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sábado, 26 de fevereiro de 2011

OSCAR WATCH 2011 - A peleja dos filmes

1- Inverno da alma, 2- 127 horas, 3- Cisne negro, 4 - O discurso do rei, 5 - Bravura indômita, 6 - Minhas mães e meu pai, 7 - A rede social, 8 - O vencedor, 9 - A origem e 10 - Toy story 3



Ode à vida

É inegável que 127 horas tem vocação cult. Não só porque não fez muito dinheiro, mas também porque Danny Boyle utiliza uma linguagem moderna que vai ao encontro de cinéfilos feitos no universo videoclipeiro. O filme tem também James Franco em grande atuação. Daquelas que dão sentido a um filme e a uma vida.

Porque deveria ganhar...
É um filme dinâmico, envolvente e que esbanja boa técnica. Traz uma atuação espetacular e faz um brinde a vontade de viver.

Porque não deveria ganhar...
Danny Boyle ainda tropeça em alguns preceitos básicos de direção e, não fosse por James Franco, seu filme poderia virar uma pirotecnia egóica.


As indicações: filme, roteiro adaptado, ator, montagem, trilha sonora e canção


Família Dó-ré-mi


Entra ano e sai ano e famílias disfuncionais continuam a fascinar os acadêmicos. E com toda a razão. Em O vencedor, acompanhamos a saga de uma família cheia de amor, mas que precisa aprender a lapidá-lo de uma maneira que não façam mal uns aos outros. Um filme escorado na força de seu elenco que arranca emoções genuínas da platéia.


Porque deveria ganhar...
É o melhor trabalho de elenco do ano. Um testamento referencial de como um grupo de atores em fina sintonia garante a perenidade de um filme.


Porque não deveria ganhar...
É um filme remontado em clichês e, a bem da verdade, essa história já rendeu Oscar em outros anos.


As indicações: Filme, direção, roteiro original, ator coadjuvante, 2 indicações para atriz coadjuvante e montagem


Família cromossomo X


E tem coisa melhor do que posar de liberal com roupas conservadoras? É mais ou menos isso o que ocorre com Minhas mães e meu pai, um dos filmes mais festejados da temporada. A fita que mostra a vida de uma família chefiada por um casal de lésbicas é a única comédia entre os selecionados. No fundo, o recado está nessa condição. Não é para ser levada a sério.


Porque deveria ganhar...
A última comédia a ganhar o Oscar foi Shakespeare apaixonado há quase 15 anos. Minhas mães e meu pai, pelo menos, é superior aquele filme.


Porque não deveria ganhar...
O filme não reúne predicados que lhe afirmem como um legítimo filme de Oscar. Há competência na misê-èn-scene, mas ela nunca excede o previsível.


As indicações: filme, roteiro original, atriz e ator coadjuvante



Vida longa aos ingleses


Não tem jeito. Uma vez colônia, sempre colônia. É a melhor forma de explicar o favoritismo de O discurso do rei e suas imponderáveis doze indicações ao Oscar. Filme bem feito, mas longe do rigor acadêmico de outras produções de época que tinham contra elas o fato de não serem da terra da rainha.


Porque deveria ganhar...
É um filme que demonstra como a braveza de espírito é imprescindível para a superação de desafios. Traz o tipo de argumento que a academia gosta de referendar.


Porque não deveria ganhar...
Em um ano com produções inovadoras e relevantes, premiar um filme quadrado e pouco inventivo seria, no mínimo, desestimulante em níveis cinematográficos.


As indicações: Filme, direção, roteiro original, ator, atriz coadjuvante, ator coadjuvante, fotografia, trilha sonora, direção de arte, figurino, montagem e mixagem de som


O brilho do independente


São cinco fitas independentes entre os concorrentes a melhor filme. Mas cabe a Inverno da alma, a prerrogativa de chamar-se como tal. Filmado nos confins americanos e ambientado em tais confins, Inverno da alma é aquele tipo de filme que exige paciência e cumplicidade de seu espectador. De ritmo lento e dialética difícil, é uma história violenta sobre uma parte da humanidade paralisada no tempo. E em um mundo de seis bilhões de pessoas, essa realidade é maior do que muitos imaginam.


