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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Retrospectiva 2012 - Os dez melhores filmes do ano


Foi um bom ano. O balanço final da temporada 2012 é muito positivo. No entanto, dos dez filmes que integram o TOP 10 de Claquete, seis são lançamentos originais de 2011 que só chegaram em telas brasileiras este ano. A predominância das produções de 2011 na lista, no entanto, é mais sintoma das estratégias dos estúdios de concentrarem os chamados lançamentos de Oscar no início do ano seguinte. Outro aspecto que chama a atenção é a ausência de blockbusters no Top 10. Há, na verdade, um. Mas é um blockbuster que traz consigo o elemento surpresa. Com os aguardados lançamentos de Batman e 007, não se poderia esperar que uma comédia com um ursinho falante conseguisse roubar destes filmes uma vaga no top 10. Em parte pela decepção de muitos lançamentos aguardados e em parte por uma safra adulta de filmes independentes fortes e pulsantes, o top 10 dos melhores filmes de 2012 é bastante diverso e multifacetado. Há uma produção argentina, uma francesa, uma iraniana e duas inglesas. Quatro produções americanas e outra coproduzida com o Canadá. Diretores consagrados como David Fincher e David Cronenberg marcam presença na lista, mas dividem espaço com nomes ainda em consolidação como Steve McQueen, Michel Hazanavicius e Nicholas Jarecki.
Filmes que apostaram em uma estética ousada e em uma renovação da linguagem cinematográfica como A separação, Precisamos falar sobre o Kevin e Shame marcam presença na lista. Filmes bem realizados e com propostas revisionistas sobre suas referências, como O artista e Um método perigoso, também se destacam.
Sem mais delongas, os dez melhores filmes lançados comercialmente no Brasil na avaliação de Claquete:

10 – A separação (Jodaeiye Nader az Simin, Irã 2011), de Asgar Farhadi

A inteligente e impactante fita de Asghar Farhadi tem o mérito de ser, ao mesmo tempo, universal sobre conflitos essencialmente humanos e particular da realidade iraniana. Não é uma equação fácil, mas que Farhadi com os préstimos de seu excelente par de protagonistas (Peyman Maadi e Leila Hatami) alcança com um trabalho pulsante, em suas formulações narrativas, e angustiante, em suas resoluções dramáticas. Um testamento da força do cinema de ideias.



 9 – O artista (The artist, EUA/FRA 2011), de Michel Hazanavicius
Mudo, em preto e branco e sobre o cinema mudo e em preto e branco. O artista se esmera na nostalgia e na metalinguagem para proporcionar uma das grandes experiências cinematográficas do ano. Um filme que nasceu para ser visto no cinema por uma geração que não viveu na época retratada pelo filme de Michel Hazanavicius. Encantador e emocionante, o maior mérito de O artista é desarmar expectativas e cativar com sua genuína presença de espírito.



 8 – A negociação (Arbitrage, EUA 2012), de Nicholas Jarecki
Wall Street continua rendendo grandes dividendos cinematográficos. Mas A negociação é mais do que uma investigação da vida de ricos e poderosos. É um estudo algo vertiginoso de um homem que não sabe que está no limite até ultrapassá-lo. Richard Gere, vivendo um magnata das finanças em queda livre rumo à desgraça, tem o melhor momento de sua longeva carreira neste filme que merece ser descoberto.



7 – Elefante branco (Elefante blanco, ARG/ESP 2012), de Pablo Trapero
O cinema argentino parece favorecido por uma espécie de cota no TOP 10 do ano de Claquete. Trata-se apenas de uma impressão. O vigor do cinema portenho se confirma perene a cada ano. Pablo Trapero, um dos expoentes dessa cinematografia, volta a provocar palpitações com um drama tenso e poético sobre a violência nas favelas do país e, ainda, sobre a crise da fé. Da instituição igreja e também do homem que a move. 


6 – Procura-se um amigo para o fim do mundo (Seeking a friend for the ende of the world, EUA 2012), de Lorene Scafaria
A melancolia não seria a matéria prima ideal para uma comédia romântica. Mas esse precioso filme da diretora Lorene Scafaria não é uma comédia convencional. Com o apocalipse como pano de fundo, Procura-se um amigo para o fim do mundo fala sobre o poder transformador do amor. E o faz de maneira cativante e sensível. Um filme agridoce que faz do final triste, feliz e que nos desperta o desejo de amar, amar, amar!


5 – Um método perigoso (A dangerous method, EUA/CAN 2011), de David Cronenberg
Um Cronenberg verborrágico que mergulha nas entranhas da psicanálise, chancela Freud e se maravilha com a humanidade de Jung. O filme acompanha a formação de uma triangulação intelectual que se mostrou fundamental para o estabelecimento da psicologia moderna e o faz de maneira inteligente, despudorada e muito sofisticada.



