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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Crítica: Bling ring - a gangue de Hollywood


Existência canibalizada

Bling ring – a gangue de Hollywood (The bling ring, EUA 2013) é uma progressão natural do cinema de Sofia Coppola. É pop, aprofunda o olhar da cineasta sobre o mundo da fama e acentua os interesses formais de sua dramaturgia pelas divagações existenciais no mundo dos ricos e famosos.
Baseado em uma reportagem da revista americana Vanity Fair, Bling ring é um filme cuja maior ousadia é comportar em si todo o glamour que objetiva criticar. Ou seja, Sofia se ressente de ir muito a fundo na crítica que enseja com seu filme, talvez por se reconhecer no universo que retrata, talvez porque antes da crítica venha o esforço, e genuíno interesse, de compreensão desse mundo perdido entre dois universos. O dos mortais e dos imortalizados pelo show business. A participação de Paris Hilton, que abriu sua casa à produção e faz uma ponta no filme, nesse contexto, destaca esse aspecto de retroalimentação que Bling ring se presta. É o feitiço de Narciso em sua encarnação mais insinuante. Essa dialética, que passa incólume para muitos observadores, torna Bling ring um filme muito mais interessante. Mais concatenado. Mais senhor de sua essência. Ainda não é o filme que o talento de Sofia Coppola, tão bem insinuado em Encontros e desencontros, pode ofertar, mas é um passo consciencioso nesse sentido.
Como já se sabe, o filme acompanha um grupo de jovens de classe média alta de condomínios ostensivos de Los Angeles que invadiam e furtavam as casas de famosos quando eles estavam ausentes. O absurdo da história ganha contornos ainda mais espetaculares porque eles localizavam a casa de suas vítimas pelo google street view e sabiam de suas agendas pelo site de fofocas TMZ. Esse tipo de culto, em que se se canibaliza ao máximo seu ídolo, é um prato cheio para o cinema de questionamentos irresolutos de Sofia Coppola. Rebecca, a personagem de Katie Chang, mentora intelectual da informal gangue, não por caso se mira em Lindsay Lohan (conhecida por seus inúmeros problemas emocionais), quando interrogada pelo policial quase surta para saber o que Lindsay, afinal, havia comentado sobre ela. É aí, nesse particular comentário, que Sofia Coppola brilha.

Pode não parecer, mas a atuação pontual de Emma Watson - como uma patricinha periguete deslumbrada - é um dos alicerces do novo filme de Sofia Coppola

A alienação da juventude atual, constantemente conectada na internet em um ritual de auto-adoração frenética nas redes sociais, é a argila perfeita para Sofia moldar suas reflexões (ainda que elas sejam as mesmas) sobre esse universo tão perseguido nesse mundo de realities shows e toda sorte de derivados da profecia de Andy Warhol.
A construção do filme favorece esse distópico caráter de crítica e glamourização. É uma abordagem corajosa enfatizar o vazio da existência e se deixar por ele seduzir. Costuma-se dizer que para se entender determinada questão, deve-se procurar olhar com “outros olhos”. É o que Sofia procura fazer aqui. Para depois retomar as alças do filme e oferecer um contraponto até certo ponto esperado por quem se predispõe a assisti-lo. Justamente por isso ela radicaliza alternando o desenvolvimento da ação, com o recolhimento de depoimentos dos envolvidos por uma jornalista da Vanity Fair. É uma maneira de lembrar o público que seu filme se trata, afinal, de uma versão. Nesse sentido, os personagens de Emma Watson e Israel Broussard são pontuais. Seus personagens, nos caminhos emocionais distintos que seguem depois que seus delitos se tornam públicos, são as duas faces de uma moeda que todos, admitam ou não, guardam em seus bolsos.
Bling ring, com um elenco no ponto certo, uma trilha sonora eloquente, uma fotografia pulsante e uma direção que sabe precisamente aonde quer chegar, é o filme mais maduro de Sofia Coppola. Ainda que não seja o melhor.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Filme em destaque: Bling ring - a gangue de Hollywood

Jogo de espelhos na cultura de celebridades
Novo filme de Sofia Coppola, baseado em eventos reais, expande o interesse de seu cinema pela fama e suas reminiscências encorporando glamour, crítica e o lado B da geração Y