Porque deveria ganhar...
É um filme que triunfa em todos os seus elementos. Roteiro, atuação, direção, montagem, fotografia e música.


Porque não deveria ganhar...
É demasiadamente complexo em sua simplicidade. Afugenta espectadores à espera de emoções mais consumíveis.


As indicações: Filme, roteiro adaptado, atriz e ator coadjuvante



O sonho real


A origem foi o primeiro candidato ao Oscar a assegurar-se na lista em meados de julho, quando estreou nos cinemas americanos sob festa da crítica. Faltava precisar o tamanho da candidatura. Não foi das maiores, mas foi maior do que seria há alguns anos. O filme de Nolan ainda será responsável por pequenas revoluções no cinema americano e no Oscar. É esse o sonho que ele plantou com seu filme.


Porque deveria ganhar...
É o filme mais inventivo do ano. Nenhum outro filme causou tamanho espanto e admiração em 2010. Nenhum outro filme se assumiu como arte em um produto comercial.


Porque não deveria ganhar...
É um filme que, de alguma maneira, marca mais pela forma do que pelo conteúdo. Esse é o calcanhar de Aquiles de qualquer filme que objetive o Oscar.


As indicações: Filme, roteiro original, fotografia, direção de arte, trilha sonora, mixagem de som, edição de som e efeitos visuais


O tempo e a razão


Em um mundo justo o melhor filme do ano ganharia o Oscar de filme do ano, certo? A academia pode ajudar a fazer do mundo um lugar mais justo em 2011 se premiar A rede social. A fita que, em uma só tacada, desfila arrojo técnico, reverberação social, reflexão filosófica e brilhantismo acadêmico é também um filme que afaga a inteligência como nenhum outro candidato no ano.


Porque deveria ganhar...
É tão bom quanto os outros candidatos no que eles têm de melhor. E é ótimo no que eles falham. Isso o isola como melhor, certo?


Porque não deveria ganhar...
É frio, analítico e impessoal. O Oscar, no limiar, ainda é sobre emoção


As indicações: Filme, direção, roteiro adaptado, ator, montagem, fotografia, trilha sonora e mixagem de som


Sobre ciclos


O Oscar já premiou uma trilogia em seu derradeiro capítulo (O senhor dos anéis: o retorno do rei). Para muitos, Toy story 3 é a melhor trilogia do cinema. Mas não só. É também a afirmação definitiva de que a Pixar está aí para disputar com gente como Almodóvar e Tarantino a alcunha de detentor do melhor cinema autoral em voga atualmente.


Porque deveria ganhar...
É o filme mais poético e emocionante dos indicados. E a vida anda precisando de poesia.


Porque não deveria ganhar...
Se a beleza não põe mesa, o mesmo serve para poesia.


As indicações: Filme, animação, roteiro adaptado, canção original e edição de som


Questão de honra


Dá gosto ver os Coen se contendo em favor de uma obra atemporal como Bravura indômita. Ao fazer isso, eles contribuíram para o novo fôlego do western nas bilheterias. Um filme que consegue aliar beleza à obscuridade e ainda empolga. No final das contas, os fins justificaram os meios.


Porque deveria ganhar...
É um filme belamente realizado com o viço dos grandes clássicos e humor contemporâneo.


Porque não deveria ganhar...
É melhor do que o filme original, mas não é o melhor filme do ano.


As indicações: Filme, direção, roteiro adaptado, ator, atriz coadjuvante, fotografia, figurino, direção de arte, edição de som e mixagem de som


Perfeição


Chegar lá é exaustivo. Mas Cisne negro é prova viva de que é possível. Filme que se envaidece de sua perfeição técnica sem qualquer comedimento, chega ao Oscar menor do que se supunha. Contudo, a perfeição irretocável de Cisne negro abriu portas para aqueles que lhe deram corpo.


