domingo, 24 de novembro de 2013
Insight - A sexualidade feminina pelo olhar masculino
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Contexto
Quando o desejo fala mais alto...
Durante os anos 80, o cinema americano foi pródigo em realizar filmes que primavam pela sensualidade. Alguns desses filmes traziam, em seu cerne, uma interessante discussão acerca da fidelidade. O recente O preço da traição (Chloe, EUA/FRA/CAN 2009) recupera essa característica de maneira salutar. No filme de Atom Egoyan, remake de um ótimo filme francês chamado Nathalie X (já resenhado na seção Movie Pass aqui de Claquete), presenciamos um casal em crise afetiva. O sexo, ou a falta de, é – como não poderia deixar de ser – um elemento catalisador. Catherine (Julianne Moore) é uma ginecologista bem sucedida e pertencente a uma classe social privilegiada, mas que enfrenta problemas de comunicação em seu seio familiar. David (Liam Neeson), seu marido, é um professor que não faz questão de esconder um descontentamento aparentemente injustificável. O fato de David flertar, quase que instintivamente, com toda a mulher que lhe apareça à frente, aumenta a insegurança que Catherine já sente enquanto mulher e objeto de desejo de seu marido. Por um conjunto de circunstâncias, ela chega a Chloe (Amanda Seyfried), garota de programa que conheceu acidentalmente, com uma proposta inusitada. Ela gostaria que Chloe abordasse seu marido e lhe relatasse a reação dele. Aí há uma diferença cabal em relação ao original. Em Nathalie X, a mulher que suspeita de traição, vivida pela também ótima atriz Fanny Ardant contrata a prostituta para seduzir seu marido. Ou seja, na fita americana, o desejo, e sua cota do imponderável, são mais proeminentes do que na fita francesa.
O pecado é mais gostoso: A maçã proibida é a mais apetitosa...Importante ressaltar que Catherine é uma mulher reprimida e ao se jogar de cabeça no affair de seu marido, e pior, ao bancá-lo, toda a sua libido irá explodir. Chloe, maravilhosamente interpretada por Amanda Seyfried, interpreta, conforme suas necessidades lhe impelem, a atitude de Catherine. E sua leitura não está de todo errada. É essa eclosão de desejo, culpa e ressentimento que fazem O preço da traição ser um filme notável em seu escopo. Egoyan realiza uma narrativa envolvente que, a despeito das soluções dramáticas aventadas, se vale copiosamente de uma sensualidade feroz e da beleza de suas protagonistas (muito bem fotografadas). A direção de arte clean e austera também ajuda na construção desse climão erótico.
O desejo pode pregar peças...Outros filmes também se apropriaram desse subterfúgio (a sensualidade e a sexualidade de seus personagens) para discutir a fidelidade. Alguns com mais êxito comercial, outros com mais sucesso critico. De uma forma ou de outra, todos propuseram histórias palatáveis.
Em Infidelidade, Diane Lane faz uma mulher muito bem casada com o personagem de Richard Gere que cede a tentação de um homem mais jovem (personagem de Olivier Martinez). Consumida pela culpa? Negligenciada pelo marido? Entediada? O filme de Adrian Lyne põe a lupa na questão. O que, além do desejo puro e simples, pode motivar um caso extraconjugal? O mesmo Adrian Lyne realizou o filme que talvez seja a bíblia para esse subgênero. Atração fatal, como entrega o nome, mostra o perigo de se ter relações extraconjugais. O filme, o mais moralista do subgênero, é também o mais bem sucedido. Na fita, indicada ao Oscar de melhor filme, Michael Douglas (ator que é assumidamente viciado em sexo e que alguns anos depois firmaria um contrato pré-nupcial que garante uma fortuna a Catherine Zeta Jones, caso a traia) vive um homem que trai sua mulher simplesmente por que lhe foi dada a chance.
Recentemente, a trama central de Atração fatal foi retomada em Obsessiva. No filme estrelado por Beyoncé Knowles, existe apenas um aprofundamento do suspense e o desenho de Beyoncé (a mulher traída) como uma espécie de heroína.
