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quarta-feira, 22 de maio de 2013

Crítica - Em transe


Filme em transe

Há filmes engenhosos e filmes que simulam serem engenhosos. Em transe (Trance, ING 2013) se ajusta à segunda leva. O diretor Danny Boyle não é exatamente um novato em manipular a audiência além do desejável. Ele ganhou um Oscar fazendo isso com Quem quer ser um milionário?, filme que rasga a cartilha do bom gosto. Em transe não chega a esse ponto; na verdade, nem merece a comparação, mas não deixa de ser a representação de um vício que Boyle precisa abandonar para que a História lhe seja mais afável.
Em transe tem um roteiro frágil, com reviravoltas mal articuladas e um problema capital: o excesso de truques a simular coerência em reviravoltas que não são coerentes. Além do mais, “a reviravolta definitiva”, aquela que revela o segredo mor do filme, é perceptível com pouco mais de meia hora de filme. Boyle e o roteirista John Hodge tentam submergir esse segredo ou revelação, em uma classificação mais categórica, em um balaio de lembranças, memórias forjadas e falsas revelações.
Em transe, para quem está perdido, mostra o pós jogo de um roubo a uma galeria de arte. Simon (James McAvoy), funcionário da galeria que faz parte da quadrilha, se esqueceu do local em que guardou a obra roubada e, depois de breve sessão de tortura, Franck (Vincent Cassel), o mais próximo de líder do grupo, sugere hipnose para se descobrir onde Simon, afinal, escondeu a obra roubada. É aí que entra em cena a personagem de Rosario Dawson, Elizabeth.

Vincent Cassel é uma presença sólida em um filme frágil...

Nada é o que parece ser em Em transe, exceto pelo fato de que tudo é exatamente como parece ser; o que caracteriza uma falha grosseira de argumento. A sofisticação visual do filme, que abusa de uma direção de fotografia arrojada e inventiva – os transes são achados visuais sempre surpreendentes, não esconde a trucagem narrativa. Em transe é um filme que quer parecer mais do que é. É diferente, portanto, de Quem quer ser um milionário? que quer parecer algo que não é – no caso, um filme humanista.
Em transe, além da boa trama, reclama para si uma engenhosidade narrativa que na verdade não existe. A hipnose de Boyle, dessa vez, não funcionou.

domingo, 21 de abril de 2013

Insight - O peso de um astro



 Há algumas semanas, em meio à maratona de eventos e entrevistas promocionais para seu novo filme (Em transe), o diretor Danny Boyle deu uma declaração que chamou atenção tanto por seu aspecto inusitado como por sua reverberação no mundo do cinema. Para Boyle, um representante suntuoso do cinema independente, um astro distorce um filme. De acordo com o cineasta britânico, uma personalidade como Brad Pitt tem a capacidade de desvirtuar completamente um filme. É claro que Boyle fala do impacto que uma celebridade tem sobre qualquer projeto cinematográfico. Desde as expectativas do mercado à ansiedade de público e mesmo a percepção da crítica especializada. Boyle fala também das restrições à liberdade que um cineasta precisa enfrentar quando um filme é discriminado como “untitled Tom Cruise Project”. Afinal, o que importa para o estúdio é o marketing em cima do astro e não necessariamente a estória. Na mesma medida, há atores que buscam projetos mais sofisticados e trabalhos com cineastas festejados pela crítica e se oferecem como produtores, apenas para moldar os projetos a seus gostos. Boyle está no mercado há tempo suficiente e é bem relacionado o bastante para saber desses meandros da área. Sua análise, portanto, é procedente. Mas é, também, incompleta.
Novo filme de Boyle: sem astros de primeira grandeza, mas
ainda assim astros
Muitas vezes é um ator quem torna possível um projeto que sem ele não teria como ver a luz do dia em um mercado que abomina apostas de risco. Seria um típico caso de distorção positiva que Boyle ignora. Isso para não entrar no campo das subjetividades e destacar os inúmeros filmes, sejam estes experimentais ou não, que são dignos de qualquer nota em virtude da presença dos atores. Isso ocorre tanto na produção mais autoral como no mainstream. Pode-se argumentar que esses “atores salvadores” não são essencialmente astros, mas e George Clooney? E James Franco? Ou então Natalie Portman? E Jennifer Lawrence ou Christian Bale? São astros de primeira grandeza que se colocam a serviço do cinema como bem maior. Ao ignorar essa faceta da “distorção que um astro imputa a um projeto”, Danny Boyle é injusto em seu determinismo. Há de se respeitar sua opção, anunciada, de não trabalhar com um astro. Seu interlocutor na ocasião questionou-o se Brad Pitt lhe convidasse para fazer um filme se ele toparia. A resposta de Boyle foi negativa. Mas Boyle não é assim tão resistente a ideias de astros, pelo menos a astros de médio porte e projeção internacional tangível.  Além de ter dirigido James Franco, no auge da fama, em 127 horas, o novo filme de Boyle conta com o internacionalmente prestigiado Vincent Cassel, além do ascendente James McAvoy. Leonardo DiCaprio foi outro dirigido por ele, no auge da popularidade conquistada no período pós Titanic, em A praia do ano 2000. 
É justamente ao chegarmos a esta produção que podemos ter uma melhor compreensão do por que do raciocínio de Danny Boyle. O filme foi um fracasso retumbante. Ao custo de aproximadamente U$100 milhões, só o cachê de Leonardo DiCaprio girou em torno de U$ 20 milhões, a produção rendeu apenas U$ 18 milhões nas bilheterias americanas. À época existia uma verdadeira comoção pelo próximo projeto de Leonardo DiCaprio, sim porque O homem da máscara de ferro e Celebridade, embora lançados depois de Titanic, foram gravados antes do megassucesso da produção de James Cameron. A praia foi o primeiro projeto de DiCaprio após o estrelato maiúsculo que conquistou. E Danny Boyle não gostou nada disso. Primeiro porque DiCaprio ainda fazia o tipo imaturo e estrelinha à época e, segundo, porque as pressões do estúdio, no caso a Fox, sobre o projeto foram monstruosas. O filme acabou virando um veículo para DiCaprio e muito do que Boyle pretendia ficou na sala de edição.