Porque deveria ganhar...
Nenhum filme provocou e fascinou tanto o público no ano. Nenhum outro final tirou o fôlego do espectador na sala escura.Há muito tempo, um filme não provocava essas reações.


Porque não deveria ganhar...
É um filme que não teria o mesmo impacto, não fosse por intervenções bem detectáveis da direção


As indicações: Filme, direção, atriz, montagem e fotografia

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

OSCAR WATCH 2011 - Contexto

Por que esses dez filmes?

É o segundo ano consecutivo que a academia seleciona dez indicados para concorrer ao Oscar de melhor filme. Já é pacífico que a medida visa uma maior popularização da cerimônia de TV, um impacto maior nas bilheterias e na reverberação midiática da marca Oscar. Mas quais são os predicados dos dez filmes escolhidos para concorrer ao prêmio máximo do cinema em 2011?
Um primeiro olhar sugere um ecletismo que, pautado pelo equilíbrio, reforça a escolha da academia. Estamos diante de uma seleção de invejável fôlego. Há cinco filmes independentes em disputa (Cisne negro, 127 horas, Minhas mães e meu pai, Inverno da alma e O discurso do rei), três legítimos blockbusters de estúdio (A rede social, A origem e Toy story 3) e dois filmes “baratos” de estúdio (O vencedor e Bravura indômita). Todos de inegável qualidade. Essa equação não foi bem resolvida ano passado, quando os blockbusters eram qualitativamente pálidos (Um sonho possível e Avatar) e o desnível entre outras produções concorrentes era muito grande. É difícil conseguir alguma equidade qualitativa até mesmo com cinco indicados, obter isso com dez é um feito e tanto. Esse dado leva a conclusão de que foi um bom ano. A academia reconheceu a originalidade de projetos modernos e modernosos (A origem e A rede social), prestigiou os independentes que se esmeram no elenco e na história (Inverno da alma e Minhas mães e meu pai que dividem quatro indicações idênticas) e saudou o tradicional nas figuras do western (Bravura indômita), da fita inglesa de época (O discurso do rei) e do filme que traz o boxe como parábola (O vencedor). Chamou a atenção o destaque que esses três filmes receberam da academia. Maior do que muitos supunham ser justificável. Isso ocorreu porque depois de alinhar-se a crítica na edição de 2010, a academia se encontra na necessidade de marcar território novamente. Por isso, filmes tão tradicionais lideram a disputa.

Cartaz conceitual de Bravura indômita, um dos principais concorrentes ao Oscar 2011: filme tradicional com a chancela dos irmãos Coen


Mas a academia está dividida. Entre a engenhosidade narrativa de filmes como A rede social e A origem e a segurança secular de obras como O discurso do rei e O vencedor. De qualquer jeito a lista do Oscar 2011 sinaliza bons tempos. A superação do ser humano continua a ser um dos pilares do Oscar. Ela está presente de variadas formas em 127 horas, O discurso do rei, Bravura indômita e O vencedor. Começa a ruir a barreira que separava a boa ficção científica do Oscar. Pelo terceiro ano seguido um filme de ficção se enfileira entre os melhores. Batman – o cavaleiro das trevas em 2009 (que ao não ter emplacado a candidatura a melhor filme, tornou-se a grande razão de ser dessa mudança para dez indicados), Distrito 9 em 2010 e A origem esse ano. Ainda levará mais algum tempo para que a barreira seja totalmente transposta. A qualidade desses filmes, é bom que se diga, precisará continuar em alta. Ao reconhecer a leveza de um filme que aborda uma família chefiada por um casal de lésbicas, cuja rotina é tão problemática quanto outra qualquer, a academia atesta a preocupação social de não parecer pró-ativa demais. Nem de menos. A violência e as deturpações do mundo nos últimos tempos também têm garantido vez no Oscar. Inverno da alma não tem a apoteose de Os infiltrados, nem o pessimismo de Onde os fracos não têm vez, mas se sustenta na comparação. E, aquele que Claquete já pontuou como o filme do Oscar, A rede social é o filme que transborda conteúdo, relevância e reflexão. Tudo embalado em ótimo entretenimento. Pode não ser escolhido o melhor filme do ano, mas sua presença na lista fará com que os outros imediatamente – na revisão histórica – se tornem um pouco melhores.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