“Eu acho que Los Angeles é o centro da cultura americana atualmente por causa de todos esses reality shows, como o “Kardashians”, que são filmados em Hollywood e Los Angeles. E a cultura do tapete vermelho se tornou muito influente em todo o país”, diz Sofia Coppola sobre a influência e ambiente de seu novo filme, Bling ring – a gangue de Hollywood que estreia nesta sexta-feira nos cinemas brasileiros. “Essa história só poderia se dar aqui”.
Após ler a reportagem de Nancy Jo Sales (“Os suspeitos vestiam Louboutins”) na revista Vanity Fair, Sofia Coppola encontrou o filme que sucederia o êxito parcial de crítica e vencedor no Festival de Cinema de Veneza Um lugar qualquer.  
A reportagem dava conta de mostrar os jovens que invadiram e furtaram as mansões de celebridades como Orlando Bloom, Paris Hilton, Rachel Bilson, Lindsay Lohan entre outras. “Quando comecei nisso (no roteiro), Nancy me deu suas transcrições das entrevistas com os jovens reais. Eu não podia acreditar em algumas coisas que eles haviam dito, aquilo revelava muito sobre eles, seus objetivos e nossa cultura. Eu meio que deixei minha imaginação ir a partir dali”, disse no material divulgado à imprensa pela distribuidora brasileira.
Sofia conta que colocou no filme muito do “que lembra do que é ter essa idade” em referência ao fato dos protagonistas serem adolescentes deslumbrados com a fama.
“Estou sempre falando de pessoas que lidam com a fama como um fardo”, pontua em entrevista ao jornal O Globo. “No caso de Bling ring, falo disso, mas quis avançar na forma de tratar o tema a partir do discurso corrente dos personagens que se movimentam e pensam via internet. Minha narrativa parece uma sucessão de spams com vários fatos corriqueiros saltando”.

Trash chic: deslumbramento pela fama, juventude, ociosidade e glamour se confundem no novo filme da diretora de Encontros e desencontros

Osmose
A escalação do elenco era ponto nevrálgico para as pretensões de Coppola em relação ao filme. “Era muito importante achar pessoas autênticas realmente dessa idade, porque sempre me incomoda ver atores de 25 anos vivendo adolescentes”, explica a filha de Francis Ford Coppola.
Emma Watson, o nome mais conhecido do elenco, vive Nicki, uma piriguete. “Eu tive que fazer coisas que como eu mesma, Emma, jamais faria. É divertido explorar um lado diferente de si mesma por meio de um personagem”, expõe a atriz que aos poucos vai deixando a bruxinha Hermione da franquia Harry Potter para trás.
O que chama a atenção é que Coppola, mesmo que inadvertidamente, acabou por escalar para viver esses jovens obcecados pela fama um punhado de intérpretes que já tem alguma ideia desse universo. Taissa Farmiga, que vive Sam, a irmã adotiva de Nicki, é irmã da atriz Vera Farmiga e já atuou, por exemplo, na série de tv American Horror Story. Claire Julien, que vive Chloe, é filha do diretor de fotografia Wally Pfister. Ela conta que não houve dificuldade em entrar na personagem. “Muitas pessoas me dizem que eu fui uma boa escolha para fazer a personagem e eu concordo até certo ponto. Eu não faria coisas que Chloe fez, nem faria as mesmas escolhas que ela, mas eu posso ver semelhanças. Temos senso de humor parecido, o mesmo gosto musical e usamos o mesmo tipo de linguagem”.
O principal personagem da trama, no entanto, é Mark – vivido pelo ator estreante Israel Broussard. “Creio que Sofia queria  que Mark fosse o coração da história. Há algo que inspira compaixão nele”, diz o ator que vive o único menino da trupe e que, novo na escola, vive às voltas com a indefinição de sua sexualidade.
A busca por veracidade no registro é tanta que Paris Hilton, uma das celebridades lesadas pelo The bling ring, surge como ela mesma no filme e abre as portas de sua mansão para que o filme de Coppola possa se confundir uma vez mais com o real.
Emma e Sofia na premiere em Cannes
“Meu amigo Stephen Dorff (protagonista de Um lugar qualquer) me chamou e disse que Sofia queria falar sobre algo comigo”, relembra Paris. “Ela me falou sobre esse projeto. E é claro que eu sei muito sobre a história verdadeira porque eu estava envolvida na vida real, então eu estava muito excitada em atender ao chamado dela e fazer parte disso. Eu realmente estava nas boates com essas garotas que estavam usando vestidos que roubaram do meu armário na minha frente e eu não tinha ideia.”
Como parte da preparação para o longa, os atores tiveram que assistir horas de realities como “Pretty wild”, The simple life” e programas como “The hills”.
Lançado na mostra Um certo olhar do último festival de Cannes, Bling ring – a gangue de Hollywood foi recebido de maneira positiva pela grande maioria da crítica e saudado como uma  bem- vinda mudança de tom de Sofia Coppola, ainda que seus interesses característicos estejam todos lá. “Eu acho que há uma mistura de glamour e crítica no filme; mas no fim isso vai dar ao público algo sobre o que pensar”, finaliza Coppola sobre sua mais recente empreitada cinematográfica.