Leonardo DiCaprio e Danny Boyle no set de A praia: trauma de astros

O tempo passou e Boyle voltou a trabalhar com a Fox, ainda que com o braço independente do estúdio (a Fox Searchlight), pela qual todos os seus mais recentes filmes foram lançados. Mas, pelo visto, segue repugnando “estrelas maiores do que a vida” em seus filmes. 

sábado, 6 de abril de 2013

Em off


Nesta edição de Em off, algumas apostas do blog para o line up do festival de Cannes 2013, o enigma de Robert Downey Jr. caindo na boca do povo, a promessa de um ano magnífico para Julianne Moore, as façanhas cada vez mais elogiosas de Matthew McConaughey, as elucubrações de Danny Boyle e o que há no futuro de Tim Burton.

Um ano para chamar de dela
Julianne Moore é daquelas atrizes obrigatórias para quem gosta de cinema. Extremamente talentosa, Moore, no entanto, ostenta poucos prêmios. Alguma redenção pode estar à espreita com a safra de 2013, já que ela estrela nada mais nada menos do que seis filmes com lançamento programado para este ano. De petardos comerciais (como o remake de Carrie – a estranha) a perolas indies (a estreia de Joseph Gordon-Levitt na direção com Don Jon e a comédia dramática The english teacher), Moore será uma das presenças recorrentes da temporada cinematográfica e isso é muito bom.
Além desses filmes, Moore estrela ainda o tocante What Maise knew, que integrou a seleção do último festival de Toronto, o thriller de ação Non stop ao lado de Liam Neeson e o início da saga que pretende ocupar o posto deixado por Harry Potter, The seventh son.

Julianne Moore em The seventh son, com lançamento previsto para novembro nos EUA: um ano intenso e plural


Cadê o McConaughey que estava aqui?
Há pelo menos dois anos se discute, nos mais variados fóruns cinéfilos, o giro de 180º impresso por Matthew McConaughey em sua carreira. Uma série de projetos, iniciados com o ótimo drama O poder e a lei lançado em 2011, colocaram o marido de Camila Alves no mapa dos atores mais requisitados e celebrados do momento. E a meritocracia não para de crescer. McConaughey parece decidido a só escolher os projetos certos. Ainda com o lançamento de Mud pendente, o ator começa a colher os frutos da primorosa sequência de trabalhos enfileirada (Magic Mike, Killer Joe, Bernie e The paperboy). Está no novo longa de Martin Scorsese, o antecipado The Wolf of Wall Street e perdeu peso para viver um aidético em Dallas Buyers Club. Mas esses eram projetos já anunciados. A novidade mais recente, divulgada na última semana, é de que o ator será o protagonista de Interstellar, ficção científica de Christopher Nolan e seu primeiro trabalho após a conclusão da trilogia do cavaleiro das trevas.
A notícia é sintomática do novo status do ator em Hollywood. Não obstante, ele ainda protagonizará uma minissérie policial para a HBO.

