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quinta-feira, 9 de maio de 2013

Espaço Claquete - Caché


Caché (FRA/ALE/AUS 2005) é um filme sob muitos aspectos plural. É uma experiência estética arrojada de um cineasta propenso a elas, um suspense erigido a partir da força da imagem e um drama social de cores fortes ainda que sem um viés definido. É um filme acadêmico na forma como concilia interesse sociológico à feitura de um cinema que se pretende artístico através da inquietação com que formula seu pensamento.
Georges (Daniel Auteuil) é um famoso apresentador de tv que tem sua rotina perturbada a partir do momento que passa a receber fitas de vídeo com a movimentação em frente a sua casa. São gravações de mais de duas horas que externam que ele e sua família estão sendo observados. As fitas passam a chegar com desenhos aparentemente infantis, mas com conotação violenta. A tensão familiar aflora, Georges procura a polícia – que informa não ser possível fazer nada já que não há uma ameaça concreta – e passa a discutir severamente com sua esposa (papel de Juliette Binoche) a partir do momento que essa brincadeira de mau gosto parece relacionada a eventos do passado de Georges.
Descrito desta maneira, o espectador pode antecipar um suspense que combine originalidade e convencionalismo, mas seria uma precipitação. Michael Haneke está menos interessado no desenrolar da trama policial do que na espiral de tensão crescente que acomete Georges. É possível sorver outra sutileza da narrativa de Haneke. O aspecto político, presente nos reflexos de uma cultura colonialista e na tensão entre as diferentes classes sociais na França, pode ser angulado na contraposição entre culpa e preconceito que formam o eixo gravitacional do “segredo” de Georges que remete a malvadezas de sua infância.  
Haneke nunca foi tão lento. Nunca fez uso de tantos closes. A imagem é o principal instrumento de Haneke em Caché. Afinal, é dela que Georges precisa filtrar a verdade, qualquer que ela seja. E é nela, em alguns momentos de surpresa e choque, que Haneke amplia o escopo do seu filme distendendo sugestões nem sempre fisgáveis em um primeiro olhar.
Esse domínio da imagem e o exercício desse jogo com suas potencialidades referenda Michael Haneke como um cineasta agudo tanto das elaborações cinematográficas como das miudezas do homem. Justamente por isso, Caché é filme para ser visto e revisto.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Oscar Watch 2013 - A peleja dos diretores

Da esquerda para a direita: David O. Russell (O lado bom da vida); Steven Spielberg (Lincoln); Benh Zeitlin (Indomável sonhadora); Michael Haneke (Amor); Ang Lee (As aventuras de Pi)



(Des)spielbergizado

Há cineastas que são grifes e há Steven Spielberg. Um filme com sua chancela ou dirigido por ele pode ser reconhecido à milhas de distância. Lincoln, no entanto, exige um olhar mais atento. Muitas das idiossincrasias do cinema spielberguiano não estão em seu filme mais adulto. Ele pode ganhar o Oscar por sua contenção e comedimento em ser o Spielberg que todos conhecemos. Não deixa de ser inusitado.

Prós:
- É o diretor mais Hollywoodiano entre os indicados
- Em um ano sem um favorito declarado na categoria, o peso de seu nome pode prevalecer
- É certo que merece ser elevado à grandeza dos diretores vencedores de três Oscars
- Defende um trabalho pouco intervencionista, mas como um escultor de bom texto e atuações. A academia costuma premiar esse perfil de direção

Contras:
- Já tem um Oscar e o último diretor a ganhar o Oscar já tendo sido vitorioso previamente foi Clint Eastwood em 2005
- É certo que merece ser elevado à grandeza dos diretores vencedores de três Oscars, mas muitos podem pensar que este ainda não é o momento
- Muitos votantes podem entender que os grandes méritos de Lincoln são o texto de Tony Kushner e a atuação de Daniel Day Lewis
- Está longe de ser o melhor trabalho de direção de Spielberg dentre os que ele foi nomeado ao Oscar
- O fato de seu filme ter perdido força na temporada de premiações

Décima quinta indicação
Indicações anteriores
Diretor por Contatos imediatos do terceiro grau (1978)
Diretor por Os caçadores da arca perdida (1982)
Diretor por E.T – o extraterrestre (1983)
Produtor por E.T – o extraterrestre (1983)
Produtor por A cor púrpura (1986)
Diretor por A lista de Schindler (1994)
Produtor por A lista de Schindler (1994)
Diretor por O resgate do soldado Ryan (1999)
Produtor por O resgate do Soldado Ryan (1999)
Diretor por Munique (2006)
Produtor por Munique (2006)
Produtor por Cartas de Iwo jima (2007)
Produtor por Cavalo de guerra (2012)
Produtor por Lincoln (2013)

Vitórias anteriores:
Diretor por A lista de Schindler (1994)
Produtor por A lista de Schindler (1994)
Diretor por O resgate do soldado Ryan (1999)

Entre o espetacular e o sensível

Ang Lee é daqueles cineastas que a cada novo trabalho nos surpreende de maneira efusiva. Capaz de destrinchar narrativas épicas ou intimistas faz maravilhas com o material tido como infilmável do livro de Yann Martel. Seu trabalho em As aventuras de Pi, exuberante visualmente e profundo em termos de discurso, é dos mais encantadores do ano.

Prós:
- É o melhor uso do 3D no ano
- Lee alia exuberância técnica a esmero narrativo no desenvolvimento do plot, uma qualidade que não pode ser desprezada
- Assim como Spielberg é o único dos indicados ao Oscar que foi nomeado para o prêmio do sindicato dos diretores
- Esteve em todas as listas de melhores diretores do ano
-Seu filme tem forte apelo emocional
- É um diretor que reúne muitos admiradores
- Fora Affleck e Bigelow, que não estão indicados, é o único que ganhou prêmios da crítica na temporada

Contras:
- Já tem um Oscar e conquistado em sua última indicação
- A pecha de que a indicação já é suficiente
- A impressão de que seu filme mereça mais distinção por seu apuro técnico do que por suas qualidades narrativas pode lhe roubar votos importantes nesta categoria
- Até hoje nenhum diretor ganhou o Oscar por um filme rodado em 3D

Quinta indicação
Indicações anteriores
Produtor por O tigre e o dragão (2001)
Diretor por O tigre e o dragão (2001)
Direção por O segredo de Brokeback mountain (2006)
Produtor por As aventuras de Pi (2013)

Vitória anterior
Diretor por O segredo de Brokeback mountain (2006)

Crescendo e aparecendo

Desde que despontou na cena independente do cinema americano dos anos 90, David O. Russell chamou atenção. Diretor de técnica invejável, com um bom olhar para personagens disfuncionais e com talento para escrever roteiros também, Russell esbarrava em seu gênio difícil. São célebres seus desentendimentos com figuras da estampa de George Clooney. De uns tempos para cá, no entanto, Russell parece ter posto a casa em ordem. Seu cinema nunca esteve em melhor forma. Alcança sua segunda indicação ao Oscar, e por trabalho consecutivo, pela direção minimalista, mas crucial, em O lado bom da vida – um filme moderno e inteligente como poucos deste novo século.