OSCAR WATCH 2011 - A peleja dos atores coadjuvantes

Da esquerda para a direita: Christian Bale (O vencedor), Mark Ruffalo (Minhas mães e meu pai), John Hawkes (Inverno da alma), Jeremy Renner (Atração perigosa) e Geoffrey Rush (O discurso do rei)



O cavaleiro das trevas


O galês Christian Bale é o nome do momento. Estupendo em O vencedor, o ator que é seguramente um dos melhores de sua geração caminha para ser equiparado a Daniel Day Lewis; no método e na dimensão autoral que confere aos personagens que dá vida.


Prós:
+ Ganhou praticamente todos os prêmios da temporada
+ Venceu os principais termômetros do Oscar: o prêmio do sindicato dos atores, o critic´s choice awards e o Globo de ouro
+ interpreta um personagem com problemas de dependência química e esse tipo de caracterização agrada a academia
+ É uma atuação agressiva e o Oscar tem recompensado atores em desempenhos dessa maneira nos últimos anos


Contras:
- Seu comportamento temperamental pode rifar-lhe alguns votos preciosos
- Tem poucos amigos numa indústria em que amizade conta muito
- É o menos afável dos cinco concorrentes
- O fato de já ter sido muito premiado, sendo quem é, pode ser tido como suficiente nos bastidores da academia


Primeira indicação


O bem amado



Mark Ruffalo é aquele cara que sempre está bem em qualquer papel. Seja em um romance bobinho como De repente 30 ou levantando a bola para um astro do quilate de Leonardo DiCaprio em Ilha do medo. Mark Ruffalo recebe sua primeira indicação ao Oscar por uma composição detalhada e simpática do pai acidental de Minhas mãe e meu pai.


Prós:
+ Interpreta um personagem leve, sem abdicar da carga emocional de um homem que se vê envolvido no meio de um crise familiar e pessoal
+ É bastante querido entre os atores
+ É o trabalho mais redondo do elenco do filme


Contras:
- a pecha de que a indicação já é reconhecimento suficiente
- ele concorre por um filme que faz mais graça do que drama, o que pode ser um entrevero na hora H
- É um sujeito pacato e sem grande expressão na comunidade artística 


Primeira indicação


A força da natureza


Ele esteve na ilha de Lost, mas foi em um filme pouco visto que John Hawkes causou impacto. Em Inverno da alma ele vive um tipo obscuro dotado de um estranho apego familiar. Hawkes de um jeito manso provoca apreensão tanto nos personagens do filme quanto no público que o assiste.


Prós:
+ É um indicado bancado pelos atores, o maior grupo entre os membros da academia
+ Tem poucas chances de voltar a disputa e sua composição é forte o suficiente para uma distinção
+ O filme pelo qual concorre causou ótima impressão na academia


Contras:
- a pecha de que a indicação já é reconhecimento suficiente
- Não tem uma campanha sólida pela vitória
- Dos cinco nomes é o que está sendo mais contestado pela crítica americana
- Nem todo mundo na academia o conhece


Primeira indicação



O cara amarrada

Jeremy Renner em dois anos viu seu status mudar em Hollywood, mas ele não mudou a cara por causa disso. Por fazer uma variação do bad boy que viveu em Guerra ao terror no thriller de assalto de Ben Affleck, Atração perigosa, Renner – que está prestes a assumir a franquia Missão impossível – recebe sua segunda indicação ao Oscar. De forma consecutiva. E ele não pretende mudar a cara tão cedo.


Prós:
+ Está mais famoso do que no ano passado
+ Pode se beneficiar de uma rachadura entre os também famosos Christian Bale e Mark Ruffalo


Contras:
- Tem a única indicação de seu filme
- O papel é muito parecido com o de Guerra ao terror
- A indicação, no limiar, já é distinção suficiente e ele sabe disso.


