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terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Retrospectiva 2012 - Os dez personagens do ano


10 – David (Michael Fassbender) em Prometheus

O filme de Ridley Scott pode não ter sido a sensação que se anunciava, mas o humanóide vivido por Michael Fassbender com um fino gosto por clássicos do cinema é daqueles grandes achados da ficção científica. David é pura filosofia, mas é, também, um tratado pop em um filme que nunca alcança suas potencialidades.

9 – Raoul Silva (Javier Bardem) em 007 – Operação Skyfall

Sexualmente ambíguo, amoral em sua busca por vingança e tragicamente shakespeariano em suas motivações, Silva (oxalá o mais cativante de todos os vilões de 007) é um personagem que se redime na composição matadora do espanhol Javier Bardem. Outro ator talvez não desse um verniz tão bom a um vilão de tintas tão pasteurizadas.


8- The driver (Ryan Gosling e Mel Gibson) em Drive e Plano de fuga

Tão semelhantes e tão distintos. Ambos sem nome, mas com talentos impensáveis para autônomos na arte do crime mereciam a distinção irmanada nessa lista. Em Drive, Ryan Gosling faz um tipo silencioso em um noir que reverencia os filmes b americanos dos anos 70. Já em Plano de fuga, Gibson faz um tipo que parece saído da pena de Tarantino, um fanático pelo período que Drive homenageia. Ambos os personagens são guiados por um sentimento de honra algo torto que move a ação de seus respectivos filmes. Esses “estranhos sem nome” certamente deixaram suas marcas em 2012.


7- Dean Moriarty (Garrett Hedlund) em Na Estrada

Um verdadeiro vulcão de sexualidade. É Dean quem fervilha toda a razão de ser de Na estrada. Desde a inspiração que fez com que Sal Paradise escrevesse em primeiro lugar, até a torrente de paixões pelas quais os aventureiros atravessaram ao redor dos EUA. Na construção inspirada de Hedlund, o Dean das telas não é menos catalisador. É um poderoso ímã para os olhos e uma montanha de atração para todo o resto.


6- Chayenne (Sean Penn) em Aqui é o meu lugar

Um misto de Ozzy Osbourne e Gene Simmons da maneira mais lesada possível. Essa é uma descrição aproximada desse roqueiro perdido vivido com esplendor e graça por Sean Penn. Chayenne é daqueles enigmas que o cinema vez ou outra apresenta. Um personagem tão interessante quanto o próprio filme e que indubitavelmente, em alguns momentos, até mesmo prevalece em relação ao filme. Com ar infantil, Chayenne busca paz interior e também com seu passado no curso de Aqui é o meu lugar, mas o faz com maneirismos e peculiaridades que valem o ingresso.

5- Eric Packer (Robert Pattinson) em Cosmópolis

A personificação do capitalismo em toda a sua frieza, volatilidade e esplendor. Eric Packer é um dos personagens mais marcantes de 2012 e, na face desapaixonada de Robert Pattinson, cristalizou toda a falência (e o sucesso híbrido a ela) do sistema que ergueu o mundo como o conhecemos.  

4 - Lisbeth Salander (Rooney Mara) em Os homens que não amavam as mulheres

A personagem não é exatamente de 2012, nem mesmo originária do cinema. Mas a versão americana de Os homens que não amavam as mulheres brindou-nos logo em janeiro de 2012 com uma Lisbeth renovada, mais crua, violenta, emocional e ainda assim a Lisbeth que nos cativou nos livros. Uma personagem tão icônica melhorada não poderia deixar de marcar presença na lista.

3 - Kevin (Esra Miller e Jasper Newell) Precisamos falar sobre o Kevin

A realidade fez com que Kevin subisse na lista de Claquete. O personagem, fascinante em perspectivas mórbidas que tanto nos acentuam, já marcaria presença na lista. Eis outro personagem com raízes nos livros, mas que o massacre de Newton há poucas semanas fez com que aumentasse a necessidade de falarmos sobre ele. E muito!

2- Brandon (Michael Fassbender) em Shame

A melancolia da vida moderna cai como uma luva em um personagem que se esconde em seus vícios como tantos fazem nessa vida atribulada que vivemos. Brandon é prisioneiro de sua liberdade e padece diariamente deste mal que não conseguimos nem mesmo diagnosticar. Seu flagelo emocional se contrapõe a bem aventurança material de sua vida em um aspecto que torna o personagem paradoxalmente banal e único.

1- Ted (voz de Seth Macfarlane) em Ted

Ele “causou” até com um nobre deputado brasileiro. Maconheiro, boca suja, misógino, mas camarada pra caramba com seu dono – vivido por Mark Wahlberg – Ted foi o personagem de 2012. Hilário, o ursinho mais divertido desde os ursinhos carinhosos (mas não diga isso para ele), garantiu o topo nessa lista do mesmo jeito que foi garantindo suas promoções no trabalho que mantinha inacreditavelmente em um supermercado.

sábado, 31 de março de 2012

Em off

Nesta edição de Em off, o charme de fazer um filme sobre a produção do filme mais famoso de Hitchcock; as parcerias que ainda vão dar o que falar no cinema nos próximos dois anos; a verdade por trás do “fracasso” de Os homens que não amavam as mulheres; o cinema brasileiro dizendo a que veio e ela, a Musa Claquete eleita pelos leitores do blog.

Parcerias que ainda vão dar bons frutos no cinema
Já se sabia que a parceria entre Martin Scorsese e Leonardo DiCaprio ainda renderia outros projetos. Ambos estavam ligados à cinebiografia de Frank Sinatra, projeto que parece estar em encubação, e The wolf of Wall Street, autobiografia do corretor da Bolsa de Nova Iorque Jordan Belfort. A notícia é que este último será o próximo projeto que unirá a dupla. As gravações começam no segundo semestre, possivelmente em outubro. Será a quinta colaboração entre Scorsese e DiCaprio. As outras são Gangues de Nova Iorque (2002), O aviador (2004), Os infiltrados (2006) e Ilha do medo (2010).
Inspirado por essa boa nova, Claquete listou algumas parcerias entre cineastas e atores que renderão bons frutos nos próximos anos.

 1- Nicolas Winding Refn e Ryan Gosling preparam Only God forgives para aproveitar o culto a Drive; 2 - Lars Von Trier quer que Charlotte Gainsbourg seja sua ninfomaníaca no filme de mesmo nome; 3 - Steve McQueen já disse que não sabe fazer filme sem Michael Fassbender e o ator estará em 12 years a slave; 4 - Martin e Leo rumam para a quinta colaboração em The wolf of Wall Street; 5-  Pablo Trapero não resistiu aos encantos de Ricardo Darín e o chamou para seu novo filme, Elefante blanco

Steve McQueen e Michael Fassbender
Com Shame ainda impregnado na mente cinéfila é impossível não salivar pelo novo filme de Steve McQueen. 12 years a slave é a adaptação da autobiografia de Solomon Northup, homem que foi sequestrado e feito escravo por doze anos no século XIX no exato período em que os EUA rumavam para a abolição da escravatura. Além de Fassbender, o filme terá Brad Pitt e Chiwtel Ejiofor no elenco. As filmagens ainda não começaram, mas a previsão de estreia é para dezembro deste ano.

