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terça-feira, 9 de outubro de 2012

Crítica - Selvagens


Como era verde o nosso vale...

Selvagens (Savages, EUA 2012) é um filme vigoroso! Bem dirigido por Oliver Stone e com o um roteiro ainda mais vistoso assinado pelo próprio Don Winslow, autor do livro no qual o filme se baseia, em parceria com Stone. A história de três jovens americanos que entram em guerra com um poderoso cartel mexicano impressiona pelo contexto realista que pulsa na veia desse entretenimento. Se quisesse, Stone poderia ter feito um filme denúncia, com ares de conspiração, como caracterizava seu registo no final dos anos 80 e início dos anos 90. No entanto, Selvagens se beneficia da escolha de seu diretor em fazer um filme que flerta com alguma reflexão, mas incendeia a tela da mais pura e voyeurística adrenalina do cinemão americano embalado por inteligência, ironia e balas.
Ben (Aaron Johnson) e Chon (Taylor Kitsch) são amigos desde o colegial. Além de manterem um lucrativo negócio com tráfico de maconha – a mais pura da Califórnia – eles dividem O (Blake Lively). O é uma típica patricinha que mantém relação amorosa com os dois. E tudo vai bem na mansão em que moram até que um poderoso cartel de drogas mexicano, comandado pela “rainha vermelha” Elena (Salma Hayek) resolve absorver o negócio de Chon e Ben. Diante da resistência dos moçoilos, ela sequestra O como demonstração de que o negócio das drogas, no final das contas, não é tão idílico como faz crer a filosofia dos rapazes.
A partir deste momento, Selvagens vai ganhando musculatura dramática e, a despeito de algumas reviravoltas mal elaboradas, se sustenta como um legítimo debate sobre concessões e percepções. Stone coloca sua plateia para pensar: afinal, o que é ser selvagem? Agir como o despirocado e assustador Lado – capanga de Elena deliciosamente encarnado por Benecio Del Toro, ou afastar-se de certas convenções sociais como fazem os três produtores e traficantes de maconha enamorados? É uma discussão interessante que vai se construindo sobre alguns insights que o ágil e dinâmico texto de Winslow aventa.
O final é um deleite a parte. Stone se dá ao luxo de rodar dois finais, ambos incrivelmente satisfatórios para os conflitos erigidos no longa, e ainda dá sua pisadinha na eterna “guerra contra as drogas” travada pelos EUA.
Mas o segredo de Selvagens reside em uma ótima fala do personagem de John Travolta, um agente corrupto da narcóticos que é quem verdadeiramente se sai melhor na história toda: “a torta está cada vez menor e a fome continua aumentando”. 

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Filme em destaque - Selvagens

A maconha nossa de cada dia 
O diretor Oliver Stone na capa de julho de 2012, ocasião do lançamento de Selvagens no cinema americano, de uma revista especializada em maconha. Seu novo filme "respira" a erva e é um dos entretenimentos mais vigorosos do cinemão americano em 2012



Quem melhor do que Oliver Stone para rodar um filme que coloca o cultivo de maconha no centro do debate? Ainda que seja um debate que só faz antessala para uma espiral de violência incontida, Stone, também por isso, é o homem certo para o trabalho.
Defensor declarado da legalização e descriminalização das drogas, ele é responsável por alguns dos filmes mais violentos do cinema contemporâneo. Desde Platoon (1986), sobre os horrores da guerra do Vietnã, passando pelo histriônico Assassinos por natureza (1994), sobre um casal de psicopatas que sai em matança pelos EUA, Stone é um diretor que sabe dotar seu cinema de energia e caos, sem necessariamente prescindir de um discurso político de teor mais explosivo. São credenciais que o habilitam para Selvagens, com o qual se comprometeu antes mesmo do livro que serve de base para o filme ser publicado. “Senti uma faísca quando li o material”, disse o diretor em entrevista ao portal IG. Stone é responsável pela adaptação do livro, o mais premiado da carreira do escritor americano Don Winslow, junto do autor que contou à Folha de São Paulo que o processo de roteirização foi tenso: “Stone é muito intenso, discutíamos cada elemento do filme. Muitas vezes, gente do cinema não entende que escritores lidam com cortes e edições diariamente; é parte do trabalho".

Lótus
Oliver Stone, depois de considerar Leonardo DiCaprio e James Franco, chamou Aaron Johnson – o John Lennon de  O garoto de Liverpool para viver Ben, um botânico riponga e entusiasta da prática de ações de caridade. Taylor Kitsch, que em 2012 já pôde ser visto em John Carter- entre dois mundos e Battlheship – a batalha dos mares, foi escalado para viver Chon, um veterano das guerras do Iraque e do Afeganistão que volta para os EUA com algumas das melhores sementes de maconha do planeta. Juntos, Ben e Chon erguem um pequeno e lucrativo império produzindo e comercializando, legal e ilegalmente, a maconha mais pura de todo o hemisfério norte. A boa vida em uma mansão na ensolarada Califórnia é adornada pelos beijos de O (Blake Lively), uma típica patricinha que é namorada dos dois. O, que seria interpretada por Jennifer Lawrence, que rescindiu o contrato para estrelar o blockbuster Jogos vorazes, é a narradora do filme. O é abreviação de Ophelia, batizada em homenagem a princesa shakespeariana que se suicida em "Hamlet". A abreviação foi uma adaptação pontual que a garota fez ao capricho da mãe. Essa informação aparentemente banal diz muito sobre a natureza da personagem de Blake Lively, que, de alguma maneira, veste O melhor do que se imagina Jennifer Lawrence fizesse.
Ben, por sua vez, chama O de “minha doce Lótus”, uma planta de beleza e cheiro incomuns.

