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segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Crítica - O impossível



Como o mistério das estrelas

Existe uma momento chave em O impossível (The impossible, EUA/ESP 2012) que exige certa cumplicidade com o filme para ser percebida como tal. Uma anciã se aproxima de um garoto de pouco mais de cinco anos, ambos sobreviventes do destruidor tsunami que assolou o sudeste asiático em dezembro de 2004, e põe-se a falar sobre estrelas com o menino. Ela explica ao jovem observador que muitas daquelas estrelas que brilham já estão mortas há muito tempo. Mas que eram tão luminosas que seu brilho continua chegando a nós. O garoto então lhe pergunta como diferenciar uma estrela morta de uma viva, no que ela lhe diz ser impossível. Daí a mágica e beleza do universo. Passa por essa cena, singela e algo emocionante, muito da racionalização por parte da realização de O impossível para eventos que francamente prescindem de qualquer lógica e elaboração. O impossível acompanha a história real de uma família que sobreviveu de maneira sempre e cada vez mais surpreendente o devastador tsunami quando estavam reunidos para as festividades de fim de ano na Tailândia.
O diretor Juan Antonio Bayona, depois do surpreendente O orfanato, demonstra que sabe trabalhar muito bem com emoções sem perder a sobriedade no trato com elas. Não obstante, constrói uma lógica visual impactante para alinhavar os efeitos devastadores de uma tragédia natural do porte de um tsunami. Bayona deixa o drama da família Bennett falar por si e evita a todo custo a sobrecarga de emoção. Uma decisão acertada que torna O impossível uma experiência ainda mais aterradora em seu confronto com as probabilidades.
O final feliz, que se escora no momento chave que abre essa crítica, é um atestado da força familiar. Essa instituição tão fragilizada atualmente se ergue como a grande vencedora do filme, cristalizando o apreço de Hollywood por histórias maiores do que a vida. O fato de ser uma história real torna tudo o mais ainda mais impactante.
Nada disso, porém, seria possível se não fossem os desempenhos impressionantes do elenco principal. Tom Holland, como o filho mais velho do casal Bennett, é daquelas forças da natureza capazes de fazer frente ao tsunami. Ewan McGregor, relativamente com pouco tempo em cena, consegue dimensionar toda a fragilidade e esperança de seu personagem. Mas é Naomi Watts, revelando força interpretativa extraordinária, que faz de O impossível algo a mais. Ela atrela a força do filme a sua personagem. Reside nos rumos de sua Maria, o julgamento que o espectador fará do filme. Isso, em parte, pode estar relacionado ao fato do filme seguir de muito perto sua perspectiva, mas é a atriz quem oxigena o filme com uma atuação visceral em minúcias que vão além da face de sofrimento e dor.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Oscar Watch 2013 - O ano dos esquecidos ou dos favoritos?




