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sábado, 19 de outubro de 2013

Especial O quinto poder - Os barões do digital



A rede social foi o primeiro. Este ano, já tivemos Jobs, em que Ashton Kutcher emulou com diferentes resultados o criador da Apple Steve Jobs, Os estagiários, para o qual muita gente torceu o nariz por ser uma propaganda assumida (ainda que espirituosa) do Google, e agora O quinto poder, sobre a figura cercada de curiosidade e polêmicas de Julian Assange, o criador do Wikileaks. Em comum, esses filmes tem mais do que sua contemporaneidade e o fato de serem essencialmente sobre sites, revolução nos costumes, e as pessoas que estão por trás disso. Eles refletem uma mudança que está cada vez mais embrenhada em nossa sociedade. Sete das dez empresas mais poderosas do mundo estão ligadas ao digital e à internet de alguma forma, inclusive as duas primeiras (Apple e Google). O Wikileaks obteve protagonismo e pautou a mídia internacional e, em nítida influência da ação do Wikileaks, o ex-funcionário da NSA (agência de segurança nacional dos EUA), Edward Snowden faz o mesmo no tocante as acusações de espionagem pelos EUA.
A dinâmica mudou, a linguagem mudou e a sociedade está mudando nesse compasso. É esse novo status quo que o cinema hollywoodiano tenta capturar focalizando, em um primeiro momento, nos precursores dessa transformação. Há mais filmes sobre Assange e Jobs no forno. Há o Netflix, que enseja mudanças na regra do jogo, e toda uma expectativa sobre como os barões do digital vão mudar nosso jeito de viver e, claro, de ver filmes.
Nesse sentido, A rede social – o épico sobre ganância e empreendedorismo dos novos tempos urdido por David Fincher – é o principal parâmetro. O filme captura brilhantemente o espírito da geração y e sua maneira de se relacionar entre si e com as demais gerações. É esse o alicerce diegético emerso da nova realidade.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Claquete 4 anos - Dez filmes mais significativos dos últimos quatro anos

Não se trata dos melhores filmes produzidos durante a existência do blog. Como o período de quatro anos é relativamente curto para se dimensionar uma lista como essa, e o blog publicou em todos os anos os melhores filmes de cada ano, seria redundante tornar a fazê-lo ainda que de forma englobada. A proposta aqui é lançar um olhar plural e complexo sobre a atividade cinematográfica nesses quatro anos. Os filmes que apontaram os caminhos que o cinema está seguindo, aqueles cujas narrativas reverberam e influenciam o cinema moderno, o maior sucesso de público da história, o maior sucesso de público do cinema nacional, o cinema como fórum e faculdade da arte e por aí vai. A ideia desse top 10 é apresentar os dez filmes mais significativos, não essencialmente melhores, de 2009 para cá. Um brinde à existência de Claquete, que chamou a atenção e contextualizou seu público sobre esses filmes e as reminiscências deles, à época de seus lançamentos.

10 – Avatar (EUA 2009), de James Cameron
É inegável que o épico de aventura de James Cameron, indicado a nove Oscars, engatilhou o 3D em sua potência máxima no cinema. Seria essa a grande importância do filme, se Avatar não tivesse quebrado todos os recordes possíveis e imagináveis de bilheteria com U$ 2, 7 bilhões em faturamento. Não obstante, a fita de Cameron é uma aventura de encher os olhos. Seja pela tecnologia de ponta que viabilizou o universo de Pandora, seja pela narrativa bem amarrada pelo diretor.

9 – Toy story 3 (EUA 2010), de Lee Unkrich
Três das melhores bilheterias de 2013 são animações. Essa estatística não deve mudar até o fim do ano. Ela ocorre em parte pelo maior volume de produções, mas principalmente pela qualidade delas. As animações se segmentaram, mas em essência se ratificaram como um gênero familiar – o que é raro na Hollywood atual. As receitas avantajadas calcadas em qualidade tem como símbolo o fecho de uma das melhores trilogias do cinema. Toy Story 3 é sintomático do sucesso da Pixar enquanto estúdio e seara criativa, com prêmios da crítica e da indústria e mais de U$ 1 bilhão em bilheteria.

8 – Distrito 9 (EUA/AFS 2009), de Neill Blomkamp
Não é nenhum exagero apontar Distrito 9 como a ficção científica mais eloquente e politicamente assertiva dos últimos 30 anos. Talvez desde Blade Runner, o caçador de androides (1982) nossa humanidade não tenha sido tão bem abordada pelo gênero. A discussão sobre desigualdade social é um plus desse cativante filme de estreia do sul africano Blomkamp na direção. Com produção de Peter Jackson, Distrito 9 foi uma surpresa em 2009 e sua resiliência garante o interesse pela continuidade da carreira do diretor.

Cena de Distrito 9: a ficção científica com instrumento de compreensão de nossas imperfeições e fragilidades

7 – A origem (EUA 2010), de Christopher Nolan
Nesses quatro anos não houve filme tão original ou provocativo quanto esse tento cinematográfico de Christopher Nolan. Apenas essa razão já lhe garantiria lugar nessa lista, mas A origem é um marco, também, por ser uma produção de grande orçamento estritamente original bem sucedida em uma época de pane criativa em Hollywood em que os grandes orçamentos vão todos para adaptações e refilmagens nem sempre desejáveis.

6 – Tropa de elite 2 – o inimigo agora é outro (Brasil 2010), de José Padilha
Esse talvez seja o filme mais fraco, irregular e desonesto intelectualmente da lista. Talvez. Mas é inegável que o maior sucesso de público da história do cinema brasileiro é, também, um brilhante exercício de gênero com um desenvolvimento complexo e bem estruturado de personagens e uma técnica de equivalência hollywoodiana. Por essa grandeza bem desenhada, do tipo “cinema é a nossa praia”, Tropa de elite 2 não poderia deixar de figurar nessa lista.

5 – Shame (ING 2011), de Steve McQueen
Desprover a nudez de erotismo é um exercício de estilo que apenas artistas plásticos de alto gabarito são capazes de configurar. Fazê-lo em um filme que discute o sexo só comprova o talento do artista plástico e cineasta Steve McQueen para canalizar no cinema estética e narrativa em direcionamentos antagônicos, mas complementares. Shame é um filme todo pensado para causar impacto. Sensorial, emotivo e intelectual. Um tipo de cinema que não se vê por aí.

Desejo e perdição: Shame é um filme que aliou vigor estético a despudor narrativo como poucos na existência de Claquete

4- César deve morrer (ITA 2012), de Paolo Taviani e Vittorio Taviani
Os limites e o alcance da arte são encorpados nesse vitorioso filme italiano que acompanha presidiários ensaiando e encenando uma peça shakespeariana. As linhas que separam documentário e ficção se perdem em um neologismo cinematográfico poderoso e cheio de sentido. A gramática do cinema é relativizada e renovada por realizadores dispostos a pensar fora da caixa.

3– Cópia fiel (FRA/ITA/BEL 2010), de Abbas Kiarostami
Outro filme que discute os limites entre arte e cópia. Representação e autenticidade. Kiatostami expande seu comentário do mundo da arte ao casamento em um filme de linguagem moderna e obstinação ímpar. O próprio filme se apresenta ao espectador como um produto a mercê de sua interpretação. Estamos diante de uma obra autêntica ou de uma simulação bem engendrada?

2– Bastardos inglórios (FRA/EUA/ALE 2009), de Quentin Tarantino
O auge de um autor sempre merece destaque. No cinema americano, Quentin Tarantino – encontrando par em Terrence Malick – é o grande polarizador em matéria de cinema autoral. Bastardos inglórios, para todos os efeitos sua obra-prima, é uma apólice de seguro de Tarantino para a posteridade. O filme que ousou reescrever um dos capítulos mais tristes da humanidade com irreverência, catarse, violência e legendas. Muitas legendas para o público americano.

1-A rede social (EUA 2010), de David Fincher
É o filme da geração Y, dizem muitos por aí. É verdade. Mas A rede social é muito mais. Um dos roteiros mais brilhantes jamais feitos é um filme sobre nosso tempo, tanto em sua organização narrativa – de diálogos em velocidade da luz e cortes multifacetados – como em sua narrativa épico-existencial sobre jovens erguendo impérios digitais e desvinculando-se de laços vívidos reais.  
Não à toa comparado a Cidadão Kane, A rede social é um filme que cresce de tamanho a cada revisão.

