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domingo, 2 de março de 2014

Oscar Watch 2014 - crítica dos indicado à 86ª edição do Oscar




Boa notícia. Trata-se da melhor safra do Oscar desde que a Academia expandiu o quadro da categoria de concorrentes a melhor filme, em 2010. É, também, a melhor safra de indicados a melhor filme desde 2008, quando concorriam Onde os fracos não têm vez, Sangue negro, Conduta de risco, Juno e Desejo e reparação.
Os recordistas de indicação do ano, Gravidade, Trapaça e 12 anos de escravidão rivalizam em equidade raríssima. Se Gravidade conta com o peso de ser um blockbuster de bilheteria superior a R$ 600 milhões e o consenso de que se trata, afinal, de um bom filme, 12 anos de escravidão tem o lobby de “de filme importante” e Trapaça conta com o apoio incondicional dos atores. Esses dois últimos filmes, no entanto, alimentam resistência e é aí que Gravidade pode tirar vantagem. 12 anos de escravidão é acusado de ser oportunista e demasiadamente violento enquanto que Trapaça é tido por uma quantidade nada desprezível de pessoas como uma cópia do cinema de Martin Scorsese.
Por falar em Martin Scorsese, é dele o melhor filme do ano. O lobo de Wall Street merecia ganhar tudo e mais um pouco no Oscar 2014, mas não deve ganhar nada – ressalva feita às parcas chances de DiCaprio ser finalmente agraciado com o Oscar (é o melhor entre os atores também). O lobo de Wall Street é o único filme que adentrará o rol dos clássicos e será lembrado no futuro por seu significado e relevância (estética, narrativa e temporal), mas a Academia, como colegiado, não consegue perceber isto.

Leonardo DiCaprio endiabradamente bom em O lobo de Wall Street, o filme mais reflexivo, devastador e provocador da temporada...

...e Spike Jonze orienta Joaquin Phoenix nos bastidores de Ela: por razões diversas, mas que se complementam, Ela e O lobo de Wall Street são os melhores filmes da temporada e é no mínimo frustrante a possibilidade de que saiam do Oscar sem prêmio algum


A categoria principal, de qualquer maneira, ostenta qualidade acima de qualquer suspeita e nenhum filme nela relacionado é indigno de ali figurar. Nebraska, Ela, Philomena e Clube de Compras Dallas, filmes menores e que dificilmente chegariam ao Oscar quando este tinha apenas cinco indicados, são produções que oxigenam o fazer cinematográfico e irrigam o Oscar enquanto instituição. Mas não é possível premiar todos esses filmes. O que não implica dizer que não estamos diante de um ano em que os prêmios serão pulverizados. Gravidade deve liderar à disputa, mas não deve superar cinco Oscars.
Se a contenda por melhor filme parece confinada à Gravidade, Trapaça e 12 anos de escravidão, a disputa por direção deixou escanteada o diretor de Trapaça, Russell parece reunir mais chances na disputa por roteiro original, em que Spike Jonze é favorito por Ela, do que aqui. Fazer história parecer ser o lema do ano na categoria. Resta saber quem virá primeiro: os latino-americanos (o mexicano Alfonso Cuarón) ou os negros (o inglês Steve McQueen)?

Arte: Cinemanews

Atuações
Todos os atores mereciam o Oscar, mas ele fica entre McConaughey por Clube de Compras Dallas e Leonardo DiCaprio. O primeiro vive fase prolífera e renovadora, enquanto o segundo alcança o melhor desempenho de uma carreira maravilhosa e negligenciada pela academia. São dois casos muito acintosos que justificam a polarização, ainda que eles apresentem os melhores desempenhos do ano.
A briga pelo Oscar de ator coadjuvante parece mais definida. Jared Leto, por Clube de Compras Dallas, está ótimo. No entanto, é o mais fraco da categoria. Deve vencer pelo hype e pelo fato de contar com o personagem mais simpático entre os nomeados.
Cate Blanchett, por Blue Jasmine, apresenta a melhor atuação da década até aqui. É muito difícil que perca o Oscar, mas se isso acontecer, só será justificável, e mesmo possível, se a vencedora for Amy Adams por Trapaça, outro colosso de mulher e atriz.
Jennifer Lawrence, possuída de talento e graça, é a melhor atriz coadjuvante do ano e lança um abacaxi para a Academia ainda às voltas com máximas conservadoras: é válido dar a uma atriz de 23 anos seu segundo Oscar e em anos consecutivos? A resposta pode ser Lupita Nyng´o, eficiente em 12 anos de escravidão, mas longe de fazer limonada com laranja como faz Lawrence.
A grande Beleza e A caça são os front runners para filme estrangeiro, com leve vantagem para o primeiro.
Nas categorias técnicas, se a lei da física não for desafiada, Gravidade dominará com 12 anos de escravidão, Capitão Phillips e Trapaça beliscando aqui e lá.
Resta-nos torcer para que, mais do que nos surpreender, o Oscar não renuncie à coerência como tem feito de quando em quando, como em 2013, ao eleger como melhor filme do ano uma fita que não tinha um dos cinco melhores diretores da temporada.  

Claquete selecionou infográficos bacanas que celebram o momento supremo da cinefilia


Números e curiosidades do Oscar ao longo dos anos (em inglês)
 Arte: ABCNews


Os vestidos das atrizes vencedoras do Oscar nos 85 anos do prêmio
 Arte: Cosmopoiltan (sugestão da leitora Aline Viana)


Woody Allen, o Midas as indicações por atuações
Arte: cinema é tudo isso

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Oscar Watch 2014 - o tema do ano no Oscar



Todo ano é a mesma coisa. Críticos e analistas se põem a conjecturar sobre qual é o tema mais vívido na safra de filmes de Oscar. Há quem note um comentário sutil da Academia nesta elaboração e há quem perceba a preponderância do acaso no agrupamento de alguns títulos que se comunicam. No ano passado, por exemplo, existia um forte apelo político com candidatos como Lincoln, Argo e A hora mais escura e a escravidão, novamente em voga com 12 anos de escravidão, também se destacava no já citado Lincoln e em Django livre.
Neste ano, parece certo apontar que o tema preponderante é a sobrevivência. Neste ano fica difícil defender uma intervenção pensada da Academia na constituição dessa frente temática. Até porque, se o nível da competição é altíssimo, os filmes são radicalmente diferentes entre si. Produções como Capitão Phillips, Gravidade, Trapaça, 12 anos de escravidão e Clube de Compras Dallas apresentam personagens e conflitos dramáticos que podem ser resumidos como batalhas pela sobrevivência. Em Capitão Phillips, filmado com aquele indefectível esmero documental de Paul Greengrass, um capitão faz o possível para sobreviver a uma inusitada, ainda que até certo ponto esperada, ameaça pirata. Gravidade apresenta a batalha solitária de uma astronauta de primeira viagem à deriva no espaço enquanto que Trapaça mostra um grupo de personagens tentando sacar da cartola versões melhores de si mesmos.
Em 12 anos de escravidão há o epíteto; o protagonista – sequestrado e feito escravo pelo período de 12 anos – declara querer viver e não sobreviver, mas é de sua luta pela sobrevivência que o filme se ocupa. Clube de compras Dallas talvez apresente a mais tradicional luta pela sobrevivência encampada pelo cinema, a batalha contra uma doença em uma época em que incompreensão e intolerância tornavam a AIDS ainda mais fatal.

