quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Crítica - O homem que mudou o jogo

Inteligente e cativante!

É sempre entusiasmante se deparar com um filme que consegue ser inteligente e emotivo ao mesmo tempo. Ainda que seja uma fórmula aparentemente banal, é de difícil confecção e todos os envolvidos em O homem que mudou o jogo (Moneyball, EUA 2011) podem se orgulhar de terem produzido um drama que consegue ser edificante, sem resvalar no pieguismo itinerante que marca esse tipo de história, e bem articulado narrativamente sobre um tema mais racional do que emotivo.
A princípio, O homem que mudou o jogo é um filme sobre gestão. Humana e administrativa. É, também, um filme sobre segundas chances. Sobre personagens que são confrontados com novas oportunidades de vencer um jogo injusto como é o da vida. É, ainda, um filme sobre o confronto de visões em um ambiente tão apaixonado como o esportivo. De um lado, o eixo moderno representado pelo gerente do Oakland A´s, time  modesto da Califórnia, Billy Beane (Brad Pitt) e seu assistente formado em economia Peter Brand (Jonah Hill) que introduzem um novo modelo para contratar jogadores esmerado em estatísticas e projeções matemáticas. Do outro lado está o tradicional e centenário jeito de se viver o baseball com todas as suas idiossincrasias e crendices.
É a partir dessa lógica do “homem contra o sistema” que o diretor Bennett Miller, suavemente, tece um drama coeso, límpido e profundamente humano. Que se vale de um esporte pouco famoso internacionalmente para erigir comentários tanto sobre a natureza humana, como a respeito da modernização de estratégias de gestão que sucessivamente despertam interesse de empresas que atuam em diferentes nichos. 

Brad Pitt, em grande momento como ator, em cena do filme: mérito de agregar temas intercambiáveis em um drama inteligente, fluente e cativante


O roteiro, assinado por Aaron Sorkin e Steven Zaillian a partir do livro “Moneyball: the art of winning a unfair game” de Michael Lewis, é seguramente o maior brilho do filme. O texto impede que o espectador pouco familiarizado com a modalidade fique alienado, ao mesmo tempo em que flameja o fã de baseball. Não é preciso dizer que o roteiro concilia harmoniosamente as diferentes propostas encorpadas no filme.
Com seis indicações ao Oscar (filme, roteiro adaptado, ator, ator coadjuvante, montagem e som), O homem que mudou o jogo é um filme que registra o ímpeto empreendedor que distingue os homens dos meninos – como uma cena crucial do filme sugere. É Brad Pitt, em atuação notável, quem estabelece complexidade ao personagem central. Pitt o reveste de humanidade em toda a sua abrangência: arrogância, carisma, insegurança, fé, esperança...
É, enfim, um ator que faz o filme ficar melhor, assim como seu personagem fez com o jogo.

Crítica - A invenção de Hugo Cabret

Sabor de homenagem!

Era de se desconfiar que quando Martin Scorsese anunciou que rodaria um filme infantil em 3D que houvesse algum interesse oculto nessa interjeição tão distinta em sua filmografia. A invenção de Hugo Cabret (Hugo, EUA 2011), adaptado do livro de Brian Selznick, é infantil apenas em sua embalagem. O conteúdo, porém, revela uma declaração de amor ao cinema. A opção de Scorsese de rodar em 3D a aventura de um órfão que mora em uma estação de trem em Paris e que cruza o caminho de um dos pioneiros do cinema (Georges Méliès) na tentativa de decifrar o que julga ser uma mensagem deixada por seu pai, também pouco tem a ver com atrair crianças para o cinema. O 3D aqui tem o papel de ser mais uma ferramenta para o grande tributo que Scorsese paga à figura de Méliès. Em parte por isso, tem se falado que é neste filme que “se faz o melhor uso da tecnologia até o momento”.
No entanto, se Scorsese objetiva fazer justiça a um cineasta negligenciado pela história (e pelos americanos), incorre no risco de alienar grande parte de seu público. Aqueles que são genuinamente apaixonados por cinema – ainda que não conheçam categoricamente seus primórdios – poderão apreciar A invenção de Hugo Cabret nos termos artístico e emocional imaginados por Scorsese. A outra, e assumidamente maior, parcela do público verá um filme diferente. Fluído, por vezes emocionante, mas sem todo esse sentido transcendental que lhe valeu a pecha de favorito ao Oscar (pelo menos na configuração das indicações, 11 no total).

