quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Filme em destaque: Bling ring - a gangue de Hollywood

Jogo de espelhos na cultura de celebridades
Novo filme de Sofia Coppola, baseado em eventos reais, expande o interesse de seu cinema pela fama e suas reminiscências encorporando glamour, crítica e o lado B da geração Y


“Eu acho que Los Angeles é o centro da cultura americana atualmente por causa de todos esses reality shows, como o “Kardashians”, que são filmados em Hollywood e Los Angeles. E a cultura do tapete vermelho se tornou muito influente em todo o país”, diz Sofia Coppola sobre a influência e ambiente de seu novo filme, Bling ring – a gangue de Hollywood que estreia nesta sexta-feira nos cinemas brasileiros. “Essa história só poderia se dar aqui”.
Após ler a reportagem de Nancy Jo Sales (“Os suspeitos vestiam Louboutins”) na revista Vanity Fair, Sofia Coppola encontrou o filme que sucederia o êxito parcial de crítica e vencedor no Festival de Cinema de Veneza Um lugar qualquer.  
A reportagem dava conta de mostrar os jovens que invadiram e furtaram as mansões de celebridades como Orlando Bloom, Paris Hilton, Rachel Bilson, Lindsay Lohan entre outras. “Quando comecei nisso (no roteiro), Nancy me deu suas transcrições das entrevistas com os jovens reais. Eu não podia acreditar em algumas coisas que eles haviam dito, aquilo revelava muito sobre eles, seus objetivos e nossa cultura. Eu meio que deixei minha imaginação ir a partir dali”, disse no material divulgado à imprensa pela distribuidora brasileira.
Sofia conta que colocou no filme muito do “que lembra do que é ter essa idade” em referência ao fato dos protagonistas serem adolescentes deslumbrados com a fama.
“Estou sempre falando de pessoas que lidam com a fama como um fardo”, pontua em entrevista ao jornal O Globo. “No caso de Bling ring, falo disso, mas quis avançar na forma de tratar o tema a partir do discurso corrente dos personagens que se movimentam e pensam via internet. Minha narrativa parece uma sucessão de spams com vários fatos corriqueiros saltando”.

Trash chic: deslumbramento pela fama, juventude, ociosidade e glamour se confundem no novo filme da diretora de Encontros e desencontros

Osmose
A escalação do elenco era ponto nevrálgico para as pretensões de Coppola em relação ao filme. “Era muito importante achar pessoas autênticas realmente dessa idade, porque sempre me incomoda ver atores de 25 anos vivendo adolescentes”, explica a filha de Francis Ford Coppola.
Emma Watson, o nome mais conhecido do elenco, vive Nicki, uma piriguete. “Eu tive que fazer coisas que como eu mesma, Emma, jamais faria. É divertido explorar um lado diferente de si mesma por meio de um personagem”, expõe a atriz que aos poucos vai deixando a bruxinha Hermione da franquia Harry Potter para trás.
O que chama a atenção é que Coppola, mesmo que inadvertidamente, acabou por escalar para viver esses jovens obcecados pela fama um punhado de intérpretes que já tem alguma ideia desse universo. Taissa Farmiga, que vive Sam, a irmã adotiva de Nicki, é irmã da atriz Vera Farmiga e já atuou, por exemplo, na série de tv American Horror Story. Claire Julien, que vive Chloe, é filha do diretor de fotografia Wally Pfister. Ela conta que não houve dificuldade em entrar na personagem. “Muitas pessoas me dizem que eu fui uma boa escolha para fazer a personagem e eu concordo até certo ponto. Eu não faria coisas que Chloe fez, nem faria as mesmas escolhas que ela, mas eu posso ver semelhanças. Temos senso de humor parecido, o mesmo gosto musical e usamos o mesmo tipo de linguagem”.
O principal personagem da trama, no entanto, é Mark – vivido pelo ator estreante Israel Broussard. “Creio que Sofia queria  que Mark fosse o coração da história. Há algo que inspira compaixão nele”, diz o ator que vive o único menino da trupe e que, novo na escola, vive às voltas com a indefinição de sua sexualidade.
A busca por veracidade no registro é tanta que Paris Hilton, uma das celebridades lesadas pelo The bling ring, surge como ela mesma no filme e abre as portas de sua mansão para que o filme de Coppola possa se confundir uma vez mais com o real.
Emma e Sofia na premiere em Cannes
“Meu amigo Stephen Dorff (protagonista de Um lugar qualquer) me chamou e disse que Sofia queria falar sobre algo comigo”, relembra Paris. “Ela me falou sobre esse projeto. E é claro que eu sei muito sobre a história verdadeira porque eu estava envolvida na vida real, então eu estava muito excitada em atender ao chamado dela e fazer parte disso. Eu realmente estava nas boates com essas garotas que estavam usando vestidos que roubaram do meu armário na minha frente e eu não tinha ideia.”
Como parte da preparação para o longa, os atores tiveram que assistir horas de realities como “Pretty wild”, The simple life” e programas como “The hills”.
Lançado na mostra Um certo olhar do último festival de Cannes, Bling ring – a gangue de Hollywood foi recebido de maneira positiva pela grande maioria da crítica e saudado como uma  bem- vinda mudança de tom de Sofia Coppola, ainda que seus interesses característicos estejam todos lá. “Eu acho que há uma mistura de glamour e crítica no filme; mas no fim isso vai dar ao público algo sobre o que pensar”, finaliza Coppola sobre sua mais recente empreitada cinematográfica.   

