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domingo, 3 de fevereiro de 2013

Insight - Depois da obra-prima



O ano de 2012 pregou uma pegadinha em cinéfilos, críticos e em alguns cineastas. O ano reuniu os trabalhos sequenciais de muita gente que vinha do pico de suas carreiras. Michael Haneke, por exemplo, vinha do soberbo e irrevogável A fita branca (2009), um colosso de cinema sob qualquer ângulo que se observe. A Palma de ouro em Cannes, e mais um punhado de prêmios internacionais, pareciam coroar uma carreira pungente e acadêmica que ainda não havia sido reconhecida a contento. Mas aí veio Amor.
Paul Thomas Anderson, por seu turno, havia atingido a glória com Sangue negro (2007). Filme que para muitos críticos o levara ao panteão dos diretores imortais. Não era preciso fazer mais nada; mas já que ele não decidiu se aposentar, se investiu da necessidade de fazer algo minimamente compatível com a imensa expectativa que um filme como Sangue Negro para sempre ensejaria sobre sua obra futura. E aí veio O mestre.
Bastardos inglórios: o auge de
Tarantino
Outros cineastas prestigiados também se viram as voltas com expectativas semelhantes em 2012. Christopher Nolan mudou a percepção que o mundo tinha de adaptações de quadrinhos nos cinemas com O cavaleiro das trevas (2008). Uma mudança muito mais profunda e complexa do que um primeiro olhar faz crer. Ele fez A origem em 2010 que só fez aguçar a curiosidade pelo desfecho da trilogia que para sempre será entoada como a obra máxima de Nolan. O cavaleiro das trevas ressurge, no entanto, não sobreviveu às expectativas desestabilizadoras que confluíram a seu encontro.
Outro arista americano revolucionário, Quentin Tarantino, talvez ostentasse um desafio ainda maior. Mais icônico e reconhecido do que Nolan, Tarantino apresentou ao mundo em 2009, sua obra prima: Bastardos inglórios. O próprio, em recurso metalinguístico muito bem sacado admitiu isso dentro do próprio filme – tamanha era a clareza de que aquele se tratava, enfim, do auge de sua carreira. Django livre, a despeito do imenso sucesso de público e das indicações ao Oscar, é uma curva descendente em relação a Bastardos inglórios.
Esses quatro casos servem para dar nova dimensão a uma angústia que marca boa parte dos diretores de cinema depois de apresentarem ao mundo, aquilo que crítica, público e indústria chamam de obra-prima. Cineastas como M.Night Shyamalan, para ficar em um exemplo bastante famoso, não sabem se desvencilhar dessa arapuca.

Paul Thomas Anderson orienta Daniel Day Lewis no set de Sangue negro: auge da carreira ou de seu primeiro ciclo?

Paul Thomas Anderson orienta Joaquin Phoenix no set de O mestre: de quantas obras-primas uma carreira imortal necessita?


Atenção às similaridades
Salta aos olhos, o fato desses quatro cineastas serem escritores/diretores e de gozarem de total liberdade em seus projetos. A falta de liberdade é constante reclamação de Shyamalan e foi o que motivou Woody Allen, por exemplo, a ir filmar na Europa.
Haneke e Anderson, em particular, obtiveram resultados muito melhores do que Tarantino e Nolan com seus lançamentos de 2012. Amor, ainda que não seja um filme tão importante em ramificações sociológicas quanto o é A fita branca, apresenta predicados tão eloquentes quanto.
É um filme em que Haneke mantém sua postura estética e o interesse sobre o comportamento humano em face de circunstâncias adversas; ainda que tenha mudado o escopo de análise, ele manteve firme seu olhar. A história do casal de idosos às voltas com o desfalecimento da mulher não é, nesses termos aventados, diferente do casal vítima de uma dupla de sádicos (Violência gratuita) ou de uma vila consternada por uma série de ataques injustificados (A fita Branca).
O mesmo compasso serve para analisar o mais recente filme de Paul Thomas Anderson. À parte a óbvia relação da religião ser parte proeminente tanto em Sangue negro como em O mestre, Anderson alinhava personagens para servir como parâmetro para um estudo minucioso da alma humana. De convenções como ambição, pertencimento, ego, felicidade, capitalismo, entre outros. A observação pode ser estendida para outras de suas obras como Magnólia (1999) e Boogie Nights (1997). Mas é inegável que esses seus dois últimos filmes dialogam em um nível muito particular. Nos arranjos do texto, porém, O mestre é mais sofisticado.
Haneke de costas no set de Amor:
fidelidade estética e liberdade temática
Já Nolan e Tarantino se aproximam não só pelo fato de ambos terem obtidos resultados menos satisfatórios em suas empreitadas posteriores as suas obras-primas, mas por mais do que aprofundarem seus interesses narrativos, reciclarem fórmulas bem sucedidas sem o mesmo apelo de outrora.
Tarantino nos tirou o fôlego ao reescrever a história em Bastardos inglórios e conferir ao cinema uma importância redentora até então inédita. Ele resolveu utilizar o mesmo recurso em um western spaghetti com um escravo vingador no período pré-guerra civil americana. Se o rebuscamento de Bastardos inglórios falta a Django livre, estão lá a presença luxuosa de Christoph Waltz – a evocar Bastardos a todo o tempo – e o manancial de referências cinematográficas e culturais que tanto acrescem ao cinema tarantinesco. Se Django livre viesse ao mundo antes de Bastardos inglórios, os dois filmes teriam melhor estima do que já ostentam. Na ordem real, Django livre acaba por engrandecer o trabalho anterior de Tarantino.
Com Nolan acontece mais ou menos a mesma coisa. Ele filtra muito da estrutura narrativa de seus dois maiores acertos (A origem e O cavaleiro das trevas) no desfecho da trilogia do Batman, mas não adensa o filme dramaticamente. O conflito eriçado em O cavaleiro das trevas ressurge já surge esgotado.  