Para ver o amanhecer: Em Gravidade, Sandra Bullock faz o possível e o impossível para voltar à Terra; em Trapaça, dois vigaristas pegos em flagrante precisam administrar a ganância de um agente do FBI para não serem presos nem mortos pela máfia; em 12 anos de escravidão, um homem livre feito escravo supera anos de tortura e barbárie para contar sua história e em Clube de Compras Dallas, um tipo machista que se descobre aidético contrabandeia remédios do México para salvar sua vida e daqueles que inicialmente eram objeto de seu preconceito

Presente em variações providencialmente complementares em termos de perspectiva, a sobrevivência em seu grau mais absoluto, como em Gravidade ou 12 anos de escravidão, ou subjetivo, como em Trapaça, é o tema do ano.
O caráter acidental do principal tema a ventilar o Oscar 2014 redimensiona a potência promocional da academia aferindo profundidade a um debate geralmente ralo e superficial circunscritos a preferências pontuais e campanhas de marketing. O segundo grande tema do ano, esse aventado de forma menos acidental, é a forma particularmente americana de lidar com a crise financeira. Se em Blue Jasmine de Woody Allen, há uma comparação cínica entre classes sociais, em O lobo de Wall Street, há uma sátira escrachada de Wall Street enquanto monumento de pujança financeira.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Oscar Watch 2014 - O que David O. Russell tem que os outros não têm e muita gente não enxerga?



David O.Russell anunciou outro dia que terminou o roteiro de um filme de terror que deve ser dirigido por Eli Roth. Outro dia Russell foi indicado pela terceira vez em quatro anos ao Oscar de melhor diretor, coisa que só gigantes como John Ford e Clint Eastwood conseguiram. Não é só. O diretor tornou-se o único a ter conseguido 11 indicações para atores em três filmes consecutivos que foram também nomeados a melhor filme. Russell é o único diretor a ter conseguido nomeação para seu elenco em todas as categorias interpretativas por dois filmes e, para deixar o recorde ainda mais bonito, lançados em anos sequenciais.
O vencedor (2010), O lado bom da vida (2012) e Trapaça (2013) constituem o que Russell gosta de chamar de trilogia da reinvenção. Em uma dessas coincidências entre arte e vida, esses três filmes ajudaram a consolidar a reinvenção de David O. Russell. Hoje queridinho da Academia, Russell já colecionou desafetos e foi conhecido por seu gênio difícil. George Clooney, um homem que coleciona admiradores e tem fama de afável, chegou a dar uma gravata em Russell durante as filmagens de Três reis (1999). A fama de difícil perdurou e ganhou novamente notoriedade quando vazou um vídeo do diretor dando um esporro homérico na atriz Lily Tomlin no set de Huckabees: a vida é uma comédia (2004).
Foi o amigo Mark Wahlberg quem ajudou Russell a capitalizar sua reinvenção. Ele chamou o amigo para dirigir O vencedor e tirou Russell do ostracismo que se enfiara por seis anos. Nesse período o diretor escreveu muita coisa que já começa a ser disputada a tapa em Hollywood, inclusive uma ideia original para uma série de tv.

Russell orienta Wahlberg e Bale no set de O vencedor, filme que caiu no gosto da comunidade artística e selou o início da nova, e próspera, fase do cineasta

Do temperamento difícil a diretor vastamente elogiado por seus atores, algo se perdeu na tradução. "Russell é homem sensível. Seu cérebro é incrível e ele é muito verdadeiro; expressa o que quer que esteja sentindo”, revela o também amigo e cineasta Spike Jonze ao The Hollywood Reporter. “Ele não tem filtro”, observa Jennifer Lawrence à mesma publicação, “ e é isso que eu mais adoro nele”.
Russel tem consciência de que o mundo gira diferente para ele hoje do que girava no início da década passada. “A vida me deu uma segunda chance”, disse ao The Hollywood Reporter. Mas como tudo no universo, a segunda chance de Russell tem um ritmo próprio. Há muita resistência ao cineasta. Ao invés de louvar a façanha de emplacar duas comédias em anos consecutivos entre os principais postulantes ao Oscar (comédia indicada a melhor filme é de uma raridade atroz), houve quem rotulasse o diretor de superestimado por ter filmes “menores” lembrados tão fartamente no Oscar. Outras provocações como “sub-Scorsese” surgiram na esteira do lançamento de Trapaça, filme elogiado pela grande maioria da crítica e abraçado pelo público. Mundialmente, a fita já supera os U$ 200 milhões e se coloca atrás do blockbuster Gravidade como maior bilheteria entre os filmes na disputa pelo Oscar de melhor filme.

O diretor e o elenco de seu mais recente filme: um cultivador de bons personagens e encantador de atores

A razão de tamanha resistência a Russell não reside exatamente em seu “passado negro”. É algo mais relacionado à sua versatilidade.
Excelente diretor de atores, roteirista talentoso e com olhar afiado para diálogos, ele pode ser a conjunção perfeita do melhor entre grandes figuras do cinema americano como Scorsese, Eastwood, Tarantino e Woody Allen. Há quem ainda não identifique isso e há quem se recuse a reconhecer o potencial substancioso de Russell, mas a verdade está lá. No rigor técnico e na desenvoltura dramática de seus últimos trabalhos. Ainda que menos pretensiosos do que seus primeiros filmes, essas produções sugerem um dos cineastas mais completos e sensíveis do cinema atual.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Crítica - Trapaça