O amor tem três vértices em Selvagens: os três protagonistas em momento romântico


“Algo de errado na sua história de amor”
Mas a semântica que Selvagens quer discutir não é de cunho botânico ou shakespeariano. E sim sobre qual postura se adequa melhor ao termo “selvagem”. Para isso, Oliver Stone confronta o “american way of life”, encarnado nos valores pós-modernos de Ben e Chon – eles mesmos tão diferentes entre si – e os mexicanos de um poderoso, mas ainda assim a beira da ruína – cartel de drogas comandado com mãos de ferro por uma mulher. É Elena (Salma Hayek), quem manda sequestrar O como forma de coagir os “traficantes do bem” a se aliar ao lado negro da força, quem adverte ao lótus de Ben que há algo de errado com a história de amor dela. “Eles nunca amarão você mais do que um ao outro, do contrário, eles não te compartilhariam, não é mesmo?”. É uma frase poderosa e que acrescenta a essa discussão regada a maconha e cabeças rolando, certo romantismo que faz de Selvagens algo ainda mais singular. Mas que discussão? Em um dado momento, novamente O nos informa que Chon costuma dizer que “a droga é a resposta racional a um mundo irracional”. Oliver Stone não sabe fazer entretenimento sem ser político. E não há nada de errado nessa história.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Panorama - As torres gêmeas


Quando Oliver Stone anunciou que faria um filme sobre a queda do World Trade Center, todos esperavam um filme com alta carga polêmica e que cedesse a teorias conspiratórias (como em JFK - a pergunta que não quer calar e Nixon). Não foi o que aconteceu em As torres gêmeas (World Trade Center, EUA). No filme, Stone se esquiva da política e se concentra na homenagem a uma figura muito valorizada pelo americano após os atentados terroristas de 11 de setembro, o bombeiro. O filme acompanha o drama real de dois bombeiros que ficaram sob os escombros do edifício. Ao evitar a polêmica e ao prestar-se ao patriotismo com altas doses de sentimentalismo, Stone foi taxado de muitas coisas. A pior talvez tenha sido a de que era um cineasta já sem mais nada a dizer. Mas Stone tinha algo a dizer. Salientou que América tinha heróis de carne e osso e deveria se orgulhar deles. Um recado desses é sempre bem vindo (ainda mais pelo fato de ser verdadeiro). Ter sido emitido por um cineasta tido como encrenqueiro só engrandece o valor da mensagem. Ainda que o filme seja menor do que se esperava e menor dentro da filmografia do diretor, seu propósito é dos maiores.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

ESPECIAL WALL STREET - O DINHEIRO NUNCA DORME: Contexto

O capitalismo devassado


Oliver Stone parece imbuído de mostrar que o capitalismo é uma chaga social. Seu cinema recente parece pautado em desconstruir o modelo econômico ocidentalizado que rege 97% das nações. Wall street – o dinheiro nunca dorme, embora engrosse o coro, não chega a ser tão xiita quanto se podia imaginar. Tão pouco Stone é tão vaticinante em sua crítica quanto outros cineastas como Costas-Gravas, Jean Luc Godard ou Claude Chabrol, morto recentemente.
No filme, reencontramos Gordon Gekko no momento em que planeja se reerguer, embora isso não esteja claro de pronto. Stone realiza aqui outro conto moral partindo do cenário proposto pela crise econômica desencadeada em wall street em setembro de 2008. Ele mostra que Gekko pode ter mudado pouco, mas que o mundo das finanças mudou e muito. E para pior, sacramenta o diretor esquerdista. A figura de Bretton James (Josh Brolin) e de Louis Zabel (Frank Langella) dão viço a esse comentário.
Desbravar o sistema capitalista parece ser o passatempo preferido de Oliver Stone. Há 23 anos ele lançou o icônico Wall street em que explicitava os pormenores do mercado financeiro. O cinema se presta, embora nem sempre dotado do cinismo presente nos trabalhos de Stone, a desenvolver análises sobre o tema. O documentário The corporation (2004) desnuda as relações escusas de grandes empresas como Nike e Coca-cola. Entre os entrevistados do filme está o polêmico (e também esquerdista ferrenho) Michael Moore. Moore, aliás, rodou sua própria perola anticapitalista. Capitalismo:uma história de amor (2009) tenta, com os habituais subterfúgios narrativos do diretor, relacionar o capitalismo a todo o mal inerente a vida em sociedade. Apesar de ter algumas verdades, Capitalismo: uma história de amor não é tão contundente quanto The corporation.
Esquivando-se um pouco dos documentários, a ficção também é prolífera em enquadrar o capitalismo e suas vicissitudes. Geralmente de forma muito mais assertiva e bem humorada, como na comédia de erros As loucuras de Dick e Jane (2005) em que Jim Carrey perde seu emprego quando a economia americana míngua e precisa roubar para se sustentar. Ou na deliciosa comédia O diabo veste Prada (2006) em que os sonhos e o idealismo de uma recém formada se confrontam com a dura realidade do mercado de trabalho. Em O corte, o grego Costas-Gravas cria uma bem humorada e inusitada situação. Seu protagonista resolve matar todos os seus concorrentes à uma vaga de emprego. Um conto capitalista de extrema acuidade, sem perder o bom humor.
A melhor parábola sobre os efeitos do capitalismo, no entanto, talvez seja O sucesso a qualquer preço. No filme de James Foley, com roteiro do dramaturgo David Mamet, um grupo de vendedores tem que alcançar uma meta no final do mês para preservar seus empregos.
O cinema faz parte da lógica capitalista. A maior prova disso é a pujança hollywoodiana. Isso não impede de se fazer auto- análise. E Wall street – o dinheiro nunca dorme é certeiro na radiografia que faz de nós mesmos.

Mery Streep e Anne Hathaway em uma deliciosa fábula capitalista


Se você gostou do tema abordado nesta coluna e deseja repercuti-lo sob esse e outros pontos de vista, Claquete recomenda:


O sucesso a qualquer preço (EUA 1992), de James Foley
The corporation (Can, EUA 2004), de Mark Achbar, Jennifer Abbott e Joel Bakan
Capitalismo: uma história de amor (EUA 2009), de Michael Moore
O corte (GRE/ALE 2005), de Costas-Gravas
O diabo veste Prada (EUA 2006), de David Frankel
As loucuras de Dick and Jane (EUA 2005), de Dean Parisot
Wall street – poder e cobiça (EUA 1987), de Oliver Stone

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Panorama - Um domingo qualquer


O universo esportivo é rico na produção de metáforas. Tanto em um viés positivo quanto negativo. Oliver Stone, polêmico e insidioso como é, não poderia deixar de mexer com uma das grandes paixões do americano quando se trata de esporte: o futebol americano e toda a indústria que o cerca. Esse é o tema de Um domingo qualquer (Any given Sunday, EUA 2000), filme que conta com grande elenco (inclusive um ainda desconhecido Jamie Foxx).
Aqui ele joga luz em diversos pontos. No treinador (Al Pacino) que precisa fazer o time vencer e para isso precisa apaziguar egos e lidar com uma proprietária (Cameron Diaz) que entende serem as prioridades administrativas diferentes das prioridades esportivas. Há ainda a estrela ascendente (Jamie Foox) com um comportamento “padrão Neymar” e a estrela decadente (Dennis Quaid). Em comum em todos esses esquadros, o alto teor competitivo tão comum na sociedade americana. Um domingo qualquer, embora penetre os bastidores do esporte em questão, não é um filme esportivo. É um filme que ataca o corporativismo inerente ao esporte. Obviamente há concessões narrativas. Há vibrantes vitórias e cenas edificantes como manda o figurino, mas o interesse de Stone não é verter lágrimas em sua platéia. O que ele objetiva com Um domingo qualquer é doutriná-la de que o que se vê por trás das cortinas do espetáculo não é algo tão edificante quanto surge na tela da TV (ou do cinema). É um fluxo massacrante de interesses, egos, dinheiro e muitas outras coisas antes de amor à camisa.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