Existem muitas particularidades na vigente corrida pelo Oscar, uma delas confronta personalidades queridas pela academia e outras frequentemente negligenciadas por esta. O Oscar 2013 será de quem? Dos favoritos como Daniel Day Lewis, Steven Spielberg e, mais recentemente, Tom Hooper e Kathryn Bigelow, ou dos frequentemente esquecidos Ewan McGregor, Leonardo DiCaprio, Quentin Tarantino e John Goodman?
A teoria mais fácil de abraçar indica que os favoritos devem prevalecer. O que ajudaria, portanto, a definir a parada na corrida em algumas categorias chaves. Que ator seria indicado por Argo? Alan Arkin ou John Goodman? Arkin já provou prestígio junto aos acadêmicos antes e pode se valer deste para prevalecer sobre o colega de elenco que também apresentou outros sólidos trabalhos no ano como em O voo e Curvas da vida. Entre os diretores, por exemplo, será que Quentin Tarantino voltaria à disputa por um filme com críticas divididas? Como serão os critérios, por exemplo, para Tom Hooper, cujo Os miseráveis também dividiu a crítica? Será possível os dois entrarem? Tarantino é cult e, em certa perspectiva, poderia ser tomado como um favorito da academia. Afinal, com apenas seis filmes no currículo já ostenta duas indicações para o Oscar de direção e outras duas como roteirista. No entanto, não é segredo que seu cinema não tange a muitos membros da academia. Já Hooper sai-se incrivelmente bem com quem geralmente desgosta de Tarantino. Ainda que agrade a muitos outros também com seu classicismo. Steven Spielberg, que ficou de fora ano passado, mas viu seu questionado Cavalo de guerra selecionado entre os melhores filmes, é nome certo entre os diretores. Resta saber se o hermético e genioso Paul Thomas Anderson, sempre um diretor elaborado e sofisticado demais para os padrões da academia, será lembrado por O mestre. Helen Mirren (Hitchcock), uma realeza de verdade, conseguirá no peso do nome impor sua candidatura às muito mais elogiadas Emmanuelle Riva (Amour) e Naomi Watts (O impossível), essa que há muito já merece uma segunda indicação ao Oscar. E seu parceiro de cena, Ewan McGregor finalmente será indicado como coadjuvante? A academia optará por conceder a sexta indicação da carreira de Denzel Washington (O voo) ao invés de destacar pela primeira vez Richard Gere (A negociação)?  
Daniel Day Lewis (Lincoln) ganhará seu terceiro Oscar na categoria de melhor ator ou a academia privilegiará o ingrato Joaquin Phoenix (O mestre)?

Quentin Tarantino voltará à disputa pelo Oscar de direção ou a academia lhe relegará apenas à disputa por roteiro?


O Oscar de coadjuvante ficará mesmo entre as queridas Sally Field (Lincoln), Anne Hathaway (Os miseráveis) e Nicole Kidman (The paperboy) ou teremos alguma novidade? E o bonitão Matthew McConaughey poderá ser lembrado depois de um ano de ótimos trabalhos ou Tommy Lee Jones (Lincoln) e Philip Seymour Hoffman (O mestre) não lhe darão oportunidade?
Michael Haneke, diretor genial e sensível e eternamente importante para a história do cinema, será lembrado pelo Oscar pela primeira vez pelo multipremiado Amour?
Mais do que em qualquer outra temporada, a atual corrida pelo Oscar se inscreve como um confronto mordaz entre os favoritos da academia e os frequentemente esquecidos por ela. É um combate interessante que pode produzir um cenário inovador, multifacetado e mais justo dentro da inescapável injustiça que toda a temporada de premiações fomenta.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Oscar Watch 2013 - Briga de muitos cachorros (e nem todos grandes)


Philip Seymour Hoffman em cena de O mestre: uma certeza perene dessa temporada de premiações é sua inclusão entre os cinco coadjuvantes do ano no Oscar


A corrida pelo Oscar de melhor ator coadjuvante se anuncia como uma das mais intensas e febris da atual temporada de premiações. Isso porque gente que parecia não calçar o número do Oscar ou gente que há muito surgia em produções abaixo de seu calibre resolveu contra-atacar em 2012. Três nomes bastante ventilados nessa etapa da corrida se encontram nessa situação. A Weinstein Company, que distribui Django livre nos EUA, anunciou que fará campanha por Leonardo DiCaprio nesta categoria e que tanto Christoph Waltz como Jamie Foxx disputarão vaga por melhor ator. Mas é DiCaprio, como o vilão que o próprio Tarantino disse odiar, quem reúne as melhores chances de indicação por atuação no filme. Isso é ponto pacífico antes do filme ser mostrado para grande parte da crítica americana. Já Robert De Niro vem sendo festejado por sua atuação em O lado bom da vida. Fora do Oscar há precisamente 20 anos, sua última indicação foi por Cabo do medo (1991), De Niro pode até não chegar ao Oscar, mas projeta uma baita sombra em outros pretendentes ao prêmio. Já John Goodman é aquele tipo de ator sempre eficiente, mas que raramente abraça um papel premiável. Em 2012 ele agarrou alguns desses. Em especial, em Argo, filme cujo elenco inspira elogios rasgados e pode render louros aos colegas de cena Alan Arkin – oscarizado nesta mesma categoria há cinco anos por Pequena miss Sunshine e Bryan Cranston – ator que vê expandir seu séquito de fãs (em Hollywood e fora dela), mesmo sem ser celebridade.