Prós:
- É notável diretor de atores e isso pode lhe valer votos do brunch dos atores, o maior da Academia
- Está em alta junto ao acadêmicos que preferiram nomeá-lo ao indicar uma segunda vez o vencedor do Oscar no ano em que concorreu, o inglês Tom Hooper que estava no páreo com Os miseráveis
- Dirige o filme que conseguiu emplacar nomeações no chamado big five (filme, direção, roteiro, ator e atriz). O último a conquistar isso foi Menina de ouro em 2005 e Clint Eastwood venceu como diretor naquele ano
- Dirige um filme independente e nos últimos seis anos o diretor vencedor do Oscar dirigia um filme independente. Lee e Spielberg dirigem produções de estúdio
- Apareceu em algumas listas de melhores do ano como no Critic´s Choice Awards
- A história de que dirigiu o filme como uma forma de se comunicar com seu filho, também bipolar, pode conquistar alguns votos decisivos

Contras:
- Não ganhou nenhum prêmio na temporada
- Não estava na lista do sindicato dos diretores
- Diretores de comédias não costumam prevalecer nesta categoria

Segunda indicação:
Indicação anterior:
Diretor por O vencedor (2011)

Gênio do cinema

É muito justo que Michael Haneke, em 2013, seja o cara do Oscar. Há muito tempo ele já se inscreveu como um dos mais importantes e significativos cineastas de nosso tempo. Com Amor, ele concorre em quatro categorias no Oscar (direção, roteiro original, produção estrangeira e produção do ano). Não é pouca coisa. Pelo menos um Oscar ele leva para casa.

Prós:
- É uma direção calculista e inteligente na manipulação dos sentimentos e do espaço físico
- O irresistível apelo de reconhecer um diretor cult com um prêmio da indústria do cinema
- O fato de dirigir um filme duro, triste, mas de apelo universal pode lhe valer votos indecisos

Contras:
- Diferentemente de Lee, é um estrangeiro que dirige um filme falando em língua estrangeira
- O fato de diretores estrangeiros terem vencido nos últimos dois anos
-A pecha de que a indicação já é suficiente

Primeira indicação

A adorável surpresa

Ninguém, absolutamente ninguém esperava por Benh Zeitlin entre os indicados a melhor diretor no Oscar. Nem o próprio Zeitlin. Mas se ponderações forem feitas sobre os concorrentes do ano e sobre o trabalho de Zeitlin em Indomável sonhadora, ficará bem óbvio que a nomeação deste americano de apenas 30 anos é mais do que justa.

Prós:
- Já foi elemento surpresa uma vez e pode ser novamente
- Seu filme tem encantado plateias e sua contribuição para isso é perceptível
- É um filme em que se percebe a mão do diretor até mesmo no trabalho dos atores (semiamadores)
- Pode se beneficiar de alguns votos de protesto de acadêmicos insatisfeitos com a configuração final da categoria no Oscar

Contras:
- Trata-se de um filme de estreia e um filme independente de estreia. Será que Hollywood se renderia incondicionalmente assim?
- A pecha de que a indicação já é suficiente
- Ser muito jovem também pode pesar contra suas chances de vitória

Primeira indicação

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Insight - Depois da obra-prima



O ano de 2012 pregou uma pegadinha em cinéfilos, críticos e em alguns cineastas. O ano reuniu os trabalhos sequenciais de muita gente que vinha do pico de suas carreiras. Michael Haneke, por exemplo, vinha do soberbo e irrevogável A fita branca (2009), um colosso de cinema sob qualquer ângulo que se observe. A Palma de ouro em Cannes, e mais um punhado de prêmios internacionais, pareciam coroar uma carreira pungente e acadêmica que ainda não havia sido reconhecida a contento. Mas aí veio Amor.
Paul Thomas Anderson, por seu turno, havia atingido a glória com Sangue negro (2007). Filme que para muitos críticos o levara ao panteão dos diretores imortais. Não era preciso fazer mais nada; mas já que ele não decidiu se aposentar, se investiu da necessidade de fazer algo minimamente compatível com a imensa expectativa que um filme como Sangue Negro para sempre ensejaria sobre sua obra futura. E aí veio O mestre.
Bastardos inglórios: o auge de
Tarantino
Outros cineastas prestigiados também se viram as voltas com expectativas semelhantes em 2012. Christopher Nolan mudou a percepção que o mundo tinha de adaptações de quadrinhos nos cinemas com O cavaleiro das trevas (2008). Uma mudança muito mais profunda e complexa do que um primeiro olhar faz crer. Ele fez A origem em 2010 que só fez aguçar a curiosidade pelo desfecho da trilogia que para sempre será entoada como a obra máxima de Nolan. O cavaleiro das trevas ressurge, no entanto, não sobreviveu às expectativas desestabilizadoras que confluíram a seu encontro.
Outro arista americano revolucionário, Quentin Tarantino, talvez ostentasse um desafio ainda maior. Mais icônico e reconhecido do que Nolan, Tarantino apresentou ao mundo em 2009, sua obra prima: Bastardos inglórios. O próprio, em recurso metalinguístico muito bem sacado admitiu isso dentro do próprio filme – tamanha era a clareza de que aquele se tratava, enfim, do auge de sua carreira. Django livre, a despeito do imenso sucesso de público e das indicações ao Oscar, é uma curva descendente em relação a Bastardos inglórios.
Esses quatro casos servem para dar nova dimensão a uma angústia que marca boa parte dos diretores de cinema depois de apresentarem ao mundo, aquilo que crítica, público e indústria chamam de obra-prima. Cineastas como M.Night Shyamalan, para ficar em um exemplo bastante famoso, não sabem se desvencilhar dessa arapuca.

Paul Thomas Anderson orienta Daniel Day Lewis no set de Sangue negro: auge da carreira ou de seu primeiro ciclo?

Paul Thomas Anderson orienta Joaquin Phoenix no set de O mestre: de quantas obras-primas uma carreira imortal necessita?