O maior de seu tempo: A rede social é o filme testamento de uma geração e de uma linguagem cinematográfica moderna 

domingo, 20 de novembro de 2011

Insight

Afinal, David Fincher quer ou não quer um Oscar?


É sabido que David Fincher é dos cineastas mais cultuados da Hollywood atual. Seu cinemal cerebral foi altamente celebrado pela crítica no final dos anos 90 e começo da década passada com filmes como Seven (1996), Clube da luta (1999) e Zodíaco (2007). O refinamento técnico de Fincher lhe valeu a fama de perfeccionista irritadiço. São célebres e famosas suas inclinações a longos e repetidos takes. Gente como Jesse Eisenberg, Elle Fanning, Kristen Stewart, Rooney Mara e o amigo Brad Pitt já discorreram sobre a predisposição do diretor de capturar o máximo de material para dispor na sala de edição. Fincher já se viu impelido a justificar-se sobre essa “característica” em variadas entrevistas.  A mais detalhista foi uma concedida às vésperas do Oscar 2011, no qual concorria pela direção de A rede social, em que comentou, entre outras coisas, sobre sua forma de trabalhar e o por que da necessidade de fazer exatas 97 tomadas da cena inicial de A rede social.
Agora, às vésperas do lançamento de Os homens que não amavam as mulheres, David Fincher volta à bateria de entrevistas promocionais. Recentemente foi tema de um perfil lisonjeiro do amigo Aaron Sorkin, com quem colaborou no oscarizado A rede social, na revista Vanity Fair. Seu novo filme, que é ventilado –ainda que timidamente - para o Oscar 2012, é capa da edição de 18 de novembro da revista Entertainment Weekly e o diretor se vê, mais uma vez, no centro da constante boataria sobre os possíveis indicados ao Oscar.
Com uma filmografia curta, mas com filmes cada vez mais constantes, de extrema coerência e qualidade, David Fincher é tido, também, como um sujeito arrogante. Há quem diga em Hollywood que ele só participa de entrevistas e eventos promocionais por força contratual. O perfil de Sorkin na Vanity Fair, que pode ser lido aqui, não desmente tais boatos. Os relativiza. Outro rumor que sonda David Fincher é um possível desdém pelo Oscar. Vez ou outra o diretor se refere ao prêmio, tanto a amigos como em entrevistas, como algo supervalorizado. Não foi diferente na nova Entertainment Weekly. Perguntado se alimenta esperanças sobre uma possível indicação ao Oscar, seria a terceira de sua carreira e em um espaço de cinco anos, Fincher minimizou: “Não vejo razão para tanta consternação. Até entendo o conceito do Oscar e se o filme ou meus colaboradores vão ser celebrados, acho válido, mas não estou nessa pelos prêmios”, declarou à publicação. Sorkin escreveu que Fincher queria ganhar o Oscar mais para não ouvir as condolências de colegas do que por qualquer outra razão. A ilação de Sorkin não se verifica no discurso algo agressivo preparado por Fincher em caso de vitória, que ele confidenciou a Sorkin. O curto texto dizia “finalmente respondemos a pergunta, maçãs ou laranjas?”, em uma alusão a dificuldade de julgar o melhor entre trabalhos tão diversos. Mas o David Fincher que recebeu o Globo de ouro em janeiro de 2011, ainda que marcado pelo ar superior que lhe é característico, não parecia descontente com o prêmio que acabara de receber.

Fincher e Justin Timberlake: todo mundo espera o momento em que o diretor será agraciado com uma merecida estatueta do Oscar 

Fincher e seu discurso de agradecimento pelo prêmio de melhor diretor no último Globo de ouro: arrogante, como esperado...


A pergunta que se coloca é: David Fincher quer ganhar um Oscar? Merecer, ele merece. É dos cineastas mais inventivos da atualidade. Visualmente arrebatador, demonstra perícia em termos de linguagem e astúcia narrativa. O Oscar é mais do que um selo de legitimidade. É um símbolo vivo e perene de imortalidade artística. David Fincher sabe disso. Sabe também que a espera pode ser ingrata. Está aí Martin Scorsese para provar. Sabe também que o reconhecimento prescinde do Oscar. Hitchcock e Kubrick podem ser aventados nesse segmento. Mas é através de seu desdém, em tom cada vez mais agressivo, que pode-se tangenciar uma resposta mais provável e a velha máxima do “quem desdenha quer comprar” se aplica aqui.
Muitos estranharam quando David Fincher renunciou ao “filme cerebral” para rodar o emocional, ainda que muito contido, O curioso caso de Benjamim Button -  que lhe valeu sua primeira indicação. Foi justamente nessa época, quase que como resposta instintiva às ilações da imprensa, que Fincher começou a dar de ombros para a honraria máxima do cinema. Não que ele tenha feito O curioso caso de Benjamin Button para ganhar o Oscar, mas não dá para excluir as variantes da escolha. O próprio perfil que Sorkin fez do amigo, com uma inclinação óbvia de campanha em prol de Fincher no Oscar, revela que o descaso não é tão efetivo assim. A vaidade não permite que Fincher admita sua ansiedade, mas ela está lá. Arisca e cortejada por todos que a pressentem.

quinta-feira, 3 de março de 2011

OSCAR WATCH 2011 - O saldo da temporada de premiações

A temporada do Oscar chega ao fim com um indefectível gosto agridoce. Além de dois filmes multipremiados, o que não acontecia pelo menos desde 2007 quando Pequena Miss Sunshine e Os infiltrados dividiram a maior parte das glórias na temporada e ainda teve Babel levando o Globo de ouro, a Oscar season 2011 acaba com um certo estranhamento. Como se já tivéssemos visto esse filme antes; gostado e, agora, na revisão não gostado tanto assim.
A consagração de O discurso do rei no Oscar já foi analisada, contestada e saudada a torto e a direito em todos os veículos midiáticos que se prezam, inclusive aqui em Claquete. O que parece escapar aos formadores de opinião é que a premiação agradou grande parte do público. Foi um voto conservador? Sem dúvida. Previsível? Totalmente. Mas não é só a academia que gosta de se refestelar sobre esses conceitos. O público médio também. Isso ajuda a explicar porque O discurso do rei vem tendo um crescimento de 30% por semana nas bilheterias internacionais e mantém-se estável nas bilheterias americanas mesmo estando em cartaz há quase três meses. O vencedor, por exemplo, que está em exibição nos EUA pelo mesmo período, teve sua bilheteria impulsionada pelas indicações ao Oscar, mas depois voltou a sua curva de crescimento normal. O filme tinha o seu público. O público de O discurso do rei (que antes do Oscar de domingo já totalizava uma bilheteria mundial de U$ 230 milhões) é muito mais amplo. Esse dado ajuda a entender a decisão da academia. É um filme clássico, que agrada uma platéia diversificada – justamente por não se experimentar tanto – e que tem em seu academicismo um trunfo que não se pode negar: o público que aprecia O discurso do rei identifica nele um material de Oscar. Ainda que a crítica não aceite, esse fator é preponderante. Afinal, seguindo critérios bem rudimentares, para se premiar um filme, é preciso gostar dele. Em seu conservadorismo ilibado não é possível desgostar de O discurso do rei enquanto filme, ainda que seja passível questioná-lo enquanto cinema.
O jornal O Globo, em matéria publicada na última terça-feira, apresentou forte descontentamento de integrantes de variadas frentes dentro da academia com o resultado do Oscar do último domingo. O que parece em sintonia com a crítica internacional pressupõe que os votos dos acadêmicos se concentraram em dois filmes: A rede social e O discurso do rei.

