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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Retrospectiva 2010 - Os dez melhores filmes do ano

A retrospectiva 2010 em Claquete chega ao fim hoje. E em grande estilo. O TOP 10 mais aguardado, mais festejado, mais polêmico e (por que não?) mais importante do ano encerra esse especial tão gostoso de fazer. 2010 foi um bom ano no cinema. Dá para tirar essa medida ao constatar que apenas três dos dez filmes que integram a lista foram lançados em 2009 em seus países de origem. Essa proporção foi mais equilibrada em anos anteriores, alternando-se em 6 X 4, 4 X 5 e 5 X 5. Portanto, com 7 filmes datados originalmente de 2010, o presente ano se encerra com um saldo bem positivo. Contribuíram para isso a excelente forma que alguns cineastas veteranos como Martin Scorsese, Roman Polanski e Michael Haneke apresentaram. Outros, mais novos, também fizeram bonito em 2010. Foi o caso do argentino Pablo Trapero e do americano Ben Affleck. Gente nova, mas já com bastante rodagem, também agregou valor ao cinema nesse ano. Como David Fincher e Christopher Nolan, já amplamente citados na Retrospectiva 2010.
No escopo dos dez melhores filmes estreados nos cinemas brasileiros, entre janeiro e dezembro, pode-se perceber uma forte tendência de pensar o homem e suas relações em diferentes níveis e atmosferas. Desde o metiê do mundo financeiro até os desmandos das relações amorosas modernas. A violência analisada pela rigidez alemã também rendeu um dos melhores filmes dos últimos anos. A fita branca, que está no TOP 10, é arte pensante. Talvez o único filme da lista que se desincumba de entreter. Os outros nove entretem, mas sem se desobrigarem de pensar e refletir o homem e o meio. Sem mais delongas, vamos aos dez melhores filmes de 2010 por Claquete.



10 – Wall street – o dinheiro nunca dorme, de Oliver Stone (Wall street – Money never sleeps, EUA 2010)


Apesar de perder muito de seu impacto com uma reviravolta improvável nos minutos finais, Wall street – o dinheiro nunca dorme inscreve-se como um filme tenaz. Irônico, arguto e muito provocante (embora flerte com um moralismo que não havia no filme original), Oliver Stone bota a câmera na sala de reuniões dos homens que decidem o destino da economia no mundo. Um filme, ágil, ligeiro e cheio de cenas referenciais. A melhor delas, talvez seja aquela em que o secretário do tesouro americano após ouvir o valor do socorro que os banqueiros pedem ao governo exclama em tom de desabafo: “Os senhores sabem o que é isso? É socialismo”.
Wall street – o dinheiro nunca dorme é uma revisão, ainda que se possa argumentar repetida, dos vícios que não nos deixam. Um filme que, talvez apenas como o número 1 dessa lista, captou o espírito de nosso tempo.



9- Simplesmente complicado, de Nancy Meyers (It´s complicated, EUA 2009)


Uma comédia charmosa, sofisticada e que contempla um público geralmente negligenciado pelas comédias românticas. E por público aqui não se entende apenas os membros da terceira idade, mas aqueles divorciados que nunca tiveram os dilemas das recaídas abordados com contentamento pelo cinema. Nancy Meyers recicla as próprias fórmulas e escala um elenco inspirado (Meryl Streep, Steve Martin e Alec Baldwin) para estipular com graciosidade os destemperos de seguir adiante com a vida amorosa.
Simplesmente complicado prima por diálogos críveis, embora em situações pouco ortodoxas. Tudo com o olhar aguçado de Meyers para as idiossincrasias da classe média.





8 – Abutres, de Pablo Trapero (Carancho, ARG 2010)


Um filme expressivo, cativante e atordoante. Se estes são adjetivos que costumam rimar com excelência, não são comumente encontrados em um mesmo filme. A sexta fita de Pablo Trapero é cinema vigoroso na realização, clássico na narrativa e moderno na linguagem. Além de apresentar a performance mais impressionante de Ricardo Darín, um ator notório por atuações impressionantes, Abutres concilia gêneros tão díspares como o romance, o cinema de denúncia social e o thriller criminal em uma trama fluída e concisa.
É um filme maiúsculo sem sonho de grandeza.





7 – Atração perigosa, de Ben Affleck (The town, EUA 2010)


Ben Affleck assume de vez o grande cineasta que está se tornando em um filme que conjuga brilhantemente soluções comerciais com questionamentos artísticos. Um filme com pose comercial, mas de vocação autoral. Atração perigosa, além da trama enxuta, é cinema bem feito com ótimo roteiro, fotografia e montagem em compasso magistral, elenco em fina sintonia e uma direção tão segura quanto sugestiva. O segundo filme de Ben Affleck é um achado do ponto de vista artístico em um meio que o comercial cada vez mais dita tendências.




6 – A fita branca, de Michael Haneke (Das Weisse band – Eine Deutsche Kindergerschichte, ALE 2009)


Um filme de ritmo particular e discurso forte, enfático, porém, inconclusivo. Para lidar com um paradoxo tão proeminente é necessário um cineasta inquieto e confrontador. Michael Haneke propõe um estudo minucioso das circunstâncias em que se projeta o mal na organização social. Um filme particularmente triunfante pela recusa em ser definitivo. A angústia maior é cercar a verdade e nunca dominá-la, provoca Haneke.





5- O escritor fantasma, de Roman Polanski (The ghost Writer, INGL/FRA 2010)


Um vigoroso thriller de espionagem que também apresenta um refinado senso de humor. Roman Polanski mostra invejável forma nesse filme de postura belicosa e debochada em relação à política internacional americana. Polanski se apropria da trama e investe em pouco sutis comentários acerca do próprio status em relação ao EUA. Uma deliciosa metalinguagem cinematográfica potencializada por atores contidos e uma técnica contagiante.




