Mostrando postagens com marcador O vencedor. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador O vencedor. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

TOP 10 - Dez filmes esportivos que não são genuinamente sobre esporte

Um dos principais destaques do mês na programação dos cinemas é O homem que mudou o jogo. Estrelada por Brad Pitt, dirigida por Bennett Miller (Capote) e com seis indicações ao Oscar, incluindo melhor filme e ator, a fita remonta a história real do homem que revolucionou a forma de se montar um time nos chamados drafts (recrutamento esportivo muito comum nos EUA nas ligas profissionais). O filme, porém, é menos sobre esporte e mais sobre gestão humana. Em homenagem a essa difícil bifurcação, Claquete bolou um TOP 10 que agrega filmes sobre esporte que não são realmente sobre esporte.



10 - Wimbledon – o jogo do amor (Wimbledon, EUA/ING 2004)
E que tal uma comédia romântica ambientada no mundo do tênis, um esporte excêntrico para a maioria do público? É essa a proposta dessa agradável fita inglesa dirigida por Richard Loncraine. Kirsten Dunst faz um prodígio do tênis, cuja carreira é controlada a unha pelo pai vivido por Sam Neill e Paul Battany faz um tenista mediano que só entra no torneio após receber um convite por ser britânico. Os dois se apaixonam e enquanto o jogo do personagem de Bettany melhora, o da promessa vivida por Dunst se deteriora. Um relativismo charmoso da máxima “azar no jogo, sorte no amor”.


9 – O milagre de Berna (Das Wunder Von Bern, Ale 2003)
Essa pequena preciosidade alemã recria a conquista da Alemanha ocidental sobre a poderosa Hungria do craque Púskas, naquele que ficou conhecido como o milagre de Berna – em referência à cidade suíça que sediou a partida. O filme captura o momento pós - 2ª guerra em que a moral alemã estava em frangalhos e sublinha a importância do triunfo na principal competição internacional de futebol para o povo alemão.


8 – Hardball – o jogo da vida (Hardball, EUA 2001)
Um filme que tira proveito da falta de expressividade de Keanu Reeves. Aqui ele faz um apostador compulsivo que para pagar suas dívidas de jogo precisa treinar um time infantil de baseball da periferia. É aquele tipo de filme que congrega boas cenas do esporte com um crescimento pessoal do protagonista. É um filme simples, mas com muito coração.


7 – Duelo de titãs (Remember the titans, EUA 2000)
Poderia ser Invictus, que tem o pedigree de Clint Eatwood e o interesse na figura de Nelson Mandela, mas esse filme Disney estrelado por Denzel Washington apresenta exatamente o mesmo desenvolvimento narrativo e tem o mesmo mote: negros e brancos se unem através do esporte e um personagem negro é o intermediário dessa união. Em Invictus é o Mandela de Morgan Freeman, aqui o técnico vivido por Washington.  Filme edificante que versa sobre tolerância e igualdade a partir de um ambiente esportivo. Genuinamente Emocionante!


6 – O vencedor (The fighter, EUA 2010)
Um filme até certo ponto improvável na carreira do diretor David O. Russell, mas que o levou ao Oscar. A fita, que remonta momentos decisivos da carreira do pugilista Mick Ward (com algumas providenciais licenças poéticas), está mais próxima do clássico italiano Rocco e seus irmãos (1960) do que de um filme de boxe propriamente dito. Mas para a construção desse drama familiar, o boxe é essencial. Russell percebeu e adornou isso muito bem.


5 – O lutador (The wrestler, EUA 2008)
Darren Aronofsky faz uma desapaixonada crônica sobre decadência ao acompanhar, bem de perto, o lutador de wrestler que já foi famoso e vive de bicos e exibições picaretas. A solidão, a solidariedade e os arrependimentos morrem todos no ringue. Um filme crepuscular.


4 – Por amor (For the love of the game, EUA 1999)
Aqui temos o diretor Sam Raimi, antes da fama conquista com Homem-aranha e um pouco fora do seu metiê trash (Evil dead e Arrasta-me para o inferno). Nessa inspirada parábola sobre um jogador de baseball às vésperas da aposentadoria que precisa reexaminar suas prioridades. A mulher, se sentindo preterida, ameaça deixá-lo e, em meio à escassez de ofertas, ele recebe uma de um time de menor expressão que lhe oferece um recomeço e um desafio profissional.


3 – Rocky – um lutador (Rocky, EUA 1976)
O sonho americano vive e, talvez, depois da eleição de Obama reside na ficção o maior “conto” sobre os alcances do sonho americano. Foi Rocky –um lutador, um roteiro de Stallone que ele condicionou ao estúdio sua escalação como protagonista, que tornou pop e cult o sonho americano. Não existe referência mais vívida do que representa esse conceito do que a trajetória de Rocky. O próprio filme, azarão, bateu pesos pesados como Todos os homens do presidente, Taxi driver e Rede de intrigas e faturou o Oscar de melhor filme.


2- Jerry Maguire – a grande virada (Jerry Maguire, EUA 1996)
O filme que revelou o talento de Cameron Crowe mostra um agente esportivo que vai do céu ao inferno ao ser sabotado pela empresa em que trabalha. Jerry Maguire, no entanto, mantém um pequeno séquito de pessoas que acreditam em seu potencial. Entre eles o promissor jogador de futebol americano vivido por Cuba Gooding Jr. e a assistente (e posterior interesse romântico) vivida pro Renée Zellweger. Um filme sobre as agruras e angústias de recomeçar. Mas também sobre o encantamento que esse recomeço proporciona.


1 – Menina de ouro (Million dollar baby, EUA 2004)   
Um filme sobre orfandade, sobre eutanásia, cumplicidade e boxe. Nesta ordem. Menina de ouro esconde superlativos por trás de sua simplicidade. Hilary Swank vive Maggie, garçonete que leva uma subvida e que sonha em ser lutadora de boxe. Clint Eastwood é Frankie, proprietário de uma academia e treinador de boxe com algumas mágoas familiares. Os personagens irão se cruzar e transformar as vidas um do outro de maneira extraordinariamente emocionante, honesta e cativante.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Panorama - O vencedor


O vencedor (The fighter, EUA 2010) não parece um filme de David O. Russell e, de certa maneira, não o é. A fita caiu no colo do diretor devido a sua amizade com o protagonista e produtor Mark Wahlberg. Um drama familiar e um filme de boxe. Essas são duas definições bastante ouvidas sobre o filme em que Russell, que novamente assina o roteiro (dessa vez em parceria), está mais comedido do que nunca. Não há espaço para as ironias típicas do humor debochado do diretor. A técnica, na condução da história do boxer que através de sua saga pelo sucesso une sua família, aparece apurada. Russell surge um diretor mais seguro de suas escolhas. Os ângulos, os planos, a música insidiosa... Tudo conspira para um diretor de mão firme por trás daquelas cenas. Contudo, essa constatação não evita o sentimento de que O vencedor é o filme mais frágil de Russell do ponto de vista criativo. Afora boas soluções visuais na encenação das lutas e uma eficiente direção de atores, Russell pouco contribuiu com um filme “de encomenda” e que poderia ter sido realizado por qualquer outro com formação técnica equivalente.
A ironia que fica é que para tornar-se um diretor reconhecido (o trabalho lhe rendeu uma indicação ao Oscar), Russell renunciou justamente ao que lhe distinguia.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

OSCAR WATCH 2011 - A peleja dos filmes

1- Inverno da alma, 2- 127 horas, 3- Cisne negro, 4 - O discurso do rei, 5 - Bravura indômita, 6 - Minhas mães e meu pai, 7 - A rede social, 8 - O vencedor, 9 - A origem e 10 - Toy story 3



Ode à vida

É inegável que 127 horas tem vocação cult. Não só porque não fez muito dinheiro, mas também porque Danny Boyle utiliza uma linguagem moderna que vai ao encontro de cinéfilos feitos no universo videoclipeiro. O filme tem também James Franco em grande atuação. Daquelas que dão sentido a um filme e a uma vida.

