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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Crítica: Bling ring - a gangue de Hollywood


Existência canibalizada

Bling ring – a gangue de Hollywood (The bling ring, EUA 2013) é uma progressão natural do cinema de Sofia Coppola. É pop, aprofunda o olhar da cineasta sobre o mundo da fama e acentua os interesses formais de sua dramaturgia pelas divagações existenciais no mundo dos ricos e famosos.
Baseado em uma reportagem da revista americana Vanity Fair, Bling ring é um filme cuja maior ousadia é comportar em si todo o glamour que objetiva criticar. Ou seja, Sofia se ressente de ir muito a fundo na crítica que enseja com seu filme, talvez por se reconhecer no universo que retrata, talvez porque antes da crítica venha o esforço, e genuíno interesse, de compreensão desse mundo perdido entre dois universos. O dos mortais e dos imortalizados pelo show business. A participação de Paris Hilton, que abriu sua casa à produção e faz uma ponta no filme, nesse contexto, destaca esse aspecto de retroalimentação que Bling ring se presta. É o feitiço de Narciso em sua encarnação mais insinuante. Essa dialética, que passa incólume para muitos observadores, torna Bling ring um filme muito mais interessante. Mais concatenado. Mais senhor de sua essência. Ainda não é o filme que o talento de Sofia Coppola, tão bem insinuado em Encontros e desencontros, pode ofertar, mas é um passo consciencioso nesse sentido.
Como já se sabe, o filme acompanha um grupo de jovens de classe média alta de condomínios ostensivos de Los Angeles que invadiam e furtavam as casas de famosos quando eles estavam ausentes. O absurdo da história ganha contornos ainda mais espetaculares porque eles localizavam a casa de suas vítimas pelo google street view e sabiam de suas agendas pelo site de fofocas TMZ. Esse tipo de culto, em que se se canibaliza ao máximo seu ídolo, é um prato cheio para o cinema de questionamentos irresolutos de Sofia Coppola. Rebecca, a personagem de Katie Chang, mentora intelectual da informal gangue, não por caso se mira em Lindsay Lohan (conhecida por seus inúmeros problemas emocionais), quando interrogada pelo policial quase surta para saber o que Lindsay, afinal, havia comentado sobre ela. É aí, nesse particular comentário, que Sofia Coppola brilha.

Pode não parecer, mas a atuação pontual de Emma Watson - como uma patricinha periguete deslumbrada - é um dos alicerces do novo filme de Sofia Coppola

A alienação da juventude atual, constantemente conectada na internet em um ritual de auto-adoração frenética nas redes sociais, é a argila perfeita para Sofia moldar suas reflexões (ainda que elas sejam as mesmas) sobre esse universo tão perseguido nesse mundo de realities shows e toda sorte de derivados da profecia de Andy Warhol.
A construção do filme favorece esse distópico caráter de crítica e glamourização. É uma abordagem corajosa enfatizar o vazio da existência e se deixar por ele seduzir. Costuma-se dizer que para se entender determinada questão, deve-se procurar olhar com “outros olhos”. É o que Sofia procura fazer aqui. Para depois retomar as alças do filme e oferecer um contraponto até certo ponto esperado por quem se predispõe a assisti-lo. Justamente por isso ela radicaliza alternando o desenvolvimento da ação, com o recolhimento de depoimentos dos envolvidos por uma jornalista da Vanity Fair. É uma maneira de lembrar o público que seu filme se trata, afinal, de uma versão. Nesse sentido, os personagens de Emma Watson e Israel Broussard são pontuais. Seus personagens, nos caminhos emocionais distintos que seguem depois que seus delitos se tornam públicos, são as duas faces de uma moeda que todos, admitam ou não, guardam em seus bolsos.
Bling ring, com um elenco no ponto certo, uma trilha sonora eloquente, uma fotografia pulsante e uma direção que sabe precisamente aonde quer chegar, é o filme mais maduro de Sofia Coppola. Ainda que não seja o melhor.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Filme em destaque: Bling ring - a gangue de Hollywood

Jogo de espelhos na cultura de celebridades
Novo filme de Sofia Coppola, baseado em eventos reais, expande o interesse de seu cinema pela fama e suas reminiscências encorporando glamour, crítica e o lado B da geração Y


“Eu acho que Los Angeles é o centro da cultura americana atualmente por causa de todos esses reality shows, como o “Kardashians”, que são filmados em Hollywood e Los Angeles. E a cultura do tapete vermelho se tornou muito influente em todo o país”, diz Sofia Coppola sobre a influência e ambiente de seu novo filme, Bling ring – a gangue de Hollywood que estreia nesta sexta-feira nos cinemas brasileiros. “Essa história só poderia se dar aqui”.
Após ler a reportagem de Nancy Jo Sales (“Os suspeitos vestiam Louboutins”) na revista Vanity Fair, Sofia Coppola encontrou o filme que sucederia o êxito parcial de crítica e vencedor no Festival de Cinema de Veneza Um lugar qualquer.  
A reportagem dava conta de mostrar os jovens que invadiram e furtaram as mansões de celebridades como Orlando Bloom, Paris Hilton, Rachel Bilson, Lindsay Lohan entre outras. “Quando comecei nisso (no roteiro), Nancy me deu suas transcrições das entrevistas com os jovens reais. Eu não podia acreditar em algumas coisas que eles haviam dito, aquilo revelava muito sobre eles, seus objetivos e nossa cultura. Eu meio que deixei minha imaginação ir a partir dali”, disse no material divulgado à imprensa pela distribuidora brasileira.
Sofia conta que colocou no filme muito do “que lembra do que é ter essa idade” em referência ao fato dos protagonistas serem adolescentes deslumbrados com a fama.
“Estou sempre falando de pessoas que lidam com a fama como um fardo”, pontua em entrevista ao jornal O Globo. “No caso de Bling ring, falo disso, mas quis avançar na forma de tratar o tema a partir do discurso corrente dos personagens que se movimentam e pensam via internet. Minha narrativa parece uma sucessão de spams com vários fatos corriqueiros saltando”.