Os donos do Oscar: David Seidler e Tom Hooper, roteirista e diretor de O discurso do rei, exibem os Oscars recebidos no último domingo


O saldo, no entanto, se revela positivo. Ao agonizar entre propostas conservadoras (O discurso do rei) e arrojadas (Onde os fracos não têm vez e Os infiltrados), o Oscar se impõe na fronteira da mudança. Ação e reação. Assim como a guinada conservadora de 2011 é fruto dos resultados dos últimos anos, é prudente supor que surge nas entranhas da academia um embrião de mudança. Os quatro prêmios para A origem, os três de A rede social e a tentativa, ainda que malfadada, de rejuvenescer a cerimônia apontam para um movimento itinerante que, se o destino ainda é desconhecido, desanuvia-se como promessa de bons tempos. É necessário, contudo, que a safra ajude.
Por ironia, sai fortalecida dessa temporada a Hollywood Foreign Press association (HFPA) que distribui o Globo de ouro. Premiou um filme melhor que o Oscar (diferentemente do que ocorrera no ano anterior), teve um host melhor e não teve a crítica buzinando e iluminando seus desacertos. Para o Oscar, para o globo de ouro e para todos os cinéfilos que ficam em polvorosa nessa época, nada melhor do que um ano após o outro.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

OSCAR WATCH 2011 - Crítica dos vencedores do Oscar


Aplausos para que te quero: na primeira fila do teatro Kodak figuraram os indicados Helena Bonhan Carter, Javier Bardem, Colin Firth e Michelle Williams



Aconteceu o que muitos esperavam. O discurso do rei foi coroado o melhor filme de 2010 e a cerimônia do Oscar, o programa de TV, depois dos anos de ascensão em termos qualitativos, foi frustrante.
James Franco e Anne Hathaway não conseguiram segurar as pontas. Se ela deixou transparecer que se esforçava, James Franco se preocupou em transparecer que pouco se esforçava. De qualquer jeito, as piadas não funcionaram e o show foi dos mais modorrentos dos últimos anos. Nem o tom mais sóbrio e o ritmo mais apurado favoreceram a cerimônia. A performance apagada dos hosts fez a audiência se efervescer com a rápida aparição de Billy Crystal. Depois de duas acertadas escalações (Hugh Jackman em 2009 e a dupla Steve Martin e Alec Baldwin no ano passado), o Oscar 2011 pode ser lido como um retrocesso nesse departamento.
Mas não foi apenas esse o retrocesso que marcou a noite. A vitória de O discurso do rei, embora não tenha sido tão exagerada quanto se anunciava, afirmou o que se pressentia. A academia se ressentiu da influência exercida pela crítica no ano passado (que culminou na vitória de Guerra ao terror). Somam-se a esse fator o peso de Harvey Weinstein em uma campanha de Oscar e todos aqueles fatos já bastante debatidos durante a Oscar season: enquanto A rede social primava pela análise, esquivando-se da emoção, O discurso do rei a abraçava despudoradamente. É muito mais fácil gostar de um filme assim. E o Oscar, importante sempre pontuar isso, é um prêmio sincero. Foi premiado o filme que caiu nas graças da academia. No entanto, esse dado não afugenta certas críticas. A guinada conservadora, enunciada nas indicações, pode ser tolerada desde que justificada em si mesma. Não é o caso. Fosse isso, a vitória de O discurso do rei se daria da forma maiúscula como de outro equívoco recente da academia, Quem quer ser um milionário? (ainda que dentro de um escopo diferente). O que se viu foi o triunfo de um marketing bem engendrado. Ficou provado, também, que campanha difamatória não vinga quando feita abertamente. A crítica resmungou e vociferou contra O discurso do rei, mas não obteve reverberação.

Os filmes do ano


Os eleitos do ano: após um mal fadado número musical, os
vencedores do Oscar 2011 se reúnem no centro do palco
 Claquete já havia sinalizado para um Oscar pulverizado. E, mais que isso, para uma divisão entre o moderno e o tradicional. Não poderia haver indicativo mais claro disso do que a distribuição final das estatuetas. A origem (Efeitos especiais, som, edição de som e fotografia) e O discurso do rei (filme, direção, ator e roteiro original) dividem o topo com quatro prêmios. O filme inglês, obviamente, se avantaja nos critérios de desempate. Mas logo em seu encalço vem A rede social, com três merecidíssimos prêmios (montagem, trilha sonora e roteiro adaptado). O vencedor, Toy story 3 e Alice no país das maravilhas chegam logo atrás com dois Oscars cada.
O conservadorismo da academia em 2011 foi ombreado com a vontade de pensar o novo. A rede social tinha defensores vorazes, como mostrou a espirituosa fala de Steven Spielberg antes de anunciar o melhor filme do ano. A origem ganhou mais prêmios do que muitos davam por certo e as trapalhadas dos favoritos na categoria de coadjuvantes não exerceram o pendor negativo que costumam, tratando-se de rigor acadêmico.
O Oscar 2011, infelizmente, será lembrado como um ano de injustiças. Ainda que elas tenham sido poucas e subjetivas. Contudo, como A rede social é um filme destinado a grandeza, esse julgamento será inevitável. Uma pena que a academia hesite em reinventar-se por completo. Há fragmentos de uma reinvenção em curso. A vitória do obscuro Os infiltrados (2007), do pessimista Onde os fracos não tem vez (2008) e o ecletismo e equilíbrio da seleção de 2011 denotam isso.
Contudo, na hora H, o Oscar ainda prefere o porto seguro dos cânones cinematográficos. Não deixa de ser uma opção legítima. Mas também é uma opção engessada no tempo. Em descompasso com as transformações sociais, culturais e – em um controvertido reflexo – cinematográficas.

OSCAR WATCH 2011 - Cenas de Cinema: 83ª cerimônia do Oscar

A era de Harvey Weinstein
O momento em que Colin Firth lhe faz uma deferência e Harvey Weinstein lhe sorri com pose de poderoso chefão é antológico. Mais do que qualquer coisa, Harvey Weinstein sabe como vender um filme. O homem que dominou o Oscar nos anos 90 (e fez com que uma comédia triunfasse sobre um filme de guerra) novamente emplacou um filme fraco como o melhor do ano. O discurso do rei prevaleceu com 4 Oscars (filme, direção, ator e roteiro original) em uma noite que o único que parecia saltitar de satisfação era o poderoso chefão.


A era de Harvey Weinstein II
Interessante imaginar como será o Oscar quando Harvey Weinstein não mais estiver por aí. É pacífico que as campanhas continuarão e, provavelmente, serão ainda mais refinadas e agressivas. Contudo, dificilmente um produtor conseguirá reproduzir os ganhos de Weinstein. O homem que consegue elevar filmes medianos a Oscar winners.


A era de Harvey Weinstein III
Para se ter uma dimensão da influência, prestígio e escárnio de Harvey Weinstein, basta se ater ao clipe dos indicados a melhor filme. Com o off do discurso do rei George de Colin Firth, os coadjuvantes da noite eram apresentados em vultos que se inferiorizavam ante o grande momento do filme bancado por Weinstein. Muitos acharam uma bandeira da academia antecipando o vencedor da categoria. Não era o caso. Era Weinstein marcando o território. Tripudiando mesmo!


Juntando-se a Cidadão Kane


Coube a Steven Spielberg o tapa com luva de pelica. Escalado para entregar o Oscar de melhor filme, o diretor lembrou que um dos concorrentes se juntaria a filmes como Como era verde meu vale e Franco atirador, enquanto que os outros nove se juntariam a obras como Touro indomável, Rede de intrigas e Cidadão Kane. A inclusão desse filme em particular diz muito sobre o juízo que Spielberg faz dessa edição do Oscar. E não só ele.


Sobre uma má escolha

E demorou para chegar a este comentário. Isso por que, conforme as expectativas, James Franco e Anne Hathaway decepcionaram como apresentadores da 83ª cerimônia do Oscar. Desconectados da audiência, fora do tom, com piadas ruins e, no caso de Franco, aparentando desinteresse extremo, ambos foram vencidos pelo nervosismo. Nem a puxação de saco de Hathaway – a mais esforçada – para algumas celebridades (“grata de respirar o mesmo ar que ela”, ao apresentar Oprah Winfrey e “este é um grande momento para mim”, ao chamar Sandra Bullock para o palco) valeu de alguma coisa.