4 – Ted (EUA 2012), de Seth MacFarlane
A comédia do ano é também um dos filmes mais originais e inteligentes produzidos no mainstream hollywoodiano nos últimos tempos. Mas de tão divertido, poucos notam essa condição. O filme do ursinho maconheiro e desbocado é uma crítica atroz a seu próprio público em um dos exercícios de metalinguagem mais bem feitos de todo o sempre e que demonstra que Seth MacFarlane, mais do que um legítimo entertainer, é alguém que tem algo dizer e sabe fazê-lo de maneira criativa.



3 – Precisamos falar sobre o Kevin (We need to talk about Kevin, ING 2011), de Lynne Ramsay
Com uma narrativa engenhosa e algo inquietante, Ramsay conduz uma trama de vertigem emocional e não poupa seu público das dúvidas. Sem respostas fáceis, esse drama sobre a relação de uma mãe e seu filho, que virá a ser o responsável por uma chacina em uma escola, se ergue sobre as vultosas sombras e incertezas da existência humana. Investigativo, doloroso, contínuo e sublime. Precisamos falar sobre o Kevin é daqueles filmes que se perpetuam em nossa memória. Muito pelo tema ruidoso, mas principalmente pela excelência com que é tratado pela obra.



2- Os homens que não amavam as mulheres (Millennium – The girl with the dragon tattoo EUA 2011), de David Fincher
David Fincher fez um trabalho tão minucioso e grave que o frio sueco é palpável para o espectador. Mas esse não é o maior mérito da versão americana do best seller que abre a trilogia Millennium. Fincher sublinha os conflitos dos personagens principais (Mikael e Lisbeth), e a complexa relação que eles desenvolvem entre si, e faz destes o carro chefe da trama e não o instigante caso que move a narrativa. Um movimento que acresce profundidade ao filme que, independentemente disso, se configura também em entretenimento inteligente e refinado.


1- Shame (ING 2011), de Steve McQueen
Eis um filme que agrega ousadia estética à relevância dramática. Renunciando qualquer academicismo e usando o corpo de Michael Fassbender como um discurso artesanal, valendo-se muito de sua experiência como artista plástico, McQueen realiza um filme impactante sobre a superficialidade das relações interpessoais nos tempos modernos. Do maniqueísmo de nossas ações ao egoísmo de nossas reações, Shame concentra sua munição no mundo de Brandon, um homem viciado em sexo que no curso do filme toma ciência da gravidade de seu quadro.
Uma obra demolidora, pulsante e artisticamente atraente destinada ao culto, mas também uma radiografia inequívoca de nosso tempo.


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Retrospectiva 2012 - Dez sensações cinematográficas de 2012




10 – A Tóquio de Abbas Kiarostami
O olhar estrangeiro faz maravilhas por cenários urbanos pós-modernos como Tóquio. Desde que Sofia Coppola ajudou a tornar a capital japonesa cult no ocidente com Encontros e desencontros, a cidade não era capturada de maneira tão apaixonada e minimalista. Kiarostami fez de Tóquio um estado de espírito em Um alguém apaixonado.

9 – Descobrindo Georges Méliès
A grande atração de A invenção de Hugo Cabret, outra carta magna cinematográfica de Scorsese, é iluminar a figura de um dos pais do cinema. O mágico francês que ajudou a ficcionalizar a nascente sétima arte é o principal cerne do filme vencedor de cinco Oscars neste ano. O momento em que, com o préstimo do 3D, a obra de Méliès é reproduzida em frente a nossos olhos, a cinefilia ganha novo sentido.

8 – E agora?
Se houve um filme poderoso em 2012, esse filme foi A separação. A fita iraniana sufoca o espectador com inteligência e foco narrativo, em uma demonstração de força do cinema daquele país. A última cena, em que o casal que enfrenta um intrincado e muito complexo processo de divórcio, espera a decisão sobre com quem ficará a filha – sonegada para o público em vã objetividade – é das coisas mais emocionais e inquietantes surgidas no cinema em 2012.

7 – Fim do mundo... apaixonados!
Em uma época em que muito se fala sobre o fim do mundo, um filme teve a ousadia de especular sobre o comportamento humano em face do apocalipse. E enxergou no amor, a mais perene e sofisticada criação da humanidade, o remédio para a agonia provocada pela iminência do fim. A última cena de Procura-se um amigo para o fim do mundo é, nesse sentido, de uma força absurda. Os desamparados, em toda a sua existência, personagens de Keira Knightley e Steve Carell, enfim, encontraram paz um no outro.