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Crítica - Círculo de fogo

Campo de batalha: Terra

Guillermo Del Toro quando concluiu Círculo de fogo (Pacific Rim, EUA 2013) deve ter pensado para consigo que dispunha de um Transformers vitaminado, mais bem adensado narrativamente do que os filmes concebidos por Michael Bay e visualmente mais impactante também. O primeiro revés a essa percepção veio das bilheterias. Com orçamento de U$ 180 milhões, o filme não chegou nem mesmo aos U$ 100 milhões no mercado americano. O segundo revés foi a artilharia pesada com que a crítica taxou o filme de “bobagem de grandes proporções”. No fim das contas, Del Toro, um cineasta inovador e conceitualmente interessante, perdeu para Bay nessa disputa de “meninos nerds”. Seu Transformers, bombeado pela cultura japonesa extrapolada de mangás e seriados cult dos anos 70 e 80, é bem menos divertido do que o “parques de diversões robótico” melindrado por Bay. 
A história mostra um futuro distópico em que a humanidade precisa desenvolver defesas, nem sempre eficientes, para conter e debelar criaturas monstruosas (os chamados kaiju) que chegam ao planeta por uma gigantesca fenda aberta no oceano pacífico. O método mais eficiente de defesa são os Jaegers, imensos robôs que são pilotados por duas pessoas que tem seus cérebros unidos em um procedimento puro sci fi. Um desses pilotos, Raleigh (Charlie Hunnam), é exonerado de seus serviços depois de um ato de insubordinação que levou à morte de seu irmão. O filme centra-se na figura de Raleigh que é chamado de volta pelo marechal Pentecost (Idris Elba) depois que o programa Jaeger é desativado pelas Nações Unidas e passa a atuar como uma resistência e não mais como linha de defesa da humanidade.

Ron Perlman, no auge da canastrice, mantém o padrão Del Toro de qualidade no filme em que Del Toro não parece Del Toro

O fiapo de história rende duas horas e meia de um filme que apresenta um visual entorpecente, principalmente se visto com todos os recursos tecnológicos disponíveis, mas que assusta justamente por ser um filme esvaziado de alma (feito inédito até então na filmografia de Del Toro) e desprovido de humor – essencial para filmes que suplicam à plateia que desconsidere leis da física, química, matemática e tantas outras leis frequentemente sobrepujadas pelo cinemão. Até nisso, Círculo de fogo perde para Transformers, que sabe rir de si mesmo, enquanto o filme de Del Toro se leva demasiadamente a sério.
Se há pontos positivos são as participações de Idris Elba, puro carisma na pele daquele que pode ser considerado o verdadeiro herói do filme, e Ron Perlman, fiel escudeiro de Del Toro, que responde pelos melhores (e mais desencanados) momentos do filme.

Círculo de fogo é o terceiro grande filme a fracassar exponencialmente em sua proposta nessa temporada. É uma pena. A história certamente tinha potencial e contava com Del Toro, um diretor até então à prova de balas, como grande fiador do projeto. É muito clara a razão do fracasso do filme. Optou-se pelo espetáculo visual em detrimento do desenvolvimento dos personagens. Talvez seja melhor Del Toro voltar aos filmes menores...

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Filme em destaque - Flores raras

Falando de amor


Bruno Barreto quer um Oscar. Ele talvez seja o brasileiro do meio do cinema que tenha mais desejo pela estatueta dourada. Um dos mais prolíficos representantes do clã Barreto, família que confunde sua história com a do cinema nacional, Bruno Barreto já concorreu ao Oscar com O que é isso companheiro? (1997) e por muito tempo ostentou a marca de campeão de bilheteria do cinema nacional com versão cinematográfica de Dona Flor e seus dois maridos (1976).
Experimentado no cinema internacional, Barreto não emplaca um sucesso desde O casamento de Romeu e Julieta (2004), versão da peça de Shakespeare temperada pela rivalidade futebolística que une (ou separa) palmeirenses e corintianos. Neste segundo semestre de 2013 ele ataca em duas frentes. Na comédia popular, com Super Crô – o filme, que resgata o celebrado personagem vivido por Marcelo Serrado na novela "Fina estampa", e Flores raras, reconstituição da história de amor entre a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares e a poetisa norte-americana Elizabeth Bishop nos idos do Rio de Janeiro dos anos 50. O filme, falado quase que integralmente em inglês e estrelado por Glória Pires e Miranda Otto, estreia nesta sexta-feira (16) nos cinemas do país.