4 – A origem, de Christopher Nolan (Inception, EUA 2010)


Muitas mudanças que virão nos próximos anos serão creditadas a esta fita de Nolan. A origem, mais do que a forma arrojada com que foi apresentada ao mundo, é um filme de ideias e sobre ideias. O fascínio que a técnica de Nolan exerceu sobre a audiência é coisa dos sonhos. O fato de o filme abordar os sonhos só faz a experiência mais prazerosa. A originalidade do projeto, desde sua concepção à sua abordagem, reafirma o diretor como um visionário em seu segmento. E o peão ainda está rodando?




3 – Ilha do medo, de Martin Scorsese (Shutter island, EUA 2010)


Convencionou-se dizer que este é um filme menor de Scorsese. Pode ser. O que não se fala por aí é que essa era a ideia. Uma homenagem as fitas de terror dos anos 40 e 50, Ilha do medo é história do cinema transbordante. Tudo em virtude de Scorsese. Aqui ele pega um roteiro banal e lhe confere tratamento real (no sentido de realeza). Se Ilha do medo é um campo de divagações filosóficas e um filme que não se resolve com a surpresa final (até previsível para iniciados), é por causa de seu diretor. Fosse outro a comandar a fita, e essa elegante parábola sobre a paranóia seria um filmeco como tantos outros que chegam as locadoras todos os meses. Com assombro técnico e exigindo de Leonardo DiCaprio o que ele pode dar, Scorsese dá mais uma aula de como transformar o trivial em algo bem próximo do memorável.





2- Amor sem escalas, de Jason Reitman (Up in the air, EUA 2009)


 Além de ser o mais perfeito retrato dos efeitos da última grande crise financeira nos EUA, Amor sem escalas se introduz como o espelho do homem moderno que parece refutar sua complexidade. Jason Reitman se firma como um grande cineasta (em seu terceiro filme) ao enfocar um conflito geracional, um modo de vida e uma nação em plena derrocada da era Bush em três personagens. Ofertar a conclusão de que a vida é melhor com companhia vem como bônus nesse pacote especial.



1- A rede social, de David Fincher (The social network, EUA 2010)


É necessário pontuar que A rede social vai crescer com os anos. Será o filme lembrado quando no futuro a disposição de saber como era a presente geração se manifestar. A conflagração de anseios e a efemeridade de novos fenômenos são o palco de uma tragédia grega encenada com dinamismo de internet. O filme de David Fincher é cool, cult, sofisticado, inteligente e irascível. É, em si, uma metáfora de seus personagens e do público que predominantemente se interessa por ele. Um filme que captura mudanças no âmago da sociedade e se promove como filme evento. A rede social pode não ter “causado”, mas exclusivo do jeito que é, ainda vai “causar” muito.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Cenas de cinema

David Letterman sabia?

Depois da revelação de que o “surto” de Joaquin Phoenix não passou de uma farsa orquestrada pelo próprio e por Casey Affleck para quem pudessem rodar uma crítica “naturalista” a indústria das celebridades, instalou-se a pergunta: David Letterman sabia?
Para quem não se lembra, em fevereiro de 2009, o ator compareceu irreconhecível (ele manteria o visual riponga dali em diante) para uma entrevista promocional do filme Amantes. Nos 10 minutos de entrevista, Joaquin aparentava embriaguez e não falava coisa com coisa. Foi um dos momentos mais bizarros da Hollywood atual e rendeu discussões, adivinhações e paródias. A mais famosa “tiração de sarro” foi do ator Ben Stiller no Oscar do ano passado.
Phoenix voltou ao programa de David Letterman no mês passado e esclareceu que Letterman não sabia. Ele e o apresentador do Late show encenaram uma briguinha para promover o fracassado documentário sobre o surto de Phoenix. De barba feita e bastante simpático, Joaquin assumiu seu novo papel: tentar fazer o último ano valer alguns dólares a mais na bilheteria.

 
Um papai que causa furor

Pois é, existem pais que são verdadeiras atrações em festas infantis e não estamos falando daquele pai que pula na piscina de bolinhas. Estamos falando de Brad Pitt que causou um verdadeiro furor ao acompanhar sua filha Zahara na festa da filha do vocalista do Soundgarden Chirs Cornell. Papai Pitt roubou os holofotes. Imagina como a filha de Cornell se sentiria se fosse seu casamento?



O que Clint Eastwood poderia ter sido

O ator Clint Eastwood admitiu em recente entrevista que recebeu um convite do presidente da Warner para ser superman no cinema. O eterno dirty Harry se recorda de ter dito “aquilo não era para mim”. Outra figura icônica cruzou o caminho de Clint. O ator admitiu na mesma entrevista que o papel de James Bond foi oferecido para ele depois da saída de Sean Connary. George Lazemby ficou com o papel porque, novamente, Clint não se via talhado para o personagem. Ele cria não ter o mesmo appeal de Sean Connary. Se tivesse aceitado, Eastwood teria sido o primeiro americano a viver o agente a serviço de sua majestade.
Vale lembrar que cinéfilos e hqmaníacos sonham em ver Clint como Bruce Wayne em uma sonhada versão para cinema de O cavaleiro das trevas de Frank Miller.



5 coisas que você precisa saber sobre Tropa de Elite 2

+ José Padilha montou o filme em três locais diferentes. Em um escritório no Rio de Janeiro, outro em São Paulo e mais um nos Estados Unidos.
+ Só cinco pessoas tiveram acesso ao copião
+ Em entrevista à Folha de São Paulo, o diretor insinuou em tom de brincadeira que o capitão Nascimento pode morrer neste segundo filme
+ O principal bordão do novo filme é “a responsabilidade é minha. O comando é meu!”
+ Os responsáveis pelos efeitos especiais do filme são os mesmo de Transformers, Homem –aranha e O curioso caso de Benjamin Button


Passarela
 Em 21 de setembro o elenco de Wall street - o dinheiro nunca dorme prestigiou a premiere do filme em Los Anegeles: 1- Michael Douglas entre Carey Mulligan e Susan Sarandon; 2- Michael Douglas desta vez está entre os namorados Shia LaBeouf e Carey Mulligan; 3 - Todo o elenco se reune a pedido do diretor Oliver Stone (no centro de bigode).


