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terça-feira, 6 de agosto de 2013

TOP 10 - Os dez maiores (e melhores) diretores "faz tudo" do cinema contemporâneo

A ideia desse Top 10 é honrar diretores de cinema que ao longo dos anos têm demonstrado talento e versatilidade a frente de projetos distintos e que revelam uma gama multifacetada de interesses. Muitos desses diretores são louvados em seu meio enquanto outros são menos conhecidos, mas igualmente qualificados. Alguns apresentam maior atividade em um gênero cinematográfico, mas aparecem em outros gêneros vez ou outra; alguns se exercitam em superproduções e no cinema independente; outros favorecem experiências estéticas diferentes em cada projeto ou alternância de linguagem. Enfim, todos fazem por merecer seu lugar nesse ranking.




10 – Bill Condon
Aos 57 anos, o diretor americano, que também é roteirista, prova a cada novo trabalho uma versatilidade sempre surpreendente. Desde Deuses e monstros (1998), excelente filme sobre os últimos dias do diretor de Frankenstein e o desejo que ele nutre por seu jardineiro, que Condon chama a atenção. Antes disso, porém, já havia rodado a perola B Candyman 2 - a vingança. Na sequência rodou o excepcional e ousado Kinsey -  vamos falar de sexo (2006), sobre o pesquisador que foi pioneiro nos estudos sobre sexualidade humana. Dois anos depois, rodou o musical Dreamgirls – em busca de um sonho, estrelado por Eddie Murphy e Beyoncé sobre alguns dos nomes mais expressivos da música negra americana do século XX.  A guinada radical se deu com a direção dos dois últimos filmes da saga Crepúsculo. Agora, em 2013, Condon se prepara para lançar a cinebiografia com jeitão de espionagem do australiano Julian Assange, The fifth estate.

9 – Ron Howard
Ele até, talvez, merecesse uma posição melhor. Howard faz comédia, drama, aventura, fantasia e ação. Mas a irregularidade de alguns projetos força sua nona posição no ranking, apesar da longevidade de seus trabalhos. Desde Splash- uma sereia em minha vida (1984), Howard tem provado versatilidade ímpar alternando filmes como Willow – na terra da magia (1988), Um sonho distante  (1992), O jornal (1994), Apollo 13 – do desastre ao triunfo (1995), O preço de um resgate (1997), O grinch (2000), Uma mente brilhante (2001), Desaparecidas (2003), O código Da Vinci (2006), Frost/Nixon (2008), O dilema (2011) e o inédito Rush – no limite da emoção (2013). Ufa!

8 – Robert Zemeckis
Outro que já fez de tudo! Comédia. Ficção científica. Comédia de ficção científica. Animação. Policial. Drama… Zemeckis é seguramente um dos diretores mais importantes da história do cinema e sua contribuição vai além da trilogia De volta para o futuro e de filmes revolucionários como O expresso polar e A lenda de Beowulf. Ele esteve a frente de filmes tão diversos como Tudo por uma esmeralda (1984), Uma cilada para Roger Rabbit (1988),  A morte lhe cai bem (1992), Forrest Gump – o contador de histórias (1994), Contato (1997), Revelação (2000) e o recente O voo (2012).
  
7 – Mike Nichols
Outro diretor cuja longevidade no cinema lhe permitiu muitas experimentações. Da crônica política à sátira, passando pela comédia de teor sexual ao drama mais profundo com raiz teatral. Nichols caracterizou-se pela excelente direção de atores nos mais variados gêneros. São deles os brilhantes Quem tem medo de Virginia Woolf? (1966), A primeira noite de um homem (1968), Ânsia de amar (1971),  A difícil arte de amar (1986), Uma secretária de futuro (1988), Lobo (1994), A gaiola das loucas (1995), Segredos do poder (1998), Closer – perto demais (2004) e Jogos do poder (2007).

6 – Curtis Hanson
Outro diretor que trafega com desenvoltura por gêneros diversos. Do drama biográfico com jeito de musical alternativo (8 mile – rua das ilusões) ao modernoso thriller financeiro (Grande demais para quebrar), passando por filmes tão diferentes e cheios de qualidades como A mão que balança o berço (1992), O rio selvagem (1994), Los Angeles – cidade proibida (1997), Garotos incríveis (2000), Em seu lugar (2005) e Bem vindo ao jogo (2007).