De Niro contracena com Bradley Cooper em O lado bom da vida: ele pode voltar ao Oscar depois de 20 anos


Alan Arkin e John Goodman brindam com Ben Affleck em cena de Argo: um dos coadjuvantes do filme será indicado. Bryan Cranston, além dos dois, é uma possibilidade


Ewan McGregor, por sua vez, já faz por merecer uma distinção da academia há algum tempo; e ela pode vir por O impossível. Filme em que faz um pai de família lutando para manter-se vivo e reencontrar-se com seus filhos e esposa na esteira do devastador tsunami que varreu o sudeste asiático em 2004. Russel Crowe é outro que faz dez anos que não é mais citado em prévias para o Oscar. Como o vilão de Os miseráveis, volta a ter seu nome comentado. Mas é pacífico entre a crítica que ele tem a atuação menos impactante dentre as estrelas do longa de Tom Hooper. Isso pode lhe ser prejudicial em um momento definidor da corrida.
São nomes que se projetam para uma disputa intensa e que parece ter apenas uma convicção: Philip Seymour Hoffman estará entre os indicados. Sua candidatura é construída quase que naturalmente desde a exibição de O mestre em Veneza e Hoffman é daqueles atores que os acadêmicos adoram. Se vai ganhar, é cedo para apontar. Mas certamente ele já está na disputa para vencer e não para ser indicado.
Nomes menos comentados, pelo menos nessa fase da corrida, mas que merecem atenção são Javier Bardem por Operação Skyfall, Tommy Lee Jones por Lincoln e Garrett Hedlund por Na estrada. Bardem já provou ter trânsito na academia e se Skyfall for eleito o blockbuster do ano pelos acadêmicos, já que Os vingadores é muito barulhento e O cavaleiro das trevas ressurge, decepcionante, o espanhol pode ser um abalizamento claro dessa opção equilibrada da academia. Já Tommy Lee Jones é outro baita ator que só precisa de um papel mais adornado a seus muitos predicados interpretativos para ter vez junto à academia. Pode ser uma opção conservadora aos nomes de McGregor, Goodman e, até mesmo, DiCaprio. Por último, Hedland é a melhor coisa do contemplativo filme de Walter Salles. Seria uma aposta no novo e também no cinema independente. Coisa que costuma acontecer na categoria. Novos nomes devem surgir, mas essencialmente a corrida pelo Oscar de ator coadjuvante se circunscreve a esses nomes.

Garrett Hedlund: uma força da natureza em Na estrada e uma possibilidade à esquerda para os votantes da academia

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Crítica - À toda prova


Diversão com pedigree!