Atenção às similaridades
Salta aos olhos, o fato desses quatro cineastas serem escritores/diretores e de gozarem de total liberdade em seus projetos. A falta de liberdade é constante reclamação de Shyamalan e foi o que motivou Woody Allen, por exemplo, a ir filmar na Europa.
Haneke e Anderson, em particular, obtiveram resultados muito melhores do que Tarantino e Nolan com seus lançamentos de 2012. Amor, ainda que não seja um filme tão importante em ramificações sociológicas quanto o é A fita branca, apresenta predicados tão eloquentes quanto.
É um filme em que Haneke mantém sua postura estética e o interesse sobre o comportamento humano em face de circunstâncias adversas; ainda que tenha mudado o escopo de análise, ele manteve firme seu olhar. A história do casal de idosos às voltas com o desfalecimento da mulher não é, nesses termos aventados, diferente do casal vítima de uma dupla de sádicos (Violência gratuita) ou de uma vila consternada por uma série de ataques injustificados (A fita Branca).
O mesmo compasso serve para analisar o mais recente filme de Paul Thomas Anderson. À parte a óbvia relação da religião ser parte proeminente tanto em Sangue negro como em O mestre, Anderson alinhava personagens para servir como parâmetro para um estudo minucioso da alma humana. De convenções como ambição, pertencimento, ego, felicidade, capitalismo, entre outros. A observação pode ser estendida para outras de suas obras como Magnólia (1999) e Boogie Nights (1997). Mas é inegável que esses seus dois últimos filmes dialogam em um nível muito particular. Nos arranjos do texto, porém, O mestre é mais sofisticado.
Haneke de costas no set de Amor:
fidelidade estética e liberdade temática
Já Nolan e Tarantino se aproximam não só pelo fato de ambos terem obtidos resultados menos satisfatórios em suas empreitadas posteriores as suas obras-primas, mas por mais do que aprofundarem seus interesses narrativos, reciclarem fórmulas bem sucedidas sem o mesmo apelo de outrora.
Tarantino nos tirou o fôlego ao reescrever a história em Bastardos inglórios e conferir ao cinema uma importância redentora até então inédita. Ele resolveu utilizar o mesmo recurso em um western spaghetti com um escravo vingador no período pré-guerra civil americana. Se o rebuscamento de Bastardos inglórios falta a Django livre, estão lá a presença luxuosa de Christoph Waltz – a evocar Bastardos a todo o tempo – e o manancial de referências cinematográficas e culturais que tanto acrescem ao cinema tarantinesco. Se Django livre viesse ao mundo antes de Bastardos inglórios, os dois filmes teriam melhor estima do que já ostentam. Na ordem real, Django livre acaba por engrandecer o trabalho anterior de Tarantino.
Com Nolan acontece mais ou menos a mesma coisa. Ele filtra muito da estrutura narrativa de seus dois maiores acertos (A origem e O cavaleiro das trevas) no desfecho da trilogia do Batman, mas não adensa o filme dramaticamente. O conflito eriçado em O cavaleiro das trevas ressurge já surge esgotado.  

Christopher Nolan no set de O cavaleiro das trevas ressurge: uma trilogia dramaticamente esgotada em dois filmes

Positivo
É certo, porém, que esses quatro cineastas apresentaram em 2012 obras expressivas e catalisadoras de merecida atenção. São filmes que, em alguns casos, não se comparam aos trabalhos anteriores, mas que ainda estão acima da média dominante do cinema mundial. Mais do que qualquer coisa, entretanto, esses cineastas demonstraram em 2012 que há, sim, vida depois da obra-prima.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Crítica - Amor


A dureza da realidade

Se na temática, a visita da morte e o dissabor de sua presença cadenciada, Amor (Amour, AUS/FRA/ALE 2012) encontra referências diversas na produção cinematográfica internacional, na hollywoodiana em particular, na construção estética alinhavada por Michael Haneke, que tem na aspereza do registro o seu norte, o filme encontra sua singularidade.
Haneke acompanha a rotina do casal de idosos formado por Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva), de boa ascendência cultural – estão ligados à música clássica – e tranquilidade financeira. Essa rotina é modificada a partir do momento que Anne sofre um AVC (acidente vascular cerebral), ainda que a doença nunca seja nomeada, os sintomas a sugerem. Georges passa a cuidar da esposa que gradativamente tem seu quadro piorado.
O que Amor propõe é uma observação seca, algo incômoda e certamente desarborizada do desfalecimento de uma mulher, de um casal e de uma história de amor. A opção por um registro naturalista valeu a Haneke críticas reiteradas a seu “desprezo pela humanidade”, mas não é culpa do cineasta que a vida seja tão sufocante e absorta em sua crueza. O que Haneke propõe aqui é um demorado olhar sobre a espessura da crueldade com que a vida pode nos experimentar. Tanto no aspecto físico, quanto emocional. Ao acompanhar sem trilha sonora, uma marca de seu cinema, a jornada de exaustão e frustração tanto de Georges quanto de Anne, Haneke firma com seu público um entendimento de honestidade ímpar. O que há de belo em Amor, há também de terrível. Assim é a vida, uma convergência de superlativos em sua banalidade. Em certo momento, Anne diz a George, quando ainda conseguia elaborar sentenças verbais, que seu marido às vezes é um monstro, mas também capaz de gestos de incrível gentileza. Esse paradoxo capitaliza não só Georges, capaz de gestos monstruosos em sua generosidade, mas o filme também.
Trintignant: um ator expressivo das tribulações
internas de seu personagem
Com cinco indicações ao Oscar (Filme, direção, roteiro original, atriz e filme estrangeiro), Amor é um retrato de cores fortes do padecimento de um sentimento e de uma alternativa francamente desagradável de como perpetuá-lo. Dessa complexa bifurcação, o filme tira sua força. Providenciais para esse resultado são Emmanuelle Riva e, especialmente, Jean-Louis Trintignant. Riva oferece-se ao olhar concentrado e rigoroso de Haneke com o despudor das grandes atrizes, enquanto Trintignant reveste Georges de toda a complexidade que habita um homem desesperado, cansado, desnorteado e, ainda assim, fiel apaixonado.
Amor certamente não é o filme mais cândido a tratar de amor e morte, contudo é o mais pungente a fazê-lo. 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Filme em destaque - Amor



Eterno?
 Indicado a cinco Oscars, a produção austríaca ganhadora da Palma de Ouro estreia no Brasil com a promessa de ser uma dolorosa reflexão sobre vida, amor e tudo aquilo que os une


“Amor é um presente ao mundo”, disse o cineasta Alexander Payne em entrevista ao jornal O Globo. “Se um dia, ele for mostrado para pessoas que estão 2.000 anos no nosso futuro, elas vão olhar e dizer: ‘isso é verdade. É vida’”, completou o diretor de filmes como As confissões de Schmidt (2002) e Os descendentes (2011). Payne fez parte do júri que outorgou a segunda Palma de Ouro da carreira de Michael Haneke para essa coprodução entre Áustria, Alemanha e França que chega agora ao Brasil badalada pelas cinco indicações ao Oscar 2013 (filme, direção, roteiro original, atriz para Emmanuelle Riva e filme estrangeiro) e pela conquista do Globo de Ouro de melhor produção em língua não inglesa de 2012. “Amor é dessas raras unanimidades que o cinema produz de vez em quando”, opinou o crítico do New York Times, A.O Scott.
“Foi gratificante ter conseguido fazer um filme capaz de interessar às pessoas mesmo sendo filmado quase que por inteiro em uma só locação: um apartamento onde duas pessoas de idade experimentam a dor”, envaidece-se ao O Globo o diretor franco alemão. “É muito mais prazeroso filmar em um espaço só e condensar as emoções, do que trabalhar aberto; em vários cenários. A técnica é mais complicada, a pós-produção é mais complicada, mas a satisfação de poder entender como as pessoas agem numa situação de simplicidade plena não tem igual”.
Haneke atribui a seu par de atores (Jean-Louis Trintignat e Emmanuelle Riva), dois patrimônios do cinema francês, o sucesso crítico de seu filme, que nos EUA está lotando as 15 salas em que está em cartaz e deve ter seu circuito ampliado na esteira das indicações ao Oscar. Os atores devolveram a gentileza em Cannes informando à imprensa que Michael Haneke é o diretor mais rigoroso com que trabalharam em suas longevas carreiras – ambos já são octogenários.
A fama de perfeccionista de Haneke não é nova, mas em Amor, o diretor se permite algumas novidades em sua carreira. Tido como um cineasta propenso a analisar o alcance da violência e suas ramificações sociais, esse projeto causa certa surpresa. Ainda que Haneke o tenha tratado de maneira seca. “Ele me disse que não queria uma atuação sentimental”, disse Riva em Cannes.
Outra mudança foi na direção de fotografia. Depois de anos de colaboração com Christian Berger, que inclusive valeu indicação ao Oscar na categoria para A fita branca (2009), Haneke escalou o iraniano Darius Khondji, responsável pela fotografia de Meia-noite em Paris (2011) para o novo filme. São mudanças de abordagem que podem não denunciar muito, mas revelam um cineasta exercitando mesclas estéticas e temáticas em sua obra.