Porque deveria ganhar...
É um filme dinâmico, envolvente e que esbanja boa técnica. Traz uma atuação espetacular e faz um brinde a vontade de viver.

Porque não deveria ganhar...
Danny Boyle ainda tropeça em alguns preceitos básicos de direção e, não fosse por James Franco, seu filme poderia virar uma pirotecnia egóica.


As indicações: filme, roteiro adaptado, ator, montagem, trilha sonora e canção


Família Dó-ré-mi


Entra ano e sai ano e famílias disfuncionais continuam a fascinar os acadêmicos. E com toda a razão. Em O vencedor, acompanhamos a saga de uma família cheia de amor, mas que precisa aprender a lapidá-lo de uma maneira que não façam mal uns aos outros. Um filme escorado na força de seu elenco que arranca emoções genuínas da platéia.


Porque deveria ganhar...
É o melhor trabalho de elenco do ano. Um testamento referencial de como um grupo de atores em fina sintonia garante a perenidade de um filme.


Porque não deveria ganhar...
É um filme remontado em clichês e, a bem da verdade, essa história já rendeu Oscar em outros anos.


As indicações: Filme, direção, roteiro original, ator coadjuvante, 2 indicações para atriz coadjuvante e montagem


Família cromossomo X


E tem coisa melhor do que posar de liberal com roupas conservadoras? É mais ou menos isso o que ocorre com Minhas mães e meu pai, um dos filmes mais festejados da temporada. A fita que mostra a vida de uma família chefiada por um casal de lésbicas é a única comédia entre os selecionados. No fundo, o recado está nessa condição. Não é para ser levada a sério.


Porque deveria ganhar...
A última comédia a ganhar o Oscar foi Shakespeare apaixonado há quase 15 anos. Minhas mães e meu pai, pelo menos, é superior aquele filme.


Porque não deveria ganhar...
O filme não reúne predicados que lhe afirmem como um legítimo filme de Oscar. Há competência na misê-èn-scene, mas ela nunca excede o previsível.


As indicações: filme, roteiro original, atriz e ator coadjuvante



Vida longa aos ingleses


Não tem jeito. Uma vez colônia, sempre colônia. É a melhor forma de explicar o favoritismo de O discurso do rei e suas imponderáveis doze indicações ao Oscar. Filme bem feito, mas longe do rigor acadêmico de outras produções de época que tinham contra elas o fato de não serem da terra da rainha.


Porque deveria ganhar...
É um filme que demonstra como a braveza de espírito é imprescindível para a superação de desafios. Traz o tipo de argumento que a academia gosta de referendar.


Porque não deveria ganhar...
Em um ano com produções inovadoras e relevantes, premiar um filme quadrado e pouco inventivo seria, no mínimo, desestimulante em níveis cinematográficos.


As indicações: Filme, direção, roteiro original, ator, atriz coadjuvante, ator coadjuvante, fotografia, trilha sonora, direção de arte, figurino, montagem e mixagem de som


O brilho do independente


São cinco fitas independentes entre os concorrentes a melhor filme. Mas cabe a Inverno da alma, a prerrogativa de chamar-se como tal. Filmado nos confins americanos e ambientado em tais confins, Inverno da alma é aquele tipo de filme que exige paciência e cumplicidade de seu espectador. De ritmo lento e dialética difícil, é uma história violenta sobre uma parte da humanidade paralisada no tempo. E em um mundo de seis bilhões de pessoas, essa realidade é maior do que muitos imaginam.


Porque deveria ganhar...
É um filme que triunfa em todos os seus elementos. Roteiro, atuação, direção, montagem, fotografia e música.


Porque não deveria ganhar...
É demasiadamente complexo em sua simplicidade. Afugenta espectadores à espera de emoções mais consumíveis.


As indicações: Filme, roteiro adaptado, atriz e ator coadjuvante



O sonho real


A origem foi o primeiro candidato ao Oscar a assegurar-se na lista em meados de julho, quando estreou nos cinemas americanos sob festa da crítica. Faltava precisar o tamanho da candidatura. Não foi das maiores, mas foi maior do que seria há alguns anos. O filme de Nolan ainda será responsável por pequenas revoluções no cinema americano e no Oscar. É esse o sonho que ele plantou com seu filme.


Porque deveria ganhar...
É o filme mais inventivo do ano. Nenhum outro filme causou tamanho espanto e admiração em 2010. Nenhum outro filme se assumiu como arte em um produto comercial.


Porque não deveria ganhar...
É um filme que, de alguma maneira, marca mais pela forma do que pelo conteúdo. Esse é o calcanhar de Aquiles de qualquer filme que objetive o Oscar.


As indicações: Filme, roteiro original, fotografia, direção de arte, trilha sonora, mixagem de som, edição de som e efeitos visuais


O tempo e a razão


Em um mundo justo o melhor filme do ano ganharia o Oscar de filme do ano, certo? A academia pode ajudar a fazer do mundo um lugar mais justo em 2011 se premiar A rede social. A fita que, em uma só tacada, desfila arrojo técnico, reverberação social, reflexão filosófica e brilhantismo acadêmico é também um filme que afaga a inteligência como nenhum outro candidato no ano.


Porque deveria ganhar...
É tão bom quanto os outros candidatos no que eles têm de melhor. E é ótimo no que eles falham. Isso o isola como melhor, certo?


Porque não deveria ganhar...
É frio, analítico e impessoal. O Oscar, no limiar, ainda é sobre emoção


As indicações: Filme, direção, roteiro adaptado, ator, montagem, fotografia, trilha sonora e mixagem de som


Sobre ciclos


O Oscar já premiou uma trilogia em seu derradeiro capítulo (O senhor dos anéis: o retorno do rei). Para muitos, Toy story 3 é a melhor trilogia do cinema. Mas não só. É também a afirmação definitiva de que a Pixar está aí para disputar com gente como Almodóvar e Tarantino a alcunha de detentor do melhor cinema autoral em voga atualmente.


