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domingo, 30 de março de 2014

Crítica - Tudo por justiça

Por quem dobram os sinos...

O segundo filme como diretor de Scott Cooper, Tudo por justiça (Out of the furnace, EUA 2013) é uma representação ensimesmada do universo masculino e seus códigos nem sempre civilizados, muito menos civilizantes. A tradução literal do nome original do filme seria algo como “fora da fornalha”; e quando Russell Baze (Christian Bale) está fora da usina, uma verdadeira fornalha em que produz aço, ele é o tipo de homem que dá murro em faca. Único da família empregado em um cenário em que a única coisa que parece prosperar é a crise econômica, Baze habita um mundo em que o pai está à morte por ter trabalhado toda a vida no lugar em que Baze trabalha, em que seu irmão, traumatizado por ter servido no Afeganistão, apresenta claros sinais destrutivos e que sua esposa quer ter um filho mesmo com todas as condições contrárias.
Baze não tem muita sorte e é esse rastro de mau olhado que acompanha o protagonista. Ele tenta fazer o certo e, de alguma maneira, as coisas dão errado.
Não se trata de fazer a própria sorte ou de assumir as rédeas da própria vida. Baze assume a responsabilidade por seus atos com imensa coragem, o que não quer dizer que abandone a introspecção característica de um tipo de homem que o cinema americano tangenciou muito bem ao longo dos anos em filmes estrelados por John Wayne ou Clint Eastwood.
Mas antes de seguir adiante é preciso voltar ao princípio. Tudo por justiça tem um início devastador e talvez não seja mera coincidência que ele se passe em um drive in, esse elo perdido do cinema, em que vemos um homem (Woody Harrelson em sua escala mais insana) ascender à violência mais primitiva por um motivo banal. Essa presença instável, desestabilizadora e eminentemente masculina paira sobre toda a projeção de Tudo por justiça estabelecendo uma dolorida, hermética e ruidosa consonância com a cena final, também desestabilizadora em sua justificação bidimensional.
Os códigos masculinos são valorizados, ainda, no paralelo entre a caça e a luta e na rixa entre o homem abandonado pela mulher e aquele pelo qual a mulher o abandonou.

Há muitas intermitências narrativas em Tudo por justiça que o tornam muito mais interessante do que os filmes ao qual remete. A mais incisiva de todas, no entanto, é de que não importa o quão ingrata seja nossa sorte, no limiar somos os reflexos de nossas escolhas. Nesse sentido, Baze, seu irmão (Casey Affleck) e Harlan DeGroat (Woody Harrelson) guardam mais semelhanças do que pode parecer. É essa bruta, viril e, na concepção do filme, imperdoável verdade que sela o destino dos personagens e torna Tudo por justiça um filme tão melancólico na radiografia que faz do macho.  

quinta-feira, 13 de março de 2014

Espaço Claquete - True Detective

A HBO vinha ficando para trás em matéria de originalidade e vanguarda na tv americana. Depois de reinventar, ou talvez seja melhor tirar o prefixo “re”, o conceito de dramaturgia na tv com "The Sopranos", a poderosa empresa vinha perdendo para redes mais novas como AMC – com "Breaking bad", "Mad men" e "The Walking Dead" , Showtime – "Dexter", "Weeds", "Californication" e tantas outras – e até Netflix – com "House of Cards". Eis que depois de igualar o jogo com boas produções como "Girls" e "Game of Thrones', a HBO volta a dominar um território em que reinou soberana por muito tempo com "True Detective".
A antologia, formato de série popularizado recentemente por "American Horror Story", revoluciona mais uma vez a linguagem televisiva no que pode ser sintetizado como “a melhor resposta a Breaking bad” feita por um programa de tv. "True Detective" é o flerte mais bem ensaiado entre literatura e tv. Chega a ser quase uma apropriação. Não só pelo ritmo e ambientação da narrativa, como pelos próprios interesses dramatúrgicos a moverem a trama. A investigação sobre um serial killer não é mais importante do que as inclinações morais e emocionais dos personagens principais ou da fixação da Louisiana, Estado em que a trama se desenvolve, como um personagem central e ativo na narrativa.
Escrita por Nic Pizzolatto, roteirista de poucos créditos, e dirigida em seus oito episódios por Cary Fukunaga – uma ousadia para a tv moderna – "True Detective" se destaca pela rigidez estética (ressaltada pela música coordenada com destreza mediúnica por T Bone Burnett), pela fotografia irresoluta de Adam Arkapaw e pelo forte viés filosófico a respaldar os episódios. Agregando estrutura de thriller à lógica de conto de fadas, o primeiro ano da série se deixa contaminar pela aura da Luisiana, o estado americano que mais aceita o fantástico. Werner Herzog já havia trabalhado bem este conceito no remake de Vício frenético (2009). Aqui, no entanto, Pizzolato vai além. O aspecto interiorano, o ar de decadência e o forte apelo religioso da região pairam sobre "True Detective" de modo a recrudescer tanto o principal mote da trama, como as angústias dos personagens.
Personagens, saliente-se, viscerais em suas imperfeições. Matthew McConaughey consegue a proeza de ser sutil em uma caracterização que por vezes parece um tanto over. Mas é só impressão. O ator arrebata na pele de Rust Cohle, detetive melancólico, pessimista, introspectivo e arredio que precisa se ajustar a seu parceiro no mesmo compasso que seu parceiro precisa se ajustar a ele.  Marty Hart, o parceiro em questão, é vivido com a habitual excelência por Woody Harrelson. Não é um personagem fácil, certamente menos chamativo do que Cohle, e Harrelson o humaniza de maneira notável.
"True Detective" rejeita o convencional com todas as suas forças. Não há desenho narrativo mais bem adornado na tv atualmente. Pizzolatto soube distanciar-se dos arquétipos disponíveis e bancou uma produção autoral, viva e com propriedades narrativas absolutas e reconhecíveis. É algo mais forte do que o que se vê no cinema, na tv e mesmo na literatura policial. É algo novo, genuíno e profundamente instigante. É bom, é cru, é inteligente. É, também, um problema. Pois com o segundo ano confirmado (história, personagens e atores serão diferentes) estabelece-se o imperativo de, ao menos, manter-se o nível. Não será uma missão fácil e a Luisiana, com seus furacões, crendices e torpor, podem ganhar ainda mais relevância em uma revisão histórica.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Crítica - Truque de mestre