Segunda indicação
Indicação anterior: Melhor ator por Guerra ao terror (2010)




O discípulo de Shakespeare


Existem atores que são tão bons que até quando são ruins são bons. O consenso geral é que o australiano Geoffrey Rush é um desses atores. O único premiado entre os concorrentes é o grande oponente da sensação Christian Bale. Uma das grandes forças de O discurso do rei (a outra é Colin Firth), Rush volta ao circo hollywoodiano com a pompa shakesperiana que tanto lhe atribuem e que ele não faz questão de rejeitar.


Prós:
+ É a corrente sanguínea de O discurso do rei
+ É a melhor opção caso a academia resolva não ceder a Christian Bale
+ Pode-se beneficiar do bom momento que vive O discurso do rei enquanto as cédulas de votação chegam para os membros da academia
+ Como já é do clube (já tem um Oscar) - e está em um filme inglês elogiado – pode contar com o apoio dos membros mais conservadores da academia


Contras:
- Já tem um Oscar e a tendência na categoria é premiar atores que ainda não o tenham
- Como o Oscar para Colin Firth é quase certo, a academia pode achar demais premiar dois atores do mesmo filme
- Não mora nos Estados Unidos e isso pode afastar muitos votos


Quarta indicação
Indicações anteriores: Melhor ator por Os contos proibidos do marquês de Sade (2001), melhor ator coadjuvante por Shakespeare apaixonado (1999) e melhor ator por Shine – brilhante (1997).
Vitória anterior: Shine – brilhante (1997)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Crítica - Inverno da alma

Descobrindo a América!


Quando o espectador é advertido de que está diante de um filme difícil, ele fica um tanto desarmado sobre o que esperar. Inverno da alma não investe em metáforas metafísicas, nem em uma estética radical, o que o Debra Granik, em seu segundo longa metragem, propõe é uma experiência de descoberta. Ela apresenta uma América embrutecida, involuída ou, posto de maneira simples, parada no tempo.
O que se vê em Inverno da alma são pessoas regidas por códigos de ética bem particulares, uma moral deformada por necessidades básicas e, no que de melhor o filme tem para mostrar, uma força de vontade hercúlea de sobreviver. Isso está presente em todos os personagens, mas é através de Ree Dolly (Jennifer Lawrence) que as tintas ficam mais fortes. Aos 17 anos, a garota que cuida da casa, da mãe doente e dos irmãos mais jovens precisa encontrar o pai desaparecido da justiça para evitar perder a propriedade. A obstinação de Ree cativa e para que isso ocorra é fundamental a entrega de Jennifer Lawrence a sua personagem. Não estivesse Jennifer senhora da apreensão, medo e gana de Ree, Inverno da alma não teria metade de sua força.
Se o filme é forte, incômodo (no sentido de mostrar que não evoluímos como sociedade tanto quanto cremos) e esperançoso, o é em virtude da impactante presença de Jennifer.
Em meio a mulheres embrutecidas, homens mais embrutecidos ainda, e uma paisagem das mais áridas, Jennifer resplandece vigor e graça na caracterização de uma mulher determinada a prover para sua família. “Estaria perdida sem o peso de vocês na minhas costas”, ela diz para o irmão pequeno quando este teme que ela esteja considerando deixá-los. No limiar, Inverno da alma ainda é um culto à essência do valor familiar.

Jennifer Lawrence e John Hawkes, indicados ao Oscar, em cena: sempre que estão juntos o filme ganha em dimensão emocional


A fita que concorre a quatro Oscars (filme, roteiro adaptado, atriz e ator coadjuvante) preza muito o silêncio. Quando os diálogos surgem, eles surgem da maneira mais inteligente possível. O que não é dito em Inverno da alma é tão importante quanto o que é dito e isso pode ser evidenciado sempre que John Hawkes (que faz o tio de Ree) e Jennifer Lawrence dividem a cena. A tela explode em carga dramática e em densidade emocional. São dois atores em estado de ebulição que conferem a Inverno da alma a urgência das grandes descobertas.