ESPECIAL WALL STREET - O DINHEIRO NUNCA DORME: Repercutindo o filme *


A justificativa que Oliver Stone tem dado a jornalistas em entrevistas promocionais de Wall street – o dinheiro nunca dorme é que voltou a este universo impelido pela forte crise financeira deflagrada em 2008. “Foi como um ataque cardíaco”, revelou o cineasta. “Era preciso voltar aquele universo”. É compreensível a razão que motivara Stone a retornar a um de seus mais bem sucedidos momentos como cineasta. A crise de 2008 foi tão virulenta que até hoje muitos gurus de wall street ainda hesitam em precisar como e por que ela ocorreu. Oliver Stone com sua firme postura contra o neoliberalismo vem com o novo filme dar o seu pitaco.
Em um primeiro momento o filme foca na bonança do crédito. Foi uma década de grandes saltos financeiros em que bancos e fundos de investimento lucraram estupidamente na base do capital especulativo. É Louis Zabel (Frank Langella) quem guarda o descontentamento de não mais acompanhar o ritmo frenético de dissimulações, especulações e sangue frio inerente àquela selva de arranha-ceús. Na primeira cena em que conversa com seu protegido, o corretor Jacob Moore (Shia Labeouf), essa condição fica clara. O próprio Jacob representa uma variação dessa condição. Ele é idealista, mas não perde o dinheiro de vista: “O único verde que conta é o dos dólares”, diz Jacob em uma de suas primeiras falas para a namorada Winnie (Carey Mulligan). Ele aposta na energia verde porque ainda é um nicho pouco vislumbrado por wall street. Essa é a única razão. É sobre o jogo, já dizia Gordon Gekko desde o primeiro filme. Embora não se perceba disso, Jacob já age dentro dessa especificidade. Em uma cena, ele discute com um amigo corretor sobre o impulso que as ações da empresa que ele representa terão. Ele se gaba de sua visão macroeconômica mais do que de ter recebido um cheque de U$ 1,5 milhão.

O que era afirmação no primeiro filme impulsiona novos questionamentos agora: Será?


Gekko entra na jogada
Zabel foi passado para trás. Jogado na cova e consumido pelos leões que guardavam a selva com ele, suicidou-se e deixou seu protegido com um sentimento de vingança em ebulição. É aí que Gekko entra em cena. Procurado por Jacob após uma palestra em que discorria sobre seu livro Is greed good?, o ex-tubarão de wall street percebe em Jacob gana e vontade de triunfar. Ele logo estabelece uma relação de trade com seu futuro genro.
Gekko parece regenerado. Sua palestra versa sobre as mazelas do "risco moral", a pirâmide financeira que queiramos admitir ou não, todos compactuamos ao hipotecar nossos imóveis. Ao refinanciá-los inadvertidamente e por aí vai. Gekko continua com seu charme e sofisticação, mas também não esconde suas feridas. Ele as lambe sabiamente.
Como consultor de Jacob, Gekko o assessora no plano para derrubar Bretton James (Josh Brolin), o grande rock star atual de wall street. É nesse escopo que Stone melhor defende sua tese: “perto desses tubarões de hoje, eu sou um amador”, dispara Gekko ao explicar para Jacob uma das manobras financeiras de James.
É isso que quer mostrar Stone. “Hoje não é preciso mais fazer uso de informações privilegiadas para fazer dinheiro”, exclama James em outro momento do filme.
As coisas avançaram tanto, e em um nível tão vertiginoso, que as pessoas tomaram o irreal como real. Se auto-enganaram, define o diretor. Daí a importância da personagem vivida por Susan Sarandon, que faz a mãe de Jacob. Na primeira vez que a encontramos, vemos uma mulher ansiosa, compulsiva, com tiradas secas e um cigarro na boca. Ela pede um socorro ao filho (U$ 200 mil), já que o mercado imobiliário está esfriando e ela não consegue vender as casas que administra. A personagem, que era enfermeira, abandonara o emprego para surfar na onda da economia aquecida. Antes de sua última cena no filme, em que ela está de volta a seu emprego no hospital, vemos a personagem em mais uma conversa franca com seu filho. É essa conversa franca com o filho que Wall street – o dinheiro nunca dorme quer ser para o público.
É um Oliver Stone provocador, insidioso e cínico. Mas também paterno. Tanto com seus personagens, como atesta a cena final, tanto para com o público, nos brindando com essa revisita a wall street por causa de um ataque cardíaco.


Jacob Moore "representa" quem viu o primeiro Wall street no novo filme, ou seja, um wall street guy sem a alma de um wall street guy


* Contém Spoilers

sábado, 25 de setembro de 2010

ESPECIAL WALL STREET - O DINHEIRO NUNCA DORME: Crítica

Na cova dos leões!

Entretenimento sagaz, crítica inteligente e diálogos de alta voltagem em um exemplo de cinema bem feito  


Muitos podem dizer que Oliver Stone está se repetindo com Wall street- o dinheiro nunca dorme (Wall street- Money never sleeps, EUA 2010) ou que este segundo filme, lançado 23 anos depois do primeiro, não tem a urgência nem a primazia que fizeram do primeiro Wall street um acontecimento cinematográfico de tanto apelo quanto um crash financeiro. Não deixa de ser uma afirmação legítima. Não há nada no novo filme que já não estivesse delimitado no primeiro. O que Stone faz aqui é ampliar, com invejável dose de cinismo, seu comentário. “Alguém me lembrou que certa vez eu disse que a ganância é boa. Agora ela é legalizada”, a frase certeira disparada por Gordon Gekko em uma palestra em que promove seu mais recente livro captura brilhantemente o espírito do novo filme. Stone volta-se novamente para a mais volátil e cruel das selvas. A dos homens que simplesmente não conseguem se satisfazer.
O novo filme começa com Gekko saindo da prisão e Stone não economiza nem mesmo aí. Mapeia logo para seu público que os tempos são outros (reparem no tamanho do aparelho celular de Gekko). Antes de limusine, Gekko se vê um usuário do transporte público. Não é apenas em cima do célebre personagem que Stone destila sua verve crítica; Bretton James (Josh Brolin em inspirada atuação), Jacob Moore (Shia Labeouf) e Lou Zabel (Frank Langella) são todos facetas de um mesmo sonho. O novo Wall street se assenta mais sobre alguns princípios financeiros do que o primeiro, mas Stone é tão hábil em repercuti-los quanto o fora no original. Diferentemente do primeiro filme, a moral de Stone é apresentada logo de cara. O diretor não deixa-nos esquecer do “risco moral” (para usar um termo em voga no filme) de nos afeiçoarmos àquele mundo. Um mundo em que todo o sentido se resume a competição. Há muito no novo filme para ser digerido, mas antes disso, salta aos olhos o entretenimento fino que O dinheiro nunca dorme é.
Jacob Moore se aproxima de Gekko após o suicídio de Zabel, cuja empresa faliu devido a intervenções especulativas de Bretton James. O objetivo primal de Jacob é vingança. O segundo é estabelecer uma nova relação mentor e protegido, tal qual tinha com Zabel e como vimos no filme original entre Gekko e Bud Fox (Charlie Sheen). Em certo ponto, os propósitos de Jacob se alinham aos de Gekko.
O vigor da fita é impressionante. Sejam os diálogos matadores ou as situações invariavelmente inacreditáveis (e justamente por isso críveis) que testemunhamos no exercício que Stone se propõe de reconstituir o legado de Wall street para a presente geração.