Ser Steven Soderbergh tem suas vantagens. O diretor americano rodou dois longa-metragens com elencos recheados de estrelas de primeira grandeza quase que simultaneamente. Um, Contágio, sobre um vírus mortal e sem precedentes que põe em risco o futuro da humanidade, e outro esse movimentado À toda prova (Haywire, EUA 2012); filme de ação que se vale de alguns elementos relacionados ao cinema de espionagem e protagonizado por uma lutadora de MMA, Gina Carano.
A grife Soderbergh atraiu atores de peso para figurar entre os coadjuvantes e apanhar de Carano, que faz uma agente de uma empresa paramilitar traída e em busca de vingança. Gente como Ewan McGregor, Michael Fassbender, Michael Douglas, Antonio Banderas, Bill Paxton e Mathieu Kassovitz abrilhanta esse filme de ação classudo com locações na Irlanda e na Espanha.
Carano e Fassbender em cena de À toda prova: filme de
ação cheio de estilo e sofisticação
De maneira não linear, Soderbergh estipula a jornada de Mallory Kane (Carano) na busca pelos responsáveis por um intrincado plano para matá-la. Ela precisa, obviamente, saber quem quis matá-la. Informação que ela já detém na primeira cena do filme, mas que o público só terá plenamente na meia hora final.
O diretor novamente esbanja técnica na arte de contar uma história no cinema. Com trilha sonora envolvente, direção de arte sóbria e fotografia não menos impactante, o cineasta faz de um filme de ação até certo ponto banal um interessante e climático exercício de estilo.  Tudo isso ainda com ótimas cenas de luta. O embate entre Carano e Fassbender, por exemplo, é uma das melhores lutas do cinema recente. Coisa do tipo que não se via desde O ultimato Bourne (2007). Aliás, se tem uma coisa que À toda prova deixa transparecer com nitidez é o grau de influência da trilogia Bourne no cinema de ação moderno. Até mesmo Soderbergh quis fazer o seu Bourne. Fez e aferiu algumas marcas pessoais que fazem da fita estrelada por Carano um entretenimento acima da média.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Oscar Watch 2012 - Ao mestre com carinho

O grande Christopher Plummer assume um personagem cativante em Toda forma de amor, um dos filmes independentes mais festejados de 2011 e que pode chegar ao Oscar. Claquete revela como Mike Mills fez de um filme com recortes biográficos, algo incrivelmente otimista



Todo artista coloca um pouco de sua experiência de vida em sua arte. Mas a forma como Mike Mills fez isso em Toda forma de amor (Beginners, EUA 2011), considerado por muitos críticos um dos melhores filmes de 2011, afere ainda mais charme a essa história de amor, tolerância e luto.
Mills surgiu com louvores no festival de Sundance em 2005 com Impulsividade, um filme que reunia grande elenco para contar a história de inadequação de um garoto que não conseguia deixar de chupar o dedão. Seis anos depois e com mais um documentário na bagagem, Mills volta à cena com essa ficção que remonta um episódio central de sua existência. Após a morte de sua mãe, seu pai, aos 74 anos, resolveu sair do armário. Admitiu que sempre foi gay e estava disposto a viver essa vida em toda a sua plenitude. E assim foi até que um câncer fatal o vitimou quatro anos mais tarde. Mills filtra essa experiência e realiza um filme poético sobre a essência da vida, a busca pela compreensão e, consequentemente, a busca pelo amor.
No filme, Ewan McGregor vive Oliver Fields – o alter-ego de Mills – um designer gráfico que em pleno luto se vê apaixonado por uma atriz francesa (Mélanie Laurent). O filme recorre a flashbacks para mostrar a relação de Oliver com seu pai (Hal), interpretado por Christopher Plummer, que após a morte da esposa revela ao filho sua homossexualidade e externa o desejo de viver plenamente essa nova fase de sua vida. “Eu adorei fazer. Foi uma ótima experiência”, afirmou Ewan McGregor à época em que divulgava o filme. Toda forma de amor foi lançado nos Estados Unidos em julho de 2011, mas chega relativamente forte à temporada de premiações. Após ser escolhido o melhor filme do ano no Gotham Awards e ser um dos principais figurantes do Spirit Awards (duas premiações do cinema independente), o filme desperta grande buzz para Christopher Plummer na categoria de ator coadjuvante e para Mike Mills na categoria de roteiro original.
“É dos textos mais arejados que vi no último ano”, escreveu A.O. Scott, principal crítico de cinema do New York Times. McGregor acha que o grande achado do filme é a forma como Mills trabalha a plenitude da vida gay de Hal, sempre apoiada de muito perto pelo filho, e o despertar do amor entre Anna (Laurent) e Oliver, com este ainda em luto. “Acho muito interessante como temos estas duas coisas opostas acontecendo no filme”.


