terça-feira, 8 de junho de 2010

Movies Great Partnerships - Elia Kazan & Marlon Brando



Existem parcerias no cinema que existem por um curto período criativo, mas cuja intensidade reverbera por décadas. Não há exemplo mais feliz dessa constatação, talvez seja até mesmo o único caso, do que a parceria entre o diretor turco, filho de gregos, Elia Kazan e o ator que por muitos é considerado o maior de todos, Marlon Brando. Foram apenas três filmes em um período de 4 anos. Mas esses trabalhos foram, pela ordem, Uma rua chamada chamada pecado (1951), também conhecido no Brasil como Um bonde chamado desejo, Viva Zapata (1952) e, talvez o melhor dos três, Sindicato de ladrões (1954).
Nem Marlon Brando, nem Kazan eram grandes em seus ofícios e a parceria lhes valeu o reconhecimento que precisavam para se imortalizarem. Uma rua chamada pecado foi apenas o segundo filme de Brando, enquanto que Kazan – apesar de já ostentar alguns trabalhos – ainda não tinha prestígio e cacife em Hollywood.
Ambos uniram-se para contar histórias proletárias. Imigração, corrupção, violência e o torpor do desejo foram características entremeadas nos três trabalhos que fizeram juntos.
Uma rua chamada pecado, é bem verdade, tinha pedigree. Baseada na famosa peça de Tennessee Williams, o filme foi indicado a 12 Oscars. Foi a primeira indicação de Kazan como diretor e de Brando como ator, nenhum dos dois venceria, mas a consagração do filme antecipava a consagração da dupla.


Cena de Uma rua chamada pecado: Desejo e tensão sexual em produção com elenco premiado



Explode um novo símbolo sexual: Marlon Brando passou a ser referencial de masculinidade no cinema


O papel valeu a Brando, ainda, o status de símbolo sexual. Tanto o ator quanto o diretor irromperiam por polêmicas no fim da década, mas a qualidade do trabalho que realizaram juntos se imporia na memória cultural. Antes de Brando ter problemas conjugais, suspeitas pairando sobre sua sexualidade e de se engajar de forma agressiva na causa indígena e de Kazan colaborar com o macarthismo, eles realizaram Viva Zapata, filme sobre o revolucionário mexicano Emilio Zapata, e Sindicato de Ladrões. O primeiro filme valeu a Brando mais uma indicação ao Oscar de melhor ator e foi louvado em muitos festivais, além do sucesso crítico que amealhou. Já a derradeira colaboração recebeu 12 indicações ao Oscar e prevaleceu em oito, inclusive nas categorias de ator (para Brando) e direção (para Kazan). O filme é uma forte crítica a nossa organização social. Às manobras políticas que ditam o rumo das vidas de trabalhadores e pessoas de bem e aos interesses escusos que lhe dão sustentação. Ainda hoje, o filme é lembrado como um clássico maior que seu tempo.


O cartaz da segunda, aguardada e louvada colaboração entre Kazan e Brando



Marlon Brando em cena de Sindicato de ladrões: Para muitos, uma das melhores performances de todos os tempos


Kazan viu-se execrado pela classe artística quando colaborou com a caça aos comunistas perpetrada pelo senador americano Joseph McCarthy. Ironicamente, Sindicato de ladrões foi a combustão que seus detratores precisavam para tomar o diretor turco como hipócrita. Tanto Brando quanto Kazan partiram inferiorizados pelos escândalos e pela perda de relevância que o tempo cuida de providenciar a quem muito se dedica a arte. Entretanto, vistos no cosmo dessa parceria, não há como contestar, questionar ou evitar o aplauso para três filmes que primam pela excelência e constituem uma parceria, literalmente, sem par na história do cinema.