A arte da sobrevivência é uma história sem fim

Trapaça (American Hustle, EUA 2013) é um filme sobre vigaristas. Sobre os anos 70. Sobre ambição e sobre àquela necessidade que bate nossa porta de quando em quando de reinventarmo-nos por completo. É, também, um filme de David O. Russell e esse último aspecto vêm ganhando cada vez mais relevância no cinema atual.
Indicado a dez Oscars (filme, direção, ator, atriz, ator coadjuvante, atriz coadjuvante, roteiro original, figurino, direção de arte e montagem), Trapaça é um filme que se escora, com consciência absurda, em seus personagens. E eles são todos fascinantes. Desde aquele que parece confinado ao status de apêndice narrativo (como o chefe do FBI vivido por Louis C.K) até o protagonista Irving Rosenfeld (Christian Bale).
Os anos 70 de figurinos exagerados e boa música surgem na paleta de Russell como uma época de desencanto em que o sonho americano em si precisava ser reinventado. Entornar neste caldo corrupção política, máfia e a mais fina malandragem apenas demonstra a expertise de Russell como narrador.
Irving é do tipo que se garante pela lábia. Ele se apaixona por Sidney Prosser (Amy Adams) tão logo nela repara e descobre que gostam exatamente da mesma música. Esse elemento que une os personagens é um dos muitos em que Trapaça excederá as expectativas do público e se comunicará com ele em outro nível. Outro desses momentos é quando Jennifer Lawrence, na pele de Rosalyn – a esposa de Irving que lhe nega o divórcio – canta "Live and let die" enquanto faxina.
Fossem as grandes cenas, Trapaça já valeria o ingresso, mas o filme mostra também que Russell não só é um sofisticado diretor de atores, como um lapidador de personagens raro no cinema atual.
Sidney e Irving se amam e se jogam no esquema de ludibriar os outros até que são pilhados em flagrante pelo agente do FBI Richie DiMaso (Bradley Cooper), que os convence a colaborar em uma investigação para que ele prenda peixes graúdos. Acontece que DiMaso vai gostando dessa vida de malandragem e começa a enxergar a beleza de  conseguir peixes ainda mais graúdos. A necessidade de reinventar-se, advoga Russell por meio de seus personagens, é um fluxo constante e horizontal.
Enquanto a ganância de DiMaso se multiplica, Irving à medida que prepara o bote para puxar o tapete de um punhado de políticos, entre eles o populista prefeito vivido por Jeremy Renner – a quem se afeiçoa, começa a sentir o peso de suas inconsequentes atitudes. Essa tomada de consciência do personagem, nunca absoluta, afinal, Irving se ressente de adentrar as hostes da máfia e flertar com a possibilidade real de morte, é a linha mestra da dança de gêneros pela qual Russell conduz sua audiência.
Da comédia de erros à sátira, passando pelo thriller e pelo drama mais rebuscado, Trapaça é um cinema tão redondo quanto o talento de seu realizador pode ofertar.
Não há crítica social ou o desejo de radiografar algum tema relevante do presente, Trapaça é entretenimento adulto na sua mais fina concepção. É, também, um tributo ao cinema de Scorsese, em os que personagens precisam se encontrar no imenso tamanho de suas ambições.
Os anos 70 surgem saudosos, românticos e mais coloridos do que talvez tenham sido no filme de Russell que coloca os personagens no comando do show. Jennifer Lawrence brilha como a bipolar e manipuladora Rosalyn. É uma das grandes personagens femininas dos últimos tempos e Lawrence tem o talento necessário para fazer jus a ela. Christian Bale tem a melhor atuação de sua carreira na pele de Irving. O ator precisa ir do dramático ao cômico e o faz com uma organicidade espantosa. Sem perder o cinismo e o charme de vista. Em um olhar ele exprime tudo o que o personagem precisa exprimir. Bradley Cooper é outro ponto nevrálgico do elenco. Além da urgência de sua composição, Di Maso é esperto, mas não raciocina como deveria, Cooper sabe revelar a fragilidade de seu personagem no timing preciso. Mas o grande nome de Trapaça é mesmo Amy Adams. Ela é o coração do filme. É através de sua Sidney, que na maior parte do filme é Edith, que Trapaça viabiliza sua razão de ser: de que essas segunda, terceira, quarta chances dependem rigorosamente de nós. Adams está sensual como nunca, sutil como sempre, mais expansiva do que de hábito e arrebatadora como Trapaça precisa que ela seja. Se há um porém no elenco, é Jeremy Renner, que apesar de bem intencionado, não convence como italiano do povo.

É preciso dizer que Trapaça, sem seu elenco, não seria metade do filme que é e é aí que a grandeza de Russell se revela. Ele sabe disso e não faz a menor questão de esconder.  

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Filme em destaque - Trapaça

Golpe à americana
David O. Russell reúne um punhado de seus atores favoritos para uma história divertida, ligeiramente real e que apresenta personagens fascinantes


“David justifica suas personagens femininas. Sabe? Elas não estão lá apenas por estar. Elas tem uma razão dramática para pertencerem àquele universo”, relata Amy Adams que em sua segunda colaboração com o diretor David O. Russell conquistou sua segunda indicação ao Oscar. Ao todo Amy detém cinco indicações ao prêmio da Acadêmia.
Essa preocupação com os personagens é reiterada por Russell na mesma entrevista de divulgação. “Gosto de pensar que meus personagens conduzem a trama. Eu sou todo a favor dos personagens”, explica o diretor que com Trapaça finaliza sua informal trilogia da reinvenção. O primeiro O vencedor, indicado a sete Oscars, incluindo melhor filme, mostrava como o boxeador Mick Ward precisava se afastar da família para vencer na carreira. Em O lado bom da vida, indicado a oito Oscars, também incluindo melhor filme, uma moça bipolar e um rapaz com transtorno obsessivo compulsivo representam a tábua de salvação um do outro. Em Trapaça, que concorre a dez Oscars, assim como os outros, também a melhor filme, dois vigaristas, vividos por Christian Bale e Amy Adams, são forçados a colaborar com o agente do FBI vivido por Bradley Cooper para desbaratar um esquema que envolve máfia, políticos e toda sorte de tipos corruptos.
Trapaça é o filme mais ambicioso de Russell desde Três reis (1999), uma sátira venenosa à guerra do golfo. Trapaça se passa nos anos 70 e perpassa gêneros tão diferentes como a comédia de erros e o suspense, abarcando o drama, o thriller policial e a farsa.
Há quem chame Trapaça, lhe aferindo aspecto pejorativo, de um “Scorsese light” ou “sub-Scorsese”. Para o jornalista e crítico de cinema Roberto Sadovski essa é uma tremenda bobagem. “Apesar de Trapaça habitar um universo familiar ao diretor de Os Bons Companheiros, a pegada é diferente, menos nervosa, mais cômica. Para Sadovski, “o tom leve é uma opção narrativa inteligente” até mesmo para adensar melhor as mudanças de gênero impetradas por Russell.
Trapaça apresenta uma reconstituição de época acachapante. Tanto pela direção de arte como pelos figurinos e penteados. Esse esmero ajuda a entender a ambição de Russell. “Eu posso explicar a minha relação com os anos 70 através de cada um desses personagens. Das músicas que gostam, de seus sonhos...”, diz Russell à reportagem do jornal O Globo.
Esse carinho pelos personagens é mais perceptível em Trapaça do que em qualquer outro trabalho do cineasta, talvez por essa nostalgia incontida, talvez porque a proposta de voltar aos anos 70 pedisse esse carinho, talvez porque o tributo a Scorsese seja apenas uma das muitas nuanças desse filme que consegue ser drama, comédia, suspense, policial e, antes de tudo isso, um filme de David O. Russell, uma das grifes mais reconhecíveis da nova Hollywood.