Porque deveria ganhar...
É o filme mais poético e emocionante dos indicados. E a vida anda precisando de poesia.


Porque não deveria ganhar...
Se a beleza não põe mesa, o mesmo serve para poesia.


As indicações: Filme, animação, roteiro adaptado, canção original e edição de som


Questão de honra


Dá gosto ver os Coen se contendo em favor de uma obra atemporal como Bravura indômita. Ao fazer isso, eles contribuíram para o novo fôlego do western nas bilheterias. Um filme que consegue aliar beleza à obscuridade e ainda empolga. No final das contas, os fins justificaram os meios.


Porque deveria ganhar...
É um filme belamente realizado com o viço dos grandes clássicos e humor contemporâneo.


Porque não deveria ganhar...
É melhor do que o filme original, mas não é o melhor filme do ano.


As indicações: Filme, direção, roteiro adaptado, ator, atriz coadjuvante, fotografia, figurino, direção de arte, edição de som e mixagem de som


Perfeição


Chegar lá é exaustivo. Mas Cisne negro é prova viva de que é possível. Filme que se envaidece de sua perfeição técnica sem qualquer comedimento, chega ao Oscar menor do que se supunha. Contudo, a perfeição irretocável de Cisne negro abriu portas para aqueles que lhe deram corpo.


Porque deveria ganhar...
Nenhum filme provocou e fascinou tanto o público no ano. Nenhum outro final tirou o fôlego do espectador na sala escura.Há muito tempo, um filme não provocava essas reações.


Porque não deveria ganhar...
É um filme que não teria o mesmo impacto, não fosse por intervenções bem detectáveis da direção


As indicações: Filme, direção, atriz, montagem e fotografia

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

OSCAR WATCH 2011 - Crítica dos indicados ao Oscar

Acontecerá no próximo domingo, 27 de fevereiro, a 83ª cerimônia de entrega dos prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. O Oscar 2011 destaca-se por agregar uma lista tão eclética quanto equilibrada. No segundo ano com dez concorrentes na categoria principal, a academia teve a sorte – e competência – de contar com dez filmes de alta qualidade esquivando-se de alguns equívocos cometidos no ano anterior. É perceptível o afinamento. Repare que dos dez indicados a melhor filme, nove concorrem a melhor roteiro e, excetuando-se A origem e Toy story 3 (que estão contemplados em categorias igualmente nobres) todos os filmes apresentam performances indicadas. Avançando nesse exercício, é possível analisar que diferentemente do ano passado as categorias de atuação refletem a superioridade dos filmes escolhidos. Um compasso de qualidade que faz muito bem ao Oscar.
Por falar nos dez filmes que compõem a lista dos melhores do ano segundo a academia, cabe o reconhecimento de que o Oscar se preocupou em reconhecer a pluralidade do cinema contemporâneo. A intervenção estética como força narrativa (127 horas), a força de um bom elenco para levantar um filme (Minhas mães e meu pai, O vencedor e O discurso do rei), a animação como obra de arte (Toy story 3), o recôncavo cinematográfico que continua a respirar (Inverno da alma), a originalidade do registro autoral em um produto comercial (A origem), o cinema de força bruta e cativante (Cisne negro) e o filme que traduz seu tempo em conteúdo e dialética (A rede social). É uma lista de respeito que poderia continuar a ser adjetivada de trás para frente.

Cena de A rede social: o filme mais importante dessa edição do Oscar 2011 pode não levar o prêmio principal


A disputa principal se entrincheirou em A rede social e O discurso do rei. É, a grosso modo, uma disputa injusta. Seria mais justo se o filme de Fincher- claramente superior a seu principal adversário – concorresse nas cabeças contra Cisne negro ou A origem, por exemplo. Filmes que aliam, na medida certa, doses de experimentalismo, força narrativa, propriedade visual e reverberaram mais do que satisfatoriamente nas bilheterias. Mas O discurso do rei é a resposta dos conservadores ao avanço da influência da crítica nas hordas da academia. É bom salientar que ano passado esse grupo se viu órfão. Avatar e Bastardos inglórios eram libertinos demais e Guerra ao terror se apresentava com certo conservadorismo em sua liberalidade vocacional. Alinhar-se a crítica evitou consagrar um filme que atacava alguns males tipicamente americanos (o também premiado pela crítica Amor sem escalas).

Colin Firth, favorito na corrida pelo Oscar de ator, em cena do igualmente favorito O discurso do rei: desforra conservadora


Este ano, esse grupo teve sua desforra na inclusão de três filmes: O vencedor (7 indicações), O discurso do rei (12 indicações) e Bravura indômita (10 indicações). Essa guinada a direita pode, até mesmo, não se materializar. A mudança de comportamento da academia, que advém da mudança de perfil do membro votante, pode culminar em uma nova pulverização dos prêmios (como ocorrido em 2006 quando os principais Oscars se dividiram entre O segredo de Brokeback Mountain e Crash- no limite). Fato é que O discurso do rei ganhará mais prêmios do que merece. Inclusive podendo sorver o prêmio de melhor filme; o que entreposto a qualidade dos demais indicados seria lamentável.
Contudo, um indicador de que a briga ainda não está definida foi o resultado do Bafta. Por trás da esperada consagração de O discurso do rei na premiação britânica, estão os três sólidos prêmios conquistados por A rede social (direção, roteiro adaptado e montagem). A rede social também ganhou o prêmio do sindicato dos montadores e como em 90% das vezes, o melhor filme também ganha o prêmio de edição (o que aconteceu nos últimos oito anos é bom que se diga), a chama da esperança para o filme de Fincher ainda está acesa. Correm por fora nessa disputa, o novo e idolatrado filme dos Coen (Bravura indômita) e O vencedor. Contra o filme dos Coen, pesa o fato deles terem sido premiados muito recentemente. O que não quer dizer que o filme não seja forte em algumas categorias (som, fotografia e atriz coadjuvante são as melhores apostas). O filme pode, ainda, se beneficiar da acirrada disputa entre A rede social e O discurso do rei e se firmar como uma louvável terceira via. O vencedor tem o apoio inconteste dos atores, mas a derrota na categoria de elenco no SAG sugou um pouco de suas forças.

Cena de Bravura indômita, dos prestigiados irmãos Coen: honrosa terceira via


Legados

A disputa por direção parece restrita a três candidatos. Tom Hooper, mais por defender o filme líder de indicações, David Fincher, diretor que já merece o Oscar desde os anos 90, e Darren Aronosfky, o que apresenta o melhor trabalho de direção da temporada. Os Coen (que já venceram na categoria) e David O. Russell atingiram nas indicações o reconhecimento máximo a seus trabalhos. Hooper não merece ganhar. Talvez ganhe. Se o apoio do sindicato dos diretores trabalha em seu favor, a opção do Bafta por Fincher lhe desperta atenção. O trabalho de Fincher em A rede social é muito mais atraente, desafiador e gradual do que o de Hooper em O discurso do rei. A opção por Fincher deve ganhar força entre adeptos da divisão de prêmios entre A rede social e O discurso do rei. O melhor trabalho de direção nesse sentido (o de Darren Aronosfky em Cisne negro), só teria chance se os adeptos dessa divisão não fossem todos na dobradinha O discurso do rei/David Fincher e também prestigiassem a lógica A rede social/ Tom Hooper. Essa nova divisão poderia dar a vitória para Aronosfky. Mas é um cenário improvável. David Fincher deve prevalecer.