Trash chic: deslumbramento pela fama, juventude, ociosidade e glamour se confundem no novo filme da diretora de Encontros e desencontros

Osmose
A escalação do elenco era ponto nevrálgico para as pretensões de Coppola em relação ao filme. “Era muito importante achar pessoas autênticas realmente dessa idade, porque sempre me incomoda ver atores de 25 anos vivendo adolescentes”, explica a filha de Francis Ford Coppola.
Emma Watson, o nome mais conhecido do elenco, vive Nicki, uma piriguete. “Eu tive que fazer coisas que como eu mesma, Emma, jamais faria. É divertido explorar um lado diferente de si mesma por meio de um personagem”, expõe a atriz que aos poucos vai deixando a bruxinha Hermione da franquia Harry Potter para trás.
O que chama a atenção é que Coppola, mesmo que inadvertidamente, acabou por escalar para viver esses jovens obcecados pela fama um punhado de intérpretes que já tem alguma ideia desse universo. Taissa Farmiga, que vive Sam, a irmã adotiva de Nicki, é irmã da atriz Vera Farmiga e já atuou, por exemplo, na série de tv American Horror Story. Claire Julien, que vive Chloe, é filha do diretor de fotografia Wally Pfister. Ela conta que não houve dificuldade em entrar na personagem. “Muitas pessoas me dizem que eu fui uma boa escolha para fazer a personagem e eu concordo até certo ponto. Eu não faria coisas que Chloe fez, nem faria as mesmas escolhas que ela, mas eu posso ver semelhanças. Temos senso de humor parecido, o mesmo gosto musical e usamos o mesmo tipo de linguagem”.
O principal personagem da trama, no entanto, é Mark – vivido pelo ator estreante Israel Broussard. “Creio que Sofia queria  que Mark fosse o coração da história. Há algo que inspira compaixão nele”, diz o ator que vive o único menino da trupe e que, novo na escola, vive às voltas com a indefinição de sua sexualidade.
A busca por veracidade no registro é tanta que Paris Hilton, uma das celebridades lesadas pelo The bling ring, surge como ela mesma no filme e abre as portas de sua mansão para que o filme de Coppola possa se confundir uma vez mais com o real.
Emma e Sofia na premiere em Cannes
“Meu amigo Stephen Dorff (protagonista de Um lugar qualquer) me chamou e disse que Sofia queria falar sobre algo comigo”, relembra Paris. “Ela me falou sobre esse projeto. E é claro que eu sei muito sobre a história verdadeira porque eu estava envolvida na vida real, então eu estava muito excitada em atender ao chamado dela e fazer parte disso. Eu realmente estava nas boates com essas garotas que estavam usando vestidos que roubaram do meu armário na minha frente e eu não tinha ideia.”
Como parte da preparação para o longa, os atores tiveram que assistir horas de realities como “Pretty wild”, The simple life” e programas como “The hills”.
Lançado na mostra Um certo olhar do último festival de Cannes, Bling ring – a gangue de Hollywood foi recebido de maneira positiva pela grande maioria da crítica e saudado como uma  bem- vinda mudança de tom de Sofia Coppola, ainda que seus interesses característicos estejam todos lá. “Eu acho que há uma mistura de glamour e crítica no filme; mas no fim isso vai dar ao público algo sobre o que pensar”, finaliza Coppola sobre sua mais recente empreitada cinematográfica.   

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Os escolhidos para o 66º festival de Cannes


Justin Timberlake e Carey Mulligan em cena de Inside Llewyn Davis, novo filme dos irmãos Coen, um dos principais destaques do festival em 2013


Foi divulgado nesta quinta-feira (18), o line up da 66ª edição do festival de cinema de Cannes, que será realizado entre os dias 15 e 26 de maio e cujo júri será presidido por Steven Spielberg.
Muitos dos filmes que Claquete havia antecipado na última edição da seção Em off integram a mostra competitiva do festival; outros, como The bling ring: a gangue de Hollywood, de Sofia Coppola e Blood ties, de Guillaume Canet foram acomodados em outros eventos paralelos à competição principal.
À primeira vista, trata-se de uma lista de personalidade, mas inferior às últimas edições. Não há medalhões de Cannes como um Pedro Almodóvar, um Michael Haneke ou mesmo Lars Von Trier, que não conseguiu finalizar a tempo seu audacioso projeto The nymphomaniac. É uma das edições, também, com a menor participação de prévios vencedores da Palma de Ouro. Apenas os americanos Steven Soderbergh e os irmãos Coen e o franco polonês Roman Polanski já triunfaram em Cannes, respectivamente com Sexo, mentiras e videotape (1989), Borton Fink – delírios de Hollywood (1991) e O pianista (2002).
No entanto, é preciso reconhecer que a ausência dos titãs de Cannes oxigena o festival que pode ter a chance de apresentar ao mundo trabalhos mais arejados e inovadores. Chamam a atenção a forte presença americana, um hábito cada vez mais encorpado na riviera francesa, a retomada do cinema asiático à parte da produção sul-coreana (protagonista ao lado dos americanos das últimas edições do festival) e a presença solitária da atriz e diretora alemã Valeria Bruni Tedeschi como única mulher na disputa pela Palma de Ouro com Un Chetêau em Italie.
A Europa, como bloco, também se impõe e a América Latina novamente se encolhe. Apenas o mexicano Heli, do espanhol Amat Escalante, representa o continente que já havia desaparecido da seleção do ano passado.

Cartaz do novo filme de Asghar Farhadi, que suscita grandes expectativas, o primeiro depois do Oscar por A separação e o primeiro rodado na França

James Franco, figurinha carimbada dos últimos festivais de cinema (na foto em Berlim), estará na mostra Um certo olhar apresentado mais um filme dirigido por ele 

Expectativas
É inegável que as maiores expectativas pairam sobre a seleção americana. São cinco filmes, se contarmos a coprodução Only God forgives, de Nicolas Winding Refn, que também reúne França e Dinamarca como financiadores. Nebraska, de Alexander Payne é um road movie em preto e branco que dá sequência ao elogiado trabalho de Payne que lhe levou ao Oscar, Os descendentes. Inside Llewyn Davis é o aguardado mergulho dos irmãos Coen na cena folk americana que formou artistas como Bob Dylan. The immigrant, anteriormente chamado Low life, é o restabelecimento da parceria entre o diretor James Gray e Joaquin Phoenix. Prostituição, romance e violência estão no foco do filme. Behind de Candelabra, de Steven Soderberg é a segunda produção original para a tv a aterrissar em Cannes em quatro anos. Em 2010 foi a minissérie Carlos, de Oliver Assayas. Enquanto sinaliza uma flexibilização no conceito de arte e demonstra a força e representatividade da tv americana atual, a opção pelo filme sobre o compositor americano gay Liberace é também uma chance de trazer à pauta de Cannes um tema de reverberação mundial como a união homossexual.
Cena de Jeune et jolie, de François Ozon: um thriller com
forte voltagem sexual em uma edição com propensão
ao sexo
 
Outro filme bastante aguardado é Venus in fur, de Roman Polanski. A produção mostra uma atriz que tenta convencer um diretor de sua adequação para determinado papel. A fita é estrelada por Mathieu Amalric e Emmanuelle Seigner, mulher do diretor. O diretor também exibirá outro trabalho em uma sessão especial.
Outros filmes que suscitam expectativas na disputa pela Palma de Ouro são Jeunie et Jolie, de François Ozon, Le passe, de Asghar Farhadi, La Grande bellezza, de Paolo Sorrentino e Soshite Chichi ni naru, de Kore-eda Hirokazu.
James Franco, que ultimamente tem lançado um filme em cada festival de cinema, é um dos destaques da mostra Um certo olhar com As I lay dying. O principal evento paralelo à disputa pela Palma de ouro terá o filme de Sofia Coppola como exibição na abertura. E é a estrela desse filme que promete ser uma das sensações no tapete vermelho. Trata-se de Emma Watson em papel que Cannes espera desperte algumas polêmicas. A despeito de Franco e Watson, será uma das edições de Cannes menos estreladas. Haverá Justin Timberlake e Ryan Gosling, mas sem figuras como Brad Pitt, Nicole Kidman, Robert Pattinson e Kristen Stewart como no ano passado, reside em Leonardo DiCaprio e o filme de abertura que estrela, O grande Gatsby, a grande coqueluche hollywoodiana dessa edição de Cannes.