sábado, 18 de janeiro de 2014

Oscar Watch 2014 - Primeiras impressões sob as indicações para a 86ª edição do Oscar


Não houve o espanto geral da edição de 2013, quando Ben Affleck ficou de fora da lista dos diretores, uma garota de nove anos foi indicada ao Oscar de melhor atriz e o pesado, triste e estrangeiro Amor foi celebrado entre os melhores filmes do ano.  Prevaleceu a sobriedade nas escolhas da Academia. Sobriedade esta, que não desponta sozinha. Há um franco processo, já destacado em outros anos, de rejuvenescimento do colegiado que compõem a instituição. Em 2014, com hits indies como Clube de Compras Dallas, que angariou inimagináveis seis indicações, e Ela, outro com cinco nomeações, e a exclusão de fitas mais tradicionais e engessadas como Walt nos bastidores de Mary Poppins, essa tendência ganha cristalização maior. Os indicados a melhor canção e trilha sonora original, com representantes indies como o grupo canadense Arcade Fire, também são um termômetro dessa mudança gradual no corpo da Academia.
Outro aspecto que salta aos olhos é a diminuição da influência dos sindicatos. Especialmente dos atores, outrora tão festejado por seu alto índice de preconização dos indicados ao Oscar. Isso acontece não porque a composição majoritária da academia deixou de ser dos atores, mas em virtude do aperto no calendário pré-indicações ao Oscar imposto pela academia no ano passado.  Das 20 atuações indicadas, cinco são distintas das lembradas pelo SAG. É a maior discrepância em anos. O que mostra, por consequência, que a mudança no calendário que fez com que todos os outros prêmios fossem trombando e se reajustando, do ponto de vista da Academia, foi ótimo negócio.
Trapaça, inegavelmente, assume a dianteira na corrida pelo Oscar. A ideia já estava solta no ar há algumas semanas, mas as indicações consolidaram esse status. Gravidade, que divide com o filme de David O. Russell, o recorde de indicações no ano (ambos com 10) é ficção científica, gênero que tradicionalmente encontra resistência nos porões da Academia e a referida mudança aventada acima ainda não chegou tão longe. Trapaça é um filme feito por um diretor que acumula prestígio ano após ano, filme após filme e com elenco estelar. O tema, política, show business, cafajestagem e camaradagem com os anos 70 como pano de fundo rendeu a Argo o Oscar no ano passado. A questão que se coloca é se a Academia premiará um filme que aborda, de maneira dura e crua, um período vergonhoso da história americana (12 anos de escravidão) ou se premiará o filme mais confortável apresentado por um grupo de artistas queridos e em alta? Amistaad (1997) e Lincoln (2012), para ficarmos em exemplos Spielbergianos eram filmes muito menos insidiosos da desumanidade da escravidão e foram ladeados.  Gravidade, por seu turno, como já abordado aqui em Claquete, é demasiadamente pipoca e pouco contundente em matéria de reflexão. O Oscar gosta de premiar causas nobres. Não há nada em Gravidade que favoreça essa percepção.
Outro aspecto curioso foi a ausência de dois dos documentários mais elogiados, comentados e premiados do ano Blackfish e Stories we tell que ficaram de fora. Em comum, ambos são dirigidos por mulheres. Não que haja uma conspiração do clube do bolinha aí, mas que é estranho e propício à controvérsias, é inegável.
Curiosamente, ainda que a lista pareça mais internacionalizada – há até um somali indicado entre os coadjuvantes, houve uma diminuição da presença de estrangeiros entre os concorrentes ao Oscar. Descontando-se os ingleses e galeses (Christian Bale, Chiwetel Ejiofor e Judi Dench) há uma australiana (Cate Blanchett, outra que poderia ser descontada), uma queniana (Lupita Nyong´o), um alemão (Michael Fassbender) e um somali (Barkhad Abi).
A questão racial, sempre introduzida no debate, volta ao eixo central nesta edição do Oscar. Há atores negros indicados em todas as categorias, com exceção de atriz, e o terceiro diretor negro nomeado ao Oscar de direção. Steve McQueen, no entanto, é o primeiro negro estrangeiro indicado; ele é inglês. Não obstante, 12 anos de escravidão que despontou como virtual vencedor do Oscar lá atrás em setembro, quando foi exibido no festival de Toronto, foi perdendo fôlego e hoje representa uma opção à esquerda do favorito consolidado Trapaça. O ímpeto revoltoso de alguns pode atribuir a esse descenso um valor racial que, a primazia, é apenas intriga. 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Oscar Watch 2014 - Cenas de Cinema (as indicações ao Oscar 2014)

No caminho certo
É contumaz falar das omissões e das injustiças do Oscar, mas a cada ano a academia vem se esforçando para menorar essa impressão que – por sua alta carga subjetiva – jamais poderá ser afastada de todo. Em 2014, ao se deparar com a lista dos indicados ao Oscar, a primeira sensação é de que ela é a mais completa, honesta e justa possível. Leonardo DiCaprio, ator contestado nas hostes da academia, recebeu merecidamente sua quarta indicação ao Oscar. Ainda que para tanto, Robert Redford tenha perdido a chance de conquistar sua primeira como ator.
Os filmes que mais chamaram a atenção nesta agitada, e cheia de qualidade, temporada de premiações foram lembrados. Bom senso, bom timing e, acima de tudo, bom julgamento parecem nortear a academia nesta fase da corrida pelo Oscar.



A prova dos nove
Desde que foi implementada essa janela de cinco a dez filmes na categoria de melhor filme em 2010, a categoria foi apresentada com nove filmes. De lá para cá, com quatro edições do Oscar como amostragem, dá para dizer que este é o ano em que há maior número de filmes de melhor nível na disputa. Mesmo assim, o número final de indicados é o mesmo. Esse gosto pelo nove pode ser reflexo direto do método para se aferir os indicados a melhor filme. Para ser indicado, um filme precisa reunir 5% da preferência dos votantes. O gosto da Academia, como se vê, é bem plural, mas não chega à casa dos dígitos.