David Fincher sorri: 2011 deve ser o ano dele no Oscar 


A categoria de roteiro adaptado é a mais óbvia da noite. Mesmo que A rede social não fature nenhum outro prêmio, esse Oscar é certeza. Seria regredir moralmente se a academia negasse (ainda que por vias compensatórias a outros candidatos) esse Oscar ao filme.
Já a disputa na ala original é mais traiçoeira. Competem bons roteiros, é verdade, mas é igualmente inegável a superioridade do texto de A origem. Contudo, em favor do septuagenário roteirista de O discurso do rei (David Seidler), a academia pode preterir Nolan uma vez mais (cá entre nós, não é difícil preterir de novo, quando a maré está a favor). Por outro lado, há quem enxergue a necessidade de fazer justiça a um dos melhores filmes do ano e a um dos melhores artistas em atividade no cinema americano atualmente. Essa seria a categoria para fazer isso.


As atuações

O páreo já parece decidido nesse departamento. O favoritismo inconteste de Colin Firth, que vem desde antes do início da temporada de premiações, continua a ser ameaçado por Jesse Eisenberg (com mais chances) e por James Franco (com chances bem remotas). Contudo, Firth deve prevalecer por seu trabalho correto-embora longe de grandes ovações – em O discurso do rei.
Se Natalie Portman não vencer a disputa entre as atrizes é caso de Procon. O merecimento é inquestionável e a certeza só não é mais cristalina porque há sempre o fantasma das injustiças passadas, dessa vez materializado na figura de Annette Bening (que apresenta o trabalho menos notório do elenco de Minhas mães e meu pai e das indicadas nessa categoria).
Entre os coadjuvantes, Christian Bale segura a tocha de favorito por O vencedor e deve prevalecer mesmo. Tudo indica que o fato de ser antipático não irá influir. O que é positivo, embora Bale não apresente a melhor atuação do ano. Entre as coadjuvantes o cenário é mais nebuloso. A favorita ainda é Melissa Leo (O vencedor), mas a estreante Hailee Steinfield (Bravura indômita) que já era uma desafiante forte (ganhou o maior número de prêmios na temporada), além de ter mais tempo em tela, conta com a escorregada de Melissa Leo que andou cometendo gafes na campanha pelo Oscar. Amy Adams (O vencedor), a melhor da categoria, também é uma forte sombra.

Amy Adams e Christian Bale em cena de O vencedor: eles podem ser oscarizados no próximo domingo


O melhor do resto

A candidatura do mexicano Biutiful a melhor produção estrangeira foi impulsionada pela indicação de Javier Bardem ao Oscar de ator. Se o filme vinha escorregando nas premiações periféricas, recupera aqui o protagonismo. Mas como ser favorito não é bom negócio nessa categoria, o Oscar deve ficar mesmo ou com o canadense Incêndios ou com o dinamarquês Em um mundo melhor. Entre os documentários, Trabalho interno – apesar da estética jornalística - deve prevalecer. Exit Through the gift shop, sobre um famoso –ainda que anônimo - pichador francês, parece uma opção mais viável do que o anglo-brasileiro Lixo extraordinário.
O discurso do rei deve beliscar algumas categorias técnicas de A origem, assim como Alice no país das maravilhas. O veterano Roger Deakins pode engrossar a lista de não premiações a A origem se prevalecer por seu belo trabalho em Bravura indômita. Em sua nona indicação, já está na hora de um dos melhores fotógrafos em atividade no cinema atual ser reconhecido. Para variar, azar da turma de Nolan.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

OSCAR WATCH 2011 - Contexto

Por que esses dez filmes?

É o segundo ano consecutivo que a academia seleciona dez indicados para concorrer ao Oscar de melhor filme. Já é pacífico que a medida visa uma maior popularização da cerimônia de TV, um impacto maior nas bilheterias e na reverberação midiática da marca Oscar. Mas quais são os predicados dos dez filmes escolhidos para concorrer ao prêmio máximo do cinema em 2011?
Um primeiro olhar sugere um ecletismo que, pautado pelo equilíbrio, reforça a escolha da academia. Estamos diante de uma seleção de invejável fôlego. Há cinco filmes independentes em disputa (Cisne negro, 127 horas, Minhas mães e meu pai, Inverno da alma e O discurso do rei), três legítimos blockbusters de estúdio (A rede social, A origem e Toy story 3) e dois filmes “baratos” de estúdio (O vencedor e Bravura indômita). Todos de inegável qualidade. Essa equação não foi bem resolvida ano passado, quando os blockbusters eram qualitativamente pálidos (Um sonho possível e Avatar) e o desnível entre outras produções concorrentes era muito grande. É difícil conseguir alguma equidade qualitativa até mesmo com cinco indicados, obter isso com dez é um feito e tanto. Esse dado leva a conclusão de que foi um bom ano. A academia reconheceu a originalidade de projetos modernos e modernosos (A origem e A rede social), prestigiou os independentes que se esmeram no elenco e na história (Inverno da alma e Minhas mães e meu pai que dividem quatro indicações idênticas) e saudou o tradicional nas figuras do western (Bravura indômita), da fita inglesa de época (O discurso do rei) e do filme que traz o boxe como parábola (O vencedor). Chamou a atenção o destaque que esses três filmes receberam da academia. Maior do que muitos supunham ser justificável. Isso ocorreu porque depois de alinhar-se a crítica na edição de 2010, a academia se encontra na necessidade de marcar território novamente. Por isso, filmes tão tradicionais lideram a disputa.

Cartaz conceitual de Bravura indômita, um dos principais concorrentes ao Oscar 2011: filme tradicional com a chancela dos irmãos Coen


Mas a academia está dividida. Entre a engenhosidade narrativa de filmes como A rede social e A origem e a segurança secular de obras como O discurso do rei e O vencedor. De qualquer jeito a lista do Oscar 2011 sinaliza bons tempos. A superação do ser humano continua a ser um dos pilares do Oscar. Ela está presente de variadas formas em 127 horas, O discurso do rei, Bravura indômita e O vencedor. Começa a ruir a barreira que separava a boa ficção científica do Oscar. Pelo terceiro ano seguido um filme de ficção se enfileira entre os melhores. Batman – o cavaleiro das trevas em 2009 (que ao não ter emplacado a candidatura a melhor filme, tornou-se a grande razão de ser dessa mudança para dez indicados), Distrito 9 em 2010 e A origem esse ano. Ainda levará mais algum tempo para que a barreira seja totalmente transposta. A qualidade desses filmes, é bom que se diga, precisará continuar em alta. Ao reconhecer a leveza de um filme que aborda uma família chefiada por um casal de lésbicas, cuja rotina é tão problemática quanto outra qualquer, a academia atesta a preocupação social de não parecer pró-ativa demais. Nem de menos. A violência e as deturpações do mundo nos últimos tempos também têm garantido vez no Oscar. Inverno da alma não tem a apoteose de Os infiltrados, nem o pessimismo de Onde os fracos não têm vez, mas se sustenta na comparação. E, aquele que Claquete já pontuou como o filme do Oscar, A rede social é o filme que transborda conteúdo, relevância e reflexão. Tudo embalado em ótimo entretenimento. Pode não ser escolhido o melhor filme do ano, mas sua presença na lista fará com que os outros imediatamente – na revisão histórica – se tornem um pouco melhores.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