Sem muita mágica

A ideia de cinema relacionada à ilusão não é nova e data dos primórdios da sétima arte com o mestre Georges Méliès. Contudo, vez ou outra, surge um filme disposto a estreitar as margens entre cinema e ilusão. É o caso do novo Truque de mestre (Now you see me, EUA 2013), de Louis Leterrier. O filme é um grande truque que garante o interesse ao brincar com a percepção da plateia a todo tempo. Nesse sentido, Leterrier – diretor de Carga explosiva 2 e O incrível Hulk – se mostra habilidoso, mas não esconde as muitas falhas do roteiro escrito por Boaz Yakin e Ed Solomon.
Na trama, quatro mágicos (Jesse Eisenberg, Isla Fischer, Woody Harrelson e Dave Franco) com habilidades diferentes são retrucados por um financiador misterioso para bancarem Robin Hood em versão David Copperfield.  No primeiro show, em Las Vegas, eles roubam três milhões de euros de um banco em Paris. A ação os coloca na mira do FBI e da Interpol, representados na figura dos agentes vividos por Mark Ruffalo e Mélanie Laurent. A investigação, sempre consideráveis passos atrás, segue a trupe de mágicos por pontos importantes dos EUA como Nova Orleans e Nova Iorque. De acordo com o guru obstinado em desvendar os truques do grupo (papel de Morgan Freeman), eles irão fazer três atos, um mais surpreendente do que o outro, e então desaparecer. A corrida contra o relógio está, portanto, estabelecida.
É tudo truque: Jesse Eisenberg e Woody Harrelson tentam reaver a
química dos tempos de Zumbilândia
O problema de Truque de mestre está em querer parecer mais esperto do que é. É um filme ágil, charmosão, bem articulado no humor e na ação, mas não é, de maneira alguma, um filme inventivo ou mesmo original. Ao querer se passar por tal aferindo novo sentido ao slogan “quanto mais de perto você olha, mais distante da verdade você está”, o filme peca pelas reviravoltas que desafiam à lógica e irrita ao propor uma solução pouco factível, ainda que potencialmente inesperada. A sucessão de trucagens no roteiro cansa já nas proximidades do desfecho, ressaltando a irregularidade narrativa do filme, até então disfarçada de reviravolta dramática.

O caprichado elenco, que ainda conta com Michael Caine e o rapper Common, garante o bom nível do entretenimento. O destaque, mais uma vez, vai para Woody Harrelson que como um mentalista intrometido responde pelos melhores momentos do filme.

terça-feira, 30 de abril de 2013

TOP 10 - Dez excelentes comediantes que não são tidos como comediantes


Nada de Alec Baldwin, Sacha Baron Cohen, Ben Stiller ou Jim Carrey. Está na hora de fazer justiça a alguns atores que são ótimos comediantes, mas que por serem ótimos em outras áreas não são lembrados por seus dotes cômicos. Claquete repara essa incorreção história e lista dez excelentes comediantes que você não tinha parado para pensar que são, de um jeito bem especial, comediantes.

10  - Bruce Willis
Willis já esteve em mais comédias do que você consegue lembrar. Do pop Meu vizinho mafioso (1999) ao humor negro de A morte lhe cai bem (1992), passando por fanfarronices como pontas como ele mesmo em Doze homens e outro segredo (2004) e Fora de controle (2008) e comédias como Vida bandida (2001), entre outros. Some-se a isso a desenvoltura com que Willis se apoia na comédia para criar seus personagens em filmes de ação como Duro de matar (1988), Xeque-mate (2006), 16 quadras (2006) e Red – aposentados e perigosos (2010).

9 – Jon Hamm
Por trás do classudo Don Draper da excepcional série Mad men reside um comediante de marca maior. Pouca gente sabe, mas as primeiras incursões de Hamm na TV foram na comédia. Mesmo depois do sucesso obtido com a série mais premiada de todos os tempos, Hamm pôde ser visto em participações hilárias no Saturday Night Live e no seriado 30th Rock.

8 – Brad Pitt
Já está pacificado que Pitt é um baita ator. Foram anos e muitos trabalhos desafiadores para que Pitt conquistasse o respeito e admiração de setores da indústria e da crítica. Um próximo desafio que Pitt poderia se investir era o de provar o ótimo comediante que é. Desde a ótima participação na sitcom “Friends” até as memoráveis composições do idiota rato de academia em Queime depois de ler (2008) e do idiota que escalpa nazistas em Bastardos inglórios (2009), passando por excelentes performances cômicas na trilogia Onze homens e um segredo (em que faz um comilão obsessivo), em Sr. & Sra. Smith (2005) e em Snatch- porcos e diamantes (2000). 

7 – Robert Downey Jr.
Alguma polêmica quanto à presença de Downey Jr. nesta lista? Impossível. Nenhum ator atual consegue convergir tão harmonicamente a gravidade do drama com cinismo e sarcasmo. Downey Jr. em toda aparição pública é um show à parte, mas na tela de cinema é um show inteiro. Prova disso são as duas bilionárias franquias (Homem de ferro e Sherlock Holmes) que carrega nas costas.

6 – Mark Wahlberg
É isso aí! Marky Mark! Quem teve um primeiro contato com a veia humorística de Mark Wahlberg em Ted pode até estranhar sua presença nessa lista, mas Wahlberg já havia se descoberto um homem da comédia há algum tempo. Em 2013 ele mistura ação e risos em Suor e glória, que promete ser dos filmes mais divertidos dos últimos anos, e 2 guns. Para quem precisa correr atrás do prejuízo, recomenda-se Os outros caras (2010), Uma noite fora de série (2010) e Três reis (1999).

Willis é um dos representantes da lista
que além do muque, apresenta tino para o riso
5-  Dwayne “The Rock” Johnson
Ele começou como raspa de tacho da franquia A múmia. Ex- lutador profissional e com uma carreira sólida na TV com filmes de ação, The Rock, que então assumiu de vez o nome Dwayne Johnson, se sedimentou no cinema de ação a partir de 2002 com o spin off de A múmia, O escorpião rei (2002) e filmes como Bem-vindo à selva (2003) e Com as próprias mãos (2004). Meio que sem querer, em 2005, em Be cool – o outro nome do jogo, mostrou que tinha tino para a comédia. Não à toa faz sucesso junto ao público infantil em filmes como Treinando o papai (2007) e A montanha enfeitiçada (2009). Fará dupla com Wahlberg em Suor e glória.

