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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Retrospectiva 2010 - Os dez melhores filmes do ano

A retrospectiva 2010 em Claquete chega ao fim hoje. E em grande estilo. O TOP 10 mais aguardado, mais festejado, mais polêmico e (por que não?) mais importante do ano encerra esse especial tão gostoso de fazer. 2010 foi um bom ano no cinema. Dá para tirar essa medida ao constatar que apenas três dos dez filmes que integram a lista foram lançados em 2009 em seus países de origem. Essa proporção foi mais equilibrada em anos anteriores, alternando-se em 6 X 4, 4 X 5 e 5 X 5. Portanto, com 7 filmes datados originalmente de 2010, o presente ano se encerra com um saldo bem positivo. Contribuíram para isso a excelente forma que alguns cineastas veteranos como Martin Scorsese, Roman Polanski e Michael Haneke apresentaram. Outros, mais novos, também fizeram bonito em 2010. Foi o caso do argentino Pablo Trapero e do americano Ben Affleck. Gente nova, mas já com bastante rodagem, também agregou valor ao cinema nesse ano. Como David Fincher e Christopher Nolan, já amplamente citados na Retrospectiva 2010.
No escopo dos dez melhores filmes estreados nos cinemas brasileiros, entre janeiro e dezembro, pode-se perceber uma forte tendência de pensar o homem e suas relações em diferentes níveis e atmosferas. Desde o metiê do mundo financeiro até os desmandos das relações amorosas modernas. A violência analisada pela rigidez alemã também rendeu um dos melhores filmes dos últimos anos. A fita branca, que está no TOP 10, é arte pensante. Talvez o único filme da lista que se desincumba de entreter. Os outros nove entretem, mas sem se desobrigarem de pensar e refletir o homem e o meio. Sem mais delongas, vamos aos dez melhores filmes de 2010 por Claquete.



10 – Wall street – o dinheiro nunca dorme, de Oliver Stone (Wall street – Money never sleeps, EUA 2010)


Apesar de perder muito de seu impacto com uma reviravolta improvável nos minutos finais, Wall street – o dinheiro nunca dorme inscreve-se como um filme tenaz. Irônico, arguto e muito provocante (embora flerte com um moralismo que não havia no filme original), Oliver Stone bota a câmera na sala de reuniões dos homens que decidem o destino da economia no mundo. Um filme, ágil, ligeiro e cheio de cenas referenciais. A melhor delas, talvez seja aquela em que o secretário do tesouro americano após ouvir o valor do socorro que os banqueiros pedem ao governo exclama em tom de desabafo: “Os senhores sabem o que é isso? É socialismo”.
Wall street – o dinheiro nunca dorme é uma revisão, ainda que se possa argumentar repetida, dos vícios que não nos deixam. Um filme que, talvez apenas como o número 1 dessa lista, captou o espírito de nosso tempo.



9- Simplesmente complicado, de Nancy Meyers (It´s complicated, EUA 2009)


Uma comédia charmosa, sofisticada e que contempla um público geralmente negligenciado pelas comédias românticas. E por público aqui não se entende apenas os membros da terceira idade, mas aqueles divorciados que nunca tiveram os dilemas das recaídas abordados com contentamento pelo cinema. Nancy Meyers recicla as próprias fórmulas e escala um elenco inspirado (Meryl Streep, Steve Martin e Alec Baldwin) para estipular com graciosidade os destemperos de seguir adiante com a vida amorosa.
Simplesmente complicado prima por diálogos críveis, embora em situações pouco ortodoxas. Tudo com o olhar aguçado de Meyers para as idiossincrasias da classe média.





8 – Abutres, de Pablo Trapero (Carancho, ARG 2010)


Um filme expressivo, cativante e atordoante. Se estes são adjetivos que costumam rimar com excelência, não são comumente encontrados em um mesmo filme. A sexta fita de Pablo Trapero é cinema vigoroso na realização, clássico na narrativa e moderno na linguagem. Além de apresentar a performance mais impressionante de Ricardo Darín, um ator notório por atuações impressionantes, Abutres concilia gêneros tão díspares como o romance, o cinema de denúncia social e o thriller criminal em uma trama fluída e concisa.
É um filme maiúsculo sem sonho de grandeza.





7 – Atração perigosa, de Ben Affleck (The town, EUA 2010)


Ben Affleck assume de vez o grande cineasta que está se tornando em um filme que conjuga brilhantemente soluções comerciais com questionamentos artísticos. Um filme com pose comercial, mas de vocação autoral. Atração perigosa, além da trama enxuta, é cinema bem feito com ótimo roteiro, fotografia e montagem em compasso magistral, elenco em fina sintonia e uma direção tão segura quanto sugestiva. O segundo filme de Ben Affleck é um achado do ponto de vista artístico em um meio que o comercial cada vez mais dita tendências.




