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sexta-feira, 19 de julho de 2013

Claquete 4 anos - Dez filmes mais significativos dos últimos quatro anos

Não se trata dos melhores filmes produzidos durante a existência do blog. Como o período de quatro anos é relativamente curto para se dimensionar uma lista como essa, e o blog publicou em todos os anos os melhores filmes de cada ano, seria redundante tornar a fazê-lo ainda que de forma englobada. A proposta aqui é lançar um olhar plural e complexo sobre a atividade cinematográfica nesses quatro anos. Os filmes que apontaram os caminhos que o cinema está seguindo, aqueles cujas narrativas reverberam e influenciam o cinema moderno, o maior sucesso de público da história, o maior sucesso de público do cinema nacional, o cinema como fórum e faculdade da arte e por aí vai. A ideia desse top 10 é apresentar os dez filmes mais significativos, não essencialmente melhores, de 2009 para cá. Um brinde à existência de Claquete, que chamou a atenção e contextualizou seu público sobre esses filmes e as reminiscências deles, à época de seus lançamentos.

10 – Avatar (EUA 2009), de James Cameron
É inegável que o épico de aventura de James Cameron, indicado a nove Oscars, engatilhou o 3D em sua potência máxima no cinema. Seria essa a grande importância do filme, se Avatar não tivesse quebrado todos os recordes possíveis e imagináveis de bilheteria com U$ 2, 7 bilhões em faturamento. Não obstante, a fita de Cameron é uma aventura de encher os olhos. Seja pela tecnologia de ponta que viabilizou o universo de Pandora, seja pela narrativa bem amarrada pelo diretor.

9 – Toy story 3 (EUA 2010), de Lee Unkrich
Três das melhores bilheterias de 2013 são animações. Essa estatística não deve mudar até o fim do ano. Ela ocorre em parte pelo maior volume de produções, mas principalmente pela qualidade delas. As animações se segmentaram, mas em essência se ratificaram como um gênero familiar – o que é raro na Hollywood atual. As receitas avantajadas calcadas em qualidade tem como símbolo o fecho de uma das melhores trilogias do cinema. Toy Story 3 é sintomático do sucesso da Pixar enquanto estúdio e seara criativa, com prêmios da crítica e da indústria e mais de U$ 1 bilhão em bilheteria.

8 – Distrito 9 (EUA/AFS 2009), de Neill Blomkamp
Não é nenhum exagero apontar Distrito 9 como a ficção científica mais eloquente e politicamente assertiva dos últimos 30 anos. Talvez desde Blade Runner, o caçador de androides (1982) nossa humanidade não tenha sido tão bem abordada pelo gênero. A discussão sobre desigualdade social é um plus desse cativante filme de estreia do sul africano Blomkamp na direção. Com produção de Peter Jackson, Distrito 9 foi uma surpresa em 2009 e sua resiliência garante o interesse pela continuidade da carreira do diretor.

Cena de Distrito 9: a ficção científica com instrumento de compreensão de nossas imperfeições e fragilidades

7 – A origem (EUA 2010), de Christopher Nolan
Nesses quatro anos não houve filme tão original ou provocativo quanto esse tento cinematográfico de Christopher Nolan. Apenas essa razão já lhe garantiria lugar nessa lista, mas A origem é um marco, também, por ser uma produção de grande orçamento estritamente original bem sucedida em uma época de pane criativa em Hollywood em que os grandes orçamentos vão todos para adaptações e refilmagens nem sempre desejáveis.

6 – Tropa de elite 2 – o inimigo agora é outro (Brasil 2010), de José Padilha
Esse talvez seja o filme mais fraco, irregular e desonesto intelectualmente da lista. Talvez. Mas é inegável que o maior sucesso de público da história do cinema brasileiro é, também, um brilhante exercício de gênero com um desenvolvimento complexo e bem estruturado de personagens e uma técnica de equivalência hollywoodiana. Por essa grandeza bem desenhada, do tipo “cinema é a nossa praia”, Tropa de elite 2 não poderia deixar de figurar nessa lista.

5 – Shame (ING 2011), de Steve McQueen
Desprover a nudez de erotismo é um exercício de estilo que apenas artistas plásticos de alto gabarito são capazes de configurar. Fazê-lo em um filme que discute o sexo só comprova o talento do artista plástico e cineasta Steve McQueen para canalizar no cinema estética e narrativa em direcionamentos antagônicos, mas complementares. Shame é um filme todo pensado para causar impacto. Sensorial, emotivo e intelectual. Um tipo de cinema que não se vê por aí.

Desejo e perdição: Shame é um filme que aliou vigor estético a despudor narrativo como poucos na existência de Claquete

4- César deve morrer (ITA 2012), de Paolo Taviani e Vittorio Taviani
Os limites e o alcance da arte são encorpados nesse vitorioso filme italiano que acompanha presidiários ensaiando e encenando uma peça shakespeariana. As linhas que separam documentário e ficção se perdem em um neologismo cinematográfico poderoso e cheio de sentido. A gramática do cinema é relativizada e renovada por realizadores dispostos a pensar fora da caixa.

3– Cópia fiel (FRA/ITA/BEL 2010), de Abbas Kiarostami
Outro filme que discute os limites entre arte e cópia. Representação e autenticidade. Kiatostami expande seu comentário do mundo da arte ao casamento em um filme de linguagem moderna e obstinação ímpar. O próprio filme se apresenta ao espectador como um produto a mercê de sua interpretação. Estamos diante de uma obra autêntica ou de uma simulação bem engendrada?

2– Bastardos inglórios (FRA/EUA/ALE 2009), de Quentin Tarantino
O auge de um autor sempre merece destaque. No cinema americano, Quentin Tarantino – encontrando par em Terrence Malick – é o grande polarizador em matéria de cinema autoral. Bastardos inglórios, para todos os efeitos sua obra-prima, é uma apólice de seguro de Tarantino para a posteridade. O filme que ousou reescrever um dos capítulos mais tristes da humanidade com irreverência, catarse, violência e legendas. Muitas legendas para o público americano.

1-A rede social (EUA 2010), de David Fincher
É o filme da geração Y, dizem muitos por aí. É verdade. Mas A rede social é muito mais. Um dos roteiros mais brilhantes jamais feitos é um filme sobre nosso tempo, tanto em sua organização narrativa – de diálogos em velocidade da luz e cortes multifacetados – como em sua narrativa épico-existencial sobre jovens erguendo impérios digitais e desvinculando-se de laços vívidos reais.  
Não à toa comparado a Cidadão Kane, A rede social é um filme que cresce de tamanho a cada revisão.