4 – Kevin Spacey
Ator de grife, Spacey é um baita de um comediante. Já fez imitações hilárias de personalidades diversas em talk- shows, criou personagens engraçadíssimos em alguns de seus filmes mais modestos e de suas peças mais disputadas em Londres. Entre seus melhores momentos como comediante no cinema estão O árbitro (1994), O psicólogo (2009), O super lobista (2010) e Quero matar meu chefe (2011).

3- Justin Timberlake
As esquetes no Saturday Night Live são famosas e Justin já mostrou as manhas do humor em outras oportunidades. Tanto no cinema como em eventos ao vivo. Não por menos seu nome é ventilado como candidato à apresentar a cerimônia do Oscar em 2014. No cinema, Timberlake mostra seu “comedy back” em filmes como Professora sem classe (2010) e Amizade colorida (2011).

2- Philip Seymour Hoffman
Em uma entrevista recente à revista Total Film, Chris O´Dowd de filmes como Solteiros com filhos e O virgem de 40 anos disse que se espanta com a facilidade com que Philip Seymour Hoffman faz comédia. Para O´Dowd, Hoffman é uma referência negligenciada por muitos que desejam ingressar no humor. Hoffman prova que O´ Dwod está certo em filmes como Quero ficar com Polly (2004), Jogos do poder (2007) e Os piratas do Rock (2009).

1 – Woody Harrelson
Woody Harrelson é um dos maiores atores do cinema contemporâneo. Apesar de ser frequentemente subestimado, Harrelson segue com o bom nível de atuações em filmes como Um tira acima da lei e Virada no jogo.  No entanto, um recorte na carreira de Harrelson permite vislumbrar o grande comediante que ele é e poucos se dão conta. Seja como alívio cômico em blocbusters de ação (2012) ou roubando a cena dos protagonistas de comédias românticas (Amizade colorida, ED TV), Harrelson sempre manda bem quando a ordem do dia é fazer rir. Outros grandes momentos são Sete psicopatas e um Shih tzu (2012), Zumbilândia (2009), Ladrão de diamantes (2004) e Tratamento de choque (2003).

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Espaço Claquete - Um tira acima da lei


Oren Moverman havia impressionado como roteirista na obra de arte que é Não estou lá, uma biografia da obra de Bob Dylan em 2007. Dois anos depois, impressionou ainda mais no roteiro e direção de O mensageiro, um filme que abordava o absurdo da guerra a partir de um ponto de vista extremamente original – acompanhando o trabalho de quem tinha que informar as famílias a respeito das casualidades ocorridas em campo de batalha. Seu mais recente filme, Um tira acima da lei (Rampart, EUA 2011) é prova conclusiva de seu talento para o cinema e de sua condição de artista que enxerga na arte um componente de reflexão profunda.  Ele colabora novamente com Woody Harrelson, que faz o protagonista – um tiro misógino, corrupto, racista e violento na Los Angeles do final dos anos 90, e instaura uma parceria que merece bis com o novelista James Ellroy, notório por suas tão bem engendradas tramas policiais que renderam filmes como Los Angeles, cidade proibida (1997), Dália negra (2006), A face oculta da lei (2002) e Os reis da rua (2008).
Um tira acima da lei é um filme nervoso. Tanto em sua narrativa, lenta e cheia de elipses, mas embalada por uma câmera trêmula sentindo o pulso dos personagens, como na atuação furiosa de Woody Harrelson, que encarna com virulência David Brown, um policial que vive no limite e que parece se alimentar dessa adrenalina. Não obstante, vive com suas duas ex-mulheres, que são irmãs, e mantém em dia vícios como alcoolismo e o consumo de entorpecentes e drogas tarja preta.
A rotina autodestrutiva de Brown se potencializa a partir do momento em que ele é flagrado em uma câmera espancando um suspeito após um acidente envolvendo sua patrulha. Fica claro que ele está sendo perseguido internamente, mas Brown se rejeita a aceitar as “condições políticas” que se erguem para sua aposentadoria e decide “latir mais alto”, batendo de frente com toda a estrutura policial enquanto continua conduzindo as coisas do seu jeito.
Um tira acima da lei não objetiva ser uma denúncia dos abusos policiais, assim como não deseja ser um petardo conspiratório sobre os intestinos da força policial. É apenas um suspense policial que expõe suas entranhas com realismo brutal. Brown é um anjo caído. Sujeito que, à primeira vista, pode parecer apenas um bronco durão de bom coração, mas que em uma análise mais detida se mostra um tipo transgressor perigoso para o convívio social. O que Um tira acima da lei demonstra é que esse personagem não necessariamente é uma exceção em uma sociedade leniente e corporativista. A polícia e Brown são apenas espelho e reflexo nessa teoria aventada brilhantemente por Moverman e Ellroy com a imprescindível colaboração de Harrelson.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Crítica - Sete psicopatas e um shih tzu


Pelo Shih tzu

É vendo filmes como Sete psicopatas e um shih tzu (Seven psychopaths EUA 2012) que é possível perceber a influência de Quentin Tarantino no cinema moderno. Depois de uma promissora estreia com Na mira do chefe (2008), o inglês Martin McDonagh chega a Hollywood com uma história que mistura cinema, gangsterismo e bromance. Tudo embalado em diálogos ligeiros, recheados de cinismo e ironia e em uma trama de espelhos e metalinguagens. Tudo tarantinesco demais, não fosse a falta de sofisticação de McDonagh para construir os diálogos tarantinescos e as cenas tarantinescas.
Justamente por essa deficiência, Sete psicopatas e um shih tzu nunca alcança suas potencialidades.
Woody Harrelson como um gangster em busca de seu cão:
a melhor coisa do filme
Na trama, Colin Farrell vive um roteirista em crise criativa. Ele quer escrever um filme com sete psicopatas e não um filme convencional sobre psicopatas, mas sim um filme sobre psicopatas, mas que seja também um libelo contra a violência. Sem querer querendo, o protagonista vai copiando ideias aventadas pelo seu amigo amalucado vivido por Sam Rockwell (muito bem), que faz um sequestrador de cães. É desse ofício pouco usual do personagem de Rockwell que a trama se sustenta, por assim dizer. Ele sequestra o shih tzu do título nacional que calha de ser o amado cachorro de um mafioso vivido soberbamente por Woody Harrelson – ator que se recusa a fazer qualquer papel no piloto automático.
A brincadeira entre o que é realidade e o que é fabricação do roteirista, que passa a aceitar colaborações de seu amigo, passa a ser o alvo da narrativa da metade do filme em diante.
Enquanto metalinguagem, Sete psicopatas e um shih tzu é um experimento válido. A crítica canhestra que ensaia quanto aos arranjos do metiê hollywoodiano, no entanto, poderia ser mais bem polida. Enquanto cinema, o que há de mais interessante nesse segundo filme de McDonagh é acompanhar o grande número de participações especiais que vão ficando pelo caminho dos protagonistas.  