 Na segunda-feira passada (27) foi a vez da premiere americana de A rede social. Nos destaques estão Adrien Brody, Michael Pitt e os protagonistas Justin Timberlake, cuja performance é a mais elogiada, e Jesse Eisenberg

Ben Affleck e Rebecca Hall compareceram a premiere londrina de Atração perigosa, mais recente trabalho de Affleck como diretor (que será destaque na seção Insight do próximo domingo)
 
 

Termômetro

Superhot

A rede social

A rede social já é o filme mais comentado nas rodas cinéfilas e entre blogs de cinema americanos há algum tempo e tudo indica que irá continuar assim por mais um período. O filme de David Fincher estreou semana passada com força nos EUA, faturando mais de U$ 23 milhões. Houve quem não enxergasse em A rede social um grande filme, mas foram poucos.


Hot

Britney em Glee

Britney Spears foi o grande acontecimento do Segundo episódio da nova temporada de Glee. Comentando sua participação no programa ao vivo em seu twitter, a ex – princesinha do pop foi aprovada pelo criador da série Ryan Murphy que declarou que Britney pode voltar. Murphy fez o seguinte comentário sobre a estrela que valeu a maior audiência da série até aqui: “Foi acima das expectativas”.


Just Fine

Eminem


O rapper Eminem lidera as paradas de sucesso mundo afora com o hit Love the way you lie. Eminem recrutou Megan Fox, Dominic Monaghan e Rihanna para garantir a longevidade de seu single e deu certo. Enquanto a poeira abaixa daqui, se levanta dali. Marshall (Eminem quando não é Eminem) que no cinema atuou em 8 mile (uma espécie de biografia) e fez uma ponta em Ta rindo do que? Está cotado para entrar para o elenco de 360, novo filme de Fernando Meirelles que já conta com Rachel Weiz e Anthony Hopkins.



Cold

Resident evil – o recomeço

Enquanto o 3D esfria, Resident Evil – o recomeço esfria também. Só que em ultra velocidade. O quarto filme da franquia não causou nenhum rebuliço nas bilheterias e tão pouco agitou os gamemaníacos. Deve-se ao 3D sua sobrevida nos cinemas.


So cold

As polêmicas de Lady Gaga

Pois é são muitas. E própria Gaga já não consegue ser tão criativa assim. Em mais um traquejo de marketing gratuito, Gaga usou um vestido de carne. Isso mesmo de carne. E duas vezes. A repercussão como era de se supor foi grande. Mas poderia ter sido maior.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

ESPECIAL WALL STREET - O DINHEIRO NUNCA DORME: Contexto

O capitalismo devassado


Oliver Stone parece imbuído de mostrar que o capitalismo é uma chaga social. Seu cinema recente parece pautado em desconstruir o modelo econômico ocidentalizado que rege 97% das nações. Wall street – o dinheiro nunca dorme, embora engrosse o coro, não chega a ser tão xiita quanto se podia imaginar. Tão pouco Stone é tão vaticinante em sua crítica quanto outros cineastas como Costas-Gravas, Jean Luc Godard ou Claude Chabrol, morto recentemente.
No filme, reencontramos Gordon Gekko no momento em que planeja se reerguer, embora isso não esteja claro de pronto. Stone realiza aqui outro conto moral partindo do cenário proposto pela crise econômica desencadeada em wall street em setembro de 2008. Ele mostra que Gekko pode ter mudado pouco, mas que o mundo das finanças mudou e muito. E para pior, sacramenta o diretor esquerdista. A figura de Bretton James (Josh Brolin) e de Louis Zabel (Frank Langella) dão viço a esse comentário.
Desbravar o sistema capitalista parece ser o passatempo preferido de Oliver Stone. Há 23 anos ele lançou o icônico Wall street em que explicitava os pormenores do mercado financeiro. O cinema se presta, embora nem sempre dotado do cinismo presente nos trabalhos de Stone, a desenvolver análises sobre o tema. O documentário The corporation (2004) desnuda as relações escusas de grandes empresas como Nike e Coca-cola. Entre os entrevistados do filme está o polêmico (e também esquerdista ferrenho) Michael Moore. Moore, aliás, rodou sua própria perola anticapitalista. Capitalismo:uma história de amor (2009) tenta, com os habituais subterfúgios narrativos do diretor, relacionar o capitalismo a todo o mal inerente a vida em sociedade. Apesar de ter algumas verdades, Capitalismo: uma história de amor não é tão contundente quanto The corporation.
Esquivando-se um pouco dos documentários, a ficção também é prolífera em enquadrar o capitalismo e suas vicissitudes. Geralmente de forma muito mais assertiva e bem humorada, como na comédia de erros As loucuras de Dick e Jane (2005) em que Jim Carrey perde seu emprego quando a economia americana míngua e precisa roubar para se sustentar. Ou na deliciosa comédia O diabo veste Prada (2006) em que os sonhos e o idealismo de uma recém formada se confrontam com a dura realidade do mercado de trabalho. Em O corte, o grego Costas-Gravas cria uma bem humorada e inusitada situação. Seu protagonista resolve matar todos os seus concorrentes à uma vaga de emprego. Um conto capitalista de extrema acuidade, sem perder o bom humor.
A melhor parábola sobre os efeitos do capitalismo, no entanto, talvez seja O sucesso a qualquer preço. No filme de James Foley, com roteiro do dramaturgo David Mamet, um grupo de vendedores tem que alcançar uma meta no final do mês para preservar seus empregos.
O cinema faz parte da lógica capitalista. A maior prova disso é a pujança hollywoodiana. Isso não impede de se fazer auto- análise. E Wall street – o dinheiro nunca dorme é certeiro na radiografia que faz de nós mesmos.