6 – Vingadores reunidos
Por muito tempo se esperou para que o supergrupo da Marvel se reunisse no cinema. Em termos efetivos, no entanto, a espera começou ao fim de Homem de ferro (2008). Em 2012, eles finalmente estiveram juntos em Os vingadores e foi impossível não vibrar com o apelo cinematográfico dessa reunião de super-heróis ensejada por uma constelação de astros igualmente impressionante.

5 – O exame de próstata
Só em um filme de David Cronenberg para um procedimento tão indesejado e algo asséptico soar sexy. Em Cosmópolis, o personagem de Robert Pattinson, submetido a  um exame de próstata em sua limusine enquanto fala sobre pandemia econômica com uma assessora, experimenta elevações de tesão. Assim como sua assessora. Apenas Cronenberg poderia fazer a combinação economia e exame de próstata ser tão erótica...

4 – Precisamos falar sobre esse filme
Precisamos falar sobre o Kevin é um trator emocional na maneira como não facilita respostas às muitas perguntas que enseja no espectador. Depois de seu apoteótico, e ainda assim simplista, final, o filme de Lynne Ramsey joga o espectador contra a parede sufocado em seus questionamentos existenciais.

3 – Deixando o céu cair
As aberturas de 007 são sempre, por elas mesmas, acontecimentos. Mas Operação Skyfall certamente é um dos picos da série. Tanto o filme, como comprovam a bilheteria e as críticas, como a abertura. A música interpretada por Adele, "Let the sky fall", beira o sublime no adorno que faz da angústia do personagem e casa perfeitamente com a abertura mais filosófica da história de Bond.

2 – A dor de Brandon
Existe um momento no excepcional Shame, que é possível para o espectador dimensionar a angústia diária de Brandon, personagem viciado em sexo vivido por Michael Fassbender. É quando ele, no auge de uma noite em que se esgueirou em todo tipo de lugar em busca de sexo, ao atingir o orgasmo revela uma face de profunda tristeza. Um momento doce, doloroso e surpreendente que marcará a lembrança deste filme e, também, do ano de 2012.

1 - O silêncio e a música em O artista
Nos dias de hoje, dá para se dizer que poucos tiveram o privilégio de ver um filme mudo no cinema. O artista, em sua ode à gênese da indústria cinematográfica americana, recupera o valor dessa experiência. E o faz com o auxílio da música. Uma experiência saudosista com ar de inovação. O retorno ao simples ditou o sucesso do grande vencedor do Oscar 2012 e cativou plateias do mundo todo.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Oscar Watch 2012 - Crítica da 84ª edição do Oscar

Saudosismo e pragmatismo


A consagração de O artista movia um interesse mórbido entre indústria e cinéfilos. Estaria a academia de Artes e Ciências de Hollywood disposta a premiar um filme não anglo-saxão? A campanha perpetrada pelo todo poderoso Harvey Weinstein – que pelo segundo ano garante a um filme por ele distribuído o Oscar de melhor filme – induzia a uma flexibilização desse raciocínio. Weinstein focava menos no fato de O artista ser francês e mais na homenagem ao cinema que a fita emanava. Menos na simplicidade da proposta e mais no exotismo da estética. Por coincidência, a consagração de O artista rimou com a poesia visual de Martin Scorsese, cujo A invenção de Hugo Cabret angariou cinco Oscars (fotografia, direção de arte, efeitos especiais, edição de som e mixagem de som). Coincidência? Premiar Woody Allen quase 20 anos depois de seu último Oscar e, finalmente, conduzir Meryl Streep à distinta galeria dos intérpretes que possuem três Oscars desfazem essa impressão. O Oscar 2012 potencializou o culto à indústria que o próprio Oscar é em sua concepção. Mas Por quê? Porque o cinema anda saudoso de si mesmo. O que ajuda a explicar porque A invenção de Hugo Cabret triunfou na área técnica e O artista em prêmios mais nobres. O filme de Michel Hazanavicius nos lembra de uma narrativa mais simples e do poder embevecedor que o cinema desperta quando transpira meramente pelo cinema. Virou lugar comum apontar a segregação entre a academia e o público. Mas é deverás injusto taxar a academia de elitista. Como instituição, reveste-se da autoridade de premiar o que de melhor foi produzido no ano. Não são as bilheterias que distinguem o que foi produzido de melhor. Ainda que não possam ser desconsideradas. A academia, ainda que de forma bastante trôpega, tem tentado afinar essa relação.
Em 2012, o Oscar para O artista foi justo, entre outras razões, pelo fato de ser o melhor filme entre os nove concorrentes. Simples assim. O filme francês sobeja em algo que falta a seu sinônimo americano em matéria de homenagem ao cinema: ele não aliena o público médio. A audiência contemporânea – aquela desacostumada dos filmes mudos e em preto e branco – entra ressabiada para uma sessão e sai maravilhada com esse pequeno manifesto de amor à Hollywood de ontem e que fala, também, sobre a Hollywood de hoje. Vive-se um novo momento de crise no cinema. O assédio da pirataria, a profusão de novas mídias (ipads, celulares e outras plataformas) como lembrou o host Billy Crystal e a franca uniformização da produção cinematográfica – cada vez menos criativa – acendem o sinal de alerta. O sentido político da escolha de O artista como o melhor filme de 2011 se circunscreve nesse miolo. É um filme que fala sobre como Hollywood se saiu após uma crise de igual estatura: o advento do som. Todo um modelo de produção teve de ser repensado. É mais ou menos a situação que se vive agora. Se o Oscar fosse para A invenção de Hugo Cabret, esse manifesto talvez não ficasse tão evidente. Ao optar por O artista, além da ode à nostalgia, revela-se a preocupação com o futuro. Essa preocupação também deu o tom do show produzido por Brian Grazer e ancorado pelo comediante Billy Crystal.