Elia Kazan em foto anterior a sua consagração: Nos anos 50 nenhum diretor foi tão bem sucedido artisticamente quanto ele no cinema americano

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Cenas de cinema especial - MTV Movie Awards 2010

Resultado cantado
Como se alguém na face da terra duvidasse, o MTV Movie Awards 2010 consagrou Lua nova, o segundo capítulo da saga Crepúsculo como o grande vencedor do MTV movie awards. Na tradicional e descolada premiação da MTV, tal qual como ocorre no people choice awards, é o público quem escolhe os vencedores. A diferença é o perfil do público. Enquanto no people choice awards há a prevalência dos mais jovens, no MTV movie awards só há jovens; ou adolescentes (caso prefira o leitor) votando.
Lua nova faturou os prêmios de melhor filme, atuação masculina para Robert Pattinson (como assim???), atuação feminina para Kristin Stewart (o que importa é o evento!) e melhor beijo (adivinha entre quem?).

Robert Pattinson e Kristen Stewart dão o que o povo quer...
Inovações
Além de algumas novas categorias, a maior novidade da edição deste ano foi a permissão para que internautas de todo o mundo votassem em algumas categorias. Essa novidade não tirou o prêmio do favorito. Robert Pattinson ganhou o “prêmio” de superastro gobal.

Quem disse que o público não manda bem?
Melhor revelação: Anna Kendrick por Amor sem escalas. Melhor atuação cômica: Zack Galifianakis por Se beber não case e melhor vilão, o impressionante Tom Felton que faz o nêmesis de Harry, Draco Molfoy, em Harry Potter e o enigma do príncipe. Essas premiações, além de acertadas e merecidas, demonstram que o MTV Movie Awards, não é um desperdício de pipocas.

Piada velha
Sandra Bullock consegue estar mais em evidência em 2010 do que esteve em 2009. Afinal, ganhou Oscar, foi traída, divorciou-se, adotou um bebê, beijou Meryl Streep e, peraí, beijou Meryl Streep? Caso o leitor não se lembre, a atriz de O diabo veste Prada era a principal concorrente de Sandra na disputa pela estatueta dourada, e na entrega do critic´s choice awards (premiação periférica ao Oscar) Bullock e Streep dividiram o troféu de melhor atriz e tascaram um selinho cordial. Ontem foi a vez da atriz reeditar o selinho (com uma projeção corporal muito mais enfática) com a loira Scarlett Johansson. A piada combinada (e desgastada) envolvia o galã Ryan Reynolds, marido de Scarlett, que contracenara com Bullock no maior sucesso comercial de sua carreira, A proposta.

Um casal cada vez mais abissal
O ator e roqueiro Russel Brand (que neste fim de semana estreou o filme Get him to the geek nos EUA) sempre plantou uma pulga atrás da orelha do público. Primeiro porque o cara não é lá muito talentoso. Segundo porque a belíssima e talentosa Katy Perry é perdidamente apaixonada pelo cara. Detalhe: Brand, além de feio que dói, já declarou ser viciado em sexo e não conseguir ficar com apenas uma parceira por muito tempo. Ontem, ambos estiveram no evento da MTV. Enquanto Perry escandalizou com sua beleza, bronzeado e som, Brand escandalizou pelos motivos de sempre. Ou seja: Colocou, mais uma vez, aquela pulguinha martelando: “O que ela vê nele?”
Russel Brand no tapete vermelho do MTV Movie awards e Katy Perry fazendo acontecer como Pin Up no palco



Pipoquinhas


Mark Wahlberg e Will Ferrel, que estrelam um dos principais lançamentos desse verão, fizeram um número cômico na premiação

Não, não é Lady Gaga. Enquanto a musa de Bad romance passa férias em Saint Tropez no sul da França, Cristina Aguilera apimentou a rivalidade entre as duas no show que fez no evento de ontem a noite



Tom Cruise incorpora seu ícônico personagem de Trovão tropical para ser vedete de Jennifer Lopez em outra apresentação musical que rolou ontem a noite

domingo, 6 de junho de 2010

Insight


Cinema de arte: isso existe?