OSCAR WATCH 2011 - A peleja das atrizes coadjuvantes


Da esquerda para a direita: Helena Bonhan Carter (O discurso do rei), Amy Adams (O vencedor), Melissa Leo (O vencedor), Heilee Steinfield (Bravura indômita) e Jacki Weaver (Reino animal)


A Matriarca


Melissa Leo, aos 50 anos, está vivendo o auge de sua carreira. Em O vencedor ela encarna uma figura materna controversa, mas que encontra ressonância do lado de cá das telas. Atriz despudorada e de traços fortes, Leo é o tipo de intérprete que desaparece em um papel. Seja ele qual for.


Prós:
+ Ganhou os principais prêmios da temporada (Globo de ouro, SAG e Critic´s choie awards)
+ Faz parte do elenco mais festejado e premiado da temporada
+ No último ano a premiada na categoria também fazia uma mãe relapsa (Mo´Nique por seu desempenho em Preciosa)
+ Faz campanha assídua junto aos votantes


Contras:
- No último ano a premiada na categoria também fazia uma mãe relapsa (Mo´Nique por seu desempenho em Preciosa)
- Pegou mal na indústria o fato da própria atriz ter pagado para veicular anúncios pedindo votos para ela em importantes publicações como Hollywood Reporter e Variety
- A concorrência com a colega de elenco Amy Adams pode roubar-lhe alguns votos cruciais para a vitória
- Não é a melhor atuação entre as selecionadas e, como já foi bastante premiada na temporada, esse fato pode começar a pesar



Segunda indicação
Indicação anterior: melhor atriz por Rio congelado (2009)



A outra matriarca

Não fosse pela lembrança do Globo de ouro e essa australiana de forte ligação com o teatro não estaria na lista das indicadas ao Oscar. Jacki Weaver, 63 anos, já fez cinema e TV. Sempre sem chamar muita atenção. Em Reino animal ela se reinventa. Como a matriarca de um clã de bandidos, ela explode na tela. Em todos os sentidos.


Prós:
+ Uma atuação que se impôs por talento e merecimento. Sem a força das campanhas, amizades e interesses. Pode ir mais longe


Contras:
- A pecha de que a indicação já é reconhecimento suficiente
- É a menos famosa entre as indicadas
- Poucas pessoas viram seu filme e muitas darão preferência a outras produções oscarizáveis
- É uma categoria em que predomina um perfil jovem de premiada


Primeira indicação


Sem encantamento


Quase ninguém percebe, mas um dos diamantes do cinema americano é italiano de nascença. Amy Adams, que aos 36 anos alcança sua terceira indicação ao Oscar, construiu uma carreira sólida alternando projetos comerciais como Encantada e Uma noite no museu 2 e filme mais ambiciosos como Dúvida e este O vencedor, pelo qual concorre ao Oscar em 2011. Aqui ela aparece sem vaidades, um pouco enfeada, mas ainda assim dona de uma graciosidade que faz reverberar em todas as suas personagens.


Prós:
+ Por ser sua terceira indicação em seis anos, há quem possa achar justo premiá-la
+ Está melhor no filme do que sua colega de elenco Melissa Leo
+ Pode se beneficiar da overdose de Melissa Leo nas premiações que antecedem o Oscar
+É uma figura querida na academia e é sempre muito simpática. Tem fãs de diversas orientações dentro do colegiado. Desde o dramaturgo John Patrick Shanley (que a dirigiu em Dúvida) até o diretor Walter Salles (que está gravando com ela o filme On the road).


Contras:
- Largou atrás na concorrência com Melissa Leo
- Existe a percepção de que ela ainda irá apresentar seu grande desempenho da carreira e pode ser premiada na categoria de atriz (está vinculada há pelo menos dois anos a um projeto sobre a vida de Janis Joplin)
- Ganhou apenas um prêmio da crítica na temporada. Entre as concorrentes é que menos troféus conquistou


Terceira indicação
Indicações anteriores: melhor atriz coadjuvante por Retratos de família (2006) e melhor atriz coadjuvante por Dúvida (2008)



A sra. Burton

Helena Bonhan Carter mantém a tradição de termos, ao menos, uma britânica concorrendo nesta categoria. Aos 44 anos, a atriz conquista sua segunda indicação ao Oscar. Esposa do excêntrico Tim Burton, Carter se aproximou do marido também na arte. Musa de seu marido nas telas, chega ao Oscar como majestade. Se dependesse do séquito de fãs (dela e do marido) o Oscar já seria dela.


Prós:
+ Está em um dos filmes favoritos da temporada
+ Pode se beneficiar do apoio da classe dos atores ao filme
+ Inglesas têm o histórico de triunfarem nessa categoria e a última a vencer foi Tilda Swinton em 2008


Contras:
- Assim como Amy Adams só ganhou um prêmio em toda a temporada.
- Como Colin Firth e Geoffrey Rush brilham mais no elenco, suas chances de premiação diminuem
- A última inglesa a triunfar na categoria foi Tilda Swinton em 2008
- Nos últimos dez anos nenhuma vencedora nesta categoria estava em um filme de época
- Ela e o marido são muito reclusos e isso pode afastar alguns votos


Segunda indicação
Indicação anterior: melhor atriz por Asas do amor (1999)



A prodigiosa


Ela tinha apenas 12 anos quando começou a rodar o filme que pode mudar sua vida. Hoje, com a nomeação para o Oscar, e o peso de ter ganhado o maior número de prêmios entre as concorrentes por seu papel em Bravura indômita, Hailee Steinfield ainda não sabe como o futuro será. Com 14 anos e sem projetos para o cinema, a atriz que impressionou com sua estréia fará um bem para os cinéfilos se optar pela carreira artística.


Prós:
+ Ganhou a maioria dos prêmios da crítica
+ A academia adora reconhecer trabalhos de estréia. Geralmente esse reconhecimento se dá nessa categoria
+ Crianças já foram premiadas nessa categoria antes
+ Seria uma forma de reconhecer o filme dos irmãos Coen no caso de uma premiação pulverizada
+ Ela tem mais tempo em tela do que todas as suas concorrentes


Contras:
- O fato de Melissa Leo ter a prioridade por ser uma atriz veterana
- A pecha de que a indicação já é reconhecimento suficiente
- Não ter ganhado nenhum prêmio major, o reconhecimento a atuação de Hailee veio todo da crítica americana


Primeira indicação

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Crítica - O vencedor

Sangue na veia!