Crítica

Pelo prazer de começar!
Existe certa angústia que permeia Toda forma de amor (Beginners, EUA 2011). Mas há, também, um indissociável gosto pela vida que exala dos personagens. Esse potencial agridoce é que faz do novo filme de Mike Mills algo notável. Não que seja um excelente filme. Está bem abaixo do que a sucessão de críticas elogiosas faz crer. Mas há um encantamento no filme que não se pode resistir. O afeto pela vida. Por sua beleza fundida ao amor. “Não quero ser apenas teoricamente gay. Eu quero fazer algo a respeito”, diz Hal para seu filho quando, aos 74 anos, revela sua homossexualidade pouco depois da morte da esposa. Oliver processa essa nova condição com a parcimônia que ela exige. Afinal, quem era aquele novo homem amante de uma vida colorida totalmente distinto do homem que ele chamava de pai? Não por acaso, Oliver confronta a noção de beleza e de plenitude que se tinha nos idos dos anos 60 e a noção de beleza e plenitude que se experimenta no século XXI.
Mills ousa em ampliar o escopo do seu filme. Toda forma de amor, portanto, não é só sobre um homem reavaliando sua formação e sua relação com o pai após este se assumir gay.  É também sobre um homem se abrindo para o amor em pleno estágio de luto e descobrindo o valor de uma última lição valiosa deixada pelo pai.
Toda forma de amor se divide em dois atos. No primeiro deles, Oliver assiste seu pai viver o momento decisivo de sua vida. A batalha contra o câncer não o afasta da nova faceta baladeira e festiva. Em outro momento, Toda forma de amor captura um introspectivo Oliver que não sabe ao certo como elaborar seu luto, muito menos se deve aceitar seus sentimentos por Anne (Mélanie Laurent) a quem conhece fantasiado de Freud em uma festa a fantasia na qual compareceu por insistência dos amigos.
Mills realiza um filme oxigenado pelo prazer de começar. A vida está aí para ser vivida. Experimentada. Os medos não devem nos paralisar, sim nos mover adiante, atesta Mills com sua obra. É essa ode à vida com um recorte biográfico que só acresce sentimento que Toda forma de amor pretende ser.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Momento Claquete # 8

Há onze anos atrás ele estava disputando os Oscars de filme, direção e roteiro original por O sexto sentido. Ontem , o indiano M.Night Shyamalan foi agraciado com os framboesas de ouro (temido prêmio para os piores do ano) de pior filme e diretor por O último mestre do ar 


Mais um para a coleção: Natalie Portman foi o principal destaque da grande noite de Cisne negro no Independent Spirit Awards 2011. A produção, escolhida a melhor do ano, valeu a Portman mais um troféu de melhor atriz na temporada 


Ewan McGregor brinca ao chegar para o Independent Spirit Awards, realizado neste sábado, 26 de fevereiro: Darren Aronofsky, James Franco e John Hawkes foram alguns dos premiados no evento realizado na praia de Santa Monica, na Califórnia 


Oscar day: Na semana do Oscar, a capa do semanário Hollywood Reporter destacou o diretor de A rede social, David Fincher. Para a publicação ele é o melhor do ano

sábado, 20 de novembro de 2010

Cantinho do DVD

Danny Boyle não era um diretor tão festejado até pouco tempo atrás. Na verdade, seu pior filme foi justamente aquele que lhe valeu a consagração. No caso Quem quer ser um milionário? Prestes a lançar seu nono filme (127 hours), o diretor frequentemente é lembrado por Trainspotting, seu melhor filme. Cantinho do DVD destaca justamente o primeiro filme de Boyle posterior ao frisson causado por Trainspotting. Por uma vida menos ordinária é o cartão de visitas de Boyle a Hollywood e o diretor trouxe Ewan Mc Gregor (a estrela de seus dois primeiros filmes) com ele. O filme não é nada demais e serve para mostrar que quando Boyle flerta com Hollywood ele não consegue se manter tão interessante.