Sexy chic: Diane Lane vive uma mulher quarentona que cede a um caso extraconjugal em Infidelidade
O cineasta francês Claude Chabrol soube rir de uma situação muito comum em Uma garota dividida em dois. Uma mulher casada com um homem rico e mais velho apaixona-se por um homem mais jovem. O filme alia humor e tensão como poucos que abordam a infidelidade. Pintar ou fazer amor é outro bom filme francês que gira em torno de fidelidade, embora o escopo seja muito maior. Dois casais se enamoram em uma espiral de desejo em que fidelidade é um conceito um tanto deslocado.
O grande Stanley Kubrick também enquadrou o desejo, entre outras coisas, em seu derradeiro filme. De olhos bem fechados coloca um casal da vida real (Tom Cruise e Nicole Kidman eram casados à época das filmagens e do lançamento do filme) às voltas com libidos incontroláveis e traições.
De uma forma ou de outra, com posicionamentos mais conservadores ou mais liberais, o desejo é sempre muito bem capturado pelo cinema. O preço da traição é o mais novo membro dessa seleta, e sensual, galeria.
Desejamos juntos, logo, traímos juntos: Em Pintar ou fazer amor, todo mundo é de todo mundo
Metalinguagem do desejo: Em De olhos bem fechados, Cruise e Kidman servem ao voyerismo da platéiaSe você gostou deste tema e do filme que a coluna abordou, Claquete recomenda os seguintes filmes:
Infidelidade, de Adrian Lyne (EUA, 2002)
Assédio sexual, de Roger Donaldson (EUA 1994)
De olhos bem fechados, de Stanley Kubrick (EUA 1999)
Nathalie X, de Anne Fontaine (França, 2003)
Pintar ou fazer amor, de Arnauld e Jean Marie Larrieu (França, 2006)
Atração fatal, de Adrian Lyne (EUA, 1987)
Jogo de adultos, de Alan J. Pakula (EUA, 1992)segunda-feira, 26 de abril de 2010
Movie Pass
A cinematografia argentina é, seguramente, a mais pulsante da América Latina. Não obstante o Oscar de produção estrangeira recebido pelo filme O segredo de seus olhos, de um dos maiores expoentes do cinema daquele país, o diretor Juan José Campanella, o cinema argentino já garantiu presença no próximo festival de Cannes, com o novo trabalho do cineasta Pablo Trapero, Carancho. Em comum, ambos os filmes têm o ator Ricardo Darín. O mais respeitado e prestigiado ator argentino. Aos 53 anos, Darín já coleciona mais de 30 produções em sua filmografia. Muitas delas de prestigio e notoriedade internacional, como essas duas mais recentes. Outro filme recente estrelado por Darín, que participou da mostra Um certo olhar do festival de Cannes de 2007, é XXY.
A fita, dirigida por Lucía Puenzo, traz o ator em um papel secundário, mas intenso. O filme mostra um casal às voltas com um problema inusitado. Seu filho nasce com características dos dois sexos. Após muitas consultas médicas para tentar entender o problema e procurar soluções, o casal opta por não realizar uma cirurgia que entendem ser uma violência contra o corpo de seu filho. Eles, então, se retiram para cuidar da criança em um local isolado.
O filme evolui muito bem e aproveita todo o potencial que a história oferece. Sexualidade, proteção, preconceito e amor são debatidos com firmeza na produção que chegou a ser exibida em cinemas brasileiros, mas não foi prestigiada a contento.
O Movie Pass destaca XXY na seção deste mês por se tratar de um filme que dentro da cinematografia cult por excelência de um país e de um ator, permanece como um filme a ser descoberto e apreciado. A força do cinema argentino e toda sua criatividade autoral estão registradas nesse pequeno filme da terra de Messi.
A seção Movie Pass deste mês é oferecida como homenagem ao amigo, e leitor de Claquete, Paulo Soares.



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