É muito caro ao cinema americano utilizar o esporte como plataforma para histórias de superação. Em O vencedor (The fighter, EUA 2010) não é diferente. O boxe, principal esporte dentro dessa perspectiva no cinema americano, é o pano de fundo para uma vigorosa história de conquistas. O que distingue o filme de David O. Russell dos demais deste filão é que, apesar de apresentar uma história de superação pessoal, o eixo central do filme é a superação de uma família. O vencedor é, portanto, antes de ser um filme esportivo, um filme sobre família. É esse desvio que renova o interesse na fita. A história de “Irish” Mick Ward, embora real, guarda indefectíveis semelhanças com a do célebre personagem de Sylvester Stallone, Rocky Balboa. É por focar-se no drama familiar e evidenciá-lo como refluxo do sonho americano que O vencedor ganha dimensão artística.
David O. Russell enfileira dramas na tela. Mick Ward (Mark Wahlberg) tem uma família numerosa. É o irmão que - ex-lutador - vive de glorificar-se pelo passado e do declínio ao vício em crack, a mãe negligente que enxerga no primogênito uma grandeza que nunca houve, as irmãs barraqueiras e furtivas, e a carreira como lutador que teima em não decolar. Mick é passivo. Dick (Christian Bale) é destrutivo. Alice, a mãe-empresária (Melissa Leo), está ocupada demais em prover para a família do jeito que lhe for mais conveniente. Não dá para ter sonho de grandeza em uma realidade como essa. Mas Mick tem. E ele quer sua família junto com ele. É desse drama cheio de potencialidades que David O.Russell vai pincelando com mão firme O vencedor.
Agrada também a estética adotada para a encenação das lutas. Se elas não são tão empolgantes quanto em Rocky – para ficar na referência já utilizada – elas ganham em dramaticidade e veracidade pela opção de granular as cenas e alçá-las como se estivéssemos assistindo uma transmissão pela TV. O fato do filme perpassar a produção de um documentário feito sobre a pessoa de Dick reforça o acerto de Russel.
O vencedor não é um filme original ou profundo, mas trabalha muito bem todas as suas proposições. É um filme de honestidade ímpar, apreço singular e qualidade indiscutível. Contribui fortemente para esse quadro o esmero de um elenco em estado de graça. Christian Bale e Melissa Leo estão quase que possuídos por seus personagens em cena. Atuações que flertam com o over, mas que delimitam coração e nuance em cada fotograma.

Mick e Dick trocam ideias sobre uma luta: excesso de amor em uma família cheia de problemas emocionais faz com que interesses diversos colidam


Amy Adams, como a namorada de Mick, entrega sua atuação mais dosada, sem deixar de ser feroz em cena. O veterano Jack McGee, como o patriarca de uma família matriarcal, empresta leveza e carinho ao papel pequeno, mas engrandecido pelo ator. Contudo, do elenco quem mais se destaca, ainda que brilhe menos, é Mark Wahlberg. O ator, que há muito tempo nutria o desejo de filmar a história de Mick Ward, dita o ritmo do elenco com maestria. Em uma performance contida, que se contrapõe calculadamente a felina atuação de Christian Bale, Wahlberg é a alma do filme. É ele a força gravitacional de O vencedor. Generoso com seus colegas, Wahlberg trabalha para o time e proporciona que brilhem em papeis mais catárticos, mas que sem o ímã que é sua composição se perderiam. Um trabalho notável que vem sendo negligenciado nessa temporada de premiações.
O vencedor recebe a atenção merecida. Não é o melhor filme do ano, mas é um filme com gosto. É um filme que se aprecia com muita facilidade. Com sete indicações ao Oscar (filme, direção, roteiro original, ator coadjuvante – para Bale, atriz coadjuvante – para Melissa Leo e Amy Adams e montagem), o filme de David O. Russell é uma fita de alta voltagem emocional. É por não permitir que a platéia se perca dessa emoção genuína que é a vida em família, que O vencedor merece todo o reconhecimento que amealha.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

OSCAR WATCH 2011 - A peleja dos atores coadjuvantes

Da esquerda para a direita: Christian Bale (O vencedor), Mark Ruffalo (Minhas mães e meu pai), John Hawkes (Inverno da alma), Jeremy Renner (Atração perigosa) e Geoffrey Rush (O discurso do rei)



O cavaleiro das trevas


O galês Christian Bale é o nome do momento. Estupendo em O vencedor, o ator que é seguramente um dos melhores de sua geração caminha para ser equiparado a Daniel Day Lewis; no método e na dimensão autoral que confere aos personagens que dá vida.


Prós:
+ Ganhou praticamente todos os prêmios da temporada
+ Venceu os principais termômetros do Oscar: o prêmio do sindicato dos atores, o critic´s choice awards e o Globo de ouro
+ interpreta um personagem com problemas de dependência química e esse tipo de caracterização agrada a academia
+ É uma atuação agressiva e o Oscar tem recompensado atores em desempenhos dessa maneira nos últimos anos


Contras:
- Seu comportamento temperamental pode rifar-lhe alguns votos preciosos
- Tem poucos amigos numa indústria em que amizade conta muito
- É o menos afável dos cinco concorrentes
- O fato de já ter sido muito premiado, sendo quem é, pode ser tido como suficiente nos bastidores da academia


Primeira indicação


O bem amado



Mark Ruffalo é aquele cara que sempre está bem em qualquer papel. Seja em um romance bobinho como De repente 30 ou levantando a bola para um astro do quilate de Leonardo DiCaprio em Ilha do medo. Mark Ruffalo recebe sua primeira indicação ao Oscar por uma composição detalhada e simpática do pai acidental de Minhas mãe e meu pai.


Prós:
+ Interpreta um personagem leve, sem abdicar da carga emocional de um homem que se vê envolvido no meio de um crise familiar e pessoal
+ É bastante querido entre os atores
+ É o trabalho mais redondo do elenco do filme


Contras:
- a pecha de que a indicação já é reconhecimento suficiente
- ele concorre por um filme que faz mais graça do que drama, o que pode ser um entrevero na hora H
- É um sujeito pacato e sem grande expressão na comunidade artística 


Primeira indicação


A força da natureza


Ele esteve na ilha de Lost, mas foi em um filme pouco visto que John Hawkes causou impacto. Em Inverno da alma ele vive um tipo obscuro dotado de um estranho apego familiar. Hawkes de um jeito manso provoca apreensão tanto nos personagens do filme quanto no público que o assiste.