Ficha técnica
Título original: A life less ordinary
Direção: Danny Boyle
Roteiro: John Hodge   
Elenco: Ewan McGregor, Cameron Diaz, Delroy Lindo, Holly Hunter e Iam Holm
Estúdio: Fox
Duração: 104 min
Status: Disponível em DVD e Blu-Ray para venda e locação
Preço médio: Blu-Ray = R$ 79,90
DVD = R$ 29,90



Crítica

Danny Boyle, em seu terceiro longa-metragem, flerta mais assumidamente com o caráter fabular. Por uma vida menos ordinária (A life less ordinary, ING/EUA 1997) é, por força da necessidade de definição, uma comédia romântica. Ewan McGregor e Cameron Diaz estrelam como um faxineiro que sonha em ser escritor e como uma patricinha com um complexo de Electra mal resolvido que passam a conviver juntos quando um sequestro mal elaborado pelo personagem de Ewan se desenrola.
Após ser demitido Robert Lewis (McGregor) meio que sem querer (acredite é possível) sequestra Celine (Cameron Diaz), filha de seu ex-patrão. Sem jeito para o ofício, Robert é instruído por Celine que já passou pela situação outras vezes. Adicionados a essa loucura estão dois anjos (papéis de Delroy Lindo e Holly Hunter) que têm como missão fazer esses dois pombinhos tão diferentes se apaixonarem. Caso não consigam cumprir o designo, padecerão na terra.
Não espere um humor escrachado, tão pouco situações genuinamente cômicas. Danny Boyle faz um romance atípico apostando na estranheza das circunstâncias encenadas. O humor tipicamente inglês ora aparece refinado, ora beira o non sense.
Por uma vida menos ordinária não esconde a veia pop do cineasta que mesmo ao se enveredar por uma trama mais banal, preserva suas idiossincrasias. Na curiosa mise em scène temos penteados esquisitos, trilha sonora pop, anjos irritadiços e um protagonista totalmente desprovido de carisma. Menos ordinário impossível.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Crítica - O golpista do ano

O melancólico Steve Russel

O cinema independente americano tem o brilho de reciclar com certa inventividade fórmulas desgastadas e contar uma mesma história de maneira arejada e contagiante. Foi assim com pequenos filmes como Pequena miss sunshine e Preciosa – uma história de esperança. Filmes que não apresentavam nenhuma originalidade em seus cernes, mas que vinham dotados de coração em tramas bem desenhadas. É isso que ocorre com O golpista do ano (I love you Phillip Morris, EUA 2009). O filme, dirigido e roteirizado pela dupla John Requa e Glenn Ficarra, conta a história de um cidadão acima de qualquer suspeita que após passar pelo que ele chama de epifania (um acidente automobilístico quase fatal) resolve viver a vida nos “seus termos”. Para Steve Russel (Jim Carrey), isso inclui assumir sua homossexualidade e cometer algumas vigarices para manter um alto padrão de vida.
O golpista do ano é sobre esse individuo que tenta preencher a vida de sentido. O inicio da fita e o final, embora um tanto professorais, ratificam essa constatação. É em uma de suas passagens pela prisão que Steve conhece Phillip Morris (Ewan McGregor) e se apaixona por ele. A paixão mútua é muito bem delineada na tela. Tão bem quanto a expertise de Steve para burlar e dissimular.
O filme se vale de uma comédia com retoques dramáticos para contar a história (real) de um homem que tentou prevalecer de todas as formas possíveis e imagináveis a seus impulsos naturais. Essa dicotomia entre dissimulação e impulsos é, na verdade, sobre o que trata O golpista do ano. E é justamente o resultado que advém dela que confere uma certa melancolia ao filme.
Rodrigo Santoro faz o primeiro "namorado sério" de Steve em sua nova fase: o filme tem momentos de humor, mas não é exatamente uma comédia