Berenice Bejo e Jean Dujardin aplaudem: noite francesa no Oscar que abre bons precedentes...


Ossos do ofício
Foi uma cerimônia mais dinâmica e enxuta do que as anteriores. Crystal exibiu aquela confiabilidade característica de quem é veterano na função de apresentar o Oscar. Não ofendeu ninguém, flertou com as piadas politicamente incorretas ao brincar com George Clooney e Nick Nolte e deixou alguns dos apresentadores brilharem como Angelina Jolie – que resolveu reavivar seu sex appeal – Emma Stone, Robert Downey Jr. (uma aposta sempre segura) e Chris Rock.
Se a cerimônia de tv não foi um arroubo de criatividade, teve na sobriedade e no humor sutil sua marca registrada.
Também foram sóbrias as escolhas da academia nas categorias técnicas. Com o franco domínio de A invenção de Hugo Cabret. Os Oscars de fotografia, efeitos especiais e mixagem de som não são exatamente justos, mas não são exatamente injustos. Serviram ao propósito de engrandecer o apuro técnico do filme de Scorsese.
As escolhas para melhor roteiro já eram mais antecipadas. Roteiro adaptado foi para Os descendentes – o filme independente americano mais aclamado pela crítica na temporada. E o prêmio de roteiro original foi para Meia-noite em Paris, fita que viabilizou o maior sucesso comercial da carreira de Woody Allen. São prêmios válidos, ainda que houvesse concorrentes melhores em ambas as categorias. A mesma lógica se aplica para as escolhas dos coadjuvantes do ano. Tanto Plummer, mais pela carreira do que pelo papel em Toda forma de amor, como Octavia Spencer (uma força indesviável em Histórias cruzadas) são opções legítimas, ainda que não fossem as melhores em suas respectivas categorias.
O que mais chama a atenção no Oscar 2012 é sua incrível vocação estrangeira. O que pode dar pistas para uma nova orientação daqui para frente. A vitória de uma produção não anglo-saxônica na categoria principal, eminentemente, reverberará nos corredores da indústria. Em que termos, porém, ainda é uma incógnita. Também foi a primeira vitória do cinema iraniano e do cinema paquistanês no Oscar. A primeira vitória de um diretor e ator franceses nas categorias principais. Roman Polanski, é bom lembrar, é franco-polonês. Mediante tantas “primeiras vezes” e sob o signo francês é até reconfortante saber que a primeira vez do Brasil ainda segue por vir. Tanto "Real in Rio" quanto "Man or muppet" são canções sofríveis e, para o bem da utopia nacional, é positivo que a alardeada “vitória” do Brasil no Oscar não tenha vindo em 2012.

Os homens de preto: Jim Rash, Alexander Payne e Nat Faxon são os roteiristas premiados pelo texto de Os descendentes