O maior de seu tempo: A rede social é o filme testamento de uma geração e de uma linguagem cinematográfica moderna 

quarta-feira, 6 de março de 2013

Spotlight on - O texto do ator

Lars Von Trier orienta Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg no set de AntiCristo: atores que encontram na fisicalidade a força de suas performances


O Oscar deste ano foi eloquente em destacar performances que encontraram na fisicalidade sua matéria prima. Joaquin Phoenix em O mestre é um exemplo perfeito. É por meio de seu corpo, frequentemente turvo, de sua postura rebelde, sua aparência mal adornada e seu gestual agonizante que muito da vulnerabilidade de seu personagem, um tipo passivo agressivo, se revela ao expectador. No filme de Paul Thomas Anderson, Phoenix vive um homem com uma mente frágil. Não é certo se essa condição é consequência de sua atuação na segunda guerra mundial ou uma herança genética – já que sua mãe é diagnosticada como louca. Phoenix investe na abordagem física em uma composição que privilegia seu corpo como seu texto. É através dele que sua atuação fala.
Ainda que com aspectos distintos, é mais ou menos o mesmo que se verifica no Lincoln de Daniel Day Lewis. Ator conhecido por seu método peculiar de atuar, Day Lewis investe em uma caracterização consistente com a memória que se tem de Lincoln. O ator estudou desde o sotaque da região em que Lincoln cresceu até a postura que ele mantinha em reuniões de gabinete. Como são poucos os registros formais de Lincoln e sua época, Day Lewis tinha significativo espaço para criar. Sua autoridade como intérprete, aliada à conveniência da maquiagem, favorecem uma composição que encontrou críticas elogiosas. O New York Times saiu-se com a seguinte: “Daniel Day Lewis é mais Lincoln do que Lincoln”. Filmado por Spielberg sempre de um ângulo inferior, Day Lewis – que já é alto – surge imponente. Mas escolhe uma postura curva – talvez para sinalizar o peso sobre as costas do homem – como um recurso tão eloquente quanto seu olhar penetrante.
Bradley Cooper, por O lado bom da vida, apresenta a atuação mais minimalista entre as indicadas. Mas não deixa de conter elementos textuais interessantes. Sempre inquieto, como se seu corpo emitisse eletricidade, providencialmente menos bonito do que geralmente aparece, Cooper investe em uma composição que congrega a fragilidade do seu personagem – um bipolar que ainda não sabe exatamente como reagir a esse diagnóstico – e sua indevassável vontade de viver a felicidade. Sua companheira de cena, Jennifer Lawrence é ainda mais feliz no uso que faz de seu corpo. Não só pelo olhar de David O. Russell ser generoso com sua sensualidade incontida, mas por saber se insinuar para a câmera com um misto de angústia e indiferença. As variações de humor de sua personagem são sempre muito bem expressas por seu gestual expansivo e seus olhares miméticos. Emmanuelle Riva, que também concorreu ao Oscar, tem no corpo o eixo central de sua atuação. Vivendo uma idosa vítima de um AVC com os movimentos do corpo cada vez mais restritos, Riva encontra expressividade na contenção e faz de seu corpo o vaso para uma atuação basicamente artesanal.

Hugh Jackman em cena de Os miseráveis: seu corpo é um elemento tão importante para sua atuação quanto a sua voz...

Daniel Day Lewis é um ator que valoriza a expressão corporal na composição de suas atuações

Em outra frente, Hugh Jackman e Anne Hathaway em Os miseráveis submeteram seus corpos a intervenções da realização que modificam por completo a percepção de seus trabalhos. Jackman, por exemplo, teve de emagrecer para depois engordar para o papel, raspar a cabeça e cantar a plenos pulmões enquanto fazia força. Hathaway também teve de perder peso e raspar a cabeça – algo sempre mais dramático para uma mulher. A opção de Hooper por colar a câmera no rosto de seus intérpretes faz com que o corpo do ator seja também texto do diretor e não mais apenas do ator. Há cineastas que gostam de falar por meio do corpo de seus atores. Darren Aronosfky recuperou seu status no cinema americano ao explorar cada poro de Mickey Rourke em O lutador, filme sobre um ex-lutador de wrestling longe de seus dias de glória. A experiência se mostrou frutífera. Em seu filme seguinte, Cisne negro, ele explorou a fragilidade física da bailarina vivida por Natalie Portman. Nunca uma performance no cinema conectou tanto o físico no emocional.
Steve McQueen tem no corpo de Michael Fassbender a sua pena. Em filmes como Hunger e Shame ele expõe o corpo de Fassbender como recurso narrativo ímpar na construção que faz dos personagens (um homem em greve de fome, no primeiro, e um viciado em sexo, no segundo) e de seus dramas. A diferença entre os trabalhos verificados no Oscar deste ano e esses dirigidos por Hooper, Aronofsky e McQueen é que nos últimos há uma apropriação pelos diretores dos corpos dos atores enquanto que nos primeiros são os atores que usam os próprios corpos como discurso. É uma equação interessante. Verifica-se, portanto, que o corpo do ator pode servir a dois tipos de discurso distintos em um mesmo filme. Sem a presença tergiversada de Phoenix em O mestre, Paul Thomas Anderson jamais conseguiria dar conta da complexidade de suas proposições no filme e, ao mesmo tempo, em suas sutilezas, Phoenix reafirma-se como intérprete imaginativo e cria um personagem que desperta curiosidade e não necessariamente empatia. Se causasse empatia, Phoenix teria falhado como ator. Em Shame, por exemplo, a preocupação de Fassbender é inversa. Enquanto deixa o olhar de McQueen devassar seu corpo, o ator se preocupa em preencher emocionalmente um personagem vago na concepção estética da realização. Confirmando a bidimensionalidade do corpo do ator enquanto texto.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Retrospectiva 2012 - Os dez melhores filmes do ano


Foi um bom ano. O balanço final da temporada 2012 é muito positivo. No entanto, dos dez filmes que integram o TOP 10 de Claquete, seis são lançamentos originais de 2011 que só chegaram em telas brasileiras este ano. A predominância das produções de 2011 na lista, no entanto, é mais sintoma das estratégias dos estúdios de concentrarem os chamados lançamentos de Oscar no início do ano seguinte. Outro aspecto que chama a atenção é a ausência de blockbusters no Top 10. Há, na verdade, um. Mas é um blockbuster que traz consigo o elemento surpresa. Com os aguardados lançamentos de Batman e 007, não se poderia esperar que uma comédia com um ursinho falante conseguisse roubar destes filmes uma vaga no top 10. Em parte pela decepção de muitos lançamentos aguardados e em parte por uma safra adulta de filmes independentes fortes e pulsantes, o top 10 dos melhores filmes de 2012 é bastante diverso e multifacetado. Há uma produção argentina, uma francesa, uma iraniana e duas inglesas. Quatro produções americanas e outra coproduzida com o Canadá. Diretores consagrados como David Fincher e David Cronenberg marcam presença na lista, mas dividem espaço com nomes ainda em consolidação como Steve McQueen, Michel Hazanavicius e Nicholas Jarecki.
Filmes que apostaram em uma estética ousada e em uma renovação da linguagem cinematográfica como A separação, Precisamos falar sobre o Kevin e Shame marcam presença na lista. Filmes bem realizados e com propostas revisionistas sobre suas referências, como O artista e Um método perigoso, também se destacam.
Sem mais delongas, os dez melhores filmes lançados comercialmente no Brasil na avaliação de Claquete:

10 – A separação (Jodaeiye Nader az Simin, Irã 2011), de Asgar Farhadi

A inteligente e impactante fita de Asghar Farhadi tem o mérito de ser, ao mesmo tempo, universal sobre conflitos essencialmente humanos e particular da realidade iraniana. Não é uma equação fácil, mas que Farhadi com os préstimos de seu excelente par de protagonistas (Peyman Maadi e Leila Hatami) alcança com um trabalho pulsante, em suas formulações narrativas, e angustiante, em suas resoluções dramáticas. Um testamento da força do cinema de ideias.



 9 – O artista (The artist, EUA/FRA 2011), de Michel Hazanavicius
Mudo, em preto e branco e sobre o cinema mudo e em preto e branco. O artista se esmera na nostalgia e na metalinguagem para proporcionar uma das grandes experiências cinematográficas do ano. Um filme que nasceu para ser visto no cinema por uma geração que não viveu na época retratada pelo filme de Michel Hazanavicius. Encantador e emocionante, o maior mérito de O artista é desarmar expectativas e cativar com sua genuína presença de espírito.



 8 – A negociação (Arbitrage, EUA 2012), de Nicholas Jarecki
Wall Street continua rendendo grandes dividendos cinematográficos. Mas A negociação é mais do que uma investigação da vida de ricos e poderosos. É um estudo algo vertiginoso de um homem que não sabe que está no limite até ultrapassá-lo. Richard Gere, vivendo um magnata das finanças em queda livre rumo à desgraça, tem o melhor momento de sua longeva carreira neste filme que merece ser descoberto.



7 – Elefante branco (Elefante blanco, ARG/ESP 2012), de Pablo Trapero
O cinema argentino parece favorecido por uma espécie de cota no TOP 10 do ano de Claquete. Trata-se apenas de uma impressão. O vigor do cinema portenho se confirma perene a cada ano. Pablo Trapero, um dos expoentes dessa cinematografia, volta a provocar palpitações com um drama tenso e poético sobre a violência nas favelas do país e, ainda, sobre a crise da fé. Da instituição igreja e também do homem que a move. 


6 – Procura-se um amigo para o fim do mundo (Seeking a friend for the ende of the world, EUA 2012), de Lorene Scafaria
A melancolia não seria a matéria prima ideal para uma comédia romântica. Mas esse precioso filme da diretora Lorene Scafaria não é uma comédia convencional. Com o apocalipse como pano de fundo, Procura-se um amigo para o fim do mundo fala sobre o poder transformador do amor. E o faz de maneira cativante e sensível. Um filme agridoce que faz do final triste, feliz e que nos desperta o desejo de amar, amar, amar!


5 – Um método perigoso (A dangerous method, EUA/CAN 2011), de David Cronenberg
Um Cronenberg verborrágico que mergulha nas entranhas da psicanálise, chancela Freud e se maravilha com a humanidade de Jung. O filme acompanha a formação de uma triangulação intelectual que se mostrou fundamental para o estabelecimento da psicologia moderna e o faz de maneira inteligente, despudorada e muito sofisticada.



4 – Ted (EUA 2012), de Seth MacFarlane
A comédia do ano é também um dos filmes mais originais e inteligentes produzidos no mainstream hollywoodiano nos últimos tempos. Mas de tão divertido, poucos notam essa condição. O filme do ursinho maconheiro e desbocado é uma crítica atroz a seu próprio público em um dos exercícios de metalinguagem mais bem feitos de todo o sempre e que demonstra que Seth MacFarlane, mais do que um legítimo entertainer, é alguém que tem algo dizer e sabe fazê-lo de maneira criativa.



3 – Precisamos falar sobre o Kevin (We need to talk about Kevin, ING 2011), de Lynne Ramsay
Com uma narrativa engenhosa e algo inquietante, Ramsay conduz uma trama de vertigem emocional e não poupa seu público das dúvidas. Sem respostas fáceis, esse drama sobre a relação de uma mãe e seu filho, que virá a ser o responsável por uma chacina em uma escola, se ergue sobre as vultosas sombras e incertezas da existência humana. Investigativo, doloroso, contínuo e sublime. Precisamos falar sobre o Kevin é daqueles filmes que se perpetuam em nossa memória. Muito pelo tema ruidoso, mas principalmente pela excelência com que é tratado pela obra.



2- Os homens que não amavam as mulheres (Millennium – The girl with the dragon tattoo EUA 2011), de David Fincher
David Fincher fez um trabalho tão minucioso e grave que o frio sueco é palpável para o espectador. Mas esse não é o maior mérito da versão americana do best seller que abre a trilogia Millennium. Fincher sublinha os conflitos dos personagens principais (Mikael e Lisbeth), e a complexa relação que eles desenvolvem entre si, e faz destes o carro chefe da trama e não o instigante caso que move a narrativa. Um movimento que acresce profundidade ao filme que, independentemente disso, se configura também em entretenimento inteligente e refinado.


1- Shame (ING 2011), de Steve McQueen
Eis um filme que agrega ousadia estética à relevância dramática. Renunciando qualquer academicismo e usando o corpo de Michael Fassbender como um discurso artesanal, valendo-se muito de sua experiência como artista plástico, McQueen realiza um filme impactante sobre a superficialidade das relações interpessoais nos tempos modernos. Do maniqueísmo de nossas ações ao egoísmo de nossas reações, Shame concentra sua munição no mundo de Brandon, um homem viciado em sexo que no curso do filme toma ciência da gravidade de seu quadro.
Uma obra demolidora, pulsante e artisticamente atraente destinada ao culto, mas também uma radiografia inequívoca de nosso tempo.


terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Retrospectiva 2012 - Os dez personagens do ano


10 – David (Michael Fassbender) em Prometheus

O filme de Ridley Scott pode não ter sido a sensação que se anunciava, mas o humanóide vivido por Michael Fassbender com um fino gosto por clássicos do cinema é daqueles grandes achados da ficção científica. David é pura filosofia, mas é, também, um tratado pop em um filme que nunca alcança suas potencialidades.

9 – Raoul Silva (Javier Bardem) em 007 – Operação Skyfall

Sexualmente ambíguo, amoral em sua busca por vingança e tragicamente shakespeariano em suas motivações, Silva (oxalá o mais cativante de todos os vilões de 007) é um personagem que se redime na composição matadora do espanhol Javier Bardem. Outro ator talvez não desse um verniz tão bom a um vilão de tintas tão pasteurizadas.