Porém...
A culpa não pode ser debitada apenas na conta deles. Apesar de em um minuto Billy Crystal arrancar mais risadas da platéia do que Franco e Hathaway em toda cerimônia, eles contaram com um péssimo texto. As piadas fracas (principalmente se comparadas a acidez de Ricky Gervais no Globo de ouro) empalideceram os atores que não conseguiram segurar o rojão de apresentar um espetáculo como a noite do Oscar.

Não deu certo: James Franco e Anne Hathaway não convenceram e receberam duras críticas pela performance apagada


A sanha dos estúdios

E Harvey Weinstein está com tudo mesmo. Das treze indicações que emplacou no Oscar (doze delas com O discurso do rei), converteu quatro vitórias. E nas categorias principais. A Warner teve bom desempenho. Com os quatro prêmios de A origem conseguiu um terço das doze indicações obtidas. Já a Paramount foi a grande derrotada da noite. O estúdio por trás dos badalados O vencedor e Bravura indômita só conquistou duas das dezoito indicações que ostentava. Uma derrota amargurada que só encontrou par no pífio desempenho das produções da Fox Searchlight. Com Cisne negro e 127 horas em disputa, o estúdio só conquistou um Oscar dos onze a que concorria. Quem teve ótimo aproveitamento, dadas as circunstâncias, foi a Universal. O poderoso e antigo estúdio só concorria na categoria de maquiagem com o filme O lobisomem. E levou.


You know...

Aos 94 anos e com profunda dificuldade para falar, Kirk Douglas foi o grande destaque da cerimônia do Oscar. O ator foi responsável pelo momento mais genuíno da noite em que na hora de anunciar a melhor atriz coadjuvante do ano segurou a tensão de todo o teatro ao engatar uma divagação com a interjeição “Vocês sabem de uma coisa...”.
Justin Timberlake, mostrando que se sairia melhor no ofício de host do que James Franco e Anne Hathaway, fez graça com a gag e a imortalizou como um dos grandes momentos dessa apagada 83ª cerimônia do Oscar.

O dono do pedaço: Kirk Douglas faz graça no palco e torna-se responsável pelo melhor momento de uma cerimônia sem sal



Sobre ironias
Não deixa de ter um componente de ironia a premiação do esquemático e tradicional O discurso do rei no Oscar em que imperaram as redes sociais. Do smartphone usado pelo apresentador Justin Timberlake (que estava no filme do Facebook) para iluminar a tela com a homenagem a Shrek às tweetadas do host James Franco e das mães dos indicados, passando por hits do Youtube com filmes tão díspares como A rede social e Eclipse. O Oscar 2011 se esforçou para atingir um público diversificado de maneira tão diversificada quanto. Mas furtou-se a responsabilidade de realmente parecer evoluído e conectado com os novos tempos.



A antisurpresa
Se podemos apontar uma surpresa no Oscar 2011 foi o fato de não ter acontecido uma. Existia a vã esperança de que a ala mais moderna da academia prevalecesse premiando A rede social ou mesmo as zebras Cisne negro e A origem, mas a expectativa real era de que David Fincher fosse sagrado o melhor diretor do ano em uma política de compensação bem característica da academia. Mas isso não ocorreu. A obviedade marcou presença e com sotaque inglês.

 
Listen to your mother!

E já que o melhor diretor do ano pelo Oscar foi Tom Hooper, não poderia haver um discurso mais formal e moralista em uma escolha mais conservadora. Hooper encerrou seu discurso lembrando que sua mãe em 2007 vira a leitura de uma peça em Londres de O discurso do rei. A matriarca disse para o filho que havia achado o material de seu próximo filme. Hooper dedicou o prêmio a mãe e fechou com a seguinte moral: “Escutem sua mãe!”



Mas antes...
Hooper fez questão de mencionar, tal qual fizera no Bafta, o triangulo amoroso que, em sua leitura, é a força motora de O discurso do rei. “Só estou aqui por causa de vocês (em referência a Geoffrey Rush e Colin Firth)... espero que essa deferência não a deixe com ciúmes (dirigindo o olhar para Helena Bonhan Carter)!”



Eternamente jovem
Tom Hooper juntou-se a Sam Mendes como o diretor mais jovem e inexperiente a ganhar o Oscar na categoria. Sam Mendes tinha 35 anos quando ganhou o Oscar por Beleza americana, então seu primeiro longa-metragem. Hooper, três anos mais velho em 2011, recolheu sua estatueta por seu quarto filme.



Nenhum deles está preso!
A bravata de Charles Ferguson, vencedor na categoria documentário por Trabalho interno, não reverberou. Ferguson aproximou-se do microfone já pedindo desculpas e emendou: “Já fazem três anos dessa crise financeira e nenhum de seus responsáveis está preso e isso é errado”, argumentou. Como uma carabina de Rooster Cogburn (personagem de Jeff Bridges em Bravura indômita) apressou-se em amolecer o discurso: “Mas isso aqui é sobre cinema”!


A Frase é...

"Quem quer explodir na indústria da música? É como um banco que já foi roubado!”,
O ganhador do Oscar Randy Newman no backstage quando indagado sobre um conselho para quem pretende explodir na indústria da música


Fucking yeah!
Melissa Leo viveu fortes emoções nessa temporada do Oscar. Depois de toda a controvérsia envolvendo sua campanha pelo Oscar, a atriz soltou um palavrão que acabou censurado pela TV americana (a transmissão do Oscar ocorre com um delay de um minuto). Forçando na emoção, Leo disse que quando viu Kate Winslet há dois anos tudo parecia mais fácil. Só que ela externou essa impressão usando a F...bomb, como ficou rapidamente conhecido o episódio


 
Playing for the audience!

Quem vê Christian Bale em seus discursos de agradecimento pelos prêmios conquistados por O vencedor nessa temporada não reconhece Christian Bale. Exibindo impensável humildade, o ator se permite algum senso de humor.”Meu deus! No meio de tanta gente inspiradora me pego pensando o que estou fazendo aqui”, declarou logo de cara ao empunhar o esperado Oscar. “Não se preocupem! Não vou soltar a F... bomb como Melissa!”, emendou para assegurar que se tratava de um Bale diferente o que ganhava o Oscar.

Senhoras e senhores, eu sou um novo homem...




Nem tão conservadora assim!
A vitória de O discurso do rei, ainda que não de forma maiúscula, deixa transparecer o ranço conservador da academia. Em contrapartida, as vitórias de Melissa Leo e Christian Bale nas categorias de coadjuvante, denotam que já há uma mudança de postura. Há quem atribua a derrota de Mickey Rourke na disputa pelo Oscar de ator ano retrasado, sua postura arrogante nos primórdios da carreira. Bale tem postura semelhante e isso não impediu sua consagração na noite de domingo (27). Eddie Murphy, por muito menos do que as trapalhadas de Melissa Leo, perdeu o Oscar de coadjuvante por Dreamgirls há cinco anos. São avanços, ainda que tímidos, notáveis.


A frase é...

"Apenas se divirta e ache o bar mais próximo!"
Kevin Spacey, duas vezes vencedor do Oscar, instruindo Jeremy Renner sobre como este deveria se comportar na noite do Oscar


De uma infância gaga ao palco do Kodak Theatre

A frase é de Tom Hooper, mas reverencia a trajetória do roteirista David Seidler. Premiado pelo roteiro original de O discurso do rei, Seidler conjeturou que deve ser o mais velho a triunfar na categoria e expressou o desejo de que essa marca não permaneça por muito tempo. Finalizou o discurso agradecendo a academia por ter dado voz aos gagos.



“Vou cozinhar bastante!”
Essa é a ideia do vencedor do Oscar de melhor ator, Colin Firth. Premiado por seu papel em O discurso do rei, o ator – antes dar essa curiosa declaração – agradeceu no palco do Kodak ao amigo Tom Ford (que o dirigira em Direito de amar) e ao mega produtor Harvey Weinstein brincando: “Divido isso (o Oscar) com você que me apadrinhou quando eu ainda era um garoto charmoso”.
 
 
Quem diria...

...Que o Globo de ouro sairia fortalecido ao final da Oscar season?! Tanto pelo reconhecimento justo e devido a A rede social quanto pelo fluxo da cerimônia em si.



A pergunta é...
O que Ricky Gervais achou da cerimônia do Oscar?

