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quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Editorial - Uma lipo providencial

Há quem possa reclamar das constantes mudanças no blog. As movimentações de colunas e seções, com suas chegadas e partidas, sempre compartilharam de um objetivo em comum: proporcionar mais (e melhor) informação e entretenimento ao leitor. As mudanças que passam a vigorar a partir desse mês de novembro são de ordem mais prática e menos nobre. Elas derivam da dificuldade de manter atualizadas as muitas colunas e seções do blog nas datas acordadas com os leitores.
Por essa razão, duas seções, até certo ponto apreciadas, ficam extintas a partir deste momento. A primeira delas é a seção Tira-teima que já colocou no ringue os dois maiores sucessos de James Cameron (Avatar e Titanic), Angelina Jolie e Jennifer Aniston, as duas principais tramas envolvendo vampiros na atualidade (True blood e Crepúsculo), duas lendas do cinema (Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock), duas lendas do cinema em formação (David Fincher e Christopher Nolan), dois dos festivais de cinema mais badalados do mundo (Veneza e Toronto), entre outras regalias cinéfilas.
A outra seção que se despede é Filmografia comentada, uma das caçulinhas do blog, cuja última edição pode ser conferida no post abaixo. Os grandes diretores do cinema, no entanto, não serão negligenciados; continuarão a ter vez nas outras colunas e seções do blog. Além de matérias ocasionais.
A coluna Questões cinematográficas e as seções TOP 10 e Claquete repercute seguem firme e forte, mas terão a periodicidade flexibilizada. Continuarão mensais, mas sem um dia pré-determinado para suas publicações.
O ajuste de foco é, na verdade, menor do que sugerem as mudanças. O blog adentra uma fase minimalista, mas sua vocação para análise e contexto segue preservada. A abertura que se dá para mais matérias especiais poderá ser notada a partir desta semana em que os filmes A pele que habito, de Pedro Almodóvar e a ficção O preço do amanhã, de Andrew Niccol terão matérias caprichadas nos blog.

Há quem pergunte o por quê da analogia com uma lipoaspiração lá no título. Pois bem. A ideia é deixar o corpo do blog mais ajustado e cortes estão sendo feitos. O conceito, portanto, é menos lisonjeiro e mais prático. Como toda providência em sua definição etimológica.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Filmografia comentada - Steven Soderbergh




Sexo no divã
Sexo, mentiras e videotape (Sex, lies and videotapes, EUA 1989)
Há quem acredite que vivemos hoje em uma sociedade extremamente sexualizada. Não era bem assim no final dos anos 80 quando essa pequena joia do cinema independente americano surgiu e arrebatou plateias – em parte pelo ineditismo de abordar o sexo e suas bifurcações sem meio termos.
Não se trata de dar vez a perversões sexuais, mas de enquadrar fetiches e distopias relacionais em uma ótica totalmente vanguardista. Hoje banalizada pelo acúmulo de reality shows.
Soderbergh se apresenta como um cineasta econômico, de mão firme e com ótimo tino para a direção de atores.


Errando e aprendendo
Obsessão (Underneath, EUA1995)
Novamente trabalhando com Peter Gallagher (trabalhar com os mesmos atores é uma das muitas medidas pragmáticas do cineasta), Soderbergh realiza um filme que começa como um drama e termina como suspense. É um dos pontos baixos do diretor, mas um importante laboratório. Talvez seja aqui que Soderbergh tenha adquirido o know how para atuar com qualidade e distinção em diferentes gêneros cinematográficos.


Aquele alô para o mainstream
Irresistível paixão (Out of sight, EUA 1998)
O começo da parceria com o amigo George Clooney foi essa charmosa fita policial. Foi Irresistível paixão que provou que Soderbergh podia, também, ser pop. Uma mistura de romance com humor, abalizada por uma ação sofisticada em que George Clooney vive um irresistível meliante e Jennifer Lopez uma policial que dá sentido ao termo irresistível.   


Viabilidade
Erin Brockovich – uma mulher de talento (Erin Brockovich, EUA 2000)
Um drama sobre uma legítima “mulher coragem” com cores jurídicas que valeu a Julia Roberts o Oscar de melhor atriz. Soderbergh extrai força de um elenco que conta, ainda, com o grande Albert Finney e com um promissor Aaron Eckhart para entregar um filme tão edificante quanto eficiente. Soderbergh se mostra um diretor hábil em tornar um filme simples em material de Oscar, ainda que tenha sido ajudado por um ano dos mais fracos da história hollywoodiana.