Em busca do Oscar
Em entrevista coletiva em São Paulo para divulgação do filme, Bruno Barreto não escondeu sua ambição para o filme. Comparou o drama a Brokeback Mountain – célebre filme sobre uma paixão homossexual entre dois vaqueiros na América dos anos 60 – e disse que o momento é muito favorável ao mote do filme, a homossexualidade. "É uma história universal e o fato da apresentadora do Oscar do próximo ano ser a Ellen De Generes (comediante assumidamente gay) pode agir a favor (do filme no Oscar)”.  Barreto, ao portal UOL, disse que até mesmo as atrizes têm boa chances na disputa. “Não é fácil achar cinco papéis femininos fortes para concorrer ao prêmio e esse filme tem dois”. A ministra da Cultura, Marta Suplicy concorda. Ela inclusive ligou para Glória Pires para transmitir essa percepção de que Flores raras pode levar o Brasil novamente à briga pela estatueta dourada. À revista Serafina, Glória disse que buscou entender as motivações da personagem e se disse feliz pelo filme ter demorado a ser realizado. “Se fizesse no final dos anos 90, quando fui convidada para o projeto, não ficaria tão bom. Não estava madura o suficiente como intérprete para viver Lota”. Na coletiva em São Paulo, Glória acrescentou que o filme “desmistifica o universo gay” e que poder lançá-lo neste momento, 17 anos depois de adentrar ao projeto, “é um presente”.
Barreto seguiu a carga de elogios à atriz dizendo que “sabia que Glória era um monstro em português, mas não sabia que era em inglês também. É incrível o comando que ela tem!”.  

Bruno Barreto no set de filmagens orientando Miranda Otto e Glória Pires: história universal e falada majoritariamente em inglês

História universal
O apelo universal da obra tem motivado a equipe por trás do filme a expandir o alcance da produção. Além de já ter passado por diversos festivais ao redor do mundo, como Berlim, Sundance e Gramado, o filme já tem distribuição garantida em países como Alemanha e Coréia do Sul, além de alguns países europeus. Fato raro para um filme nacional não testado comercialmente em seu país. Barreto acredita que seu filme fale com todo o público: “é uma história de amor, sobre perdas”.

A preocupação com o apelo do filme para plateias internacionais era tamanho que cogitou-se mudar o nome da fita, que advém do livro “Flores raras e banalíssimas”, de Carmen Lúcia de Oliveira, que se debruça sobre o relacionamento entre essas duas mulheres e dá base à dramaturgia erguida por Barreto. Por um breve momento, o filme esteve batizado “Eu não sei dizer eu te amo”. Independentemente do título, o sentimento parece estar no lugar certo.

domingo, 11 de agosto de 2013

Insight - os papéis mais sensuais do cinema recente

Falar dos papéis mais sensuais do cinema recente não é tarefa fácil. O espaço para divergência é tenebroso e o conceito de recente é por demais amplo. É preciso estabelecer alguns critérios. O alcance desse artigo vai até 2010. Em três anos, houve mais papéis sensuais chegando às telas de cinema do que se pode imaginar em um primeiro momento. A lista poderia cobrir uma década e ainda assim ser considerada pertinente ao cinema recente, mas sucumbiria a obviedades. Diminuir sensivelmente seu alcance força um esforço de escavação e imaginação muito mais sedutor, estabelecendo relação de conveniência com os propósitos do artigo, portanto. 
Em primeiro lugar, é preciso dissociar personagens sensuais das performances sexy dos atores ou mesmo de nossas expectativas (mesmo assim Ryan Gosling tem um papel lembrado aqui). Isso feito, verifica-se que um filme que trata de sexo como Shame não apresenta nenhum personagem sensual e que outro, uma comédia rasgada e boba como Quatro amigas e um casamento apresenta uma personagem francamente sensual.




Dean Moriarty em Na estrada
Um vulcão em erupção. Essa definição veste muito bem o personagem mais canônico do livro marco da geração beat que ganhou o rosto e corpo de Garrett Hedlund em Na estrada. Um tipo indomável, amante da vida e de seus prazeres que não se priva de usar todo o seu poder de hipnose e encantamento.

Tony Stark na trilogia Homem de ferro
A primeira vez de Tony Stark no cinema foi em 2008, mas o pós-Tony Stark ainda está impregnado de Tony Stark. O delicioso misto de arrogância e fragilidade tão bem adensado por Downey Jr. tornam o personagem – que voltou aos cinemas em 2010 e 2013 - irresistível.  

James Bond em 007 – operação Skyfall
Bond está aí desde os anos 60, mas desde a despedida de Sean Connery o personagem não era tão selvagem, viril e robusto. No 23º filme da franquia, porém, Daniel Craig encontrou a classe que faltava para equilibrar sua sensualidade bruta à elegância tradicional de Bond. Ver o agente ferido emocionalmente, se sentindo vulnerável e traído, fez Bond soar ainda mais sensual.



Katie em Quatro amigas e um casamento
Ela é fácil e nem tão inteligente assim, mas sua doçura e generosidade se misturam a exuberância física e confiança dessa mulher tão bem irradiada pela performance pontual de Isla Fischer. Se o mundo é das piriguetes, Katie é nossa rainha.

Anna em Para Roma com amor
A participação é curta, mas é vermelha. Os lábios de Anna, uma prostituta italiana que confunde um homem em lua de mel com um cliente, combinam com o vestido curto e bem ajustado no corpo de Penelope Cruz e dão o tom da personagem que é muito mais brasa e carinho do que a própria esposa do confundido.

Joanna em Apenas uma noite
A hesitação de uma mulher pode nos levar à loucura e Joanna (vivida com a graça de sempre por Keira Knightley) hesita bastante. Confiar no marido ou não, trai-lo ou não. Ceder à tentação de cair nos braços de uma antiga paixão ou não. A sensualidade da personagem está mais na sua não-ação do que no que de fato faz. Vestir-se bem e ter lembranças de Paris ajuda!