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Insight

As lições de 2010 para a indústria do cinema

No dia da celebração do que de melhor o cinema produziu no ano passado, convém atentar para as grandes lições que 2010 oferece para a indústria do cinema americano. Muito provavelmente desde 1999, os estúdios não entregavam uma safra tão boa de filmes. A rede social, O vencedor, Bravura indômita, A origem e Toy story 3 têm em comum um grande estúdio por trás (respectivamente Sony, Warner, Paramount e Disney).
Nos últimos anos, tem predominado no Oscar o perfil de produção independente. Isso ocorreu, logicamente, pela orientação da academia de reconhecer uma produção mais adequada aos padrões artísticos, mas também porque desde que Beleza americana, Matrix, Quero ser John Malkovich, O sexto sentido, Magnólia, O informante e A espera de um milagre brilharam, os estúdios não alinhavam em um mesmo ano tantas produções voltadas para um público adulto em que sobejam qualidade e técnica. Em comum, também, o fato de que esses estúdios foram buscar cineastas autorais no seio do cinema independente para aferir sustância a seus filmes (David O.Russell, Christopher Nolan e Darren Aronofsky para citar alguns) Aronofsky, por exemplo, está à frente do novo filme do Wolverine. Em uma demonstração eloquente de que os estúdios de cinema estão convencidos de que um cineasta visionário é mais indicado do que um subordinado a desmandos de produtores em tempos como esses.
A boa bilheteria de um filme como A origem demonstra que é válido apostar em projetos originais. O reconhecimento a engenhosidade narrativa de A rede social atesta que há uma demanda reprimida por entretenimento adulto e inteligente nos multiplexes. David Fincher já foi escalado pela mesma Sony que produziu e distribuiu A rede social para tocar dois projetos com ambição de blockbusters: o remake americano de The girl with the dragon tattoo e a adaptação do clássico "20 mil léguas submarinas". 2011 será um ano ainda marcado por muitos remakes, continuações e adaptações de HQs, mas o público foi responsável por uma pequena revolução nos cinemas. Ao prestigiar produções renovadas, sagazes, inteligentes e, ainda assim, que pedem pipoca, contribuíram para que a produção de meados de 2012 para frente seja de fazer salivar o cinéfilo e atiçar ainda mais as caixas registradoras dos estúdios de cinema. Contrariando as profecias de James Cameron, o cinema vai bem sem o 3D. Muito bem, diga-se.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

OSCAR WATCH 2011 - A peleja dos filmes

1- Inverno da alma, 2- 127 horas, 3- Cisne negro, 4 - O discurso do rei, 5 - Bravura indômita, 6 - Minhas mães e meu pai, 7 - A rede social, 8 - O vencedor, 9 - A origem e 10 - Toy story 3



Ode à vida

É inegável que 127 horas tem vocação cult. Não só porque não fez muito dinheiro, mas também porque Danny Boyle utiliza uma linguagem moderna que vai ao encontro de cinéfilos feitos no universo videoclipeiro. O filme tem também James Franco em grande atuação. Daquelas que dão sentido a um filme e a uma vida.

Porque deveria ganhar...
É um filme dinâmico, envolvente e que esbanja boa técnica. Traz uma atuação espetacular e faz um brinde a vontade de viver.

Porque não deveria ganhar...
Danny Boyle ainda tropeça em alguns preceitos básicos de direção e, não fosse por James Franco, seu filme poderia virar uma pirotecnia egóica.


As indicações: filme, roteiro adaptado, ator, montagem, trilha sonora e canção


Família Dó-ré-mi


Entra ano e sai ano e famílias disfuncionais continuam a fascinar os acadêmicos. E com toda a razão. Em O vencedor, acompanhamos a saga de uma família cheia de amor, mas que precisa aprender a lapidá-lo de uma maneira que não façam mal uns aos outros. Um filme escorado na força de seu elenco que arranca emoções genuínas da platéia.


Porque deveria ganhar...
É o melhor trabalho de elenco do ano. Um testamento referencial de como um grupo de atores em fina sintonia garante a perenidade de um filme.


Porque não deveria ganhar...
É um filme remontado em clichês e, a bem da verdade, essa história já rendeu Oscar em outros anos.


As indicações: Filme, direção, roteiro original, ator coadjuvante, 2 indicações para atriz coadjuvante e montagem


Família cromossomo X


E tem coisa melhor do que posar de liberal com roupas conservadoras? É mais ou menos isso o que ocorre com Minhas mães e meu pai, um dos filmes mais festejados da temporada. A fita que mostra a vida de uma família chefiada por um casal de lésbicas é a única comédia entre os selecionados. No fundo, o recado está nessa condição. Não é para ser levada a sério.


Porque deveria ganhar...
A última comédia a ganhar o Oscar foi Shakespeare apaixonado há quase 15 anos. Minhas mães e meu pai, pelo menos, é superior aquele filme.


Porque não deveria ganhar...
O filme não reúne predicados que lhe afirmem como um legítimo filme de Oscar. Há competência na misê-èn-scene, mas ela nunca excede o previsível.


As indicações: filme, roteiro original, atriz e ator coadjuvante



Vida longa aos ingleses


Não tem jeito. Uma vez colônia, sempre colônia. É a melhor forma de explicar o favoritismo de O discurso do rei e suas imponderáveis doze indicações ao Oscar. Filme bem feito, mas longe do rigor acadêmico de outras produções de época que tinham contra elas o fato de não serem da terra da rainha.


Porque deveria ganhar...
É um filme que demonstra como a braveza de espírito é imprescindível para a superação de desafios. Traz o tipo de argumento que a academia gosta de referendar.


Porque não deveria ganhar...
Em um ano com produções inovadoras e relevantes, premiar um filme quadrado e pouco inventivo seria, no mínimo, desestimulante em níveis cinematográficos.


As indicações: Filme, direção, roteiro original, ator, atriz coadjuvante, ator coadjuvante, fotografia, trilha sonora, direção de arte, figurino, montagem e mixagem de som


O brilho do independente


São cinco fitas independentes entre os concorrentes a melhor filme. Mas cabe a Inverno da alma, a prerrogativa de chamar-se como tal. Filmado nos confins americanos e ambientado em tais confins, Inverno da alma é aquele tipo de filme que exige paciência e cumplicidade de seu espectador. De ritmo lento e dialética difícil, é uma história violenta sobre uma parte da humanidade paralisada no tempo. E em um mundo de seis bilhões de pessoas, essa realidade é maior do que muitos imaginam.


Porque deveria ganhar...
É um filme que triunfa em todos os seus elementos. Roteiro, atuação, direção, montagem, fotografia e música.


Porque não deveria ganhar...
É demasiadamente complexo em sua simplicidade. Afugenta espectadores à espera de emoções mais consumíveis.


As indicações: Filme, roteiro adaptado, atriz e ator coadjuvante



O sonho real


A origem foi o primeiro candidato ao Oscar a assegurar-se na lista em meados de julho, quando estreou nos cinemas americanos sob festa da crítica. Faltava precisar o tamanho da candidatura. Não foi das maiores, mas foi maior do que seria há alguns anos. O filme de Nolan ainda será responsável por pequenas revoluções no cinema americano e no Oscar. É esse o sonho que ele plantou com seu filme.


Porque deveria ganhar...
É o filme mais inventivo do ano. Nenhum outro filme causou tamanho espanto e admiração em 2010. Nenhum outro filme se assumiu como arte em um produto comercial.


Porque não deveria ganhar...
É um filme que, de alguma maneira, marca mais pela forma do que pelo conteúdo. Esse é o calcanhar de Aquiles de qualquer filme que objetive o Oscar.


As indicações: Filme, roteiro original, fotografia, direção de arte, trilha sonora, mixagem de som, edição de som e efeitos visuais


O tempo e a razão


Em um mundo justo o melhor filme do ano ganharia o Oscar de filme do ano, certo? A academia pode ajudar a fazer do mundo um lugar mais justo em 2011 se premiar A rede social. A fita que, em uma só tacada, desfila arrojo técnico, reverberação social, reflexão filosófica e brilhantismo acadêmico é também um filme que afaga a inteligência como nenhum outro candidato no ano.