Prós:
+ É um indicado bancado pelos atores, o maior grupo entre os membros da academia
+ Tem poucas chances de voltar a disputa e sua composição é forte o suficiente para uma distinção
+ O filme pelo qual concorre causou ótima impressão na academia


Contras:
- a pecha de que a indicação já é reconhecimento suficiente
- Não tem uma campanha sólida pela vitória
- Dos cinco nomes é o que está sendo mais contestado pela crítica americana
- Nem todo mundo na academia o conhece


Primeira indicação



O cara amarrada

Jeremy Renner em dois anos viu seu status mudar em Hollywood, mas ele não mudou a cara por causa disso. Por fazer uma variação do bad boy que viveu em Guerra ao terror no thriller de assalto de Ben Affleck, Atração perigosa, Renner – que está prestes a assumir a franquia Missão impossível – recebe sua segunda indicação ao Oscar. De forma consecutiva. E ele não pretende mudar a cara tão cedo.


Prós:
+ Está mais famoso do que no ano passado
+ Pode se beneficiar de uma rachadura entre os também famosos Christian Bale e Mark Ruffalo


Contras:
- Tem a única indicação de seu filme
- O papel é muito parecido com o de Guerra ao terror
- A indicação, no limiar, já é distinção suficiente e ele sabe disso.


Segunda indicação
Indicação anterior: Melhor ator por Guerra ao terror (2010)




O discípulo de Shakespeare


Existem atores que são tão bons que até quando são ruins são bons. O consenso geral é que o australiano Geoffrey Rush é um desses atores. O único premiado entre os concorrentes é o grande oponente da sensação Christian Bale. Uma das grandes forças de O discurso do rei (a outra é Colin Firth), Rush volta ao circo hollywoodiano com a pompa shakesperiana que tanto lhe atribuem e que ele não faz questão de rejeitar.


Prós:
+ É a corrente sanguínea de O discurso do rei
+ É a melhor opção caso a academia resolva não ceder a Christian Bale
+ Pode-se beneficiar do bom momento que vive O discurso do rei enquanto as cédulas de votação chegam para os membros da academia
+ Como já é do clube (já tem um Oscar) - e está em um filme inglês elogiado – pode contar com o apoio dos membros mais conservadores da academia


Contras:
- Já tem um Oscar e a tendência na categoria é premiar atores que ainda não o tenham
- Como o Oscar para Colin Firth é quase certo, a academia pode achar demais premiar dois atores do mesmo filme
- Não mora nos Estados Unidos e isso pode afastar muitos votos


Quarta indicação
Indicações anteriores: Melhor ator por Os contos proibidos do marquês de Sade (2001), melhor ator coadjuvante por Shakespeare apaixonado (1999) e melhor ator por Shine – brilhante (1997).
Vitória anterior: Shine – brilhante (1997)

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

OSCAR WATCH 2011 - Bale contra ataca



Ele começou como ator aos 9 anos em O império do sol. Estrelando o filme de Steven Spielberg estava o ator, que para muitos, seria o melhor intérprete do Batman nos cinemas. Sujeito temperamental, Christian Bale cultiva muitas inimizades na indústria e é conhecido por petits e escândalos notórios como aquele do áudio vazado nas filmagens de O exterminador do futuro – A salvação em que berra com um cenógrafo por ele ter atrapalhado a iluminação da cena.
Mas Christian Bale também tem admiradores. O cineasta alemão Werner Herzog foi só elogios ao ator que chegou a comer insetos de verdade no filme O sobrevivente (2004). Bale despontou mesmo em Psicopata americano (2000) e apesar de figurar em produções de alto potencial comercial (como a série Batman e Exterminador do futuro), aparece com frequência no cinema independente. Não estou lá (2007), O operário (2004), Laurel Canyon – a rua das tentações (2002) e Velvet Goldmine (1998) são alguns exemplos.
A mescla característica dos bons atores, no entanto, não tem valido grande destaque para Bale na indústria. Seu comportamento ainda o precede. Tudo pode mudar com O vencedor. O ator, que vem papando os principais prêmios da temporada pelo papel do irmão drogado e problemático do protagonista vivido por Mark Wahlberg, está recebendo uma sinalização de Hollywood para abraçar essa chance de ser querido. Com seu jeito irascível o galês cultivou poucas amizades, mas com O vencedor pode se impor pelo talento. Pode triunfar no Oscar em sua primeira indicação. Melhor sorte do que muita gente querida e amada por muitos em Hollywood. Bale, como declarou certa vez o também bad boy Russel Crowe (que dividiu a cena com o ator no western de nome sugestivo, Os indomáveis), é um cara que de um jeito ou de outro consegue o que quer. E em 2011 ele quer um Oscar!

Bale, ao lado de Mark Wahlberg, em cena de O vencedor: chance de ser querido...

OSCAR WATCH 2011 - Uma vencedora!

Melissa Leo eleva o SAG conquistado no último domingo: atriz de personagens fortes... 


Ela tem 50 anos. Um longo histórico de produções na TV, uma presença constante em produções independentes (esteve em Sundance neste ano divulgando Red State, novo filme de Kevin Smith, do qual faz parte) e só agora está sendo descoberta por público e crítica. Há dois anos atrás Melissa Leo, uma legítima nova- iorquina, sentiu que o reconhecimento a espraiava. Pelo filme independente Rio congelado foi indicada ao Oscar de melhor atriz e todas as benesses da indústria se abriram para ela. Do time de Meryl Streep, no sentido que sempre está em busca de grandes personagens e que prima pela versatilidade ao vivê-los, Leo volta ao Oscar em 2011, com grandes chances de vitória, pela mãe flagelada de O vencedor.
Viver mulheres fortes é um estigma da carreira da atriz. Em 2010, ela também esteve em Conviction, em um papel pequeno, mas de forte impacto. Seja em séries de TV, como Shark (uma série de tribunal com James Woods), Lei & Ordem (outra série de tribunal), Treme, The L World, ou em filmes como 21 gramas, Marcas de um passado ou Greta, Leo sempre passa confiança e força. Uma atriz que transparece fôlego e determinação. Suas personagens ganham muito com ela. Talvez por isso, a presente década promete muito trabalho para a atriz. Ela está com três filmes com lançamento agendado para 2011 e outros cinco projetos engatilhados para os próximos anos. Isso porque ela ainda nem ganhou o Oscar...

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

OSCAR WATCH 2011 - Qual é a manha de O vencedor?