Nicolas Winding Refn e Ryan Gosling
Drive foi meio que um acontecimento. Cult instantâneo que provocou no diretor dinamarquês e no ator canadense um encantamento mútuo. Only God forgives, uma história de crime e violência passada na Tailândia, marca a segunda colaboração da dupla. Se depender de Winding Refn, de acordo com suas declarações à revista Total Film, a segunda de muitas. A fita também tem estreia marcada para o final de 2012 nos EUA.  

Lars Von Trier e Charlotte Gainsbourg
Outro diretor dinamarquês que não abre mão de trabalhar com uma atriz que parece disposta a explorar seus limites nos filmes dele. Após AntiCristo e Melancolia, Charlotte Gainsbourg é a única atriz confirmada no elenco de Nymphomaniac, filme que abordará a sexualidade feminina e que, segundo o próprio Von Trier, será pornográfico. Atores pornôs, ainda não especificados, integrarão o elenco também. Ainda não há previsões oficiais a respeito do lançamento do filme.

Pablo Trapero e Ricardo Darín
O intenso e surpreendente Abutres foi mesmo o início de uma relação promissora. Além da esposa Martina Gúsman, que também estava em Abutres, o diretor Pablo Trapero escalou Ricardo Darín, ator fetiche de outros cineastas argentinos, para Elefante blanco. O filme, com lançamento previsto para maio nos cinemas argentinos, conta a história de dois padres argentinos e uma assistente social que tentam resolver os problemas de uma favela argentina. Drama? Comédia? Quem se importa?


Hitch vive
Está mobilizando Hollywood um projeto independente e de um diretor desconhecido sobre a feitura de um dos principais filmes de um dos diretores mais reconhecidos de todos os tempos. Alfred Hitchcock and the making of Psycho tem como objetivo recriar o momento profissional e pessoal que vivia o cineasta à época da produção de Psicose, no final da década de 50.
O projeto está provocando verdadeiras caravanas de estrelas interessadas em participar. Já estão certas as participações de Scarlett Jonhansson, Anthony Hopkins, James D´Arcy, Danny Houston, Helen Mirren, Jessica Biel e Michael Stuhlbarg. A atriz Toni Collette deve ser outra adição a ser confirmada em breve. O diretor Sacha Gervasi deve lançar esse filme, desde já para lá de hypado, em 2013.


Heleno e a evolução do cinema brasileiro

Está em cartaz nos cinemas de todo o país a cinebiografia Heleno. Conhecido por muitos como o craque maldito do Botafogo, Heleno de Freitas é tido como o primeiro “astro problema” do futebol brasileiro – tão exímio na produção dessa espécie. O filme de José Henrique Fonseca apresenta Rodrigo Santoro na pele de Heleno. Mas o filme tem outras atrações que ratificam a evolução do cinema nacional sob a perspectiva temática e, também, em aspectos técnicos. O filme é fotografado em um preto e branco vistoso, com assinatura do papa Walter Carvalho. É um registro histórico de uma época bastante específica, os anos 40, e o trabalho de direção de arte é muito valorizado.
Além das próprias pesquisas realizadas por Fonseca e Santoro que tanto oxigenam o filme e a figura biografada. Essa perícia, e o interesse em exercitá-la, era algo que faltava ao cinema brasileiro.
Xingu é outro filme com lançamento iminente. Com estreia marcada para 6 de abril, o filme de Cao Hamburger com produção de Fernando Meirelles e sua O2, é o que se chama por aí de épico. Com filmagens em locações grandiosas, com grande número de figurantes e um tema tão espinhoso quanto apaixonante como a criação da reserva indígena que dá nome ao filme. Billi pig, atualmente em cartaz nos cinemas brasileiros, a despeito de sua qualidade, é uma reverência às pornochanchadas brasileiras que marcaram uma era representativa do cinema do país. Selton Mello, que estrela Billi Pig, alcançou no fim de 2011 sucesso comercial e crítico com O palhaço, filme que tão bem concilia o autoral com o comercial.
São demonstrações de que o cinema brasileiro está cada vez mais encorpado, arrojado e pulsante. É uma boa notícia.     


Fracasso?
A MGM divulgou nota oficial informando que o filme Os homens que não amavam as mulheres, versão americana da primeira parte da trilogia Millennium, não rendeu ao estúdio os dividendos esperados. Com orçamento de U$ 90 milhões, a fita rendeu internacionalmente cerca de U$ 231 milhões (esse número ainda pode sofrer ajustes). Acontece que é um co-produção com a Sony e o lucro tem que ser rachado na mesma proporção dos investimentos. No mesmo comunicado, o presidente da MGM, Gary Barber, admite estar considerando alternativas para a produção dos filmes restantes com alterações orçamentárias e a possibilidade de mudança de parceiro. Mais do que descontentamento com o rendimento do filme de David Fincher, o que parece incomodar mesmo a MGM é o lucro da Sony com direitos que pertencem ao estúdio imortalizado com o leão. Vale lembrar que desde a bancarrota  da MGM, a Sony tem sido parceira ativa da MGM, inclusive, bancando a distribuição doméstica (nos EUA) da série 007. A MGM, no entanto, está associada a Warner para a produção de O hobbit, outra série com potencial para “azular” as contas do estúdio. Os homens que não amavam as mulheres, voltado para um público adulto, com censura 18 anos e uma longa metragem não foi um fracasso, foi um senhor sucesso, apenas se vê envolto em politicagens de bastidores.

Natalie Portman é Musa Claquete!