McConaughey bem mais magro, em imagem de dezembro de 2012, no set de filmagens de Dallas Buyers club: além do respeito de crítica e público, indicações ao Oscar pairam no horizonte

O que esperar do próximo filme de Tim Burton?
Tim Burton é um excelente cineasta. Conceitualmente e visualmente, é dos mais significativos da atualidade. Contudo, já há algum tempo vem sendo questionado pelo fato de ter se acomodado narrativamente e de seu cinema, e muitos veem a parceria com Johnny Depp como catalisadora disso, ter perdido expressividade.
O site Deadline divulgou na última semana que Burton será o diretor de Big eyes, filme cuja premissa grita por um diretor com o talento e a sensibilidade estética e narrativa de Burton. O filme mostrará um casal de pintores famosos por fazerem retratos de crianças com olhos grandes. Margaret e Walter Kane foram dois dos primeiros artistas a comercializar obras de arte como produtos nos idos dos anos 50 e 60. A união terminou e eles travaram longas disputas nos tribunais. Christoph Waltz e Amy Adams estão vinculados ao projeto e devem interpretar os protagonistas.
Big Eyes, que será produzido pela The Weinstein Company pode representar o retorno de Burton às boas críticas. O último filme do diretor a angariar massiva aprovação crítica foi Peixe grande (2003). E lá se vão dez anos!

O enigma de Robert Downey Jr.

Em 12 de fevereiro de 2012, claquete publicou na seção Insight um artigo bastante analítico sobre as escolhas de Robert Downey Jr. em sua fase mais dourada no cinema e sobre como elas o conduziram para um impasse. Downey Jr. é um bom ator ou apenas um sujeito eficiente em verter versões de si mesmo na tela grande? E mais: por que a durabilidade de séries como Homem de Ferro e Sherlock Holmes poderia se provar prejudicial à percepção que o público tem dele. A mais recente edição da revista Serefina, que estampa o ator em sua capa, apresenta uma matéria com questionamentos semelhantes. A ideia de que Downey Jr. esteja se esgotando já ronda Hollywood há algum tempo e Homem de ferro 3 será um valioso instrumento para apontar o caminho que o ator deve seguir daqui para frente.


O devaneio de Danny Boyle
O novo filme de Danny Boyle, um sofisticado suspense envolvendo hipnose e roubos de obras de arte (Em transe) é um das estreias do fim de semana nos EUA – no Brasil o filme chega no início de maio. Em uma das muitas entrevistas que fez para promover o filme, Boyle disse que não planeja mais trabalhar em produções de grande orçamento. Por isso rejeita a possibilidade de conduzir uma aventura de James Bond, ao qual frequentemente é vinculado. Some-se a isso, a percepção de que, para Boyle, uma grande estrela distorce um filme. Na visão do diretor vencedor do Oscar por Quem quer ser um milionário?, um astro de cinema desequilibra expectativas e perspectivas em um filme. Seja durante a produção do filme ou na recepção do público.
Apesar do radicalismo de Boyle, sua análise não está de toda errada. Um astro, de fato, altera o DNA de um filme. Essa questão já foi discutida por Claquete anteriormente sob muitos ângulos (clique aqui para conferir um deles) e voltará à pauta em uma futura seção Insight.

Algumas apostas para Cannes
Será anunciado nos próximos dias o line up do festival de Cannes 2013. Pode ser que não surja de pronto uma lista fechada com os 20 filmes que disputarão a Palma de ouro, mas cerca de 17 ou 18 filmes já devem ser confirmados. Como já é notório, a 66ª edição de Cannes terá Steven Spielberg como presidente do júri da principal mostra competitiva e O grande Gatsby como filme de abertura. Claquete indica alguns filmes que, na avaliação do blog, farão parte do evento. 

+ The Bling ring, de Sofia Coppola (EUA)
Sofia, que esteve em Cannes com Maria Antonieta em 2006, ainda deve um grande filme ao festival. Seria essa a chance? O filme já está pronto e Sofia é cult o suficiente para se garantir como uma das grandes atrações. De quebra, Emma Watson seria um ímã no tapete vermelho.

+ Blood ties, de Guillaume Canet (EUA)
O filme é americano, mas o diretor é francês. Aliás, diretor que também é ator e casado com Marion Cotillard, que protagoniza o filme. Ser um thriller dolorido e com forte proeminência dramática ajuda.

+ La granda bellezza, de Paolo Sorrentino (ITA)
Os últimos quatro filmes de Sorrentino debutaram em Cannes. O filme já está pronto. É só fazer as contas.