Haneke informou a Riva que não queria nenhum vestígio de sentimentalismo em sua atuação. O rigor deu certo e a atriz pode ganhar o Oscar no dia em que completará 86 anos


Filme-tratado
Para Amanda Aouad, crítica do CinePipocaCult, Amor, pelo incômodo e reflexão que provoca, é um filme merecedor de palmas. Em sua crítica, ela observa ser a nova obra de Michael Haneke um filme-tratado. “Todo o filme é construído em pausas, detalhes, gestos e sentimentos. É sufocante e belo ao mesmo tempo”.
Haneke, não vê estranheza na mudança de rota em sua filmografia: “O que me interessa é o comportamento humano”. Aouad, que enxerga na direção do franco alemão um elemento vital para a força do filme, sacramenta: “Amor é um retrato de um amor eterno e da forma como o destino brincou com ele, fazendo passar por uma provação extrema. E que chega ao seu final com uma forma tamanha que nos deixa sem ar”.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Oscar Watch 2013 - #oscarfacts


O cara

Indicado a melhor filme, a melhor diretor, a melhor roteiro e a melhor filme estrangeiro. Não há um vencedor maior do que o franco alemão Michael Haneke. O grande elemento surpresa do Oscar deste ano não foi sua presença entre os indicados, mas o tamanho de sua presença. O último cineasta estrangeiro que concorreu ao Oscar por um filme em língua não inglesa com tamanha força foi justamente Ang Lee (de volta à disputa este ano com um filme americano) em 2001, mas o taiwanês não tinha indicação por roteiro.


Os filmes estrangeiros que caíram no gosto da academia
Por falar em Amor e O tigre e o dragão, são raros os filmes estrangeiros que amealham indicações na categoria principal. Nos últimos 30 anos, apenas A vida é bela e O carteiro e o poeta, ambos italianos, conseguiram vagas nos anos 90. Diretores estrangeiros tiveram melhor sorte com filmes falados em outros idiomas. Além de Haneke este ano, nos últimos 30 anos foram indicados Fernando Meirelles por Cidade de Deus (2005), Pedro Almodóvar por Fale com ela (2003) Ang Lee por O tigre e o dragão (2001), Robert Benigni por A vida é bela (1998), Krzysztof Kieslowski por A fraternidade é vermelha (1995), Akira Kurosawa por Ran (1986) e Ingmar Bergman por Fanny e Alexander (1984).  Há ainda o precedente do diretor americano Clint Eastwood nomeado em 2007 por Cartas de Iwo Jima, falado em japonês. Quentin Tarantino foi indicado em 2010 por Bastardos inglórios que é falado em italiano, inglês, francês e alemão. No entanto, esses dois últimos filmes são americanos.

Intocável
Derrubou o bolão de muita gente. O blog também dava como certa a inclusão do maior sucesso de público da história do cinema francês entre os indicados a melhor filme estrangeiro. O tema, inclusive, é daqueles que clamam Oscar. Há duas perspectivas para entender a exclusão de Intocáveis da lista. A primeira é a saturação do cinema francês em Hollywood. Amor, vale lembrar é coproduzido pela França e falado em francês. O artista, uma coprodução entre EUA e França, foi o grande bicho papão da temporada. Duas atrizes francesas disputavam indicação ao Oscar... É muita França para um prêmio americano. A opção por excluir Intocáveis se daria, então, a contingências de mercado. Outra perspectiva a se seguir é de que Intocáveis é um "feel good movie" do tipo que já se viu antes, inclusive na categoria e como a academia apresenta sinais de maturidade nas escolhas em outras categorias do Oscar, natural que essa tendência se manifestasse aqui também. No entanto, é a primeira vez que um favorito inconteste nessa categoria nem sequer é indicado. Intocáveis, quem diria, entra à história pela porta dos fundos. Pelo menos em termos de Oscar.

A Bernal sí
Gael Garcia Bernal pode ser cult nas bandas de cá do Atlântico, mas com a Academia até que ele é bem popular. Filmes protagonizados pelo ator fora do cinema americano são constantemente lembrados pelo Oscar. Na categoria de filme estrangeiro ou em outras categorias. Além do chileno No, que concorre a melhor fita estrangeira em 2013, Bernal já protagonizou outras fitas lembradas na categoria como Amores brutos (2001) e O crime do padre Amaro (2002). Além disso, filmes como E sua mãe também (2001) e Diários de motocicleta (2004) foram indicados em outras categorias. Há, ainda, Babel (2006) que o ator protagonizou junto a Brad Pitt e Cate Blanchet e que foi indicado a melhor filme do ano.

O favorito: Bernal sempre tem vez junto a Academia...

Rivalidade I
A última vez que Steven Spielberg foi indicado a melhor diretor foi a última vez que Ang Lee foi indicado a melhor diretor. Foi em 2006, quando Spielberg concorria pelo drama de espionagem Munique e Lee pelo melodrama de fundo gay O segredo de Brokeback mountain. Na ocasião, Lee saiu vencedor. Mas Spielberg no histórico é um gigante em termos de Oscar. São seus filmes Lincoln e As aventuras de PI que polarizam a edição deste ano ao menos no número de indicações. As apostas dão conta de que o Oscar ficará entre um deles. Será que Spielberg empata na disputa pessoal com Lee, ou o taiwanês abre vantagem?


Rivalidade II
Quentin Tarantino se encontra pela terceira vez nomeado na categoria de roteiro original e pela segunda vez enfrentará o jornalista e roteirista pela segunda vez Mark Boal. Por enquanto, Boal vai levando vantagem. Em 2010 ele ganhou o Oscar por Guerra ao terror, muitos naquela ocasião criam ser mais justa a vitória de Tarantino por Bastardos inglórios. Em 2013, Tarantino defende o texto de Django livre enquanto Boal comparece com A hora mais escura. Na largada, Boal se encontra melhor posicionado.

Rivalidade III
Lincoln, portentoso drama de Steven Spielberg, é o favorito absoluto ao Oscar, mas uma pequena comédia lhe assombra. Se você desconfia que já viu esse filme antes, é porque já viu mesmo. Em 1999, O resgate do soldado Ryan era a aposta segura para o Oscar de melhor filme, mas Shakespeare apaixonado na hora H roubou votos preciosos do épico sobre a segunda guerra mundial e ficou com as láureas de melhor filme do ano. Em comum O lado bom da vida e Shakespeare apaixonado têm o produtor Harvey Weinstein. Ele já bateu Spielberg em seu melhor momento. Conseguirá fazer novamente?