Para a posteridade
Traffic: ninguém sai limpo (Traffic,EUA 2000)
Esse talvez seja o filme testamento do diretor. Um tema polêmico, uma narrativa entrecortada, perícia técnica na decupagem da trama, linguagem visual empolgante e atores em ótima forma. Tudo isso de maneira econômica e dinâmica. Não a toa lhe valeu o Oscar de direção.  

Entretenimento sofisticado: George Clooney é o leading man de um dos maiores acertos de Soderbergh, Onze homens e um segredo



Sem segredos
Onze homens e um segredo (Ocean´s eleven, EUA 2001)
Soderbergh provou ser um cineasta com sofisticado senso de humor ao reimaginar, ao lado de George Clooney, um dos melhores filmes do rat pack (grupo de artistas capitaneado por Frank Sinatra) nos idos dos anos 60. O novo Onze homens e um segredo não só se mostrou muito superior ao original como deu início a uma lucrativa franquia cinematográfica que funcionava tanto como filme de assalto, tanto como sátira. Um achado cinematográfico e um dos melhores trabalhos de Soderbergh.


Passo maior que as pernas
Solaris (Solaris, EUA 2002)
Adaptação da homônima obra do cinema russo, foi o primeiro grande revés de Soderbergh no cinema. Refilmagem desnecessária que não honrou o legado do original com uma trama confusa e um George Clooney pouco convincente como protagonista. A ficção científica, portanto, se tornou um gênero obtuso para o diretor que retornaria a ele com mais “liberdade criativa”  e “condescendência narrativa” em Contágio (2011).


Revolução interrompida
Bubble (Bubble, EUA 2005)
Uma trama de mistério que tem como pano de fundo uma fábrica de bonecos. Um filme simples, monótono até, cujo grande burburinho foi sua estratégia de distribuição. Steven Soderbergh decidiu lançar o filme nos cinemas no mesmo fim de semana em que o disponibilizava em DVD, na TV por assinatura e em streamings online. A ideia era promover um debate para distribuição do cinema independente. Por mais interessante que fosse a ideia – e o debate – o filme não os vitaminou o suficiente. 


Homenagem rarefeita
O segredo de Berlim (The good german, EUA 2006)
Querendo se provar um cineasta clássico e com o interesse de fazer o “seu Casablanca”, Soderbergh chamou o chapa George Clooney para essa história que conjuga romance e mistério em preto e branco. A crítica reagiu com indiferença à pompa de Soderbergh e o público não descobriu a fita que é boa, mas sucumbe à própria arrogância.

George Clooney e Steven Soderbergh batem um papo no set de Solaris: um revés doloroso para o cineasta que vinha da conquista do Oscar...


Tour de force!
Che: partes 1 e 2 (Che ESP, EUA, ARG 2008)
A ideia de filmar a vida de Che era algo que Soderbergh alimentava há muito tempo. O projeto era gigante, assim como a metragem do filme; o que obrigou o cineasta a dividir a obra em duas partes para lançá-las comercialmente. O resultado dividiu opiniões. Irregular e faltoso, o Che de Soderbergh só produziu de unanimidade a performance de Benicio Del Toro. De qualquer jeito, pelo tamanho do projeto e pela escassez de recursos, o diretor alcançou algum prestígio crítico. 


Cineasta de patentes!
Confissões de uma garota de programa (The girlfriend experience, EUA 2009)
Esse curioso filme protagonizado pela atriz pornô Sasha Grey como uma garota de programa de luxo ratificou de uma vez por todas que, por mais interessante que fosse sua veia independente e experimental, Soderbergh estava destinado a só colher elogios por suas aparições no cinemão. Soderbergh exercita aqui alguns cânones do cinema independente, mas não consegue nem mesmo cativar o espectador familiarizado com esse nicho.