8- The driver (Ryan Gosling e Mel Gibson) em Drive e Plano de fuga

Tão semelhantes e tão distintos. Ambos sem nome, mas com talentos impensáveis para autônomos na arte do crime mereciam a distinção irmanada nessa lista. Em Drive, Ryan Gosling faz um tipo silencioso em um noir que reverencia os filmes b americanos dos anos 70. Já em Plano de fuga, Gibson faz um tipo que parece saído da pena de Tarantino, um fanático pelo período que Drive homenageia. Ambos os personagens são guiados por um sentimento de honra algo torto que move a ação de seus respectivos filmes. Esses “estranhos sem nome” certamente deixaram suas marcas em 2012.


7- Dean Moriarty (Garrett Hedlund) em Na Estrada

Um verdadeiro vulcão de sexualidade. É Dean quem fervilha toda a razão de ser de Na estrada. Desde a inspiração que fez com que Sal Paradise escrevesse em primeiro lugar, até a torrente de paixões pelas quais os aventureiros atravessaram ao redor dos EUA. Na construção inspirada de Hedlund, o Dean das telas não é menos catalisador. É um poderoso ímã para os olhos e uma montanha de atração para todo o resto.


6- Chayenne (Sean Penn) em Aqui é o meu lugar

Um misto de Ozzy Osbourne e Gene Simmons da maneira mais lesada possível. Essa é uma descrição aproximada desse roqueiro perdido vivido com esplendor e graça por Sean Penn. Chayenne é daqueles enigmas que o cinema vez ou outra apresenta. Um personagem tão interessante quanto o próprio filme e que indubitavelmente, em alguns momentos, até mesmo prevalece em relação ao filme. Com ar infantil, Chayenne busca paz interior e também com seu passado no curso de Aqui é o meu lugar, mas o faz com maneirismos e peculiaridades que valem o ingresso.

5- Eric Packer (Robert Pattinson) em Cosmópolis

A personificação do capitalismo em toda a sua frieza, volatilidade e esplendor. Eric Packer é um dos personagens mais marcantes de 2012 e, na face desapaixonada de Robert Pattinson, cristalizou toda a falência (e o sucesso híbrido a ela) do sistema que ergueu o mundo como o conhecemos.  

4 - Lisbeth Salander (Rooney Mara) em Os homens que não amavam as mulheres

A personagem não é exatamente de 2012, nem mesmo originária do cinema. Mas a versão americana de Os homens que não amavam as mulheres brindou-nos logo em janeiro de 2012 com uma Lisbeth renovada, mais crua, violenta, emocional e ainda assim a Lisbeth que nos cativou nos livros. Uma personagem tão icônica melhorada não poderia deixar de marcar presença na lista.

3 - Kevin (Esra Miller e Jasper Newell) Precisamos falar sobre o Kevin

A realidade fez com que Kevin subisse na lista de Claquete. O personagem, fascinante em perspectivas mórbidas que tanto nos acentuam, já marcaria presença na lista. Eis outro personagem com raízes nos livros, mas que o massacre de Newton há poucas semanas fez com que aumentasse a necessidade de falarmos sobre ele. E muito!

2- Brandon (Michael Fassbender) em Shame

A melancolia da vida moderna cai como uma luva em um personagem que se esconde em seus vícios como tantos fazem nessa vida atribulada que vivemos. Brandon é prisioneiro de sua liberdade e padece diariamente deste mal que não conseguimos nem mesmo diagnosticar. Seu flagelo emocional se contrapõe a bem aventurança material de sua vida em um aspecto que torna o personagem paradoxalmente banal e único.

1- Ted (voz de Seth Macfarlane) em Ted

Ele “causou” até com um nobre deputado brasileiro. Maconheiro, boca suja, misógino, mas camarada pra caramba com seu dono – vivido por Mark Wahlberg – Ted foi o personagem de 2012. Hilário, o ursinho mais divertido desde os ursinhos carinhosos (mas não diga isso para ele), garantiu o topo nessa lista do mesmo jeito que foi garantindo suas promoções no trabalho que mantinha inacreditavelmente em um supermercado.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Retrospectiva 2012 - Dez sensações cinematográficas de 2012




10 – A Tóquio de Abbas Kiarostami
O olhar estrangeiro faz maravilhas por cenários urbanos pós-modernos como Tóquio. Desde que Sofia Coppola ajudou a tornar a capital japonesa cult no ocidente com Encontros e desencontros, a cidade não era capturada de maneira tão apaixonada e minimalista. Kiarostami fez de Tóquio um estado de espírito em Um alguém apaixonado.

9 – Descobrindo Georges Méliès
A grande atração de A invenção de Hugo Cabret, outra carta magna cinematográfica de Scorsese, é iluminar a figura de um dos pais do cinema. O mágico francês que ajudou a ficcionalizar a nascente sétima arte é o principal cerne do filme vencedor de cinco Oscars neste ano. O momento em que, com o préstimo do 3D, a obra de Méliès é reproduzida em frente a nossos olhos, a cinefilia ganha novo sentido.

8 – E agora?
Se houve um filme poderoso em 2012, esse filme foi A separação. A fita iraniana sufoca o espectador com inteligência e foco narrativo, em uma demonstração de força do cinema daquele país. A última cena, em que o casal que enfrenta um intrincado e muito complexo processo de divórcio, espera a decisão sobre com quem ficará a filha – sonegada para o público em vã objetividade – é das coisas mais emocionais e inquietantes surgidas no cinema em 2012.

7 – Fim do mundo... apaixonados!
Em uma época em que muito se fala sobre o fim do mundo, um filme teve a ousadia de especular sobre o comportamento humano em face do apocalipse. E enxergou no amor, a mais perene e sofisticada criação da humanidade, o remédio para a agonia provocada pela iminência do fim. A última cena de Procura-se um amigo para o fim do mundo é, nesse sentido, de uma força absurda. Os desamparados, em toda a sua existência, personagens de Keira Knightley e Steve Carell, enfim, encontraram paz um no outro.

6 – Vingadores reunidos
Por muito tempo se esperou para que o supergrupo da Marvel se reunisse no cinema. Em termos efetivos, no entanto, a espera começou ao fim de Homem de ferro (2008). Em 2012, eles finalmente estiveram juntos em Os vingadores e foi impossível não vibrar com o apelo cinematográfico dessa reunião de super-heróis ensejada por uma constelação de astros igualmente impressionante.

5 – O exame de próstata
Só em um filme de David Cronenberg para um procedimento tão indesejado e algo asséptico soar sexy. Em Cosmópolis, o personagem de Robert Pattinson, submetido a  um exame de próstata em sua limusine enquanto fala sobre pandemia econômica com uma assessora, experimenta elevações de tesão. Assim como sua assessora. Apenas Cronenberg poderia fazer a combinação economia e exame de próstata ser tão erótica...