Nada como um dia após o outro: Em Wall street, como na vida, tudo é ciclíco...


O aspecto visual também chama a atenção. A música é alentadora e ajudar a montar o painel elegante que o diretor objetiva. Se há um porém em O dinheiro nunca dorme é a súbita vontade de Stone em redimir seus personagens (especialmente Gekko). Algo que não ocorrera no primeiro filme.
Entretanto, não se pode negar que Stone tenha sido mais enfático em sua mise en scène. Contudo é, também, inegável que ele continua vislumbrado com os mecanismos e a dinâmica do sistema. Não à toa seu filme começa com a câmera zanzando pelos arranha –céus de Wall street e termina com algumas bolhas soltas pelo ar. Não há forma mais enfática de externar a fissura diária que se dá em Wall street.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Panorama - Assassinos por natureza


Depois de alguns filmes de cunho político, era natural que Oliver Stone se voltasse para outro componente de profunda ressonância social. A mídia e seus motores socioeconômicos. Assassinos por natureza é um roteiro de Quentin Tarantino. Não há cineasta mais indicado para chancelar as loucuras de Tarantino do que Oliver Stone. Só que o filme de Stone não é só sobre a saga de dois lunáticos que cruzam a América fazendo um banho de sangue por onde passam, é uma dura crítica a sociedade do espetáculo e ao combustível sensacionalista que explode de seu seio. Em Assassinos por natureza tudo é histriônico. Desde os protagonistas, vividos com exagero e insanidade por Woody Harrelson e Juliette Lewis, até a ambientação. Passando pela linguagem e pela moral que emerge da fita. O jeito anárquico dos “heróis” do filme poderia servir de parâmetro para as convicções políticas de Stone. Mas seria impreciso fazer uma afirmação dessas. Seria tentar colar esse filme ao contexto político das bases da filmografia do cineasta americano. Ele não é político aqui. Pelo menos não em termos convencionais. O que Stone diz com seu Assassinos por natureza (mais seu do que de Tarantino) é que nós somos responsáveis por nossos monstros. E nem sempre os assassinos são os piores. Loucura? Sim. Esse é o ponto de partida dessa viagem sem volta. 

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Panorama - Nascido em quatro de julho


No segundo filme em que aborda o Vietnã, Oliver Stone muda o foco. Adota um tom mais político e explana sobre as diferentes perspectivas que se tem, dentro de casa, sobre uma guerra. Quando conhecemos Ron Kovic (Tom Cruise), ele é um menino que como tantos outros brincam no quatro de julho americano (coincidentemente dia do aniversário de Kovic). Testemunhamos aquele garoto se tornar um jovem idealista sob o bastião conservador da direita repressora americana. Ser um marine no Vietnã era mais que um projeto de vida. É ao assistir o padecimento emocional e físico de Kovic como veterano do Vietnã que Stone cristaliza seu comentário com tenebrosa propriedade. Nascido em quatro de julho (Born in forth July, EUA 1989) é, também, um valoroso estudo sobre de que lado se assenta o patriotismo e como a idéia que se faz dele se torna mutável diante de privações específicas, como as que vivencia Kovic, ou genéricas, como as que, para os elaboradores da guerra, advoga o comunismo.
Oliver Stone não perde seu personagem de vista e através de seu sofrimento expurga a inocência de uma nação. Doloroso, raivoso, democrático. Nascido em quatro de julho é, também, patriótico.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

ESPECIAL WALL STREET - O DINHEIRO NUNCA DORME: De volta a Wall street


“Estou confuso como todo mundo”, disse o cineasta Oliver Stone em entrevista ao jornal New York Times em maio último, quando indagado - durante um passeio por Wall street (a rua) – sobre o que achava da crise financeira deflagrada a dois anos atrás justamente naquele endereço. A entrevista em que Stone admite entender muito pouco ou “quase nada” de mercado financeiro pode ser vista no Youtube. Também disponível no Youtube, embora não na integra, está a entrevista coletiva que o diretor e o elenco de Wall street – o dinheiro nunca dorme concederam (também em maio) no último festival de Cannes.
“Michael (Douglas) e Ed Pressman (produtor do filme) vieram com a idéia em 2006, mas eu não queria celebrar aquela cultura da riqueza. Depois da crise, foi como um grande ataque cardíaco”, revelou o cineasta. “Era hora de voltar ao assunto”. Oliver Stone conta que até hoje se impressiona com o alcance de Gordon Gekko, o personagem que virou modelo para operadores do mercado financeiro. Michael Douglas se esquiva de tal responsabilidade: “Perguntam-me se me sinto culpado por ter encarnado um personagem que virou essa espécie de modelo. Claro que tudo o que aconteceu no mercado financeiro nos últimos dois anos mostrou abusos da expressão ‘a ganância é boa’ (bordão do personagem), mas, em vez de culpa, fiquei satisfeito por interpretar um vilão que as pessoas admiram. Mas Gordon Gekko ainda é um vilão? O segundo filme começa com Gekko saindo da prisão após oito anos de pena por crimes do colarinho branco. Proibido de operar ações, enquanto tenta se reconciliar com sua filha Winnie Gekko (Carey Mulligan), o ex-tubarão das finanças vive de palestras e do livro em que critica o comportamento agressivo do mercado financeiro. A aproximação entre pai e filha é intermediada por Jacob Moore (Shia Labeouf), namorado de Winnie, que é um operador financeiro. Jacob trabalha na empresa de Lou (Frank Langella), seriamente prejudicada devido a intervenções especulativas do mega investidor Bretton James (Josh Brolin). É esse o plot que trará Gordon Gekko novamente a seu habitat.