Mery Streep e Anne Hathaway em uma deliciosa fábula capitalista


Se você gostou do tema abordado nesta coluna e deseja repercuti-lo sob esse e outros pontos de vista, Claquete recomenda:


O sucesso a qualquer preço (EUA 1992), de James Foley
The corporation (Can, EUA 2004), de Mark Achbar, Jennifer Abbott e Joel Bakan
Capitalismo: uma história de amor (EUA 2009), de Michael Moore
O corte (GRE/ALE 2005), de Costas-Gravas
O diabo veste Prada (EUA 2006), de David Frankel
As loucuras de Dick and Jane (EUA 2005), de Dean Parisot
Wall street – poder e cobiça (EUA 1987), de Oliver Stone

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

ESPECIAL WALL STREET - O DINHEIRO NUNCA DORME: Repercutindo o filme *


A justificativa que Oliver Stone tem dado a jornalistas em entrevistas promocionais de Wall street – o dinheiro nunca dorme é que voltou a este universo impelido pela forte crise financeira deflagrada em 2008. “Foi como um ataque cardíaco”, revelou o cineasta. “Era preciso voltar aquele universo”. É compreensível a razão que motivara Stone a retornar a um de seus mais bem sucedidos momentos como cineasta. A crise de 2008 foi tão virulenta que até hoje muitos gurus de wall street ainda hesitam em precisar como e por que ela ocorreu. Oliver Stone com sua firme postura contra o neoliberalismo vem com o novo filme dar o seu pitaco.
Em um primeiro momento o filme foca na bonança do crédito. Foi uma década de grandes saltos financeiros em que bancos e fundos de investimento lucraram estupidamente na base do capital especulativo. É Louis Zabel (Frank Langella) quem guarda o descontentamento de não mais acompanhar o ritmo frenético de dissimulações, especulações e sangue frio inerente àquela selva de arranha-ceús. Na primeira cena em que conversa com seu protegido, o corretor Jacob Moore (Shia Labeouf), essa condição fica clara. O próprio Jacob representa uma variação dessa condição. Ele é idealista, mas não perde o dinheiro de vista: “O único verde que conta é o dos dólares”, diz Jacob em uma de suas primeiras falas para a namorada Winnie (Carey Mulligan). Ele aposta na energia verde porque ainda é um nicho pouco vislumbrado por wall street. Essa é a única razão. É sobre o jogo, já dizia Gordon Gekko desde o primeiro filme. Embora não se perceba disso, Jacob já age dentro dessa especificidade. Em uma cena, ele discute com um amigo corretor sobre o impulso que as ações da empresa que ele representa terão. Ele se gaba de sua visão macroeconômica mais do que de ter recebido um cheque de U$ 1,5 milhão.

O que era afirmação no primeiro filme impulsiona novos questionamentos agora: Será?


Gekko entra na jogada
Zabel foi passado para trás. Jogado na cova e consumido pelos leões que guardavam a selva com ele, suicidou-se e deixou seu protegido com um sentimento de vingança em ebulição. É aí que Gekko entra em cena. Procurado por Jacob após uma palestra em que discorria sobre seu livro Is greed good?, o ex-tubarão de wall street percebe em Jacob gana e vontade de triunfar. Ele logo estabelece uma relação de trade com seu futuro genro.
Gekko parece regenerado. Sua palestra versa sobre as mazelas do "risco moral", a pirâmide financeira que queiramos admitir ou não, todos compactuamos ao hipotecar nossos imóveis. Ao refinanciá-los inadvertidamente e por aí vai. Gekko continua com seu charme e sofisticação, mas também não esconde suas feridas. Ele as lambe sabiamente.
Como consultor de Jacob, Gekko o assessora no plano para derrubar Bretton James (Josh Brolin), o grande rock star atual de wall street. É nesse escopo que Stone melhor defende sua tese: “perto desses tubarões de hoje, eu sou um amador”, dispara Gekko ao explicar para Jacob uma das manobras financeiras de James.
É isso que quer mostrar Stone. “Hoje não é preciso mais fazer uso de informações privilegiadas para fazer dinheiro”, exclama James em outro momento do filme.
As coisas avançaram tanto, e em um nível tão vertiginoso, que as pessoas tomaram o irreal como real. Se auto-enganaram, define o diretor. Daí a importância da personagem vivida por Susan Sarandon, que faz a mãe de Jacob. Na primeira vez que a encontramos, vemos uma mulher ansiosa, compulsiva, com tiradas secas e um cigarro na boca. Ela pede um socorro ao filho (U$ 200 mil), já que o mercado imobiliário está esfriando e ela não consegue vender as casas que administra. A personagem, que era enfermeira, abandonara o emprego para surfar na onda da economia aquecida. Antes de sua última cena no filme, em que ela está de volta a seu emprego no hospital, vemos a personagem em mais uma conversa franca com seu filho. É essa conversa franca com o filho que Wall street – o dinheiro nunca dorme quer ser para o público.
É um Oliver Stone provocador, insidioso e cínico. Mas também paterno. Tanto com seus personagens, como atesta a cena final, tanto para com o público, nos brindando com essa revisita a wall street por causa de um ataque cardíaco.


Jacob Moore "representa" quem viu o primeiro Wall street no novo filme, ou seja, um wall street guy sem a alma de um wall street guy


* Contém Spoilers

sábado, 25 de setembro de 2010

ESPECIAL WALL STREET - O DINHEIRO NUNCA DORME: Crítica

Na cova dos leões!