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Crítica - Virada no jogo



Aula de teoria política

A HBO se notabilizou pela produção requintada de filmes que enobrecem o espaço da TV por assinatura. Dentro desse filão, aqueles sobre o jogo político, do qual faz parte esse excelente Virada no jogo (Game change, EUA 2012), ocupam lugar de destaque. O filme se baseia em um livro reportagem de Mark Halperin e John Heilemann sobre os bastidores da campanha republicana à presidência dos EUA em 2008. Sobre como a candidatura McCain ergueu o fenômeno Sarah Palin para medir forças com o fenômeno midiático Barack Obama e de como essa solução improvisada descarrilou uma campanha difícil desde seus primórdios.
Jay Roach, que assumiu a direção de outro notável filme da HBO sobre arremedos políticos quando Sidney Pollack se adoentou (Recontagem), reveste Virada no jogo de tensão, ainda que seu público tenha vívida a lembrança do que aconteceu. Com a sombra de Obama realçada vez ou outra, o filme se incumbe mais do que qualquer outra coisa de humanizar a figura de Sarah Palin – personagem tão cativante quanto demonizada. Nesse sentido, a interpretação de Julianne Moore salta aos olhos. A atriz faz mais do que reproduzir maneirismos da ex-governadora do Alasca, ela investe em uma composição rica que permite o vislumbre de uma mulher de convicções firmes, mas despreparada para o traquejo político de uma corrida eleitoral das proporções da disputa presidencial americana. Sarah Palin não é retratada como uma vítima das circunstâncias, tampouco como uma caricatura. Por se infiltrar tão avidamente nas noções que rodeiam uma personalidade política tão controversa, Virada no jogo se ergue como um estudo de personagem altivo e eficaz. Impressionável e com baixa formação cultural, a Sarah Palin que se testemunha em Virada no jogo é uma mulher egocêntrica que aconteceu pelos motivos errados.

Moore como Palin e Harris como McCain: atores que vão além da simples imitação


O brilhantismo de Virada no jogo, no entanto, não se circunscreve ao retrato que faz de sua protagonista. As articulações políticas e o poder reativo de uma campanha que precisava desconstruir um mito moderno em formação são outros atrativos desse filme que se posiciona como uma polivalente aula de teoria política.
Das maquinações de bastidores, as intensas preparações para debates, à escolha dos entrevistadores, tudo que se vê em Virada no jogo é justificável dentro de sua proposta narrativa. Eis um filme sem gorduras e paliativos, de ação ininterrupta movida à inteligência de seu texto e de sua audiência.
Um acréscimo precisa ser feito em nome do elenco de apoio. À parte o colosso de atuação provido por Julianne Moore, Ed Harris, Woody Harrelson, Sarah Paulson, Peter MacNicol e Jamey Sheridan brilham nas representações que fazem dos personagens envolvidos na trama.
Harris demonstra a habitual competência na pele de McCain, retratado aqui como um homem que quer sim servir ao país, mas que tem a exata noção de que precisa ganhar a disputa pela presidência para fazê-lo melhor. Harrelson, por seu turno, dá um show na pele de Steve Schmidt, o principal conselheiro político da campanha de McCain e um dos “criadores” de Sarah Palin.
Virada no jogo é cinema maiúsculo. O fato de ter sido lançado diretamente na TV não o torna menor ou menos digno de louros. Pelo contrário, apenas ratifica a TV, e a HBO em particular, como polo de criatividade e vigor artísticos.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Perfil - Woody Harrelson

O americano tranquilo 



Nascido no Texas em 1961, Woodrow Tracy Warrelson sempre soube que quis ser ator. Debandou-se para Ohio e depois para Nova Iorque com essa finalidade. Na grande maça, entrou para o elenco do sucesso da tv Cheers, mas o cinema só se viabilizaria para ele uma década depois. Foi em 1992, quando estrelou ao lado de Wesley Snipes a comédia Homens brancos não sabem enterrar, então com 31 anos, que Harrelson pôde ser visto por um grande público. Que gostou do que viu. Ainda com Cheers sendo exibido na tv americana, o ator emplacou outros dois grandes sucessos de público e crítica: Proposta indecente (1993) e Assassinos por natureza (1994). O primeiro filme, do mestre do erotismo no cinema americano Adrian Lyne, Harrelson é o marido de Demi Moore que aceita que sua mulher durma com Robert Redford pela quantia de um milhão de dólares. O filme, elegantérrimo, consolidou a carreira em ascensão de Moore e ajudou a tornar Harrelson conhecido de diretores importantes. Como, por exemplo, Oliver Stone que o chamou para viver um de seus personagens mais icônicos: Mickey Knox de Assassinos por natureza. O insano matador que cruza a América com a namorada maluquinha vivida por Juliete Lewis era o principal filme da década até o surgimento de Pulp Fiction alguns meses mais tarde naquele ano. Mas Milos Forman ficou impressionado com o apetite de Harrelson naquele filme e o chamaria para viver o polêmico criador da revista pornográfica Hustler na biografia que seria lançada em 1996. Antes disso, Harrelson voltou a contracenar com Wesley Snipes, então um astro do primeiro time hollywoodiano, em Assalto sobre trilhos (1995) em que ele e Snipes viviam dois policiais com rusgas com a lei, que se apaixonam pela mesma mulher – a então pouco conhecida Jennifer Lopez.

Woody e Juliette Lewis em cena do cult Assassinos por natureza: filmes decisivos no início da jornada no cinema... 