1- O astro: Leonardo DiCaprio é a grande aposta para os holofotes em Cannes; 2- O filho pródigo: o idolatrado Roman Polanski volta em grande estilo à riviera francesa; 3- a estrela solitária: Valeria Bruni-Tedeschi é a única cineasta em competição na mostra oficial


Confira os filmes selecionados para a disputa da Palma de Ouro

Only God Forgives, de Nicolas Winding Refn

Borgman, de Alex Van Warmerdan
Behind the Candelabra, de Steven Soderbergh
La Grande Bellezza, de Paolo Sorrentino
Jeune et Jolie, de François Ozon
Nebraska, de Alexander Payne
La Venus a la Fourrure, de Roman Polanski
Soshite Chichi ni Naru, de Kore-Eda Hirokazu
La Vie D'Adele, de Abdellatif Kechiche
Wara No Tate, de Takashi Miike
Le Passe, de Asghar Farhadi
The Immigrant, de James Gray
Grisgris, de Mahamat-Saleh Haroun
Tian Zhu Ding, de Jia Zhangke
Inside Llewyn Davis, de Ethan Coen, Joel Coen
Michael Kohlhaas, de Arnaud Des Pallieres
Jimmy P., de Arnaud Desplechin
Heli, de Amat Escalante
Un Chateau en Italie, de Valeria Bruni-Tedeschi



terça-feira, 20 de novembro de 2012

Spotlight on - A escolha das diretoras



Mais cedo nesse ano, algumas artistas ligadas ao cinema, enviaram uma carta aberta à direção do Festival de Cannes protestando pela presença diminuta de diretoras entre os selecionados para participar do festival. O diretor do evento, Thierry Frémaux, rebateu a crítica das feministas e disse que a seleção se esmera na oferta e na proposta pertinente aos preceitos do festival. E é verdade. A edição 2011 do evento francês, por exemplo, havia sido bastante elogiada pela vasta presença de diretoras entre os principais concorrentes na croisette.
Mas porque esse caráter pendular na presença de diretoras em festivais de cinema? A resposta é fácil. Ainda são poucas. Disso, o leitor mais antenado no mundo do cinema já sabe, mas o que não é tão óbvio assim é o caminho traçado pelas diretoras atuantes nesse momento e, muito menos óbvio, é o impacto que as escolhas delas terá no futuro e na formação de novas cineastas.
É fácil apontar quem goza hoje de maior influência entre as mulheres que dirigem. Sofia Coppola, é bem verdade, carrega no nome o peso artístico de seu pai, mas com apenas quatro filmes no currículo de diretora, ela já criou uma marca própria e uma galeria de fãs incondicionais de seu cinema. O caminho pavimentado por Sofia, de diretora cult, não é apenas uma nota de rodapé na história que as diretoras constroem. Está com Sofia a tocha de seduzir e influenciar jovens mulheres na hora de optar pela direção. É a filha de Francis Ford quem melhor reúne condições de ser “o Steven Spielberg” de sua geração para as mulheres. A oscarizada Kathyrn Bigelow, por sua vez, também desempenha papel importante na formação de novas diretoras de cinema. Se ela não é conhecida por fazer filmes autorais em que prevaleça a famigerada sensibilidade feminina, ela mostra que mulheres podem sim fazer “filmes de menino”. É dela o neo cult Caçadores de emoção (1991), em que Keanu Reeves e Patrick Swayze são surfistas e policial e bandido respectivamente, e o premiado Guerra ao terror (2009). São filmes que se não entregassem os créditos, dificilmente seriam atribuídos a uma mulher. Bigelow, ao se tornar a primeira mulher a faturar um Oscar por direção por Guerra ao terror, no entanto, pode ter reforçado a noção de que apenas um olhar essencialmente masculino em certas produções é premiável. Uma questão que, no momento, só se pode especular. De qualquer jeito, Kathyrn Bigelow abre portas para que mulheres avancem sobre territórios masculinos no cinema e, com o tempo, promovam mudanças mais estruturantes.

Sofia em ação: sensibilidade e marca feminina na hora de dirigir anunciam grande capacidade de influência na formação de novas cineastas


O lado B
Há, contudo, aquelas diretoras que enxergam na função uma extensão de seus talentos. Assim como ocorre entre os atores, há atrizes que cederam ao impulso de dirigir. Dessas, a mais consistente é Sarah Polley. Atriz de pouca popularidade e reverberação crítica, Polley atingiu público e crítica em cheio com o drama Longe dela (2006), uma história de amor transformada pelo Alzheimer. Com roteiro e direção de Polley, chega agora aos cinemas brasileiros Entre o amor e a paixão (2011), outra história de amor com forte prospecção dramática. Nos últimos festivais de Veneza e Toronto,ela exibiu o documentário Stories we tell, um filme sobre como a memória transforma experiências familiares. Todos muito elogiados. Polley diminuiu seu ritmo como atriz para se dedicar a essa nova e criativa fase. Já Angelina Jolie, atriz blockbuster que vez ou outra se experimenta por um cinema mais sério, debutou na direção no ano passado com Na terra de amor e ódio (2011). O filme tem uma inegável pretensão artística e autoral, o que não deixa de se configurar um contraponto à persona de Angelina Jolie nas telas.
Já Nancy Meyers, roteirista veterana de Hollywood que, em 2000, debutou na direção com Do que as mulheres gostam, optou por fazer seus próprios filmes a dividir o mérito de seu afiado texto e expertise feminina com diretores homens. Desde o filme estrelado por Mel Gibson- que ainda resiste como a maior bilheteria do astro – Meyers lançou três títulos. Todos grandes sucessos de bilheteria. O ponto a se observar é que ela mantém o foco em personagens femininas fortes e sempre busca dar voz a dilemas essencialmente femininos. Esse gosto se estabeleceu definitivamente em sua encarnação como diretora, quando passou a ter total controle sobre seus textos.