É uma discussão antiga e tão enclausurada em si que fica difícil fugir dos lugares comuns aventados com o passar dos anos. Não há evolução no debate e cada nicho, cada pensador do cinema, tem sua convicção. “Cinema é arte!” “Cinema é indústria!” “Cinema é arte para as massas!” “Cinema é a corrupção da arte!” “Cinema é a arte industrializada!” “Cinema só é arte quando feito de maneira experimental!” “O cinema se perdeu da arte!” “Se o cinema não se reinventar deixará a arte para trás!”. Muitos são os “achismos”, os diagnósticos e os inevitáveis prognósticos em relação ao tema. Muitos consideram o cinema uma arte pagã. O que seria uma forma de rebaixá-lo como arte. Outros, por seu turno, consideram o cinema a arte mais completa que existe (e também a mais fascinante), por possibilitar que todas as outras formas de artes sejam, de alguma maneira, confluídas.
Como atenta o parágrafo que abre o texto, cinema de arte é uma equação longe de um desfecho. Postula-se de um lado que o cinema de arte é uma artimanha marketeira que se renova ano após ano em festivais (que no fundo só existiriam para fazer dinheiro), enquanto que na outra frente, argumenta-se que o cinema em si fora concebido como arte, mas deturpado por ideais capitalistas. Seria essa a razão de cineastas imaginativos e alinhados a esquerda serem tão celebrados por uma crítica de cinema que parece tão dissonante de seu público.



A Pixar, estúdio de filmes como UP -altas aventuras (a animação na foto), e Christopher Nolan, diretor de insônia (o filme da direita na foto) conjugam fórmulas comerciais em filmes de arte



O bom desse debate que atravessa gerações é que todos os argumentos que provocam sua longevidade são válidos. O cinema de arte é algo difícil de definir. É lógico que não está no estardalhaço de efeitos especiais de Transformers, mas você pode encontrá-lo em blockbusters hollywoodianos como Batman – o cavaleiro das trevas, O exterminador do futuro 2, Blade Runner – o caçador de andróides, Wall E, O sexto sentido e O curioso caso de Benjamin Button. Há quem pense que Blockbusters e filmes de arte são incompatíveis por natureza. Esse é um preconceito tão atroz quanto supor que um negro seja menos capaz que um branco.
O cinema prima pela equivalência e há quem se dedique a fazer filmes ditos “de arte” e não consiga fazê-los. Os filmes de David Lynch são considerados “de arte” por que grande parcela de quem os assiste não consegue entendê-los. Isso pode muito bem ser classificado como uma incorreção, além da óbvia boa vontade para com o diretor em questão. Ora, se não se entende como rotular uma obra cinematográfica? A arte pode muito bem encontrar lugar em um filme mais comercial. Christopher Nolan, que constrói uma das carreiras mais reluzentes em Hollywood, é dos diretores mais bem sucedidos nesse departamento. Filmes como Amnésia, Insônia, O grande truque e os capítulos de Batman que dirigiu são todos voltados para um público abrangente, mas dotados de questões que permeiam os ditos “filmes de arte”. Essa contradição ajuda a elevar o debate e rechaçar qualquer parecer definitivo. Por isso é retrógrado apontar que Cannes celebra a arte e o Oscar celebra a indústria. Os dois, em proporções diferentes (é bom que se deixe claro) celebram os dois modelos de produção cinematográfica. O cinema de arte precisa do cinema comercial para existir, enquanto que o cinema comercial não pode prescindir do cinema de arte para que se viabilize a partir do contraponto.


Cena de O curioso caso de Benjamin Button: blockbuster sim, mas muito mais profundo do que um passatempo para se comer pipocas....