Jim Carrey entrega sua melhor atuação em anos. O ator acerta o ponto na caracterização de um homem que sucumbe às próprias engenharias. Carrey ainda tem o mérito de evitar repetir a si mesmo. Ewan McGregor é outro em aparição inspirada. O ator faz uma composição delicada revelando toda a fragilidade de seu personagem e se desvia da caricatura e afetação a qual muitos outros atores poderiam ceder. Mas o grande trunfo dessa inusitada história, que tem o seu charme justamente devido a esse histrionismo romântico, é o desenvolvimento dos personagens. Os dois pilares da trama (Phillip e Steve) tentam cada qual a sua maneira contornar aquilo que parece ser a sina de suas vidas. Essa sina, que não tem nenhuma relação com a homossexualidade (embora em um ou outro momento a realização teça um comentário a respeito), corresponde justamente a facilidade com que ambos cedem a seus impulsos. O que, como fica claro no desfecho do filme, nem sempre resulta em um felizes para sempre.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Crítica - O escritor fantasma

O evangelho segundo Polanski!

O novo filme do diretor Roman Polanski chega ofuscado pela tragédia pessoal do cineasta. Polanski finalizou O escritor fantasma (ING/EUA 2010) já preso na suíça, onde aguarda uma possível extradição para os EUA por conta de uma acusação de estupro que data dos anos 70. No filme, um thriller político de primeira linha, Polanski aproveita o ensejo proporcionado pela história de cunho político para exercer seu cinismo no que pauta as relações internacionais travadas entre Inglaterra e Estados Unidos. No filme, o escritor vivido por Ewan McGregor é contratado para redigir as memórias do ex-primeiro ministro inglês Adam Lang (Pierce Brosnan) e se vê envolto em um emaranhado de mistérios e intrigas que o levam a questionar muito mais do que o seu voto. A figura de Lang, obviamente, remete a Tony Blair. Político carismático que fez um governo pró EUA e que saiu pelas portas dos fundos. Pierce Brosnan, com sua caracterização meticulosa, força a comparação.
Polanski é exímio contador de histórias, por isso mesmo, desenvolve muito bem a trama (que escreveu com o amigo, jornalista e escritor da obra na qual o filme se baseia, Robert Harris). A narrativa de O escritor fantasma é fluída, bem dosada e confia na perspicácia do espectador (assim como em sua formação cultural). O diretor, além de mostrar extremo domínio dos cacoetes do cinema de gênero (já fazia algum tempo que ele não retomava o universo de sua obra prima, Chinatown), demonstra esmero na criação das cenas. Desde a iluminação de algumas delas, passando pelos closes nos personagens em cenas capitais e no exemplar uso da magnífica trilha sonora de Alexandre Desplat e culminando na elaboração de alguns belos planos que só atestam a genialidade de Polanski como cineasta.
Brosnan e McGregor estão brilhantes no filme que atesta mais uma vez o gênio do diretor franco polonês

Apesar dos vistosos acertos e da sofisticação com que a narrativa é conduzida, O escritor fantasma não deixa de parecer, em alguns momentos, um protesto barato de Polanski para com um governo que lhe é hostil. Ao aventar a realidade em quase todo fotograma, Polanski depõe contra a própria essência do cinema de emular, ou até mesmo reproduzir, a realidade por uma veia ficcional. O próprio o fizera, em um recorte quase biográfico, em O pianista. O escritor fantasma não deixa de ser um belo filme, dos melhores do ano seguramente, mas acaba diluído pela cisão entre o homem e o cineasta.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Os 25 melhores filmes da década: 21- Moulin Rouge - amor em vermelho

“ A melhor coisa do mundo é amar e ser amado em retorno”




Sinopse:

Christian é um jovem inglês sonhador que chega a Paris no ano de 1899 com o desejo de se tornar um escritor. É a virada do século e a cidade vive uma revolução artística riquíssima em qualidade. Ele começa a escrever uma peça denominada de "Espetacular Espetacular". Acaba também conhecendo Satine, uma cortesã por quem acaba se apaixonando. Mas para financiar a peça surge um duque, que em troca do financiamento exige "exclusividade" sobre Satine.