+ Twelve years a slave, de Steve McQueen (ING)
O novo do diretor de Shame com os astros Michael Fassbender e Brad Pitt, além da nova sensação Quvenzhané Wallis. Thierry Frémaux, diretor do festival de Cannes, deve estar se matando para garantir este filme no evento.

+ Jeunie et Julie, de François Ozon (FRA)
Depois de figurar dois anos consecutivos em Veneza, esse poderia ser o filme de retorno de Ozon a Cannes, onde somente disputou com Swimming pool em 2003. O filme ainda está em pós-produção. Se não ficar pronto a tempo, é certeza em Veneza. 

+ Lowlife, de James Gray (EUA)
Gray é um dos queridos de Cannes. Neste tenso drama estrelado por Joaquin Phoenix, Jeremy Renner e Marion Cotillard deve engatar sua segunda participação consecutiva na riviera francesa. Concorreu à Palma de ouro por seu último filme, Amantes em 2008.

+ Only God forgives, de Nicolas Winding Refn (EUA)
O diretor de Drive, uma das sensações do festival em 2011, e Ryan Gosling juntos novamente. Quem vai resistir? Cannes certamente não.

+ The past, de Asghar Farhadi (FRA)
Primeiro filme do diretor de A separação após a consagração internacional do filme vencedor do Oscar em língua estrangeira. É também seu primeiro filme fora do Irã e com astros franceses como Bèrenice Bejo e Tahar Rahin.

+Serra pelada, de Heitor Dhalia (BRA)
Um épico brasileiro sobre o maior garimpo a céu aberto do país. Uma história de ganância e violência com a sensibilidade de Dhalia, que causou boas impressões com À deriva, exibido em Cannes na mostra Um certo olhar.

+ The Nymphomaniac, de Lars Von Trier (DIN)
Von Trier em Cannes, a despeito das polêmicas exacerbadas de sua última participação, é sempre certeza. Ainda mais com um projeto tão polarizante como esse - um filme com cenas de sexo explícito. 

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Crítica - 127 horas

Conjugando emoção e técnica!


O novo filme do inglês Danny Boyle é um tour de force de seu protagonista, James Franco e 127 horas (127 hours, EUA/INGL 2010) é, também, uma ostentação de perícia e técnica de seu diretor enquanto narrador. A dramatização dos eventos que se sucederam no período de tempo que dá nome ao filme e que marcaram definitivamente a vida do engenheiro com paixão pelo alpinismo Aron Ralston (James Franco), é um exemplo de como o cinema moderno aceita intervenções estéticas e ainda se esmera em preceitos básicos – como uma sólida e centrada atuação.
Franco´s way: presente em 99% das cenas, James Franco
dá um show em 127 horas
A trajetória de Aron que tem seu braço esmagado por uma rocha em uma fenda montanhosa em um Cânion nos confins de Utah é dolorida e suficientemente angustiante para calejar o espectador incauto. Se este já tiver ciência do que o espera, a experiência não será menos impactante. Contribui para isso, o esmero visual de Boyle e suas constantes intervenções estéticas. 127 horas começa a mil. Acompanhando o estado ansioso de seu protagonista, o filme dimensiona toda essa ansiedade, com música frenética, tela dividida, múltiplas cores, granulação do registro (entre a câmera amadora de Aron e a câmera de Boyle) se alternando, entre outros recursos que acentuam 127 horas e muito o aproxima de um vídeo publicitário. No entanto, conforme a história de Aron vai ganhando contornos dramáticos, o filme vai encontrando novo ritmo. 127 horas vai ficando mais lento. Persuasivo. Boyle encontra na contemplação um bom refúgio. Embora resista a confiar plenamente em Franco como catalisador das emoções, os recursos que lança mão funcionam maravilhosamente bem. Sejam nos flashbacks ou nos longos takes do isolamento de Aron, a montagem e a fotografia se enfileiram como grandes trunfos do filme.
Embora Boyle transpareça essa hesitação de confiar a seu ator o status quo do filme, Franco é o grande fiador das emoções que 127 horas provoca em seu público. Dono de uma energia não menos que cativante, o ator se apodera de todos os pormenores de um papel de imenso potencial dramático e alinha outras nuanças a ele. Existe uma cena em que Franco de tão bom chega a assustar. É aquela em que Aron, já imerso em sua própria resignação e flagelo, simula ser convidado de um talk show. O ator expõe, visceralmente, tristeza, senso de humor, delicadeza, arrependimento, dor, amor, solidão e inteligência. Em 2010, nenhum outro ator conseguiu ser tão tangencial em um espaço tão delimitado física e emocionalmente falando.
Mesmo que Danny Boyle não perceba, James Franco ajudou 127 horas a distinguir-se do equivoco manipulativo que foi Quem quer ser um milionário?. A técnica, salienta James Franco com sua atuação colossal, não é capaz de fomentar emoção tão genuína quanto a própria emoção.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Filme em destaque: 127 horas