Foram 40 votos. Uma disputa intensa pelo título de Musa Claquete. E a israelense naturalizada americana Natalie Portman foi a escolhida pelos (e) leitores para se juntar a Kate Winslet na galeria, ainda em formação, de musas do blog. Foram 17 votos que consagraram a vitoriosa. Kristin Scott Thomas ficou na segunda posição com nove votos. Penelope Cruz, que obteve sua segunda derrota, ultrapassou Marion Cotillard nas últimas horas para ficar com a terceira posição. Bem vinda Natalie.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Insight

Finais geniais em cartaz

Em época de Oscar, dizer que há bons filmes em cartaz chega a ser pleonasmo. Mas o que mais enobrece esse início de ano nos cinemas brasileiros não é a já habitual safra caprichada de longas-metragens; mas sim o impressionante número de filmes com bons finais. Valem ser citados pelo menos quatro: Os descendentes, Os homens que não amavam as mulheres, A separação e Sherlock Holmes: o jogo de sombras. Todos com críticas já publicadas em Claquete.
São finais com “pegadas” diferentes, mas que incrementam a experiência cinematográfica.
Em Os descendentes, por exemplo, a cena final é de uma simplicidade que beira a banalidade. No entanto, se mostra vigorosa, abrasadora e profundamente emocional. Não se corre o risco de entregar nenhum spoiler, em mencionar que Alexander Payne torna seu filme muito mais carismático ao colocar os personagens de George Clooney, Shailene Woodley e Amara Miller tomando sorvete enquanto assistem o documentário A marcha dos pinguins e os créditos sobem. A cena, reconhecidamente simples, agrega um valor emocional danado à história que ela arremata.
Algo diferente ocorre, por exemplo, em Sherlock Holmes: o jogo de sombras. Filme para lá de mediano que se resolve com um final bem acima da média. O coelho que o cineasta Guy Ritchie tira da cartola é dos mais vistosos. Após conduzir um filme com muitos problemas e algum ranço de tédio, ele apresenta um daqueles finais que conjugam muito bem humor, senso de oportunidade e engenhosidade narrativa. Sem falar que o final remete perfeitamente à iconografia do personagem Sherlock Holmes. O desfecho do filme deixa com o espectador a impressão de ter visto algo muito positivo, mesmo não sendo esse o caso. Um artifício, ou uma trucagem se preferir, além de engenhoso, eficientíssimo.
Truques, no entanto, passam longe de A separação. Vigoroso exemplar do cinema iraniano em exibição nas principais cidades brasileiras. A fita trabalha com a dubiedade durante toda a sua extensão, convidando a platéia a exercer função vital na construção do sentido do filme no foro íntimo. O diretor Ashghar Farhadi sabiamente potencializa essa opção com um final paradoxalmente tão aberto quanto enclausurado em si. Mais do que margens para interpretações, o que ele oferta à platéia é a possibilidade de decidir, afinal, se a filha optou por ficar com o pai ou com a mãe, após os eventos que se sucederam no curso do filme.
Contudo, o que David Fincher faz em Os homens que não amavam as mulheres é algo quase sobrenatural. No sentido de fora de série mesmo. Fincher, como todos sabem, não adapta apenas o primeiro livro da trilogia Millennium de Stieg Larsson, ele ainda tinha o filme sueco como elemento, no mínimo, desestabilizador em qualquer ângulo de comparação. O diretor, confiante, deu seu tom à história e não só a melhorou em relação ao original, como fez o filme sueco parecer um rascunho. A genialidade do trabalho de Fincher pode ser bem analisada no final, sutilmente diferente da versão sueca. O diretor espicha o epílogo do filme e, se não justifica a personagem Lisbeth Salander, a humaniza consideravelmente na cena doída, triste e profundamente cativante que fecha o filme.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Crítica - Os homens que não amavam as mulheres

Um colosso de filme!
Os homens que não amavam as mulheres (The girl with the dragon tattoo, EUA 2011) é daqueles filmes que te acompanham depois da sessão. Por algumas vezes, você vai se pegar pensando nele. Não só porque a fita conta com uma das personagens mais cativantes da atualidade, a hacker Lisbeth Salander – aqui defendida com garra e devoção pela excelente Rooney Mara – mas porque David Fincher sobeja na arte de contar bem uma história. 
Filmes que te fazem pensar são uma raridade. Filmes que te fazem pensar após a sessão, no entanto, não são uma raridade para David Fincher. O diretor americano realiza uma façanha com essa versão americana para o best-seller sueco da trilogia Millennium; melhora, e muito, o resultado em relação ao material original.
Pelas mãos de Fincher, não só a história de mistério que congrega perversões, nazismo e toda sorte de fetiches ganha relevo dramático, como a relação entre os dois personagens principais se transforma em um poderoso elemento narrativo.

Rooney Mara como Lisbeth Salander: uma atriz que se doa intensamente a uma personagem fascinante


Nesse sentido, algumas opções de Fincher se provam certeiras. Manter a história na Suécia foi crucial, já que o forte frio é elemento vital na trama, bem como o fato da família Vanger ser européia. O tom acinzentado que predomina na fotografia é um acerto que acresce à atmosfera obscura que Fincher convenciona para seu filme; que parece destinado a ser pop e cult, talvez em maior escala do que se podia imaginar de uma versão americana para um livro sueco.
Outro acerto de Fincher foi Rooney Mara, atriz que reclama qualquer traço de autoria de Lisbeth Salander para si. Desinibida quando necessário expor a fragmentação emocional de sua personagem e frágil quando preciso sublinhar sua vulnerabilidade, Mara é a perfeita síntese do fascínio que sua personagem exerce. Uma entrega tão avassaladora que um Oscar seria pouco para lhe fazer justiça.
Daniel Craig, que não foi a primeira opção de Fincher, traz leveza e sofisticação a seu Mikael Blomkvist – características tão díspares daquelas que lhe são atribuídas. Uma prova a mais do quão bom ator é.
Ambos respondem muitíssimo bem aos estímulos de Fincher para que a relação entre os personagens – mesmo quando ainda não se conhecem – seja o cerne de Os homens que não amavam as mulheres. Por isso a construção inicial, onde Fincher parcimoniosamente apresenta Blomkvist e Salander para a platéia em eventos paralelos com pouca relação entre si, é tão importante. Não falta ao diretor à perspicácia de incutir em seu público a exata noção de quem são aqueles personagens. Por mais indecifrável que Lisbeth Salander possa ser, a cena final (genial em sua sutileza incontida) a torna mais próxima de todos nós.
Os homens que não amavam as mulheres não tem a importância histórica de A rede social ou sua genialidade narrativa, mas – ainda assim – é um colosso de filme. 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Filme em destaque - Os homens que não amavam as mulheres

Perversões, psicologia e uma nova estrela

David Fincher volta a falar de mistérios, serial killers e obsessões em Os homens que não amavam as mulheres. Claquete apresenta os bastidores do filme que apresenta o talento de Rooney Mara para o mundo