Scorsese em rápida aparição que faz em Hugo: um filme pessoal e intransferível que cativa quem pelo cinema se deixa cativar...


Não se insinua que Scorsese deveria ter feito um filme diferente, mais acessível – até porque o filme é suficientemente acessível. Mesmo as crianças são capazes de entender o reconhecimento ao personagem vivido por Ben Kingsley e se maravilhar com a grande aventura de Hugo (o competente Asa Butterfield). Scorsese fez o filme que deveria ser feito, assumiu o ônus e lucrou estupidamente. Fez seu filme mais pessoal, que se tornou um moderado sucesso de bilheteria e voltou a disputar o Oscar em grande forma.
A invenção de Hugo Cabret também serve a Scorsese em seus propósitos como cinéfilo. O segundo aporte do diretor no longa metragem, depois da homenagem a Méliès, é a defesa da necessidade da preservação e restauração dos filmes antigos. Causa antiga de Scorsese que agora ele imortaliza em película – ainda que nesse caso a película seja apenas figurativa.
A invenção de Hugo Cabret é, em última análise, uma troca de juras de amor com aqueles que compartilham do mesmo entusiasmo pelo cinema que nutre Scorsese. Todos os outros que também têm acesso à mensagem são capazes de detectar a beleza nela contida, mas não são genuinamente tocados por ela. Essa dicotomia não torna o filme menor, mas lhe priva de algo que seu concorrente no Oscar, O artista, sobeja: universalidade. Ainda que mudo e em preto e branco, o filme de Michel Hazanavicius tangencia o amor pelo cinema em notas que Scorsese, mais pelo caráter da homenagem que deseja fazer do que por falta de perícia, não alcança.
Apesar dessa “limitação”, A invenção de Hugo Cabret é lindo, mágico e emocionante. Como toda homenagem deve ser. Principalmente no cinema.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Oscar Watch 2012 - A peleja das atrizes

Viola Davis (Histórias cruzadas), Michelle Williams (Sete dias com Marilyn), Rooney Mara (Os homens que não amavam as mulheres), Meryl Streep (A dama de ferro) e Glenn Close (Albert Nobbs)


MARAvilhosa

É um assombro. Tudo bem que a personagem ajuda, mas o fato do espectador sair da sessão de Os homens que não amavam as mulheres tem mais a ver com Rooney Mara do que com Lisbeth Salander. Aos 26 anos, Mara  - com a providencial orientação de David Fincher – demonstra um domínio tal da personagem que faz a ótima atuação de sua intérprete original (Noomi Rapace) diminuir de tamanho e status. É uma atuação cheia de energia, física e emocionalmente desgastantes e dotada de uma percepção sensorial aguda. Traduzindo:  a grande atuação do ano.

Prós:
- É jovem e atrizes jovens costumam vencer na categoria
- É uma atuação que exige mudanças físicas e submete a intérprete a cenas fortes. A academia aprecia isso

Contras:
- A pecha de que a indicação já é suficiente
- É jovem e este é apenas o seu terceiro trabalho para cinema
- O filme não é construído sobre sua personagem e apresenta outras atrações
- Não foi indicada a importantes prêmios como SAG, Bafta e Critic´s Choice Awards
- Com três excelentes atrizes veteranas no páreo, muitos votantes podem entender ser de “mau tom” optar por uma atriz jovem e pouco experiente

Primeira indicação

Ainda fatal

Fazem 23 anos que Glenn Close concorreu ao Oscar pela última vez. De lá para cá os papéis não exatamente rarearam no cinema, ainda que ela tenha encontrado um dos melhores personagens de sua carreira na tv (a advogada inescrupulosa Patty Hewes de Damages), mas se tornaram mais banais. Close, então, foi em busca de um projeto pessoal e confiou ao amigo Rodrigo Garcia a direção de Albert Nobbs. No final, deu tudo certo e, ainda que não fosse esse o objetivo primal, Close voltou ao Oscar.

