Foto: Acess Hollywood
A notícia foi cataclísmica nas redes sociais. Ben Affleck
será o novo Batman. A percepção majoritária é negativa, mas não poderia se
esperar nada diferente de um anúncio até certo ponto surpreendente como esse.
Daniel Craig foi o último a experimentar a grita dos fãs comumente chamados de
xiitas. Tobey Maguire para homem-aranha e Heath Ledger para o coringa também experimentaram fúrias semelhantes. No caso de Affleck não são nem mesmo esses que promovem um levante
contra sua escolha para encarnar Bruce Wayne e seu alter ego neste novo ciclo
do personagem.
A Warner soltou essa informação na quinta-feira e Claquete foi
um dos primeiros veículos do Brasil a reproduzi-la em sua fan page. De acordo
com o comunicado oficial, a opção por Affleck é de oferecer um contraponto ao
Superman ainda em formação interpretado por Henry Cavill. “Ben provê um
interessante contraponto ao Superman de Henry. Ele tem os atributos e recursos
para caracterizar um homem mais velho e mais sábio que Clark Kent; que carregue cicatrizes da experiência que é combater o crime, mas que mantém certo charme
que o mundo vê no bilionário Bruce Wayne”, disse Zack Snyder no documento
liberado pela Warner à imprensa. A contestação à Affleck diz respeito a seus
recursos como intérprete e sua capacidade de dar conta da complexidade de um
personagem como Bruce Wayne.
A fala da presidente mundial de marketing e distribuição da
Warner, Sue Kroll, no entanto, permite ir além do óbvio na análise da escolha
de Affleck para o papel. Ela disse que “estamos entusiasmados que Ben esteja dando sequência ao extraordinário legado da Warner com o personagem. Ele é um
ator tremendamente talentoso que dominará esse papel neste que já é o mais
antecipado filme do verão de 2015” .
A Warner queria Ben Affleck envolvido com os personagens da
DC de qualquer maneira. Há algum tempo especula-se seu nome para a direção do
filme da Liga da Justiça. Essa especulação tinha corpo antes mesmo da
confirmação oficial de que o filme seria, de fato, feito; o que só veio a
acontecer em julho na última edição da Comic Con.
Affleck desconversava, mas jamais negou de fato que voltar a
se envolver com um filme de super-heróis estivesse fora de seu rol de
interesses neste momento da carreia. Já é notório para o leitor de Claquete,
que Ben Affleck desperta grandes expectativas na Warner que o quer em seu rol
de grandes artistas, pelo menos como diretor. Tê-lo como Batman é uma
demonstração que essa intenção está ganhando terreno. Uma demonstração de ambas
as partes. Primeiro porque a responsabilidade não deve ter vindo sem ônus para
o estúdio. Affleck já chamou a atenção por conciliar estética comercial e veia
autoral em seus filmes. É um dom raro em um diretor e um baita de um
diferencial aplicado em filmes de super-heróis no cenário pós O cavaleiro das trevas
(2008). O ator e diretor, assumindo o traje de Batman deve ter mais liberdade para
tocar seus projetos como diretor no estúdio. Além do mais, é possível que tenha
ficado encaminhado para que Affleck assuma a cadeira de diretor em um eventual
futuro filme do homem morcego e da Liga da Justiça. A ideia é criar um universo
e com Affleck a bordo isso torna-se plenamente possível. O que não quer dizer
que irá acontecer. É preciso ter em mente que Zack Snyder, que para todos os
efeitos não foi feliz na reinvenção do Superman em O homem de aço, será o
primeiro a pôr as mãos nesse novo Batman. Portanto, o que é bonito no papel,
pode não permanecer assim na prática.
A internet foi à loucura com a escolha de Affleck para viver Batman. Claquete selecionou algumas montagens bacanas a respeito do imbróglio que se deu no mundo digital. Na primeira imagem, uma brincadeira com a curtição no QG da Marvel a respeito da escolha da rival. Na foto seguinte, o texto diz "George Clooney deve estar aliviado com a possibilidade de que finalmente alguém interpretará um Batman pior que ele" e no texto baixo, aludindo o fenômeno nerd "Guerra dos Tronos", a chamada: "Se prepararem... uma fúria nerd está chegando".
Assumindo os riscos
Todo mundo sabe o histórico de mau ator que Ben Affleck
carrega. Aqui mesmo em Claquete este tópico frequentemente volta a receber
certo destaque. Todo mundo sabe, também, que Affleck foi um dos responsáveis
para o fracasso, ainda que o filme não seja de todo ruim, de Demolidor – o
homem sem medo (2003), uma da primeiras incursões de um personagem Marvel no
cinema depois do êxito do primeiro X-men em 2000. A partir daquele
fatídico 2003, Affleck carregou um estigma tão duro para um ator quanto para um
atacante em jejum de gols: não ser bom em seu ofício.
Desde que começou a dirigir, mostrando ser genuinamente bom
e cada vez melhor nisso, Affleck recuperou muito da simpatia de público,
crítica e, principalmente, indústria. Mas era diferente. O incômodo com as
constantes comparações e apartes entre o Ben Affleck diretor e o Ben Affleck
ator ainda estavam lá. Pairando sobre um ator que evoluía conforme se
consolidava, também, como diretor.
Entrar no olho do furacão ao assumir o papel do
Homem-morcego depois de sua mais bem sucedida encarnação com a dupla
Christopher Nolan/Christian Bale é um risco calculado. O que não quer dizer que não seja um risco grande. Affleck se investe da responsabilidade de apagar o lastro
de más impressões deixadas desde que despontou como ator no fim dos anos 90.
Somente um papel de grande projeção midiática, nos termos de Tony Stark/Homem
de ferro para Robert Downey Jr pode fazer isso. Mas se o tiro sair pela
culatra, o tombo poderá pôr a perder as recentes conquistas de Affleck como
artista.
Ben Affleck aceitando a pressão: o risco é calculado, seu efeitos imprevisíveis...
De qualquer jeito, é Hollywood sendo cinematográfica também
nos bastidores. Sob a perspectiva do marketing, a escolha é ótima. Affleck hoje
é um artista respeitado e uma marca de prestígio no cinema americano. Em termos
de ambição é um gol de placa, pois se vislumbra critério e aplicação nos planos
da Warner de consolidar o universo DC nos cinemas. Resta observar o
desenvolvimento dessa história e torcer para que ele em si não seja mais
interessante do que os filmes que vem por aí.