6 – A fita branca, de Michael Haneke (Das Weisse band – Eine Deutsche Kindergerschichte, ALE 2009)


Um filme de ritmo particular e discurso forte, enfático, porém, inconclusivo. Para lidar com um paradoxo tão proeminente é necessário um cineasta inquieto e confrontador. Michael Haneke propõe um estudo minucioso das circunstâncias em que se projeta o mal na organização social. Um filme particularmente triunfante pela recusa em ser definitivo. A angústia maior é cercar a verdade e nunca dominá-la, provoca Haneke.





5- O escritor fantasma, de Roman Polanski (The ghost Writer, INGL/FRA 2010)


Um vigoroso thriller de espionagem que também apresenta um refinado senso de humor. Roman Polanski mostra invejável forma nesse filme de postura belicosa e debochada em relação à política internacional americana. Polanski se apropria da trama e investe em pouco sutis comentários acerca do próprio status em relação ao EUA. Uma deliciosa metalinguagem cinematográfica potencializada por atores contidos e uma técnica contagiante.




4 – A origem, de Christopher Nolan (Inception, EUA 2010)


Muitas mudanças que virão nos próximos anos serão creditadas a esta fita de Nolan. A origem, mais do que a forma arrojada com que foi apresentada ao mundo, é um filme de ideias e sobre ideias. O fascínio que a técnica de Nolan exerceu sobre a audiência é coisa dos sonhos. O fato de o filme abordar os sonhos só faz a experiência mais prazerosa. A originalidade do projeto, desde sua concepção à sua abordagem, reafirma o diretor como um visionário em seu segmento. E o peão ainda está rodando?




3 – Ilha do medo, de Martin Scorsese (Shutter island, EUA 2010)


Convencionou-se dizer que este é um filme menor de Scorsese. Pode ser. O que não se fala por aí é que essa era a ideia. Uma homenagem as fitas de terror dos anos 40 e 50, Ilha do medo é história do cinema transbordante. Tudo em virtude de Scorsese. Aqui ele pega um roteiro banal e lhe confere tratamento real (no sentido de realeza). Se Ilha do medo é um campo de divagações filosóficas e um filme que não se resolve com a surpresa final (até previsível para iniciados), é por causa de seu diretor. Fosse outro a comandar a fita, e essa elegante parábola sobre a paranóia seria um filmeco como tantos outros que chegam as locadoras todos os meses. Com assombro técnico e exigindo de Leonardo DiCaprio o que ele pode dar, Scorsese dá mais uma aula de como transformar o trivial em algo bem próximo do memorável.





2- Amor sem escalas, de Jason Reitman (Up in the air, EUA 2009)


 Além de ser o mais perfeito retrato dos efeitos da última grande crise financeira nos EUA, Amor sem escalas se introduz como o espelho do homem moderno que parece refutar sua complexidade. Jason Reitman se firma como um grande cineasta (em seu terceiro filme) ao enfocar um conflito geracional, um modo de vida e uma nação em plena derrocada da era Bush em três personagens. Ofertar a conclusão de que a vida é melhor com companhia vem como bônus nesse pacote especial.



1- A rede social, de David Fincher (The social network, EUA 2010)


É necessário pontuar que A rede social vai crescer com os anos. Será o filme lembrado quando no futuro a disposição de saber como era a presente geração se manifestar. A conflagração de anseios e a efemeridade de novos fenômenos são o palco de uma tragédia grega encenada com dinamismo de internet. O filme de David Fincher é cool, cult, sofisticado, inteligente e irascível. É, em si, uma metáfora de seus personagens e do público que predominantemente se interessa por ele. Um filme que captura mudanças no âmago da sociedade e se promove como filme evento. A rede social pode não ter “causado”, mas exclusivo do jeito que é, ainda vai “causar” muito.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Crítica - Atração perigosa

O crime como metáfora!