Não há força mais extraordinária na terra do que a vontade de viver


E não há slogan mais assertivo, instigante e motivador do que o do novo filme do inglês Danny Boyle que enuncia a presente matéria. Depois de consagrar-se no Oscar com uma fábula moral de apelo internacional (Quem quer ser um milionário?), o diretor Danny Boyle se volta para uma história mais intimista, mas sem perder de vista o aspecto humanista do relato e os contornos de superação que valeram tantos prêmios ao filme ambientado na Índia. Boyle também não se desvincula de seu estilo elétrico de filmar. Telas divididas, trilha sonora empolgante e grande valorização da montagem como instrumento narrativo são alguns dos aspectos que fazem de 127 horas (em cartaz nos cinemas) um filme reconhecidamente de sua autoria.
“A história de Aron Ralston merecia ir ao cinema”, declarou o roteirista Simon Beaufoy que após vencer o Oscar da categoria por Quem quer ser um milionário? engatou uma parceria pomposa com Danny Boyle. Depois de voltarem ao Oscar com 127 horas (que recebeu seis indicações, incluindo filme e roteiro adaptado), Beaufoy e Boyle já pretendem colaborar novamente em um filme de lobisomem.
“O que mais me atraiu em 127 horas foi a incrível força de vontade desse rapaz. A energia dele é algo inimaginável”, declarou Danny Boyle no último festival de Toronto, onde o filme teve premiere internacional. Aron Ralston, esse rapaz, é um jovem que se vê preso no interior de uma fenda montanhosa durante uma expedição a qual se aventurou sozinho em Utah. Ralston só sobreviveu, virou notícia e escreveu um livro de memórias ("Entre a Rocha e um lugar duro", ainda sem edição no Brasil), porque em um movimento de extrema força amputou o próprio braço para que tivesse uma chance de continuar vivendo.

Danny Boyle orienta James Franco no set de 127 horas: claustrofobia, angústia e vontade de viver dimensionadas na tela



Cena forte

É justamente a essa cena, longa e aflitiva, que os principais comentários sobre 127 horas remetem. “Precisava tomar algum tempo naquilo. Eu precisava que o público interiorizasse a vontade de viver de Aron. O quanto ele foi capaz de fazer para continuar vivo”, declarou Boyle – meio que se defendendo – em Toronto. A defesa se fez necessária porque foram muitos os relatos de espectadores passando mal durante a cena. Taquicardias, desmaios e queda de pressão foram alguns dos sintomas apresentados.
Mas 127 horas é, antes de ser uma espetacularização dramática, um filme sobre a vontade de viver. Foi ela que motivou Aron a ir ao cânion em que viveu o momento chave de sua existência e foi ela que o motivou a sair de lá.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Claquete repercute - Extermínio




A crítica cultural e muitos telespectadores se assombraram há alguns meses atrás com a estréia da série The walkind dead, em que poucos humanos tentam a sobrevivência após um holocausto zumbi. A série começava com um homem saindo do coma e descobrindo um mundo mutilado e de silêncio ensurdecedor. Esse começo é emprestado do último grande filme do diretor inglês Danny Boyle. O filme em questão é Extermínio (28 days later, ING 2002). Boyle reconfigurou o status dos zumbis nos cinemas. O que pode ser tomada como a grande contribuição desse filme, ainda não a é, mas certamente não deixa de ser uma atualização interessante. Saem de cena os zumbis clássicos viabilizados pelo cinema do mestre George Romero (e revisitados com a devida referência por Zack Synder em Madrugada dos mortos de 2004) e entram essas criaturas que não necessariamente estão mortas e sim infectadas por uma variação do vírus da raiva. A transformação em zumbi se dá em segundos e a capacidade de locomoção é muito mais veloz do que estávamos acostumados a ver nos cinemas. Os zumbis de Danny Boyle são criaturas caóticas e bem mais assustadoras do que os zumbis tradicionais. Até pelo fato de que o risco de se tornar um deles, além de maior, é mais presente.
Na trama, Jim (Cilliam Murphy) aos poucos vai digerindo a condição deste novo mundo e seu papel nele. A luta pela sobrevivência se dá ao lado de Selena (Naomi Harris), que já está alguns passos a frente de Jim na percepção de que certos valores já não tem mais lugar naquela realidade. É dessa fusão de percepções e de como elas descambam para uma vala comum que Boyle alimenta seu filme. A alegoria política de Romero sai de cena e dá lugar a desesperança na humanidade confrontada com a ruína da civilidade. O inglês se interessa menos pela forma como o homem se organiza e mais pelos interesses que permanecem com ele quando organização já soa como um luxo.