Christopher Nolan no set de O cavaleiro das trevas ressurge: uma trilogia dramaticamente esgotada em dois filmes

Positivo
É certo, porém, que esses quatro cineastas apresentaram em 2012 obras expressivas e catalisadoras de merecida atenção. São filmes que, em alguns casos, não se comparam aos trabalhos anteriores, mas que ainda estão acima da média dominante do cinema mundial. Mais do que qualquer coisa, entretanto, esses cineastas demonstraram em 2012 que há, sim, vida depois da obra-prima.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Oscar Watch 2013 - ... e Deus criou Daniel Day Lewis




Ele é quase um meme de toda temporada de premiações. É certamente uma sombra vultosa em que deseja, mesmo antes de iniciada a temporada do Oscar, participar dela. E um modelo para atores e aspirantes a atores em todo o planeta. Quando Daniel Day Lewis tem um filme na praça, a competição por qualquer prêmio torna-se menos competitiva e mais contemplativa. Para uma carreira de mais de 30 anos, Day Lewis ostenta um número relativamente pequeno de filmes: são 23 ao todo, se consideras produções para a televisão inglesa nos anos 80. Mas a qualidade dos filmes e de seus trabalhos compensam a preleção aguda. Day Lewis ostenta um invejável número de 106 nomeações a prêmios, das quais incríveis 74 foram convertidas em vitórias e algumas mais devem vir até 24 de fevereiro, quando ele muito provavelmente erguerá sua terceira estatueta do Oscar.
O londrino sempre se mostrou avesso à badalação de Hollywood e não costuma se engajar em busca de novos projetos. Diretores que anseiam por trabalhar com ele precisam frequentemente cortejá-lo, como fez Steven Spielberg que teve que bancar três versões de roteiro até que encontrasse a que motivou o ator a embarcar no projeto Lincoln. O 16º presidente americano sempre foi do interesse de Spielberg que via em Day Lewis o intérprete perfeito para o personagem. Mas Day Lewis é sempre o intérprete perfeito de qualquer personagem. Houve, no entanto, quem questionasse sua última incursão no cinema, no musical Nine, de Rob Marshall. Fazendo as vezes de Fellini, no entanto, o ator conferiu mais pompa e dramaticidade a um registro que se pretendia apenas pop.
A filmografia do ator revela um homem sem medo de personagens desafiadores e coerente com a metodologia que elegeu para exercer seu ofício. Devido a sua energia na tela e às histórias de bastidores que dão conta de como prefere permanecer encarnado no personagem, Day Lewis criou para si um estigma de ator difícil, genioso e genial. Um dos poucos que fará por merecer uma cinebiografia no futuro mais por seu talento, do que por sua celebridade.
Se mantivesse um ritmo de produção mais assíduo, na década passada foram apenas quatro filmes, Day Lewis poderia banalizar seu status de divindade da atuação. A Time, mais importante revista semanal do mundo, recentemente lhe fez matéria elogiosa e lhe outorgou o título de “maior ator do mundo”. No entanto, a opção por projetos selecionados entrecortados por longos hiatos não é algo com esse fim. Day Lewis gosta de cinema, mas entende ser esse seu trabalho e um trabalho privilegiado que lhe proporciona outros privilégios, como maior atenção à família.
Dono de personagens icônicos, Day Lewis pode fazer história no domingo, 24 de fevereiro de 2013. Pode tornar-se o segundo homem a ter três Oscars por atuação. A diferença entre ele e Jack Nicholson, o outro homem que até agora detém exclusividade sobre essa marca, é que dois dos Oscars de Nicholson foram como coadjuvante. Se Day Lewis conquistar o terceiro por Lincoln, os três terão sido como protagonista. E mais: Day Lewis terá conquistado seu terceiro Oscar na quinta indicação. Nicholson teve doze. Um atestado da referida perfeição que não deixa margem para erros e desencontros.

