Afinal, David Fincher quer ou não quer um Oscar?
É sabido que David Fincher é dos cineastas mais cultuados da Hollywood atual. Seu cinemal cerebral foi altamente celebrado pela crítica no final dos anos 90 e começo da década passada com filmes como Seven (1996), Clube da luta (1999) e Zodíaco (2007). O refinamento técnico de Fincher lhe valeu a fama de perfeccionista irritadiço. São célebres e famosas suas inclinações a longos e repetidos takes. Gente como Jesse Eisenberg, Elle Fanning, Kristen Stewart, Rooney Mara e o amigo Brad Pitt já discorreram sobre a predisposição do diretor de capturar o máximo de material para dispor na sala de edição. Fincher já se viu impelido a justificar-se sobre essa “característica” em variadas entrevistas. A mais detalhista foi uma concedida às vésperas do Oscar 2011, no qual concorria pela direção de A rede social, em que comentou, entre outras coisas, sobre sua forma de trabalhar e o por que da necessidade de fazer exatas 97 tomadas da cena inicial de A rede social.
Agora, às vésperas do lançamento de Os homens que não amavam as mulheres, David Fincher volta à bateria de entrevistas promocionais. Recentemente foi tema de um perfil lisonjeiro do amigo Aaron Sorkin, com quem colaborou no oscarizado A rede social, na revista Vanity Fair. Seu novo filme, que é ventilado –ainda que timidamente - para o Oscar 2012, é capa da edição de 18 de novembro da revista Entertainment Weekly e o diretor se vê, mais uma vez, no centro da constante boataria sobre os possíveis indicados ao Oscar.
Com uma filmografia curta, mas com filmes cada vez mais constantes, de extrema coerência e qualidade, David Fincher é tido, também, como um sujeito arrogante. Há quem diga em Hollywood que ele só participa de entrevistas e eventos promocionais por força contratual. O perfil de Sorkin na Vanity Fair, que pode ser lido aqui, não desmente tais boatos. Os relativiza. Outro rumor que sonda David Fincher é um possível desdém pelo Oscar. Vez ou outra o diretor se refere ao prêmio, tanto a amigos como em entrevistas, como algo supervalorizado. Não foi diferente na nova Entertainment Weekly. Perguntado se alimenta esperanças sobre uma possível indicação ao Oscar, seria a terceira de sua carreira e em um espaço de cinco anos, Fincher minimizou: “Não vejo razão para tanta consternação. Até entendo o conceito do Oscar e se o filme ou meus colaboradores vão ser celebrados, acho válido, mas não estou nessa pelos prêmios”, declarou à publicação. Sorkin escreveu que Fincher queria ganhar o Oscar mais para não ouvir as condolências de colegas do que por qualquer outra razão. A ilação de Sorkin não se verifica no discurso algo agressivo preparado por Fincher em caso de vitória, que ele confidenciou a Sorkin. O curto texto dizia “finalmente respondemos a pergunta, maçãs ou laranjas?”, em uma alusão a dificuldade de julgar o melhor entre trabalhos tão diversos. Mas o David Fincher que recebeu o Globo de ouro em janeiro de 2011, ainda que marcado pelo ar superior que lhe é característico, não parecia descontente com o prêmio que acabara de receber.
Fincher e Justin Timberlake: todo mundo espera o momento em que o diretor será agraciado com uma merecida estatueta do Oscar
Fincher e seu discurso de agradecimento pelo prêmio de melhor diretor no último Globo de ouro: arrogante, como esperado...
A pergunta que se coloca é: David Fincher quer ganhar um Oscar? Merecer, ele merece. É dos cineastas mais inventivos da atualidade. Visualmente arrebatador, demonstra perícia em termos de linguagem e astúcia narrativa. O Oscar é mais do que um selo de legitimidade. É um símbolo vivo e perene de imortalidade artística. David Fincher sabe disso. Sabe também que a espera pode ser ingrata. Está aí Martin Scorsese para provar. Sabe também que o reconhecimento prescinde do Oscar. Hitchcock e Kubrick podem ser aventados nesse segmento. Mas é através de seu desdém, em tom cada vez mais agressivo, que pode-se tangenciar uma resposta mais provável e a velha máxima do “quem desdenha quer comprar” se aplica aqui.
Muitos estranharam quando David Fincher renunciou ao “filme cerebral” para rodar o emocional, ainda que muito contido, O curioso caso de Benjamim Button - que lhe valeu sua primeira indicação. Foi justamente nessa época, quase que como resposta instintiva às ilações da imprensa, que Fincher começou a dar de ombros para a honraria máxima do cinema. Não que ele tenha feito O curioso caso de Benjamin Button para ganhar o Oscar, mas não dá para excluir as variantes da escolha. O próprio perfil que Sorkin fez do amigo, com uma inclinação óbvia de campanha em prol de Fincher no Oscar, revela que o descaso não é tão efetivo assim. A vaidade não permite que Fincher admita sua ansiedade, mas ela está lá. Arisca e cortejada por todos que a pressentem.




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