Sarah Polley já ostenta três elogiadíssimos filmes no currículo de diretora e demonstra que o ofício como atriz pode ser um estágio para algo maior e mais criativo 

A libanesa Nadine Labaki estrela os filmes que dirige e não se furta a tratar de assuntos polêmicos sob perspectivas essencialmente femininas


Diversificação é palavra de ordem
Outras diretoras desempenham importante e qualificado papel nesse tabuleiro. Jane Campion é uma delas. Campion nada mais é do que a segunda mulher a concorrer ao Oscar de direção (até hoje não passaram de quatro). Campion foi a primeira mulher a efetivamente permear a película do feminino. Isso lhe rendeu uma Palma de ouro em Cannes com O piano (1994). A diretora já errou a mão (Fogo sagrado, Em carne viva), mas manteve-se fiel a sua proposta de cinema e sempre ativa e interessante.
Outras diretoras que vão construindo legados necessários são a libanesa Nadine Labaki, cujo mais recente filme (E agora, onde vamos?) acabou de ser lançado nos cinemas brasileiros, Lynne Ramsey, do angustiante Precisamos falar sobre Kevin (2011), e a brasileira Laís Bodanzky que estabelece uma cinematografia plural, pensante e representativa na nova cena cinematográfica brasileira.
São mulheres que carregam o peso do futuro em seus ombros, mas agem com extremo bom gosto e pertinência em suas escolhas pontuais. Mas definitiva, e ainda por ser mensurada, foi a escolha de Haifa al Mansour, que se tornou a primeira diretora de cinema da Arábia Saudita, seguramente o país mais repressor no que tange as mulheres. Mansour obteve, ainda, o feito de dirigir em seu próprio país. Seu primeiro filme, Wadja, não deve ser exibido na Arábia Saudita, mas já foi mostrado no último festival de Veneza. São mulheres, cada qual a sua maneira, contribuindo para que tantas outras tenham escolha na sétima arte.

Jane Campion, uma das mais longevas e interessantes diretoras, orienta Meg Ryan e Mark Ruffalo no set de Em carne viva, um de seus filmes mais desafiadores 

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Panorama - Um lugar qualquer


Um ator, um hotel, uma menina que desperta nele uma luz interior. Não se trata de Encontros e desencontros, mas de Um lugar qualquer (Somewhere, EUA 2010), vencedor do Leão de ouro no festival de Veneza em 2010. O último filme de Sofia Coppola é sua afirmação como cineasta. É onde ela recupera temas e questões de seu cinema e os afina com perícia técnica em sobreposição a sensibilidade. A sensibilidade da cineasta em Um lugar qualquer não deve ser intuída pelo espectador, deve ser percebida. Essa é a grande preocupação de Sofia ao contar a história de um astro de filmes de ação americano que descobre a paternidade em meio ao vazio existencial que lhe preenche entre festas, noitadas e entrevistas promocionais.
E Sofia consegue. Um lugar qualquer é brilhante sob o ponto de vista da realização. Com uma narrativa sofisticada, o filme revela uma cineasta segura de suas escolhas e ciente das opções narrativas que faz. A fita só não resplandece como o melhor filme de Sofia Coppola porque já vimos um filme sobre um ator, um hotel e uma menina que desperta nele uma luz interior. Esse filme, em que a sensibilidade da diretora podia ser intuída, se chamava Encontros e desencontros.

domingo, 24 de abril de 2011

Insight

Para onde vai o cinema de Sofia Coppola?



Após quatro filmes, muita festa, um Oscar de roteiro, uma indicação ao Oscar de direção, um leão de ouro e de ter concorrido a Palma de ouro, a indagação se impõe: para onde vai o cinema de Sofia Coppola? A pergunta se justifica pelo culto à cineasta que divorciou-se do status de “filha de Coppola” para criar uma marca pessoal da qual, nesse momento, parece refém.
Muitos defendem que Sofia realiza o mesmo filme, sem acrescentar nenhuma espécie de juízo ou percepção, variando apenas o espaço-tempo. A afirmação carrega uma certa dose de intolerância, mas não é desprovida de sentido. O cinema de Sofia Coppola guarda algumas reminiscências e se Sofia avançou na técnica de diretora – algo que pode ser sentido em Um lugar qualquer – não dá para dizer, em uma separação pontual, que avançou como cineasta. Sua obsessão temática a faz apurar o escopo sobre solidão, incompreensão e outros ardis que tanto lhe interessam, mas dá pistas de que Sofia seja uma cineasta enclausurada em si. Incapaz de pensar além do espelho. De guiar-se pelo imaginativo. De curiosidade arguta e sensitiva.

 Sofia em momento "I´m the fucking deal": moda e cultura indie se sintonizam com seu cinema


Kirsten Dunst desnuda-se como a Maria Antonieta de Sofia Coppola: diferente de todas as outras leituras...


Encontros e desencontros parece tão vivo em Um lugar qualquer não por mero acaso. Toda a estrutura do filme estrelado por Bill Murray está presente em seu mais recente trabalho. A diretora parecia disposta a refinar (do ponto de vista narrativo) uma história que já havia contado. As características presentes em seus quatro filmes sugerem que essa será uma constante em seu cinema. A recepção a seu último filme sugere, também, que a crítica lhe será cada vez mais reticente.
As vaias na exibição oficial em Cannes de Maria Antonieta (em 2006) sintetizavam um descontentamento da crítica em perceber que Sofia havia ajustado a célebre personagem francesa a desajustes modernos e que se correlacionavam com as demandas emocionais verificadas nos filmes anteriores. A subversão proposta por Sofia não havia sido bem recebida. O viés feminista inerente ao cinema da filha de Coppola (muito forte nos três primeiros filmes) não passava de um instrumento. Não era em si significativo. Essa percepção também esvaziou o conceito do cinema de Sofia. Não que toda mulher que dirija deva fazer um cinema feminista, mas as personagens de Sofia (e Maria Antonieta mais do que todas) tragavam esse pathos em essência. Pelo menos teoricamente. O feminismo no cinema de Sofia Coppola se resolvia como um subterfúgio narrativo. Não que os filmes resultassem menos sensíveis, aprofundados e dialéticos em razão disso. Mas uma vez notada essa idiossincrasia, a magia do que Sofia tinha a dizer, menos se parecia com magia.