Cinco grandes momentos de Daniel Day Lewis


Sangue negro

Nesse poderoso filme, o ator reproduz com assombrosa força o mito do capitalista nessa obra perene e fundamental de Paul Thomas Anderson

O último dos moicanos

Nessa impactante fita de Michael Mann, o ator provou ser eficiente em cenas de ação sem descuidar do relevo dramático do personagem

Em nome do pai

Na segunda colaboração com o cineasta Jim Sheridan, a primeira foi em Meu pé esquerdo, Day Lewis faz um homem injustamente acusado de terrorismo. Uma atuação potente com tons agudos

Gangues de Nova Iorque

Em seu segundo trabalho com o diretor Martin Scorsese, o primeiro foi Na época da inocência, Day Lewis rouba o protagonismo de um ascendente Leonardo DiCaprio ao construir um gangster primordial de uma Nova Iorque em formação

Minha adorável lavanderia

A estreia efetiva de Day Lewis no cinema não poderia ter se dado de maneira mais intensa do que nesse drama com fundo gay de Stephen Frears. Day Lewis demonstra toda a sua minúcia e deixa transparecer o talento que logo o marcaria para todo o sempre



quarta-feira, 8 de setembro de 2010

TOP 10

Tudo mundo comenta os péssimos títulos nacionais que filmes estrangeiros recebem por aqui. Claquete já perpassou o assunto em diferentes ocasiões. Dessa vez, a proposta é diferente, embora intercambiável. O TOP 10 dessa semana lista os 10 filmes com nomes filosoficamente acurados em suas encarnações originais. É um outro ponto de vista para medir a pobreza das traduções nacionais e para perceber como um título pode dizer muito sobre um filme (e as vezes lhe botar uma baita de uma pressão). Com vocês Os 10 nomes originais de filmes que são filosoficamente acurados



10 – There will be blood
(no Brasil, Sangue negro)
Poucos filmes tiveram títulos tão assertivos quanto este western rude e vanguardista de Paul Tomas Anderson. O filme que mostra a construção da América ao confrontar a religião com o crescente poder econômico (nas figuras do pastor vivido por Paul Dano e do prospector de petróleo vivido por Daniel Day Lewis), tem em seu enunciado o dogma social que ainda aflige nossa era. O filme pode até não corresponder a força de seu título, mas a gana dos personagens não faz por menos.

9 – The expandables
(no Brasil, Os mercenários)
Poucos filmes adotam um título que diga tudo sobre o filme. Que remeta ao estado de spírito dos protagonistas e que tenha sentido dentro da trama apresentada (mesmo que a trama em questão seja rasa feito um pires). Este é um caso. Goste você ou não de The expandables, é preciso reconhecer a soberania de seu título. Os descartáveis. A verdade poética do título emula o que o filme também significa para o público. Um triunfo.

8 – The unbearable lightness of being
(no Brasil, A insustentável leveza do ser)
A despeito da carga dramática e da beleza que a combinação de palavras propõe, é plenamente compreensível o por que de ter-se traduzido literalmente este título. É auto imposto. A divagação do enunciado fica com a gente. Clama uma ponderação e se firma como interesse primal. A vida tem sua porção do insustentável e nessa trama de época estrelada por Daniel Day Lewis, esse aspecto não chega a impressionar tanto quanto as infinitas possibilidades sugeridas pelo título.

7 – About a boy
(no Brasil, Um grande garoto)
O filme que traz a performance mais elogiada da carreira de Hugh Grant é uma perola do humor britânico. É também um filme sobre a improvável amizade entre um garoto em busca de uma figura paterna e de um playboy endinheirado que fora privado de uma. O brilho do título sai justamente dessa interposição de figuras. O garoto do título pode tanto ser o desajeitado personagem de Hugh Grant ou o menino que o elege para pai informal.