OSCAR WATCH 2011 - O verdadeiro independente do ano!

Minhas mães e meu pai é badalado desde o festival de Sundance de 2010. Passou pelos festivais de Berlim e Los Angeles, angariou mais de U$ 30 milhões nas bilheterias americanas e segue fazendo uma bela carreira internacional. 127 horas foi um projeto logo abraçado pela Fox Searchlight após o regozijo que Danny Boyle (o diretor do filme) proporcionou ao estúdio com a consagração de Quem quer ser um milionário? no Oscar dois anos atrás. Cisne negro comeu o pão que o diabo amassou para ver a luz do dia. Mas escorado no burburinho em torno de sua estrela (Natalie Portman) voou alto nas bilheterias e já beija a sonhada marca dos U$ 100 milhões nos EUA. O discurso do rei foi apadrinhado pelo poderoso Harvey Weinstein e, bem, se configura como um independente de posses. Esse panorama permite aferir que o filme independente, com pedigree de independente, em 2010 é mesmo Inverno da alma. A fita de Debra Granik, assim como o filme estrelado por Annette Bening e Julianne Moore, debutou no festival de Sundance de 2010 – de onde saiu laureado com o prêmio especial do júri de melhor drama e com o troféu de melhor roteiro.

Na raça: o custo do filme foi de U$ 2 milhões e a produção arrecadou pouco mais de U$ 10 milhões nas bilheterias americanas. As indicações ao Oscar devem dar novo fôlego a carreira internacional da fita

 

História minimalista
Inverno da alma é ambientado no condado de Ozark Back, um lugar tão inóspito quanto sugerido pelas lentes da diretora. Em Inverno da alma temos acesso a uma parte da América que parece involuída. Estagnada em uma espécie de faroeste cru, seco e impiedoso. A forma como Granik se aproxima dessa realidade impressiona. “As pessoas estão acostumadas em ver a classe média no cinema. Às vezes choca constatar que há uma América menos cinematográfica”, disse em entrevista recente ao jornal New York Times. Não se faz eco a filmes como Preciosa – uma história de esperança, por exemplo, um dos destaques da edição do Oscar 2010. A América desbravada em Inverno da alma é outra. É mais antiga e mais primal, ainda que tão contemporânea quanto a que se vê no filme de Lee Daniels que ganhou dois Oscars.
Ao focar na via crucis de sua protagonista, Inverno da alma ganha fôlego dramático. Ree Dolly (vivida por Jennifer Lawrence), aos 17 anos, cuida da mãe com problemas mentais e dos dois irmãos pequenos. Ela mantém essa responsabilidade junto com os demais afazeres domésticos. Um belo dia, Ree toma ciência de que a propriedade da família foi dada como garantia na fiança de seu pai (um produtor de metanfetamina) e que se este não se apresentar à justiça na data da audiência, a propriedade será confiscada. Ree, então, parte em busca do pai e para conseguir seu intento cruzará o caminho de muita gente rude e com raízes violentas.


Ritmo calculado
Tudo foi filmado com a ideia de produzir um filme lento. “Mas o ritmo do filme só foi definido na sala de edição”, garante o montador Affonso Gonçalves. O brasileiro, que mora a 20 anos nos EUA, disse na entrevista que deu ao UOL cinema, que Debra Granik e ele tinham o interesse em trabalhar juntos. “Desde que nos conhecemos fomos trocando ideias sobre a oportunidade”. O filme que recebeu quatro indicações ao Oscar (filme, roteiro adaptado, atriz e ator coadjuvante) se mostrou o projeto certo e é o mais comentado e elogiado trabalho da dupla em suas respectivas carreiras. Affonso, que já editou filmes como Nova Iorque, eu te-amo, deve receber novas propostas de trabalho. Todo o ritmo de Inverno da alma, da produção e do filme, como se vê, foi muito bem calculado. Ter chegado ao Oscar nada mais é do que, além de justiça, consequência do bom trabalho realizado.