Há interessantes casos que embaralham ainda mais a noção de cinema de arte. Peguemos Quentin Tarantino por exemplo. Tido como um expoente moderno do cinema de arte, os detratores do diretor de Bastardos inglórios dizem que ele apenas recicla filmes antigos em um liquidificador pop. A simplificação do cinema de Tarantino permite uma inflexão. De fato, o diretor conflui referências cinematográficas (e musicais, e literárias, etc) com habilidade ímpar. Seu estilo chega a ser profano. Mas Tarantino é acessível. Seu cinema “de arte” parece assim o ser em virtude das circunstâncias. Os baixos orçamentos do inicio da carreira e ser cria de festivais (veio a Mostra de São Paulo em 1992 para exibir seu filme de estréia Cães de Aluguel e todo novo lançamento debuta em Cannes) ajudaram a consolidar Tarantino como um diretor de filmes de arte. Ah, então ele não é diretor de filmes de arte? O ponto não é esse. Bastardos inglórios (seu melhor e mais maduro filme) é uma produção de U$ 70 milhões e estrelada por um Hollywood star (Brad Pitt). Não são esses predicados de um filme comercial?
Tarantino faz cinema de arte? Faz cinema comercial? Tarantino faz bom cinema! E o bom cinema deve ser tomado, antes de se enveredar por rótulos secundários, como arte.

Burton e Tarantino: Estilo e subversão são sinonimos de arte no mundo do cinema


Poster italiano de Bastardos inglórios: orçamento de U$70 milhões, Brad Pitt a frente do elenco e segunda guerra mundial não foram suficientes para taxá-lo de blockbuster (nem mesmo a bilheteria de U$ 250 milhões ao redor do mundo).

Tim Burton é outro que pratica arte em filmes comerciais. Dono de uma concepção visual onírica e delirante, Burton conseguiu ajustar fórmulas comerciais a um cinema carregado de cores pessoais. Burton e Tarantino descendem diretamente de Traufaut e Godard, críticos de cinema que viraram cineastas (admiradores do cinema americano e de Hitchcock) que foram vértices da Nouvelle Vague, movimento francês que popularizou a teoria do autor no cinema. De acordo com esta teoria, o diretor é o criador maior de um filme. A percepção que se tem do cinema de arte desde então, mudou irrevogavelmente. Perceba que grande parte da crítica se orienta também pela teoria do autor.É por isso que filmes que trazem uma marca autoral de seus realizadores (seja essa marca reciclagem ou delírios visuais) são tidos como filmes de arte. No caso de David Lynch, a marca é não ser inteligível.

David Lynch é um autor cultuado: a arte dele é não ser inteligível


A pretensão sempre é desestabilizadora. Isso vale tanto para o cinema de arte quanto para sua contraparte comercial. E é com isso em mente que se deve apreciar um filme. A arte tem de ser mutável, atraente, instigadora, inteligente, conflitante, motivadora e libertária. Se um filme faz valer algum desses adjetivos, você pode chamá-lo sem medo de errar, de filme de arte.

Obs: A coluna dessa semana foi inspirada pela repercussão do editorial de maio intitulado "O mês da arte". Em maio, além da realização e da cobertura do festival de Cannes, Claquete realizou especiais sobre dois filmes ditos " de arte" O mundo imaginário do doutor Parnassus e Tetro (que foram escolhidos pelo leitor em enquete). A reação ao editorial gerou uma pauta imediata para a coluna insight. Semana que vem, o debate será aprofundado.

sábado, 5 de junho de 2010

Grandes momentos do cinema

Existem momentos no cinema que se eternizam pela parcela do inusitado que ostentam. Outros que se esmeram no imponderável. Taxi Driver, uma das muitas obras primas de Martin Scorsese (a primeira a levar a Palma de ouro em Cannes) é um filme que se assenta sobre essas verdades. Uma cena em especial, a que ganha destaque na seção deste mês, explode toda a verve subversiva e paranóica que Taxi Driver tão brilhantemente captura. Robert De Niro se posiciona em frente ao espelho e ensaia a melhor maneira de sacar sua arma bancando o durão. Não há quem não faça isso. Desde o adolescente cheio de referências do mundo dos vídeo - games e do gangsta rap até o mais laureado policial. Taxi Driver sublinhava à sua época os efeitos desestabilizadores da guerra em um individuo, mas essa cena mostra que estabilidade emocional – no fim das contas – é uma noção um tanto quanto manca em um mundo em constante transformação.

De olho no futuro...