6 – From Rússia with love
(no Brasil, Moscou contra 007)
Foi aqui que os filmes de 007 começaram a zelar por títulos auspiciosos e charmosos. O título da segunda aventura de James Bond é certeiro em capturar o clima da guerra fria e em emular o fraco do espião britânico por mulheres. Tamanha sagacidade foi jogada no lixo com o título banal aventado em terra brasilis.

5 – Charles Wilson´s war
(no Brasil, Jogos do poder)
Se existe um título sensacional em sua simplicidade é este. A guerra de Charles Wilson é cabal porque a guerra no Afeganistão só parecia interessar, nos EUA, ao congressista Charles Wilson. O título também é pontual em levantar a peteca para o inusitado. Afinal, fora a guerra de Charles Wilson que colocou Israel, Arábia Saudita e Palestina no mesmo time. Há, também, o agridoce componente da guerra de Charles Wilson ter desembocado nessa desastrada guerra ao terror que nos deparamos hoje em dia. No Brasil, optou-se por um título burocrático perfeito para quem tem preguiça de pensar.

4 – Road to perdition
(no Brasil, Estrada para a perdição)
Outro caso de título mantido. O que foi positivo para a trajetória do gangster que cruza a América com seu filho em busca de vingança. A jornada de perdição tem uma metáfora fácil, porém bem vinda, com a rua em que se passa o clímax do filme que divide o nome com a fita.
Tanto a vida quanto aquela estrada levam a memórias e arrependimentos incontornáveis, mas também a doces lembranças.

3- Into the wild
(no Brasil, Na natureza selvagem)
Se o objetivo é entrar em contato com a liberdade, nada melhor do que se livrar de amarras sociais. É o que nos antecipa esse romântico título do filme biográfico dirigido por Sean Penn. Adentrar a vastidão selvagem de nós mesmos e do mundo é algo que não pode ser tomado como fácil, mas tem sua beleza. E o singelo título do filme contribui para essa percepção. Não é preciso dizer que essa sutileza não foi capturada pelo título nacional.

2 - No country for old men
(no Brasil, Onde os fracos não tem vez)
O xerife vivido por Tommy Lee Jones logo diz que já não entende mais o mundo. Mundo em que a violência ganhou status e razão social. O personagem não é fraco, mas é de uma geração um tanto quanto extinta no filme dos irmãos Coen. Um filme em que a questão geracional se revela um componente de inadequação mais forte do que qualquer outra coisa. Essa sutileza foi negligenciada pelo título nacional que prefere travestir o denso e soturno western dos Coen como um faroeste banal.

1-Up in the air
(no Brasil, Amor sem escalas)
O péssimo trocadilho do título nacional confunde um espectador desavisado. Não se trata de uma comédia romântica, tão pouco de um romance ambientado em um aeroporto. Up in the air é um drama existencial de espírito moderno. O título da fita emula o estado de suspensão de seu protagonista fazendo uma bem sacada comparação com sua predileção por viver em trânsito aéreo. O amor até está em pauta, mas em momento algum ele se recusará a fazer escalas.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Grandes momentos do cinema - Sangue negro

O filme Sangue negro (There will be blood EUA 2007)tem muitas cenas memoráveis e Daniel Day Lewis (vencedor do Oscar, do globo de ouro, do SAG, entre outros pelo filme) é responsável por todas elas. Essa cena em particular que vocês verão agora foi escolhida por ser, talvez, a que sintetize todo o sentido do filme, do espirito que move o personagem de Day Lewis e onde o ator atinge um nível extraterrestre em termos de atuação.
Para quem ainda não viu o filme, Sangue negro captura um momento crucial na afirmação econômica da América. O filme é um elaborado estudo sobre as bifurcações que sentimentos como ganância e ambição fazem e como, quando fora de controle, são capazes de nos demover de nossa humanidade. Nessa cena o prospector de petróleo vivido por Daniel Day Lewis encara um confronto definitivo, de aspirações épicas, contra seu antagonista. Um pastor oportunista vivido com não menos brilho pelo jovem Paul Dano (Pequena miss sunshine).
Para quem já viu o filme, fica o convite para apreciar essa magnífica cena que inaugura, com toda justiça, Grandes Momentos do Cinema aqui em Claquete.