Campo de batalha: Terra
Guillermo Del Toro quando concluiu Círculo de fogo (Pacific
Rim, EUA 2013) deve ter pensado para consigo que dispunha de um Transformers
vitaminado, mais bem adensado narrativamente do que os filmes concebidos por
Michael Bay e visualmente mais impactante também. O primeiro revés a essa
percepção veio das bilheterias. Com orçamento de U$ 180 milhões, o filme não
chegou nem mesmo aos U$ 100 milhões no mercado americano. O segundo revés foi a
artilharia pesada com que a crítica taxou o filme de “bobagem de grandes
proporções”. No fim das contas, Del Toro, um cineasta inovador e
conceitualmente interessante, perdeu para Bay nessa disputa de “meninos nerds”.
Seu Transformers, bombeado pela cultura japonesa extrapolada de mangás e
seriados cult dos anos 70 e 80, é bem menos divertido do que o “parques de diversões
robótico” melindrado por Bay.
A história mostra um futuro distópico em que a humanidade
precisa desenvolver defesas, nem sempre eficientes, para conter e debelar
criaturas monstruosas (os chamados kaiju) que chegam ao planeta por uma
gigantesca fenda aberta no oceano pacífico. O método mais eficiente de defesa
são os Jaegers, imensos robôs que são pilotados por duas pessoas que tem seus
cérebros unidos em um procedimento puro sci fi. Um desses pilotos, Raleigh
(Charlie Hunnam), é exonerado de seus serviços depois de um ato de
insubordinação que levou à morte de seu irmão. O filme centra-se na figura de
Raleigh que é chamado de volta pelo marechal Pentecost (Idris Elba) depois que
o programa Jaeger é desativado pelas Nações Unidas e passa a atuar como uma
resistência e não mais como linha de defesa da humanidade.
Ron Perlman, no auge da canastrice, mantém o padrão Del Toro de qualidade no filme em que Del Toro não parece Del Toro
O fiapo de história rende duas horas e meia de um filme que
apresenta um visual entorpecente, principalmente se visto com todos os recursos
tecnológicos disponíveis, mas que assusta justamente por ser um filme esvaziado
de alma (feito inédito até então na filmografia de Del Toro) e desprovido de
humor – essencial para filmes que suplicam à plateia que desconsidere leis da
física, química, matemática e tantas outras leis frequentemente sobrepujadas
pelo cinemão. Até nisso, Círculo de fogo perde para Transformers, que sabe rir
de si mesmo, enquanto o filme de Del Toro se leva demasiadamente a sério.
Se há pontos positivos são as participações de Idris Elba,
puro carisma na pele daquele que pode ser considerado o verdadeiro herói do
filme, e Ron Perlman, fiel escudeiro de Del Toro, que responde pelos melhores
(e mais desencanados) momentos do filme.
Círculo de fogo é o terceiro grande filme a fracassar exponencialmente
em sua proposta nessa temporada. É uma pena. A história certamente tinha
potencial e contava com Del Toro, um diretor até então à prova de balas, como
grande fiador do projeto. É muito clara a razão do fracasso do filme. Optou-se
pelo espetáculo visual em detrimento do desenvolvimento dos personagens. Talvez
seja melhor Del Toro voltar aos filmes menores...