O que veio foi o terceiro Oscar de Meryl Streep. E alguém discorda? A própria atriz brincou com a agonizante espera que virou um dos paradigmas do Oscar. “Quando disseram meu nome eu pensei em metade do público dizendo: ela de novo... mas que seja”. Uma frase sintomática do que significa esse terceiro, aguardado e merecido Oscar. A atriz não defendia a melhor performance do ano, apesar de sua presença em A dama de ferro ser, de longe, o que de melhor este filme tem a oferecer. Mas o Oscar a Streep é daquelas coisas inquestionáveis como 2 e 2 são 4.
Ironicamente, apesar de mais justo e merecido, o Oscar para o francês Jean Dujardin é mais questionado. Há quem acredite que esse era o momento de “consagrar” George Clooney. Se Clonney está soberbo em Os descendentes, Dujardin está extraterrestre em O artista. Há de se louvar a academia por honrar um estrangeiro em uma categoria em que concorriam dois dos maiores astros americanos vivos. Dujardin era, de fato, o melhor ator do ano. E o Oscar teve o discernimento, amparado pelo charme cativante do francês, de reconhecer isso.
A edição 84 dos prêmios da academia foi mais justa do que as três últimas; e essa deferência precisa ser feita. O último vencedor do Oscar inquestionável foi Onde os fracos não têm vez em 2008. De lá para cá, em menor ou maior grau, Quem quer ser um milionário?, Guerra ao terror e O discurso do rei provocaram descontentamento e suscitaram dúvidas sobre o desprendimento da academia. Ainda que tenha sido uma premiação previsível, o Oscar foi honesto com suas proposições e com as expectativas daqueles que o cercam. Essa condição, em última análise, é que mais precisa ser louvada. 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Oscar Watch 2012 - Cenas de cinema (Oscar 2012)

"Eu tenho o sentimento de que será uma noite francesa"
    George Clooney, no tapete vermelho ao ser indagado sobre suas expectativas para a noite do Oscar



Fim de semana preto e branco
Começou na sexta. O artista, presumivelmente, ganhou os principais prêmios no César, o chamado “Oscar francês”. Filme, direção, figurino e trilha sonora entre eles. No sábado foi a vez do filme triunfar no Independent spirit Awards. Mais quatro troféus: filme, direção, ator e fotografia. E veio o Oscar. Conforme o esperado, O artista foi o grande vencedor da noite. Levou as estatuetas de filme, direção, ator, trilha sonora e figurino. Foi uma vitória justa e que encerra uma das campanhas mais vitoriosas de um filme na história do cinema.

Alguns recordes de O artista
É o primeiro filme a vencer o Spirit Awards e o Oscar em 25 anos. É a primeira produção não anglo-saxônica a vencer o Oscar de melhor filme na história da premiação. É o primeiro filme mudo a ganhar o Oscar principal desde o primeiro filme a vencer o Oscar em 1929. É o primeiro filme em preto e branco a ganhar o Oscar de melhor filme desde o triunfo de A lista de Schindler. Representa a quinta vitória na disputa de melhor filme para os irmãos Weinstein em 17 anos.

Uma deferência a Meryl...

Aconteceu. Meryl Streep ganhou, finalmente, seu terceiro Oscar pelo desempenho como Margaret Thatcher em A dama de ferro. Se é preciso pontificar que Meryl Streep não era a melhor atriz na disputa, é preciso – mais do que reconhecer a premência desse terceiro Oscar – a deferência feita pela academia ao honrá-la com a terceira estatueta em um ano com interpretações femininas tão maravilhosas. Se tivesse a premiado em 2010 por Julie & Julia, por exemplo, um trabalho infinitamente inferior em relação ao qual concorreu este ano o sabor seria menos palatável. A concorrência, naquele ano, também era mais fraca. Da maneira como ocorreu, Meryl Streep foi exaltada como deveria ser: soberana entre todas as atrizes em atividade. 


O Oscar da nostalgia cede a nostalgia...
Já era sabido que a edição de 2012 era pendente à nostalgia, em virtude dos candidatos favoritos. Contudo, o tom nostálgico estava presente desde o cenário do Hollywood and Highland Center (ex-Kodak theather), até a distribuição dos prêmios. Os dois favoritos da noite dividiram os prêmios irmãmente, ainda que O artista tenha prevalecido nas categorias mais nobres, e teve prêmios para Meryl Streep (uma lenda já sacramentada e há muito negligenciada), Woody Allen (quer coisa mais nostálgica do que premiar Woody Allen?), Christopher Plummer (ator longevo que se configurou como o mais idoso a vencer um Oscar competitivo) e Billy Crystal fazendo aquilo que ele já fazia há 20 anos atrás. Foi um Oscar saudosista de tempos passados, ainda que mais enxuto e dinâmico em sua extensão.


Dujardin, o incrível...
A vitória era, até certo ponto, esperada. Além de merecida. Quando subiu ao palco para agradecer pelo Oscar de melhor ator, Jean Dujardin se mostrou ainda mais charmoso e mais a vontade com seu inglês que, notadamente, evolui. “É como ganhar uma copa do mundo”, disse o ator no backstage para os repórteres. Na França, as vitórias de O artista e Dujardin foram comemoradas até mesmo pelo presidente Nicolas Sarkozy. 
Nos últimos três anos, o detentor da Palma de ouro de melhor ator em Cannes concorreu ao Oscar. Em 2010, o austríaco Christoph Waltz levou o prêmio de coadjuvante por Bastardos inglórios; ano passado Javier Bardem disputou com o espanhol Biutiful e Dujardin, em 2012, sagrou-se o primeiro francês premiado com um Oscar de interpretação na categoria principal. Dujardin, além de derrotar os astros outrora favoritos George Clooney e Brad Pitt, o fez sem dar um pio. Ou quase...