Quando o diretor David Fincher foi anunciado como o responsável pela versão americana de Os homens que não amavam as mulheres, a expectativa tomou conta da indústria, de cinéfilos e  dos fãs da obra original do sueco Stieg Larsson. Isso porque Fincher celebrizou sua fama de perfeccionista e cerebral com tramas de serial killer (Seven, Zoadíaco) e contemporaneidade irresoluta (Clube da luta e A rede social).
O diretor ainda estava envolvido na pós-produção de A rede social, filme produzido por Scott Rudin e pela Sony Pictures, os mesmos responsáveis pela produção do primeiro filme da franquia Millenium. “A ideia de ter Fincher a bordo deste projeto me parecia natural”, justificou Rudin à época do anúncio da produção do filme. O diretor emendou um trabalho no outro e um dos primeiros movimentos de Rudin foi tentar garantir a quarta colaboração entre Brad Pitt (o ator favorito de Fincher, segundo o próprio) e o diretor. Mas Pitt bateu o pé que só assinaria contrato depois de ter acesso ao roteiro (que ainda não estava finalizado quando o processo de casting teve início) e a parceria consagrada em Seven, Clube da luta e O curioso caso de Benjamin Button permanece circunscrita a esses três filmes.
Mas havia a necessidade de um “ator de prestígio” nas palavras do produtor executivo Ryan Kavanaugh, para viver o jornalista decadente Mikael Blomkvist. Foi aí que Daniel Craig, o atual James Bond, entrou no projeto. Craig não tinha a mesma restrição que Pitt quanto ao roteiro e estava ávido por trabalhar com Fincher, a quem comparou, em entrevista recente, a Hitchcock. Como a Sony queria o filme para o natal de 2011 e o anúncio da produção só foi feito em novembro de 2010, era imperativo que a pré-produção fosse concomitante com a elaboração do roteiro.
Com Craig a bordo, faltava a principal peça do elenco de Os homens que não amavam as mulheres: Lisbeth Salander. A personagem, uma cyberpunk bissexual, implosiva, violenta e desconfiada catapultou a carreira da intérprete original, a atriz sueca Noomi Rapace. Fincher estaca ciente de que precisava, mais do que uma atriz capaz de transformar-se em Lisbeth, de uma que desaparecesse completamente na personagem.
Mara como Lisbeth: sensualidade e
introspecção na medida certa

Scarlett Johansson, sugestão dos produtores, foi considerada pelo diretor, mas – conforme o próprio revelaria em entrevista posterior em Cancun no México – a atriz era sexy demais para a personagem. Sorte de Rooney Mara. Com carreira curta, a atriz de 26 anos – filha de milionários donos de times de futebol americano – impressionou Fincher na cena de abertura de A rede social – em que dá um fora no Mark Zuckerberg de Jesse Eisenberg. Fincher sugeriu um teste. E não um teste qualquer. Uma cena de estupro. Mara impressionou ainda mais. “Eu e David conversamos muito. Ele realmente queria sentir se eu estava entendendo a personagem”, disse Mara em entrevista ao O Estado de São Paulo, sobre sua preparação para viver a personagem. O processo incluiu voltas de moto pelas gélidas ruas suecas para que Mara se aclimatasse com o ambiente e com o perfil de Lisbeth Salander.

A história
São muitos os componentes que atraem na trilogia Millennium. David Fincher declarou em entrevista ao UOL Cinema que “o pervertido" o atrai. O diretor afirmou que se sente confortável investigando patologias no cinema. Para o cineasta, a obra de Larsson é rica nesse sentido. Rooney Mara se mostrou mais interessada na psicologia dos personagens e Daniel Craig salientou que admira o idealismo de seu personagem. Craig, aliás, declarou que entende mais o jornalismo após a experiência de dar vida a um jornalista no filme.
Na trama, o jornalista vivido por Craig, um tipo um tanto sensacionalista, é contratado por um magnata (Christopher Plummer) para aclarar as circunstâncias do desaparecimento de sua neta em 1966. São das necessidades aventadas pela difícil investigação que os caminhos do jornalista e da hacker interpretada por Rooney Mara se cruzam. “Acho que o forte do filme é o relacionamento desses dois seres tão antagônicos”, afirmou Rooney Mara.


Não é material para o Oscar
Em setembro, David Fincher admitiu ser improvável que Os homens que não amavam as mulheres fosse indicado ao Oscar. Na concepção do diretor, se trata de um filme ambíguo e violento demais para os padrões da academia. Mas a enxurrada de críticas positivas e as indicações para os prêmios dos sindicatos dos produtores e diretores sinalizavam o contrário.    
No fim das contas, Os homens que não amavam as mulheres foi indicado para cinco Oscars (atriz, montagem, fotografia, mixagem de som e edição de som), mas se viu fora das prestigiadas categorias de filme, direção e roteiro.

O grosso das filmagens foi na Suécia e por muitas vezes foram necessárias interrupções nas gravações por causa do forte frio


O filme, que tem classificação para maiores de 18 anos, se transformou em grande sucesso de público nos EUA. Já rendeu U$ 100 milhões e a Sony já anunciou as duas continuações (A menina que brincava com fogo e A rainha do castelo de ar). Daniel Craig e Rooney Mara já estão contratualmente assegurados para ambos os filmes. Resta saber se Fincher, que tem notória resistência a sequências, dará mais uma chance ao pervertido.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Insight

Além do jabá

Na última seção Insight atentou-se para a sobreposição dos interesses da indústria do cinema na atividade da crítica cinematográfica. O texto partia de um episódio envolvendo uma publicação nova-iorquina e o produtor do filme Os homens que não amavam as mulheres para discutir a veia proselitista de Hollywood em sua relação com o jornalismo cultural, no geral, e com a crítica, em particular. Aventou-se, para tal fim, a figura do jabá (jargão jornalístico para aquelas matérias de interesse particular financiadas de maneiras diversas pelo interessado).
No jornalismo cultural, essa “chaga” é ainda mais movediça. Focando na cobertura cinematográfica, para cristalizar o raciocínio, é preciso reconhecer que revistas de cinema e demais veículos midiáticos que atuam nessa conjuntura dependem totalmente dos estúdios como fonte. Seja para visitas em sets de filmagens ou em eventos promocionais, como premieres e entrevistas coletivas. Até mesmo em renomados festivais, estúdios e produtores exercem considerável influência. É preciso estabelecer, também, que a cobertura desse nicho cultural é das menos prestigiadas pela grande imprensa, menorando ainda mais a independência de jornalistas que nele atuam. Na prática, isso quer dizer que muitas viagens para eventos promocionais são bancadas pelos estúdios em troca de espaço no veículo. Esse “jabá do bem” não costuma interferir na lógica das redações, sejam elas de grandes jornais (como Folha de São Paulo e  O Estado de São Paulo) ou veículos do segmento (como ocorreu com a revista SET no Brasil).