5 – Taylor Hackford
Esse é um verdadeiro mestre da versatilidade. Não à toa, ocupa com desenvoltura a presidência do sindicato dos diretores em Hollywood. Desde os anos 70, Hackford tem transitado por gêneros e orçamentos variados. Seu mais recente filme, o B por excelência e nostalgia Parker (2013) não guarda nenhuma semelhança com, por exemplo, o ótimo thriller romântico Paixões violentas (1984) – um dos pontos altos da década de 80. Narrativas com ritmo e tempos diferentes são sua especialidade. Um artesão de marca maior responsável por filmes tão díspares como O sol da meia-noite (1985), Advogado do Diabo (1997), Prova de vida (2000) e Ray (2004).

4 – Ridley Scott
Não dá para discutir com a proeminência da carreira de Ridley Scott. Uma carreira sólida na ficção científica com ótimos exemplares de comédia, ação e drama. Sem contar filmes épicos e de guerra que estão entre os mais significativos da história do cinema. Uma rápida pincelada na filmografia de Scott e temos filmes como Blade runner – o caçador de androides (1982), A lenda (1985), Chuva negra (1989), Tormenta (1996), Gladiador (2000), Hannibal (2001), Falcão negro em perigo (2001), Os vigaristas (2003), Um bom ano (2006) e O gangster (2007).

3- Steven Soderbergh
Ele não poderia ficar de fora do pódio. Prolífico e versátil, Soderbergh alterna grandes orçamentos com produções independentes, além de experimentar linguagens renovadas com certa frequência. De Sexo, mentiras e videotape (1989) a Terapia de risco (2013), chamou a atenção com projetos tão diversos como Irresistível paixão (1998), Traffic – ninguém sai ileso (2000), Onze homens e um segredo (2001), Solaris (2002), Bubble (2005), O segredo de Berlim (2006), Che: o argentino (2008), O desinformante (2009), A toda prova (2011) e Magic Mike (2012).

2- James Mangold
Ele só não está no topo desse ranking porque uma figura chamada Steven Spielberg, patrimônio do cinema, reclamou a primeira posição. Com justiça, diga-se. Nenhum diretor com um filmografia relativamente tão curta caminhou por caminhos tão largos assumindo projetos tão distintos e desafiadores como Mangold. De comédias românticas a biografias de lendas da música, passando por adaptações de HQs e westerns. Mangold é um diretor de cinema em toda a sua abrangência. São deles os filmes Cop land (1997), Garota interrompida (1999), Kate & Leopold (2001), Identidade (2003), Johnny & June (2005), Os indomáveis (2007), Encontro explosivo (2010) e Wolverine: imortal (2013).

1 – Steven Spielberg

Precisa explicar? Vamos lá! O homem que inventou o conceito de blockbuster e fez o filme de aventura que o American Film Institute considera o mais completo e referencial (este filme é Os caçadores da arca perdida, caso você esteja se perguntando) já fez dramas das mais variadas procedências, filmes pequenos, filmes grandes, algumas das ficções mais celebradas da história, comédias, aventuras, filmes de guerra e até drama político. Spielberg tem seus cacoetes, até certo ponto indissociáveis de sua persona, mas parece pacífico que é capaz de rodar o filme que quiser e da maneira que quiser. Alguns pontos altos: Tubarão (1975), E.T (1982), A cor púrpura (1985), Jurassic Park – o parque dos dinossauros (1993), A lista de Schindler (1993), O resgate do soldado Ryan (1998), Minority report – a nova lei (2002), Prenda-me se for capaz (2002), O terminal (2004), Munique (2005), Lincoln (2012).