Prós:
- É uma atuação contida e há quem aprecie esse perfil de interpretação
- Precisa atuar travestida e a academia já premiou atores e atrizes por esse tipo de papel
- É veterana, talentosíssima e há o consenso de que a academia lhe deve
- É muito querida pelo grupo de atores, que compõem o maior colegiado da academia

Contras:
- Existem atuações mais hypadas em competição
- Não foi indicada ao Spirit Awards (premiação do cinema independente) em demonstração do pouco fôlego de sua candidatura
- Com o fim programado de Damages, deve retornar “com mais critério” ao cinema e muitos acadêmicos podem optar para ver “que bicho vai dar”
-Se tem alguém na fila e que está na frente dela é Meryl Streep e isso pode pesar

Sexta indicação
Indicações anteriores:
Melhor atriz coadjuvante por O mundo segundo Garp em 1983
Melhor atriz coadjuvante por O reencontro em 1984
Melhor atriz coadjuvante por Um homem fora de série em 1985
Melhor atriz por Atração fatal em 1988
Melhor atriz por Ligações perigosas em 1989

A hora é agora?

17. Isso mesmo. São 17 indicações ao Oscar em categorias de atuação. Um recorde que cada vez mais parece imbatível e que Meryl Streep não parece nem um pouco disposta a deixar de incrementar. No entanto, outro recorde a preocupa: o de ser, também, a maior detentora de derrotas entre intérpretes. Nada que um terceiro Oscar não amenize. A busca por ele já bate nos 29 anos e, como não se sabe se ela voltará à disputa no trigésimo aniversário, a pergunta que se impõe, mais uma vez, é se o momento finalmente chegou. Em teoria, a personagem que defende em A dama de ferro é perfeita para uma nova consagração. Mas a teoria, na prática...

Prós:
- Defende uma personagem britânica histórica e elas costumam render Oscar
- É Meryl Streep e esse nome tem um peso...
- O consenso de que é preciso premiá-la novamente já está fazendo bodas de prata
- Combinação de sotaque e maquiagem costuma ser imbatível no Oscar
- O excelente retrospecto recente de indicações ao Oscar pode pesar na escolha em seu favor
- Carrega o filme nas costas e esse tipo de trabalho costuma ser reconhecido pela academia

Contras:
- A percepção de que já é hours concours no Oscar pode lhe prejudicar
- O fato do filme ter recebido péssimas críticas e ter qualidade bastante duvidosa pode lhe roubar alguns votos
- O lobby em favor de Viola Davis talvez seja grande demais para ser contornado
- Já tem dois Oscars e isso, para muitos, já é reconhecimento suficiente

Décima sétima indicação
Indicações anteriores:
Melhor atriz coadjuvante por O franco atirador em 1979, melhor atriz coadjuvante por Kramer VS Kramer em 1980, melhor atriz por A mulher do tenente francês em 1982, melhor atriz por A escolha de Sofia em 1983, melhor atriz por O retrato de uma coragem em 1984, melhor atriz por Entre dois amores em 1986, melhor atriz por Ironweed em 1988, melhor atriz por Um grito no escuro em 1989, melhor atriz por Lembranças de Hollywood em 1991, melhor atriz por As pontes de Madison em 1996, melhor atriz por Um amor verdadeiro em 1999, melhor atriz por Música do Coração em 2000, melhor atriz coadjuvante por Adaptação em 2003, melhor atriz por O diabo veste Prada em 2006, melhor atriz por Dúvida em 2009, melhor atriz por Julie & Julia em 2010

Vitórias anteriores:
Melhor atriz coadjuvante por Kramer vs Kramer em 1980 e melhor atriz por A escolha de Sofia em 1983


Poderosa

Viola Davis é uma baita atriz. Um Oscar daria dimensão a seu talento. É o que pensa muita gente na indústria e por isso, não somente por sua soberba atuação em Histórias cruzadas, ela é favorita à estatueta. Sempre distinta em cena, ela prova com um papel menor e mais simples do que o de suas concorrentes o porquê de ser a grande força interpretativa que é.

