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domingo, 13 de março de 2011

Insight

O que se passa com Steven Soderbergh?



Ele é um dos diretores mais criativos do cinema atual. Conseguiu a façanha de ser indicado duplamente ao Oscar de melhor diretor (por Traffic e Erin Brockovich-uma mulher de talento) no ano 2000. Não obstante, transita pelo cinema independente com a mesma leveza e repercussão de suas incursões comerciais. Logo por sua estréia em longa metragens, faturou a Palma de ouro e fez de Sexo, mentiras e videotape (1989) o primeiro filme independente americano de grande repercussão internacional (inclusive nas bilheterias).
Os críticos do cinema de Steven Soderbergh atacam sua veia workaholic como uma das razões do que entendem ser uma falta de identidade de seu cinema. Soberbergh, ainda que por vias tortas, vem dá razão a essa turma. O diretor já havia confidenciado aos mais próximos (e Matt Damon posto a boca no trambone) que considerava se aposentar do ofício de dirigir. Buscava uma mudança de rumo e via a pintura e a fotografia como destinos profissionais possíveis (bom frisar que ele já não precisa do dinheiro né?!). Soderbergh anunciou esta semana, em um programa de rádio americano, que esse dia (da aposentadoria como diretor) está mais próximo do que se imagina. Segundo Soberbergh, ele já não sente a excitação de outrora em dirigir filmes (o que, diriam os profissionais da intriga, se deve a saturação de projetos; em 2011 ele lançará três filmes). O diretor disse que tem recusado todas as propostas que tem recebido nos últimos três anos. Após Liberace (filme sobre um pianista homossexual com Matt Damon e Michael Douglas) e Man from U.N.C.L.E (ainda sem detalhes revelados) que o unirá a seu grande amigo, sócio e ator preferido George Clooney, Soderbergh irá dizer adeus. Ou até logo. Aos 47 anos, o cansaço do prolífero diretor, produtor e roteirista é compreensível. Grandes diretores já usufruíram de longos hiatos. Soderbergh talvez rejeite essa percepção, mas não pode dizer que não sentirá vontade de voltar a dirigir e que não irá fazê-lo. Afinal, foi por experimentar essa excitação efervescente – de que sente falta agora - que ele se embrenhou em uma rotina esmagadora de projetos. Nos últimos cinco anos, contando colaborações em roteiros, atuações como produtor e trabalhos como diretor foram 40 filmes. É muita coisa. Che, projeto audacioso sobre o revolucionário argentino Che Guevara, foi rodado em cinco países diferentes e Soderberg dirigia, ao mesmo tempo, o terceiro filme da série Onze homens e um segredo. A aposentadoria, ainda que ele negue, parece mais com férias prolongadas.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Claquete repercute - Sexo, mentiras e videotape



O filme começa em uma terapia. É pontual que um filme cujo mote seja o sexo, comece com um de seus personagens principais no divã. Sexo, mentiras e videotape, no entanto, objetiva tirar o sexo das conversas de bastidores. Sacá-lo das entrelinhas e lançá-lo no centro do debate. Ann Bishop Mullany (Andie McDowell) é uma dona de casa aparentemente confortável em seu conservadorismo. Casada, sem filhos, com um diálogo um tanto quanto fissurado com a irmã mais liberal (Laura San Giacomo), ela argumenta com seu analista que entende ser o sexo algo superestimado socialmente. O filme não irá terminar antes que Ann reveja esta assunção. É importante salientar que o sexo e suas reminiscências serão os catalisadores das transformações pelas quais os quatro personagens do filme passarão. John Mullany (Peter Gallagher), marido de Ann, é um advogado que sustenta o clichê do homem moderno bem sucedido. Aquele que apesar do casamento bem resolvido mantém uma amante por esporte. Ocorre que a amante de John é Cyntia (Laura San Giacomo), irmã de Ann. Essa potencial tragédia nunca se impõe em relação aos reais interesses de Soderbergh para com seu quarteto de personagens. O outro elemento dessa equação é Grahan Dalton (James Spader), antigo colega de faculdade de John, que está de passagem pela cidade e traz consigo o incauto hábito de gravar depoimentos de mulheres em fitas de vídeo (falando sobre suas experiências sexuais) para atingir um orgasmo que é incapaz de ostentar de qualquer outra maneira que não assistindo tais fitas.
Não é preciso dizer que Dalton e seu incomum e bastante instigante impulso sexual irão se entrincheirar na vida sexual dos outros três protagonistas. O interessante em Sexo, mentiras e videotape é que as razões desse entrincheiramento são diversas, mas culminam para um mesmo fim. Todos serão transformados pela experiência em níveis não necessariamente associáveis ao sexo, mas pelos quais estão intrinsecamente ligados.
O que Soderbergh produz aqui é uma convincente radiografia de uma sociedade que se divide em dois pólos em termos de sexo: os muito conservadores e os muito liberais. Não deixa de ser salutar, nesse sentido, o resultado obtido pelo cineasta ao confrontar essas duas realidades em seu filme. James Spader, muito premiado por seu desempenho, cria um sujeito assustadoramente franco em meio a um punhado de dissimulados. Ele ser o tipo (a primazia) mais pervertido da fita é um comentário sutil do cineasta sobre o conceito de perversão. Quem é mais pervertido? Aquele que traí a mulher com a irmã dela ou o cara que só consegue um orgasmo ao desfrutar do máximo de intimidade com uma desconhecida?
Sexo, mentiras e videotape é, ainda, um prazeroso exercício de voyeurismo em uma sociedade que cada vez mais parece se alimentar desse fenômeno (vide os reallity shows). Soderbergh não objetivava, certamente, que seu filme duas décadas depois ainda fosse tão eloquente (talvez até mais do que à época de seu lançamento), mas é na ausência desse objetivo que se verifica a premência do registro.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Movie Pass

Steven Sodebergh impressionou o mundo em 1989 quando exibiu em Cannes Sexo, mentiras e videotape (Sex, lies and videotape, EUA 1989). O filme, que faturou a Palma de ouro naquele ano, é o destaque da seção Movie Pass deste mês. O segundo filme de Soderbergh, seu primeiro longa metragem, é um fascinante mergulho na vida sexual da sociedade americana. O diretor adentra os lençóis de quatro personagens profundamente diferentes entre si, mas cuja vida sexual se bifurca. É a partir da análise que faz desse microcosmo que Soderbergh atinge seus objetivos. Desnudar uma nação enrustida; enfiada em seus receios e seus medos. Falar de sexo e colocá-lo em fitas de vídeo pode parecer trivial hoje, não o era no crepúsculo dos anos 80. Mesmo assim, Sexo, mentiras e videotape continua atrevido, intrépido e profundamente verdadeiro. Se você quiser saber mais sobre esse filme fique ligado na seção Claquete repercute do próximo mês, que será publicada no dia 10 de outubro, porque o filme será pormenorizado na ocasião.