Entretenimento sagaz, crítica inteligente e diálogos de alta voltagem em um exemplo de cinema bem feito  


Muitos podem dizer que Oliver Stone está se repetindo com Wall street- o dinheiro nunca dorme (Wall street- Money never sleeps, EUA 2010) ou que este segundo filme, lançado 23 anos depois do primeiro, não tem a urgência nem a primazia que fizeram do primeiro Wall street um acontecimento cinematográfico de tanto apelo quanto um crash financeiro. Não deixa de ser uma afirmação legítima. Não há nada no novo filme que já não estivesse delimitado no primeiro. O que Stone faz aqui é ampliar, com invejável dose de cinismo, seu comentário. “Alguém me lembrou que certa vez eu disse que a ganância é boa. Agora ela é legalizada”, a frase certeira disparada por Gordon Gekko em uma palestra em que promove seu mais recente livro captura brilhantemente o espírito do novo filme. Stone volta-se novamente para a mais volátil e cruel das selvas. A dos homens que simplesmente não conseguem se satisfazer.
O novo filme começa com Gekko saindo da prisão e Stone não economiza nem mesmo aí. Mapeia logo para seu público que os tempos são outros (reparem no tamanho do aparelho celular de Gekko). Antes de limusine, Gekko se vê um usuário do transporte público. Não é apenas em cima do célebre personagem que Stone destila sua verve crítica; Bretton James (Josh Brolin em inspirada atuação), Jacob Moore (Shia Labeouf) e Lou Zabel (Frank Langella) são todos facetas de um mesmo sonho. O novo Wall street se assenta mais sobre alguns princípios financeiros do que o primeiro, mas Stone é tão hábil em repercuti-los quanto o fora no original. Diferentemente do primeiro filme, a moral de Stone é apresentada logo de cara. O diretor não deixa-nos esquecer do “risco moral” (para usar um termo em voga no filme) de nos afeiçoarmos àquele mundo. Um mundo em que todo o sentido se resume a competição. Há muito no novo filme para ser digerido, mas antes disso, salta aos olhos o entretenimento fino que O dinheiro nunca dorme é.
Jacob Moore se aproxima de Gekko após o suicídio de Zabel, cuja empresa faliu devido a intervenções especulativas de Bretton James. O objetivo primal de Jacob é vingança. O segundo é estabelecer uma nova relação mentor e protegido, tal qual tinha com Zabel e como vimos no filme original entre Gekko e Bud Fox (Charlie Sheen). Em certo ponto, os propósitos de Jacob se alinham aos de Gekko.
O vigor da fita é impressionante. Sejam os diálogos matadores ou as situações invariavelmente inacreditáveis (e justamente por isso críveis) que testemunhamos no exercício que Stone se propõe de reconstituir o legado de Wall street para a presente geração.


Nada como um dia após o outro: Em Wall street, como na vida, tudo é ciclíco...


O aspecto visual também chama a atenção. A música é alentadora e ajudar a montar o painel elegante que o diretor objetiva. Se há um porém em O dinheiro nunca dorme é a súbita vontade de Stone em redimir seus personagens (especialmente Gekko). Algo que não ocorrera no primeiro filme.
Entretanto, não se pode negar que Stone tenha sido mais enfático em sua mise en scène. Contudo é, também, inegável que ele continua vislumbrado com os mecanismos e a dinâmica do sistema. Não à toa seu filme começa com a câmera zanzando pelos arranha –céus de Wall street e termina com algumas bolhas soltas pelo ar. Não há forma mais enfática de externar a fissura diária que se dá em Wall street.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

ESPECIAL WALL STREET - O DINHEIRO NUNCA DORME: De volta a Wall street


“Estou confuso como todo mundo”, disse o cineasta Oliver Stone em entrevista ao jornal New York Times em maio último, quando indagado - durante um passeio por Wall street (a rua) – sobre o que achava da crise financeira deflagrada a dois anos atrás justamente naquele endereço. A entrevista em que Stone admite entender muito pouco ou “quase nada” de mercado financeiro pode ser vista no Youtube. Também disponível no Youtube, embora não na integra, está a entrevista coletiva que o diretor e o elenco de Wall street – o dinheiro nunca dorme concederam (também em maio) no último festival de Cannes.
“Michael (Douglas) e Ed Pressman (produtor do filme) vieram com a idéia em 2006, mas eu não queria celebrar aquela cultura da riqueza. Depois da crise, foi como um grande ataque cardíaco”, revelou o cineasta. “Era hora de voltar ao assunto”. Oliver Stone conta que até hoje se impressiona com o alcance de Gordon Gekko, o personagem que virou modelo para operadores do mercado financeiro. Michael Douglas se esquiva de tal responsabilidade: “Perguntam-me se me sinto culpado por ter encarnado um personagem que virou essa espécie de modelo. Claro que tudo o que aconteceu no mercado financeiro nos últimos dois anos mostrou abusos da expressão ‘a ganância é boa’ (bordão do personagem), mas, em vez de culpa, fiquei satisfeito por interpretar um vilão que as pessoas admiram. Mas Gordon Gekko ainda é um vilão? O segundo filme começa com Gekko saindo da prisão após oito anos de pena por crimes do colarinho branco. Proibido de operar ações, enquanto tenta se reconciliar com sua filha Winnie Gekko (Carey Mulligan), o ex-tubarão das finanças vive de palestras e do livro em que critica o comportamento agressivo do mercado financeiro. A aproximação entre pai e filha é intermediada por Jacob Moore (Shia Labeouf), namorado de Winnie, que é um operador financeiro. Jacob trabalha na empresa de Lou (Frank Langella), seriamente prejudicada devido a intervenções especulativas do mega investidor Bretton James (Josh Brolin). É esse o plot que trará Gordon Gekko novamente a seu habitat.


A trupe no Festival de Cannes em maio: "era hora de voltar"


Oliver Stone orienta seus astros nos sets de filmagens


Michael Douglas sintetiza a razão de ser do filme: “Ficamos pensando: aqueles estudantes hoje (que viram Wall street - poder e cobiça nos cinemas) devem estar dirigindo esses bancos de investimento. A ganância virou legal. Era uma oportunidade de ir ao fundo das coisas. Gekko mudou? Você não sabe, até o final do filme.”
Com essa provocativa frase, Douglas crava o perfeito timing da produção. Na era da internet e dos pregões on-line, é de se supor que Gekko se proliferaria com muito mais volúpia. É inegável que toda a curiosidade sobre o filme gira em torno deste personagem.