Questão de estilo
O desinformente (The informant, EUA 2009)
Steven Soderbergh já vinha flertando com a comédia há algum tempo, mas ainda não havia feito um filme que se encaixasse na descrição. O desinformante, uma fita puxada para o humor negro e o non sense, é a que chega mais próximo. Com a mesma acuidade visual que marcou seus melhores trabalhos, Soderbergh dedica especial atenção a detalhes como trilha sonora, direção de arte e confia a Matt Damon o melhor do resto.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Filmografia comentada: Sam Mendes



O american way of life enquadrado
Beleza americana (1999)

Foi um súbito nocaute. Beleza americana é o expoente máximo de um ano dos mais produtivos em Hollywood. Foram três surpresas no campo da direção naquele ano. Os irmãos Wachowski com Matrix, Spike Jonze com Quero ser John Malkovich e Sam Mendes com este filme. O Oscar ficou com Mendes. Isso porque ele desconstruiu mais do que uma família, o conceito que define a família americana. Pelo menos aquela mais comum. Mais suburbana. Beleza americana apresenta personagens eloquentes em suas idiossincrasias que constituem um painel riquíssimo de culto à hipocrisia. O mais interessante desse painel é como Mendes lhe dá forma. Com préstimo do humor negro na concepção de uma mise-en-scène obtusa, imprevisível e profundamente dramática.
O sonho americano nunca foi tão frívolo no flerte com o imponderável. A narrativa poderosa não deixa espaço para dúvidas: nunca o cinema enquadrou tão bem a falência de uma instituição.



Paternidade mafiosa
Estrada para perdição (2002)

O segundo filme de Sam Mendes, naturalmente, provocou doses cavalares de ansiedade. Quando foi anunciado que Tom Hanks e Paul Newman o estrelariam como mafiosos, esse interesse disparou vorazmente.
Mas Estrada para perdição não é um filme de máfia convencional. Antes de ser uma parábola sobre o mundo do crime, é um drama sobre paternidade e autoconhecimento.
Mendes não descuida da atmosfera criminosa, mas faz de seu filme um poderoso drama sobre um homem em busca de intimidade com seu filho.
Com perfeição técnica e desenvoltura narrativa, Estrada para perdição pode não ser exatamente o material que esperavam do diretor de Beleza americana, mas é um filme com alma que captura um homem em conflito com sua natureza. Um dissídio que reverbera no público com profundo impacto.




Guerra mental
Soldado anônimo (2005)

O fantasma da segunda guerra do Iraque já assombrava mesmo com o conflito ainda em andamento. Sam Mendes revisitou a primeira invasão americana naquele país e enquadrou a “primeira guerra tecnológica” com uma perspectiva inusitada. A partir da visão dos jarheads - soldados comuns. Pior do que a guerra é a expectativa pela guerra. Um conceito que Stanley Kubrick já havia dado forma em Nascido para matar (1987) e sobre o qual Mendes aplica novas cores. Um drama pesado e ruidoso que não pretende investigar as rachaduras de uma guerra no ideário de um país, mas escancarar as feridas irreversíveis de um conflito opaco e mais intuído do que visto nos envolvidos.
Mendes prova aqui ser um diretor de inegável senso crítico e salutar interesse cinematográfico. Sua terceira incursão no cinema americano novamente lhe renderia afagos da crítica e participação em premiações.



Infelicidade em estado bruto
Foi apenas um sonho (2008)

Esta fita não deixa de ser uma revisitação aquele universo que tão bem encaminhou Mendes no cinema. Ambientado na América dos anos 50, Foi apenas um sonho demole as fachadas da classe média americana de uma maneira muito mais brutal do que ocorre em Beleza americana. A infelicidade dos personagens, a inadequação de seus sonhos e a falência de suas vocações não são suavizadas pela ironia da realização. Não há subterfúgios narrativos aqui. Tudo é mais chocante, mais premente na construção pessimista de Sam Mendes. A direção é firme e encantadora no sentido de aprumar desvios morais como tentativas desesperadas de alcançar algum significado para a existência. Um filme soberbo na análise que faz da condição humana.

Sam Mendes orienta Leonardo DiCaprio e Kate Winslet no set de Foi apenas um sonho: seu filme mais cruel e bem resolvido



Uma trip em nós mesmos
Por uma vida melhor (2009)

O humor volta a servir como ferramenta para Mendes encapsular a classe média americana e seus anseios. Por uma vida melhor traz dois comediantes que não se furtam à vulnerabilidade que Mendes exige deles na construção de outra história de sonhos e desejos em colisão. O clima é muito mais leve do que os de Beleza americana e Foi apenas um sonho. Até mesmo a ambientação é mais light, contudo, a solução enraizada no cinema de Mendes – ainda que tocada por algum otimismo – não é muito diferente daquela que o diretor apresentou em 1999. Manter-se saudável emocional e psicologicamente em um mundo como o que vivemos, exorta Mendes, é uma tarefa que exige certa dose de cinismo, humor e muito companheirismo.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Filmografia comentada - Judd Apatow