sábado, 10 de novembro de 2012

Crítica - Magic Mike


Simpatic Mike

O novo filme de Steven Soderbergh se pagou no primeiro fim de semana nos EUA. A última vez que isso aconteceu foi com Onze homens e um segredo (2001). A fórmula mágica foi colocar uma série de homens pelados na tela de cinema. Magic Mike, não se engane, é mais um filme independente de Soderbergh. Que nessa seara já retratou desde a vida amorosa de uma garota de programa à ascensão de Che Guevara. Magic Mike surgiu das memórias, agora imortalizadas em celuloide, de Channing Tatum que antes de se descobrir ator já havia sido stripper. Soderbergh, portanto, contou com o insight do ator para erigir esse mundo que mistura fetiche, luxúria, carência, sonhos e necessidade de amadurecimento.
A primeira vez que avistamos Mike ele está pelado e se levantando da cama que divida com duas mulheres. É uma entrada triunfal para um personagem pouco triunfante, mas que Channing Tatum, com muito coração e desenvoltura, vai humanizando ao longo do registro.
Mike não é só stripper. Ele faz polimento de carros e também trabalha com construção civil, mas percebe-se que seu prazer está vinculado a tirar a roupa na frente de mulheres. Mas, para todos os efeitos, ele mantém um sonho: ter a própria empresa de fabricação de móveis personalizados. Mike é um sonhador e também um cara gente boa, como se diz por aí. Ele apadrinha Adam (Alex Pettyfer), um jovem de 19 anos que se recusa a assumir responsabilidades e mergulha de cabeça nesse convidativo mundo de liberdades. A partir da relação de Mike com Adam e com seu patrão no clube de strip-tease, Dallas (Matthew McConaughey), Magic Mike tira seu sustento dramático. Mike, com o préstimo da irmã de Adam (Cody Horn) por quem se interessa romanticamente, percebe que não crescerá como ser humano naquele ambiente. Não deixa de ser uma vertente moralista essa que o filme adota, apesar do desfile de glúteos masculinos e abdomens sarados. Mas é, também, um conflito legítimo o vivido pelo personagem, o que valida as opções tanto de Mike como dos outros personagens que gravitam seu universo.
No limiar, Magic Mike é um filme sobre despertar de consciência, mas os músculos pipocando na tela divergem a atenção do espectador. O apelo ao público feminino e homossexual também tendem a reforçar a resistência ao filme que, no limiar, apresenta os mesmos conflitos e soluções de Ted, filme mais afeito ao gosto do público masculino e que, coincidência suprema, estreou no mesmo fim de semana de Magic Mike nos EUA. Magic Mike é menos inteligente do que Ted, mas é muito mais simpático.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Crítica - À toda prova


Diversão com pedigree!

Ser Steven Soderbergh tem suas vantagens. O diretor americano rodou dois longa-metragens com elencos recheados de estrelas de primeira grandeza quase que simultaneamente. Um, Contágio, sobre um vírus mortal e sem precedentes que põe em risco o futuro da humanidade, e outro esse movimentado À toda prova (Haywire, EUA 2012); filme de ação que se vale de alguns elementos relacionados ao cinema de espionagem e protagonizado por uma lutadora de MMA, Gina Carano.
A grife Soderbergh atraiu atores de peso para figurar entre os coadjuvantes e apanhar de Carano, que faz uma agente de uma empresa paramilitar traída e em busca de vingança. Gente como Ewan McGregor, Michael Fassbender, Michael Douglas, Antonio Banderas, Bill Paxton e Mathieu Kassovitz abrilhanta esse filme de ação classudo com locações na Irlanda e na Espanha.
Carano e Fassbender em cena de À toda prova: filme de
ação cheio de estilo e sofisticação
De maneira não linear, Soderbergh estipula a jornada de Mallory Kane (Carano) na busca pelos responsáveis por um intrincado plano para matá-la. Ela precisa, obviamente, saber quem quis matá-la. Informação que ela já detém na primeira cena do filme, mas que o público só terá plenamente na meia hora final.
O diretor novamente esbanja técnica na arte de contar uma história no cinema. Com trilha sonora envolvente, direção de arte sóbria e fotografia não menos impactante, o cineasta faz de um filme de ação até certo ponto banal um interessante e climático exercício de estilo.  Tudo isso ainda com ótimas cenas de luta. O embate entre Carano e Fassbender, por exemplo, é uma das melhores lutas do cinema recente. Coisa do tipo que não se via desde O ultimato Bourne (2007). Aliás, se tem uma coisa que À toda prova deixa transparecer com nitidez é o grau de influência da trilogia Bourne no cinema de ação moderno. Até mesmo Soderbergh quis fazer o seu Bourne. Fez e aferiu algumas marcas pessoais que fazem da fita estrelada por Carano um entretenimento acima da média.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Crítica - Contágio