A trupe no Festival de Cannes em maio: "era hora de voltar"


Oliver Stone orienta seus astros nos sets de filmagens


Michael Douglas sintetiza a razão de ser do filme: “Ficamos pensando: aqueles estudantes hoje (que viram Wall street - poder e cobiça nos cinemas) devem estar dirigindo esses bancos de investimento. A ganância virou legal. Era uma oportunidade de ir ao fundo das coisas. Gekko mudou? Você não sabe, até o final do filme.”
Com essa provocativa frase, Douglas crava o perfeito timing da produção. Na era da internet e dos pregões on-line, é de se supor que Gekko se proliferaria com muito mais volúpia. É inegável que toda a curiosidade sobre o filme gira em torno deste personagem.

Tubarão da vez: Josh Brolin, ao lado do veterano ator Eli Wallach, encarna o pior de Wall street no novo filme


Acertando os ponteiros

Wall street – o dinheiro nunca dorme foi anunciado no ano passado. A principio, o papel do ‘Gordon Gekko atual, mas consideravelmente menos charmoso’ seria de Javier Bardem. O ator espanhol saiu da produção em cima da hora (devido a conflitos de agenda com Comer,rezar e amar que já estava em ritmo de gravações) e foi substituído por Josh Brolin, que já havia sido George W.Bush para Oliver Stone em W. O fato de Brolin viver um bom momento só agregou valor a produção. Outra que já estava no elenco de O dinheiro nunca dorme e viu seu passe se valorizar no começo do ano foi Carey Mulligan, indicada ao Oscar de melhor atriz por Educação. Além disso, Michael Douglas tem a companhia de Susan Sarandon, Frank Langella, Shia Labeouf e Charlie Sheen que faz uma participação especial para ajustar as perspectivas. Mas, afinal, o que esperar desse segundo filme? “Um Gordon Gekko mais vulnerável”, afirma Josh Brolin. Se isso é bom ou ruim, rememoremos Michael Douglas: “você não sabe. Até o final do filme”.


Fera ferida: Será Gordon Gekko o mesmo capitalista indomável de outrora?

domingo, 19 de setembro de 2010

Claquete documenta - Ao sul da fronteira



Ao sul da fronteira (South of the border, EUA 2009), dirigido por Oliver Stone, parece um trabalho de graduação. Essa constatação pode ser tomada como um elogio ou como uma crítica. Até mesmo como um improvável híbrido das duas. A fita de Oliver Stone tem em sua essência uma vontade genuína de aclarar certos paradigmas midiáticos, como a vacilante e tendenciosa cobertura jornalística que determinados veículos americanos fazem do noticiário internacional. Reproduzindo, na maioria das vezes, ecos do que se balbucia na Casa Branca. Esteja ela sob comando republicano ou democrata. Contudo, esse aspecto nunca é prioridade para Stone. Ele o utiliza como ponto de partida para propagandear Hugo Chávez e sua revolución tão incompreendida no lado mais alto da América. Stone cede a sua ideologia e pinta um retrato da América do sul que só ele e, talvez, Chávez enxergam. Uma América do Sul sob liderança política do comandante em chefe da Venezuela em que o Brasil (e o cara, Lula) só exerce um papel de coadjuvante.
Um documentário que foge a verdade e se rebaixa a peça publicitária de um modelo de governo que não faz sentido em um mundo que avança ao ritmo de empresas como Apple, Google e Microsoft. Não se trata de incompreensão como brada Stone com seu filme, embora - obviamente – haja tal componente. Mas nesse sentido o filme não favorece em nada sua agenda. Ao sul da fronteira alude a um trabalho de graduação porque vem carregado de ideologia, meias verdades, má apuração e muita convicção em um projeto de mundo que parece deixar de fazer sentido depois que se deixa a faculdade para trás. Stone, no limiar, é tão manipulador, desinformado e taciturno em Ao sul da fronteira, quanto afirma ser a mídia americana em relação aos bolivarianos. Nesse sentido, seu filme não deixa de ser além de pedagógico, uma fina ironia. Ainda que involuntária.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

ESPECIAL WALL STREET - O DINHEIRO NUNCA DORME: O legado de Wall street - poder e cobiça




O ano era 1987. Hollywood ainda não estava, pelo menos assumidamente, entregue as caixas registradoras das bilheterias e Oliver Stone era o cara que tinha feito o mundo se resignar com a guerra do Vietnã (com o filme Platton) no ano anterior. Wall Street era um frisson ainda distante. Uma ideia que ainda não tinha forma na cabeça do cidadão médio. A globalização e suas vicissitudes capitalistas eram matéria para ensaístas e teóricos e não costumavam ser pauta em produções voltadas para o cinemão. Mas Stone e o roteirista Stanley Weiser resolveram subverter essa lógica. Wall Street –poder e cobiça realinhou a forma como Hollywood via Wall street e vice versa. Ajudou também no boom da bolsa de valores, que em meados da década de 90 se tornou um fenômeno irreversível.
Gordon Gekko e seu bordão “a ganância é boa” tornaram-se modelo para toda uma geração de corretores e operadores da bolsa e o filme se tornou referencial para toda e qualquer produção que abordasse as entranhas do capitalismo, mesmo que não fosse ambientada no universo da bolsa de valores.
Outra influência notável do filme diz respeito ao ceticismo com que os yuppies são enxergados pela sociedade. Houve até mesmo filmes que tentaram repercutir essa noção, como Primeiro milhão (Boiller room, EUA 2000) em que um grupo de jovens se mira nos “mandamentos” de Gordon Gekko para fazer dinheiro fácil. Literalmente.
Não foi o filme de Stone que fez Wall Street tão nociva quanto a percebemos. A fita apenas descortinou essa realidade, ainda que a tenha revestido de charme e fascinação.
Crédito da foto: Vanityfair.com