Dujardin em êxtase: um merci bocu para vocês...

As pernas de Angelina...
Angelina Jolie estava surpreendentemente bem humorada. Os sorrisos quando flagrada pelas câmaras da transmissão ansiosas por ela e seu marido (Brad Pitt) eram mais amenos e naturais e quando subiu ao palco demonstrou inesperado senso de humor. Reencarnou a verve de mulher fatal que tanto lhe serviu nos anos 90 e deixou a fenda do vestido falar por ela. Exibindo a perna direita propositadamente e fazendo voz sexy, Angelina respondeu por um dos bons momentos da cerimônia. E as pernas de Angelina já têm mais seguidores no twitter do que você.

Como um garoto...
Christopher Plummer, a maior unanimidade entre os intérpretes na temporada, destilou graça e sofisticação em seus discursos de agradecimento no curso da Oscar season. Não foi diferente no Oscar. Ao receber seu prêmio, saudou a estátua lembrando que é apenas dois anos mais novo do que ela e indagando onde esteve o Oscar durante toda a sua vida. Na sala de imprensa, quando questionado sobre aposentadoria, saiu-se com a seguinte: “morrerei em um set de filmagens”. Era júbilo puro!

Comodidade e monotonia
Reparem que só agora o host Billy Crystal recebe um tópico. Se não é exatamente um desprestígio, tão pouco é sinal de excitação. Billy Crystal fez o que dele se esperava. Conduziu uma cerimônia morna, sem grandes arroubos egocentrados e com algumas piadas certeiras como a que dirigiu para Nick Nolte (antecipando pensamentos confusos do ator que tem fama de beberrão). Elegeu George Clooney como o “novo Jack Nicholson” e cutucou a academia por deixar os principais blockbusters do ano de fora da festa. Se não foi o salvador da pátria que muitos esperavam, o comediante foi a “cara” do tom do Oscar 2012: um apelo à nostalgia.

O Oscar continua
Nesta terça-feira, 28 de fevereiro, será publicada em Claquete a crítica da 84ª edição do Oscar com uma análise detalhada do significado histórico do Oscar 2012, bem como uma análise pormenorizada da distribuição dos prêmios.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Insight

A "experiência" O artista

Existem filmes que precisam ser vistos no cinema. Experimentados no universo paralelo que se erige quando as luzes se apagam e a tela se ascende. O artista é um desses filmes. Não exclusivamente por ser em preto e branco, sem diálogos ou sobre um momento definidor do cinema, mas também por essas razões. A fita de Michel Hazanavicius congrega beleza plástica à beleza emocional. Explica-se: raras vezes um filme consegue ser tão simples na forma e tão profundo no alcance quanto faz O artista. Por essa simples razão, já merece o prestígio. Nesse sentido, um adendo preciso ser feito em favor do Oscar. Não fosse pela atenção recebida pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, O artista, em virtude se sua “excentricidade”, passaria longe dos cinemas brasileiros. Mesmo assim corre o risco de passar incólume por receio de uma audiência deseducada de um cinema mais cru, menos intervencionista. De qualquer maneira, O artista no Oscar (o filme pode ser o segundo vencedor do Oscar de menor bilheteria na história. O primeiro é Guerra ao terror), significa que o prêmio, ao contrário do que pregam seus detratores, não mira apenas na indústria. O artista é tudo, menos industrial.
A experiência de se assistir a ele, portanto, é bastante primal. Conduz à nostalgia, nos empalidece com o deslumbre da ingenuidade e nos favorece sentimentos como compaixão e satisfação. Mas tudo isso de uma maneira muito bem delineada. Hazanavicius faz muito bom uso da técnica à disposição no século XXI para rodar um filme sobre o cinema do passado, para falar – também – sobre o cinema do presente. Para os cinéfilos, há ainda o deleite de se mergulhar nas referências cinematográficas – que são muitas.
É lógico que O artista pode ser muito bem apreciado em casa. Em uma tv de última geração ou em uma cópia fajuta no computador, mas a grandeza dessa carta de amor ao cinema só pode ser devidamente dimensionada em uma sala de cinema. Principalmente para aqueles espectadores (quase que a totalidade do público frequentador de cinema na atualidade) que não viveu a era do cinema mudo. É essa a experiência definitiva que O artista, esse filme cheio de predicados, tem a oferecer.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Crítica - O artista

Cinema maiúsculo!