Tubarão da vez: Josh Brolin, ao lado do veterano ator Eli Wallach, encarna o pior de Wall street no novo filme


Acertando os ponteiros

Wall street – o dinheiro nunca dorme foi anunciado no ano passado. A principio, o papel do ‘Gordon Gekko atual, mas consideravelmente menos charmoso’ seria de Javier Bardem. O ator espanhol saiu da produção em cima da hora (devido a conflitos de agenda com Comer,rezar e amar que já estava em ritmo de gravações) e foi substituído por Josh Brolin, que já havia sido George W.Bush para Oliver Stone em W. O fato de Brolin viver um bom momento só agregou valor a produção. Outra que já estava no elenco de O dinheiro nunca dorme e viu seu passe se valorizar no começo do ano foi Carey Mulligan, indicada ao Oscar de melhor atriz por Educação. Além disso, Michael Douglas tem a companhia de Susan Sarandon, Frank Langella, Shia Labeouf e Charlie Sheen que faz uma participação especial para ajustar as perspectivas. Mas, afinal, o que esperar desse segundo filme? “Um Gordon Gekko mais vulnerável”, afirma Josh Brolin. Se isso é bom ou ruim, rememoremos Michael Douglas: “você não sabe. Até o final do filme”.


Fera ferida: Será Gordon Gekko o mesmo capitalista indomável de outrora?

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

ESPECIAL WALL STREET - O DINHEIRO NUNCA DORME: O legado de Wall street - poder e cobiça




O ano era 1987. Hollywood ainda não estava, pelo menos assumidamente, entregue as caixas registradoras das bilheterias e Oliver Stone era o cara que tinha feito o mundo se resignar com a guerra do Vietnã (com o filme Platton) no ano anterior. Wall Street era um frisson ainda distante. Uma ideia que ainda não tinha forma na cabeça do cidadão médio. A globalização e suas vicissitudes capitalistas eram matéria para ensaístas e teóricos e não costumavam ser pauta em produções voltadas para o cinemão. Mas Stone e o roteirista Stanley Weiser resolveram subverter essa lógica. Wall Street –poder e cobiça realinhou a forma como Hollywood via Wall street e vice versa. Ajudou também no boom da bolsa de valores, que em meados da década de 90 se tornou um fenômeno irreversível.
Gordon Gekko e seu bordão “a ganância é boa” tornaram-se modelo para toda uma geração de corretores e operadores da bolsa e o filme se tornou referencial para toda e qualquer produção que abordasse as entranhas do capitalismo, mesmo que não fosse ambientada no universo da bolsa de valores.
Outra influência notável do filme diz respeito ao ceticismo com que os yuppies são enxergados pela sociedade. Houve até mesmo filmes que tentaram repercutir essa noção, como Primeiro milhão (Boiller room, EUA 2000) em que um grupo de jovens se mira nos “mandamentos” de Gordon Gekko para fazer dinheiro fácil. Literalmente.
Não foi o filme de Stone que fez Wall Street tão nociva quanto a percebemos. A fita apenas descortinou essa realidade, ainda que a tenha revestido de charme e fascinação.
Crédito da foto: Vanityfair.com

ESPECIAL WALL STREET - O DINHEIRO NUNCA DORME: The next best thing - a eterna promessa chamada Shia


Shia LaBeouf é uma promessa de Hollywood. O problema é que ele já era uma promessa há quatro anos quando estrelou o inesperado hit de verão Paranóia (2007). O ator de 24 anos já enfrentou problemas com bebidas, frequentou o noticiário policial, se envolveu com a colega de elenco Megan Fox (dividiram a cena nos dois primeiros filmes da série Transformers) e virou queridinho de Steven Spielberg.
Foi o diretor de Indiana Jones e a caveira de cristal (2008) quem disse que Shia “é o próximo Tom Hanks”. Querendo ajudar, Spielberg só aumentou a pressão sobre seu pupilo. Wall Street – o dinheiro nunca dorme será o primeiro filme que LaBeouf estrelará que não será produzido ou dirigido por Spielberg. Oliver Stone cutucou em recente entrevista à Entertainment Weekly: “Esse será seu primeiro filme adulto. É positivo para ele se livrar dessa aura de astro juvenil e começar a se debruçar sobre um material mais relevante.”
Em uma comparação livre, LaBeouf faz um papel semelhante ao que Charlie Sheen desempenhou na trama original. “Mas as coisas são diferentes”, advertiu em entrevista coletiva em Cannes, onde esteve para divulgar a produção. Foi em Cannes, também, que o ator que namora a colega de elenco Carey Mulligan (que também faz sua namorada no filme) revelou ter achado ruim sua participação no último filme de Indiana Jones. Segundo ator, ele não correspondeu às expectativas do público e nem as do diretor.
Wall Street – o dinheiro nunca dorme representa a virada na carreira de LaBeouf. O cinema de ação (foi protagonista em Controle absoluto) não parece talhado para sua persona. Mesmo com mais um Transformers no forno, LaBeouf se prepara para a guinada. Será que Oliver Stone está certo? No final das contas, Tom Hanks não é exatamente um astro de ação...

A vida imita a arte: o ator e sua namorada, colega de Wall street, Carey Mulligan

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

ESPECIAL WALL STREET - O DINHEIRO NUNCA DORME: Os mandamentos de Gordon Gekko


Ele não é a figura usual do que convencionamos chamar de Guru, mas Gordon Gekko é referencial em termos de noções capitalistas. O mundo de Wall Street parece regido por suas diretrizes. Claquete selecionou os principais mandamentos de Gordon Gekko (frases disparadas pelo personagem no primeiro filme que refletem sua visão de mundo).