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

ESPECIAL WALL STREET - O DINHEIRO NUNCA DORME: Revendo o primeiro filme


Wall street – o dinheiro nunca dorme surge 23 anos depois de Wall street – poder e cobiça. Nesse meio tempo, Oliver Stone declinou de convites feitos pelo estúdio (a Fox) e pelo ator Michael Douglas para retornar ao universo mostrado no primeiro filme. A justificativa de Stone era de que a mensagem do primeiro filme ainda era atual e suficientemente sonora, portanto, não haveria razão de se fazer um segundo longa sobre Wall street. Mesmo com o segundo filme em vias de ser lançado, Wall street-poder e cobiça continua atual. A história que mostra o sonho americano em sua faceta mais controversa e distópica reverbera atualidade em cada fotograma.
O filme tem o mérito de tornar compreensível os mecanismos do mercado financeiro e, na belíssima construção do roteiro de Stanley Weiser e Oliver Stone, conduzir sua platéia para indefectíveis conclusões. Wall street – poder e cobiça é um filme charmoso. O fato de desentranhar as engrenagens capitalistas não faz com que o filme deixe de ser um entretenimento vistoso. Esse paradigma serve ao cinemão na mesma medida que serve ao cinema de gênero. Gordon Gekko (Michael Douglas) foi um dos primeiros vilões modernos a surgirem no cinema. Aquele tipo de personagem que não é absolutamente mal, mas imperfeito em sua humanidade. Falho. Real.
Bud Fox (Charlie Sheen) é um corretor que busca o sucesso na profissão e sabe que um valoroso atalho nesse sentido é Gordon Gekko. Disposto a se projetar para Gekko, Bud se vale de alguns expedientes que chamam a atenção do tubarão das finanças. Gekko apadrinha Bud e começa a lhe apresentar seu estilo de jogo no mercado financeiro, em que é preciso enfiar a mão na lama bem mais fundo do que se supõe. O que ocorre é que Bud não consegue deixar sua consciência de lado, o que impreterivelmente lhe desviará do sucesso em Wall street. A fita é feliz ao expor a crueza do mundo dos negócios e as diferentes perspectivas das pessoas que o gravitam.
Embora o desfecho espraie um certo moralismo, não redime seus personagens. Tão pouco menora o impacto de suas ações ou subverte a lógica das mesmas. O filme acaba, mas o eco do que ocorre nos porões de Wall street ainda não está esgotado.

domingo, 12 de setembro de 2010

ESPECIAL WALL STREET - O DINHEIRO NUNCA DORME: Insight

Oliver Stone ainda é polêmico?


Existem artistas cuja expressividade remete a determinados períodos da história. Lennon e seu libelo antibélico (Imagine) no calor do Vietnã é um exemplo óbvio. Oliver Stone, por sua vez, perseguiu a fama de polemista e a conquistou. Tentou enquadrar a história americana em seu caledoscópio fílmico por diferentes perspectivas. Seja pelo ponto de vista político (Nixon, JFK – a pergunta que não quer calar), do patriótico (Nascido em quatro de julho), do potencial de fabricação midiático dentro da sociedade do espetáculo (Assassinos por natureza), desnudando ídolos (The doors), pelo escopo capitalista (Wall street –poder e cobiça e Um domingo qualquer) ou através de seus traumas (Platoon e As torres gêmeas). Oliver Stone desenhou para si mesmo uma glória improvável. Virou o biógrafo dos presidentes americanos no cinema. Já abordou Kennedy, Nixon e Bush. Os últimos presidentes a ocupar destaque (por boas ou más razões) na história do país e da humanidade. Envaidecido com o alcance de seu cinema e com a disposição que a classe intelectual tem de pensá-lo, o diretor cedeu ao capricho e fez uma biografia da vida de Alexandre –o grande. Alexandre (EUA 2004), talvez seja o primeiro indício de que Stone é, hoje, uma sombra de si mesmo. Um resquício do que um dia fora conteúdo, inquietação e ousadia.

Stone, o grande, orienta Angelina nos sets de filmagens de Alexandre: da expectativa ao ridículo


Oliver Stone foi o primeiro a mexer no vespeiro do Vietnã. É possível ver o impacto de Platton ainda hoje. Quando produções acerca da ocupação americana no Iraque e seus efeitos lá e dentro de casa pipocam nos cinemas com um Iraque ainda em efervescência política e com um conflito armado ainda em aberto. Platoon estabeleceu Hollywood como porta voz da esquerda liberal, embora nem sempre aja dessa maneira. O filme ajudava a construir perspectiva e dava embasamento para críticos da guerra e das políticas americanas, ainda que fosse só um filme. Em menor escala, foi o que se viu com a aceitação quase unânime a Guerra ao terror este ano.
Oliver Stone abraçou o personagem que criou para si mesmo e elegeu-se o questionador número 1 dos Estados Unidos da América. Levado mais a sério do que Michael Moore, outro que se tem em grande estima, Stone toca diversos projetos paralelos que tem a América (em diversos momentos da história) como foco. Em The secret history of America, um documentário que produz para o Showtime (canal a cabo americano), Stone especula que seriam os EUA os mentores do nazismo e os responsáveis por sua deflagração (a ascensão de Hitler). Ano passado o diretor lançou o documentário chapa branca Ao sul da fronteira (confira a resenha deste filme no próximo domingo em Claquete documenta) em que mostra o “sonho” da América Latina tocado por Hugo Chavez e seguido pelos “irmãos” Lula, Evo Morales e Cristina Kirchner. Após a crise financeira deflagrada em 2008, resolveu voltar ao mundo de Wall street com Wall street – o dinheiro nunca dorme.
O primeiro erro de Oliver Stone foi seguir as diretrizes que questionava nos seus primeiros filmes. Ao se anunciar como portador de uma verdade absoluta (ainda que a mesma seja visivelmente relativa), Stone cai diante de si mesmo. Sua credibilidade se esvazia e sua ressonância se resume a polêmica que um dia foi assertiva. Hoje é só barulhenta.

Como era verde o meu vale: Oliver Stone ganhou dois Oscars de direção no espaço de 4 anos e depois secou a fonte

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Panorama - Platoon


Oliver Stone ainda não era Oliver Stone quando lançou este filme. Cultuado em festivais ao redor do mundo e vencedor de 4 Oscars (incluindo filme e direção), Platoon (EUA 1986) ajudou a mapear os interesses alvoroçeiros de Stone enquanto cineasta. Notório esquerdista, seu cinema seria pautado pelo questionamento e pelo confrontamento com as vigências estabelecidas. Platoon não chega a ser orientado por esses dogmas, mas converge de alguma maneira para eles. O filme que se apresenta como definitivo sobre a guerra do Vietnã (Stone voltaria a essa chaga americana em Nascido em quatro de julho, mas sob diferente perspectiva), guarda algumas semelhanças estruturais com o último filme premiado com o Oscar, Guerra ao terror, mas o filme de Stone é mais encorpado e explosivo (no sentido político e emocional do termo) que o filme que se passa no Iraque. Em Platoon, acompanhamos o cotidiano de um pelotão pela ótica de um jovem recruta (Charlie Sheen, ator a qual Stone proporcionou seus melhores momentos no cinema). A brutalidade da guerra é o referencial do diretor. Seja pela realidade crua buscada na tela ou pelo desenvolvimento dos personagens e seus conflitos. Stone ousou. E a ousadia lhe valeu o pioneirismo. Seja pelas imagens impactantes (como a que ilustra o pôster do filme e que foi copiada em diversos filmes de guerra que vieram depois) ou no conceito que defende: a primeira vítima da guerra é a inocência. Inclusive para um país, metralha o diretor.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Cannes updated # 3


Taking over Cannes
Foi exibido nesta sexta-feira, fora de competição, a aguardada continuação de Wall street. No segundo filme, que ganhou o subtítulo Money never sleeps, Gordon Gekko (Michael Douglas) sai da prisão e aos poucos se restabelece no jogo da bolsa de valores.
O diretor Oliver Stone desembarcou em Cannes com a maioria do elenco. Michael Douglas, Carey Mulligan, Shia LaBeouf, Josh Brolin e Frank Langella viram a critica se entusiasmar com a fita. “Um filme menos ingênuo e mais ágil do que o primeiro”, escreveu a Vanity Fair.