Apresentação

Indústria e crítica adoram apontar a "nova revolução" em determinado gênero cinematográfico. Justamente por isso, crítica e indústria se renderam ao talento de Judd Apatow. Um cara que sempre esteve ligado ao humor e que, ironicamente, fracassou na tv para fazer sucesso no cinema. Um caminho inusitado, já que o cinema parece acolher apenas os tipos bem sucedidos na TV. Apatow, além de ter patenteado um novo tipo de comédia, colaborou na revelação e consolidação de diversos nomes nos campos da direção, roteiro e atuação.
Adepto da teoria de trabalhar com os amigos, Apatow não se incomoda em ampliar o network na base das amizades. Foi o host das últimas duas cerimônias de premiação do sindicato dos diretores – uma prova de que é levado a sério por seus colegas de ofício – e é constantemente convidado para supervisionar textos de colegas em Hollywood e produzir gente nova.
Antes de ter dirigido o terceiro filme, foi eleito a personalidade mais influente em Hollywood pela revista Entertainmet Weekly. A transformação a que submeteu a comédia americana é vívida e constante. Apatow é um exemplo de artista bem definido em seu metiê.







O começo fora do traçado

O pentelho (The cabel guy, EUA 1996)
Ainda ligado a TV, onde produzia e dirigia filmes sem grande repercussão, Apatow integrou o time de produtores dessa razoavelmente bem sucedida incursão na direção do astro Ben Stiller. Trabalhar com Jim Carrey e Ben Stiller, dois dos expoentes do humor no meio dos anos 90, certamente foi uma experiência muito rica para Apatow.



O jeito Apatow de fazer
Freeks & Greeks (série de tv, EUA 1999 -2000)
Foram 18 episódios de uma série que hoje é objeto de culto. O programa marcou o início da parceria e amizade com o roteirista, ator e também produtor Seth Rogen. A série trazia personagens fora da coloração da produção cultural da época, mas os nerds emaconhados de Apatow ainda dominariam Hollywood.


Comédia romântica tipo fast-food
O virgem de 40 anos (The 40 year old virgen, EUA 2005)
Com o talento de Steve Carrel como trunfo e cercado por colaboradores habituais, Apatow realizou um filme que influenciaria a produção de humor americana dali em diante. Um filme que consegue ser fofo, politicamente incorreto e até mesmo grosseiro sem criar conflitos estruturais. Uma prova de que Apatow estava disposto a ser destaque na comédia americana.



Consagração
Ligeiramente grávidos (Knocked up, EUA 2007)
Foi nesse ano que Apatow se firmou como tutor da nova comédia americana. Com o sucesso estrondoso de Ligeiramente grávidos, filme com ponto de partida tão incomum quanto seus protagonistas, o diretor mostrava que a comédia romântica do novo século não carecia de atores do metiê para vingar e contou com Seth Rogen para provar isso. Paralelamente produziu um novo clássico teen, Superbad que desestabilizou referências com uma pegada mais pop, lacônica e profundamente conectada com o seu tempo.


Um 8 e ½ do humor
Tá rindo do quê? (Funny people, EUA 2009)
Desviando-se um pouco da própria seara, Apatow se incumbiu de fazer um exame sobre a vida de gente que vive de fazer comédia. Chamou o antigo colega de quarto, Adam Sandler, para fazer um astro do stand up comedy que se descobre com câncer e tenta colocar sua vida em ordem enquanto prepara um substituto. A comédia melancólica de Apatow não encontrou seu público e parece um tanto desprovida de propósito, mas é um belo retrato sobre o isolamento da vida. Esteja você no ramo da comédia ou não.