Devastação: solidão e caos são elementos presentes no último grande filme de Danny Boyle


Extermínio é, ainda, um vigoroso thriller sobre sobrevivência. Há dois fortes comentários da realização a respeito. O primeiro remete ao destino do personagem de Brendan Gleeson (um pai que fizera de tudo para prover esperanças a sua filha e por força das circunstâncias é privado de alimentá-las) e o segundo comentário – mais aterrador ainda – se dá no momento em que um punhado de militares se propõe a um ato sórdido que antecipa o clímax do filme.
Toda a tensão construída em Extermínio é capturada por uma câmara intrusa. A fotografia do filme é crua, as cores são mortas, frígidas até, mas os movimentos de câmera são rápidos, afoitos (em uma analogia com a condição dos próprios zumbis). Boyle faz cortes secos que funcionam como catalisadores de um sentimento de desorientação muito oportuno à trama que ele desvela. Extermínio se resolve de maneira previsível dentro das características de um produto comercial, mas seu desfecho não impede de brotar um forte pessimismo no âmago da platéia. É por ter conseguido atender os anseios comerciais e ter produzido um comentário tão poderoso sobre a degeneração humana, que nada tem a ver com tornar-se zumbi, que Extermínio é das melhores fitas de Danny Boyle.
O segundo filme, dirigido pelo espanhol Juan Carlos Fresnadillo, e que contou com produção e supervisão de Boyle, avança nas questões propostas por ele aqui. É ótimo cinema, visualmente arrebatador, e imbuído do mesmo sentimento que o filme original. A série The walkind dead, no frigir dos ovos, não emprestou de Extermínio apenas a cena inicial. Pena que falta o desprendimento (e talvez a competência) de Boyle para lhe prover a pujança que se verifica aqui.

sábado, 20 de novembro de 2010

Cantinho do DVD

Danny Boyle não era um diretor tão festejado até pouco tempo atrás. Na verdade, seu pior filme foi justamente aquele que lhe valeu a consagração. No caso Quem quer ser um milionário? Prestes a lançar seu nono filme (127 hours), o diretor frequentemente é lembrado por Trainspotting, seu melhor filme. Cantinho do DVD destaca justamente o primeiro filme de Boyle posterior ao frisson causado por Trainspotting. Por uma vida menos ordinária é o cartão de visitas de Boyle a Hollywood e o diretor trouxe Ewan Mc Gregor (a estrela de seus dois primeiros filmes) com ele. O filme não é nada demais e serve para mostrar que quando Boyle flerta com Hollywood ele não consegue se manter tão interessante.


Ficha técnica
Título original: A life less ordinary
Direção: Danny Boyle
Roteiro: John Hodge   
Elenco: Ewan McGregor, Cameron Diaz, Delroy Lindo, Holly Hunter e Iam Holm
Estúdio: Fox
Duração: 104 min
Status: Disponível em DVD e Blu-Ray para venda e locação
Preço médio: Blu-Ray = R$ 79,90
DVD = R$ 29,90



Crítica

Danny Boyle, em seu terceiro longa-metragem, flerta mais assumidamente com o caráter fabular. Por uma vida menos ordinária (A life less ordinary, ING/EUA 1997) é, por força da necessidade de definição, uma comédia romântica. Ewan McGregor e Cameron Diaz estrelam como um faxineiro que sonha em ser escritor e como uma patricinha com um complexo de Electra mal resolvido que passam a conviver juntos quando um sequestro mal elaborado pelo personagem de Ewan se desenrola.
Após ser demitido Robert Lewis (McGregor) meio que sem querer (acredite é possível) sequestra Celine (Cameron Diaz), filha de seu ex-patrão. Sem jeito para o ofício, Robert é instruído por Celine que já passou pela situação outras vezes. Adicionados a essa loucura estão dois anjos (papéis de Delroy Lindo e Holly Hunter) que têm como missão fazer esses dois pombinhos tão diferentes se apaixonarem. Caso não consigam cumprir o designo, padecerão na terra.
Não espere um humor escrachado, tão pouco situações genuinamente cômicas. Danny Boyle faz um romance atípico apostando na estranheza das circunstâncias encenadas. O humor tipicamente inglês ora aparece refinado, ora beira o non sense.
Por uma vida menos ordinária não esconde a veia pop do cineasta que mesmo ao se enveredar por uma trama mais banal, preserva suas idiossincrasias. Na curiosa mise em scène temos penteados esquisitos, trilha sonora pop, anjos irritadiços e um protagonista totalmente desprovido de carisma. Menos ordinário impossível.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

De olho no futuro...