É a economia estúpido: o assunto em Cannes hoje foi a crise financeira com a chegada de Michael Douglas, Shia LaBeouf, Oliver Stone (com um bigodinho suspeito) e Josh Brolin


“Estou tão confuso quanto todo mundo”
Oliver Stone admitiu na coletiva que seguiu à exibição do filme que a grande motivação para fazer um segundo filme sobre Wall Street veio da crise financeira que tomou o mundo em 2008. “Michael (Douglas) já havia me convidado para fazer uma continuação em 2006, mas eu sentia que não era o momento para revistar aquele universo”, declarou o diretor. O diretor disse que a toda crise econômica que acomete o mundo, pensa que o sistema financeiro entrará em colapso.


Indagações católicas
O português Manoel de Oliveira, o mais velho cineasta em atividade no mundo com 101 anos, inaugurou ontem a mostra Um certo olhar. O estranho caso de Angélica, seu novo trabalho, atraiu muita atenção. O filme conta a história de um fotógrafo que fica instigado por uma mulher (a Angélica do título) que morreu sorrindo. Ele fica obcecado por saber mais sobre seu espírito. A critica se dividiu quanto ao filme. O critico da Vanity Fair admitiu ter dormido durante a sessão. A critica européia pareceu mais interessada no trabalho de Oliveira e alguns críticos brasileiros enxergaram uma indagação de Oliveira, que é católico, sobre o sentido da morte. O cineasta confessou o interesse em debater o tema em seu filme. Ele disse na coletiva de imprensa que "a morte é a única certeza que existe, tudo o mais é incerteza".

Quintal coreano
Todo mundo sabe que a edição de Cannes deste ano está recheada de produções asiáticas. Ontem um filme chinês despontou como favorito e hoje uma fita sul coreana se não impressionou amplamente, ao menos cativou a crítica. Hanyo (Housemaid, no título em inglês), exibido hoje pela competição oficial, mostra com humor negro uma situação muito cotidiana. O assédio sexual sofrido pelas empregadas domésticas. O que agradou a critica é que a retratação é descompromissada e inteligente. Segundo escreveu Diego Assis do portal G1, o diretor In Sang Soo exercita um senso de humor muito parecido com o de Park Chan Wook ( maior diretor sul coreano da atualidade, responsável por filmes como Oldboy) e entrega um final arrebatador.


A equipe do longa sul coreano chega para a premiere: o grisalho boa pinta é o diretor In Sang Soo
Xis
Hoje foi o dia o dia mais agitado no tapete vermelho de Cannes desde que começou o festival:

O membro do júri da edição deste ano Benicio Del Toro prestigia a sessão de Wall Street:money never sleeps: a sessão mais concorrida dessa edição do festival até agora

O cineasta Martin Scorsese compareceu a sessão especial de O leopardo (1963), clássico de Luchino Visconti

sábado, 6 de março de 2010

De olho no futuro...

Afasta de mim esse cálice
O ator Matt Damon, que concorre ao Oscar de coadjuvante por sua atuação em Invictus amanhã, parece decidido a não encarnar mais o super espião Jason Bourne. Aparentando cansaço de toda vez ter de responder sobre o futuro de Bourne no cinema, Damon chutou o pau da barraca essa semana. Disse que não se vê mais como o super agente. Que a saga só teria fôlego com um novo nome e sugeriu Denzel Washington, Russel Crowe ou Ryan Gosling para viverem Bourne. Por essa declaração, apesar de realmente esses atores darem ótimos Bournes, dá para ver que o futuro do ex-agente da CIA no cinema é para lá de incerto.

Sempre o capitalismo
“É o colapso do capitalismo e o colapso da nossa sociedade. É isso mesmo. Nosso modo de vida vai mudar” afirmou Oliver Stone à revista Vanity Fair quando indagado o por quê de ter voltado ao mundo de Wall Street em Wall street: Money nerver sleeps que estréia em maio no país. Contudo, Stone admite, em tom capitalista, que quer entreter ( lê-se ganhar dinheiro).
Enquanto espera pelo entretenimento “socialisticamente” correto de Stone, fique com o segundo trailer do filme que traz Michael Douglas de volta ao icônico personagem que lhe valeu o Oscar.



O Brasil na rota de Toretto
Era boato. Passou a ser possibilidade e agora é fato. Velozes e furiosos 5, ou "Fast five" (nome provisório do quinto filme dos carros envenenados) será rodado no Brasil. Vin Diesel confirmou em sua página no site de relacionamentos Facebook que os produtores do quinto filme vêm ao Brasil nesse fim de semana de Oscar para avaliar possíveis locações. Paul Walker e Vin Diesel, a exemplo do quarto filme, estão confirmados. Imaginem vocês se a gringalhada ia perder um Velozes furiosos regado a funk.
Atenção popozudas: Vin Diesel vem aí...
Freddy vai voltar!
Todo mundo já sabia que um remake de A hora do pesadelo estava para sair do forno. O novo filme, produzido por Michael Bay, promete ser bem fiel às origens do personagem. Bay produziu os remakes de O massacre da serra elétrica e Sexta -feira 13. Chegou a hora de Freddy. O poster é de dar água na boca. Ou medo, para os mais diretos.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Cenas de cinema

Ressaca daquelas
O DVD da comédia Se beber não case, que chega às lojas brasileiras na semana que vem, bateu todos os recordes possíveis e imagináveis nos EUA. Seguindo o desempenho admirável da fita nas bilheterias americanas, o DVD, em 3 semanas, se tornou a comédia mais vendida da história no formato. E mais: em números absolutos, o filme de Toddy Philips só vendeu menos em 2009 do que o DVD de Crepúsculo. O detalhe aí é que o filme de Edward e Bella já está disponível desde abril, enquanto que Se beber não case foi lançado no dia 18 de dezembro.
Capa do DVD americano de Se beber não case: O filme segue batendo recordes inesperados