O que mais impressiona em O artista (The artist, EUA/FRA 2011) é sua força narrativa. Algo que pode surpreender um público pouco calejado no cinema dos anos 20, que é revisitado com graça e nostalgia pela fita de Michel Hazanavicius.
É fato que uma produção em preto e branco, quase totalmente muda, sobre a transição do cinema mudo para o cinema falado carrega alguma excentricidade em seus poros. Indubitavelmente, O artista se preenche de todo o charme que promete e entrega um entretenimento sensorial, profundamente cativante e ainda mais encantador do que é possível supor.
George Valentin (Jean Dujardin) é um astro do cinema mudo que não se adapta ao advento do som, personagem claramente decalcado de figuras reais como John Gilbert e Rodolfo Valentino. A dançarina Peppy Miller (Bérénice Bejo), que nutre uma paixão platônica por Valentin, no entanto, surfa nas ondas do som e se torna uma grande estrela do “cinema do futuro”. O artista, então, passa a acompanhar a imersão depressiva de George Valentin e o sucesso ressentindo de Peppy que não desiste de vencer o orgulho ferido do astro do cinema mudo.

A arte do artista: George Valentin em seu momento de glória


Michel Hazanavicius realiza um trabalho primoroso. Poucas vezes o cinema viu tão bom uso de uma trilha sonora. E que trilha sonora é essa composta por Ludovic Bource? Estupenda! O som surge como um elemento poderoso dentro da lógica dramática do filme e, na cena final, irrompe transformador e mais revelador do que nunca. A magia, em O artista, dá vez, então, ao realismo.
É preciso fazer um aparte no que toca Jean Dujardin. Não é fácil carregar um filme nas costas. Muito menos quando não se pode falar. Dujardin, limitado ao básico por contingência narrativa, se mostra expressivo e sensível. O ator tange níveis inimagináveis ao fazer com que o público ouça as angústias de Valentin como se lhe fossem cochichadas ao pé do ouvido. Sentimental, carismático, poderoso! Dujardin é a mais metonímica presença de O artista. E por falar em figuras de linguagem, a fita de Hazanavicius é a mais apaixonante metalinguagem cinematográfica surgida nos últimos anos. Assim como o clássico mor de Billy Wilder, Crepúsculo dos Deuses, O artista versa sobre o mundo de Hollywood e a decadência de uma de suas mais vigorosas estrelas. Mas o fato de ter sido feito neste exato momento histórico o eleva de estatura. O cinema nunca foi tão maiúsculo; tão essencial; tão puro.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Oscar Watch 2012 - Os vencedores do Bafta 2012

O ator Jean Dujardin, o produtor Thomas Langman e o diretor Michel Hazanavicius seguram os respectivos Baftas conquistados por O artista


A consagração de O artista no Bafta realizado no último domingo (12) não é, de maneira alguma, surpreendente. A configuração das indicações, como Claquete já havia alertado na ocasião da divulgação das mesmas, já apontava para um triunfo de destaque. Os principais concorrentes no Oscar se viram diminuídos na disputa pelo Bafta. Enquanto Os descendentes concorria a melhor filme e estava fora da disputa por direção, A invenção de Hugo Cabret foi lembrado em direção, mas ficou de fora da disputa principal.
Os sete prêmios concedidos a O artista (filme, direção, ator, roteiro original, fotografia, trilha sonora e figurino), no entanto, expõem que é mesmo o filme de Michel Hazanavicius o queridinho da temporada. Não que houvesse dúvidas quanto a isso. Mas o triunfo em categorias como fotografia, ator e roteiro original, em que os favoritos eram outros, sugere essa desproporção que, talvez, rume ao Oscar.
Mais sobre as chances de O artista no Oscar pode ser lido no post “Quais as reais chances de O artista no Oscar?”.
A vitória de Jean Dujardin, no entanto, pode ser bastante elucidativa dos rumos da corrida pelo Oscar de melhor ator. Tradicionalmente os britânicos prevalecem nessa categoria. Os dois últimos Baftas foram entregues a Colin Firth (Direito de amar e O discurso do rei) e havia um britânico, historicamente negligenciado (Gary Oldman), na disputa. O fato de Dujardin ter vencido Oldman, mais do que George Clooney propriamente dito, mostra que a categoria pode estar mais decidida do que as aparências sugerem. Em compensação, a vitória de Meryl Streep entre as atrizes não excede essa “cota britânica”. Ainda que a atriz seja americana. A vitória se dá por um personagem britânico histórico, a ex-primeira ministra Margaret Thatcher, em que a atriz lança mão de uma apropriação do sotaque britânico singular.
Os coadjuvantes eleitos foram Christopher Plummer (Toda forma de amor) e Octavia Spencer (Histórias cruzadas ).
Um dos destaques da premiação foi o triunfo duplo do documentário Senna. O filme, que é inglês, foi eleito o melhor documentário do ano (algo longe de ser verdade, é bom que fique registrado) e, surpreendentemente, venceu como melhor montagem. Outra potencial surpresa foi a vitória de A pele que habito entre as produções de língua não inglesa, desbancando o favoritíssimo A separação. Pode-se entender esse prêmio como uma opção de manter as láureas no cinema europeu. 

