Tão logo foi divulgada a lista dos indicados ao Oscar 2014,
Claquete veiculou um texto, denominado “Primeiras impressões sobre os indicados
a 86ª edição do Oscar”. Naquele texto o blog saudava o espírito renovado,
consciente e coerente que emanava da lista dos indicados ao Oscar. Não foi a
primeira vez que isso aconteceu, especialmente depois da Academia ter
reajustado o calendário de premiações, antecipando o anúncio dos indicados ao
Oscar.
Não foi a primeira vez, também, que essa boa primeira
impressão é empurrada pelo ralo. Há chavões a mil para se explicar o que
aconteceu no último domingo (2), quando 12 anos de escravidão foi consagrado o
melhor filme de 2013, levando outros dois Oscars na bagagem (roteiro adaptado e
atriz coadjuvante) e viu Gravidade ostentar um frisson acima do imaginado
angariando sete das dez estatuetas a qual foi nomeado.
“Os velhinhos da Academia são tradicionais”; “houve a opção
pelo filme importante”; “o tom político sempre prevalece”; “ o marketing em
cima do filme de McQueen era irresistível”; “eles vão resistir até limite à
premiar um filme em 3D” e coisas do tipo. A Academia não é mais constituída
amplamente por velhinhos e não é de hoje que se imbui da responsabilidade de
premiar filmes importantes, mas sempre o fez com convicção. O que se viu no
último domingo, foi o resultado de uma corrida marcada pela hesitação. 12 anos
de escravidão é um candidato clássico, acadêmico e que em outros anos teria
vencido muitos Oscars, se nos fiarmos no crédito dos chavões. Mas a Academia de
hoje, fragmentada e em franco processo de renovação, rejeita a ideia de se
render ao academicismo. Por que, então, 12 anos de escravidão prevaleceu sobre
Gravidade? Porque velhos hábitos demoram a morrer e isso pode ser visto tanto
na vitória hesitante de 12 anos de escravidão, algo que, justiça seja feita,
pautou a temporada (o filme parecia vencer por cota, já que triunfava apenas na
categoria principal e no prêmio do sindicato dos produtores forçou um inédito
empate com Gravidade), e que ocorreu no ano passado quando Argo, de filme
aparentemente fora da disputa pelo Oscar principal, tornou-se uma unanimidade
ímpar. Mas anêmica. Faturou três Oscars. Filme, roteiro adaptado e montagem.
Ainda assim, foi uma vitória mais consistente do que a de 12 anos de
escravidão.
Destemperos à parte, os acadêmicos se esforçaram para
reconhecer a grandeza dos filmes e artistas que fizeram a temporada de ouro do
cinema. Não há que se questionar a qualidade ou merecimento dos filmes e
trabalhos premiados.
A ausência de surpresas, no entanto, é um problema crônico.
Não se pretende a surpresa pelo choque, pelo inusitado, mas como unidade de um
pensamento próprio. Gravidade não era o melhor filme do ano, mas ficou bem
claro que cativou a academia. Mais do que 12 anos de escravidão, contra o qual
concorria na maioria das categorias. Premiar essa ficção científica de
inestimável esmero técnico e rodada em 3D configuraria, portanto, surpresa – se
considerarmos o retrospecto da Academia e da temporada em questão – mas,
principalmente, apresentaria um pensamento próprio, completo, definido. Não
como o que se apresentou ao mundo no dia 2. Mas nem tudo é má notícia. A
mudança, sinalizam as indicações cada vez mais “fora da caixa” está a caminho.
Mesmo assim, com a oportunidade de se premiar documentários instigantes,
provocativos e importantes, a academia opta pelo simples e inofensivo A um
passo do estrelato. É o mesmo raciocínio tacanho que fez de 12 anos de
escravidão e Argo vencedores do Oscar.
Os atores do ano: méritos inquestionáveis....
Quem quer ser um milionário?, vencedor do Oscar em 2009, é
muito mais fraco do que Argo ou 12 anos de escravidão. Nem sequer mereceria
indicação, mas foi consagrado com oito prêmios. Ali a Academia se pronunciou
com convicção. Nos últimos dois anos, espantada com os rumos da temporada de
premiações, se conformou com o fato de agir à reboque. Não via em Argo um
genuíno Oscar contender, tanto que Ben Affleck ficou de fora da disputa dos
diretores, e deu o Oscar ao filme como reparação de uma posição que era legítima. Neste
ano, passou recibo de que premiou um filme porque ele é importante e não por
ser o melhor. É o segundo ano consecutivo em que direção e filme vão para
produções distintas. É o segundo ano seguido em que o vencedor do Oscar de
melhor filme não é o campeão de Oscars do ano. Não é mera coincidência.
Al right, al right, al right
Matthew McConaughey é o cara. O jornalista Pablo Miyazawa
tuitou na esteira da cerimônia do Oscar que “Matthew McConaughey é o novo Paul
Newman”. À parte o fato de ter ganho um Oscar logo em sua primeira indicação,
Newman padeceu em setenomeações até sua delongada vitória, a comparação procede. A reinvenção de McConaughey já
ocupa espaço em Claquete há algum tempo e impressiona a cada novo trabalho. Sua
vitória por Clube de Compras Dallas é incontestável, ainda que todos os
concorrentes da categoria merecessem o prêmio. Já seu parceiro de cena, Jared
Leto, ainda que esteja ótimo na pele do travesti Ranyon, está um pouco abaixo
do padrão desejado para uma performance vencedora do Oscar. Havia concorrentes
melhores na categoria, mas não é uma vitória indigna. Como não o são as
vitórias de Lupita Nyong´o entre as coadjuvantes, de A grande beleza entre os
filmes estrangeiros e a soberania de Gravidade nas categorias técnicas.
A vitória de Cate Blanchett merece um parágrafo só para ela.
Nova integrante do clube de intérpretes com dois Oscars na estante, Blanchett é
a única unanimidade com vocação de unanimidade em um Oscar que tinha tudo
para ser inesquecível e optou por não deixar saudades.