da fita, é louvável que se objetive aproximar o público de um tema tão importante como a política. Se fizer com que o público de divirta, melhor ainda.
Marco Nanini como Odorico em cena de O bem amado: o ator já havia encarnado o personagem no teatro

Se você gostou deste artigo e do tema debatido, Claquete recomenda:

Jogos do poder, de Mike Nichols (EUA 2007)
Mera coincidência, de Barry Levinson (EUA 1997)
O grande ditador, de Charles Chaplin (EUA 1940)
O candidato aloprado, de Barry Levinson (EUA 2006)

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Contexto

O herói dentro de cada um

Nos últimos dez anos o cinema americano foi prolífero em apresentar heróis nas telas de cinema. Adaptações de HQs constituem o principal artífice dessa aparentemente inesgotável fonte de fazer dinheiro. Mas os heróis vêm também dos videogames, da literatura infanto-juvenil e, acreditem, até de brinquedos e parques de diversões.
Além de fazer dinheiro, e trazerem efeitos especiais de ponta, os filmes de superheróis trazem em seu eixo central uma questão para lá de interessante. A força interior de cada um de nós. No recente Kick Ass-quebrando tudo, o adolescente David Lizewski (Aaron Johnson) tem uma curiosa epifania. Por que nunca ninguém tentou ser super-herói antes? À parte a verborragia pop que acresce muito ao divertido filme de Mathew Vaughn, é uma indagação filosófica interessante. Ao que o próprio David em dado momento do filme subverte a famosa frase de um famoso herói dos quadrinhos e do cinema. “Sem grandes poderes, não há nenhuma responsabilidade. Exceto que isso não é verdade”. Pode parecer uma simplificação ridícula, mas, na verdade, é uma constatação da responsabilidade que cada um de nós temos para com o próximo e um mundo melhor. David é um adolescente, que em um surto de carência e ingenuidade, tenta fazer a diferença de uma maneira ufanista. Kick ass se vale da fantasia, e de uma fantasia regada a humor negro, para debater anseios e aflições bem humanas.

David trajado de Kick ass: Quem disse que para ser herói é preciso ter super poder?



Cartaz de Homem aranha 2: A trilogia do aranha é referência em potencialidade dramática nos filmes de superheróis

Outros filmes se valem do mesmo ofício. Homem aranha (o referencial explicito de Kick ass), por exemplo, nada mais é do que um drama sobre a adolescência de um rapaz tímido que perdeu os pais cedo e que não consegue se expressar de maneira satisfatória. Em O senhor dos anéis, a honra é um conceito mais forte do que podemos aferir em nosso cotidiano. A obstinação de Frodo, Sam, Aragorn, Legolas e os demais membros da irmandade do anel é um comentário sobre a nossa obstinação perdida. Harry Potter é outro que, dentro de uma faixa de público específica, reproduz celeumas humanas em um universo fantástico. O que Harry, Rony e Hermione querem é viver intensamente a fase da vida em que estão. Voldermont e o quadribol são apenas variantes.


Frodo é um símbolo de coragem e determinação: Um hobbit "qualquer" capaz de feitos extraordinários


De todos esses, Homem de ferro talvez seja o que melhor se alinhe ao aceitável. Um magnata dono de um pool de empresas que fornece material militar ao governo americano, após uma experiência de quase morte, resolve agir conforme sua consciência e salvar o mundo. Homem de ferro não disfarça nem advoga seu personagem principal. Não foi porque Tony Stark subitamente resolveu agir em prol da humanidade que ele deixou de ser um sujeito egoísta, egocêntrico, vaidoso e competitivo.
A moral é: Ser herói é ser humano. Todos nós carregamos nossas neuras, vícios e fantasias. Nem sempre nos abrigarmos nelas será a melhor coisa que faremos, mas é inegável que essa fase nos levará a algum lugar. A alguma realização. Essa é a moral alcançada em Kick ass e é essa moral que ajuda a fazer deste filme, uma antologia sobre os heróis nos cinemas e os humanos que vão prestigiá-los na sala escura.


Tony Stark no melhor jeito Tony Stark de ser: ele é herói sim, mas não se transformou como ser humano. A mudança, se houver, será, tal como na vida real, gradual

Se você gostou do tema abordado na seção deste mês e quiser repercuti-lo sob essa e outras perspectivas, Claquete recomenda:

- Watchmen (EUA 2009), de Zack Snyder

- Trilogia Homem aranha (EUA 2002, 2004, 2007), de Sam Raimi

- Batman begins (EUA 2005), de Christopher Nolan

- Trilogia O senhor dos anéis (EUA 2001, 2002, 2003), de Peter Jackson

- Homem de ferro (EUA 2008), de Jon Favreau

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Contexto

Quando o desejo fala mais alto...

