By reading your poems...
É um projeto ambicioso, não só por ser um filme nacional que
obriga o espectador a ler legendas em uma época que os filmes estrangeiros
surgem majoritariamente dublados nas salas de cinema do país, mas porque Flores
raras (Brasil 2013) quer conciliar a veracidade da trajetória de duas mulheres
de reiterado e merecido destaque – a paisagista e arquiteta brasileira Lota de
Macedo Soares (Glória Pires) e a poetisa americana Elizabeth Bishop (Miranda
Otto) – à beleza e lógica de uma história de amor.
Nesse contexto, o filme de Bruno Barreto apresenta méritos,
vícios e crises que resultam em um filme muito acima da média, ciente de suas
potencialidades, mas também que deixa suas limitações visíveis a um olhar mais
experimentado.
Flores raras não é um filme apenas sobre a história de amor
entre duas mulheres em uma época em que isso provocaria escândalo ainda maior
do que podemos imaginar hoje, mas uma história sobre como esse sentimento
balizou mudanças significativas na vida das duas. É, ainda, um drama capaz de provocar
algum ruído sobre o desatino das personalidades fortes – nesse sentido Lota é
um personagem fascinante – e de como a arte está ligada ao ideário de liberdade
(o homossexualismo bem estabelecido no círculo social das protagonistas e a
breve conotação política aferida na trama reforçam esse recorte).
Se Elizabeth era alguém insegura de si, de sua condição, de
seu desejo de viver, Lota – que se deixava cativar por essas qualidades que a
outros repeliria – era alguém capaz de cuidar, tratar, enfim, abrandar essa
insegurança. Dessa necessidade mútua, de se aceitar por uma, e de se afirmar,
por outra, surge uma historia de amor por vias tortas. A companheira de Lota,
Mary (Tracy Middendorf), é escanteada sem cerimônias revelando o aspecto
centralizador da personalidade de Lota – que muitos descreveriam como um
aspecto masculinizado de sua figura.
Relação problemática: a rápida e devastadora paixão que une as protagonistas não submerge os defeitos e carências de nenhuma delas
Aliás, a opção por não romantizar as personagens é um acerto
de Barreto e do roteiro de Carolina Kotscho e Matthew Chapman, baseado no livro
“Flores raras e banalíssimas” de Carmem L. Oliveira. As agruras das
personalidades das protagonistas surgem sem retoques lhe conferindo humanidade
insuspeita em um filme que se pretende, também, uma homenagem.
Mas há sobressaltos. A edição nem sempre é a que se poderia
desejar. Principalmente no momento em que Lota e Elizabeth se aproximam amorosamente, a
montagem do filme flerta com o amadorismo não amarrando pontas cruciais para
que a audiência perceba o que une, afinal, aquelas duas mulheres tão distintas.
A efemeridade com que a vida política do país é tratada pelo filme é outro
fator a incomodar. Por certo, um desvio dessa natureza poderia prejudicar o
ritmo do filme, mas a maneira com que Barreto insere o contexto político no
filme é superficial e pouco tange às vibrações que exerceu na separação
conjugal das personagens.
As três atrizes principais do filme estão muito bem
dirigidas, é importante frisar. Glória Pires está muito a vontade em uma
personagem compreensivelmente difícil para se interpretar. Além de atuar
majoritariamente em inglês, sempre de maneira muito convincente, havia o
aspecto das cenas de teor homossexual – sempre matéria de polêmica para alguém
de sua estatura na cena midiática nacional. Glória tira tudo de letra, mas não deixa
de ser engolida por Miranda Otto em
cena. A australiana acha o ponto certo para viver Bishop,
personagem muito fácil de cair no clichê, e dignifica a memória da poetisa com
um registro complexo, sensível e marcado por sutilezas. Já Tracy Middendorf,
com bem menos atenção da narrativa, consegue na base do gestual fazer justiça a
uma mulher injustiçada por Lota e mesmo pelo filme, entregando nuanças jamais
desprezíveis.
Flores raras não deixa de ser um monumento romântico á vida
dessas figuras que são agora descobertas por muitos nas telas de cinema. Há uma
beleza maior que a vida em reclamar o parque do Flamengo, hoje já muitas vezes
reformado e conhecido como Aterro do Flamengo, em souvenir de uma história de
amor.