10 – “Almoço é para fracos”
Prioridades são prioridades e não podem ser postergadas por trivialidades como o almoço ou mesmo uma boa noite de sono. Em dado momento do filme, Gekko – ao telefone - acorda seu pupilo Bud Fox (Charlie Sheen) e o adverte: “o dinheiro nunca dorme”.

9 - “O que vale a pena ser feito, vale a pena ser feito por dinheiro”
Não se iluda. Magnânimo e misericordioso só Deus e seu filho. No mundo em que vivemos ninguém faz algo bom por você sem que esteja lucrando em algum nível pessoal com isso. Um provérbio de Gekko que vale para toda nossa vida em sociedade.

8 - “Se você precisa de um amigo, arranje um cachorro”
Outro provérbio Gekkiano bem sacado. Em um mundo feroz como o de Wall street (e por que não no mercado de trabalho em geral) confiar em alguém pode ser mortal. Para Gekko a amizade pode ser o primeiro passo para o fracasso nesse ramo.

7 - “É tudo sobre dinheiro, o resto é conversa.”
Outra perola que reforça a visão central do yuppie. Quando alguém vem te falar que o dinheiro é o que menos importa em uma transação de qualquer natureza, desconfie mais do que aquele que parece mal intencionado.

6 - “Não é uma questão de suficiência, camarada. É o jogo. Alguém ganha, álguem perde. Dinheiro não é perdido ou feito, ele simplesmente é transferido de uma percepção para outra.”
Aqui Gekko demonstra sua visão cética e objetiva sobre a razão de ser de Wall street e de pessoas como ele. Uma verdadeira aula sobre o conflito de percepções entre gente de Wall street e gente que não é de Wall street.

5 - “Eu não crio nada. Eu domino. Nós fazemos as regras, camarada. As notícias, guerra, paz, fome, o clipse do papel. Nós tiramos aquele coelhinho da cartola enquanto todo mundo senta e fica imaginando como nós fizemos.”
Gekko finaliza sua explanação sobre como funcionam as coisas no topo dos edifícios empresariais.

4 - “Eu não jogo dardos em um quadro. Eu aposto em coisas certas. Leia Sun Tzu, A arte da guerra. Toda a batalha é vencida antes de sequer ser lutada.”
Aqui o yuppie discorre sobre o tipo de estratégia que julga indicada para operar na bolsa, mas seu pensamento pode ser transposto para outros patamares da vida em sociedade.


3 - “Se você não está dentro, você está fora”
Novamente Gekko sublinha a força da percepção. Não há espaço para achismos e consciência. Ou se firma dentro do clube, compactuando com seus dogmas, ou se resigna do lado de fora.


2- “A ganância, na falta de uma palavra melhor, é boa. A ganância é certa. A ganância funciona. A ganância esclarece, leva adiante e captura o espírito revolucionário. A ganância, em todas as suas formas; ganância por vida, por amor, por dinheiro, conhecimento marcou a ascensão da humanidade.”
Aqui Gekko expõe seu segredinho sujo. Para o yuppie, algo tão sórdido é positivo para o desenvolvimento. No que muitos gostam de classificar como ambição, Gekko enxerga o pior do ser humano contribuindo para o que de melhor a humanidade é capaz de conceber.


1 - “A mercadoria de maior valor é a informação”
Essa é a descoberta da pólvora. Tanto em uma corrida eleitoral como a que vivenciamos tanto quanto no dia a dia da bolsa de valores, a informação é a commodity de maior valor venal.

ESPECIAL WALL STREET - O DINHEIRO NUNCA DORME: Criando um ícone - por trás da figura de Gordon Gekko



Ele é um dos grandes personagens do cinema. É inegável. A primeira vez que vemos Gordon Gekko ele está ao telefone. Na segunda vez, ele está, ao mesmo tempo, falando ao telefone, atendendo assessores, recebendo um corretor que traz algumas ofertas de ações e medindo a própria pressão. Gordon Gekko é a materialização do capitalismo selvagem. É a consumação plena do sonho americano em sua faceta menos lisonjeira e poética. É, por essa combinação de fatores improváveis em um personagem de cinema criado nos anos 80, um ícone. No último festival de Cannes, em que Wall street – o dinheiro nunca dorme teve premiere mundial, Michael Douglas - o ator que criou o ícone - disse que não sabe ao certo o porquê das pessoas serem tão simpáticas a figura de Gekko: “talvez seja o safado que exista dentro de mim”, disse em tom de brincadeira. Douglas supõe que o apreço por Gekko talvez esteja ligado ao seu método de compor o personagem: “É preciso curtir representar vilões. Gordon Gekko era um cara que não tinha remorsos. Era de certa maneira puro”, relembra o ator. Não será dessa maneira que reencontraremos Gekko. Na sequência, ele - que depois de sair da prisão fica impedido de operar com ações - tenta apaziguar sua relação com a filha em uma nítida demonstração de remorso. Douglas não esconde o fato de que Gekko estará mais vulnerável no segundo filme. “É um personagem diferente. Ele não conta com as mesmas coisas que tinha no primeiro filme”, afirma o ator em referência ao império financeiro que Gekko havia construído antes de o vermos pela primeira vez ao telefone. “Será curioso ver como reagirá Gordon Gekko ao ver que o mundo que ele encontrou hoje é regido pelos princípios financeiros praticados por ele lá atrás, mas com ele hoje sendo um homem, até certo ponto, mudado”, disse ao L.A times o roteirista Stanley Weiser.
Resta saber se após Wall street – o dinheiro nunca dorme, o ícone Gordon Gekko sairá fortalecido ou mais humano. Para o bem ou para o mal, essa resposta começa a ser escrita em 24 de setembro, dia do lançamento mundial do novo filme.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