Sofia nos sets de Um lugar qualquer: um cinema preso em divagações do próprio mundo



Talvez por isso, em Um lugar qualquer haja tanto esmero técnico. Sofia quer certificar-se de que o público vivencie o que seu protagonista experimenta (o tédio). Novamente ensejada em falar de solidão, a diretora consegue evoluir dentro desse objetivo; mas faz sua audiência crer que ir ao cinema ver Sofia Coppola será sempre uma análise, nem sempre tão satisfatória, da inadequação solitária (redundante assim mesmo). De preferência, envolta em luxo.

sábado, 23 de abril de 2011

Panorama - Maria Antonieta

O filme posterior a Encontros e desencontros, naturalmente, atrairia atenção e expectativas desmedidas. Maria Antonieta foi selecionado para concorrer à Palma de ouro em Cannes e foi um dos filmes mais destruídos da edição de 2006 do festival. A percepção é de que Sofia não fazia filmes e sim ventilava algumas sensações próprias em sua narrativa. A Maria Antonieta da diretora era incompreendida, mas nem de longe a incompreendida que a História pincelava. Sofia Coppola faz um filme de rearranjos sofisticados e muita liberdade criativa. Não era a liberdade com que Sofia retratava aquele universo que incomodava parte da crítica, mas sim a ausência de um propósito em “imaginar” Maria Antonieta. O propósito era, ainda que enquadrado em proporções distintas, o mesmo de acompanhar o solitário Bob Harris (protagonista de Encontros e desencontros): a solidão do poder, o desprestígio do prestígio e todas essas contradições bem particulares. Esperava-se um filme investigativo sobre aquela personalidade tão cativante, não que a personalidade tão cativante fosse mero instrumento de identificação para os interesses da cineasta. E foi por não corresponder essas expectativas, por não exceder o mero e óbvio jogo de espelhos que Sofia Coppola foi vaiada em Cannes.
O filme é uma adaptação rasa, mas musicada, de seus dois filmes anteriores. Com boa música, figurinos sobressaltados e uma Maria Antonieta histriônica, Sofia Coppola realiza o filme menos marcante de sua filmografia e o que lhe suscita mais críticas.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Momento Claquete # 13

Fernando Meirelles bate um papo com a atriz brasileira Maria Flor e o astro galês Anthony Hopkins nos sets de 360º, novo filme do diretor. As filmagens ainda estão acontecendo

Caio Blat em cena do premiado Bróder, de Jefferson De. A fita que foca na amizade de três jovens oriundos do bairro do Capão Redondo em São Paulo estréia nessa quinta-feira (21 de abril) nos cinemas 

O elenco de Velozes e furiosos 5: operação Rio na premiere internacional do filme, realizada na sexta-feira (15 de abril) no Rio de Janeiro. Matéria exclusiva sobre o filme em Claquete na quinta-feira, 5 de maio- véspera do lançamento do filme no Brasil.

O Coringa brinca com o Batman nos sets da melhor adaptação de HQ da história. No próximo domingo, a seção Tira-teima irá trazer mais detalhes sobre esse filme no embate entre Marvel x DC no cinema 


O agente J (Will Smith) viaja ao passado para encontrar o jovem agente K (Josh Brolin fazendo as vezes de Tommy Lee Jones) em Homens de preto 3. As filmagens começaram há duas semanas e a fita deve estrear apenas em 2013 


 Stephen Moyer e Alexander Skarsgard em foto promocional da nova temporada de True Blood. O quarto ano da série dos vampiros de Bon Temps estréia em junho na HBO americana


Sofia Coppola orienta Kirsten Dunst nos sets de As virgens suicidas, seu primeiro filme. A diretora é destaque da mostra Panorama neste mês de abril em Claquete e no próximo domingo, a seção Insight lança a pergunta: para onde vai o cinema de Sofia Coppola? 

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Panorama - Encontros e desencontros


É inegável que este é o filme mais cultuado e mais particular de Sofia Coppola. Ainda que não seja o mais pessoal. É difícil distinguir pessoal do particular – ainda mais com o cinema de Sofia como campo demográfico. Contudo, Encontros e desencontros (Lost in translation EUA 2003) facilita a tarefa. É um filme de investigação da solidão e da erupção de sentimentos e sensações que esta desencadeia. E Bill Murray, que teve o papel de Bob Harris – o ator falido que vai ao Japão gravar um comercial e se deixa cativar pela solitária personagem de Scarlett Johansson – escrito especialmente para ele, é tão importante para o filme de Sofia quanto suas próprias experiências. É sabido, e Sofia gosta de sugerir isso com sua dramaturgia, que sua vida no mundinho de Hollywood lhe inspira como artista. E Murray expressa essa estafa de maneira sutil e, ainda assim, peremptória. Encontros e desencontros não é só sobre amarguras. É sobre o estado de sítio da alma. É pontual que a história se passe com dois americanos no Japão. Não é preciso ceder a miudezas como, por exemplo, o marido fotógrafo star de Scarlett (visivelmente decalcado de Spike Jonze, ex de Sofia) para perceber o refinamento das metáforas da filha de Coppola e a busca pela consagração de um estilo próprio e minimalista. Sofia sinaliza com Encontros e desencontros que busca falar consigo mesma através do cinema. Essa espécie de cinema terapia é referência pós-feminista ou taquicardia passional? Encontros e desencontros é um bom filme sobre temas que, de uma maneira ou de outra, são recorrentes na cinematografia mundial. O que torna o filme de Sofia especial é o despudor com que se assume nostálgico, introspectivo e minucioso em seu microcosmo. Um paradoxo que fascina e surpreende.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Panorama - As virgens suicidas


Sofia Coppola é conhecida como uma cineasta do feminino. Que abrange sentimentos femininos e que reveste seus filmes de uma energia e compreensão que só podiam emanar de uma mulher. Essa percepção foi avalizada por seu filme de estréia. O impactante, ainda que irregular, As virgens suicidas (The virgin suicides, EUA 2000) é o filme que delimita o escopo do cinema de Sofia. É aqui que ela demonstra o interesse em descortinar o estado de espírito de seus personagens. Em buscar no relativismo de suas essências, respostas para as próprias angústias. No filme, Sofia acompanha o desabrochar da depressão que acomete quatro irmãs após o suicídio de uma outra. Pode-se dizer que a loira Kirsten Dunst também se beneficiou da repercussão do filme. Além de atingir o estrelato com Homem aranha, voltaria a trabalhar com Sofia em um filme bem mais comentado, Maria Antonieta.
As virgens suicidas é lento, introspectivo e pensativo. Características que acompanhariam Sofia em seus próximos filmes. Ainda insegura quanto ao ofício, Sofia hesita na direção dos atores. As referências não são trabalhadas com elegância, mas é perceptível que a diretora busca confluir música e estilo a seu cinema. A inadequação experimentada pelas personagens é envernizada pela diretora em uma metalinguagem involuntária que ela dominaria mais tarde. A resolução de As virgens suicidas denota que Sofia ainda tem muito que pensar no cinema.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Crítica - Um lugar qualquer