Destino: ficção científica
Ele anda meio em baixa. Adrien Brody até fez bons filmes e defendeu bons papéis depois da consagração, inusitada, com o Oscar de melhor ator por O pianista em 2003. Menos de 10 anos se passaram e Brody já ensaia uma reinvenção. O mundo foi pego de surpresa quando o ator foi escalado para fazer o protagonista da aventura Predadores (reboot do filme de 1987 estrelado por Arnold Schwarzenegger). O filme, que chega as telas de cinema do planeta em julho, é o carro chefe dessa nova persona de Brody no cinema. Um filme de menor expressão, mas que colabora para reforçar a impressão de que o ator está redimensionando sua carreira é Splice. A ficção científica com toques de terror estreou ontem nos EUA. Claquete apresenta o trailer para você.




Um cartaz que promete
Jack Black não chama a atenção em um filme já há algum tempo. Pode-se dizer que seu último papel notável no cinema foi em Escola do Rock (que lhe valeu uma indicação ao globo de ouro de melhor ator em comédia/musical). Pois a julgar pelo cartaz de As viagens de Gulliver (com lançamento previsto para novembro nos EUA), Black volta com tudo em 2010.



O melhor de Lost no melhor da Marvel
Surgiram boatos na internet esta semana, e até agora são só boatos mesmo, de que Josh Holloway (o Sawyer de Lost) estaria em negociações com a Marvel para fazer um papel no filme dos Vingadores. Embora os boateiros acreditem que ele viveria Henry Pym, o homem formiga, é mais provável que ele faça um agente da SHIELD, agência de inteligência militar comandada por Nick Fury (Samuel L. Jackson). Já que a Marvel tem planos de fazer um filme da SHIELD também.
Vale lembrar que Holloway já fora sondado para viver Gambit na época que o terceiro X-men estava em produção. Como é notório, aquela negociação não evoluiu.

Holloway: da ilha para o universo Marvel


Só para fãs
Esta semana foi divulgado o vídeo do making of da gravação da canção "Never say never", música tema do remake de Karatê Kid. Interpretada pelo fenômeno pop Justin Bieber e pelo protagonista da aventura, Jaden Smith (que não tem o talento do pai, Will Smith, para cantar). A música é tão .......... quanto as demais faixas do primeiro trabalho de Bieber. Fica a cargo do leitor completar a linha pontilhada.

One time, baby: Bieber e Jaden fazem trocadilhos e penteados

Foi namorar, perdeu o lugar...
Todo mundo sabe, até mesmo porque o próprio David Fincher já declarou repetidas vezes, que Brad Pitt é o ator preferido do diretor de Seven. Fincher já o dirigiu em três oportunidades. Coincidências a parte, seus melhores trabalhos. Pitt é a escolha natural do diretor para viver o protagonista do remake americano do filme Os homens que não amavam as mulheres. A fita sueca, que atualmente está em cartaz no Brasil, é a primeira de uma trilogia. O problema é que Pitt não quer assinar contrato enquanto a primeira versão do roteiro, escrito por Steven Zaillian (A grande ilusão e A lista de Schindler) não ficar pronta. Os produtores não gostaram da atitude de Pitt e iniciaram conversas com Daniel Craig que manifestou interesse em participar do projeto. O filme, que se chamará The girl with the dragon tattoo, ainda não tem um estúdio assegurado, daí a importância de um protagonista de peso. Em Hollywood, o tempo também urge.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Cantinho do DVD

Woody Allen está em alta nos cinemas brasileiros. Tudo pode dar certo pode não levar multidões aos cinemas como o fazem Homem de ferro 2 e Alice no país das maravilhas, mas o último Woody Allen é o filme mais bem cotado no quadro de críticos de jornais como Folha de São Paulo, O Globo e Jornal do Brasil. Nada mais oportuno do que recuperar um ótimo Woody Allen dos anos 90 (uma das épocas em que seu cinema menos chamou atenção). Poderosa Afrodite concorreu a três Oscars (levou o de atriz coadjuvante para a ótima Mira Sorvino) e foi mais um exemplar na filmografia do diretor americano a dialogar com a mitologia grega, contante inspiração de Allen. Aqui, esse componente aparece de forma muito bem ajambrada na narrativa. Uma piada típica de Woody Allen. É bem verdade que o humor de Poderosa Afrodite é menos acessível do que o vislumbrado em Tudo pode dar certo, mas ainda assim é uma excelente e sofisticada pedida.