4 – Precisamos falar sobre esse filme
Precisamos falar sobre o Kevin é um trator emocional na maneira como não facilita respostas às muitas perguntas que enseja no espectador. Depois de seu apoteótico, e ainda assim simplista, final, o filme de Lynne Ramsey joga o espectador contra a parede sufocado em seus questionamentos existenciais.

3 – Deixando o céu cair
As aberturas de 007 são sempre, por elas mesmas, acontecimentos. Mas Operação Skyfall certamente é um dos picos da série. Tanto o filme, como comprovam a bilheteria e as críticas, como a abertura. A música interpretada por Adele, "Let the sky fall", beira o sublime no adorno que faz da angústia do personagem e casa perfeitamente com a abertura mais filosófica da história de Bond.

2 – A dor de Brandon
Existe um momento no excepcional Shame, que é possível para o espectador dimensionar a angústia diária de Brandon, personagem viciado em sexo vivido por Michael Fassbender. É quando ele, no auge de uma noite em que se esgueirou em todo tipo de lugar em busca de sexo, ao atingir o orgasmo revela uma face de profunda tristeza. Um momento doce, doloroso e surpreendente que marcará a lembrança deste filme e, também, do ano de 2012.

1 - O silêncio e a música em O artista
Nos dias de hoje, dá para se dizer que poucos tiveram o privilégio de ver um filme mudo no cinema. O artista, em sua ode à gênese da indústria cinematográfica americana, recupera o valor dessa experiência. E o faz com o auxílio da música. Uma experiência saudosista com ar de inovação. O retorno ao simples ditou o sucesso do grande vencedor do Oscar 2012 e cativou plateias do mundo todo.

domingo, 25 de março de 2012

Insight

Vamos falar de sexo?


Com Shame em cartaz, parece irresistível falar sobre sexo no cinema. A fita de Steve McQueen demonstra o suplício cotidiano de um homem viciado em sexo, mas vai além: enfoca a solidão contemporânea e a volatilidade das relações interpessoais em tempos como os que vivemos. O tema da fita inglesa premiada no último festival de Veneza, ainda que não seja essencialmente uma novidade, é abordado de maneira corajosa, sem amarras e com forte propulsão sensorial. Mais do que qualquer coisa, McQueen parece interessado em envolver, de maneira provocativa, seu espectador no debate que propõe. Nesse sentido, Shame se diferencia de produções como o francês Para poucos, exibido recentemente nos cinemas paulistanos e que deve chegar em DVD ainda no primeiro semestre. Embora a fita francesa de Antony Cordier apresente uma discussão tão profunda a respeito do sexo e se valha da mesma liberdade praticada por McQueen com seu filme, não há o interesse de colocar o espectador no centro de debate. É, antes de qualquer coisa, uma opção estética e deve ser respeitada. Em Shame, as escolhas de McQueen se provam muito felizes.

Os quatro protagonistas de Para poucos, cuja crítica pode ser lida aqui: dois casais começam a se namorar e, aos poucos, vão descobrindo novos limites para relacionamentos e sexo


Closer-perto demais, por exemplo, recorre a uma lógica teatral para falar de sexo. Há muita verborragia e nenhum sexo em um filme que se permite ser cru, cruel, sensual, excitante, dramático, conflitante e, por vezes, áspero. Mike Nichols confia nos atores e em um texto absolutamente maravilhoso para construir o painel que objetiva. Até mesmo por sua procedência nas artes plásticas, é compreensível que McQueen avance em termos de linguagem na dialética narrativa que almeja com Shame. Sam Mendes, nesse contexto, foi mais conservador na linguagem, mas não no discurso em Beleza americana. O sexo é o principal catalisador para as mudanças que acometem os personagens. As frustrações dos personagens estão ligadas intimamente às respectivas vidas sexuais. O principal motor da radical mudança sofrida pelo protagonista tem a ver com o desejo latente pela amiga de sua filha. A hipocrisia é o alvo de Mendes e, para ele e para o roteirista Alan Ball, não há como falar de hipocrisia sem mirar no sexo.

Natalie Portman e Clive Owen em cena de Closer-perto demais, eleito o melhor filme da década passada pelo blog: um filme que aborda as sombras de toda e qualquer relação amorosa e não se vale de subterfúgios para fazê-lo


Personagens trágicos: Lester (Kevin Spacey), de Beleza americana, e Brandon (Michael Fassbender), de Shame, têm no sexo catalisadores de angústias e insatisfação; ainda que lidem com sexo de maneira totalmente diferente

Os quatro filmes citados constituem um espelho interessante sobre como o sexo é abordado tematicamente no cinema, e, também, sobre as possibilidades estéticas e discursivas disponíveis para tal.
Desde O último tango em Paris, um filme idealizado para falar da nossa relação com o sexo não era tão significativo. São 40 anos entre o filme protagonizado por Marlon Brando e Maria Schneider e Shame. E os 40 anos podem ser sentidos. Confrontando os dois filmes é possível percebê-los candidamente como retratos de suas respectivas eras. Não obstante, compartilham de algumas particularidades. Se o filme de Bertolucci foi proibido em muitos países, inclusive no Brasil, à época de seu lançamento, Shame foi banido nos EUA das salas de cinema da rede Cinemark que o considerou “pornográfico e abaixo do nível de qualidade exigido pela rede”. Coincidentemente, ou não, o filme não integra a programação da rede no Brasil.
O diretor Steve McQueen, que fez campanha assídua para que Michael Fassbender fosse indicado ao Oscar, provocou dizendo que a esnobada se deu em razão dos “americanos temerem o sexo”. Talvez seja verdade. Muito provavelmente é um exagero da parte de McQueen. De qualquer maneira, passa por Shame a mudança desse panorama. 

quinta-feira, 22 de março de 2012

Repercutindo Shame

Claquete, na expectativa de aprofundar a experiência cinematográfica que é Shame, propõe um debate acerca do filme em si e daquilo que ele oferece em matéria de cinema e reflexão