Preocupação e riso: Spielberg perdeu o Oscar de melhor filme com seu melhor e mais acadêmico trabalho até Lincoln, tanto cá como lá um risonho Harvey Weinstein em seu encalço


A pergunta que não quer calar
Mas fenomenal mesmo será se Weinstein conseguir arrancar uma terceira vitória seguida para um filme independente no Oscar. Depois de fazer um dramalhão britânico superar o “cidadão Kane” do século XXI em 2011 e de fazer um filme mudo e em preto e branco ser a sensação do ano passado, ele conseguirá fazer uma comédia romântica derrubar o presidente americano mais popular de todos os tempos?

Rivalidade IV
A categoria de trilha sonora é de longe a de rivalidade mais acentuada. John Williams, com nada menos que 48 indicações e cinco vitórias, voltou no ano passado, com nomeação dupla (As aventuras de Tintim e Cavalo de guerra) para assombrar alguns nomes que passaram a frequentar assiduamente a categoria como o francês Alexandre Desplat, indicado cinco vezes nos últimos seis anos, o americano Thomas Newman, indicado quatro vezes nos últimos seis anos e o italiano Dario Marianelli, indicado três vezes nos últimos seis anos. Williams, pela história e pelo trabalho que defende (Lincoln) é favorito.


O enigma de Jones
A octogenária Emmanuelle Riva conseguiu um feito raríssimo no Oscar deste ano. Foi a primeira atriz indicada ao Oscar sem ter sido indicada ou ao SAG ou ao Globo de Ouro. Mas há um precedente ainda mais acachapante. Trata-se de Tommy Lee Jones, que também está na corrida. Ele não foi indicado ao SAG, nem ao Globo de Ouro, nem ao Critic´s Choice, nem ao Bafta e conseguiu uma nomeação ao Oscar por No vale das sombras em 2008.O contrário teve vez, pela primeira vez, em 2013. Trata-se de John Hawkes. O ator foi indicado ao Globo de Ouro, ao critic´s Choice e ao SAG, mas não chegou ao Oscar. É a primeira vez que um ator presente nessas três listas não chega ao Oscar. No lado feminino, o mesmo aconteceu com a já oscarizada Marion Cotillard que, apesar de presente nas listas do Critic´s, do SAG e do Globo de Ouro, não chegou ao Oscar.

Quem não tem medo de Amy Adams?
Em oito anos são quatro indicações na categoria de atriz coadjuvante. Amy Adams é, literalmente, a rainha do galinheiro. Com todo o respeito. Nenhuma atriz foi tão reconhecida pela Academia em papéis coadjuvantes em tão curto espaço de tempo. A média é de indicação a cada dois anos. Indicada pelo trabalho em O mestre, Adams já concorreu por Retratos de família, Dúvida e O vencedor.

Todo poderoso Hoffman
Se Amy Adams é um prodígio, o que dizer de Philip Seymour Hoffman? Em O mestre é a terceira vez em que trabalham juntos. A primeira foi em Jogos do poder (2007), pelo qual Hoffman também foi indicado ao Oscar de coadjuvante. No ano seguinte, dividiram a cena em Dúvida, pelo qual o ator também recebeu indicação ao Oscar de coadjuvante.
Pelo visto, Amy Adams e Philip Seymour Hoffman juntos em um filme dá caldo. E Oscar!

Hoffman e Adams em cena do excelente Dúvida: unidos pelo Oscar...


Todo poderoso Hoffman II
Por O mestre, Hoffman (O De Niro e Nicholson de sua geração junto e misturado) recebeu sua quarta indicação ao Oscar. Ator maiúsculo, ele ainda foi negligenciado pela academia por excelentes trabalhos em Tudo pelo poder (2011), Sinédoque Nova Iorque (2008), A família Savage (2007), Antes que o Diabo saiba que você está morto (2007), Dragão vermelho (2002), entre outros grandes trabalhos. A favor da Academia, o fato de que não ia pegar bem indicá-lo todo ano...


Mais um Coppola
A dinastia Coppola segue rendendo frutos no Oscar. Depois do poderoso chefão Francis, do sobrinho Nicolas e de Sofia, a filha prodigiosa, é a vez de Roman – outro herdeiro de Francis – chegar ao Oscar. Ele está indicado junto com Wes Anderson pelo roteiro de Moonrise kingdom.

Nunca antes na história desse prêmio...
É a primeira vez nos 85 anos do Oscar que concorrem a estatueta de melhor ator coadjuvante apenas vencedores do Oscar. Philip Seymour Hoffman, Tommy Lee Jones, Christoph Waltz, e Alan Arkin já tem um Oscar cada um e Robert De Niro, dois. Agora é ver quando será a primeira vez que uma categoria de atuação reunirá apenas atores com dois Oscars; uma façanha certamente mais difícil de acontecer.

Galãs no Oscar
A categoria de melhor ator se habituou a ter, ao menos, um galã por ano. E tem sido assim desde meados dos anos 90 quando Tom Cruise concorreu a estatueta de melhor ator por Jerry Maguire-a grande virada em 1997. De lá para cá, Matt Damon, Russell Crowe, Jude Law, Nicolas Cage, Heath Ledger, Leonardo DiCaprio, Johnny Depp, Brad Pitt, Ryan Gosling, George Clooney e Brad Pitt marcaram presença. Em 2013, o time dos galãs é representado por Hugh Jackman e Bradley Cooper. Não que os outros concorrentes (Joaquin Phoenix, Daniel Day Lewis e Denzel Washington) não fustiguem suspiros.

Certos trabalhos...
O italiano Dario Marianelli obteve em 2013 sua terceira indicação ao Oscar de trilha sonora pelo trabalho em Anna Karenina. O interessante é que todas as indicações são por composições para filmes dirigidos por Joe Wright. Algo semelhante ocorre com o fotógrafo polonês Janusz Kaminski que costuma ser reconhecido pela Academia quando trabalha com o cineasta Steven Spielberg. Kaminski, no entanto, ostenta uma exceção: foi nomeado ao Oscar por O escafandro e a borboleta de Julian Schnabel.

Marianelli: ele já tem um Oscar e se ganhar outro, o primeiro nome que agradecerá será o de Joe Wright


Dez é o número da sorte
Ele já é um dos maiores perdedores do Oscar. Na categoria de fotografia, ninguém o supera em número de indicações sem vitórias. Roger Deakins conquistou em 2013 nada mais nada menos do que sua décima indicação ao Oscar pelo trabalho em 007- Operação skyfall. Alguns dizem que este é o seu ano. Será?

Monstros da música no Oscar
Bruce Springsteen, Bob Dylan, U2, Dido, Eminem, Celine Dion, Paul McCartney e Adele. Em comum, todos eles têm indicações ao Oscar. O status pop ajuda consideravelmente na vitória. Mas a regra nem sempre se aplicou. Resta saber se Adele se juntará ao time vencedor de Eminem e Bob Dylan ou ao derrotado de U2 e Dido. 

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Oscar Watch 2013 - O ano dos esquecidos ou dos favoritos?