Pelo segundo ano consecutivo, David O. Russell (à direita) emplacou o darling da corrida pelo Oscar. Trapaça divide a liderança da corrida com Gravidade, ambos com 10 indicações

Sem corridas das oscarizadas
Logo no início do especial Oscar Watch 2014, Claquete atentou para um fato incomum. Esta temporada do Oscar se anunciava como uma corrida de oscarizadas na categoria de melhor atriz. Ainda que tenha ficado com essa cara até os 45 do segundo tempo, não se resolveu dessa maneira e Amy Adams, por Trapaça, infiltrou-se e já começa a fungar no cangote da favorita inconteste Cate Blanchett (Blue Jasmine).

Amy Adams, sob as ordens de Russell, trazendo sexy back para a corrida das atrizes pelo Oscar...

Actors reloaded
Claquete acertou onde 99% de quem se dedica a analisar e antecipar os rumos da corrida pelo Oscar errou. Christian Bale e Leonardo DiCaprio, atores que encontram certa resistência entre muitos membros da academia e que defendem personagens de moral contestável, conseguiram indicações pelos filmes Trapaça e O lobo de Wall Street respectivamente. Mas a categoria deste ano não é redenção apenas para eles. Bruce Dern (Nebraska), Chiwetel Ejiofor (12 anos de escravidão) e Matthew McConaughey (Clube de Compras Dallas), todos em momentos distintos da carreira, são figuras historicamente descompatibilizadas da premiação.
Dern, aos 77 anos, volta a ser indicado ao prêmio. Concorreu uma única vez como coadjuvante em 1979. Bale é único a já ter vencido. Foi em 2011 como coadjuvante por O vencedor.

Outside
Os irmãos Coen, costumeiramente lembrados pela Academia que rapidamente os acolheu como favoritos da casa, acabaram de fora da disputa de 2014. Inside Lyewyn Davis – balada de um homem comum já vinha perdendo força na corrida, mas o fator Coen e o prêmio em Cannes mantinham acesas as esperanças de melhor sorte no Oscar. A tendência de queda se confirmou com apenas duas nomeações, para fotografia e som. Em um ano de fato concorridíssimo, não havia espaço para favoritos da casa.

O cara
O nome é Russell. David O. Russell. Quem é John Ford perto dessa cara? Parece heresia, mas não é. O que David O.Russell vem conquistando na história recente do Oscar não tem precedentes. Pelo segundo ano consecutivo ele emplaca indicações nas quatro categorias de atuação para quatro atores. Antes do ano passado, quando ele conseguiu isso por O lado bom da vida, foram mais de 30 anos sem que isso acontecesse. Não obstante, Russell conseguiu sua terceira indicação ao Oscar em quatro anos. Coisa que só Ford conseguiu e em uma época em o western, gênero em que Ford reinava, imperava no gosto dos acadêmicos. David O. Russell rapidamente se agiganta para se tornar um dos grandes do cinema e do Oscar.

O cara que zoa o outro cara
49 indicações ao Oscar. John Williams ri na cara de David O. Russell assim como ri na cara de qualquer um. O prêmio chama-se Oscar, mas qualquer dia vai ter gente chamando de John Williams. Ah, a indicação foi pela trilha sonora de A menina que roubava livros.

Até onde vai Meryl Streep?
Tinha quem duvidasse, mas Meryl Streep é maior do que Oprah e as indicações ao Oscar desta quinta-feira demonstraram isso. Streep, que muitos duvidavam que conseguisse nomeação em virtude do crescimento de Amy Adams, entrou e Oprah Winfrey, dada como certa entre as coadjuvantes, ficou de fora. É a 18ª indicação de Meryl Streep, recorde absoluto entre intérpretes e adornado ainda por outra marca suprema: indicações em cinco décadas diferentes.

Julia Roberts e Meryl Streep em cena de Álbum de família: ambas indicadas ao Oscar. Julia persegue modestamente a marca de Streep e angaria sua quarta indicação à estatueta e na terceira década distinta.

Até onde vai Jennifer Lawrence?
Talvez ainda seja cedo para chamá-la de próxima Meryl Streep, mas fato é que nem mesmo a original ostenta o recorde que J.Law acaba de constituir. Ninguém jamais foi indicado a três Oscars, e muito menos tendo ganhado um, com 23 anos de idade. Mais: Jennifer Lawrence conseguiu essas três indicações em quatro anos. Quem segura o ímpeto dessa mulher?

Recordar é viver
Tom Hanks foi indicado ao Oscar por um papel de naufrago em 2001 no filme Naufrago. Robert Redford ficou de fora da disputa deste ano defendendo o papel de um naufrago em Até o fim. Já Matthew McConaughey conseguiu sua primeira indicação ao prêmio pelo papel de um aidético que luta contra o sistema em Clube de compras Dallas, papel semelhante ao que deu o primeiro Oscar a Hanks em 1994 por Filadélfia. Hanks que ficou de fora da disputa deste ano por Capitão Phillips, filme no qual faz um capitão que teve seu navio sequestrado. Papel semelhante ao que deu a primeira indicação ao Oscar a Johnny Depp em Piratas do caribe: a maldição do Perola negra...

Tom Hanks em cena de Capitão Phillips: e quem paga o pato sou eu?

Mais Oscar nos próximos dias em Claquete

Quem gosta de acompanhar a temporada de premiações pelo blog não terá do que reclamar nos próximos dias. Além de uma análise preliminar sobre as indicações, serão publicados #oscarfacts – sobre curiosidades da premiação e dos indicados deste ano e outras regalias para o leitor cinéfilo que bate cartão por aqui.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Oscar Watch 2014 - Apostas do blog para as indicações ao Oscar 2014

É um exercício de prognóstico não tão fácil quantos muitos creem. Demanda observação do cenário pontual e confronto deste com o histórico da academia. Um tantinho de intuição também vai bem. Confira abaixo as apostas do blog para os filmes e artistas que devem ser indicados nas principais categorias ao Oscar 2014 nesta quinta-feira (16).