Porque deveria ganhar...
É tão bom quanto os outros candidatos no que eles têm de melhor. E é ótimo no que eles falham. Isso o isola como melhor, certo?


Porque não deveria ganhar...
É frio, analítico e impessoal. O Oscar, no limiar, ainda é sobre emoção


As indicações: Filme, direção, roteiro adaptado, ator, montagem, fotografia, trilha sonora e mixagem de som


Sobre ciclos


O Oscar já premiou uma trilogia em seu derradeiro capítulo (O senhor dos anéis: o retorno do rei). Para muitos, Toy story 3 é a melhor trilogia do cinema. Mas não só. É também a afirmação definitiva de que a Pixar está aí para disputar com gente como Almodóvar e Tarantino a alcunha de detentor do melhor cinema autoral em voga atualmente.


Porque deveria ganhar...
É o filme mais poético e emocionante dos indicados. E a vida anda precisando de poesia.


Porque não deveria ganhar...
Se a beleza não põe mesa, o mesmo serve para poesia.


As indicações: Filme, animação, roteiro adaptado, canção original e edição de som


Questão de honra


Dá gosto ver os Coen se contendo em favor de uma obra atemporal como Bravura indômita. Ao fazer isso, eles contribuíram para o novo fôlego do western nas bilheterias. Um filme que consegue aliar beleza à obscuridade e ainda empolga. No final das contas, os fins justificaram os meios.


Porque deveria ganhar...
É um filme belamente realizado com o viço dos grandes clássicos e humor contemporâneo.


Porque não deveria ganhar...
É melhor do que o filme original, mas não é o melhor filme do ano.


As indicações: Filme, direção, roteiro adaptado, ator, atriz coadjuvante, fotografia, figurino, direção de arte, edição de som e mixagem de som


Perfeição


Chegar lá é exaustivo. Mas Cisne negro é prova viva de que é possível. Filme que se envaidece de sua perfeição técnica sem qualquer comedimento, chega ao Oscar menor do que se supunha. Contudo, a perfeição irretocável de Cisne negro abriu portas para aqueles que lhe deram corpo.


Porque deveria ganhar...
Nenhum filme provocou e fascinou tanto o público no ano. Nenhum outro final tirou o fôlego do espectador na sala escura.Há muito tempo, um filme não provocava essas reações.


Porque não deveria ganhar...
É um filme que não teria o mesmo impacto, não fosse por intervenções bem detectáveis da direção


As indicações: Filme, direção, atriz, montagem e fotografia

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

OSCAR WATCH 2011 - Crítica dos indicados ao Oscar

Acontecerá no próximo domingo, 27 de fevereiro, a 83ª cerimônia de entrega dos prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. O Oscar 2011 destaca-se por agregar uma lista tão eclética quanto equilibrada. No segundo ano com dez concorrentes na categoria principal, a academia teve a sorte – e competência – de contar com dez filmes de alta qualidade esquivando-se de alguns equívocos cometidos no ano anterior. É perceptível o afinamento. Repare que dos dez indicados a melhor filme, nove concorrem a melhor roteiro e, excetuando-se A origem e Toy story 3 (que estão contemplados em categorias igualmente nobres) todos os filmes apresentam performances indicadas. Avançando nesse exercício, é possível analisar que diferentemente do ano passado as categorias de atuação refletem a superioridade dos filmes escolhidos. Um compasso de qualidade que faz muito bem ao Oscar.
Por falar nos dez filmes que compõem a lista dos melhores do ano segundo a academia, cabe o reconhecimento de que o Oscar se preocupou em reconhecer a pluralidade do cinema contemporâneo. A intervenção estética como força narrativa (127 horas), a força de um bom elenco para levantar um filme (Minhas mães e meu pai, O vencedor e O discurso do rei), a animação como obra de arte (Toy story 3), o recôncavo cinematográfico que continua a respirar (Inverno da alma), a originalidade do registro autoral em um produto comercial (A origem), o cinema de força bruta e cativante (Cisne negro) e o filme que traduz seu tempo em conteúdo e dialética (A rede social). É uma lista de respeito que poderia continuar a ser adjetivada de trás para frente.

Cena de A rede social: o filme mais importante dessa edição do Oscar 2011 pode não levar o prêmio principal


A disputa principal se entrincheirou em A rede social e O discurso do rei. É, a grosso modo, uma disputa injusta. Seria mais justo se o filme de Fincher- claramente superior a seu principal adversário – concorresse nas cabeças contra Cisne negro ou A origem, por exemplo. Filmes que aliam, na medida certa, doses de experimentalismo, força narrativa, propriedade visual e reverberaram mais do que satisfatoriamente nas bilheterias. Mas O discurso do rei é a resposta dos conservadores ao avanço da influência da crítica nas hordas da academia. É bom salientar que ano passado esse grupo se viu órfão. Avatar e Bastardos inglórios eram libertinos demais e Guerra ao terror se apresentava com certo conservadorismo em sua liberalidade vocacional. Alinhar-se a crítica evitou consagrar um filme que atacava alguns males tipicamente americanos (o também premiado pela crítica Amor sem escalas).

Colin Firth, favorito na corrida pelo Oscar de ator, em cena do igualmente favorito O discurso do rei: desforra conservadora


Este ano, esse grupo teve sua desforra na inclusão de três filmes: O vencedor (7 indicações), O discurso do rei (12 indicações) e Bravura indômita (10 indicações). Essa guinada a direita pode, até mesmo, não se materializar. A mudança de comportamento da academia, que advém da mudança de perfil do membro votante, pode culminar em uma nova pulverização dos prêmios (como ocorrido em 2006 quando os principais Oscars se dividiram entre O segredo de Brokeback Mountain e Crash- no limite). Fato é que O discurso do rei ganhará mais prêmios do que merece. Inclusive podendo sorver o prêmio de melhor filme; o que entreposto a qualidade dos demais indicados seria lamentável.
Contudo, um indicador de que a briga ainda não está definida foi o resultado do Bafta. Por trás da esperada consagração de O discurso do rei na premiação britânica, estão os três sólidos prêmios conquistados por A rede social (direção, roteiro adaptado e montagem). A rede social também ganhou o prêmio do sindicato dos montadores e como em 90% das vezes, o melhor filme também ganha o prêmio de edição (o que aconteceu nos últimos oito anos é bom que se diga), a chama da esperança para o filme de Fincher ainda está acesa. Correm por fora nessa disputa, o novo e idolatrado filme dos Coen (Bravura indômita) e O vencedor. Contra o filme dos Coen, pesa o fato deles terem sido premiados muito recentemente. O que não quer dizer que o filme não seja forte em algumas categorias (som, fotografia e atriz coadjuvante são as melhores apostas). O filme pode, ainda, se beneficiar da acirrada disputa entre A rede social e O discurso do rei e se firmar como uma louvável terceira via. O vencedor tem o apoio inconteste dos atores, mas a derrota na categoria de elenco no SAG sugou um pouco de suas forças.

Cena de Bravura indômita, dos prestigiados irmãos Coen: honrosa terceira via


Legados

A disputa por direção parece restrita a três candidatos. Tom Hooper, mais por defender o filme líder de indicações, David Fincher, diretor que já merece o Oscar desde os anos 90, e Darren Aronosfky, o que apresenta o melhor trabalho de direção da temporada. Os Coen (que já venceram na categoria) e David O. Russell atingiram nas indicações o reconhecimento máximo a seus trabalhos. Hooper não merece ganhar. Talvez ganhe. Se o apoio do sindicato dos diretores trabalha em seu favor, a opção do Bafta por Fincher lhe desperta atenção. O trabalho de Fincher em A rede social é muito mais atraente, desafiador e gradual do que o de Hooper em O discurso do rei. A opção por Fincher deve ganhar força entre adeptos da divisão de prêmios entre A rede social e O discurso do rei. O melhor trabalho de direção nesse sentido (o de Darren Aronosfky em Cisne negro), só teria chance se os adeptos dessa divisão não fossem todos na dobradinha O discurso do rei/David Fincher e também prestigiassem a lógica A rede social/ Tom Hooper. Essa nova divisão poderia dar a vitória para Aronosfky. Mas é um cenário improvável. David Fincher deve prevalecer.