Não é algo novo. Hollywood se aperfeiçoou em usar a atividade criminosa como metáfora de reminiscências familiares e sociais. Desde o auge do cinema de gangster com Vencido pela lei (1934) até a edificação de Nova Iorque pelo olhar de Martin Scorsese em Gangues de Nova Iorque (2002). Ben Affleck vem, com brilhantismo, prestar sua contribuição ao filão. Atração perigosa (The town, EUA 2010) é um filme autoral que não se esquiva da necessidade de se mostrar comercial, já que é um produto de um estúdio regido por uma lógica capitalista. Transitar com habilidade e manter-se invicto ante essa dualidade é, sem dúvida, o maior mérito de Ben Affleck que, aos poucos, deixa de ser um diretor promissor para figurar na lista dos diretores interessantes.
Em Atração perigosa, Affleck faz um interessante painel de um bairro de imigrantes irlandeses em Boston, o que justifica o título original, mas não perde seus personagens principais de vista. O comentário do diretor (que também divide os créditos de roteirista) remete a influência que o ambiente exerce na sua formação. Não à toa, Affleck ambienta esse segundo filme que dirige, assim como havia feito com o primeiro, na cidade que cresceu e que conhece intimamente. Doug MacRay (Affleck) quer se desvencilhar de seu destino, mas esbarra na inércia. Quis o acaso que uma mulher que aparenta ser tão frágil quanto ele (ainda que essa fragilidade seja de outra natureza) representasse o “empurrão” que Doug precisava para vencer a inércia.

Amigos de fé: As mesmas regras e a mesma formação não impedem que Doug e Jem pensem diferente em um belo painel montado pelo diretor Affleck em seu filme


Há quem diga que Atração perigosa manipula clichês de gênero com destreza e que o filme se limita a isso. É uma interpretação superficial e simplista. De fato, há uma manipulação bastante criativa e qualificada dos elementos que gravitam o cinema do gênero, porém, há mais. Affleck investe nas sutilezas e trabalha com personagens fortes. Seja o pai irremediado em sua aflição explosiva e silenciosa (Chris Cooper em uma cena fantástica), seja a estrangeira em busca de amparo emocional (Rebecca Hall cada vez mais diligente em cena) ou o cara que não sabe como escapar da vida que vive (Affleck).
O crime e a relação destes personagens com esse universo passa, então, a ser uma metáfora preciosa de inadequação. Atração perigosa não deixa de ser também romântico em sua visão crepuscular e bifurcada dos laços que compõem amigos irmanados no crime. É, ainda, uma excelente fita de ação. Do tipo que prima por diálogos fortes e ação anexada à emoção genuína e bem engendrada por um diretor que pensa o filme de dentro para fora, ou seja, os personagens ditam o rimo da ação e não o contrário.
Vale comentar, também, a atuação de Ben Affleck. O ator dá sintomas de que acumulando as funções de diretor e roteirista redobra os cuidados com seu trabalho como intérprete. Aqui vemos um Affleck humilde (todos brilham mais que ele. Até mesmo Blake Lively) e senhor dos gestos de seu personagem. Doug não é um cara explosivo (ao contrário de Jem, personagem do também ótimo Jeremy Renner) e Affleck produz os gestos que levam a platéia a concluir o perfil implosivo de Doug. Um trabalho notável de um ator limitado que se revela um diretor agudo. E com o diretor Affleck, o ator deve sair lucrando bastante.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Atração perigosa - Aliando aspectos autorais a fórmulas comerciais

“Affleck sabia que tinha uma oportunidade única nas mãos”, escreveu em seu blog o crítico e observador da indústria de cinema Patrick Goldstein em referência ao significado de Atração perigosa (The Town, EUA 2010) para o ator, diretor e roteirista Ben Affleck.
Depois de uma estréia elogiada com Medo da verdade (Gone baby gone, EUA 2007), filme que entrou no ranking dos 25 melhores filmes da década organizado por Claquete, Affleck precisava mostrar que não foi acometido por aquela conspiração universal chamada sorte de principiante. “Em Atração perigosa, Affleck tinha que provar que sabia contar uma história e ainda entregar o filme que o estúdio queria”, observou em matéria sobre o filme a revista Entertainment weekly. “Eu sabia o que queria fazer”, retruca Affleck que admite ser fã do subgênero conhecido como heist movie, mas não vê razão do por que se limitar a ele: “a ideia desses personagens viverem com segredos e ao mesmo tempo buscarem um vínculo verdadeiro me envolve”.
Affleck se refere ao conflito vivido por Doug MacRay, interpretado pelo próprio ator. Líder de uma bem sucedida quadrilha de assaltantes, Doug tenta administrar personalidades conflitantes. Após uma complicação em um das ações da quadrilha, Doug se aproxima de uma mulher feita refém (personagem de Rebecca Hall) para se certificar de que ela não será capaz de reconhecê-los. Ele não contava que iria se apaixonar pela mesma. Uma estrangeira, assim como Doug se sente em relação a seus amigos, hábitos e tudo o mais.
Paralelamente a isso, o agente do FBI Adam Frawley (Jon Hamm) tenta desbaratar a quadrilha e percebe que para alcançar seu intento a chave é a personagem de Rebecca Hall.