Robert Downey Jr. promove o segundo Sherlock Holmes no Brasil. O país começa a entrar na rota dos grandes estúdios para eventos promocionais de grandes lançamentos hollywoodianos


O que chama à atenção, no entanto, é o avanço que se verifica nessa relação em particular. Ao começar a pautar à imprensa, os estúdios passaram a se sentir cada vez mais à vontade para interferir no ritmo de produção das redações. Desvendou-se uma metodologia muito mais fácil e menos onerosa de controlar os rumos da cobertura cinematográfica (esquivando-se dos anúncios sempre mais custosos). Não à toa, as revistas de cinema rarearam. Nos EUA, por exemplo, a prestigiada Premiere hoje só atua na versão online. A EW, que embora dê maior atenção ao cinema é de entretenimento, faz parte do poderoso conglomerado de comunicação Time Warner. No Brasil, a única revista de cinema propriamente dito é a Preview, que em seu terceiro ano, parece mais solidificada no mercado. A Bravo, revista cultural, é patrocinada pela maior editora do país, a Abril.
Na Europa, o cenário é mais animador para as revistas de cinema. São cinco em Portugal, seis na Espanha e dez na Inglaterra. A Empire e a Total Film possuem versões nos três países. É óbvio que outros fatores contribuem para esse cenário em particular. E muitos deles passam pela internet.
A internet banalizou a crítica de cinema? Não necessariamente. Mas certamente transformou a percepção que a indústria tem da crítica. O impacto da internet no desempenho comercial de um filme é algo ainda difícil de ser mensurado em palavras. Justamente por isso, os estúdios – em um movimento justificadamente conservador – lançaram mão de artifícios dúbios e contestáveis para (vejam só) controlar a internet. Ainda levam um baita olé da pirataria, mas conseguem (pelas razões acima apontadas) exercer maior controle sobre a atividade jornalística. A crítica de cinema, nessa conjuntura, é vista como artifício promocional. Simplesmente. E deve ser abafada ou potencializada de acordo com as circunstâncias.
Compete às redações imputar perspectiva às ações cada vez mais expansivas dos estúdios. Não se advoga uma ruptura; afinal um não sobrevive sem o outro, mas recomenda-se cautela e bom senso de ambas as partes na elaboração de acordos como o que resultou na crise entre a revista New Yorker e a Sony Pictures, estúdio responsável por Os homens que não amavam as mulheres.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Insight

A instrumentalização da crítica de cinema


As relações entre a indústria do cinema e a mídia sempre foram mais íntimas do que a isenção jornalística gostaria. Os famosos jabás (jargão jornalístico para matérias pagas) são frequentes e muitas redações se veem na incumbência de estabelecer limites nessa relação. Contudo, isso é tema para outra sessão Insight. A introdução, no entanto, se faz necessária por conta de um  (não tão) novo desdobramento dessa relação.
É hábito plenamente justificável a exibição dos lançamentos para críticos de cinema antes da estréia dos filmes. Fato. Com a constância cada vez maior de lançamentos super antecipados, o assédio crescente da pirataria e o poder desestabilizador da internet na carreira comercial de um filme, estúdios e distribuidoras lançaram mão de uma nova ferramenta de marketing cujo alcance, além de dúbio, gera controvérsias mais ambíguas do que as relações mencionadas na abertura desse texto.
Uma das capas de dezembro da semanal
New Yorker:
intrigas
Trata-se da instrumentalização da crítica cinematográfica. Essa instrumentalização, às vezes, implica em nenhuma crítica antes do lançamento do filme. Caso de alguns blockbusters de qualidade duvidosa. Em outros casos, se dá pela combinação prévia entre distribuidor e empresa jornalística sobre a data para a publicação da crítica. Os interesses são meramente comerciais, como em qualquer outro negócio, mas indicam precedentes perigosos. Como era de se esperar, as tensões se avolumaram em dezembro, quando um desses “acordos de cavalheiros” entre o produtor Scott Rudin e a revista New Yorker não foi respeitado. A publicação veiculou sua crítica de Os homens que não amavam as mulheres, filme que Rudin produz, antes da data combinada e gerou atritos e troca de farpas entre o produtor e o crítico David Denby. A publicação se justificou reconhecendo que a data combinada inviabilizava a circulação da crítica pelo fato de que havia muito material para ser publicado na última edição do ano (quando a crítica deveria circular) e o leitor merecia uma crítica completa sobre o filme.
Independentemente das razões de Rudin e da New Yorker, o episódio demonstra que, para os estúdios, a crítica de cinema não só é meramente promocional, como deve se prestar a esse objetivo em particular. Esse pensamento precisa ser abortado. Pelas redações, e em uma análise condescendente foi justamente o que a New Yorker sinalizou, e pela própria indústria que já deveria ser madura o suficiente para observar que os interesses não devem ser sobrepostos e sim compartilhados. O lucro flui melhor dessa maneira.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Em off

Nesta edição de Em off, um thriller financeiro que pode chegar ao Oscar e que estreia nessa sexta nos cinemas brasileiros; o recorde que o Oscar 2012 apresentará; as mudanças previstas para o terceiro Se beber não case; as incendiárias polêmicas que teimam em circundar o aguardado Shame; um vídeo bacanão com os destaques do ano no cinema e a guerra santa envolvendo a crítica de cinema.


Oscar neles!
A qualidade dos filmes que concorrerão ao Oscar 2012 ainda está por ser mensurada, mas a categoria de melhor ator tem tudo para ser campeã de bilheteria. Como há muito não se via, os principais postulantes ao Oscar são todos bonitões. George Clooney é tido como certo entre os cinco concorrentes por seu desempenho em Os descendentes. Brad Pitt, por  O homem que mudou o jogo, é outro nome que ganha força. Outras possibilidades muito palpáveis são Michael Fassbender (Shame), Leonardo DiCaprio (J.Edgar), Ryan Gosling (Tudo pelo poder ou Drive) e o francês com pinta de galã das antigas Jean Dujardin (The artist). Para citar o sempre presente Lula, nunca antes na história dessa premiação...

Um time para levantar a audiência da cerimônia...


É a economia estúpido!
Uma das principais estréias desta sexta-feira (9) nos cinemas brasileiros é Margin call –o dia antes do fim. Sucesso indiscutível de público (por causa da constelação estelar que reúne) e de crítica (pela acidez e sobriedade com que cerca o estopim da crise financeira de 2008), a fita de estreia de J.C.Chandor, que também assina o roteiro, coleta elogios desde a premiere no último festival de Sundance. De lá para cá, passagens pelos festivais de Berlim, Buenos Aires, Toronto, Nova Iorque e indicações para o Spirit Awards. O filme também foi lembrado pelo National Board Of Review que liberou sua lista dos melhores de 2011 na semana passada.
O filme se passa nas horas anteriores à eclosão da crise que ainda ressoa no cenário global. Para quem não gosta ou não entende patavinas de economia, um bom atrativo do filme é o elenco. Kevin Spacey, Stanley Tucci, Demi Moore, Mary McDonnell, Simon Baker, Zachary Quinto, Jeremy Irons e Paul Bettany refinam qualquer aridez economica no cinema.