Driver em Drive
O personagem foi construído para ser sexy e Ryan Gosling era o homem certo para dar cabo do que o papel apenas podia sugerir. A jaqueta, o neon, o silêncio...  Nem bom moço, nem mau moço. Uma deliciosa bifurcação disso.



Lucy em Beleza adormecida
Emily Browning vive um fetiche masculino nesse filme conceitual de Julia Leigh. O que não a impede de construir uma jovem desconectada de sua essência e que não tem ciência de sua beleza e força interior. Essa não consciência pode ser delirantemente sensual.

Elizabeth Em transe
A típica femme fatale que só se revela como tal lá pelos idos do filme. Um homem às vezes gosta de ser manipulado e no mais recente filme de Danny Boyle, Elizabeth (Rosario Dawson) manipula dois. Nada fascina mais do que uma mulher ciente de seu poder de sedução.

Menção honrosa:

Nicki em Bling ring – a gangue de Hollywood
Ela é a razão desse artigo existir. No trailer, Nicki (Emma Watson) já demonstra que a sensualidade é seu cartão de visitas. E vamos visita-la!

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Em off

Nesta edição da seção Em off, Natalie Portman cada dia mais completa como artista, a grita da equipe de O cavaleiro solitário, as novidades em relação a Missão impossível 5 e mais filmes que farão o festival internacional de cinema de Toronto.

A crítica da crítica 1
Johnny Depp, Armie Hammer e o produtor Jerry Bruckheimer recorreram a um expediente feio e em crescente descrédito para justificar o fracasso de O cavaleiro solitário nos cinemas: culparam a crítica. Em coro, disseram que a má vontade da crítica especializada com o filme vinha desde o anúncio de que Gore Verbinski dirigiria a produção. Bruckheimer disse que a crítica foi ao orçamento e não à fita. Já Depp falou que a opinião estava formada mesmo antes do filme lançado e Hammer apontou um conluio de críticos americanos para destruir blockbusters de verão nas bilheterias.

A crítica da crítica 2
É relativamente comum entrevero como esses, mas nos idos da internet já se sabe que a influência da crítica de cinema é cada vez menor. Quadro ainda mais alarmante quando se leva em consideração produções de verão. Filmes como O homem de aço, nesse mesmo 2013, foram tão negativados quanto O cavaleiro solitário e fizeram boa bilheteria. A franquia Crepúsculo é o maior exemplo de execração crítica e sucesso de público. Depp e companhia vão ter que escolher um bode expiatório mais convincente.

Mark Marky contra-ataca...
Em entrevista à rádio BBC de Londres, Mark Wahlberg deu seus pitacos sobre a intriga envolvendo O cavaleiro solitário, que dará um prejuízo à Disney de cerca de U$ 200 milhões. "Hoje em dia os estúdios se preocupam tanto com o marketing dos filmes, de como empurrá-los para o público e acabam se esquecendo de medir a qualidade desses produtos em primeiro lugar". Wahlberg, que estará no elenco do quarto Tranformers e será perfilado este mês em Claquete, disse ainda que no caso particular de O cavaleiro solitário o buraco era mais embaixo. "Eles fizeram um filme de U$ 225 milhões, certo? Mas é um filme sobre dois caras a cavalo no deserto. Para onde foi o dinheiro?"

Wahlberg em foto tirada pouco depois da entrevista dada no dia 7 à BBC, todo prosa porque vai ter perfil em Claquete neste mês, diz que Tranformers 4 não será "O cavaleiro solitário de 2014"

Natalie Portman 3 X 4
Pouca gente se dá conta, mas Natalie Portman não é só um rostinho bonito do cinema. Que a atriz oscarizada se formou em psicologia em Harvard e fala razoável número de línguas, leitores ávidos de Claquete e outros tipos bem informados certamente já sabem, mas a atriz que é também produtora (tem uma produtora para chamar de sua, a Handsomecharlie Films) já persegue uma carreira como diretora. O primeiro passo foi dado em 2008, com o curta Eve (primeiro filho da Handsomecharlie Films), lançado no Festival de Veneza daquele ano. No ano seguinte, dirigiu um segmento do filme coletivo Nova-Iorque, eu te-amo e agora se prepara para estrear efetivamente na direção com a adaptação da autobiografia do escritor israelense Amos Oz, “De amor e trevas”.
À agência Reuters, Oz disse que Portmam pediu os direitos sobre o material a “uns cincos, seis anos” e ele aceitou por causa da “alto estima” que tem pelo trabalho dela.
“De Amor e Trevas" narra a infância de Oz na Jerusalém dos anos 1940 e 50, passando pela morte da mãe dele (que será vivida por Portman), sua ida para um kibutz e as idas e vindas da política israelense após o surgimento da nação. Oz disse que está ajudando a escrever o roteiro e que Portman deve viajar em setembro a Israel para participar dos preparativos da produção. As filmagens estão previstas para começar em janeiro.
Trata-se de um projeto com potencial complexidade narrativa e que pode ser um belo de um cartão de visitas para essa nova fase da carreira de Natalie Portman.

Natalie comandando o set em Nova-Iorque, eu te-amo: artista com bala na agulha...