 Melhor Filme *
12 anos de escravidão
Gravidade
Trapaça
Clube de compras Dallas
O lobo de Wall Street
Ela
Nebraska
Inside Llweyn Davis – balada de um homem comum
Capitão Phillips
Philomena


O ator Michael Fassbender e o diretor Steve McQueen, que já mereciam indicações por Shame (2011), devem ter seus nomes anunciados nesta quinta-feira. Assim como o filme 12 anos de escravidão que deve liderar a corrida pelo Oscar


Melhor diretor
Steve McQueen (12 anos de escravidão)
Alfonso Cuarón (Gravidade)
David O. Russell (Trapaça)
Martin Scorsese (O lobo de Wall Street)
Spike Jonze (Ela)

Melhor ator
Chiwetel Ejiofor (12 anos de escravidão)
Matthew McConaughey (Clube de compras Dallas)
Bruce Dern (Nebraska)
Christian Bale (Trapaça)
Leonardo DiCaprio (O lobo de Wall Street)

Melhor atriz
Cate Blanchett (Blue Jasmine)
Judi Dench (Philomena)
Amy Adams (Trapaça)
Emma Thompson (Walt nos bastidores de Mary Poppins)
Meryl Streep (Álbum de família)

Melhor roteiro original
Trapaça
Ela
Inside Llewyn Davis – balada de um homem comum
À procura do amor
Clube de compras Dallas

Melhor roteiro adaptado
O lobo de Wall Street
Philomena
Capitão Phillips
12 anos de escravidão
Álbum de família

Melhor ator coadjuvante
Jared Leto (Clube de compras Dallas)
Barkhad Abdi (Capitão Phillips)
Michael Fassbender (12 anos de escravidão)
Bradley Cooper (Trapaça)
Will Forte (Nebraska)

Melhor atriz coadjuvante
Jennifer Lawrence (Trapaça)
Julia Roberts (Álbum de família)
Lupita Nyong´o (12 anos de escravidão)
Juno Squibb (Nebraska)
Oprah Winfrey (O mordomo da Casa Branca)

Filme estrangeiro
A grande beleza (Itália)
A caça (Dinamarca)
The grandmaster (Hong Kong)
The missing Picture (Camboja)
Omar (Palestina)


Cena de Gravidade: o filme de Alfonso Cuarón deve ter muitas indicações e ser uma das forças da temporada, mas Sandra Bullock deve ficar de fora da corrida...

Montagem
Gravidade
Rush – no limite da emoção
O lobo de Wall Street
12 anos de escravidão
Capitão Phillips

Fotografia
Gravidade
Inside Llewyn Davis – balada de um homem comum
12 anos de escravidão
Os suspeitos
Nebraska

Direção de arte
Ela
Trapaça
12 anos de escravidão
O grande Gatsby
Gravidade

Figurino
Trapaça
O grande Gatsby
12 aos de escravidão
Walt nos bastidores de Mary Poppins
OZ: mágico e poderoso

Trilha sonora
Gravidade
12 anos de escravidão
Capitão Phillips
Ela
Até o fim

Documentário
The act of killing
Stories we tell
Blackfish
Tim´s Vermeer
20 feet from stardom

Leonardo DiCaprio, excepcional em O lobo de Wall Street, deve voltar a ser indicado pela Academia que historicamente lhe apresenta tanta resistência. Mas ainda não será por esse papel que conquistará seu Oscar 

*Palpite considera o número máximo de dez indicados na categoria

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Oscar Watch 2014 - Lawrence rules


Não estranhe a frase, mas Jennifer Lawrence é o mais próximo de uma unanimidade que Hollywood chegou desde Marlon Brando. Líder em buscas no Google (experimente começar a escrever Jen... e aí ela aparece), com uma base estabelecida de fãs e um grupo de admiradores que só faz crescer, Jennifer Lawrence desafia convenções a cada ano. Intérprete da maior heroína do cinema desde Sarah Connor ou Ellen Ripley, a Katniss Everdeen de Jogos Vorazes, e oscarizada com apenas 22 anos, se prepara para com 23 anos buscar seu segundo Oscar e, esse último dado já é dado como certo, arregimentar sua terceira indicação à estatueta em cinco anos.
O mundo parece estar aos pés de J. Law como gostam de chamá-la. Ela parece suportar a pressão de ser a nova namoradinha da América. Julia Roberts, eterna detentora do posto, que deve ser sua rival na categoria de atriz coadjuvante no Oscar disse outro dia que J.Law é muito bacana para ser a namoradinha da América. Inveja? Ressentimento? Ou seria um diagnóstico certeiro tanto de Lawrence como dos padrões vigentes do status de american sweetheart?
A especulação é tentadora, mas Roberts somente deixa transparecer uma coisa: o bonde passa e os cães ladram. Jennifer Lawrence é uma epidemia irreversível em Hollywood. Disputada por franquias, diretores de vulto calibre e adorada por colegas de trabalho, a atriz já frequenta listas de personalidades mais influentes do mundo sem sequer manifestar interesse de opinar sobre o que quer que seja.
Em entrevistas, demonstra afetuosidade e cabeça no lugar. Nega deslumbramento com Hollywood e diz adorar cinema. “Não sei como tem gente que reclama da divulgação dos filmes. Eu estou recebendo rios de dinheiro para fazer o que gosto. Não posso reclamar”, disse certa vez em um de seus corriqueiros surtos de sinceridade.

Jennifer Lawrence já recebeu muitas postagens aqui no blog e não dá pistas de que essa tendência será revertida. É, segundo a média das críticas, quem mais chama a atenção no afinado elenco de Trapaça, novo filme de David O. Russell. Nenhuma novidade aí. Uma das regras de J.Law é chamar a atenção, sem fazer muito esforço para isso, onde der as caras. Seja em um filme, em um tapete vermelho, em uma entrevista, ou mesmo aqui em Claquete.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Oscar Watch 2014 - Bale Feelings


É cedo para dar um segundo Oscar para Christian Bale? Alguns analistas da indústria deslumbrados com sua atuação em Trapaça conjecturam a respeito desse dilema. Neste momento, Bale é um dos cotados para indicação ao Oscar, mas não é certeza na categoria que vê como favoritos Matthew McConaughey (Dallas Buyers Club) e Chiwetel Ejiofor (12 anos de escravidão). No entanto, Bale pode se beneficiar do buzz favorável ao filme de David O. Russell que tem surgido nas últimas semanas.
Ator de talento invejável e que desde o Oscar conquistado em 2011 por O vencedor, seu primeiro trabalho com Russell, conseguiu reverter a percepção relativamente negativa que rondava sua persona, Bale faz um tipo mais complexo neste filme. Ele vive Irving Rosenfeld, um vigarista que se vê obrigado a colaborar com um agente do FBI (Bradley Cooper) em um caso que envolve a máfia. “O personagem é suculento e Bale o domina em todas as suas cavidades”, anotou o New York Times em sua crítica para o filme. Christian Bale foi indicado ao Globo de Ouro de melhor ator em comédia e musical e também para melhor ator no Critic´s Choice Awards, uma pista nada desprezível de que a indicação ao Oscar é uma possibilidade bastante palpável. A vitória é outra história. No entanto, a academia abriu precedente de premiar atores premiados recentemente nesta categoria. Daniel Day Lewis ganhou ano passado por Lincoln depois de prevalecer em 2008 por Sangue negro. Sean Penn ganhou em 2009 por Milk- a voz da igualdade depois de ter vencido em 2004 por Sobre meninos e lobos. Bale, no entanto, está longe de ostentar o prestígio histórico desse par de atores e ganhou seu primeiro Oscar há três anos (não cinco) e na categoria de coadjuvante.
Christian Bale não tem mais nada para provar para ninguém e, já há alguns anos, vem fazendo escolhas interessantes na confecção de sua carreira. É inegável que a colaboração com Russell, assim como foi com Nolan, lapida uma percepção renovada sobre o ator. Bale está diante da possibilidade de repetir figuras como Hillary Swank e Christopher Waltz que são os únicos na história recente do Oscar a ganhar o prêmio nas duas nomeações que receberam. Tal como Waltz, Bale pode fazê-lo sob as ordens do mesmo diretor e não há nenhuma trapaça nisso.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Oscar Watch 2014 - Como fica a corrida pelo Oscar a partir de agora?