 A razão do título nacional: Rebecca Hall e Ben Affleck em cena. Afinidades que vão muito além da atração...


Direto de Mad men: Jon Hamm encarna um detetive obsecado em desbaratar a quadrilha liderada pelo personagem de Affleck


“Impressiona o vigor da trama policial, mas o que mais chama a atenção é a profundidade dos personagens”, destacou Goldstein em sua resenha do filme. Atração perigosa está sendo cotado para ser um dos concorrentes ao Oscar 2011 e Ben Affleck já se fiou como diretor promissor. A Warner já projeta uma relação com ele nos moldes da que mantém com cineastas como Clint Eastwood, Christopher Nolan e Steve Soderbergh. Boatos indicam que ele deve rodar a ficção científica Replay, engavetada pelo estúdio há uma década.
Mas as críticas positivas ao novo trabalho de Affleck não se restringem a crítica americana. No Brasil, veículos distintos como Veja, O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, Época e O Globo apontam para uma unanimidade: Affleck promete ser um cineasta de mão cheia.
A partir desta sexta-feira (29 de outubro), o cinéfilo poderá tirar suas próprias conclusões. Não que elas devam ser muito diferentes desse coro cada vez mais afinado.

domingo, 10 de outubro de 2010

Insight

 Ben Affleck é o novo Eastwood?




O novo filme dirigido por Ben Affleck, Atração perigosa, tem sido algo próximo de uma unanimidade na crítica americana. A crítica internacional, presente nos festivais de Veneza e Toronto, onde o filme foi exibido, também exaltou a qualidade da fita e a sobriedade de Affleck na direção.
Já surgem em alguns nichos da crítica americana uma comparação instigante. Críticos de veículos distintos, mas respeitados, como Los Angeles Times, Vanity Fair, Entertainment Weekly e Washington Post avalizaram uma curiosa relação entre Affleck e Clint Eastwood. Embora inusitada, a comparação não é despropositada. Ambos são atores que não primam pela excelência em seus ofícios, mas que se mostram vigorosos na direção. Tanto Affleck e Eastwood iniciaram uma fase autoral adaptando um livro de Dennis Lehane (Sobre meninos e lobos no caso de Eastwood e Medo da verdade no caso de Affleck) e ambos arrancam performances salutares de seu elenco. É lógico que a comparação soa artificial posta dessa forma. Eastwood já dirige há 40 anos e Affleck acaba de lançar o segundo filme. Mas Eastwood não era reconhecido como o autor que é hoje até essa mais recente safra de filmes. É Sobre meninos e lobos que marca essa nova fase do que hoje é considerado um dos maiores cineastas americanos vivo.
É justamente neste sentido que a comparação favorece Affleck. Depois da elogiada estréia, e de um segundo filme ainda mais elogiado, Affleck já parece caminhar para um acordo formal com a Warner (nos moldes do que Eastwood detém com o mesmo estúdio). Depois da boa carreira de Atração perigosa, que ainda é cotado para a vindoura temporada de premiações, a tendência é que Affleck, o cineasta, só trabalhe para o estúdio.

Affleck orienta o irmão mais novo nos sets de Medo da verdade: surpresa, elogios e a promessa de um grande diretor


Affleck orienta John Hamm nos sets de Atração perigosa, filme que também estrela. A fita deve chegar ao Brasil no dia 29 de outubro


Ben Affleck não teve um mentor assim como Eastwood tivera (Sergio Leone), mas é pacífico que o próprio Eastwood hoje é uma referência viva e expansiva. É confortante ver que, mesmo que Affleck siga um caminho distinto de Eastwood como cineasta (o que não parece ser o caso), presenciamos a consolidação de um grande talento do cinema. Affleck não chega a ser um grande ator. A beleza e o "fator Gênio indomável" (filme que escreveu e estrelou junto do chapa Matt Damon e que os revelou em 1997) cuidaram de lhe viabilizar como astro de cinema. Agora, com estofo e experiência, ele parece disposto a cavar seu lugar na história do cinema como bom roteirista que é (escreveu os dois filmes que dirigiu) e ótimo diretor que cada vez mais demonstra ser.
Faz lembrar, embora com algumas sutis diferenças (que agregam ainda mais valor a sua jornada) um certo Clint Eastwood que ninguém levava a sério algumas décadas atrás.