O saldo de Toronto
O 35º festival de Toronto se encerrou no domingo passado com um saldo muito positivo. Organizadores, público e crítica lançaram um veredicto unânime e difícil de haver em um evento deste porte. Toronto 2010 foi das melhores edições dos últimos anos. Muitos contratos de distribuição firmados, filmes que geraram irremediáveis Oscar buzz, e pencas de astros e estrelas desfilando pela cidade canadense. Os principais destaques da edição 2010 foram The king´s speech (eleito pelo público o melhor filme), Homens em fúria, The rabbit hole, Biutiful e Casino Jack.


Um Danny Boyle que incomoda muita gente
O primeiro filme de Danny Boyle depois do Oscar por Quem quer ser um milionário? é um filme que promete levar Boyle ao Kodak Theater novamente. 127 hours é um pequeno filme (mais um independente na carreira do cineasta inglês), inspirado em fatos reais e com uma interpretação, dizem, fenomenal de James Franco.
O que está pegando é que 127 hours, que acompanha a luta pela vida de um alpinista, tem feito muita gente passar mal durante uma cena de mutilação. É essa cena, dizem os que não passaram mal, que valerá a Franco uma indicação ao Oscar de melhor ator.


A sina dos irmãos Affleck
Em setembro o noticiário de Hollywood se dividiu entre os irmãos Affleck. De um lado, Ben – o irmão mais velho- que exibiu seu mais recente trabalho como diretor (Atração perigosa) nos festivais de Veneza e Toronto e lançou a fita em grande circuito no fim de semana passado nos EUA. Atração perigosa é sucesso de bilheteria e de crítica. O sempre contestado Ben parece ter encontrado paz na sua promissora carreira de diretor. O irmão mais jovem, Casey, que estrelou o debute do irmão na direção (Medo da verdade) também exibiu em Veneza e também lançou no circuito americano o documentário I´m still here: the lost year of Joaquin Phoenix. Considerado bom ator, a estréia de Casey na direção não foi festejada. A crítica torceu o nariz para o filme. Mais ainda depois de Casey ter admitido que tudo não passava de brincadeira. Porque o mau gosto já era nítido. Atração perigosa deve chegar aos cinemas brasileiros em novembro, já o documentário dirigido por Casey não tem previsão de distribuição no circuito brasileiro. Tanto Casey quanto Ben (e seus trabalhos) serão tema das próximas seções Insight aqui do blog.



Holofote


Claquete foi um dos primeiro veículos a apontar na direção de Andrew Garfield. Sim. Há um certo orgulho nessa afirmação. O ator, que David Fincher considera “um achado”, é dos nomes mais quentes em Hollywood atualmente. Recém anunciado como o Peter Parker do reboot que a Sony organiza para a franquia do Homem aranha, Garfield estrela dois dos principais filmes dessa Oscar season. O primeiro deles, que estréia no próximo fim de semana nos EUA, é A rede social. No vulgo “filme do Facebook” ele interpreta um dos fundadores do principal site de relacionamentos da atualidade.
O ator também está em Never let me go em que contracena com as inglesas Carey Mulligan e Keira Knightley. Dois filmes de pedigree e com ambições altas na temporada. Nada se compara, porém, a evidência que está por vir na pele do aracnídeo. Ele pode não ser o ator talhado para viver Peter Parker. Mas o ator que tem nome de gato, ao contrário de seu homônimo famoso, não tem preguiça de correr atrás do prejuízo.


Garfield ao lado de Jesse Eisenberg em cena de A rede social: um futuro brilhante



O adeus está próximo

Deve começar já no meio de outubro a maratona de divulgação da primeira parte do último Harry Potter. Harry Potter e as relíquias da morte – parte 1 estréia em novembro nos cinemas de todo o mundo, mas antes disso o elenco, produtores e o diretor David Yates vão a alguns mercados estratégicos (já confirmados Londres, Los Angeles, Tóquio, Berlim e Cidade do México) divulgar o novo filme. Tudo pronto para a penúltima temporada em Hogwarts.