O título de Shame, filme que vem colecionando prêmios e polêmicas mundo afora, é resultado de uma pesquisa feita pelo diretor, roteirista e artista plástico Steve McQueen com viciados em sexo como parte da preparação para seu filme – cuja ideia havia sido apresentada a Michael Fassbender durante as filmagens de Hunger (2008).
Shame, como se poderia supor de um filme que se propõe a falar de sexo e a mostrá-lo despudoradamente no cinema, não é unanimidade. “Shame trafega entre a pornografia e a melancolia com requinte visual”, escreveu Luciano Ramos na crítica que fez do filme para o site Pipoca Moderna. “O filme não procura fazer julgamentos morais e nem fornecer explicações psicanalíticas. Apenas descreve o modo como isso (o vício em sexo) impede que o personagem seja minimamente feliz”, argumenta Ramos em seu texto. O crítico identificou referências a Michelangelo Antonioni na obra e a clássicos do cinema como O último tango em Paris e Noite vazia. Para Ramos, Shame é, antes de tudo, um exercício de estilo: “(McQueen) constrói determinadas cenas de sexo com extremo requinte de iluminação, câmara e montagem. Ou seja, aquilo que para o viciado é desonra e degradação, ao diretor serve de pretexto para exibir o seu virtuosismo audiovisual.”
O Crítico do Estado de São Paulo, Luiz Zanin não vê por essa óptica. O crítico opta por emoldurar o viés político de Shame. “Pela possibilidade de ter tudo, de adquirir tudo, do último gadget ao corpo de quem bem entende, tudo e todos, no fundo, perdem seu valor. Nessa relação histérica com a vida, quanto mais o personagem se satisfaz mais insatisfeito fica. É o grande paradoxo da sociedade desenvolvida, o seu grande vazio, afinal de contas. Shame é filme político, sim senhor”.
Percepção semelhante ostenta a versão nacional da revista Rolling Stone que, na crítica assinada por Érico Fuks, avaliza o olhar de Zanin: “Ao abrir mão do erotismo e intensificar o aspecto psicológico depressivo dos personagens, o diretor traz à luz outra questão. Enquanto o discurso das potências vende uma sociedade cada vez mais conectada, o filme destrói esse paradigma e traz um cenário de pessoas isoladas em sua apatia e suas obsessões. A retratação deste universo pós-moderno, em que o toca-discos de vinil convive ao lado de um notebook, reitera que, diante de uma sobrecarga de informações que incentivam o hedonismo, nunca o mundo passou por tanta falta de identidade”.

"O filme traz um cenário de pessoas isoladas em suas apatias e obsessões", escreveu a revista Rolling Stone brasileira


Mas há quem perceba em Shame um exercício desprovido de maior fundamentação crítica. A prestigiada crítica de cinema Isabela Boscov, da revista Veja, enxerga uma ode fetichista do cineasta a seu ator principal o que, segundo ela, daria nova dimensão até mesmo ao primeiro filme da dupla. A crítica do Jornal do Brasil não chega a ser tão reticente ao filme, mas o percebe sob os mesmo signos. “A montagem de Shame  usa os truques disponíveis no mercado para deixar o espectador microscópico diante das peripécias sexuais de seu protagonista. Estamos ali, parados à porta do quarto, enquanto ele faz sexo selvagem diante da janela, ou sentados à cabeceira da cama, vendo uma prostituta cara se despir ao seu comando. Estamos também nos cantos escuros de uma boate gay e nos balcões dos bares de Nova Iorque, mexendo com a mulher alheia e apanhando junto com o personagem.
O final exasperante deixa o protagonista de joelhos, só e perdido. É uma espécie de vingança do roteiro de Steve McQueen e Abi Morgan. Todo aquele gozo e toda aquela luxúria inevitavelmente cobrariam seu preço, um alto e impagável”.
Esse moralismo aludido pela crítica do Jornal do Brasil não é verificado pelo crítico Cássio Starling Carlos que refuta o argumento aventado pelo texto do Jornal do Brasil: “O tema da compulsão poderia gerar um enésimo tratado moralista sobre o consumismo, a perda do sentimento amoroso, a superficialidade dos vínculos ou a liberdade forçada como último efeito de uma revolução sexual que deu numa plenitude de experiências não raro associadas à sensação de vazio. São questões sugeridas desde o título (vergonha, em português) até o desenho da culpa e do sofrimento seguido pelo roteiro de McQueen e da dramaturga Abi Morgan. Porém, tal como em Hunger, o aprisionamento emerge como uma camada mais profunda do que a ideologia puritana, refletida nas interpretações psicológicas que Shame pode gerar”. O crítico da Folha continua: “Em vez de justificar ou condenar moralmente seu personagem, as escolhas plásticas de McQueen trazem à tona o sentimento de estar preso”.

A estética do sexo: as corajosas opções estéticas de McQueen para seu filme são justamente reconhecidas pela crítica em sua maioria


O crítico do O Globo, Rodrigo Fonseca, endossa a atenção de Cássio Starling Carlos à estética de Shame: “Cada flerte é fotografado por Sean Bobbitt com o máximo de detalhismo, para que o espectador capte cada gesto de tensão de Brandon em sua tentativa de não deixar que o instinto atropele seu autocontrole. Na escolha das cores, sempre esmaecidas, e na direção de arte que valoriza lençóis amassados e suados, McQueen traduz as contradições de seu Werther antirromântico”. Fonseca finaliza: “ a estetização do corpo parece ter alcançado a lapidação plena em Shame”.
Shame é capaz de provocar reações tão adversas e polarizantes quanto a matéria prima da qual se apropria. É, independentemente do juízo que se faça dele, um filme que torna impossível lhe ser indiferente.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Crítica - Shame

Orgasmo infeliz

Shame (Ingl 2011) apresenta dois personagens auto-destrutivos. Brandon (Michael Fassbender) é um executivo nova-iorquino bem sucedido e viciado em sexo. Sua rotina dedicada exclusivamente à luxúria carnal é interrompida pela chegada da irmã Sissy (Carey Mulligan) que apresenta um outro tipo de promiscuidade que está diretamente relacionada à dependência afetiva e emocional que ela sinaliza. O interessante é que esses personagens, ainda que tenham dificuldade em tomar ciência dos próprios demônios, diagnosticam o outro com alguma desenvoltura.
Steve McQueen realiza um filme com tantos predicados que diagnósticos parecem supérfluos em uma fita que busca, primeiro, salientar as possibilidades nauseantes do excesso de liberdade e, segundo, mas inerente a este contexto, tratar o sexo como vício e compulsão com um enfoque que jamais lhe foi dado.
Brandon é um homem bem sucedido, mas incapaz de se conectar. Aparentemente à vontade com essa condição pós-moderna, e a ambientação em Nova Iorque ganha sentido estupendo nesse aspecto, à medida que o filme avança Brandon vai ganhando consciência de que é prisioneiro de sua liberdade.
McQueen é muito feliz no registro que faz do vício de Brandon. O diretor “deserotiza” sua mise-en-scène e busca dar vivacidade à “fome” de Brandon ao flagrar pedaços de corpos e transformar as cenas de sexo em movimentos mecanizados e sem muita graça. A fotografia saturada, por vezes escura, também inibe alguma sensualidade que pudesse erigir.
Engana-se, porém, quem pensa que McQueen cede ao moralismo. Ele desvia-se teimosamente dele. A cena final, inclusive, demonstra isso. Depois de percorrer um doloroso pathos, Brandon é confrontado novamente com a “droga” que tanto lhe consome e somos negados a qualquer indicação de como reagirá após sua recém-adquirida consciência do mal que lhe acomete.