Em time que está ganhando (mas nem tanto) se mexe sim senhor
Para quem ainda tinha dúvidas ou esperanças de que o terceiro Se beber não case não seria realizado, as barbas – recomenda-se - podem ser postas de molho. Bradley Cooper confirmou – o que, na verdade, o diretor Todd Phillips já havia dito – que o terceiro filme vai mesmo acontecer e que as filmagens devem começar em setembro do próximo ano. Essa informação põe a perigo a ideia da Warner de lançar o filme em maio de 2013. Haveria tempo hábil?
Conjecturas à parte, Cooper adiantou que ação deste terceiro filme se passará em Los Angeles e que não haverá viagens. O ator comentou que o roteiro, que atualmente está sendo escrito, trará algumas mudanças estruturais em relação às tramas alinhadas nos dois primeiros filmes. A pendenga ficará para a distribuidora brasileira justificar o título nacional se não tiver casamento nessa terceira parte...


As polêmicas de Shame
É incrível que Shame ainda não tenha previsão de estréia no Brasil. A fita, que será distribuída no país pela Paris Filmes, valeu o leão de ouro de melhor ator para Michael Fassbender no último festival de Veneza, colhe elogios fervorosos da crítica americana e européia, integra as primeiras listas de melhores do ano e ainda apresenta muita nudez e sexo, elementos que polarizam a atenção de qualquer platéia. O filme ainda pode ser um dos protagonistas do Oscar 2012 e, mesmo assim, a Paris Filmes ainda não estabeleceu uma data de estreia para o filme. Na verdade, não há sequer confirmação de que o filme vá ser exibido nos cinemas brasileiros.
Não ajudou em nada a essa indecisão, a medida tomada pela rede Cinemark nos EUA. Em nota divulgada a imprensa, a empresa afirma que se recusa a exibir Shame em sua cadeia de cinemas por ter como política vigente não exibir filmes que recebam classificação NC -17 (equivalente a proibido para menores de 18 anos no Brasil).
O filme, que estreou há duas semanas em cidades como Los Angeles e Nova Iorque, no entanto, fez as melhores médias de público dos últimos dois finais de semana em toda a América. A diretriz da Cinemark americana é circunscrita aquele país, mas deve se reproduzir em outras nações. No Brasil, caso Shame venha a ser exibido nos cinemas, a decisão pouco afetaria a lógica do mercado. Uma vez que um filme independente raramente é exibido em salas da rede Cinemark. 


A guerra santa das críticas!
Há quem veja a crítica de cinema como algo supervalorizado. Outros entendem que a crítica já perdeu espaço no contexto cultural. Há ainda, no caso dos estúdios, quem enxergue na crítica um instrumento meramente promocional. Não cabe aqui discutir a lógica e dinâmica das relações entre jornalismo e o mainstream hollywoodiano. Mas vale contextualizar um dos últimos babados de Hollywood. O filme Os homens que não amavam as mulheres, um dos filmes cotados para o próximo Oscar, estreia nos EUA no dia 21 de dezembro. O produtor Scott Rudin, que vinha escondendo o filme, resolveu exibi-lo para tentar angariar algum prêmio pela crítica de Nova Iorque – que divulgou sua lista de melhores do ano na última semana. Rudin, então, impôs um embargo para que críticas sobre o filme só fossem publicadas após o dia 15 de dezembro. A revista New York desta semana apresentou uma crítica (elogiosa) do filme. Mas enfureceu Rudin. Estabeleceu-se, assim, um debate em torno da efetividade e ética acerca desses embargos tão comuns em superproduções (ainda que não em caso de filmes voltados para o público adulto, como é o caso da fita de David Fincher).
O editor da revista justificou que há muitos lançamentos previstos para a semana do natal e que ele não queria comprimir, ou até mesmo suprimir, matérias que pudessem interessar o público leitor. Em virtude disso, publicou a crítica uma semana antes do combinado.
Pode-se questionar a conduta da New York, que em última análise violou um acordo claramente bem delimitado, mas há de se questionar também a opção dos estúdios de instrumentalizar a crítica de cinema. As vias estão entupidas. David Fincher tem uma posição a respeito. Em entrevista ao site Movieline, o diretor disse que se dependesse dele, ele não mostraria o filme a ninguém antes da estreia. É um radicalismo que se opõe ao modelo capitalista que Hollywood representa, mas é uma posição mais correta e límpida do que a dos outros envolvidos nessa história. Aguardem para breve uma repercussão maior a respeito deste tema na seção Insight.


Os filmes do ano
O clima de nostalgia já toma conta desse dezembro. E não só aqui no blog com a Retrospectiva 2011. Foi publicado nesta semana o primeiro vídeo especial rememorando os filmes do ano. Vale lembrar que muitos desses filmes ainda não foram exibidos no Brasil.


domingo, 20 de novembro de 2011

Insight

Afinal, David Fincher quer ou não quer um Oscar?


É sabido que David Fincher é dos cineastas mais cultuados da Hollywood atual. Seu cinemal cerebral foi altamente celebrado pela crítica no final dos anos 90 e começo da década passada com filmes como Seven (1996), Clube da luta (1999) e Zodíaco (2007). O refinamento técnico de Fincher lhe valeu a fama de perfeccionista irritadiço. São célebres e famosas suas inclinações a longos e repetidos takes. Gente como Jesse Eisenberg, Elle Fanning, Kristen Stewart, Rooney Mara e o amigo Brad Pitt já discorreram sobre a predisposição do diretor de capturar o máximo de material para dispor na sala de edição. Fincher já se viu impelido a justificar-se sobre essa “característica” em variadas entrevistas.  A mais detalhista foi uma concedida às vésperas do Oscar 2011, no qual concorria pela direção de A rede social, em que comentou, entre outras coisas, sobre sua forma de trabalhar e o por que da necessidade de fazer exatas 97 tomadas da cena inicial de A rede social.
Agora, às vésperas do lançamento de Os homens que não amavam as mulheres, David Fincher volta à bateria de entrevistas promocionais. Recentemente foi tema de um perfil lisonjeiro do amigo Aaron Sorkin, com quem colaborou no oscarizado A rede social, na revista Vanity Fair. Seu novo filme, que é ventilado –ainda que timidamente - para o Oscar 2012, é capa da edição de 18 de novembro da revista Entertainment Weekly e o diretor se vê, mais uma vez, no centro da constante boataria sobre os possíveis indicados ao Oscar.
Com uma filmografia curta, mas com filmes cada vez mais constantes, de extrema coerência e qualidade, David Fincher é tido, também, como um sujeito arrogante. Há quem diga em Hollywood que ele só participa de entrevistas e eventos promocionais por força contratual. O perfil de Sorkin na Vanity Fair, que pode ser lido aqui, não desmente tais boatos. Os relativiza. Outro rumor que sonda David Fincher é um possível desdém pelo Oscar. Vez ou outra o diretor se refere ao prêmio, tanto a amigos como em entrevistas, como algo supervalorizado. Não foi diferente na nova Entertainment Weekly. Perguntado se alimenta esperanças sobre uma possível indicação ao Oscar, seria a terceira de sua carreira e em um espaço de cinco anos, Fincher minimizou: “Não vejo razão para tanta consternação. Até entendo o conceito do Oscar e se o filme ou meus colaboradores vão ser celebrados, acho válido, mas não estou nessa pelos prêmios”, declarou à publicação. Sorkin escreveu que Fincher queria ganhar o Oscar mais para não ouvir as condolências de colegas do que por qualquer outra razão. A ilação de Sorkin não se verifica no discurso algo agressivo preparado por Fincher em caso de vitória, que ele confidenciou a Sorkin. O curto texto dizia “finalmente respondemos a pergunta, maçãs ou laranjas?”, em uma alusão a dificuldade de julgar o melhor entre trabalhos tão diversos. Mas o David Fincher que recebeu o Globo de ouro em janeiro de 2011, ainda que marcado pelo ar superior que lhe é característico, não parecia descontente com o prêmio que acabara de receber.