Medo!
A austeridade com que Steven Soderbergh filma Contágio (Contagion, EUA 2011) leva ao crescente sentimento de paranoia. Mais do que um compromisso de isenção, que ganha dimensão na comparação inerente com o jornalista vivido por Jude Law no filme, o recurso prova a eficácia de manter a platéia afastada da ação. O que não implica em esquivar-se da emoção, mas quando desvia o foco dos personagens – e por consequência do elenco estrelado que possui – e mira um vírus de procedência desconhecida como protagonista, Soderbergh demonstra interesse menos na reação das pessoas a uma catástrofe do porte de um vírus biológico e mais no impacto sócio-cultural da epidemia.Traduzindo: a erupção do medo.
E a experiência de Contágio é essa. Possibilitar a audiência um vislumbre aterrador do que seriam aquelas circunstâncias. O grau de realismo espanta. Justamente por esse tom alarmista na medida certa que Contágio tem sido saudado pela crítica como um filme de contemporaneidade ímpar. É inegável que a fita de Soderbergh diverge da produção habitual cinematográfica de grandes catástrofes por inverter as prioridades do registro.

Medidas desesperadas: a humanidade tateia diante do caos em um filme sem firulas


Tudo começa com uma tosse. Gwyneth Paltrow surge em um close tão intruso que chega a incomodar. Soderbergh, aliás, em uma demonstração de técnica invejável, abusará de ângulos e tomadas inusitadas no decorrer da fita. A montagem, assinada pelo próprio diretor sob pseudônimo, é outro ponto forte. O diretor sabe fazer seu público segurar a respiração com o constante fluxo de personagens pela trama. Mesmo com nomes como Laurence Fishburne, Matt Damon, John Hawkes, Jude Law, Kate Winslet, Gwyneth Paltrow, Marion Cottilard, Bryan Cranston e Elliott Gould, o diretor não se detém nos personagens e seus dramas funcionam como meros apêndices argumentativos para o propósito do filme.
A opção final de Soderbergh tira um pouco do brilho da fita, mas é uma concessão justificável dentro da lógica hollywoodiana. Contágio é um filme que dificilmente figurará na lista de melhores do ano. Não é para tanto. Mas dificilmente um filme em 2011 terá penetrado o espectador com maior densidade. No final das contas, o slogan da fita já dizia tudo: nada se espalha mais rápido do que o medo.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Filmografia comentada - Steven Soderbergh




Sexo no divã
Sexo, mentiras e videotape (Sex, lies and videotapes, EUA 1989)
Há quem acredite que vivemos hoje em uma sociedade extremamente sexualizada. Não era bem assim no final dos anos 80 quando essa pequena joia do cinema independente americano surgiu e arrebatou plateias – em parte pelo ineditismo de abordar o sexo e suas bifurcações sem meio termos.
Não se trata de dar vez a perversões sexuais, mas de enquadrar fetiches e distopias relacionais em uma ótica totalmente vanguardista. Hoje banalizada pelo acúmulo de reality shows.
Soderbergh se apresenta como um cineasta econômico, de mão firme e com ótimo tino para a direção de atores.


Errando e aprendendo
Obsessão (Underneath, EUA1995)
Novamente trabalhando com Peter Gallagher (trabalhar com os mesmos atores é uma das muitas medidas pragmáticas do cineasta), Soderbergh realiza um filme que começa como um drama e termina como suspense. É um dos pontos baixos do diretor, mas um importante laboratório. Talvez seja aqui que Soderbergh tenha adquirido o know how para atuar com qualidade e distinção em diferentes gêneros cinematográficos.