Crônica & Poesia

Woody Allen é daqueles diretores capazes de criar personagens fortes até mesmo em filmes aparentemente banais. Em Poderosa Afrodite (Mighty Afrodite EUA 1996), o diretor, que também protagoniza a fita, conta o drama de Linda Ash (Mira Sorvino) moça que vinda do interior e devido a falta de oportunidades aliada a desinformação acabou se tornando prostituta. Linda depois de ter um filho lhe entrega para adoção. Essa criança foi adotada pelo casal vivido por Helena Bohan Carter e Woody Allen. O personagem de Allen intrigado com a inteligência da criança decide rastrear suas origens. Chega então a Linda e decide ajudá-la a sair daquela vida, mesmo que ela rejeite a ajuda a principio.
Poderosa Afrodite é salutar por trazer em seu escopo todas as referências do cinema de Allen. Estão lá os elementos da mitologia grega (dessa vez incorporados de forma engenhosa à narrativa), os personagens femininos fortes e marcantes, a neurose que caracteriza o diretor, a Nova Iorque cosmopolita e contraditória, a autoparódia com os judeus; enfim Allen rememora sua obra ao agregar mais um exemplar de cores vivas a ela.
Sem grandes pretensões artísticas, Poderosa Afrodite traça o retrato de personagens envoltos com banalidades cotidianas. A burguesia retratada por Allen ganha nesse filme, porém, um elemento romântico dos mais tenazes. Allen extrai poesia de uma situação envolvendo bebês, compadecimento e sexo por carência. O cronista social cede espaço ao poeta. Para entender essa poesia, só vendo o filme.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

TOP 10

Vira e mexe um estreante arrebata na direção. Não a toa, algumas premiações e festivais ao redor do mundo (como Cannes, Independent Spirit awards, Veneza e Toronto) têm um prêmio especial dedicado aos "melhores primeiros filmes". Claquete lista na seção TOP 10 dessa quinzena, 10 diretores que arrebataram em seus trabalhos de estréia. Alguns mantiveram o excelente nível, outros ainda não fizeram um segundo trabalho e um ou outro ainda vive à sombra da estréia triunfal. Com vocês 10 prodígios que arrebataram a crítica em suas estréias por trás das câmeras.


10 – Marc Webb (500 dias com ela)
Todo mundo ficou impressionado com o trabalho de estréia de Webb. O bonitinho, mas que não deixa de ser ordinário, 500 dias com ela debutou em Sundance e tomou a cena independente de assalto. Webb mostrou-se inventivo na direção e soube tirar proveito de um roteiro bastante original. Tanto é, que seu segundo trabalho como diretor será a frente do quarto filme do Homem-aranha.


9 – Sofia Coppola (As virgens suicidas)
Ela vem de família proeminente em Hollywood. Filha de um dos maiores cineastas americanos, Francis Ford Coppola, tentou emplacar uma carreira de atriz, talvez por orientação paterna (esteve em três filmes do pai), e teve de se esquivar da sombra do pai famoso. O que conseguiu de imediato. Logo em seu primeiro filme, Sofia empregou uma identidade própria muito forte. Sua narrativa em pouco lembrava a de seu pai e sua sensibilidade pôs a crítica em suspensão. Ali estava uma grande diretora. Um raio caíra duas vezes no mesmo lugar.


8- George Clooney (Confissões de uma mente perigosa)
Todo mundo esperava uma bomba da estréia na direção de George Clooney, que para muitos, nem mesmo bom ator era. Pois Clooney chamou sua trupe (Matt Damon e Julia Roberts fazem participação especial) e tornou comercial o roteiro de Charlie Kouffman, sem abdicar da inteligência e da espirituosidade do roteiro. Um trabalho seguro e altivo que evoluiria em sua segunda incursão na direção, reconhecida com indicação ao Oscar, mas aí já é outra história.