Fincher e Justin Timberlake: todo mundo espera o momento em que o diretor será agraciado com uma merecida estatueta do Oscar 

Fincher e seu discurso de agradecimento pelo prêmio de melhor diretor no último Globo de ouro: arrogante, como esperado...


A pergunta que se coloca é: David Fincher quer ganhar um Oscar? Merecer, ele merece. É dos cineastas mais inventivos da atualidade. Visualmente arrebatador, demonstra perícia em termos de linguagem e astúcia narrativa. O Oscar é mais do que um selo de legitimidade. É um símbolo vivo e perene de imortalidade artística. David Fincher sabe disso. Sabe também que a espera pode ser ingrata. Está aí Martin Scorsese para provar. Sabe também que o reconhecimento prescinde do Oscar. Hitchcock e Kubrick podem ser aventados nesse segmento. Mas é através de seu desdém, em tom cada vez mais agressivo, que pode-se tangenciar uma resposta mais provável e a velha máxima do “quem desdenha quer comprar” se aplica aqui.
Muitos estranharam quando David Fincher renunciou ao “filme cerebral” para rodar o emocional, ainda que muito contido, O curioso caso de Benjamim Button -  que lhe valeu sua primeira indicação. Foi justamente nessa época, quase que como resposta instintiva às ilações da imprensa, que Fincher começou a dar de ombros para a honraria máxima do cinema. Não que ele tenha feito O curioso caso de Benjamin Button para ganhar o Oscar, mas não dá para excluir as variantes da escolha. O próprio perfil que Sorkin fez do amigo, com uma inclinação óbvia de campanha em prol de Fincher no Oscar, revela que o descaso não é tão efetivo assim. A vaidade não permite que Fincher admita sua ansiedade, mas ela está lá. Arisca e cortejada por todos que a pressentem.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Momento Claquete # 23

As irmãs Fanning, Dakota e Elle, em editorial de moda exclusivo da edição de dezembro da revista W 


Justin Timberlake segura o tchan para um dos cliques da edição de novembro da Esquire Britânica 

Uma das fotos que constam do miolo da Rolling Stone americana de dezembro que tem George Clooney na capa confessando, entre outras coisas, que perdeu a virgindade aos 16 anos. O que o próprio considera ter sido muito cedo 


Gary Oldman e sua esposa, a cantora Alexandra Edenborough, compareceram ao Governor´s awards no último fim de semana em que a academia concedeu os Oscars honorários a Oprah Winfrey, James Earl Jones e ao maquiador Dick Smith

Steve McQueen e Michael Fassbender, diretor e protagonista de Shame, também compareceram ao evento. Ambos tentar angariar votos para o polêmico filme na temporada de premiações

Steven Spielberg e Jamie Bell compareceram à premiere francesa de As aventuras de Tintin. O filme vêm recebendo críticas mistas e já preocupa quanto ao seu desempenho nas bilheterias 

Ashley Greene posa para fotos junto aos fãs na premiere americana de Amanhecer-parte 1, realizada em Los Angeles na segunda-feira (14) 

Daniel Craig e Rooney Mara estampam a capa desta semana da Entertainement Weekly. Para a revista, o filme de David Fincher é o blockbuster do final de ano

sábado, 17 de setembro de 2011

Em off

Nesta edição de Em off, as melhores séries em cartaz na tv e aquela que já não é mais a mesma; os destaques da cerimônia do Emmy do próximo domingo; a sina dos remakes; uma brincadeira cinéfila que é o maior barato; alguns bons filmes para ver no conforto de sua casa e as últimas do festival de cinema de Toronto. 


Toronto updated!
Com o fim já à espreita, indústria e crítica já começam a elaborar o saldo do festival de Toronto 2011. A primeira assunção traz um componente tão alarmante quanto entusiasmante. O não surgimento de “front runners”, como o metiê costuma delimitar aqueles filmes cujo burburinho em Toronto lhes encaminham rumo ao Oscar, esboça um cenário um tanto diferente. Ano passado, para se ter uma ideia, Cisne negro, 127 horas e O discurso do rei surgiram como oscarizáveis em Toronto. Para veículos como The Guardian, Empire e The Hollywood reporter, esse quadro denota dois possíveis cenários. No primeiro deles, o ano apresentaria um novo alvorecer dos filmes de estúdio (J.Edgar, de Clint Eastwood, Tudo pelo poder, de George Clooney, Os homens que não amavam as mulheres, de David Fincher e Moneyball, de Bennett Miller – o filme que mais polarizou atenções em Toronto até o momento). No segundo cenário, a hipótese aventada é de que o ano prima por um equilíbrio maior, afinal produções como Shame, de Steve McQueen, Killer Joe, de William Friedkin, Anonymous, de Roland Emmerich e Friends with the kids, de Jennifer Westfeldt se não arrebataram, causaram ótimas impressões.



Previsões para o Emmy!
No próximo domingo serão entregues os prêmios Emmy que consagram o que de melhor foi produzido no ano na TV americana. Diferentemente do que ocorreu no Globo de ouro e no SAG, Mad men deve prevalecer como melhor série dramática e manter sua hegemonia. Boardwalk Empire, que traz a grife Martin Scorsese e prevaleceu nos outros dois prêmios, continua sendo uma ameaça. A mesma proporção se dá na disputa dos atores dramáticos. Jon Hamm, por Mad men, parece ser a bola da vez. Indicado e preterido por três anos consecutivos, ele parece um nome mais certo do que o de Steve Buscemi que debuta por Boardwalk Empire.
Juliana Marguiles (The good wife), que não venceu no ano passado contrariando prognósticos da crítica, não parece ter desafiante à altura esse ano, senão a sempre competente Elizabeth Moss da prestigiada Mad men.
Entre as comédias, Modern Family deve prevalecer novamente e valer a seu elenco de coadjuvantes prêmios. Carlos e Mildred Pierce, com destaque para a segunda, centralizam as atenções em filmes e minisséries feitos para a TV. Contudo, o elenco de The Kennedys pode roubar alguns prêmios.