O Oscar que não veio
Antes de ser indicado ao Oscar por seu desempenho em O povo contra Larry Fynt, Harrelson mostrou que estava nessa pelo prazer e fez descoladas participações em Os simpsons e Spin city, divertida sitcom política que teve os talentos de Michael J. Fox e Charlie Sheen. O ano em que Harrelson brigou pela estatueta de melhor ator era particularmente difícil. O australiano Geoffrey Rush faturou por Shine-brilhante. Harrelson, no entanto, foi o favorito da crítica naquele ano. Pequenos papéis no cinema, em filmes como Mera coincidência (1997), Além da linha vermelha (1998) e EdTV (1999), foram entremeados com mais participações desencanadas em séries de tv como Ellen (primeiro programa de Ellen De Generes na tv) e Frasier.
Dramas policiais, como o recente Rampart que pode lhe valer nova indicação ao Oscar, foram propostas frequentes no final dos anos 90 e Crime em Palmetto (1998), acabou se configurando em um dos maiores salários de Harrelson na carreira até então. Cerca de U$ 1 milhão de dólares.
Aparentemente sem vocação para astro, Harrelson se encontrou nos ótimos papéis coadjuvantes que garimpava no inicio dos anos 2000, como o taradão de Tratamento de choque (2003) e o detetive inseguro de Ladrão de diamantes (2004). Mas também se destacava em pequenos papéis em produções mais gabaritadas, como Terra fria (2005), A última noite (2006) e The prize winner of defiance, Ohio (2005).
Ótimas aparições em filmes como Onde os fracos não têm vez (2007), Expresso transiberiano (2008) e O amor pede passagem (2008) ajudaram a cravar em Harrelson a imagem de ator confiável em qualquer situação ou circunstância.

Para uma boa (e sem malícias) introdução em Woody Harrelson

Assassinos por natureza
 Harrelson faz um assassino tão simpático quanto enlouquecido e dotado de um estranho e irresistível senso de humor.
 Zumbilândia
Harrelson faz um cara carente que vive enchendo o saco do nerd vivido pro Jesse Eisenberg
 Amizade colorida
Harrelson faz um gay machão que contraria todos os estereótipos sobre personagens homossexuais em comédias românticas


Woody em cena de Zumbilândia, que deve ganhar uma sequência e uma série de tv: ele faz o filme parecer melhor do que já é...



Woody dá uma palhinha em Amizade colorida...




Nova fase, velhas estratégias
Com O mensageiro (2009) lhe valendo sua segunda indicação ao Oscar – dessa vez por coadjuvante – Harrelson demonstrava que estava no controle de sua carreira e não a reboque do gosto dos outros. Neste mesmo ano, estrelou a fita indie Defendor, em que faz um sujeito estranho que sai vestido de super herói e tenta combater o crime. O filme, lançado meses antes do cult Kick ass, é ainda mais irônico - embora menos pop - do que o filme que tornou Hit girl uma musa nerd.
2009 foi mesmo um ano prolífero para Harrelson. Ele surgiu como um profeta do fim do mundo no distaster movie 2012 e como um expert em matar zumbis no deliciosamente histriônico Zumbilândia.
Esses papéis valeram ao ator uma iconografia toda particular. Com seu jeito caipira de macho bronco, Harrelson sabe rir de si mesmo. Foi o que fez em Amizade colorida, uma das comédias mais divertidas de 2011.
Alternando incursões dramáticas com sucessivas aparições cômicas, Harrelson especializou-se em roubar cenas. É um ator que sempre deixa boa impressão no espectador. Um trunfo e tanto. Muita gente que ganha milhões por aí não consegue a mesma proeza.
Sem ansiedade por protagonismos, já estrelou filmes que marcaram o cinema nos últimos 20 anos e pode conseguir sua terceira indicação ao Oscar – a segunda em três anos. Nada mal para um garoto de Midland, no Texas.

#WoodyHarrelsonfacts
 - É vegetariano
-Foi preso no distrito de Columbia, no estado de Ohio, em 1983, por condução perigosa
- No ano 2000, admitiu ser viciado em sexo
- É um defensor da legalização da maconha
- Steven Spielberg vetou seu nome para interpretar o protagonista de Beleza americana
-É amicíssimo de gente como Owen Wilson, Bill Murray e a banda de rock Red hot Chilli Peppers
- Declarou que votou em Christoph Waltz (Bastardos inglórios) para melhor ator coadjuvante em 2010, quando concorria ao Oscar por O mensageiro
- Já trabalhou com importantes cineastas como os irmãos Coen, Milos Forman, Spike Lee, Ron Howard, Terrence Malick e Oliver Stone  

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Em off

Nesta edição de Em off, o que Viggo Mortensen tirou da experiência de viver Freud no cinema; George Clooney e suas preferências cinematográficas em 2011; como Woody Harrelson quer voltar ao Oscar; o possível retorno do eterno galã Warren Beatty aos cinemas; as alegrias e tristezas de ser Sarah Jessica Parker e os resultados das últimas enquetes promovidas pelo blog.


O melhor Almodóvar recente...
Foi uma eleição tranquila. Apesar de Volver não ter suscitado paixões à época de seu lançamento, o filme de 2006 venceu a enquete promovida por Claquete para saber qual era o melhor filme recente de Almodóvar na opinião do (e)leitor do blog. A fita foi seguida de perto por Má educação e o novo A pele que habito.


O Polanski favorito
Quem ainda não leu a resenha que o blog fez da mais completa, embasada e corajosa biografia sobre Roman Polanski pode lê-la clicando aqui. Quem leu e votou em seu filme favorito do franco polonês pode comemorar. O cult O bebê de Rosemary venceu com sobras. A fita de terror psicológico estralada por Mia Farrow ainda impressiona os espectadores e, em breve, será tema da seção Claquete repercute. O pianista, Busca frenética e Lua de Fel brigaram arduamente pela segunda posição que acabou ficando com o filme que valeu o Oscar a Roman Polanski.