ESPECIAL WALL STREET - O DINHEIRO NUNCA DORME: Revendo o primeiro filme


Wall street – o dinheiro nunca dorme surge 23 anos depois de Wall street – poder e cobiça. Nesse meio tempo, Oliver Stone declinou de convites feitos pelo estúdio (a Fox) e pelo ator Michael Douglas para retornar ao universo mostrado no primeiro filme. A justificativa de Stone era de que a mensagem do primeiro filme ainda era atual e suficientemente sonora, portanto, não haveria razão de se fazer um segundo longa sobre Wall street. Mesmo com o segundo filme em vias de ser lançado, Wall street-poder e cobiça continua atual. A história que mostra o sonho americano em sua faceta mais controversa e distópica reverbera atualidade em cada fotograma.
O filme tem o mérito de tornar compreensível os mecanismos do mercado financeiro e, na belíssima construção do roteiro de Stanley Weiser e Oliver Stone, conduzir sua platéia para indefectíveis conclusões. Wall street – poder e cobiça é um filme charmoso. O fato de desentranhar as engrenagens capitalistas não faz com que o filme deixe de ser um entretenimento vistoso. Esse paradigma serve ao cinemão na mesma medida que serve ao cinema de gênero. Gordon Gekko (Michael Douglas) foi um dos primeiros vilões modernos a surgirem no cinema. Aquele tipo de personagem que não é absolutamente mal, mas imperfeito em sua humanidade. Falho. Real.
Bud Fox (Charlie Sheen) é um corretor que busca o sucesso na profissão e sabe que um valoroso atalho nesse sentido é Gordon Gekko. Disposto a se projetar para Gekko, Bud se vale de alguns expedientes que chamam a atenção do tubarão das finanças. Gekko apadrinha Bud e começa a lhe apresentar seu estilo de jogo no mercado financeiro, em que é preciso enfiar a mão na lama bem mais fundo do que se supõe. O que ocorre é que Bud não consegue deixar sua consciência de lado, o que impreterivelmente lhe desviará do sucesso em Wall street. A fita é feliz ao expor a crueza do mundo dos negócios e as diferentes perspectivas das pessoas que o gravitam.
Embora o desfecho espraie um certo moralismo, não redime seus personagens. Tão pouco menora o impacto de suas ações ou subverte a lógica das mesmas. O filme acaba, mas o eco do que ocorre nos porões de Wall street ainda não está esgotado.

domingo, 12 de setembro de 2010

ESPECIAL WALL STREET - O DINHEIRO NUNCA DORME: Insight

Oliver Stone ainda é polêmico?


Existem artistas cuja expressividade remete a determinados períodos da história. Lennon e seu libelo antibélico (Imagine) no calor do Vietnã é um exemplo óbvio. Oliver Stone, por sua vez, perseguiu a fama de polemista e a conquistou. Tentou enquadrar a história americana em seu caledoscópio fílmico por diferentes perspectivas. Seja pelo ponto de vista político (Nixon, JFK – a pergunta que não quer calar), do patriótico (Nascido em quatro de julho), do potencial de fabricação midiático dentro da sociedade do espetáculo (Assassinos por natureza), desnudando ídolos (The doors), pelo escopo capitalista (Wall street –poder e cobiça e Um domingo qualquer) ou através de seus traumas (Platoon e As torres gêmeas). Oliver Stone desenhou para si mesmo uma glória improvável. Virou o biógrafo dos presidentes americanos no cinema. Já abordou Kennedy, Nixon e Bush. Os últimos presidentes a ocupar destaque (por boas ou más razões) na história do país e da humanidade. Envaidecido com o alcance de seu cinema e com a disposição que a classe intelectual tem de pensá-lo, o diretor cedeu ao capricho e fez uma biografia da vida de Alexandre –o grande. Alexandre (EUA 2004), talvez seja o primeiro indício de que Stone é, hoje, uma sombra de si mesmo. Um resquício do que um dia fora conteúdo, inquietação e ousadia.

Stone, o grande, orienta Angelina nos sets de filmagens de Alexandre: da expectativa ao ridículo


Oliver Stone foi o primeiro a mexer no vespeiro do Vietnã. É possível ver o impacto de Platton ainda hoje. Quando produções acerca da ocupação americana no Iraque e seus efeitos lá e dentro de casa pipocam nos cinemas com um Iraque ainda em efervescência política e com um conflito armado ainda em aberto. Platoon estabeleceu Hollywood como porta voz da esquerda liberal, embora nem sempre aja dessa maneira. O filme ajudava a construir perspectiva e dava embasamento para críticos da guerra e das políticas americanas, ainda que fosse só um filme. Em menor escala, foi o que se viu com a aceitação quase unânime a Guerra ao terror este ano.
Oliver Stone abraçou o personagem que criou para si mesmo e elegeu-se o questionador número 1 dos Estados Unidos da América. Levado mais a sério do que Michael Moore, outro que se tem em grande estima, Stone toca diversos projetos paralelos que tem a América (em diversos momentos da história) como foco. Em The secret history of America, um documentário que produz para o Showtime (canal a cabo americano), Stone especula que seriam os EUA os mentores do nazismo e os responsáveis por sua deflagração (a ascensão de Hitler). Ano passado o diretor lançou o documentário chapa branca Ao sul da fronteira (confira a resenha deste filme no próximo domingo em Claquete documenta) em que mostra o “sonho” da América Latina tocado por Hugo Chavez e seguido pelos “irmãos” Lula, Evo Morales e Cristina Kirchner. Após a crise financeira deflagrada em 2008, resolveu voltar ao mundo de Wall street com Wall street – o dinheiro nunca dorme.
O primeiro erro de Oliver Stone foi seguir as diretrizes que questionava nos seus primeiros filmes. Ao se anunciar como portador de uma verdade absoluta (ainda que a mesma seja visivelmente relativa), Stone cai diante de si mesmo. Sua credibilidade se esvazia e sua ressonância se resume a polêmica que um dia foi assertiva. Hoje é só barulhenta.

Como era verde o meu vale: Oliver Stone ganhou dois Oscars de direção no espaço de 4 anos e depois secou a fonte