Foi uma semana agitada para quem acompanha a corrida pelo Oscar. Mais algumas associações de críticos divulgaram suas listas de melhores do ano, o Sindicato do Atores (SAG) e a Hollywood Foreign Press Association (HFPA) divulgaram a relação de indicados aos seus respectivos prêmios. O saldo desse balaio todo requer uma análise com mais retidão. 12 anos de escravidão, o primeiro filme a emergir como favorito absoluto ao Oscar, não perdeu seu posto privilegiado no grid de largada, mas viu ascender a preocupante concorrência de dois filmes tidos como menores na corrida. O primeiro é Trapaça, de David O. Russell, que muitos criam ser improvável conseguir repetir pela terceira vez em quatro anos um desempenho tão glorioso na corrida pelo Oscar. Russell conseguiu. Depois dessa semana, a pergunta a seu respeito não é se Trapaça vai figurar entre os indicados ao Oscar nas principais categorias, mas se irá triunfar. Não há como aventar essa resposta sem medir o pulso da academia em relação aos anos 70. Afinal, Argo, vencedor do Oscar de melhor filme em 2013 contra muitos prognósticos, guarda muitas semelhanças com o novo tento de Russell. Ambos são ambientados nos anos 70 e apresentam um flerte abusado e irônico entre a atividade policial e o mundo do entretenimento.
Mais ilegível é a reação a Ela. Spike Jonze foi indicado ao Oscar de melhor diretor logo em sua estreia no cinema por Quero ser John Malkovich. Ele volta em 2014 com o filme mais premiado no circuito da crítica até o momento, inclusive pelo prestigiado e influente National Board of Review. Ainda que o filme tenha ficado de fora do SAG, sua presença sólida no Globo de Ouro, mostra que a fita entrou no radar e tem potencial para grandes voos na temporada.

Alexander Payne orienta Will Forte e Bruce Dern no set de Nebraska: os três, e o filme, alimentam grandes chances de chegarem ao Oscar 

Michael Fassbender berra ao ouvido de Chiwetel Ejiofor em cena de 12 anos de escravidão: ainda o favorito, mas talvez não por muito tempo...

Nebraska e Capitão Phillips são outros filmes que saíram fortalecidos desta semana, assim como algumas candidaturas individuais. Cate Blanchett, por exemplo, se tornou absoluta favorita ao Oscar de atriz. A categoria de ator coadjuvante também fica praticamente definida com os nomes de Michael Fassbender (12 anos de escravidão), Jared Leto (Dallas buyers club) e Barkhad Abi (Capitão Phillips) garantidos e as últimas duas vagas sendo disputadas por Daniel Brühl (Rush- no limite da emoção), Bradley Cooper (Trapaça) e Will Forte (Nebraska).
Processo semelhante ocorre na equivalente categoria feminina. Jennifer Lawrence (Trapaça), Julia Roberts (Álbum de família), Lupita Nyong´o (12 anos de escravidão) parecem nomes certos e as últimas duas vagas são disputadas por Oprah Winfrey (O mordomo da Casa Branca), June Squibb (Nebraska), Sally Hawkins (Blue Jasmine) e Octavia Spencer (Fruitvale Station).
A categoria de atriz, como o post “Uma corrida de oscarizadas” publicado na última semana em Claquete demonstra, já estava mais encaminhada.
Entre os diretores, parece improvável que Scorsese (O lobo de Wall Street), Cuarón (Gravidade), Russell (Trapaça) e McQueen (12 anos de escravidão) fiquem de fora. Dessa maneira, restaria apenas uma vaga para nomes bem gabaritados como Spike Jonze, Paul Greengrass, Ron Howard, Alexander Payne e os irmãos Coen.  A academia pode preferir nomear estes últimos. Como Russell foi indicado em 2013, uma estranha política de compensação pode deixá-lo de fora abrindo mais uma vaga para esse timaço que se digladia por uma.
Neste momento, filmes como Trapaça, 12 anos de escravidão, O lobo de Wall Street, Ela, Inside Llweyn Davis, Gravidade e Capitão Phillips parecem certeza entre os indicados ao Oscar de melhor filme. Nebraska, Rush –no limite da emoção, Álbum de família, Philomena e O mordomo da Casa Branca estão muito bem colocados na disputa, mas ainda não garantidos. Os próximos dez dias serão de suma importância para todos os pleiteantes a uma vaguinha no Oscar.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Oscar Watch 2014 - Cenas de Cinema (Globo de ouro e SAG)

Anomalia de cortesia
É chover no molhado, mas a antecipação do calendário de premiações pelo Oscar segue a causar algumas anomalias em premiações periféricas que costumavam gozar de certo grau de acuidade na antecipação dos indicados ao Oscar em outros tempos.
O SAG, inegavelmente, é um dos maiores prejudicados. Alguns filmes lançados mais tardiamente no ano não foram vistos pela maioria dos membros do sindicato que apostaram em favoritos precoces como 12 anos de escravidão, O mordomo da Casa Branca e Capitão Phillips.

Anomalia de cortesia II
E a classificação de dramas e comédias no Globo de Ouro é aquela festa que todo mundo já tá acostumado. Ninguém leva muito a sério, desde que seja convidado. O lobo de Wall Street, Ela e Nebraska não são exatamente comédias, assim como Philomena não é um drama convicto. Álbum de família ainda puxa para o humor negro, mas Inside Lweyn Davis – balada de um homem comum definitivamente não é um musical.

A vibe de David O. Russell
Russell orienta Christian Bale e Amy Adams no set de Trapaça

David O. Russell é mesmo o diretor do momento. Seu Trapaça teve uma aceitação pela HFPA melhor do que os mais otimistas analistas da indústria esperavam. Indicado a filme, direção, roteiro e nas quatro categorias de atuação possíveis (concorrendo no âmbito das comédias), Trapaça firma-se como o favorito absoluto ao prêmio e eleva o já alto status de Russell no planeta Hollywood.

DiCaprio, o eterno
Entra ano e sai ano e Leonardo DiCaprio segue no coração da HFPA. Se não chega a ser uma Meryl Streep, novamente indicada, DiCaprio está quase lá. O Oscar resiste a indicá-lo, mas não tem doce com a HFPA. Enquanto DiCaprio seguir ousado, seguirá como um dos xodós do Globo de Ouro.
  