Os filmes favoritos de George Clooney no ano
Ainda estamos em novembro e Hollywood já se prepara para conceder o segundo prêmio especial a George Clooney pelo fantástico ano de 2011. E a Oscar season ainda nem começou efetivamente... Depois do prêmio no Hollywood Gala Awards, o ator será honrado no Palm Springs Festival.
Clooney, em uma rodada de entrevistas promovida pelo jornal Los Angeles Times, foi questionado sobre seus filmes favoritos da temporada. O ator apontou o francês The artist, que distribuído pela Weinstein Company já suscita algum buzz para o Oscar, e O homem que mudou o jogo, filme estrelado por Brad Pitt e originalmente chamado Moneyball.
Para Clooney, o filme francês mudo e em preto e branco, e a fita de baseball que não é sobre o esporte são as duas produções mais humanas e que melhor exprimem o sentido da sétima arte em 2011. Os brasileiros poderão concordar (ou não) com Clooney a partir de janeiro – quando as respectivas fitas devem ser lançadas no país.


E por falar em George Clooney...
Não é de hoje que o ator é o favorito de muita gente, mas essa condição tem suscitado situações, no mínimo, inusitadas. Quem não se lembra da demorada escolha para o papel de Frank Sinatra na biografia que Martin Scorsese fará do mito americano? DiCaprio, conforme esperado, acabou vencendo a disputa que reunia gente como Chris Pine. O interessante é que era George Clooney o favorito de Nancy Sinatra para viver o pai na biopic. A queda de braço entre a principal herdeira do clã e a Paramount, que considerava Clooney velho demais para o papel, acabou com o protegido de Scorsese escolhido para viver o ícone americano. Porém, a biografia segue estagnada. Oficialmente, o roteiro está sendo reescrito, mas a verdade é que o desacordo sobre o protagonista pode ter levado à falência do projeto. Não surpreenderia se daqui a cinco ou seis anos o projeto voltasse a circular por Hollywood sem Scorsese ligado a ele. O diretor, que atualmente lança Hugo nos cinemas, já está desenvolvendo outros três projetos – dois junto a DiCaprio – e nenhum deles é a bio de Sinatra.
Na última semana, circulou pela internet que George Clooney estaria interessado em interpretar Steve Jobs na adaptação cinematográfica que a Sony irá fazer da biografia recém-lançada. Na verdade, Clooney foi uma sugestão do autor Walter Isaacson ao estúdio. Não há nada definido a respeito deste filme ainda. O que há de mais encaminhado, conforme Claquete já havia antecipado, é a possível contratação de Aaron Sorkin (A rede social) para roteirizar o longa.


O retorno de Warren Beatty


Vira e mexe surgem boatos sobre o retorno de Warren Beatty, um dos grandes de Hollywood, ao cinema. Afastado das telas desde a piada de um tom só Ricos, bonitos e infiéis (1999), o marido de Annette Bening, vencedor do Oscar de melhor diretor por Reds, ensaia um retorno em grande estilo. Beatty costura nos bastidores a possibilidade de dirigir e estrelar um filme sobre Howard Hughes, aquela figura tão apaixonante quanto odiosa vista em O aviador, épico clean de Martin Scorsese. Segundo apurou o site Deadline, no entanto, não se trataria de uma biografia, mas sim de um recorte sobre a vida amorosa de Hughes.
E Beatty sonha grande. Entre os nomes aventados para estrelar a fita estão o da mulher Annette Bening, do amigo Jack Nicholson e de Andrew Garfield, Shia LaBeouf, Rooney Mara, Amber Heard e Evan Rachel Wood.


Freud explicou
Viggo Mortensen assumiu o papel de Sigmond Freud em Um método perigoso, o aguardado filme de David Cronenberg, após a desistência do austríaco Christoph Waltz- escalado originalmente para o papel. “Antes de me preparar para o personagem, pensava que ele era muito sério, reprimido, magro, acadêmico e sem senso de humor. Aprender que ele não era assim foi o mais divertido, declarou o ator à agência Efe. A experiência mais vívida extraída dos sets de sua terceira colaboração com Cronenberg (as outras duas foram Marcas da violência e Senhores do crime) foi de que é preciso saber viver. “Ele (Freud) era um bon vivant. Não devemos nos levar a sério demais. Essa era uma ideia que eu já tinha, mas foi reforçada com minha experiência nesse filme”, declarou Mortensen.
Um método perigoso tem lançamento previsto para janeiro e é mais um dos filmes cotados para o próximo Oscar.



O que Sarah Jessicar Parker tem e o que ela nunca terá
Sarah Jessica Parker volta as telas de cinema brasileiras neste final de semana como protagonista da comédia Não sei como ela consegue. Essa é a primeira aparição de Sarah em um filme desde a ultrajante sequência de Sex and the city. Na fita, ela vive uma executiva que se divide entre o trabalho e a vida de esposa e mãe. O humor é trabalhado a partir dos conflitos que se erguem dessa bifurcação. Para a fashionista Sarah, trata-se de um papel até certo ponto impensável: mãe e esposa em uma comédia de inegável apelo familiar, ainda que mais orientado para o público feminino. A guinada remete Sarah ao início da carreira em que estrelou filmes como Medidas extremas (1996), Marte ataca (1996), Ed Wood (1994) e Lua de mel a três (1992).
De lá para cá, Sarah se viu na condição de ícone fashion e de expressão de feminilidade contemporânea. Infelizmente, esses predicados a prejudicaram como atriz. Com um timing cômico por vezes ruidoso e essencialmente dependente de uma boa direção, Sarah não parece capaz de contornar as más impressões que levanta quando protagoniza um filme. Com Pierce Brosnan e Greg Kinnear lhe servindo de apoio, sua mais recente investida se materializou em outro fracasso de bilheteria nos EUA.
A tristeza aí contida é que Sarah tem capital suficiente para que roteiros sejam aprovados com o seu nome, mas falta-lhe talento para fazer com que esses roteiros, geralmente banais, se transformem em filmes minimamente agradáveis.

Sarah e Greg Kinnear em cena do filme que estreia nesta sexta (25) no país: deixando o lado fashion um pouco de lado...