7- Spike Jonze (Quero ser John Malkovic)
Novamente Charlie Kouffman serve de trampolim para um diretor estreante. Spike Jonze veio dos videoclipes com uma linguagem visual apurada e essa linguagem foi crucial para que Quero ser John Malkovic se tornasse o filme que se tornou. Indicado ao Oscar de melhor diretor por esse trabalho, Jonze soube filtrar muito bem o delírio de Kouffman e transformá-lo em uma afiada critica contemporânea.


6 – Robert Redford (Gente como a gente)
Robert Redford teve sua parte na longevidade da maldição que o Oscar impeliu à Martin Scorsese. Redford, em sua estréia na direção, levou a melhor por Gente como a gente quando Scorsese concorria com Touro indomável. O filme de Redford e a segurança que ele demonstrou atrás das câmeras impressionaram o público e a crítica. Mas o fato de ter criado naquele ano o festival de Sundance, dedicado a prestigiar e promover o cinema independente, sem dúvida ajudou muito no resultado.


5- Ben Affleck (Medo da verdade)
Execrado como ator pela crítica, ninguém via com bons olhos o debute de Affleck na direção. O que se viu foi consagração, talvez pela baixa expectativa, talvez pela força do material original. Medo da verdade encantou a crítica e revelou um cineasta firme, centrado e totalmente seguro de suas escolhas dramáticas. Fato é que Affleck já havia se provado bom roteirista (ganhou o Oscar por Gênio indomável), e provou-se um diretor de extrema habilidade. Bonito, carismático, bom roteirista e bom diretor. Só faltava ser bom ator também, diriam os alcoviteiros de plantão.


4- Tom Ford (Direito de amar)
Pior do que um ator canastrão atrás das câmeras, só um estilista. Bem, a máxima caiu por terra após a crítica louvar a estréia na direção do estilista Tom Ford. Direito de amar em nada denuncia que seu diretor é estreante e vem de fora do ramo do cinema. Rigor técnico, esmero narrativo e sensibilidade pulsante fazem de Direito de amar um filme único. Principalmente se considerado que é um trabalho realizado por um estreante.


3- Jason Reitman (Obrigado por fumar)
Outro cineasta filho de cineasta. Contudo, neste caso, o júnior superou o papai rapidamente. Com três filmes no currículo, duas indicações ao Oscar como diretor e muito, mas muito prestígio mesmo, Jason Reitman pode-se considerar um cineasta de primeira. Essa percepção já surgia em seu primeiro longa, Obrigado por fumar trazia um cinismo irreverente e alto teor crítico, características que acompanham o cinema desse verdadeiro prodígio americano.


2 – Stephen Daldry (Billy Elliot)
O inglês, vindo do teatro, chamou a atenção e conquistou público e crítica com esse pequeno filme britânico sobre um menino que queria fazer balé. Billy Elliot é uma epígrafe de sensibilidade e comunhão cinematográficas. O talento de Daldry para contar histórias encontra respaldo em sua visão pragmática e acadêmica de como fazê-lo.


1-Sam Mendes (Beleza americana)
De completo desconhecido a gênio da sétima arte. É mais ou menos isso que aconteceu com esse inglês (também vindo do teatro) que logo em sua primeira produção no cinema (em um filme americano que atacava e desmascarava o american way of life) foi louvado como autor. Beleza americana atentava contra aspectos culturais dos EUA e a forma sarcástica do registro cativou a crítica. Sam Mendes ganhou o Oscar e fez grandes filmes depois desse, mas ainda é difícil se afastar do assombro causado por seu primeiro trabalho.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Crítica - O escritor fantasma

O evangelho segundo Polanski!