Por Mandela e por Elba
As três indicações para Mandela: long walk to freedom podem ir na conta de muita gente. Do U2 ou do próprio Mandela, por exemplo, mas o carisma de Idris Elba – ator que cativa mais a cada novo trabalho – responde exclusivamente pela indicação do ator entre os melhores atores em drama do ano. Tanto é que Elba conseguiu uma vaguinha pela série britânica Luthor na briga entre os atores por filme para tv ou minissérie.

O homem que é uma ilha
Por falar na disputa entre os atores dramáticos, Tom Hanks é o único que já ganhou o Globo de ouro entre os concorrentes.

Déjà Vu
Em 2010, Sandra Bullock, mais afeita às comédias, ganhou como atriz dramática por Um sonho possível e Meryl Streep, mais afeita aos dramas, ganhou como atriz de comédia por Julia & Julia. Neste ano elas voltam às categorias com Gravidade e Álbum de família, respectivamente. Na avaliação da crítica, os desempenhos são melhores, mas será que o raio cai duas vezes nos mesmos dois lugares?

O ano das comédias
Não são exatamente comédias, mas é inegável que o eixo das comédias no Globo de Ouro está muito mais interessante do que o dos dramas. Basta conferir a categoria de roteiro com prevalência das comédias (Ela, Nebraska e Trapaça).

Os belos e a fera
Bradley Cooper, Michael Fassbender, Jared Leto e, com alguma boa vontade, Daniel Brühl integram o time dos belos entre os melhores atores coadjuvantes do ano para a HFPA. Mas todo cuidado é pouco com a fera Barkhad Abdi, cujos feitos conseguidos em Capitão Phillips ainda podem repercutir.

O somali que é uma fera: cuidado com ele

Cinema made in TV
Al Pacino, Michael Douglas, Matt Damon, Kevin Spacey, Michael Sheen, Liev Schreiber, Helen Mirren, Robin Wright, Helena Bonham Carter e Jon Voight são alguns dos nomes mais identificados com o cinema indicados ao Globo de Ouro de 2014 por trabalhos feitos para a tv.

Faltou ousadia na lista da tv
A despeito do bem vindo, e tardio, reconhecimento a Breaking bad, faltou ao Globo de Ouro nesta edição o que é, via de regra, característica da premiação. Ousadia na escolha dos indicados na seara televisiva. A safra, é bem verdade, não é das melhores, mas faltou um olhar mais apurado. Mad men e The Walking dead mereciam um retorno triunfal ao prêmio, assim como a novata The Bridge mereceria destaque.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Oscar Watch 2014 - Uma corrida de fôlego

Falar que uma corrida pelo Oscar é uma maratona e não uma prova de 100m rasos já virou lugar comum no rol de metáforas que críticos e analistas da indústria lançam mão nessa época do ano. Mas o Oscar 2014, por uma convergência de fatores, se viabiliza como a maratona mais longa já disputada por pleiteantes ao Oscar. As duas principais razões para esse cenário são as olimpíadas de inverno, que empurram a realização da cerimônia do Oscar para o início de março, e a famigerada e amplamente discutida na edição 2013 do Oscar Watch disposição da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood de resgatar sua autonomia em matéria de indicações, antecipando para o início de janeiro o anúncio de seus indicados. Se em 2013, outras organizações que distribuem prêmios tiveram que se espremer para se ajustarem à radicalização do calendário proposto pela academia, para 2014 elas puderam se planejar melhor.  
Os indicados serão conhecidos no dia 16 de janeiro e a cerimônia do Oscar somente será realizada em 2 de março. É um hiato maior do que o habitual e que se soma a uma campanha que já se intensificará em 12 de dezembro, quando a Hollywood Foreign Press Association anunciará os indicados ao Globo de ouro 2014.
Mesmo com todo esse bafafá, há aqueles que não conseguiram se planejar a tempo. George Clooney, por exemplo, anunciou a retirada de seu filme da corrida. Caçadores de obras-primas não ficará pronto a tempo de estrear em 2013 e concorrer ao Oscar. Para compensar, terá estreia de gala no festival de Berlim em fevereiro. Ou seja, o filme estreará antes da realização do Oscar, só não será possível lançá-lo este ano.  O novo de Bennett Miller, Foxcachter, é vítima da mesma falta de sorte. O filme não será finalizado a tempo de ser lançado este ano.  Percalços de pós-produção. Já a Paramount fez de tudo para evitar que o mesmo problema acometesse O lobo de Wall Street, novo longa de Martin Scorsese, com lançamento confirmado para o Natal deste ano nos EUA. O estúdio colocou todas as suas datas à disposição do diretor que se trancou na sala de edição com a montadora Thelma Schoonmaker para finalizar o filme a tempo.
David O. Russell, que rivaliza com Scorsese pelas maiores atenções na temporada de ouro do cinema americano, foi mais hábil e mesmo tendo que paralisar as gravações de Trapaça em virtude dos atentados de Boston em abril deste ano, está com o filme prontinho para a estreia na próxima semana nos cinemas americanos.

Leonardo DiCaprio em O lobo de Wall Street, novo e aguardadíssimo filme de Scorsese que surge como grande aposta dos estúdios para a corrida pelo Oscar 

Jennifer Lawrence, à esquerda, atual vencedora do Oscar de melhor atriz deve voltar À disputa por um filme de David O. Russell, agora como coadjuvante. Amy Adams, outra veterana de indicações ao Oscar, pode receber por Trapaça, sua primeira como atriz principal

Um bom ano
A avaliação geral é de que 2013 foi um bom ano para o cinema. Pipocam bons candidatos e tanto estúdios como cinema independente têm candidatos fortes alinhados para a disputa.
Do lado dos estúdios, figuram produções como Gravidade, Capitão Phillips, Trapaça e O lobo de Wall Street, todos muito bem cotados. O cinema independente se escora muitíssimo bem em 12 years a slave, Inside Llewyn Davis – balada de um homem comum, All is lost e Nebraska.
Mas há outros filmes com aspirações legítimas na temporada. Desde o último Woody Allen, Blue Jasmine, ao novíssimo petardo de criatividade de Spike Jonze, Her.
Existe, ainda, a expectativa por boas surpresas como a presença robusta de estrangeiros entre os principais concorrentes do ano. A caça, O passado, Azul é a cor mais quente, Flores raras, entre outros, são filmes que podem render indicações fora do quadrado de filme estrangeiro.
Tudo vai depender do fôlego de campanhas de marketing e do apetite das estrelas por um lugar de destaque no tapete vermelho do dia 2 de março.