Comentário:
Baz Lurhmann, um diretor sem grandes predicados, realizou essa que é, seguramente, a mais inventiva, convidativa e revigorante história de amor do novo século. Conjugando extravagância e sofisticação, cores berrantes com músicas eruditas, músicas pop com mulheres lindas, maravilhosas cenas de romantismo inflamado com coreografias matadoras, Moulin Rouge é um deleite para os olhos, ouvidos e , ainda mais importante, para a alma.
A história da cortesã que se apaixona pelo escritor pobre e sonhador é um almágama de toda a epopéia romântica que pautou os séculos XIX e XX. É lógico que suas variações reverberam no atual século e justamente por isso, o filme é tão charmoso. Moulin Rouge preserva um aspecto pueril sem descartar a sensualidade. O maior acerto de Lurhmann (fora a engenhosidade da colagem musical) foi transitar incólume por essa opção de registro.


Prêmios:

8 indicações ao Oscar e duas vitórias (figurino e direção de arte);ganhou o prêmio do sindicato de direção de arte; 13 indicações ao australian film awards e 6 vitórias; 12 indicações ao Bafta e duas vitórias ( melhor ator coadjuvante e melhor som); 3 indicações ao critics choice awards e uma vitória ( melhor diretor); participou da seleção oficial do festival de Cannes;6 indicações ao Globo de ouro e três vitórias ( melhor filme comédia/musical, melhor trilha sonora e melhor atriz comédia/musical); venceu três prêmios da associação de críticos de Londres ( filme, ator e atriz); 2 prêmios do MTV movie awards ( melhor sequência musical e melhor atriz); prêmio do sindicato dos montadores; dois prêmios do National Board of review ( melhor filme e melhor ator coadjuvante); prêmio do sindicato dos produtores;


Curiosidades:
- Ganhou um prêmio de honra emérita concedido pela associação dos coreógrafos americanos
-Foi o primeiro musical indicado ao Oscar de melhor filme em 20 anos
-Um ano depois, um musical (Chicago) voltaria a vencer o Oscar de melhor filme
-O ator Heath Ledger, então alçado a fama por seu papel em O patriota chegou a fazer testes para o papel de Christian, mas não agradou a Baz Luhrmann
-Ledger foi considerado por ser australiano e a intenção do diretor (tal qual faria com o épico Australia alguns anos mais tarde) era rodar o filme com protagonistas australianos
-Nicole Kidman se machucou três vezes durantes as filmagens
-As imagens de Paris foram produzidas digitalmente
-Foi por esse filme que Nicole Kidman recebeu sua primeira indicação ao Oscar, ela venceria o prêmio no ano seguinte pelo filme As horas
-No filme há versões e compilações de músicas famosas de vários artistas entre eles, U2, Elton John, Madonna e David Bowie.


Ficha técnica:
Título original: Moulin Rouge
Gênero: musical
Duração:2h e 6 min
Ano de lançamento: 2001
Estúdio: Bazmark Films
Distribuidora: 20th Century Fox Film Corporation
Direção: Baz Luhrmann
Roteiro: Baz Luhrmann e Graig Pearce
Produção: Fred Baron, Martin Brown e Baz Luhrmann
Música: Craig Armstrong e Marius de Vries
Fotografia: Donald McAlpine
Edição: Jil Bilcock
Elenco: Nicole Kidman, Ewan McGregor, Jim Broadbent e John Leguizamo



Fonte:arquivo pessoal