Patenteando um estilo de fazer cinema

A cena que abre Um lugar qualquer (Somewhere, EUA 2010) é impressionante. Mas mais do que impressionar ela estipula que estamos assistindo um filme de Sofia Coppola. Essa é a grande contribuição desse filme que venceu, de maneira contestada e cercada de polêmicas, o leão de ouro no último festival de Veneza. Ao revisitar questões relevantes dentro de sua filmografia de uma perspectiva mais arejada, embutido a paternidade como elemento desafogador de um estado de catatonia, Sofia afirma seu estilo enquanto cineasta e sua obsessão temática.
O estilo dá conta de um cinema de ritmo próprio, pensativo, observador, enquanto que o tema se desdobra desde a solidão da fama até a melancolia que pode advir da incompreensão. Mais do que desenvolver seu personagem principal, um astro de Hollywood imerso em uma vida de superficialidades, Sofia o observa. E observa com paciência e apreensão. O ritmo do filme, com longos takes e silêncios demorados, convida o espectador a experimentar essa estafa um tanto quanto desorientada que Johnny Marco (Stephen Dorff) vivencia. Ao observá-lo com sua filha Cleo (Elle Fanning), que fica sob seus cuidados uns dias, o espectador logo percebe que se trata de um cara que não sabe apreciar a paternidade e nunca se preocupou em fazê-lo. O interesse de Sofia passa a ser então se há algo em Marco que responda a Cléo. Há. E é da descoberta desse algo que trata Um lugar qualquer. Não se trata de uma epifania. É uma alerta para a vida que um homem, que vegeta no luxo, teve não tão subitamente assim.

My guitar hero: pai e filha vivem momento de carinho...



Um lugar qualquer não é um grande filme. Também não é ruim. Posto em comparação com Encontros e desencontros, filme mais significativo da carreira de Sofia e com o qual este exemplar guarda algumas semelhanças, Um lugar qualquer sai perdendo em matéria de cinema, mas ganha em propriedade narrativa. Essa dicotomia ocorre por duas razões. Se em Encontros e desencontros Sofia contava com um ator do calibre e sensibilidade de Bill Murray, aqui ela dispõe de Stephen Dorff, que embora esforçado, nunca consegue deixar o espectador avançar à sua alma. É um ator, talvez, mais superficial em cena, do que o que vive no filme. Em compensação Um lugar qualquer delimita, pelo tom, pelos ângulos e pela composição de algumas cenas, uma cineasta mais madura, mais conectada com as especificidades da dramaturgia. É um filme muitíssimo bem dirigido. É o melhor trabalho de Sofia como diretora, ainda que ela já tenha feito melhor como roteirista.
Sofia, no entanto, já cede a vaidade. Ela vincula definitivamente esta fita a Encontros e desencontros. No filme estrelado por Bill Murray e Scarlett Jonhansson, no final do filme os personagens trocam um cochicho que ficamos sem saber o que é e conjecturamos sobre o que poderia ter sido. Em Um lugar qualquer Johnny Marco grita algo para sua filha e é abafado pelo som das hélices do helicóptero. Ela não ouve o que ele diz, mas nós sim. Sofia já faz figura de linguagem com os próprios filmes. É uma metáfora bonita. É algo para cravejar seu cinema de um requinte autoral que já é facilmente identificado por seus admiradores. Um lugar qualquer é a afirmação do estilo Sofia Coppola de fazer cinema. E tudo o mais que se vê no filme se submete a isso.

Filme em destaque: Um lugar qualquer

A nova introspecção de Sofia


Dizem que um grande cineasta faz sempre os mesmos filmes com uma ou outra variação temática. Dizem também que o quarto filme de Sofia Coppola é o mesmo que seu primeiro, segundo e terceiro trabalhos, mas com a tal da variação. Um lugar qualquer (Somewhere, EUA 2010), ganhador do leão de ouro no último festival de Veneza, é sobre melancolia e crise existencial, temas centrais na filmografia da cineasta.
Johnny Marco (Stephen Dorff) é um astro de filmes de ação de Hollywood que leva uma vida de superficialidades. Habituê do famoso hotel Chateau Marmont (onde John Belushi morreu de overdose), notório pela tolerância que dispensa a celebridades de toda a estirpe, Marco passa seus dias entre festas, álcool e sexo casual. Sem que se sinta necessariamente ligado a qualquer uma dessas coisas.


Sozinho com esse cara

Vida de um playboy acidental: Johnny Marco não é uma Linday Lohan, mas também não é um George Clooney



Sofia Coppola disse em entrevista a revista americana Premiere que sua intenção era deixar o espectador sozinho com Johnny Marco. Para que o público mais do que intuir, pudesse sentir o tédio, o vazio que caracteriza o cotidiano daquele homem entregue a melancolia da fama. A cena que abre Um lugar qualquer é, nesse sentido, de uma grandeza (ainda que dentro de um viés minimalista) sensorial. A câmera estática (característica do cinema da diretora) observa uma Ferrari dando uma, duas, três, quatro voltas em uma paisagem deserta. A Ferrari para e um homem, que logo viremos a saber que se trata desse Johnny Marco, sai do veículo e observa o nada a seu redor como quem não sabe exatamente que indagação deve fazer.
A solidão de Johnny Marco é interrompida pela chegada de Cleo (Elle Fanning). A filha de 11 anos que Marco recebe esporadicamente para programas tão exíguos quanto protocolares. Eis que a convivência acentuada com Cléo, possibilitada por um refugo nunca explicado a contento da mãe da menina, desperta uma ansiedade, um desejo oculto por algo mais real, vívido em Marco. É do alvorecer desse desejo que trata Um lugar qualquer e que também tratava Encontros e desencontros. A inadequação é um poderoso elemento no cinema de Sofia Coppola e Um lugar qualquer guarda muitas semelhanças com seu filme mais famoso.

Não é Veneza: Johnny e sua filha em uma premiação na Itália; sentimento de não petencimento em qualquer lugar



Ligação com a música
Outro elemento de força genuína no cinema de Sofia é a música. Como nos outros filmes, canções desempenham forte apelo narrativo e ajudam a decifrar tanto o estado de espírito dos personagens como o comentário que a diretora pretende fazer. Em Um lugar qualquer não poderia ser diferente. Entre silêncios e ruídos (sejam do motor da Ferrari ou do esfrega esfrega de strippers no poste de pole dance), a seleção musical de Um lugar qualquer, além de ótima qualidade, propicia uma conexão com a história de maneira quase midiúnica. “Acho que a música é uma forma de induzir a introspecção”, comenta a diretora sobre sua disposição de rechear seus filmes de músicas. A banda The strokes é uma constante. De quatro filmes, está presente em três. Mas Sofia - musa indie que escolhe bandas de igual prestígio entre os indies para seus filmes - argumenta que seus critérios se limitam a propriedade da história.
Para a cena em que Johnny Marco descobre um dos muitos talentos de sua filha, o espectador compartilha desse momento ao som de uma música genuinamente de gosto adolescente. Não é nova, mas nunca sai de moda e se ajusta perfeitamente ao momento de descoberta que se vislumbra. Sutilezas que enaltecem o cinema de Sofia. Ainda que você já a tenha visto fazer este filme antes, não o viu com essa música.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Cenas de cinema