Aumentando o plantel
Missão madrinha de casamento (Bridesmaids, EUA 2011)
Cada vez mais presente como produtor, Apatow aprecia a posição de ser o fomentador de novas carreiras. Aqui ele produz um filme em que supervisionou o roteiro de estreantes e um diretor com muito transito na tv e pouco espaço no cinema (tal qual o próprio Apatow anos antes). Missão madrinha de casamento é uma das comédias mais lucrativas da temporada de blockbusters e confirma o bom tato de Apatow na escolha de projetos em que só atuará como produtor.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Filmografia comentada - Clint Eastwood


Apresentação


Clint Eastwood dispensa introduções. É em seus adornos de homem feito e evoluído a tradução mais fiel de lenda viva. Homem de muitas mulheres e de uma mulher só, amante da boa música (queria ser pianista), toca vários instrumentos e compõe maravilhosamente bem. Esteve na guerra da Coréia e teve a coragem de mudar conceitos, rodou um filme para tornar isso público (Gran Torino). É republicano (já não tão) fervoroso e símbolo de uma América alfa que se enamora das armas, mas rodou filmes liberais como Menina de ouro.
Ator que não teve medo de aprender. Começou na profissão por ser bonito, mas teve que ir para fora do país, pois na América não encontrou espaço. De muso dos spaghetti italianos virou o maior autor do cinema americano. Seus filmes mobilizam críticos. A imprensa se surpreende com sua vitalidade. Em 2006 e 2008 lançou dois filmes de maneira simultânea. Clint mantém um escritório na sede da Warner, estúdio com quem mantém contrato, em Los Angeles. É admirado como homem, artista, intelectual e profissional. É um entusiasta da vida e de suas experiências. Figura apropriada para a inauguração deste novo espaço em Claquete.






Primeiro filme
Perversa paixão (Play misty for me, EUA 1971)

Clint Eastwood realiza, com invejável propriedade, esse drama em que um locutor de rádio mulherengo (o próprio Eastwood) engata um romance com uma fã no mesmo momento que a ex-namorada retorna a cidade decidida a reconquistá-lo. Um romance que vai ganhando corpo como thriller e que revela um diretor ágil, dinâmico e econômico.


Repisando as tradições
O estranho sem nome (high plans drifter, EUA 1973)

Após uma elogiada estréia como diretor, Eastwood se sentiu a vontade para conceber o próprio western emulando Leone nesse filme em que um forasteiro se incumbe da paz em um vilarejo. Um filme que honra as tradições do gênero e não denuncia um diretor iniciante.



A glória repentina
Os imperdoáveis (The unforgiven, EUA 1992)

Vinte anos separaram Eastwood do retorno ao western como diretor. Aqui ele revê o mito que ajudou a construir e demole alguns paradigmas do gênero com simplicidade narrativa, propriedade visual e uma história crepuscular que se agiganta a cada revisão.
Não à toa, o filme conquistou quatro Oscars e saudou o até então questionado Eastwood como um diretor reconhecido.



O próprio chefe
Um mundo perfeito (A perfect world, EUA 1993)

No mesmo ano, Eastwood estrelou Na linha de fogo, o último filme em que trabalhou para outro diretor. Um mundo perfeito marca uma nova fase em sua carreira em que só atuaria sob as próprias ordens. No filme, ele desvela uma trama de angústias e frustrações escondida em um filme de sequestro. Kevin Costner protagoniza, mas Clint surge como um homem da lei com alguma bagagem. Pensativo, Um mundo perfeito é dos primeiros Clints pessimistas a surgir no cinema.



Os brutos também amam
As pontes de Madison (The bridges of Madison county, EUA 1995)

Muitos até hoje se surpreendem ao constatar que Clint Eastwood é o diretor deste melodrama romântico e profundamente sereno sobre o amor. Hoje a surpresa incide menos, mas à época de seu lançamento, As pontes de Madison causou espantos na crítica e desorientação nos fãs mais conservadores de Eastwood. Ele contracena com Meryl Streep e dirige um doloroso epílogo amoroso com sensibilidade e coração. Um filme doído, verdadeiro e que figura como um dos pontos altos do cineasta.



Fase policial
Poder abolsuto (Absolute power, EUA 1997)

Com a segurança como diretor mais do que estabelecida e o trânsito pelos gêneros consolidado, Eastwood deu início a uma bem humorada fase policial. Esse filme em que Gene Hackman faz um presidente americano envolvido em uma trama de assassinato, Clint faz um ladrão de obras de arte que se transforma em peça chave do caso. Aqui Clint enseja um dos temas mais caros a sua filmografia, a orfandade e a questão da paternidade. Seu ladrão tem sérios problemas de relacionamento com a filha, vivida por Laura Linney.
A fase policial continuaria com Meia noite no jardim do bem e do mal (1997), Crime verdadeiro (1999), Dívida de sangue (2002) e culminaria no neo-clássico Sobre meninos e lobos (2003).