Existem muitas particularidades na vigente corrida pelo Oscar, uma delas confronta personalidades queridas pela academia e outras frequentemente negligenciadas por esta. O Oscar 2013 será de quem? Dos favoritos como Daniel Day Lewis, Steven Spielberg e, mais recentemente, Tom Hooper e Kathryn Bigelow, ou dos frequentemente esquecidos Ewan McGregor, Leonardo DiCaprio, Quentin Tarantino e John Goodman?
A teoria mais fácil de abraçar indica que os favoritos devem prevalecer. O que ajudaria, portanto, a definir a parada na corrida em algumas categorias chaves. Que ator seria indicado por Argo? Alan Arkin ou John Goodman? Arkin já provou prestígio junto aos acadêmicos antes e pode se valer deste para prevalecer sobre o colega de elenco que também apresentou outros sólidos trabalhos no ano como em O voo e Curvas da vida. Entre os diretores, por exemplo, será que Quentin Tarantino voltaria à disputa por um filme com críticas divididas? Como serão os critérios, por exemplo, para Tom Hooper, cujo Os miseráveis também dividiu a crítica? Será possível os dois entrarem? Tarantino é cult e, em certa perspectiva, poderia ser tomado como um favorito da academia. Afinal, com apenas seis filmes no currículo já ostenta duas indicações para o Oscar de direção e outras duas como roteirista. No entanto, não é segredo que seu cinema não tange a muitos membros da academia. Já Hooper sai-se incrivelmente bem com quem geralmente desgosta de Tarantino. Ainda que agrade a muitos outros também com seu classicismo. Steven Spielberg, que ficou de fora ano passado, mas viu seu questionado Cavalo de guerra selecionado entre os melhores filmes, é nome certo entre os diretores. Resta saber se o hermético e genioso Paul Thomas Anderson, sempre um diretor elaborado e sofisticado demais para os padrões da academia, será lembrado por O mestre. Helen Mirren (Hitchcock), uma realeza de verdade, conseguirá no peso do nome impor sua candidatura às muito mais elogiadas Emmanuelle Riva (Amour) e Naomi Watts (O impossível), essa que há muito já merece uma segunda indicação ao Oscar. E seu parceiro de cena, Ewan McGregor finalmente será indicado como coadjuvante? A academia optará por conceder a sexta indicação da carreira de Denzel Washington (O voo) ao invés de destacar pela primeira vez Richard Gere (A negociação)?  
Daniel Day Lewis (Lincoln) ganhará seu terceiro Oscar na categoria de melhor ator ou a academia privilegiará o ingrato Joaquin Phoenix (O mestre)?

Quentin Tarantino voltará à disputa pelo Oscar de direção ou a academia lhe relegará apenas à disputa por roteiro?


O Oscar de coadjuvante ficará mesmo entre as queridas Sally Field (Lincoln), Anne Hathaway (Os miseráveis) e Nicole Kidman (The paperboy) ou teremos alguma novidade? E o bonitão Matthew McConaughey poderá ser lembrado depois de um ano de ótimos trabalhos ou Tommy Lee Jones (Lincoln) e Philip Seymour Hoffman (O mestre) não lhe darão oportunidade?
Michael Haneke, diretor genial e sensível e eternamente importante para a história do cinema, será lembrado pelo Oscar pela primeira vez pelo multipremiado Amour?
Mais do que em qualquer outra temporada, a atual corrida pelo Oscar se inscreve como um confronto mordaz entre os favoritos da academia e os frequentemente esquecidos por ela. É um combate interessante que pode produzir um cenário inovador, multifacetado e mais justo dentro da inescapável injustiça que toda a temporada de premiações fomenta.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Cannes 2012 - Aposta em americanos e em velhos favoritos


Cena de Na estrada, filme do brasileiro Walter Salles que - confirmando expectativas - integra a seleção oficial do festival de Cannes 2012. Outros velhos conhecidos retornam à riviera francesa em uma edição com poucas novidades e muitos nomes cacifados


É notório entre os cinéfilos que o festival de cinema de Cannes, que em 2012 chega a sua 65ª edição, é um clube do bolinha do meio cinematográfico. Principal evento do cinema artístico se promove como plataforma comercial e costuma prestigiar seus entes queridos. Há cineastas que sempre estão em Cannes, seja como membros do júri, na competição oficial ou exibindo filmes em mostras paralelas ou arcos promocionais. O festival desse ano não abrirá mão dessa marca. Tão pouco de outra tendência crescente nos últimos anos. A do predomínio de fitas americanas em competição. Se as premieres mundiais são menos ostentosas do que em outros anos (apenas o terceiro Madagascar, animação da Dreamworks – outra com lugar cativo na riviera francesa), a seleção de produções ou co-produções americanas é de fôlego. São seis filmes americanos na competição oficial que reúne um total de 21. O evento ainda terá como filme de abertura outra fita americana, Moonrise Kingdom, de Wes Anderson.
Um dos destaques da lista é a presença de Na estrada, nova produção internacional de Walter Salles, que entra nessa conta de americanos por ser co-produção daquele país e ter como principal produtor o cineasta Francis Ford Coppola.
Cartaz do segunda longa de
Lee Daniels:
acolhimento  em
Cannes é boa notícia
Outros prestigiados de Cannes voltam à disputa pela Palma de ouro em 2012. David Cronenberg, depois de ficar de fora no ano passado com Um método perigoso, entrou este ano com o antecipado Cosmópolis. O dinamarquês Thomas Vinterberg assume a cota dos egressos do Dogma 95 com The hunt, que marca seu retorno à Cannes, de onde saiu aclamado em 1998 com Festa de família – um dos filmes inaugurais do referido movimento. O veterano cineasta francês Alan Resnais, que costuma figurar nas mostras paralelas de Cannes, volta à disputa principal com Vous n’avez Encore Rien.
O romeno Cristian Mungiu, que triunfou em 2007 com 4 meses, 3 semanas e 2 dias, retorna com Beyond the hills. O russo Sergei Loznitsa, que casou furor em 2010 com o violento Minha felicidade, está na competição com In the fog. O britânico Ken Loach, o iraniano Abbas Kiarostami, o franco alemão Michael Haneke e os sul-coreanos Sangsoo Im e Sangsoo Hong também apresentarão seus novos filmes na disputa pela Palma de ouro. Outro aguardado retorno é o de Jacques Audiard, diretor do intenso e premiado em Cannes O profeta, com De Rouille et D’Os, estrelado pela maior diva francesa da atualidade, Marion Cotillard.
Três americanos causam curiosidade. Lee Daniels, após ir ao Oscar com Preciosa-uma história de esperança, chega a Cannes com seu segundo filme, The paperboy que promove a improvável colaboração entre Nicole Kidman, Zac Efron e Matthew McConaughey. Jeff Nichols, celebrado em 2011 com o independente O abrigo, apresentará The mud seguramente sob fortes expectativas. O neo-zelandês Andrew Dominik apresentará seu terceiro longa-metragem, o segundo em parceria com o ator Brad Pitt. Killing them softly, conhecido anteriormente como Cogan´s trade promete ser para o filme de máfia o que foi O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford para o western.