Brincadeira de cinéfilo
Uma das maiores diversões de cinéfilos criativos é fazer mash ups. A ideia é juntar um ou mais filmes sob critérios tão díspares como um ator em comum, um diretor, uma frase, um gênero e por aí vai... Existem mash ups célebres na internet com trailers, músicas e tudo o mais. A revista Empire promove, já há algum tempo, um concurso de mash up de pôsteres entre seus leitores. São muitas as categorias. De Alfred Hitchcock a Quentin Tarantino. Claquete selecionou alguns dos melhores para seus leitores:








Remakes e remakes

Geralmente elas são amaldiçoadas pela desconfiança e provocam todo o tipo de calúnia e difamação. De vez em quando, salvam o dia e relegam o original ao escrutínio dos historiadores. Estamos falando das refilmagens. Neste fim de semana estréia no Brasil mais uma polêmica. Conan – o bárbaro é dirigido por Marcus Nispel, que tem em seu currículo só refilmagens. A especialidade do diretor alemão não salvou guardou sua mais recente cria do infortúnio com a crítica. Outra refilmagem de um clássico dos anos 80 deve chegar por aqui no mês que vem. A hora do espanto traz Colin Farrel no papel do vampirão que fez a fama de Chris Sarandon. Diferentemente de Conan, esse remake agradou. Outras refilmagens de fitas de terror daquele período, no entanto, não tiveram a mesma sorte. Um exemplo é A hora do pesadelo, que apesar da boa bilheteria que vez no verão americano do ano passado, não agradou à crítica.
Mas refilmagem também é coisa de diretor sério. Steven Soderbergh chamou o chapa George Clooney e pôs Frank Sinatra no bolso com sua reimaginação para Ocean´s eleven (Onze homens e um segredo). E se Martin Scorsese pôde ganhar seu sonhado Oscar com uma refilmagem (Os infiltrados), por que não David Fincher? Talvez isso tenha passado pela cabeça do diretor de Seven na hora de aceitar o desafio de rodar a versão americana de Os homens que não amavam as mulheres – que estréia em dezembro nos EUA. Fincher também estará a frente das continuações – também refilmagens.
O olho gordo de Hollywood não deixa nem mesmo o tempo passar. A Warner Brothers acabou de anunciar que irá produzir uma refilmagem americana para o vencedor do Oscar de filme estrangeiro O segredo dos seus olhos. O filme argentino, de dois anos atrás, terá sua contraparte americana dirigida por Billy Ray e pode ter Denzel Washington como o “Ricardo Darín americano”. Resta saber se esse remake está destinado a glória ou ao ridículo.

Rooney Mara em cena de Os homens que não amavam as mulheres, de David Fincher: "o final é diferente", garantiu o diretor americano


Sessões em casa!
Os próximos dias trazem ótimas pedidas para o bom e velho cineminha em casa. Neste sábado, 17 de setembro, o Telecine Premium estréia o excelente Wall street: o dinheiro nunca dorme, de Oliver Stone. O filme, que entrou no TOP 10 dos melhores filmes de 2010 no blog, mostra o regresso de Gordon Gekko (Michael Douglas) ao mundo das finanças na esteira da crise econômica global de 2008. A HBO estréia, no mesmo dia e horário, a boa comédia de ação Os perdedores. O filme tem no elenco Chris Evans, Jeffrey Dean Morgan e Zoe Saldana e será reapresentado na quarta-feira, dia 21 de setembro, às 22h.
Segunda-feira, dia 19 de setembro, o Telecine Premium exibe Vício Frenético, de Werner Herzog. Uma boa pedida para quem deseja ver uma das últimas boas atuações de Nicolas Cage no cinema.
Já no sábado, dia 24 de setembro, o Telecine Cult destaca dois filmes do grande Charles Chaplin. Às 20h25min será exibido Tempos modernos e logo depois, às 22h, O grande ditador. Para fechar o pool de indicações, no dia seguinte, às 22h no mesmo canal, será exibido A conversação, um dos melhores filmes de Francis Ford Coppola.



As melhores séries na sua TV...
Em tempos de Emmy, convém apontar o que de melhor está em exibição na TV brasileira em termos de séries. Três programas chamam a atenção pela qualidade narrativa, ousadia da proposta e pelo esmero na produção. "Os Bórgias" (em cartaz no TCM), "Prófugos" (em cartaz na HBO) e "Spartacus: blood and sand" (em cartaz no FX) guardam muito pouco em comum.
A primeira trata de um dos papados mais polêmicos de toda a história da igreja católica. Com produção e direção do cineasta Neil Jordan e com Jeremy Irons a frente de um elenco sofisticado, "Os Bórgias" é uma série inteligente, intrigante e com alta voltagem sexual. “É como se fossem Os Sopranos no Vaticano”, explicou Jordan em uma coletiva para divulgar a série que já teve sua segunda temporada confirmada. O TCM exibe a primeira temporada aos domingos às 22h com reprises as terças no mesmo horário.
"Prófugos" é a nova produção original da divisão latina da HBO. A primeira série chilena do canal é um exemplar de ação que não fica nada a dever aos melhores filmes de espionagem dos anos 70. Com excelente direção de arte, fotografia impactante, roteiro envolvente, personagens bem delineados e uma trama vertiginosa, "Prófugos" acompanha um quarteto de traficantes caçados por polícia e congêneres após uma mal sucedida transação. Mas a sinopse não cobre nem metade do potencial da série.
"Spartacus", que já foi exibida no país no canal Globosat HD, é a mais desprovida de predicados. O que não faz dela menos emocionante. Com cenas de ação maravilhosamente coreografadas, e um argumento capaz de cativar fãs de épicos, a produção do canal americano Starz tem fôlego de sobra. Resta saber como será a segunda temporada sem o protagonista Andy Whitfield, que faleceu recentemente de um câncer linfático.

Os Bórgias é um dos oásis de criatividade e inteligência na tv americana atualmente


... e aquela que já não é mais a mesma
A quarta temporada de "True blood", que já foi a série mais viciante da tv, acabou na última semana nos EUA. No Brasil, restam ainda dois episódios para o desfecho da temporada mais anêmica da série. Alan Ball, criador e produtor do programa, já declarou que o quinto ano deve ser focado na política vampírica; o que na prática representaria um regresso aos principais arcos do primeiro e melhor ano do programa. De qualquer forma, dificilmente algum outro ano será inferior a este. O hype ficou tão grande que nem bruxas, fadas, lobisomens, panteras e metamorfos podem ajudar os vampiros de Bom temps com seu sex appeal.