Escolha certa?
Depois de Brad Bird, escolha até certo ponto incomum ter renovado a franquia Missão Impossível com O protocolo fantasma, que agradou a crítica e se assegurou como a maior bilheteria da série, Tom Cruise confirmou que Christopher McQuarrie será o diretor do quinto filme. McQuarrie já dirigiu Cruise em Jack Reacher: o último tiro, mais recente tentativa do astro de estabelecer uma nova franquia de ação. O filme, ainda que bom, não rendeu o esperado pelo estúdio, a mesma Paramount que produz e distribui os filmes estrelados pelo agente Ethan Hunt. Até segunda ordem, a ideia de Jack Reacher virar franquia está abortada. McQuarrie é, inegavelmente, um bom roteirista e a franquia tem o hábito de acreditar em diretores iniciantes e promissores. Foi assim com J.J Abrams no terceiro capítulo e com Bird, então um diretor de animações, no quarto filme. É ver qual vai ser o saldo desse mix de ousadias.

Algumas baladas de Toronto 2013 – parte II

Bad words

A estreia na direção de Jason Bateman promete ser um desses marcos da comédia que vez ou outra surge por aí. Bateman investe no seu humor característico para mostrar a história de um quarentão murrinha que vai parar em uma competição infantil.

Devil´s knot

O novo filme de Atom Egoyan, inspirado em fatos reais, acompanha o cotidiano de uma mãe após seu filho ser um dos três jovens assassinados em West Memphis, crime que chocou a América no início dos anos 90. Resse Witherspoon produz e protagoniza o drama.

Don jon

A aguarda estreia de Joseph Gordon-Levitt na direção já debutou em Sundance, mas vai a Toronto para capitalizar mais. A trama gira em torno de um jovem consumista, viciado em pornografia que tem dificuldades de manter um relacionamento sério com Scarlett Johansson.

Gloria


A fita chilena é outra que já debutou em um festival, no caso Berlim. Gloria valeu o urso de prata de atriz a Paulina Garcia que vive uma mulher de meia idade divorciada que persegue sua última chance de amar na pista de dança de boates.

Hateship, loveship

As idas e vindas do amor em um filme com um elenco atraente composto por Guy Pierce, Kristen Wiig, Nick Nolte, Jennifer Jason Leigh e Hailee Steinfield. A trama, adaptada de um conto de Alice Munro, mostra os esforços de uma garota em orquestrar um romance entre sua babá e seu pai, um viciado em drogas em recuperação.

Miss violence

Aclamado filme grego que investiga as razões do inexplicável suicídio de uma garota de 11 anos e os segredos que cercam a família. A direção é de Alexandros Avranas .

September


Coprodução entre Grécia e Alemanha, o filme de Penny Panayotopoulou faz um estudo de uma mulher solitária que se torna obsessiva com uma família vizinha depois da morte de seu cachorro.

Third person

O novo filme de Paul Haggis, com James Franco, Liam Neeson, Olivia Wilde, Mila Kunis, Kim Basinger e Adrien Brody, se passa em Roma, Paris e Nova Iorque e pretende fazer uma análise do terceiro elemento em relações conjugais. Ou seja, a boa e velha (in)fidelidade.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

TOP 10 - Os dez maiores (e melhores) diretores "faz tudo" do cinema contemporâneo

A ideia desse Top 10 é honrar diretores de cinema que ao longo dos anos têm demonstrado talento e versatilidade a frente de projetos distintos e que revelam uma gama multifacetada de interesses. Muitos desses diretores são louvados em seu meio enquanto outros são menos conhecidos, mas igualmente qualificados. Alguns apresentam maior atividade em um gênero cinematográfico, mas aparecem em outros gêneros vez ou outra; alguns se exercitam em superproduções e no cinema independente; outros favorecem experiências estéticas diferentes em cada projeto ou alternância de linguagem. Enfim, todos fazem por merecer seu lugar nesse ranking.




10 – Bill Condon
Aos 57 anos, o diretor americano, que também é roteirista, prova a cada novo trabalho uma versatilidade sempre surpreendente. Desde Deuses e monstros (1998), excelente filme sobre os últimos dias do diretor de Frankenstein e o desejo que ele nutre por seu jardineiro, que Condon chama a atenção. Antes disso, porém, já havia rodado a perola B Candyman 2 - a vingança. Na sequência rodou o excepcional e ousado Kinsey -  vamos falar de sexo (2006), sobre o pesquisador que foi pioneiro nos estudos sobre sexualidade humana. Dois anos depois, rodou o musical Dreamgirls – em busca de um sonho, estrelado por Eddie Murphy e Beyoncé sobre alguns dos nomes mais expressivos da música negra americana do século XX.  A guinada radical se deu com a direção dos dois últimos filmes da saga Crepúsculo. Agora, em 2013, Condon se prepara para lançar a cinebiografia com jeitão de espionagem do australiano Julian Assange, The fifth estate.

9 – Ron Howard
Ele até, talvez, merecesse uma posição melhor. Howard faz comédia, drama, aventura, fantasia e ação. Mas a irregularidade de alguns projetos força sua nona posição no ranking, apesar da longevidade de seus trabalhos. Desde Splash- uma sereia em minha vida (1984), Howard tem provado versatilidade ímpar alternando filmes como Willow – na terra da magia (1988), Um sonho distante  (1992), O jornal (1994), Apollo 13 – do desastre ao triunfo (1995), O preço de um resgate (1997), O grinch (2000), Uma mente brilhante (2001), Desaparecidas (2003), O código Da Vinci (2006), Frost/Nixon (2008), O dilema (2011) e o inédito Rush – no limite da emoção (2013). Ufa!