David Fincher sorri: 2011 deve ser o ano dele no Oscar 


A categoria de roteiro adaptado é a mais óbvia da noite. Mesmo que A rede social não fature nenhum outro prêmio, esse Oscar é certeza. Seria regredir moralmente se a academia negasse (ainda que por vias compensatórias a outros candidatos) esse Oscar ao filme.
Já a disputa na ala original é mais traiçoeira. Competem bons roteiros, é verdade, mas é igualmente inegável a superioridade do texto de A origem. Contudo, em favor do septuagenário roteirista de O discurso do rei (David Seidler), a academia pode preterir Nolan uma vez mais (cá entre nós, não é difícil preterir de novo, quando a maré está a favor). Por outro lado, há quem enxergue a necessidade de fazer justiça a um dos melhores filmes do ano e a um dos melhores artistas em atividade no cinema americano atualmente. Essa seria a categoria para fazer isso.


As atuações

O páreo já parece decidido nesse departamento. O favoritismo inconteste de Colin Firth, que vem desde antes do início da temporada de premiações, continua a ser ameaçado por Jesse Eisenberg (com mais chances) e por James Franco (com chances bem remotas). Contudo, Firth deve prevalecer por seu trabalho correto-embora longe de grandes ovações – em O discurso do rei.
Se Natalie Portman não vencer a disputa entre as atrizes é caso de Procon. O merecimento é inquestionável e a certeza só não é mais cristalina porque há sempre o fantasma das injustiças passadas, dessa vez materializado na figura de Annette Bening (que apresenta o trabalho menos notório do elenco de Minhas mães e meu pai e das indicadas nessa categoria).
Entre os coadjuvantes, Christian Bale segura a tocha de favorito por O vencedor e deve prevalecer mesmo. Tudo indica que o fato de ser antipático não irá influir. O que é positivo, embora Bale não apresente a melhor atuação do ano. Entre as coadjuvantes o cenário é mais nebuloso. A favorita ainda é Melissa Leo (O vencedor), mas a estreante Hailee Steinfield (Bravura indômita) que já era uma desafiante forte (ganhou o maior número de prêmios na temporada), além de ter mais tempo em tela, conta com a escorregada de Melissa Leo que andou cometendo gafes na campanha pelo Oscar. Amy Adams (O vencedor), a melhor da categoria, também é uma forte sombra.

Amy Adams e Christian Bale em cena de O vencedor: eles podem ser oscarizados no próximo domingo


O melhor do resto

A candidatura do mexicano Biutiful a melhor produção estrangeira foi impulsionada pela indicação de Javier Bardem ao Oscar de ator. Se o filme vinha escorregando nas premiações periféricas, recupera aqui o protagonismo. Mas como ser favorito não é bom negócio nessa categoria, o Oscar deve ficar mesmo ou com o canadense Incêndios ou com o dinamarquês Em um mundo melhor. Entre os documentários, Trabalho interno – apesar da estética jornalística - deve prevalecer. Exit Through the gift shop, sobre um famoso –ainda que anônimo - pichador francês, parece uma opção mais viável do que o anglo-brasileiro Lixo extraordinário.
O discurso do rei deve beliscar algumas categorias técnicas de A origem, assim como Alice no país das maravilhas. O veterano Roger Deakins pode engrossar a lista de não premiações a A origem se prevalecer por seu belo trabalho em Bravura indômita. Em sua nona indicação, já está na hora de um dos melhores fotógrafos em atividade no cinema atual ser reconhecido. Para variar, azar da turma de Nolan.

Momento Claquete # 7

 A atriz alemã Diane Kruger, atualmente em cartaz nos cinemas com o thriller Desconhecido, estrela o ensaio de capa da revista GQ americana do mês de março


O site inglês Shiznit elaborou cartazes paródicos dos indicados ao Oscar, Claquete selecionou alguns dos melhores:



 O discurso do rei


Bravura indômita 


A origem



Os três mosqueteiros: a trinca de A rede social (David Fincher, Aaron Sorkin e Jesse Einsenberg) posa para Annie Leibovitz, no especial de hollywood da revista Vanity Fair 


Natalie Portman, antes da barriguinha, também posou para a fotógrafa número um das celebridades

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

OSCAR WATCH 2011 - Contexto

Por que esses dez filmes?

É o segundo ano consecutivo que a academia seleciona dez indicados para concorrer ao Oscar de melhor filme. Já é pacífico que a medida visa uma maior popularização da cerimônia de TV, um impacto maior nas bilheterias e na reverberação midiática da marca Oscar. Mas quais são os predicados dos dez filmes escolhidos para concorrer ao prêmio máximo do cinema em 2011?
Um primeiro olhar sugere um ecletismo que, pautado pelo equilíbrio, reforça a escolha da academia. Estamos diante de uma seleção de invejável fôlego. Há cinco filmes independentes em disputa (Cisne negro, 127 horas, Minhas mães e meu pai, Inverno da alma e O discurso do rei), três legítimos blockbusters de estúdio (A rede social, A origem e Toy story 3) e dois filmes “baratos” de estúdio (O vencedor e Bravura indômita). Todos de inegável qualidade. Essa equação não foi bem resolvida ano passado, quando os blockbusters eram qualitativamente pálidos (Um sonho possível e Avatar) e o desnível entre outras produções concorrentes era muito grande. É difícil conseguir alguma equidade qualitativa até mesmo com cinco indicados, obter isso com dez é um feito e tanto. Esse dado leva a conclusão de que foi um bom ano. A academia reconheceu a originalidade de projetos modernos e modernosos (A origem e A rede social), prestigiou os independentes que se esmeram no elenco e na história (Inverno da alma e Minhas mães e meu pai que dividem quatro indicações idênticas) e saudou o tradicional nas figuras do western (Bravura indômita), da fita inglesa de época (O discurso do rei) e do filme que traz o boxe como parábola (O vencedor). Chamou a atenção o destaque que esses três filmes receberam da academia. Maior do que muitos supunham ser justificável. Isso ocorreu porque depois de alinhar-se a crítica na edição de 2010, a academia se encontra na necessidade de marcar território novamente. Por isso, filmes tão tradicionais lideram a disputa.

Cartaz conceitual de Bravura indômita, um dos principais concorrentes ao Oscar 2011: filme tradicional com a chancela dos irmãos Coen


Mas a academia está dividida. Entre a engenhosidade narrativa de filmes como A rede social e A origem e a segurança secular de obras como O discurso do rei e O vencedor. De qualquer jeito a lista do Oscar 2011 sinaliza bons tempos. A superação do ser humano continua a ser um dos pilares do Oscar. Ela está presente de variadas formas em 127 horas, O discurso do rei, Bravura indômita e O vencedor. Começa a ruir a barreira que separava a boa ficção científica do Oscar. Pelo terceiro ano seguido um filme de ficção se enfileira entre os melhores. Batman – o cavaleiro das trevas em 2009 (que ao não ter emplacado a candidatura a melhor filme, tornou-se a grande razão de ser dessa mudança para dez indicados), Distrito 9 em 2010 e A origem esse ano. Ainda levará mais algum tempo para que a barreira seja totalmente transposta. A qualidade desses filmes, é bom que se diga, precisará continuar em alta. Ao reconhecer a leveza de um filme que aborda uma família chefiada por um casal de lésbicas, cuja rotina é tão problemática quanto outra qualquer, a academia atesta a preocupação social de não parecer pró-ativa demais. Nem de menos. A violência e as deturpações do mundo nos últimos tempos também têm garantido vez no Oscar. Inverno da alma não tem a apoteose de Os infiltrados, nem o pessimismo de Onde os fracos não têm vez, mas se sustenta na comparação. E, aquele que Claquete já pontuou como o filme do Oscar, A rede social é o filme que transborda conteúdo, relevância e reflexão. Tudo embalado em ótimo entretenimento. Pode não ser escolhido o melhor filme do ano, mas sua presença na lista fará com que os outros imediatamente – na revisão histórica – se tornem um pouco melhores.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Oscar Watch 2011 - A peleja dos atores

Da esquerda para a direita: Colin Firth (O discurso do rei), Jesse Eisenberg (A rede social), James Franco (127 horas), Javier Bardem (Biutiful) e Jeff Bridges (Bravura indômita)



O de sangue azul

Colin Firth era, com muita boa vontade, um expoente das comédias românticas. Como em um passe de mágica, o inglês cinquentão e dono de charme indelével virou ator de tarimba dramática de indiscutível apelo. Se Tom Ford tem responsabilidade na descoberta desse, vá lá, novo status, Firth é o grande responsável por manter o nível de excelência sempre alto. Seja em um romance, um drama de época ou qualquer outra coisa que faça. O Oscar, de repente, parece apenas um detalhe.