Michael Haneke, que ganhou a Palma de ouro há três anos pelo excepcional A fita branca, retorna à disputa pela Palma de ouro com Amour. Outros vencedores também estarão na disputa como Ken Loach e Abbas Kiarostami 

Brad Pitt e Richard Jenkins em cena de Killing them softly, do neo-zelandês Andrew Dominik: altas expectativas pela safra americana em Cannes


Outros destaques
A mostra “Um certo olhar” que costuma ostentar cineastas de prestígio destaca alguns projetos interessantes em 2012. O filho de David Cronenberg, Brandon, não acompanhará o pai à Cannes apenas por devoção familiar. Ele exibirá seu primeiro filme Antiviral  e rivalizará com, pelo menos, outros dois prodígios da direção: o canadense Xavier Dolan, cujos últimos dois filmes integraram a principal mostra paralela de Cannes, com Laurence anyways e o mexicano Michel Franco que apresentará seu segundo longa-metragem, Despues de Lucia.
O argentino Pablo Trapero, que em 2010 levou o excelente Abutres à mostra, terá dois filmes em competição. O argentino Elefante Branco e o coletivo Sete dias em havana, o qual assina com outros sete diretores; dentre os quais Benicio Del Toro, Gaspar Noe e Laurent Cantet.
Outros dois vencedores em Cannes terão seus novos trabalhos exibidos fora de competição. Apichatpong Weerasethakul que ganhou a Palma de ouro há dois anos com o tailandês Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas, exibirá Mekong hotel e o turco alemão Fatih Akin exibirá Der Mull im Garten Eden. A presença brasileira, além de Walter Salles, fica por conta da exibição de A música segundo Tom Jobim em sessão especial e pela presença de Rodrigo Santoro no filme Hemingway & Gellhorn, dirigido por Philip Kaufman para a HBO.

Clive Owen e Nicole Kidman (ela de novo) em cena de Hemingway & Gellhorn, filme da HBO que terá exibição especial no festival. Não será a primeira vez que um filme feito para a TV terá destaque em Cannes. Há dois anos atrás, Carlos, de Oliver Assayas competiu pela Palma de ouro


Os filmes que compõem a seleção oficial

Moonrise Kingdom, de Wes Anderson (filme de abertura)
De Rouille et D’Os, de Jacques Audiard
Holy Motors, de Leos Carax
Cosmopolis, de David Cronenberg
The Paperboy, de Lee Daniels
Killing Them Softly, de Andrew Dominik
Reality, de Matteo Garrone
Love, de Michael Haneke
Lawless, de John Hillcoat
In Another Country, de Sangsoo Hong
Taste of Money, de Sangsoo Im
Like Someone in Love, de Abba Kiarostami
The Angel’s Share, de Ken Loach
In the Fog, de Sergei Loznitsa
Beyond the Hills, de Christian Mungiu
After the Battle, de Yoursry Nasrallah
Mud, de Jeff Nichols
Vous n’avez Encore Rien Vu, de Alain Resnais
Post Tenebras Lux, de Carlos Reygadas
Na Estrada, de Walter Salles
Paradise: Love, de Ulrich Seidl
The Hunt, de Thomas Vinterberg


sábado, 28 de maio de 2011

Grandes Vencedores da Palma de Ouro - De Michael Haneke, A fita branca

Um filme em preto e branco, sem música, que antecipa o nazismo e que se pretende inflexivo sobre as origens do mal. A fita branca não poderia deixar de ser uma obra com a assinatura de Michael Heneke, um cineasta que sempre se mostrou à vontade em grafar a violência como idiossincrasia humana. Na briga pela Palma de ouro em 2009, Haneke levou a vantagem em uma competição em que os principais candidatos rondavam a violência, mas não com a mesma propriedade narrativa. A fita branca antes de ser um exercício de estilo é um decágono sobre as raízes da maldade.




A competição

O júri presidido pela atriz francesa Isabelle Huppert não tinha uma tarefa fácil. Esse foi o último grande ano do festival até aqui. Além de algumas gratas surpresas como O profeta, de Jacques Audiard, disputavam a Palma de ouro Pedro Almodóvar com Abraços partidos, Quentin Tarantino com Bastardos inglórios, Ken Loach com À procura de Eric, Ang Lee com Aconteceu em Woodstock, Park Chan-Wook com Sede de sangue, Lars Von Trier com Anticristo, Jane Campion com O brilho de uma paixão e Marco Bellocchio com Vincere. Era uma seleção de respeito. Tanto que Huppert foi acusada por setores da crítica de que a premiação de Haneke foi outorgada em favorecimento ao diretor que é seu amigo pessoal. Uma bobagem. A fita branca era digno da distinção que recebeu.


Além da Palma
Indicado a dois Oscars (filme estrangeiro e fotografia), Indicado ao Bafta de filme estrangeiro, indicado ao César de filme estrangeiro e quatro prêmios no European Film Awards (filme, direção, roteiro e fotografia)


Curiosidades
- O ator Ülrich Mühe, de A vida dos outros, era a opção de Haneke para ser o pastor no filme. Mas o ator morrera poucos meses antes do início das filmagens
- Heneke confessou em entrevista após a Palma em Cannes que havia pensado em A fita branca como uma minissérie para a TV, mas logo abandonou a ideia
- As cenas foram filmadas em cor e alteradas para preto e branco na pós-produção. O processo de conversão foi supervisionado pelo diretor de fotografia Christian Berger

domingo, 8 de maio de 2011

TOP 10 - Os dez queridinhos de Cannes

No mês do mais charmoso e importante festival de cinema do mundo, a seção TOP 10 se rende aos dez queridinhos de Cannes. Cinco deles estarão presentes na edição 2011 do festival, os outros também estariam se tivessem filmes programados para 2011. Claquete te convida a descobrir quem são os dez cineastas mais festejados em Cannes.




10 – Abbas Kiarostami


O iraniano é uma das grandes referências do cinema do oriente médio em Cannes. Já venceu a Palma de ouro uma vez, pelo filme Gosto de cereja (1997), e concorreu ao prêmio outras três oportunidades, com os filmes Através das oliveiras (1994), Dez (2002) e Cópia fiel (2010). Desde que surgiu na riviera francesa, em 1994, sempre esteve lá com algum lançamento. Se não estivesse em competição, integrava a mostra Um certo olhar ou a quinzena dos realizadores. O único trabalho não exibido em Cannes foi O vento nos levará (1999) que, selecionado para o festival de Veneza, valeu o leão de ouro a Kiarostami.


9 – David Lynch

E Cannes adora um americano. Não à toa eles são maioria aqui nessa lista e também no acumulado de vitórias no festival. David Lynch mimetiza, em parte, o que o festival aprecia no cinema de autor (teoria cravada pelos franceses a partir da observação do cinema americano). Lynch já venceu a Palma de ouro, em 1988 pelo filme Coração selvagem e voltou outras três vezes a croisette. Em 1992 com Twin Peaks: os últimos dias de Laura Palmer; em 1999 com História real e em 2001 com Cidade dos sonhos, quando ganhou o prêmio de direção.


8 – Emir Kusturica

O sérvio, nascido na antiga Iugoslávia, é outro favorito do festival. Com cinco passagens por Cannes, Kusturica já venceu como diretor, levou o prêmio do júri e a Palma de ouro - essa por duas vezes. A primeira vitória veio logo na estréia em Cannes com Quando papai saiu em viagem de negócios (1985), apenas seu segundo longa metragem. Vida cigana (1988), seu terceiro longa, lhe valeu o prêmio de diretor. Voltou a competir em Cannes com seu quinto filme, após ter sido premiado em Berlim com o quarto filme (Um sonho americano), e voltou a ganhar a Palma de ouro com Mentiras de guerra (1995).
Na última década, o sérvio voltou à disputa pela Palma em duas oportunidades. Em 2004 levou o prêmio do júri por A vida é um milagre e em 2007 saiu milagrosamente sem nenhum prêmio por Zavet.