8 – Robert Zemeckis
Outro que já fez de tudo! Comédia. Ficção científica. Comédia de ficção científica. Animação. Policial. Drama… Zemeckis é seguramente um dos diretores mais importantes da história do cinema e sua contribuição vai além da trilogia De volta para o futuro e de filmes revolucionários como O expresso polar e A lenda de Beowulf. Ele esteve a frente de filmes tão diversos como Tudo por uma esmeralda (1984), Uma cilada para Roger Rabbit (1988),  A morte lhe cai bem (1992), Forrest Gump – o contador de histórias (1994), Contato (1997), Revelação (2000) e o recente O voo (2012).
  
7 – Mike Nichols
Outro diretor cuja longevidade no cinema lhe permitiu muitas experimentações. Da crônica política à sátira, passando pela comédia de teor sexual ao drama mais profundo com raiz teatral. Nichols caracterizou-se pela excelente direção de atores nos mais variados gêneros. São deles os brilhantes Quem tem medo de Virginia Woolf? (1966), A primeira noite de um homem (1968), Ânsia de amar (1971),  A difícil arte de amar (1986), Uma secretária de futuro (1988), Lobo (1994), A gaiola das loucas (1995), Segredos do poder (1998), Closer – perto demais (2004) e Jogos do poder (2007).

6 – Curtis Hanson
Outro diretor que trafega com desenvoltura por gêneros diversos. Do drama biográfico com jeito de musical alternativo (8 mile – rua das ilusões) ao modernoso thriller financeiro (Grande demais para quebrar), passando por filmes tão diferentes e cheios de qualidades como A mão que balança o berço (1992), O rio selvagem (1994), Los Angeles – cidade proibida (1997), Garotos incríveis (2000), Em seu lugar (2005) e Bem vindo ao jogo (2007).

5 – Taylor Hackford
Esse é um verdadeiro mestre da versatilidade. Não à toa, ocupa com desenvoltura a presidência do sindicato dos diretores em Hollywood. Desde os anos 70, Hackford tem transitado por gêneros e orçamentos variados. Seu mais recente filme, o B por excelência e nostalgia Parker (2013) não guarda nenhuma semelhança com, por exemplo, o ótimo thriller romântico Paixões violentas (1984) – um dos pontos altos da década de 80. Narrativas com ritmo e tempos diferentes são sua especialidade. Um artesão de marca maior responsável por filmes tão díspares como O sol da meia-noite (1985), Advogado do Diabo (1997), Prova de vida (2000) e Ray (2004).

4 – Ridley Scott
Não dá para discutir com a proeminência da carreira de Ridley Scott. Uma carreira sólida na ficção científica com ótimos exemplares de comédia, ação e drama. Sem contar filmes épicos e de guerra que estão entre os mais significativos da história do cinema. Uma rápida pincelada na filmografia de Scott e temos filmes como Blade runner – o caçador de androides (1982), A lenda (1985), Chuva negra (1989), Tormenta (1996), Gladiador (2000), Hannibal (2001), Falcão negro em perigo (2001), Os vigaristas (2003), Um bom ano (2006) e O gangster (2007).

3- Steven Soderbergh
Ele não poderia ficar de fora do pódio. Prolífico e versátil, Soderbergh alterna grandes orçamentos com produções independentes, além de experimentar linguagens renovadas com certa frequência. De Sexo, mentiras e videotape (1989) a Terapia de risco (2013), chamou a atenção com projetos tão diversos como Irresistível paixão (1998), Traffic – ninguém sai ileso (2000), Onze homens e um segredo (2001), Solaris (2002), Bubble (2005), O segredo de Berlim (2006), Che: o argentino (2008), O desinformante (2009), A toda prova (2011) e Magic Mike (2012).

2- James Mangold
Ele só não está no topo desse ranking porque uma figura chamada Steven Spielberg, patrimônio do cinema, reclamou a primeira posição. Com justiça, diga-se. Nenhum diretor com um filmografia relativamente tão curta caminhou por caminhos tão largos assumindo projetos tão distintos e desafiadores como Mangold. De comédias românticas a biografias de lendas da música, passando por adaptações de HQs e westerns. Mangold é um diretor de cinema em toda a sua abrangência. São deles os filmes Cop land (1997), Garota interrompida (1999), Kate & Leopold (2001), Identidade (2003), Johnny & June (2005), Os indomáveis (2007), Encontro explosivo (2010) e Wolverine: imortal (2013).

1 – Steven Spielberg

Precisa explicar? Vamos lá! O homem que inventou o conceito de blockbuster e fez o filme de aventura que o American Film Institute considera o mais completo e referencial (este filme é Os caçadores da arca perdida, caso você esteja se perguntando) já fez dramas das mais variadas procedências, filmes pequenos, filmes grandes, algumas das ficções mais celebradas da história, comédias, aventuras, filmes de guerra e até drama político. Spielberg tem seus cacoetes, até certo ponto indissociáveis de sua persona, mas parece pacífico que é capaz de rodar o filme que quiser e da maneira que quiser. Alguns pontos altos: Tubarão (1975), E.T (1982), A cor púrpura (1985), Jurassic Park – o parque dos dinossauros (1993), A lista de Schindler (1993), O resgate do soldado Ryan (1998), Minority report – a nova lei (2002), Prenda-me se for capaz (2002), O terminal (2004), Munique (2005), Lincoln (2012).

domingo, 4 de agosto de 2013

Insight - Jornalismo e cinema: tudo a ver?