Uma dupla que é um parto

Às vezes as ideias mais geniais são também as mais óbvias. O cineasta Todd Philips, saído do acachapante sucesso de Se beber não case, tinha uma outra ideia de comic road movie e um dos elementos na manga, Zack Galifianakis (grande nome do filme dos caras que sucumbem na terra dos cassinos). Mas faltava algo a mistura. Foi aí que Robert Downey Jr., que confessadamente recusa em média 10 roteiros por dia, manifestou interesse em ser a outra face dessa improvável e incrivelmente óbvia dupla de Hollywood performers (aquele tipo de estrela que sustenta um filme, uma série, um palco ou qualquer situação).
Depois de estrear nos cinemas brasileiros em 2010 com Sherlock Holmes e Homem de ferro 2, Downey Jr. assume uma comédia de fato (algo que já vinha fazendo com sutileza nos outros filmes) com o wing man (gíria inglesa para parceiro, camarada) mais cobiçado da comédia atualmente.
A crítica de Um parto de viagem será publicada em Claquete na próxima segunda-feira.



Indesejado Mel
What a fuck...: Mel Gibson ficou sem entender nada...


A maré definitivamente não está boa para Mel Gibson. No início de outubro foi anunciado que o ator faria uma pequena participação na sequência de Se beber não case como um tatuador americano retirado na Tailândia. A mídia americana começou a repercutir o fato como uma nova volta por cima de Mel Gibson e enxergando em sua participação algo tão ou mais divertido como a ponta de Mike Tyson no primeiro filme.
Acontece que três dias depois da confirmação oficial da participação de Gibson em Se beber não case 2, o diretor Todd Philips divulgou carta aberta em que afirmava acreditar que “Gibson seria ótimo no filme e que era um entusiasta da ideia, mas que em Se beber não case todos são uma família e nem todo mundo pensava da mesma forma”.
Para preservar a boa relação com a equipe original, os produtores resolveram então expor Gibson a mais um flagelo público. O ator teria ficado furioso com o acontecido. Boatos em Hollywood dão conta de que o pivô da “descontratação” do ator australiano teria sido Zack Galifianakis.



Saramago vive

Um documentário sobre uma história de amor. Exibido no último festival do Rio e na mostra de São Paulo, encerrada ontem, o filme José e Pilar busca dar viço à história de um casal pautado pelo companheirismo, cumplicidade, respeito, admiração e amor. A fita de Miguel Gonçalves Mendes não planeja dialogar com o público das comédias românticas, mas não exclui (até mesmo em virtude da força de seus personagens) os elementos comuns ao gênero. O filme, conduzido com leveza, simplicidade e humor, também é um pertinente retrato das convicções de Saramago. O pensamento do intelectual encontra refúgio na intimidade do homem. José e Pilar estréia hoje nas cidades de Rio de Janeiro, Brasíla, Porto Alegre e São Paulo.


Por que o novo filme de Sofia Coppola não vai ao Oscar?

Recentemente o vencedor no Festival de Veneza tem se legitimado na disputa pelo Oscar. Principalmente se for uma fita americana. Foi assim com O segredo de Brokeback mountain (2005) e O lutador (2008). Mas tudo indica que não será assim com Em qualquer lugar, vencedor da última edição do festival. Não bastasse o péssimo burburinho que acompanhou a vitória do novo filme de Sofia Coppola, a crítica americana não parece identificar um grande concorrente na fita. As primeiras impressões, embora sejam elogiosas, não qualificam a fita como algo digno de premiações. O que só reforça as acusações de favorecimento pelo júri presidido por Quentin Tarantino em Veneza.

 
5 coisas que você precisa saber sobre Julianne Moore ...
    ... que em novembro estrela o sucesso independente Minhas mães e meu pai


- Foi eleita pela revista Entertainment weekly uma das 25 principais atrizes dos anos 90
- Só aprendeu a nadar aos 26 anos
- O maior salário que já recebeu foi pelo filme Hannibal (2001). O valor foi de U$ 3 milhões
- É amiga de Tom Ford desde 1998, quando o conheceu. Na ocasião, ele fez o vestido que ela usou na noite do Oscar daquele ano. Além de ter estrelado o primeiro filme de Ford como diretor (Direito de amar), a atriz estrelou dez campanhas publicitárias da marca Tom Ford
- Já foi indicada quatro vezes ao Oscar, mas nunca ganhou. As indicações foram pelos filmes Boggie Nights – prazer sem limites (1997), Fim de caso (1999), As horas (2002) e Longe do paraíso (2002).



Passarela

 Você os viu em uma mesma cena em Os mercenários e eles estiveram reunidos no último Hollywood Gala Awards que homenageou Sylvester Stallone na condição de cineasta


Muito mais que 127 horas: O diretor Danny Boyle e o ator James Franco, do elogiado 127 hours, também estiveram no evento 


Não é duplicata: James Franco esteve muito bem acompanhado na premiere londrina de 127 hours


 He did it again: Leon Cakoff, mentor e organizador da Mostra de Cinema de São Paulo, foi bem sucedido na realização da 34ª edição do evento que tomou os ares da capital paulista por duas semanas


 Quem tem o maior cabeção? Brad Pitt, Tina Fey e Ben Stiller compareceram a premiere de Megamind em Los Angeles no dia 3 de novembro. A animação, que estréia hoje nas salas americanas, traz as vozes de Pitt, Fey e Will Ferrel


Xis: Andrew Garfield, Carey Mulligan e Keira Knightley fazem pose na abertura do festival de Londres, onde o filme que estrelam, Never let me go, foi destaque



Você por aqui? Keira também marcou presença no Festival de Roma, ao lado de Eva Mendes, para a premiere de Last night em 28 de outubro

domingo, 12 de setembro de 2010

Os vencedores do 67o Festival de cinema de Veneza


Somewhere, de Sofia Coppola recebeu o Leão de ouro neste sábado sagrando-se o grande vencedor do festival. “Esse filme nos conquistou desde a primeira cena e só foi crescendo ao longo da projeção”, explicou o presidente do júri Quentin Tarantino ao justificar o eleito. A Coppa Volpi de melhor ator ficou com Vincent Gallo pela fita polonesa Essential killing, um filme mudo em que as expressões são muito valorizadas. A fita recebeu também o prêmio especial do júri. A Coppa Volpi de melhor atriz foi para Ariane Labed do filme grego Attemberg. O leão de prata foi para o espanhol Álex de la Iglesia com seu Balada triste de trompeta, que também recebeu o prêmio de roteiro.
No geral, a repercussão foi tímida. Além de uma seleção fraca esse ano (que já vale os comentários de que Veneza 2010 será rapidamente esquecida), os prêmios polarizados em três produções (sendo que dois beneficiados são amigos pessoais de Tarantino) ratificam a impressão de que Veneza 2010 não foi uma bola dentro. As sonoras vaias, algo incomum, no anúncio de alguns premiados reforçou essa sensação.