Aquele alô para o mainstream
Irresistível paixão (Out of sight, EUA 1998)
O começo da parceria com o amigo George Clooney foi essa charmosa fita policial. Foi Irresistível paixão que provou que Soderbergh podia, também, ser pop. Uma mistura de romance com humor, abalizada por uma ação sofisticada em que George Clooney vive um irresistível meliante e Jennifer Lopez uma policial que dá sentido ao termo irresistível.   


Viabilidade
Erin Brockovich – uma mulher de talento (Erin Brockovich, EUA 2000)
Um drama sobre uma legítima “mulher coragem” com cores jurídicas que valeu a Julia Roberts o Oscar de melhor atriz. Soderbergh extrai força de um elenco que conta, ainda, com o grande Albert Finney e com um promissor Aaron Eckhart para entregar um filme tão edificante quanto eficiente. Soderbergh se mostra um diretor hábil em tornar um filme simples em material de Oscar, ainda que tenha sido ajudado por um ano dos mais fracos da história hollywoodiana.


Para a posteridade
Traffic: ninguém sai limpo (Traffic,EUA 2000)
Esse talvez seja o filme testamento do diretor. Um tema polêmico, uma narrativa entrecortada, perícia técnica na decupagem da trama, linguagem visual empolgante e atores em ótima forma. Tudo isso de maneira econômica e dinâmica. Não a toa lhe valeu o Oscar de direção.  

Entretenimento sofisticado: George Clooney é o leading man de um dos maiores acertos de Soderbergh, Onze homens e um segredo



Sem segredos
Onze homens e um segredo (Ocean´s eleven, EUA 2001)
Soderbergh provou ser um cineasta com sofisticado senso de humor ao reimaginar, ao lado de George Clooney, um dos melhores filmes do rat pack (grupo de artistas capitaneado por Frank Sinatra) nos idos dos anos 60. O novo Onze homens e um segredo não só se mostrou muito superior ao original como deu início a uma lucrativa franquia cinematográfica que funcionava tanto como filme de assalto, tanto como sátira. Um achado cinematográfico e um dos melhores trabalhos de Soderbergh.


Passo maior que as pernas
Solaris (Solaris, EUA 2002)
Adaptação da homônima obra do cinema russo, foi o primeiro grande revés de Soderbergh no cinema. Refilmagem desnecessária que não honrou o legado do original com uma trama confusa e um George Clooney pouco convincente como protagonista. A ficção científica, portanto, se tornou um gênero obtuso para o diretor que retornaria a ele com mais “liberdade criativa”  e “condescendência narrativa” em Contágio (2011).


Revolução interrompida
Bubble (Bubble, EUA 2005)
Uma trama de mistério que tem como pano de fundo uma fábrica de bonecos. Um filme simples, monótono até, cujo grande burburinho foi sua estratégia de distribuição. Steven Soderbergh decidiu lançar o filme nos cinemas no mesmo fim de semana em que o disponibilizava em DVD, na TV por assinatura e em streamings online. A ideia era promover um debate para distribuição do cinema independente. Por mais interessante que fosse a ideia – e o debate – o filme não os vitaminou o suficiente. 


Homenagem rarefeita
O segredo de Berlim (The good german, EUA 2006)
Querendo se provar um cineasta clássico e com o interesse de fazer o “seu Casablanca”, Soderbergh chamou o chapa George Clooney para essa história que conjuga romance e mistério em preto e branco. A crítica reagiu com indiferença à pompa de Soderbergh e o público não descobriu a fita que é boa, mas sucumbe à própria arrogância.

George Clooney e Steven Soderbergh batem um papo no set de Solaris: um revés doloroso para o cineasta que vinha da conquista do Oscar...


Tour de force!
Che: partes 1 e 2 (Che ESP, EUA, ARG 2008)
A ideia de filmar a vida de Che era algo que Soderbergh alimentava há muito tempo. O projeto era gigante, assim como a metragem do filme; o que obrigou o cineasta a dividir a obra em duas partes para lançá-las comercialmente. O resultado dividiu opiniões. Irregular e faltoso, o Che de Soderbergh só produziu de unanimidade a performance de Benicio Del Toro. De qualquer jeito, pelo tamanho do projeto e pela escassez de recursos, o diretor alcançou algum prestígio crítico. 