Cena do vencedor do Oscar 2013 Argo, o cinema verdade elevado a outro patamar no esquema hollywoodiano de produção

Falar da crise criativa que assola o cinema, em particular o cinema americano, é chover no molhado cada vez mais encharcado. Mas o cinema, em um daqueles movimentos de autopreservação, vem sofisticando uma alternativa para lá de charmosa, inteligente e engenhosa. A rigor, o cinema sempre foi beber de outras fontes. A literatura é a campeã história, mas as HQs gozam de um prestígio cada vez mais expandido. Muita em parte porque rendem fábulas (mas os filmes estão cada vez mais caros).
É o jornalismo, que como matéria-prima ou objeto de análise já rendeu filmes inesquecíveis e maravilhosos, que está municiando alguns dos filmes mais interessantes dos últimos meses. Ainda não dá para dizer que é uma tendência, mas certamente é uma saída.  Enquanto se discute se The fifth estate, primeira cinebiografia de Julian Assange a chegar aos cinemas, será o filme do ano ou não, outras produções vão capitalizando em cima do fazer jornalístico.
O marco zero poderia ser A rede social, que é baseado em um livro investigativo assinado por Ben Mezrich. Mas “Bilionários por acaso”, por mais jornalístico que fosse, ainda era um livro. Não era o caso de Argo. Um livro foi lançado, mas a origem do roteiro se relaciona com uma reportagem publicada em 2007 pela revista americana Wired intitulada “How the CIA used a fake sci-fi flick to rescue americans from Tehan”. George Clooney, produtor de Argo, está inclusive trabalhando para adaptar outra reportagem do jornalista Joshuah Bearman.
O novo filme de Sofia Coppola, um dos destaques desse mês de agosto nos cinemas brasileiros, seguiu trilha parecida. Um livro está nas prateleiras das livrarias agora (“Bling ring e a verdadeira gangue de Hollywood”), mas a fonte de Sofia Coppola é uma reportagem publicada há alguns anos na revista Vanity Fair. Ao ler a reportagem, Sofia se interessou imediatamente pelo assunto.

Paris Hilton, uma das celebridades que teve sua casa invadida pelos jovens infratores que dão vazão ao novo filme de Sofia Coppola, topou fazer uma ponta em The blin ring e estrelou um ensaio para a revista Elle clicado pela própria Sofia Coppola. O estreitamento entre cinema e jornalismo de uma perspectiva completamente renovada

Um dos filmes brasileiros mais instigantes e surpreendentes do ano é O que se move. O filme de Caetano Gotardo, que versa sobre o luto e outros tipos de perda, filtra suas histórias das notícias de jornal. A estratégia renova a linguagem cinematográfica ou a engessa? Por que esse súbito interesse pelo real?
No caso dos filmes americanos, o caráter excepcional dos acontecimentos garante o interesse e sustenta a percepção de que a realidade sempre supera a ficção. Amparar-se no fazer jornalístico, portanto, é recodificar o “inspirado em fatos reais”; é imaginar em cima de conflitos pré-existentes e, em alguns casos, já resolvidos.
O filme brasileiro segue uma linha de raciocínio diferente. Esconde-se na banalidade do dia a dia e se desobriga de fazer investigação no cinema.
São propostas criativas que vêm arejar o fazer cinematográfico. O que se move é um roteiro original, ainda que salpicado de verdades de cá, enquanto que os exemplares americanos são adaptações estritas, mas oxigenadas pela liberdade que encontram em pensar por dentro dessa verdade.
Não se trata de cinema que se pretende jornalístico, como é o caso de alguns documentários, mas de um substrato que enxerga no jornalismo – especialmente o investigativo – uma fonte rica e inexplorada de recursos para a ficção.