Clint com os dois oscars conquistados em 2005 por Menina de ouro: prestígio crescente em Hollywood



Canto do cisne
Cowboys do espaço (Space cowboys, EUA 2000)


Esse é o filme que mais se aproxima de uma comédia dentro da filmografia de Clint. Ele reuniu uma turma de veteranos (Tommy Lee Jones, James Garner e Donald Sutherland) para estrelar essa fita de ação sobre um time de veteranos astronautas que precisa resgatar um satélite no espaço. Era como se Clint antecipasse a fase áurea de sua carreira como diretor e se despedisse de sua encarnação anterior como artista.



A nova vida
Sobre meninos e lobos (Mistic River, EUA 2003)

A tragédia como elemento desagregador é a ideia que move esta crônica policial de tintas escuras narrada com maestria por Eastwood. O filme que rendeu críticas elogiosas levou Clint a Cannes e ao Oscar – de onde estava afastado desde Os imperdoáveis – e revelava um diretor sem medo de assumir sua veia autoral.

 Sean Penn e Kevin Bacon em uma das últimas cenas de um dos filmes mais dolorosos do cinema recente



Consagração suprema
Menina de ouro (Million Dollar babay, EUA 2004)

Um ano após a erupção provocada pelo sublime Sobre meninos e lobos, Eastwood volta a causar impacto com outra história dolorosa sobre perdas. Triste, Menina de ouro, no entanto, acena com a redenção que faltara ao Eastwood anterior. De underdog, virou o grande filme de 2004 e faturou os Oscars de filme e direção. Clint entrava para o seleto grupo de diretores a ostentar mais de um prêmio da academia.
A história da boxeadora e seu treinador que desenvolvem uma relação de afeto e carinho desemboca em uma dolorosa história sobre recomeço, perdão e eutanásia. Mas o filme é tão magnânimo e humano que escapou à polêmica.



A outra face da guerra
A conquista da honra/Cartas de Iwo Jima (EUA/Japão 2006)

 Cada vez mais confortável na posição de autor, Eastwood realiza esse projeto audacioso sobre uma das batalhas mais icônicas da segunda guerra mundial. Com produção de Steven Spielberg, Eastwood rodou um filme sobre a indústria da guerra e como a propaganda é vital para sua sustentação. Foi durante a produção de A conquista da honra que Eastwood teve a ideia de rodar um filme a partir da perspectiva japonesa do conflito. O incomum ponto de vista do lado perdedor da guerra rendeu nova indicação ao Oscar ao cineasta. Cartas de Iwo Jima sacramenta a visão autoral de Eastwood ao privilegiar um diálogo com os sentimentos e buscar um olhar inédito sobre o conflito.



A despedida do ator
Gran Torino (EUA 2008)

O gosto pela direção já estava mais do que provado e Eastwood jamais colhera tantos louros no ofício quanto na década de 00. A decisão de assumir inteiramente a direção, abandonando o ofício como ator, deu mais importância a esse drama revisionista e profundamente humano que lançou em 2008. Gran Torino é um testamento do ator Eastwood e mais uma prova do cineasta articulado, democrático e robusto que é Eastwood. O filme sobre o veterano da guerra da Coréia que vai sobrepujando seus inúmeros preconceitos a medida que o filme avança é uma lição de vida sem ser moralista. É dos grandes filmes, ainda que rigorosamente simples, da história do cinema.

Clint Eastwood com uma grávida Angelina Jolie no festival de Cannes de 2008, onde exibiram em competição A troca


Inquietação temática
Além da vida (Hereafter, EUA 2010)

Da altivez de seus 80 anos, Clint Eastwood tem se permitido experimentar. Realizou outro filme sobre o perdão disfarçado de biografia (Invictus) e enveredou por um drama de conotação espírita que celebra a vida (Além da vida). O filme protagonizado por Matt Damon é dos mais estilizados de Clint, mas mantém a propriedade narrativa, o esmero acadêmico e o classicismo que caracterizam seu cinema.
O diretor manipula efeitos especiais com destreza e investe na sutileza para amparar uma história de comunhão muito maior do que a restrita sinopse da fita sugere.


Cenas dos próximos capítulos: Clint Eastwood e Leonardo DiCaprio no set de J.Edgar. Ninguém ainda viu o filme, mas ele encabeça a lista de favoritos ao Oscar 2012 de quase todo mundo. Para o ano que vem, Clint irá dirigir o remake de Nasce uma estrela que será protagonizado pela cantora e atriz Beyonce