O jeito Woody Harrelson de atuar
Se você perguntar quem são as cinco pessoas mais bacanas do show business hollywoodiano, ouvirá respostas e nomes variados. No entanto, há uma probabilidade muito alta de o nome de Woody Harrelson constar da maioria, senão todas as respostas.
Com visual caipirão e estilo relaxado, Harrelson não aparenta ser o grande ator que é. Com mais de 70 produções no currículo, esse americano de 50 anos já possui duas indicações ao Oscar. A primeira foi em 1996 por O povo contra Larry Flint, filmaço de Milos Forman. A segunda veio há dois anos pelo intenso O mensageiro. É com o diretor deste último, Oren Moverman, que Harrelson volta a colaborar em Rampart, um tenso thriller policial em que vive um tira corrupto, racista e extremamente violento.
O trailer de Rampart, o leitor confere abaixo e um perfil detalhado de Woody Harrelson será publicado na próxima semana no blog.



sábado, 18 de junho de 2011

Cantinho do DVD

Jesse Eisenberg está em alta. Indicado ao Oscar de melhor ator por A rede social, escalado para o novo filme de Woody Allen e a principal voz da principal animação do ano até o momento, Rio. Em 2011, Eisenberg ainda poderá ser visto em 30 minutos ou menos. A comédia de ação o reúne ao diretor Ruben Fleischer que o dirigiu em Zumbilândia, destaque de Cantinho do DVD desta semana. Foi nessa fita de 2009 que Eisenberg obteve seu primeiro protagonismo. Com ótimos papéis de coadjuvantes em filmes como A caçada (2007), A lula e a baleia (2005) e A vila (2004), o ator estava esperando uma oportunidade de mostrar seu talento como leading man. Como 2011 está provando, ele a agarrou com unhas e dentes.


Crítica

Muitos são os filmes que abordam o apocalipse como ponto de partida. Orientando-se por essa máxima e subvertendo as prioridades de uma fita de zumbis, Ruben Fleischer rodou uma perola do humor americano que alia clichês de filmes de terror, clichês de filmes de High school e Woody Harrelson. Essa salada se chama Zumbilândia (Zombieland, EUA 2009). O filme aposta na química entre os atores e em um roteiro esmerado no politicamente incorreto.
Os Estados Unidos foram devastados por uma epidemia em que todos se transformaram em zumbis. Columbus (Jesse Eisenberg) mantém –se vivo por seguir rigidamente um conjunto de regras, tão esdrúxulas quanto sérias, que cunhou quando a epidemia se pronunciou. Na estrada, porque cruzar o país é a única coisa que se pode fazer, encontra o amalucado Tallahassee (Woody Harrelson), um tipo que se diverte arregaçando zumbis. Unidos no propósito de não fazer nada juntos, encontram duas irmãs (interpretadas por Emma Stone e Abigail Breslin) que demonstram muito mais cérebro do que eles na hora de elaborar tocaias.
Zumbilândia logo se resolve como esse road movie familiar em que os protagonistas, vez ou outra, precisam atirar em um zumbi ou picá-lo com uma foice. O grande mérito da fita está em não se levar a sério, enumerando piadas que, se não suficientemente fortes, são melhoradas pelos itens da lista de Columbus que surgem na tela para ilustrar o que está acontecendo.
O grande trunfo de Zumbilândia, à parte a graça de ter Woody Harrelson destilando mais um personagem a sua imagem e semelhança iconográfica, é Jesse Eisenberg. O ator se apodera da lógica do humor com timing insuspeito. De porte físico miúdo, Eisenberg sabe trabalhar sua falta de pujança em favor do humor físico, mas se sai melhor ainda quando o fino reside nos diálogos.
Zumbilândia ainda oferece um momento pop de extremo efeito na participação especial de Bill Murray, que interpreta a si próprio: “Seis pessoas sobreviveram e uma delas é Bill Murray”, exclama um entusiasmado Tallahassee. Esse é o espírito de Zumbilândia, um filme que faz do tosco, uma forma de arte.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Panorama - Assassinos por natureza


Depois de alguns filmes de cunho político, era natural que Oliver Stone se voltasse para outro componente de profunda ressonância social. A mídia e seus motores socioeconômicos. Assassinos por natureza é um roteiro de Quentin Tarantino. Não há cineasta mais indicado para chancelar as loucuras de Tarantino do que Oliver Stone. Só que o filme de Stone não é só sobre a saga de dois lunáticos que cruzam a América fazendo um banho de sangue por onde passam, é uma dura crítica a sociedade do espetáculo e ao combustível sensacionalista que explode de seu seio. Em Assassinos por natureza tudo é histriônico. Desde os protagonistas, vividos com exagero e insanidade por Woody Harrelson e Juliette Lewis, até a ambientação. Passando pela linguagem e pela moral que emerge da fita. O jeito anárquico dos “heróis” do filme poderia servir de parâmetro para as convicções políticas de Stone. Mas seria impreciso fazer uma afirmação dessas. Seria tentar colar esse filme ao contexto político das bases da filmografia do cineasta americano. Ele não é político aqui. Pelo menos não em termos convencionais. O que Stone diz com seu Assassinos por natureza (mais seu do que de Tarantino) é que nós somos responsáveis por nossos monstros. E nem sempre os assassinos são os piores. Loucura? Sim. Esse é o ponto de partida dessa viagem sem volta. 

sábado, 27 de fevereiro de 2010

OSCAR WATCH - A peleja dos atores coadjuvantes

Da esquerda para a direita: Matt Damon (Invictus), Christoph Waltz (Bastardos inglórios), Christopher Plummer (The last station), Stanley Tucci (Um olhar do paraíso) e Woody Harrelson (O mensageiro)


O invencível

O austríaco Christoph Waltz é o menos conhecido dos indicados. Mas é o mais badalado. Waltz, mantém a humildade de quem ainda não domina o circo hollywoodiano, mas no fundo sabe que o universo conspira a seu favor.

Prós:
+ Ganhou tudo, absolutamente tudo de mais importante, na temporada
+ Representa a melhor forma de se reconhecer o filme de Tarantino em uma possível distribuição de prêmios pulverizada
+ Interpreta um psicopata contumaz e eles têm dominado essa categoria
+ Os próprios concorrentes já declararam que Waltz deve e merece ganhar o prêmio. Essa é a única categoria em que houve declarações desse tipo

Contras:
- Só se a academia resolver fazer justiça tardia com o competente Christopher Plummer

Primeira indicação

O vegan gente boa

Woody Harrelson é vegetariano. É politicamente correto. Democrata e muito engraçado. É o tipo de cara que quando faz algo bom, surfa na tendência de premiá-lo. Justamente por isso, e pela bela composição que faz em O mensageiro, seria o grande oponente de Waltz na noite de 7 de março. Seria ou será? “Vou curtir a festa!”, disse o ator a agência de notícias France Press. Para bom entendedor...