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Oscar Watch 2012 - Quais as reais chances de O artista no Oscar?


A condição de favorito é irrevogável. O filme francês O artista, com dez indicações ao Oscar, depois de conquistar inúmeros prêmios como o de melhor filme para o círculo de críticos de Nova Iorque, o Critic´s Choice Awards, o Globo de Ouro de melhor filme em comédia/musical, o prêmio do sindicato dos produtores e o prêmio do sindicato dos diretores, assumiu de vez sua condição de protagonista na disputa pela principal estatueta da 84ª edição do Oscar.
A simples posição de favorito ao Oscar permite duas interpretações divergentes do estado das coisas. A primeira, aventada logo no início da corrida, é de que o ano não foi mesmo dos melhores e crítica e indústria se refugiaram em um candidato exótico para rememorar a magia do cinema. Esse contexto é reforçado pela presença de A invenção de Hugo Cabret, que concorre a 11 Oscars e custou cerca de U$ 170 milhões. Diferentemente do filme de Scorsese, O artista se utiliza de uma narrativa mais simplória e estabelece um novo paradigma para a academia: premiar um filme mudo e em preto e branco no tilintar das novas tecnologias como o 3D e o performance capture.
Outra interpretação inerente, ainda que intercambiável a esta, é de que o charme saudosista de O artista, que custou U$ 15 milhões, é do tipo indesviável. O fato de contar com o bambambã Harvey Weinstein na promoção potencializa essa percepção.
Mas será que a academia premiaria um filme mudo, preto e branco e, ainda por cima, não sendo uma produção essencialmente americana? A resposta, apesar do favoritismo, não é fácil. Difícil crer que nesta altura do campeonato O artista não consiga alguns prêmios no Oscar 2012, mas será a academia progressista a tal ponto de premiar a primeira produção muda em 80 anos? A consagração de O artista não reviverá, em padrões industriais, o cinema mudo. Portanto, sob a lógica mercadológica é uma premiação esvaziada de sentido. Prêmios a filmes independentes, estipe a qual pertencem tanto O artista quanto Os descendentes, no entanto, estimulam a produção e promoção desse setor. Nesse sentido, Os descendentes, por ser americano e contar com um representante do sistema de estrelas hollywoodiano (George Clooney), é uma opção mais viável. No entanto, a academia enfrentaria uma verdadeira saraivada de críticas, justamente por essas razões, se preterisse O artista em favor de Os descendentes.

Parece mentira, mas caso seja eleito o melhor filme em 26 de fevereiro, O artista será a primeira produção sobre o cinema propriamente dito a triunfar na categoria principal do Oscar


Nessa bifurcação, por razões óbvias, quem sai fortalecido é A invenção de Hugo Cabret, opção de estúdio (e em 3D) a toda efervescência provocada pelo filme do cineasta Michel Hazanavicius.
O primeiro revés para O artista foi sentido na premiação do sindicato dos atores. Apesar da consternação em favor de Histórias cruzadas, o que desequilibra qualquer análise mais profunda, é possível intuir que o filme – pelo menos naquele momento – não fisgou completamente o voto de um dos mais importantes colegiados da academia, os atores.
Mas O artista ainda é o filme a ser batido e desde 2006, quando era O segredo de Brokeback Mountain o filme a ser batido da vez, o favorito não deixa de levar o principal Oscar. Ainda que alguns anos tenham se mostrado polarizados (Avatar e Guerra ao terror em 2010 e O discurso do rei e A rede social no ano passado), “ o filme a ser batido”, não foi batido. Esse retrospecto, nesse momento, trabalha a favor de O artista. Em compensação, a última vez que a academia se viu na incumbência de fazer uma escolha “progressista”, saiu-se com uma escolha conservadora (Crash - no limite). Quem diria que um filme infantil em 3D de Martin Scorsese ou uma produção independente rodada no Havaí poderiam ser opções conservadoras? O cinema não cansa de nos surpreender.