Brandon, vivido soberbamente por Michael Fassbender, em raro momento de vulnerabilidade em Shame


Antes desse final, testemunhamos Brandon ter uma “overdose”. Sua necessidade pelo orgasmo é tanta que ele até mesmo cede à experimentação homossexual em um clube gay, flerta perigosamente com a namorada de um valentão e faz sexo com duas profissionais. O momento em que atinge o gozo é, também, aquele em que se evidencia o suplício de sua existência. A face de Fassbender se transfigura na imagem da tristeza de tal forma que é impossível não se sentir atordoado com tamanha angústia.
Shame é um filme que depende muito de seus atores. Como se constrói sobre aquilo que eles podem sugerir, através de sentimentos retidos, e mostrar, através de corpos expostos, a força do filme reside na capacidade de seus protagonistas em articular personagens tão desarticulados.
Desse ponto de vista, a nudez de Fassbander, ator que se permite ser contemplado até mesmo urinando, é providencial para o sentido que Shame objetiva construir. O mesmo pode se dizer da primeira vez que Carey Mulligan surge em cena, nua. Era necessário para pavimentar a natureza da relação conturbada e de intimidade fragmentada entre Brandon e sua irmã.
McQueen é hábil ao expor seu protagonista, o que para alguns pode ser tomado como fetiche. Desde sua ansiedade inescrupulosa – que pode ser vista no olhar penetrante que dispensa à paqueras em geral - ou na falta de tato com uma mulher que inadvertidamente lhe desperta algum interesse; e como essa inadequação afetará sua virilidade, para que depois ele a recupere em mais um desmando de sexo sem intimidade, pelo orgasmo puro e simples.
É inegável que Michael Fassbender, mais do que o sustentáculo de Shame, é sua alma. Ator incrivelmente charmoso e sensual, ele precisa dar vida a um homem não muito charmoso – ainda que se vista maravilhosamente bem – e que exiba fragilidade e virilidade em sintonia perceptível. Só não é um desafio maior do que dar viço ao caos emocional de Brandon ou despir-se por completo em frente a câmeras curiosas de sua intimidade física.
É, enfim, um trabalho robusto que destaca-se pela ousadia, coragem e capacidade de prospecção.
Shame, em última instância, é um filme que busca provocar no público uma reflexão mais ampla do que a mera discussão em torno de como o sexo é percebido moral e socialmente em nosso tempo. Justamente por isso, o filme se nega a desvendar o passado potencialmente traumático dos dois personagens centrais e teorizar sobre seus efeitos no presente deles. Essa ruptura com o modus operandi vigente na dramaturgia em geral, demonstra que McQueen está plenamente consciente dos efeitos de seu filme. Passa por essa condição, a opção de não oferecer a sua audiência um desfecho convencional.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Filme em destaque - Shame

Quebrando alguns tabus
 Michael Fassbender vive um homem viciado em sexo no segundo longa-metragem de Steve McQueen e entrega a atuação mais elogiada de sua promissora carreira. Mas Shame, além de oferecer o ator em pêlo, tem outros objetivos e Claquete os apresenta


Rodou Hollywood nos idos de janeiro e fevereiro a ‘pratical joke’ de que Michael Fassbender ficou de fora dos finalistas da disputa pelo Oscar de melhor ator em virtude do tamanho de seu pênis, que aparece em Shame – filme no qual interpreta um executivo viciado em sexo e com sérios problemas de relacionamento. O diretor Steve McQueen, em entrevista a um programa de tv americano, ofereceu uma análise menos brincalhona e mais incendiária: “Michael não foi indicado porque os americanos temem o sexo”. Ele não disse que há hipocrisia. Não falou em moralismo e nem em puritanismo. Falou em medo mesmo.
Shame acompanha um homem que não consegue desenvolver nenhum tipo de relação em sua vida que não tenha como meta sexo. “Mas não é um filme sobre prazer sexual”, acrescentou Michael Fassbender em entrevista à revista Total Film. “É um filme sobre nosso tempo”, defendeu o New York Times à época da premiere do filme no festival de Veneza 2011, de onde saiu com o Leão de ouro de ator para Fassbender.
McQueen, que além de cineasta é artista plástico, disse em Veneza que Shame é um filme tão político quanto seu elogiado drama de estreia (Hunger) – também estrelado por Michael Fassbender. “Aquele era sobre uma prisão na Irlanda do Norte, esse é sobre como a liberdade de alguém pode aprisioná-lo e ele precisa de um vício para atenuar uma dor”.
O crítico de cinema Pablo Villaça desenvolve raciocínio intercambiável com a explanação de McQueen: “se a expressão ‘viciado em sexo’ parece estranha, já que normalmente não pensamos em dependência quando lidamos com algo que soa tão natural e prazeroso, é porque muitas vezes nos esquecemos de que esta é precisamente a natureza do vício: transformar o prazer em obsessão”. Para o principal crítico do portal Cinema em Cena, Shame é um filme muito bem urdido por seu diretor que apresenta um personagem “que parece experimentar um misto de dor e tristeza ao buscar mais um orgasmo”.
McQueen orienta Carey Mulligan e Fassbender: a atriz
disse, em uma conflituosa descrição, que o diretor foi
"cruel" e "generoso" com ela

Shame é um minucioso retrato de nosso tempo”, estipulou o jornal San Francisco Chronicle em sua resenha do filme. A busca por uma conexão real, de fato, parece estar em pauta no cinema. De filmes como Drive até Os descendentes, a questão é colocada em camadas e tonalidades diversas, mas o que Shame propõe é uma reflexão muito mais profunda e interiorizada.
Há muito sexo em Shame, mas McQueen optou por não erotizar as imagens. “Brandon (Fassbender) não é um mulherengo”, argumenta o diretor. “Seria uma forma de distrair o público do foco do filme”. McQueen acrescenta que escolheu a cidade de Nova Iorque como cenário do filme (Shame, vale lembrar, é uma produção britânica) por ser a big apple a capital do mundo. “Além do fato de todo mundo ser um pouco solitário em Nova Iorque”, apontou em entrevista à GQ americana, deixando transparecer que Shame também fala sobre solidão. “São novas compulsões as que a internet estabeleceu”, filosofou em Veneza.
Sexo, vício, política, solidão, internet... Shame reúne muitos tabus sob seu jugo. Quebrá-los todos de uma vez, como teorizou McQueen ao comentar a esnobada de Fassbender pela academia, é um desafio inquebrantável. 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Em off

Nesta edição de Em off, um thriller financeiro que pode chegar ao Oscar e que estreia nessa sexta nos cinemas brasileiros; o recorde que o Oscar 2012 apresentará; as mudanças previstas para o terceiro Se beber não case; as incendiárias polêmicas que teimam em circundar o aguardado Shame; um vídeo bacanão com os destaques do ano no cinema e a guerra santa envolvendo a crítica de cinema.