Prós:
+ Assim como Waltz está arrebatador na tela
+ É americano e nos últimos anos nenhum americano prevaleceu aqui
+ Esteve em bastante evidência no último ano estrelando os sucessos comerciais 2012 e Zumbilândia
+ Ganhou os três prêmios que Waltz não papou na temporada

Contras:
- Seu filme é bem menos festejado do que o que Watz estrela
- É americano e nos últimos anos nenhum americano prevaleceu aqui
- Ele mesmo já declarou Waltz vencedor
- Nos últimos anos, essa categoria não apresentou surpresas de última hora

Indicações anteriores: Melhor ator por O povo contra Larry Flynt (1996)

O reconhecimento tardio

Aos 80 anos, o veterano ator Christopher Plummer, que estrelou filmes muito premiados pela academia, como A noviça rebelde, recebe sua primeira indicação. É justa, é simpática e merecida. Para todos os efeitos, é suficiente.

Prós:
+ Pode ser beneficiado da política compensatória da academia

Contras:
- Seu filme “diminuiu” durante o curso da temporada de premiações
- A pecha de que a indicação já é suficiente
- Não é o melhor trabalho do ano, nem mesmo seu melhor trabalho e todo mundo Sabe disso

Primeira indicação

O ator que é sempre bom

Muita gente não conhece Stanley Tucci de nome. Alguns podem lembrar de sua face (já atuou em mais de 60 produções). É aquele tipo de ator que está sempre bem em qualquer papel. Tal qual Richard Jenkis, outro famoso “Já vi esse cara antes” reconhecido com uma indicação no ano passado.

Prós:
+ É uma figura bastante querida em Hollywood
+ Todo mundo diz que ele é a melhor coisa do filme de Peter Jackson
+ Também interpreta um psicopata, característica que tem rendido prêmios na categoria

Contras:
- A pecha de que a indicação já é suficiente
- O filme pelo qual foi indicado não caiu no gosto da critica

Primeira indicação

O ator que está cada vez melhor

Se teve um ator que evoluiu de forma acachapante nessa década passada, esse ator foi Matt Damon. Camaleônico, esteve em grandes franquias como a trilogia bourne e 11 homens e um segredo e em filmes menores como Syriana e O desinformante. Embora seu papel em Invictus não seja nada de extraordinário, foi um exemplo do comprometimento e dedicação desse devotado ator, e calhou de ser uma bela oportunidade de prestigiar um dos mais versáteis e lucrativos atores da atualidade.

Prós:
+ É o único astro dos indicados

Contras:
- Sua indicação tem um caráter de homenagem, uma vez que Damon teve um bom ano, mas não foi lembrado pela que a critica considerou sua melhor performance no ano (O desinformante)
- O filme que estrela “encolheu”
- A pecha de que a indicação já é suficiente
Indicações anteriores: Melhor ator por Gênio indomável (1998) e melhor roteiro original por Gênio indomável (1998)
Prêmio anterior: Melhor roteiro em 1998

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Critica: O mensageiro

A guerra de cada um!
Ben Foster (de camiseta branca) e Woody Harrelson brilham como o alter ego do americano comum

Hollywood pode ser liberal. Os filmes de guerra e sobre a guerra podem ser, em sua maioria, anti-belicistas. Contudo, vez ou outra, um filme, mesmo que não inteiramente hollywoodiano, reveste-se de humanidade de tal maneira que põe toda essa discussão em uma zona periférica. O independente O mensageiro (The Messenger, EUA 2009), é bem verdade, traz alguns elementos tipicamente hollywoodianos (o maior deles talvez seja a presença do quase astro Woody Harrelson), mas tem um discurso muito mais profundo do que a média dos filmes sobre guerras feitos em Hollywood.
No filme, acompanhamos Will (Ben Foster) e Tony (Woody Harrelson) dois militares incumbidos de notificar as famílias de soldados mortos em ação no Iraque. Uma tarefa penosa, exaustiva emocionalmente e mais complexa do que se pode supor a principio, que eles têm de arcar com rigidez militar, literalmente.
A partir dessa inusitada premissa, o roteirista e diretor Oren Moverman (cujos créditos como roteirista incluí a hermética cinebiografia de Bob Dylan, Não estou lá) se dedica a investigar o sentido da guerra para algumas figuras (em especial os dois soldados que acompanhamos). O resultado como era de se imaginar não é muito diferente de traumas diversos, sequelas múltiplas, dor, tristeza e incompreensão. Mas o que abrilhanta O mensageiro é como Moverman chega a essas tão repercutidas conclusões. Ele não mostra o combate. A guerra é um fantasma para todos.
Nesse sentido, a pluralidade dos personagens, aos quais assistimos Will e Tony, em questão de minutos, despedaçarem suas vidas com as condolências oficiais é eloqüente. Desde a adolescente que escondeu do pai que se casou com um menino da vizinhança até o imigrante hispânico, cuja língua é uma barreira para a compreensão do que se diz. Moverman mostra que o sentido de uma guerra, e os efeitos dela, podem ser tudo isso que se imagina, mas também há um impacto devastador de natureza particular que não pode ser pressentido. O maior mérito de O mensageiro é lembrar isso. Relativizar o impacto cultural de um conflito como o que se tem no Iraque elevando as percepções pessoais que se tem dele.


Preparados para uma guerra emocional: Tony e Will se preparam para mais uma batalha

Supremo na pele do sargento marcado por traumas da guerra e que carrega algumas feridas também, Ben Foster emociona com a força de sua interpretação. Sutil e minimalista, ele reforça os efeitos que a guerra pode ter em um individuo e em sua relação com a sociedade. Will tateia o sentido de sua vida após voltar do Iraque e sua relação com seu novo parceiro, Tony, e com seu novo ofício são os termômetros dessa condição. Por sua vez, Tony tem seus próprios traumas. O quadro de ansiedade dele, e a razão de ter cedido ao alcoolismo, difere totalmente do que aflige Will. É na dinâmica da relação dos dois, entre si e para com a ingrata função que exercem, que O mensageiro se eterniza como um filme único sobre as reminiscências de toda e qualquer guerra.
E para mostrar que é preciso ter senso de humor até nas mais infelizes situações, o filme apresenta (em uma fala do personagem de Harrelson) a mais inusitada, e coerente, teoria do por que a guerra do Iraque está sendo um fracasso. Um filme para ser apreciado em todas as suas vertentes.