Não tem cão, caça com gato
Na esteira de todo o sucesso de Avatar está Lula –o filho do Brasil. No primeiro fim de semana em cartaz, 260 mil foram ver a cinebiografia do presidente. Três semanas depois, sem liderança na bilheteria e com destaque na imprensa, o filme de Lula perde força. Além de não ter conquistado 1 milhão de espectadores, como muitos previam que já teria acontecido a essa altura do campeonato, o filme não parece cativar. Essa semana o New York Times publicou artigo sobre o filme e alerta sobre os efeitos que o mesmo pode causar na campanha eleitoral. A playboy deste mês traz uma entrevista com o diretor Fábio Barreto, concedida antes do acidente automobilístico que vitimou o diretor, e o site Filme B emite boletins semanais sobre o interesse pelo filme. Ou seja, Lula só mesmo na imprensa. Será que o brasileiro está aprendendo a separar o joio do trigo ou está todo mundo debandando para uma sala 3D que esteja passando Avatar?

O Avatar de cada um
E por falar em Avatar, depois de Obama, quem foi conferir o novo trabalho de James Cameron foi o presidente boliviano, Evo Morales. Evo, que afirma ter sido essa a terceira vez que foi ao cinema na vida, exaltou o filme de Cameron como uma ode ao anticapitalismo. Para o boliviano o filme de Cameron passa, claramente, a mensagem do quão predatório é o sistema econômico que rege a vida em sociedade atualmente. Sobre a tecnologia, apresentada no filme (um triunfo do capitalismo), o presidente boliviano minimizou: “Isso é só um detalhe”. Então tá!

As asneiras de Oliver Stone
Não tem piadas que começam com aquela: “Sabe a última do português?”. Pois bem, quem conhece Oliver Stone, o cineasta que cedeu ao panfletarismo barato, sabe que ele gosta dos holofotes da polêmica. Então vamos a ela: Sabe a última do Oliver Stone? O diretor afirmou que Hitler, possivelmente o inimigo número 1 da humanidade, é um bode expiatório. Isso mesmo. Em entrevista a TV americana para divulgar uma minissérie que produz e dirige denominada The secret history of América, o diretor afirmou que o nazismo foi patrocinado por corporações americanas e que Hitler foi um bode expiatório fácil ao longo da história. Ele admite que sua minissérie, que será exibida no canal a cabo Showtime no segundo semestre, não deve agradar.
Ouvir Oliver Stone falar dá até pena. Mais do que nós, o próprio deve sentir saudades do tempo em que incomodava com conteúdo e acuidade como nos filmes Platoon, Nascido em 4 de julho, Nixon e JFK – a pergunta que não quer calar. Hoje faz barulho para manter viva a ilusão de que ainda é ressonante. Asneira por asneira, aí vai uma bem popular: “Morreu e esqueceram de enterrar”.
Oliver Stone e Hitler: Quem sai pior na foto depois de uma declaração dessas?


De olho na crepusculomania
Essa semana o leitor de Claquete acompanhou com requinte de detalhes os desdobramentos do imbróglio nos bastidores de Homem –aranha 4. Pois bem, o defunto nem esfriou (para ficar nas metáforas subversivas e de mau gosto) e já estão surgindo boatos sobre quem irá assumir a máscara do Aranha. Robert Pattinson, o afetado Edward de Crepúsculo (não que você já não soubesse) está sendo cogitado para ser o Peter Parker “mais jovem” que os produtores tanto falaram. Segundo alguns sites americanos, as negociações já estariam até mesmo avançadas, uma vez que Pattinson estaria entusiasmado com a possibilidade de viver o herói na reimaginação do universo aracnídeo nos cinemas. Enquanto não houver confirmação oficial essa coluna não se pronuncia em relação a escolha. Mas, fãs do aranha, imaginem o que o astro de Crepúsculo, em plena ferveção da crepusculomania, poderia acrescentar ao personagem?

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Um ano depois do começo da crise financeira...

Foram divulgadas as primeiras imagens das filmagens de Wall Street: Money never sleeps, continuação da fita de 87. O original, também dirigido por Oliver Stone, é até hoje tido como referência no mundo dos poderosos de Wall Street. A continuação foi evitada, pelo diretor, por muito tempo. Agora, à sombra da pior crise econômica do pós - guerra, Stone entende ter a história, e o ambiente, perfeitos.



O diretor, a esquerda, orienta seu par de atores em cena rodada no Central Park em Nova Iorque

Em Money never sleeps, Micahel Douglas volta a viver Gordon Gekko, personagem que lhe deu o Oscar. Aqui, recém saído da prisão, ele exercerá um papel importante na vida do jovem investidor interpretado por Shia Labeouf. A continuação de Wall Street chega aos cinemas no ano que vêm.

Frank Langella, Shia LaBeouf e Oliver Stone em momento sombra e água fresca

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Venezianas 2

Polêmica ou panfletagem?

Será exibido no próximo Domingo para a imprensa internacional, fora de competição, o documentário South of the border, que Oliver Stone filmou sobre o presidente venezuelano Hugo Chavez. Uma delegação venezuelana é esperada na premiere em Veneza. O diretor, esquerdista histórico, promete entregar um visão amistosa do presidente venezuelano. No filme, há depoimentos de vários lideres latino americanos, inclusive do presidente Lula.

Reconhecimento!
O nono prêmio Robert Bresson foi entregue hoje ao cineasta brasileiro Walter Salles. O diretor recebeu a honraria que em outros anos fora concedida a personalidades como Wim Wenders, Manuel de Oliveira e Giuseppe Tornatore.

Um ano ruim para americanos?
Depois da recepção modorrenta para A estrada, foi a vez do novo trabalho do diretor Todd Solondz dividir opiniões. Life during wartime teve mais criticas positivas do que A estrada, mas passou longe de corresponder as expectativas sempre geradas pelo diretor do excepcional Felicidade.
A recepção à Life during wartime levanta a dúvida. Depois do triunfo de Darren Aronofsky ano passado com o seu O lutador, os americanos parecem que não terão um ano vistoso em Veneza. Resta a aguardada estréia de Tom Ford na direção com A single man e o polêmico Michael Moore com seu Capitalism: A love history

Favorito?
O filme que melhor se saiu até agora no aplaudômetro,indice confiável em festivais, foi o austríaco Lourdes de Jéssica Housner. O filme que conta o milagre operado na vida de uma mulher com paralisia durante uma peregrinação para o santuário de Lourdes na França foi muito bem acolhido por imprensa e júri. Resta saber se o filme, azarão absoluto, se sustentará até o final do festival.