Oscar neles!
A qualidade dos filmes que concorrerão ao Oscar 2012 ainda está por ser mensurada, mas a categoria de melhor ator tem tudo para ser campeã de bilheteria. Como há muito não se via, os principais postulantes ao Oscar são todos bonitões. George Clooney é tido como certo entre os cinco concorrentes por seu desempenho em Os descendentes. Brad Pitt, por  O homem que mudou o jogo, é outro nome que ganha força. Outras possibilidades muito palpáveis são Michael Fassbender (Shame), Leonardo DiCaprio (J.Edgar), Ryan Gosling (Tudo pelo poder ou Drive) e o francês com pinta de galã das antigas Jean Dujardin (The artist). Para citar o sempre presente Lula, nunca antes na história dessa premiação...

Um time para levantar a audiência da cerimônia...


É a economia estúpido!
Uma das principais estréias desta sexta-feira (9) nos cinemas brasileiros é Margin call –o dia antes do fim. Sucesso indiscutível de público (por causa da constelação estelar que reúne) e de crítica (pela acidez e sobriedade com que cerca o estopim da crise financeira de 2008), a fita de estreia de J.C.Chandor, que também assina o roteiro, coleta elogios desde a premiere no último festival de Sundance. De lá para cá, passagens pelos festivais de Berlim, Buenos Aires, Toronto, Nova Iorque e indicações para o Spirit Awards. O filme também foi lembrado pelo National Board Of Review que liberou sua lista dos melhores de 2011 na semana passada.
O filme se passa nas horas anteriores à eclosão da crise que ainda ressoa no cenário global. Para quem não gosta ou não entende patavinas de economia, um bom atrativo do filme é o elenco. Kevin Spacey, Stanley Tucci, Demi Moore, Mary McDonnell, Simon Baker, Zachary Quinto, Jeremy Irons e Paul Bettany refinam qualquer aridez economica no cinema.


Em time que está ganhando (mas nem tanto) se mexe sim senhor
Para quem ainda tinha dúvidas ou esperanças de que o terceiro Se beber não case não seria realizado, as barbas – recomenda-se - podem ser postas de molho. Bradley Cooper confirmou – o que, na verdade, o diretor Todd Phillips já havia dito – que o terceiro filme vai mesmo acontecer e que as filmagens devem começar em setembro do próximo ano. Essa informação põe a perigo a ideia da Warner de lançar o filme em maio de 2013. Haveria tempo hábil?
Conjecturas à parte, Cooper adiantou que ação deste terceiro filme se passará em Los Angeles e que não haverá viagens. O ator comentou que o roteiro, que atualmente está sendo escrito, trará algumas mudanças estruturais em relação às tramas alinhadas nos dois primeiros filmes. A pendenga ficará para a distribuidora brasileira justificar o título nacional se não tiver casamento nessa terceira parte...


As polêmicas de Shame
É incrível que Shame ainda não tenha previsão de estréia no Brasil. A fita, que será distribuída no país pela Paris Filmes, valeu o leão de ouro de melhor ator para Michael Fassbender no último festival de Veneza, colhe elogios fervorosos da crítica americana e européia, integra as primeiras listas de melhores do ano e ainda apresenta muita nudez e sexo, elementos que polarizam a atenção de qualquer platéia. O filme ainda pode ser um dos protagonistas do Oscar 2012 e, mesmo assim, a Paris Filmes ainda não estabeleceu uma data de estreia para o filme. Na verdade, não há sequer confirmação de que o filme vá ser exibido nos cinemas brasileiros.
Não ajudou em nada a essa indecisão, a medida tomada pela rede Cinemark nos EUA. Em nota divulgada a imprensa, a empresa afirma que se recusa a exibir Shame em sua cadeia de cinemas por ter como política vigente não exibir filmes que recebam classificação NC -17 (equivalente a proibido para menores de 18 anos no Brasil).
O filme, que estreou há duas semanas em cidades como Los Angeles e Nova Iorque, no entanto, fez as melhores médias de público dos últimos dois finais de semana em toda a América. A diretriz da Cinemark americana é circunscrita aquele país, mas deve se reproduzir em outras nações. No Brasil, caso Shame venha a ser exibido nos cinemas, a decisão pouco afetaria a lógica do mercado. Uma vez que um filme independente raramente é exibido em salas da rede Cinemark. 


A guerra santa das críticas!
Há quem veja a crítica de cinema como algo supervalorizado. Outros entendem que a crítica já perdeu espaço no contexto cultural. Há ainda, no caso dos estúdios, quem enxergue na crítica um instrumento meramente promocional. Não cabe aqui discutir a lógica e dinâmica das relações entre jornalismo e o mainstream hollywoodiano. Mas vale contextualizar um dos últimos babados de Hollywood. O filme Os homens que não amavam as mulheres, um dos filmes cotados para o próximo Oscar, estreia nos EUA no dia 21 de dezembro. O produtor Scott Rudin, que vinha escondendo o filme, resolveu exibi-lo para tentar angariar algum prêmio pela crítica de Nova Iorque – que divulgou sua lista de melhores do ano na última semana. Rudin, então, impôs um embargo para que críticas sobre o filme só fossem publicadas após o dia 15 de dezembro. A revista New York desta semana apresentou uma crítica (elogiosa) do filme. Mas enfureceu Rudin. Estabeleceu-se, assim, um debate em torno da efetividade e ética acerca desses embargos tão comuns em superproduções (ainda que não em caso de filmes voltados para o público adulto, como é o caso da fita de David Fincher).
O editor da revista justificou que há muitos lançamentos previstos para a semana do natal e que ele não queria comprimir, ou até mesmo suprimir, matérias que pudessem interessar o público leitor. Em virtude disso, publicou a crítica uma semana antes do combinado.
Pode-se questionar a conduta da New York, que em última análise violou um acordo claramente bem delimitado, mas há de se questionar também a opção dos estúdios de instrumentalizar a crítica de cinema. As vias estão entupidas. David Fincher tem uma posição a respeito. Em entrevista ao site Movieline, o diretor disse que se dependesse dele, ele não mostraria o filme a ninguém antes da estreia. É um radicalismo que se opõe ao modelo capitalista que Hollywood representa, mas é uma posição mais correta e límpida do que a dos outros envolvidos nessa história. Aguardem para breve uma repercussão maior a respeito deste tema na seção Insight.


Os filmes do ano
O clima de nostalgia já toma conta desse dezembro. E não só aqui no blog com a Retrospectiva 2011. Foi publicado nesta semana o primeiro vídeo especial rememorando os filmes do ano. Vale lembrar que muitos desses filmes ainda não foram exibidos no Brasil.