Prós:
+ Todo mundo sabe que ele merecia o Oscar no ano passado. Seu desempenho em Direito de amar era o melhor do ano.
+ Pode se beneficiar da política de correção. Vigente na academia desde que o mundo tem a cerimônia do Oscar para assistir
+ Está em um filme cuja principal força reside nos atores, maior grupo do colegiado que forma a academia
+ Interpreta uma figura real. Sempre um chamariz de Oscars
+ Ganhou os principais prêmios da temporada (Globo de ouro, Critic´s Choice Awards e SAG)
+Interpreta um personagem que precisa superar algum tipo de deficiência. Aspecto que provoca simpatia na academia
+ É a interpretação mais técnica dentre os indicados
+ O fato de concorrer novamente com Jeff Bridges lhe favorece



Contras:
- É uma atuação menos acachapante do que a do ano passado e nem todo mundo pode estar disposto a premia-lo por um papel menor
- Não é a melhor atuação do ano e todo mundo sabe disso
- Pode-se optar por não cometer um equívoco dois anos seguidos de negligenciar o melhor trabalho em favor de um injustiçado
- É tido como favorito desde antes do início da temporada de prêmios, justamente por causa de Direito de amar. O desgaste pode se impor


Segunda indicação
Indicação anterior: Melhor ator por Direito de amar (2010)



O estranho no ninho


Jesse Eisenberg pode se tornar o ator mais jovem a faturar o Oscar. Mas não é só a possibilidade de quebrar o recorde de Adrien Brody que assusta o rapaz. Há poucos dias ele declarou que não sente como se merecesse estar no Oscar. Disse que ficou mais tranquilo quando apurou que outros se sentiam da mesma forma. Versátil e convincente, Jesse Eisenberg mostrou talento logo nos primórdios de sua ainda emergente carreira. É bom se acostumar a frequentar a festa da academia.


Prós:
+ Ganhou o maior número de prêmios na temporada
+ É uma interpretação que ganhou o aval e simpatia da própria figura biografada
+ Faz parte do filme mais elogiado do ano
+ Impressionou críticos e público com sua frenética composição de um bilionário que, embora famoso, ainda é majoritariamente desconhecido do grande público
+ Interpreta uma figura real. Sempre um chamariz de Oscars
+ É o primeiro nome na lista de quem não quer votar em Colin Firth



Contras:
- Não ganhou nenhum prêmio major
- O fato da leitura que o filme faz de Mark Zuckerberg ser bastante contestada pode prejudicá-lo mais do que ao filme propriamente dito
- É muito novo para a faixa de idade dos premiados na categoria e tem um histórico de filmes teens na bagagem
- a pecha de que a indicação já é suficiente
- Diferentemente dos outros concorrentes não dá vida a um personagem simpático
- Concorre, também, contra a atuação de Colin Firth em Direito de amar


Primeira indicação



O cara

Ele teve um bom ano. Estrelou dois filmes independentes que reverberaram junto a crítica e chegou ao Oscar pelo mais comentado (127 horas). James Franco, porém, estaria no Oscar de qualquer maneira. Em um anúncio até certo ponto surpreendente foi confirmado como co-host da cerimônia de 27 de fevereiro. Muita gente duvidava que o filho de Harry Osborne pudesse ir tão longe.


Prós:
+ Carrega o filme nas costas e a academia tem reconhecido nos últimos anos atores que façam isso. Exemplos recentes foram as premiações de Jeff Bridges (Coração louco), Sean Penn (Milk) e Daniel Day Lewis (Sangue negro).
+ É jovem e vem em uma rota de incrível ascendência em Hollywood. O cenário positivo pode favorecer
+ Interpreta uma figura real. Sempre um chamariz de Oscars
+ Assim como no caso de Colin Firth, interpreta um personagem imerso em uma situação em que precisa de força sobrehumana para superar-se
+ Além de Firth e Zuckerberg, foi o único entre os indicados a ganhar prêmios da crítica
+ É a melhor chance de reconhecer o filme do benquisto Danny Boyle


Contras:
- Está nitidamente atrás na briga entre o favorito Colin Firth e o desafiante Jesse Eisenberg
- Muita gente (inclusive dentro da academia) não quis ver o filme por causa da forte cena de mutilação, o que deve prejudicá-lo
- A pecha de que a indicação já suficiente
- O fato de ser host da cerimônia pode afastar o voto dos conservadores

Primeira indicação


O latino improvável


Javier Bardem tem fãs fervorosos em Hollywood. E é só por causa disso que garantiu vaga entre os cinco finalistas. A atuação cheia de sutilezas no filme mexicano Biutiful não seria suficiente. Mas o espanhol volta a disputa pelo Oscar orgulhoso de tê-lo feito por um filme falado na língua materna. A história reconhecerá o feito de Bardem de forma maiúscula. Não importam os meios.


Prós:
+ Assim como Michael Mann, Julia Roberts, Sean Penn, Benício Del toro e Robert De Niro avalizaram a indicação de Bardem, podem garantir a vitória do ator no Oscar
+ É um ator profundamente admirado pelos votantes
+ Duas notícias recentes trabalham em seu favor: o nascimento do filho e a confirmação de que será o vilão no próximo filme de James Bond


Contras:
- Já tem um Oscar, ganho recentemente pelo filme Onde os fracos não têm vez
- Não mora nos EUA e entre premiar um espanhol e um inglês, os americanos tendem a optar pelo inglês
- Como a nomeação vem por um filme falado em língua não inglesa, uma vitória seria improvável. São raros os casos. Recentemente, a atriz Marion Cottilard triunfou pelo francês Piaf
- Como entrou tarde na disputa, muitos dos acadêmicos já tem seus favoritos


Terceira indicação
Indicações anteriores:
Melhor ator por Antes do anoitecer (2001), melhor ator coadjuvante por Onde os fracos não têm vez (2008)
Vitória anterior: Melhor ator coadjuvante por Onde os fracos não têm vez (2008)





O cara reloaded


Não se sabe se foi de caso pensado, mas fato é que Jeff Bridges complicou a vida da academia ao acirrar uma rivalidade com o inglês Colin Firth. No ano seguinte da vitória por Coração Louco, Bridges volta melhor em sua segunda colaboração com os irmãos Coen. Aqui, dizem as más línguas, ele faz uma variação do Dude (do sucesso O grande Lebwoski). Pura intriga. Jeff Bridges demonstra mais sutileza do que nunca e dribla a pressão de reviver o personagem que deu o Oscar a John Wayne.

 
Prós:
+ Se existe um ator americano vivo que possa se equiparar a Tom Hanks obtendo dois Oscars seguidos, esse ator é Jeff Bridges
+ É um trabalho superior ao desempenhado em Coração louco. Por questão de coerência, se ele ganhou lá...
+ É um tipo de personagem que agrada muito os atores
+ Pode se beneficiar da excelente bilheteria que o filme está fazendo nos EUA e mundo afora


Contras:
- Ganhou no ano passado, quando Colin Firth estava melhor. Como muita gente acredita que aqui se faz, aqui se paga...
- Como o grande destaque na crítica está sendo a companheira de elenco, Hailee Steinfield, ele pode ser deixado de lado em favor dela
- Não ganhou nenhum prêmio na temporada


Sexta indicação
Indicações anteriores: melhor ator coadjuvante por A última sessão de cinema (1971), melhor ator coadjuvante por O último golpe (1974), melhor ator por Starman (1984), melhor ator coadjuvante por A conspiração (2000) e melhor ator por Coração louco (2010)
Vitória anterior: melhor ator por Coração louco (2010)