Claquete mergulha nos bastidores de um dos filmes mais comentados da temporada e decifra para o leitor a razão de todo o sucesso do novo filme do diretor de Três reis



Mark Wahlberg já estava ligado ao projeto há pelo menos dez anos. O ator indicado ao Oscar por Os infiltrados via na história de Mickey Ward um ótimo material para seu pulo do gato como ator. “Sempre simpatizei pela trajetória de Mickey e seria uma grande satisfação poder vivê-lo no cinema”, disse Mark Wahlberg ao USA Today quando O vencedor ainda era um projeto. Como outro filme sobre uma figura desgarrada e com o mundo das lutas como palco estava em evidência, Darren Aronofsky (diretor que colhia os frutos por O lutador com outro Mickey, o Rourke) foi relacionado ao projeto. Na verdade, Mark Wahlberg (que além de viver o protagonista é um dos produtores do filme) havia enviado o roteiro do filme a Martin Scorsese (que havia lhe arrancado a melhor atuação da carreira no filme sobre a máfia irlandesa) e, afinal, era o diretor de Touro indomável. Scorsese não se interessou pelo projeto. Não que Wahlberg tenha ficado cabisbaixo com a negativa de Marty (ambos juntaram forças e produziram a série Boardwalk Empire para a HBO americana). O projeto então foi oferecido pela Paramount (que só aprovou o roteiro depois do sucesso de O lutador) a Aronofsky. O diretor aceitou a proposta, mas pouco depois se retirou para dirigir um filme mais pessoal (Cisne negro que, ironicamente , é um dos oponentes de O vencedor nessa Oscar season).
“Para mim o balé e a luta livre guardam muitas semelhanças”, justificou; “e eu já tinha essa ideia há muito tempo”. Argumentou Aronofsky que acrescentou à negativa, o fato de já ter dito o que tinha a dizer com um filme ambientado no mundo das lutas. Sem Aronofsky e com as filmagens marcadas para agosto de 2009, Wahlberg – que já se preparava para o papel desde 2005 segundo o próprio – temeu pelo futuro da produção. Foi aí que teve a ideia de oferecer o filme a outro diretor chegado seu. David O. Russel que o dirigira em Três reis (divertida alegoria política ambientada na primeira guerra do Iraque) e Huckabees – a vida é uma comédia (fita de humor negro incompreendida). Russel não era exatamente a referência que o estúdio estava buscando, mas quando Brad Pitt demonstrou interesse em viver o problemático irmão do personagem de Wahlberg, Dicky Eklund, a Paramount deu o sinal verde para que a produção começasse.


Wahlberg em cena clássica dos filmes de boxe: a fita que estréia em 11 de fevereiro nos cinemas brasileiros pode ser considerada o projeto da carreira do ator


Se Pitt saiu do projeto, não se pode dizer que o elenco ficou defasado. Christian Bale assumiu o papel de Dick Eklund (que segundo boca pequena em Hollywood é o tipo de papel que resulta em prêmios) e outros prestigiados nomes como os de Melissa Leo (que faz a mãe dos dois personagens centrais e de outros seis filhos no filme) e Amy Adams, como a namorada de Mickey, agregam valor a produção.
Com seis indicações ao Globo de ouro (inclusive para ator dramático para Mark Wahlberg e diretor para Russel), 4 indicações ao SAG e indicado a melhor elenco no Critic´s choice awards, O vencedor mostra que sua força está em seu conjunto de atores. Melissa Leo, Amy Adams e Christian Bale vêm fortes para o Oscar. Os três devem ser lembrados. O filme frequentou listas de melhores de 2010 de prestigiados críticos como A.O Scott do New York Times e Peter Travers da Rolling Stone. Não é pouca coisa para um filme que ficou na berlinda por anos e que dependia do interesse de um ator de baixa estatura dramática para ver a luz do dia.
Em dezembro, O vencedor recebeu aquela que deve entrar para a história como a maior distinção recebida pelo filme. A revista Sports Illustrated deu capa ao filme e vaticinou na reportagem: o melhor filme de boxe da década.

Capa da derradeira edição de 2010 da Sports Illustrated: melhor filme de boxe da década para a publicação

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

OSCAR WATCH 2011 - Os indicados ao SAG 2011

Foram conhecidos nesta quinta-feira (16), pela manhã, os indicados ao 17º prêmios Screen Actors Guild (SAG), o prestigiado sindicato de atores americano. Os três filmes que despontam na temporada de premiações confirmaram o favoritismo e garantiram indicação ao prêmio de melhor elenco (o equivalente a melhor filme no Oscar). O discurso do rei e O vencedor angariaram, ainda, nomeações para três intérpretes individualmente.
A rede social, por sua vez, emplacou a já sólida candidatura de Jesse Eisenberg na disputa de melhor ator.
Como era de se esperar, atores contemplados na lista de terça-feira do Globo de ouro ficaram de fora da festa do SAG. O grande destaque é o novo confronto entre Jeff Bridges (Bravura indômita) e Colin Firth (O discurso do rei). Ambos os atores rivalizaram no SAG deste ano, mas dessa vez um leve favoritismo acompanha o ator britânico. Outro destaque é a presença da querida Hilary Swank por Conviction novamente rivalizando com Annette Bening por Minhas mães e meu pai. Ambas já rivalizaram em duas ocasiões no SAG com uma vitória para cada, mas no Oscar Swank prevaleceu as duas vezes. As indicações do SAG ajudaram a estabelecer alguns nomes entre as certezas do Oscar. São eles: Colin Firth, James Franco, Natalie Portman (não que alguém ainda duvidasse dela nesta categoria), Annette Bening, Nicole Kidman e Jennifer Lawrence, Christian Bale, Geoffrey Rush, Amy Adams, Melisa Leo e Helena Bonham Carter . Ficaram muito próximos da vaga Jesse Eisenberg, Robert Duvall, Mark Ruffalo e Mila Kunis.

Cena de Minhas mães e meu pai: a indicação para o elenco mostra que o filme recuperou a força perdida após a ausência nas principais listas de críticos


Na quarta-feira à noite foram divulgados os melhores do ano pela associação de críticos de San Diego. O inverno da alma foi escolhido o melhor filme. A produção independente também recebeu os prêmios de melhor atriz (Jennifer Lawrence) e ator coadjuvante (Josh Hawkes). O melhor diretor para os críticos de San Diego foi Darren Aronosfsky (Cisne negro). O melhor ator foi Colin Farrel (Ondine) e roteiro do ano foi o de A rede social. O sul corano Mother foi escolhido a melhor produção estrangeira.  


A lista do SAG

Melhor elenco
O vencedor
Cisne negro
O discurso do rei
Minhas mães e meu pai
A rede social

Melhor ator
Jeff Bridges (Bravura indômita)
Jesse Eisenberg (A rede social)
Robert Duvall (Get Low)
Colin Firth (O discurso do rei)
James Franco (127 horas)

Melhor atriz
Nicole Kidman (Rabbit Hole)
Annette Benning (Minhas mães e meu pai)
Hilary Swank (Conviction)
Jennifer Lawrence (O inverno da alma)
Natalie Portman (Cisne negro)

Melhor ator coadjuvante
Christian Bale (O vencedor)
John Hawkes (O inverno da alma)
Jeremy Renner (Atração perigosa)
Mark Ruffalo (Minhas mães e meu pai)
Geoffrey Rush (O discurso do rei)

Melhor atriz coadjuvante
Amy Adams (O vencedor)
Melissa Leo (O vencedor)
Helena Bonham Carter (O discurso do rei)
Mila Kunis (Cisne negro)
Hailee Steinfield (Bravura indômita)


A festejada Jennifer Lawrence em cena de O inverno da alma: o melhor filme do ano para os críticos de San Diego                                                                         


No sábado, será publicado em Claquete uma análise dos indicados ao Globo de ouro e no domingo, na seção Insight, uma análise de como fica a corrida pelo Oscar depois dessa semana decisiva da Oscar season. Não deixem de ler!