Confira todos os premiados em Veneza 2010:

Leão de Ouro
Somewhere, (EUA), de Sofia Coppola

Prêmio especial do Júri
Essential Killing, (Polônia, Noruega, Hungria, Irlanda), de Jerzy Skolimowski

Leão de Prata para melhor direção
Álex de la Iglesia por Balada Triste de Trompeta (Espanha, França)

Copa Volpi para melhor ator
Vincent Gallo por Essential Killing

Copa Volpi para melhor atriz
Ariane Labed por Attenberg (Grécia)

Prêmio Marcello Mastroianni para ator ou atriz revelação
Mila Kunis por Black Swan (EUA)

Osella para melhor fotografia
Mikhail Krichman por Ovsyanki (Rússia)

Osella para melhor roteiro
Álex de la Iglesia por Balada Triste de Trompeta

quarta-feira, 2 de junho de 2010

TOP 10

Vira e mexe um estreante arrebata na direção. Não a toa, algumas premiações e festivais ao redor do mundo (como Cannes, Independent Spirit awards, Veneza e Toronto) têm um prêmio especial dedicado aos "melhores primeiros filmes". Claquete lista na seção TOP 10 dessa quinzena, 10 diretores que arrebataram em seus trabalhos de estréia. Alguns mantiveram o excelente nível, outros ainda não fizeram um segundo trabalho e um ou outro ainda vive à sombra da estréia triunfal. Com vocês 10 prodígios que arrebataram a crítica em suas estréias por trás das câmeras.


10 – Marc Webb (500 dias com ela)
Todo mundo ficou impressionado com o trabalho de estréia de Webb. O bonitinho, mas que não deixa de ser ordinário, 500 dias com ela debutou em Sundance e tomou a cena independente de assalto. Webb mostrou-se inventivo na direção e soube tirar proveito de um roteiro bastante original. Tanto é, que seu segundo trabalho como diretor será a frente do quarto filme do Homem-aranha.


9 – Sofia Coppola (As virgens suicidas)
Ela vem de família proeminente em Hollywood. Filha de um dos maiores cineastas americanos, Francis Ford Coppola, tentou emplacar uma carreira de atriz, talvez por orientação paterna (esteve em três filmes do pai), e teve de se esquivar da sombra do pai famoso. O que conseguiu de imediato. Logo em seu primeiro filme, Sofia empregou uma identidade própria muito forte. Sua narrativa em pouco lembrava a de seu pai e sua sensibilidade pôs a crítica em suspensão. Ali estava uma grande diretora. Um raio caíra duas vezes no mesmo lugar.


8- George Clooney (Confissões de uma mente perigosa)
Todo mundo esperava uma bomba da estréia na direção de George Clooney, que para muitos, nem mesmo bom ator era. Pois Clooney chamou sua trupe (Matt Damon e Julia Roberts fazem participação especial) e tornou comercial o roteiro de Charlie Kouffman, sem abdicar da inteligência e da espirituosidade do roteiro. Um trabalho seguro e altivo que evoluiria em sua segunda incursão na direção, reconhecida com indicação ao Oscar, mas aí já é outra história.


7- Spike Jonze (Quero ser John Malkovic)
Novamente Charlie Kouffman serve de trampolim para um diretor estreante. Spike Jonze veio dos videoclipes com uma linguagem visual apurada e essa linguagem foi crucial para que Quero ser John Malkovic se tornasse o filme que se tornou. Indicado ao Oscar de melhor diretor por esse trabalho, Jonze soube filtrar muito bem o delírio de Kouffman e transformá-lo em uma afiada critica contemporânea.


6 – Robert Redford (Gente como a gente)
Robert Redford teve sua parte na longevidade da maldição que o Oscar impeliu à Martin Scorsese. Redford, em sua estréia na direção, levou a melhor por Gente como a gente quando Scorsese concorria com Touro indomável. O filme de Redford e a segurança que ele demonstrou atrás das câmeras impressionaram o público e a crítica. Mas o fato de ter criado naquele ano o festival de Sundance, dedicado a prestigiar e promover o cinema independente, sem dúvida ajudou muito no resultado.


5- Ben Affleck (Medo da verdade)
Execrado como ator pela crítica, ninguém via com bons olhos o debute de Affleck na direção. O que se viu foi consagração, talvez pela baixa expectativa, talvez pela força do material original. Medo da verdade encantou a crítica e revelou um cineasta firme, centrado e totalmente seguro de suas escolhas dramáticas. Fato é que Affleck já havia se provado bom roteirista (ganhou o Oscar por Gênio indomável), e provou-se um diretor de extrema habilidade. Bonito, carismático, bom roteirista e bom diretor. Só faltava ser bom ator também, diriam os alcoviteiros de plantão.


4- Tom Ford (Direito de amar)
Pior do que um ator canastrão atrás das câmeras, só um estilista. Bem, a máxima caiu por terra após a crítica louvar a estréia na direção do estilista Tom Ford. Direito de amar em nada denuncia que seu diretor é estreante e vem de fora do ramo do cinema. Rigor técnico, esmero narrativo e sensibilidade pulsante fazem de Direito de amar um filme único. Principalmente se considerado que é um trabalho realizado por um estreante.


3- Jason Reitman (Obrigado por fumar)
Outro cineasta filho de cineasta. Contudo, neste caso, o júnior superou o papai rapidamente. Com três filmes no currículo, duas indicações ao Oscar como diretor e muito, mas muito prestígio mesmo, Jason Reitman pode-se considerar um cineasta de primeira. Essa percepção já surgia em seu primeiro longa, Obrigado por fumar trazia um cinismo irreverente e alto teor crítico, características que acompanham o cinema desse verdadeiro prodígio americano.


2 – Stephen Daldry (Billy Elliot)
O inglês, vindo do teatro, chamou a atenção e conquistou público e crítica com esse pequeno filme britânico sobre um menino que queria fazer balé. Billy Elliot é uma epígrafe de sensibilidade e comunhão cinematográficas. O talento de Daldry para contar histórias encontra respaldo em sua visão pragmática e acadêmica de como fazê-lo.


1-Sam Mendes (Beleza americana)
De completo desconhecido a gênio da sétima arte. É mais ou menos isso que aconteceu com esse inglês (também vindo do teatro) que logo em sua primeira produção no cinema (em um filme americano que atacava e desmascarava o american way of life) foi louvado como autor. Beleza americana atentava contra aspectos culturais dos EUA e a forma sarcástica do registro cativou a crítica. Sam Mendes ganhou o Oscar e fez grandes filmes depois desse, mas ainda é difícil se afastar do assombro causado por seu primeiro trabalho.