Encontrando a voz da nação
Os filmes ingleses são certeiros porque primam pela excelência e classe que muitas cinematografias buscam e não conseguem atingir. Calcado no refinamento dos atores e na exuberância do jeito britânico de fazer cinema, há um estilo de filme inglês que agrada particularmente: o de época. É isso que ajuda a entender o porque de O discurso do rei (The king´s speech INGL 2010) conseguir os louros internacionais que faltaram, por exemplo, a Trainspporting – sem limites (1996). O filme de Tom Hooper, indicado a 12 Oscars, é uma vitrine de tudo que dá certo no cinema inglês. Atores no conforto da excelência dramática, técnica pontual e vistosa e um academicismo que flerta constantemente com noções conservadoras de como produzir um filme. É, em miúdos, um clamor por prestígio junto a prêmios e crítica.
Isso posto, é preciso reconhecer que mesmo enveredando por tamanho rigor técnico, O discurso do rei é um filme cativante, otimista e com uma mensagem muita bonita. Ao flagrar a coroa britânica em um momento de fragilidade (outra obsessão do cinema da terra da rainha), a partir de um problema de ordem pessoal de um de seus integrantes, O discurso do rei propõe uma poderosa relação de causa e efeito com seu público.
Refinamento e sofisticação: O discurso do rei é como escola de samba que faz desfile técnico; não empolga, mas demonstra competência soberana
Os bastidores da política são meros detalhes no filme que foca a terapia vocal que o futuro Rei George VI (Colin Firth) faz com o ator frustrado Lionel Logue (Geoffrey Rush). Mas o filme não hesita em adornar a política, quando necessário, para potencializar seu efeito dramático. Uma solução hábil do ponto de vista catártico, mas que demonstra a inconstância do filme que não se resolve como crônica política ou como drama de tintas biográficas. Esse dado pouco afeta o filme. O discurso do rei pode ser lido como uma espécie de “feel good movie” de época. Não tem a relevância histórica de A rainha (2006) ou as pretensões biográficas de Elizabeth (1998), mas sim o interesse de fazer o público entender um pouco mais sobre a força sobrehumana demonstrada por um monarca que precisava a todo custo se libertar do complexo de inferioridade que o acometia. O mesmo vale para uma nação que agonizava as vésperas de uma guerra mundial e cuja liderança estava abalada.
Contribui e muito para o impacto positivo que O discurso do rei tem sobre seu espectador, as atuações de seu par de atores principais. Geoffrey Rush está magnânimo em cena. No limite da ironia e da descompostura plebéia, Rush cria um tipo cativante e profundamente atraente. Colin Firth, por sua vez, reveste sua caracterização do rei gago de ternura e candura. Além do fato de ser convincente em cena (driblando o risco da sátira), Firth provoca comoção da platéia com uma performance sutilmente alinhada ao espírito do filme. Quando Rush e Firth contracenam, O discurso do rei tem seus melhores momentos. Momentos esses que não fazem do filme o melhor do ano. Na verdade, em tão equilibrada disputa ele passa longe dessa marca. Mas é um inglês de qualidade indubitável. Para uns e outros, isso já é suficiente.