Cineasta de patentes!
Confissões de uma garota de programa (The girlfriend experience, EUA 2009)
Esse curioso filme protagonizado pela atriz pornô Sasha Grey como uma garota de programa de luxo ratificou de uma vez por todas que, por mais interessante que fosse sua veia independente e experimental, Soderbergh estava destinado a só colher elogios por suas aparições no cinemão. Soderbergh exercita aqui alguns cânones do cinema independente, mas não consegue nem mesmo cativar o espectador familiarizado com esse nicho.


Questão de estilo
O desinformente (The informant, EUA 2009)
Steven Soderbergh já vinha flertando com a comédia há algum tempo, mas ainda não havia feito um filme que se encaixasse na descrição. O desinformante, uma fita puxada para o humor negro e o non sense, é a que chega mais próximo. Com a mesma acuidade visual que marcou seus melhores trabalhos, Soderbergh dedica especial atenção a detalhes como trilha sonora, direção de arte e confia a Matt Damon o melhor do resto.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Cenas de cinema

Pacino, o grande


O astro americano Al Pacino passou pelo festival de Veneza no último fim de semana para ser homenageado com “um prêmio cuja história eu não estou exatamente familiarizado”, argumentou o ator. Pacino também exibiu no festival italiano Wild Salome, sua nova incursão na direção. Um híbrido de documentário e making of sobre o texto de Oscar Wilde com referências shakespearianas. Pacino, que foi só sorrisos durante sua passagem por Veneza, admitiu ter tido dificuldades em delimitar os rumos do filme.
De qualquer maneira, a presença do ator foi muito festejada e badalada no lido. Ah! O prêmio que ele recebeu já foi outorgado a gente como Takeshi Kitano, Abbas Kiarostami e Sylvester Stallone pela contribuição a arte de fazer filmes.


Dando um tempo nas metáforas
Steven Soderbergh exibiu, fora de competição, Contágio. A ficção científica que conta com grande elenco (Matt Damon, Kate Winslet, Marion Cottilard e Gwyneth Paltrow) recebeu a pecha de “thriller eficiente”. No que o diretor respondeu que estava mesmo “dando um tempo nas metáforas para se divertir”. O que chamou mais atenção no lido foi a aparente indecisão do cineasta quanto a sua aposentadoria. Soderbergh vinha anunciando sua aposentadoria com alarde, mas muitos duvidavam de suas intenções. Antes de chegar em Veneza, o diretor havia concedido entrevista ao New York Times e dito que estava mesmo saturado da pressão de fazer filmes. A ideia era se expressar artisticamente através da pintura e que, se a grana apertasse, poderia retornar com outro filme do Ocean (da série Onze homens e um segredo).
Em Veneza, Soderbergh apresentou uma versão diferente. O cineasta disse que se trata, na verdade, de um período sabático. Fato é que, após lançar em 2011 Contágio e Haywire, o diretor já tem programado para ano que vem Magic Mike, sobre as desventuras do universo do strip masculino com Matthew McConaughey, Jéessica Biel e Channing Tatum. Baseado nas memórias deste último.



No shame at all
Existe um favorito disparado nos bolsões de apostas para levar a Copa Volpi de melhor ator do festival de Veneza 2011. Trata-se do alemão de ascendência irlandesa Michael Fassbender. Presente em dois dos grandes filmes do festival, A dangerous method e Shame, Fassbender vem colhendo elogios fervorosos por sua atuação neste último. Sua segunda colaboração com o diretor Steve McQueen. Em Shame, Fassbender vive um homem solitário com forte compulsão sexual. O ator admitiu que foi difícil rodar algumas cenas mais sensuais, mas disse que ficou feliz com “um filme que fala sobre dilemas essencialmente humanos”. McQueen, por sua vez, disse que agora que seu ator preferido está ficando mais famoso, sabe que irá ficar mais difícil para fazerem filmes juntos. “Não vai ser fácil fazer um filme sem ele!”