 



Primera mão

Zack Galifianakis assume o protagonismo de It´s kind of a funny history. O filme deve chegar no verão do ano que vem aos cinemas americanos 


Sam Worthington sem 3D: em The debt, com estréia programada para dezembro nos EUA, o ator vive um espião


Paul Bettany é um padre incumbido de proteger a raça humanda dos vampiros na adaptação da Graphic Novel coearana O padre, que chega aos cinemas brasileiros em janeiro do ano que vem  


Mary Louise Parker estréia novo visual na nova temporada de Weeds, com estréia marcada para este mês no canal Showtime. No Brasil, a sexta temporada do programa deve estrear em janeiro 


Foi divulgada a primeira imagem de Pânico 4. O novo filme que conta com o elenco original e adições como Anna Paquin, Emma Stone e Hayden Panittere estréia em abril de 2011 nos cinemas de todo o mundo  



Bolsão Oscar




Natalie Portman
Depois das exibições em Toronto e Veneza, existe uma unanimidade. Mesmo que o novo filme de Darren Aronosfky, Cisne negro, não caia no gosto da crítica, sua estrela tem a glória das premiações a sua frente. O Chicago Sun Times escreveu: “Natalie é a certeza mais cristalina da temporada de premiações.”


Minhas mães e meu pai
Exibido com sucesso em Sundance e Berlim, a fita que mostra um cotidiano familiar diferente, agradou e muito a crítica internacional. Na falta de um candidato mais badalado como Quem quer ser um milionário? e Preciosa, é sério candidato a independente do ano no Oscar.


Ben Aflleck
Seu Atração perigosa tomou de assalto a crítica americana que está morrendo de amores pelo filme. Produtor, diretor, roteirista e protagonista da fita é difícil crer que Affleck não seja lembrado pelo menos como roteirista.





Peter Weir
O diretor que é conhecido por só ter feito filmes bons não empolgou a crítica com seu mais recente trabalho, The way back. Exibido no começo do mês para uma platéia selecionada, The way back não impressionou. Weir que era tido como presença certa entre os diretores, passa a ser tido como carta fora do baralho.


Somewhere
Dos raros casos em que um leão de ouro provoca reação adversa. O prêmio em Veneza gerou má publicidade para o quarto filme de Sofia Coppola. O leão de ouro entregue por um júri presidido pelo amigo Quentin Tarantino foi o mais contestado dos últimos anos.


The next three days
O novo longa de Paul Haggis era aguardado até a divulgação do primeiro trailer. Russel Crowe estrela o filme que ganhou a indesejada pecha de thriller comum. Algo que ninguém esperava do homem por trás de filmes como Crash e No vale das sombras.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Cantinho do DVD

E já que o assunto é Oscar, Cantinho do DVD dessa semana destaca o último grande vencedor da maior festa do cinema. Quem quer ser um milionário? ganhou oito Oscars e muitas controvérsias. Desde denúncias de exploração do elenco infantil até cópias escancaradas de outros filmes. De qualquer maneira, o filme de Danny Boyle sagrou-se o único filme desde O senhor dos anéis: o retorno do rei a triunfar em todas as premiações. Vamos a critica.

* a critica foi escrita na ocasião do lançamento do filme

Desgraça pouca é bobagem!

O eclético diretor inglês Danny Boyle entrega uma fábula sobre adversidades e superação. O mais festejado e premiado filme do ano, Quem quer ser um milionário? (Slumdog millionaire ING/IND 2008) é sob muitos ângulos um filme comum. Contudo, se vê maximizado por dois fatores extra - telas de cinema. O primeiro e mais influente é a eleição de Barack Obama, que devolve a esperança afugentada durante os anos Bush, algo amealhado muito bem, ainda que involuntariamente pela produção. O segundo e mais acidental é a forte crise econômica que o mundo atravessa, e mais importante, a vontade que tem de sair dela.
Por tudo isso a história de Jamal Malik - menino que sofreu de tudo, desde a morte da mãe, dias de mendicância, até exploração de um malfeitor, e que brilhantemente se ergue como vencedor - é a grande sensação da temporada. Boyle, inegavelmente imprime bastante vigor em sua fita, mas é inegável também a opção do diretor de forçar a mão no drama e arrancar da platéia sua solidariedade para com Jamal.
A história do menino que tira de experiências vividas por si próprio cada resposta para o programa Quem quer ser um milionário, do qual participa só para que sua amada saiba como encontrá-lo, é uma fonte de emoções. Isso é inconteste. O filme, visivelmente influenciado - não só pela linguagem, mas também pelo discurso - por Cidade de Deus, tem em sua mensagem otimista, seu grande acerto.
Com 10 indicações para o Oscar, incluindo filme, direção e roteiro adaptado, Quem quer ser um milionário? não é merecedor nem de constar em tão seleta lista, mas pode-se beneficiar do momento que a humanidade vive. Em uma ironia metalinguística da qual o próprio filme se serve, o sucesso da fita estava escrito. E toda a desgraça que Jamal e seus entes queridos vivenciaram, terá sido justificada.