7 - Irmãos Dardenne

Os belgas são crias do festival. Premiados com a Palma de ouro em seu filme de estréia Rosetta (1999), a exemplo do que ocorre com outros cineastas dessa lista, todo trabalho da dupla debuta em Cannes. Eles voltariam a triunfar na disputa com A criança (2005). Em 2002 levaram o prêmio do júri por Le fils e em 2007 ficaram com a Palma de roteiro por O silêncio de Lorna. Em 2011 voltam à disputa com The kid with the bike. Importante frisar que, até o momento, não saíram da riviera francesa sem algum prêmio.



6 – Michael Haneke

O austríaco, naturalizado alemão, é dos cineastas mais premiados e festejados do mundo. Com cinco participações em Cannes, a exemplo de Kusturica, Lynch, Tarantino e Kiarostami, também já presidiu o júri no festival. A primeira vez que integrou o festival chocou a crítica com Violência gratuita (1997). Quando retornou a croisette faturou o prêmio ecumênico do júri por Código desconhecido (2000). Desde então, além de não deixar de exibir seus filmes no festival, saiu premiado de todas as edições que disputou. A terceira participação lhe valeu o grande prêmio do júri por A professora de piano (2001). Em 2005 estupefou crítica e júri com Cachê e, além do prêmio de melhor diretor, levou pela segunda vez o prêmio ecumênico do júri (até hoje é o único cineasta que detém essa façanha). Em 2009 viria a grande conquista. Haneke conquistou, de forma inquestionável em uma das melhores disputas dos últimos anos, a Palma de ouro por A fita branca.



5 – Nanni Moretti

O italiano participará do festival pela sexta vez em 2011. Dos que integram esse Top 10 é dos mais longevos. Debutou na riviera francesa em 1978 com Ecce bomb (filme inédito no Brasil), mas foi em 1994 – em sua segunda participação – que foi premiado pela primeira vez. Por Caro diário recebeu o prêmio de melhor diretor. Quatro anos mais tarde voltaria a competição pela Palma de ouro com Abril. A conquista do prêmio máximo viria em 2001 pelo arrebatador O quarto do filho. Em 2004 Moretti recebeu um prêmio especial em homenagem a sua carreira, denominado Golden Coach. Mas não era o ponto final. Disputou a Palma em 2006 com O crocodilo, ótima crítica ao governo Silvio Berlusconi, e retorna este ano com Habemus papam.



4 – Pedro Almodóvar

Cannes foi o último dos grandes festivais a descobrir o cinema do diretor espanhol. Mas quando o fez, não quis mais saber de dividi-lo com Veneza e Berlim. Tanto o é, que o organizador do festival, Thierry Fremaux, pôs a lista do evento em suspensão até ter garantias de que Almodóvar terminaria de editar seu filme para exibi-los na croisette.
A pele que eu habito marcará a quarta participação do diretor no festival francês. Apesar de já ter sido premiado em Cannes, é o único da lista que não recebeu uma Palma de ouro. Em 1999, na sua primeira incursão na riviera francesa, faturou os prêmios ecumênico do júri e de direção por Tudo sobre minha mãe. Voltou a ser premiado, em sua segunda passagem, pelo roteiro de Volver. Em 2009 competiu com Abraços partidos.



3- Lars Von Trier

O diretor dinamarquês, auto intitulado o melhor cineasta do mundo, é daquelas figuras que remetem a Cannes. Em 2011 vai para sua nona participação no festival. Sempre apoteótico nas declarações, Von Trier agrada pelo experimentalismo de seu cinema e por uma postura de afronte ante as convenções. Há quem enxergue nele uma falácia, há quem o perceba como um gênio irresoluto. Melancholia, o filme que exibirá no festival desse ano, pode dar sequência ao viés polarizante do diretor na croisette. Desde que foi multipremiado por Europa (prêmio do júri, de contribuição artística e de conquista técnica) em 1991, todos os seus lançamentos ocorrem em Cannes. Antes de Europa ele havia exibido, sem grande repercussão Elemento de um crime (1984). Antes de ganhar a Palma de ouro, em 2000, por Dançando no escuro, o dinamarquês exibiu em Cannes Ondas do destino (1996) e Os idiotas (1998). Depois da Palma foi a vez da interrompida trilogia sobre a América com Dogville (2003) e Manderlay (2005). Em 2009 voltou a causar frisson com Anticristo.



2 – Gus Van Sant

O americano é outro que, embora descoberto tardiamente por Cannes (Berlim o saudava desde os tempos de Drugstore cowboy) caiu no gosto do festival. Ao ponto de protagonizar um ineditismo: Palma de ouro e prêmio de direção em uma mesma edição. Ocorreu em 2003 com o inesperado Elefante, uma dramatização sobre a tragédia da escola ginasial de Columbine. E o olhar aos jovens dispensado por Sant é o seu passe para Cannes. Retornou a disputa em 2005 com Últimos dias, uma “homenagem” ao roqueiro trágico Kurt Cobain e protagonizaria novo marco ao ganhar o prêmio especial da 60ª edição com Paranoid park.


1- Quentin Tarantino

Cria de festivais, seu primeiro filme Cães de aluguel brilhou em Sundance; pode-se dizer se a concepção de Quentin foi em Sundance, o parto foi em Cannes com Pulp Fiction –tempos de violência. A estréia na França alvoroçou o mundo do cinema e a Palma de ouro conquistada colocava aquele maníaco de locadoras como referência na linguagem cinematográfica moderna. Esteve presente em todas as edições do festival dali em diante. Fora de competição com o primeiro Kill Bill e Jackie Brown (que disputou o urso de ouro em Berlim) e em competição com À prova de morte (2007) e Bastardos inglórios (2009).
Tarantino é o mais cinematográfico de todos os diretores da lista. É quem melhor veste o personagem criado para si e faz de suas passagens por Cannes, digamos, um filme de Tarantino.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Panorama - A fita branca



À época do festival de Cannes do ano passado (do qual saiu vencedor) e em seu lançamento no Brasil, sob as expectativas da vitória no Oscar (que não se confirmou), o último filme de Michael Haneke foi tomado como uma elaborada e intrincada análise sobre a gestação do nazismo. Em A fita branca (Das Weisse Band, Alemanha 2009), acompanhamos um remoto vilarejo alemão que é acometido por estranhos casos de violência.
O que Haneke reproduz aqui, e com insuspeita propriedade, é a força desestabilizadora que uma educação repressora e opressiva exerce sobre crianças. É sobre a gestação do mal (e sua proliferação aguda e ostensiva), portanto, que versa A fita branca. Datar o elaborado trabalho de Haneke é um prejuízo intelectual e não faz justiça a obra. As origens do nazismo permeiam o registro. A ambientação às vésperas da primeira guerra mundial permite tal dedução, mas essa restrição tem mais a ver com o exercício da crítica de fustigar sentido específico do que com a robustez do comentário (que em si não se esgota) de Haneke. Aliás, o filme não se resolve. Em uma demonstração vívida de que o nazismo é apenas um dos elementos, não o foco do ataque de Haneke. Um autor que sempre prima pela profundidade, mas há quem insista na circunstância.