O novo filme do diretor Roman Polanski chega ofuscado pela tragédia pessoal do cineasta. Polanski finalizou O escritor fantasma (ING/EUA 2010) já preso na suíça, onde aguarda uma possível extradição para os EUA por conta de uma acusação de estupro que data dos anos 70. No filme, um thriller político de primeira linha, Polanski aproveita o ensejo proporcionado pela história de cunho político para exercer seu cinismo no que pauta as relações internacionais travadas entre Inglaterra e Estados Unidos. No filme, o escritor vivido por Ewan McGregor é contratado para redigir as memórias do ex-primeiro ministro inglês Adam Lang (Pierce Brosnan) e se vê envolto em um emaranhado de mistérios e intrigas que o levam a questionar muito mais do que o seu voto. A figura de Lang, obviamente, remete a Tony Blair. Político carismático que fez um governo pró EUA e que saiu pelas portas dos fundos. Pierce Brosnan, com sua caracterização meticulosa, força a comparação.
Polanski é exímio contador de histórias, por isso mesmo, desenvolve muito bem a trama (que escreveu com o amigo, jornalista e escritor da obra na qual o filme se baseia, Robert Harris). A narrativa de O escritor fantasma é fluída, bem dosada e confia na perspicácia do espectador (assim como em sua formação cultural). O diretor, além de mostrar extremo domínio dos cacoetes do cinema de gênero (já fazia algum tempo que ele não retomava o universo de sua obra prima, Chinatown), demonstra esmero na criação das cenas. Desde a iluminação de algumas delas, passando pelos closes nos personagens em cenas capitais e no exemplar uso da magnífica trilha sonora de Alexandre Desplat e culminando na elaboração de alguns belos planos que só atestam a genialidade de Polanski como cineasta.
Brosnan e McGregor estão brilhantes no filme que atesta mais uma vez o gênio do diretor franco polonês

Apesar dos vistosos acertos e da sofisticação com que a narrativa é conduzida, O escritor fantasma não deixa de parecer, em alguns momentos, um protesto barato de Polanski para com um governo que lhe é hostil. Ao aventar a realidade em quase todo fotograma, Polanski depõe contra a própria essência do cinema de emular, ou até mesmo reproduzir, a realidade por uma veia ficcional. O próprio o fizera, em um recorte quase biográfico, em O pianista. O escritor fantasma não deixa de ser um belo filme, dos melhores do ano seguramente, mas acaba diluído pela cisão entre o homem e o cineasta.

Editorial - Ideias boas que não dão certo

É raro alguém vir a público lamentar um erro. Ou reconhecer que não teve um desempenho dos mais felizes em alguma coisa. O fracasso é indigesto. E a nobre atitude é tomada como fracasso. Mesmo que não seja o caso. A história provê vários exemplos. Na política (Há quem diga que Obama era uma excelente ideia que não está dando certo), na música (a carreira solo de John Lennon, as muitas transformações de Britney Spears) e no próprio cinema (onde os exemplos são tantos e tão prolíferos que não seria de bom tom citar apenas um). Claquete se aproxima da marca de um ano de vida (se preparem para muitas novidades no mês que vem) e olhando para trás (a história ainda é curta), já se pode ver muitos acertos, alguns erros e algumas boas idéias que não vingaram. Entre n razões, talvez por que não foram apresentadas no momento adequado. As páginas de ícones e musas do Blog se ajustam a essa orientação. São duas ótimas ideias. Lisonjeiras, nostálgicas e agregadoras. Mas não vingaram. O leitor, a principio, se mostrou entusiasmado, mas logo deixou para lá a eleição que se pretendia mensal. Esse foi um movimento compreensível. Afinal de contas, todas as figuras listadas eram ícones e musas do cinema. Era muita pretensão do blog, para não dizer uma proposição um tanto esvaziada de sentido, outorgar um título a esses artistas que eles já detém por direito. O leitor do blog, em um movimento que só afirma a inteligência e perspicácia do mesmo, percebeu isso e sinalizou que a ideia, embora carinhosa e bem intencionada, estava um pouco deslocada de sentido.
Os posts que propunham as eleições de ícones e musas ficam, como lembrança de que errar faz parte da construção de qualquer projeto. As páginas saem, até porque novas virão. Fica o convite para que a participação do leitor permaneça. De forma direta ou indireta. Um leitor pró – ativo é tudo que um blog sobre cinema precisa para vingar como (boa) ideia.