Durante os anos 80, o cinema americano foi pródigo em realizar filmes que primavam pela sensualidade. Alguns desses filmes traziam, em seu cerne, uma interessante discussão acerca da fidelidade. O recente O preço da traição (Chloe, EUA/FRA/CAN 2009) recupera essa característica de maneira salutar. No filme de Atom Egoyan, remake de um ótimo filme francês chamado Nathalie X (já resenhado na seção Movie Pass aqui de Claquete), presenciamos um casal em crise afetiva. O sexo, ou a falta de, é – como não poderia deixar de ser – um elemento catalisador. Catherine (Julianne Moore) é uma ginecologista bem sucedida e pertencente a uma classe social privilegiada, mas que enfrenta problemas de comunicação em seu seio familiar. David (Liam Neeson), seu marido, é um professor que não faz questão de esconder um descontentamento aparentemente injustificável. O fato de David flertar, quase que instintivamente, com toda a mulher que lhe apareça à frente, aumenta a insegurança que Catherine já sente enquanto mulher e objeto de desejo de seu marido. Por um conjunto de circunstâncias, ela chega a Chloe (Amanda Seyfried), garota de programa que conheceu acidentalmente, com uma proposta inusitada. Ela gostaria que Chloe abordasse seu marido e lhe relatasse a reação dele. Aí há uma diferença cabal em relação ao original. Em Nathalie X, a mulher que suspeita de traição, vivida pela também ótima atriz Fanny Ardant contrata a prostituta para seduzir seu marido. Ou seja, na fita americana, o desejo, e sua cota do imponderável, são mais proeminentes do que na fita francesa.


O pecado é mais gostoso: A maçã proibida é a mais apetitosa...



Importante ressaltar que Catherine é uma mulher reprimida e ao se jogar de cabeça no affair de seu marido, e pior, ao bancá-lo, toda a sua libido irá explodir. Chloe, maravilhosamente interpretada por Amanda Seyfried, interpreta, conforme suas necessidades lhe impelem, a atitude de Catherine. E sua leitura não está de todo errada. É essa eclosão de desejo, culpa e ressentimento que fazem O preço da traição ser um filme notável em seu escopo. Egoyan realiza uma narrativa envolvente que, a despeito das soluções dramáticas aventadas, se vale copiosamente de uma sensualidade feroz e da beleza de suas protagonistas (muito bem fotografadas). A direção de arte clean e austera também ajuda na construção desse climão erótico.

O desejo pode pregar peças...


Outros filmes também se apropriaram desse subterfúgio (a sensualidade e a sexualidade de seus personagens) para discutir a fidelidade. Alguns com mais êxito comercial, outros com mais sucesso critico. De uma forma ou de outra, todos propuseram histórias palatáveis.
Em Infidelidade, Diane Lane faz uma mulher muito bem casada com o personagem de Richard Gere que cede a tentação de um homem mais jovem (personagem de Olivier Martinez). Consumida pela culpa? Negligenciada pelo marido? Entediada? O filme de Adrian Lyne põe a lupa na questão. O que, além do desejo puro e simples, pode motivar um caso extraconjugal? O mesmo Adrian Lyne realizou o filme que talvez seja a bíblia para esse subgênero. Atração fatal, como entrega o nome, mostra o perigo de se ter relações extraconjugais. O filme, o mais moralista do subgênero, é também o mais bem sucedido. Na fita, indicada ao Oscar de melhor filme, Michael Douglas (ator que é assumidamente viciado em sexo e que alguns anos depois firmaria um contrato pré-nupcial que garante uma fortuna a Catherine Zeta Jones, caso a traia) vive um homem que trai sua mulher simplesmente por que lhe foi dada a chance.
Recentemente, a trama central de Atração fatal foi retomada em Obsessiva. No filme estrelado por Beyoncé Knowles, existe apenas um aprofundamento do suspense e o desenho de Beyoncé (a mulher traída) como uma espécie de heroína.



Sexy chic: Diane Lane vive uma mulher quarentona que cede a um caso extraconjugal em Infidelidade


O cineasta francês Claude Chabrol soube rir de uma situação muito comum em Uma garota dividida em dois. Uma mulher casada com um homem rico e mais velho apaixona-se por um homem mais jovem. O filme alia humor e tensão como poucos que abordam a infidelidade. Pintar ou fazer amor é outro bom filme francês que gira em torno de fidelidade, embora o escopo seja muito maior. Dois casais se enamoram em uma espiral de desejo em que fidelidade é um conceito um tanto deslocado.
O grande Stanley Kubrick também enquadrou o desejo, entre outras coisas, em seu derradeiro filme. De olhos bem fechados coloca um casal da vida real (Tom Cruise e Nicole Kidman eram casados à época das filmagens e do lançamento do filme) às voltas com libidos incontroláveis e traições.
De uma forma ou de outra, com posicionamentos mais conservadores ou mais liberais, o desejo é sempre muito bem capturado pelo cinema. O preço da traição é o mais novo membro dessa seleta, e sensual, galeria.

Desejamos juntos, logo, traímos juntos: Em Pintar ou fazer amor, todo mundo é de todo mundo


Metalinguagem do desejo: Em De olhos bem fechados, Cruise e Kidman servem ao voyerismo da platéia

Se você gostou deste tema e do filme que a coluna abordou, Claquete recomenda os seguintes filmes:

Infidelidade, de Adrian Lyne (EUA, 2002)

Assédio sexual, de Roger Donaldson (EUA 1994)

De olhos bem fechados, de Stanley Kubrick (EUA 1999)

Nathalie X, de Anne Fontaine (França, 2003)

Pintar ou fazer amor, de Arnauld e Jean Marie Larrieu (França, 2006)

Atração fatal, de Adrian Lyne (EUA, 1987)

Jogo de adultos, de Alan J. Pakula (EUA, 1992)