O ano dos britânicos
São três candidatos ingleses na disputa pelo leão de ouro. Só perde em quantidade para a produção americana. Mas os britânicos se equiparam em qualidade. Os três filmes ingleses exibidos até aqui acumularam elogios fervorosos. O grande destaque é Shame. Favorito de grande parte da crítica que dá como certo o prêmio de ator para Michael Fassbender. Mas O espião que sabia demais, adaptação classuda do autor John Le Carré, e O morro dos ventos uivantes – nova versão do livro que já foi levado às telas uma porção de vezes – mantiveram um bom nível que desperta burburinho de prêmios. É muito difícil que os três filmes saiam premiados. Se isso vier a acontecer, ficará configurado um feito inédito em Veneza com mais de dois filmes britânicos sendo premiados em uma mesma edição.

O diretor sueco Tomas Alfredson, o quarto da direira para a esquerda, posa com o elenco do filme O espião que sabia demais antes da premiere da fita na noite de segunda-feira (5) em Veneza


Sobre representação
Embora sem provocar o júbilo incensado pelos filmes exibidos nos três primeiros dias de festival, o grego Alpis causou boa impressão. O filme de Yorgos Lanthimos, que já venceu mostras paralelas em Cannes, por exemplo, chamou a atenção dos jornalistas presentes no lido por seu aspecto lúdico e original. A trama acompanha quatro personagens que formam um grupo especializado em substituir pessoas mortas para atenuar o luto da família. “Quis lançar um questionamento sobre representação”, explicou o diretor na coletiva de imprensa. Alpis, pela ousadia, é ventilado como um possível ganhador do prêmio de roteiro.

domingo, 13 de março de 2011

Insight

O que se passa com Steven Soderbergh?



Ele é um dos diretores mais criativos do cinema atual. Conseguiu a façanha de ser indicado duplamente ao Oscar de melhor diretor (por Traffic e Erin Brockovich-uma mulher de talento) no ano 2000. Não obstante, transita pelo cinema independente com a mesma leveza e repercussão de suas incursões comerciais. Logo por sua estréia em longa metragens, faturou a Palma de ouro e fez de Sexo, mentiras e videotape (1989) o primeiro filme independente americano de grande repercussão internacional (inclusive nas bilheterias).
Os críticos do cinema de Steven Soderbergh atacam sua veia workaholic como uma das razões do que entendem ser uma falta de identidade de seu cinema. Soberbergh, ainda que por vias tortas, vem dá razão a essa turma. O diretor já havia confidenciado aos mais próximos (e Matt Damon posto a boca no trambone) que considerava se aposentar do ofício de dirigir. Buscava uma mudança de rumo e via a pintura e a fotografia como destinos profissionais possíveis (bom frisar que ele já não precisa do dinheiro né?!). Soderbergh anunciou esta semana, em um programa de rádio americano, que esse dia (da aposentadoria como diretor) está mais próximo do que se imagina. Segundo Soberbergh, ele já não sente a excitação de outrora em dirigir filmes (o que, diriam os profissionais da intriga, se deve a saturação de projetos; em 2011 ele lançará três filmes). O diretor disse que tem recusado todas as propostas que tem recebido nos últimos três anos. Após Liberace (filme sobre um pianista homossexual com Matt Damon e Michael Douglas) e Man from U.N.C.L.E (ainda sem detalhes revelados) que o unirá a seu grande amigo, sócio e ator preferido George Clooney, Soderbergh irá dizer adeus. Ou até logo. Aos 47 anos, o cansaço do prolífero diretor, produtor e roteirista é compreensível. Grandes diretores já usufruíram de longos hiatos. Soderbergh talvez rejeite essa percepção, mas não pode dizer que não sentirá vontade de voltar a dirigir e que não irá fazê-lo. Afinal, foi por experimentar essa excitação efervescente – de que sente falta agora - que ele se embrenhou em uma rotina esmagadora de projetos. Nos últimos cinco anos, contando colaborações em roteiros, atuações como produtor e trabalhos como diretor foram 40 filmes. É muita coisa. Che, projeto audacioso sobre o revolucionário argentino Che Guevara, foi rodado em cinco países diferentes e Soderberg dirigia, ao mesmo tempo, o terceiro filme da série Onze homens e um segredo. A aposentadoria, ainda que ele negue, parece mais com férias prolongadas.