sábado, 3 de agosto de 2013

Crítica - Amor pleno

Amar no intransitivo

“Você deverá amar”, diz em certo momento de Amor pleno (To the wonder, EUA 2012), o padre Quintana (Javier Bardem) em um off onipresente no novo filme de Terrence Malick. “É um comando. Você não tem escolha”, continua o religioso que vivencia uma crise em sua fé ao se questionar porque há tanto mal e tristeza se Deus é só bondade. Quintana se angustia por não sentir a presença divina e precisar falar dela. O padre Quintana está presente no filme para fazer a unção entre o amor espiritual e o amor convencional que dá cor ao nosso mundo e também ao filme de Malick.
Amor pleno é um Malick tradicional, ou seja, aquele filme bom que é, também, um flerte perigoso com o tédio; em que planos perfeitos se sucedem em uma colagem de imagens que favorece uma experiência sensorial difusa daquela que a narrativa busca. É um Malick tão ambicioso quanto o de A árvore da vida, que rendeu a Palma de ouro em 2011 ao diretor, mas é também um Malick mais bem fundamentado. Não que haja respostas, Malick segue com sua curiosidade filosófica e antropológica afiada e sem a autoimposição de produzir o sentido que dele esperam, mas Amor pleno é um filme com mais corpo e densidade que o era A árvore da vida.
O aspecto transcendental do ato de amar está lá. Emulado em toda a sua energia, fluidez e imensidão. A natureza, tão cara a Malick, surge como uma metáfora crua desse “amar”. Seja no geólogo que acompanha a contaminação do solo em uma ação aparentemente descolada do eixo central do filme, seja nas cenas de ondas chocando-se violentamente, ou de uma praia enlameada.
Neil (Ben Affleck, mal dirigido e pouco à vontade) conhece Marina (Olga Kurylenko) em Paris e se apaixonam. Ela tem uma filha e um histórico ruim de relacionamentos. Ela vê em Neil, mais do que a esperança de amar novamente, enxerga uma vida plena. Para isso, volta com ele para os EUA. Neil, por seu turno, parece pouco à vontade com a presença dela. Ele não parece decidido a engatar uma relação séria. Marina sente isso. Malick então começa sua investigação sobre o egoísmo no amor. O amar demais, o amar de menos, o amar por comodidade e outras reminiscências. Quando seu visto expira, Marina volta para a França – sua filha vai morar com o pai em outro continente – e Neil se aproxima de uma mulher que conheceu em sua juventude, Jane (Rachel McAdams). Mas Neil não a quer também. Ele não sabe o que quer e esse é o vértice menos trabalhado por Malick. O ponto de vista feminino, na ótima interpretação de Olga Kurylenko, prevalece na narrativa. Talvez porque seja o olhar feminino indecifrável e sedutor à curiosidade do cineasta, talvez porque seja universalmente mais multifacetado e amplo. Certo é que Amor pleno arranha divagações existenciais entusiasmantes como a ponderação de por que, afinal, passamos a ter ojeriza de alguém que amamos tanto. Ou mesmo por que um sentimento cheio de benevolências como o amor pode sufocar.

Sem final feliz: Amor pleno é um filme de extasiante beleza visual e franco incômodo narrativo em uma rima que facilita a identificação do público com os sentimentos dos personagens

A contingência, a loucura, a espiritualidade, a abnegação, a doação... O amor em sua transparência de sentido aparece tão múltiplo quanto refratário em Amor pleno, um filme que aposta em um diálogo tão sensorial e absorto da lógica quanto a epopeia do filme anterior de Malick, mas que é muito mais cinematográfico e discursivo –ainda que extremamente contemplativo - do que seu antecessor. É um filme difícil de se gostar, mas daqueles cujas qualidades não se pode negar.  

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Crítica - Tese sobre um homicídio

Ode à construção de ambiguidades

Adaptado de um romance policial de Diego Paszkowski, Tese sobre um homicídio (Tesis sobre um homicídio, ARG 2013) é daqueles filmes que se beneficiam de sua matiz literária para elevar o alcance narrativo em uma proposta sofisticada que combina os ardis do direito, em particular do direito penal, à logica do thriller, cristalizando uma narrativa multifacetada que privilegia a ambiguidade do registro. 
É bem verdade que, uma vez ou outra, o diretor Hernán Goldfrid pesa a mão; mas é louvável seu esforço para envolver o espectador em uma narrativa tensa e cheia de pistas melindrosas para depois aturdi-lo com uma indagação que cresce de tamanho terminada a sessão.
Ricardo Darín vive com sua inexpugnável competência Roberto Bermudez, prestigiado professor de direito criminal que ministra um curso de pós-graduação em Buenos Aries. Vaidoso e egocêntrico, ele se interessa por um homicídio que acontece nas dependências da universidade em que leciona. Mais: enxerga na figura de Gonzalo Ruiz (Alberto Ammann), um aluno filho de um antigo desafeto, alguém capaz de ter cometido o assassinato apenas para estabelecer com ele um jogo sádico em que direito e ego se chocam e se complementam.
Daí em diante, o longa acompanha à completa e irrestrita entrega de Bermudez à obsessão por desmascarar Gonzalo; ou antes disso, verificar a eficiência de sua tese. A de que seu aluno é um psicopata e que estabeleceu, por uma razão que pode ou não estar vinculada ao passado dos dois, um jogo de gato e rato com ele. Ricardo Darín confere estofo dramático ao destempero crescente de seu personagem, alcançando uma das melhores atuações de sua carreira recente.

Atenção aos detalhes, recomenda o professor vivido por Darín...

O grande mérito do filme de Goldfrid, a despeito da atmosfera noir tão rara na cinematografia latino-americana, é obrigar o espectador a encampar o ponto de vista do protagonista por quase toda a metragem da fita, para depois desarmá-lo da certeza do que acompanhou até aquele momento. O interesse na ambiguidade, do ponto de vista narrativo, é menos de esconder o ouro – como tradicional em tramas policiais dessa estirpe, e mais em estabelecer uma análise “de ponta a cabeça” da subversão que uma obsessão pode ocasionar na vida e na percepção de uma pessoa. Há, claro, um final pretensamente aberto que muitos estão tomando como óbvio ou fruto de um roteiro mal desenvolvido. O final, no entanto, é mais fechado do que muitos imaginam e mais enfático da relatividade de certas verdades – especialmente no direito (onde no escopo do filme duas teses antagônicas são erguidas) – do que todos nós gostaríamos. Tese sobre um homicídio é, com toda a certeza, um dos pontos altos de 2013 nos cinemas.