Prós:
-  O lobby pela premiação de uma atriz negra está grande. Vale lembrar que seria apenas a segunda vitória de uma negra na categoria principal. A primeira foi Halle Berry por A última ceia há dez anos
- É uma performance que alterna sutilezas com grandes momentos “solo” e esse perfil de interpretação agrada aos membros da academia
- Venceu o Critic´s Choice Awards e o prêmio do sindicato dos atores
- Faz parte do elenco mais prestigiado do ano e essa é uma senhora de uma vantagem
- É a única concorrente detentora de um lobby capaz de submergir o lobby pelo terceiro Oscar de Meryl Streep
- Defende uma personagem extremamente simpática e isso pode lhe beneficiar

 Contras:
- O filme não se foca em sua personagem e ela conta com menor espaço de tela do que suas concorrentes
- Há quem possa se incomodar com os fortes lobbies na categoria e opte por uma terceira via
- Mais do que concorrer contra Meryl Streep, concorre contra um lobby que a cada ano que passa fica mais forte
- Defende uma personagem relativamente banal em face das defendidas por suas concorrentes

 Segunda indicação
Indicação anterior:
Melhor atriz coadjuvante por Dúvida em 2009

Simplesmente Michelle

Parece difícil crer que Michelle Williams, atriz franzina e bem introvertida, seja a melhor escolha para se viver Marilyn Monroe nos cinemas. Após conferir poucas cenas do filme parece impossível supor que outra atriz pudesse ser a escolha para viver a diva maior da história do cinema. Michelle Williams é uma atriz que se reinventa a cada trabalho agregando fãs e admiradores e construindo uma filmografia sofisticada, perene e capaz de, quiçá, inscrevê-la em capítulo mais nobre da história do cinema do que o ícone que vive em Sete dias com Marilyn.

Prós:
- Vive um ícone do cinema e isso pode lhe ser favorável
- É a única de todos os atores indicados que também disputou no ano passado. Isso pode ser uma vantagem
-Seria uma opção viável e digna a quem resiste aos lobbies por Viola Davis e Meryl Streep
- É jovem, bonita e talentosa. Combinação mais do que favorável a um Oscar
- A academia costuma reconhecer performances em que os intérpretes desaparecem em seus personagens em filmes biográficos. Exemplos recentes foram os Oscars para Jamie Foxx (Ray), Sean Penn (Milk – a voz da igualdade) e Nicole Kidman (As horas)

Contras:
- Seu filme não caiu no gosto da crítica e isso pode privar-lhe alguns votos
- Concorre contra os fortes lobbies em favor de Viola Davis e Meryl Streep
- Competiu no ano passado e pode haver quem entenda o “prestígio” de voltar à disputa consecutivamente como “reconhecimento suficiente”
- Assim como a concorrente Glenn Close, está em um filme independente em uma categoria com atrizes nomeadas por “filmes de impacto midiático”

Terceira indicação
Indicações anteriores:
Melhor atriz coadjuvante por O segredo de Brokeback mountain em 2006
Melhor atriz por Namorados para sempre em 2011


terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Oscar Watch 2012 - Repertório dos indicados a direção de fotografia


Emmanuel Lubezki por A árvore da vida
Mexicano 48 anos
Quatro indicações ao Oscar:
A princesinha em 1996
A lenda do cavaleiro sem cabeça em 2000
O novo mundo em 2006
Filhos da esperança em 2007
Principais colaboradores: Terrence Malick, Alfonso Cuáron e Rodrigo Garcia

Os cinco melhores trabalhos no crivo de Claquete

Filhos da esperança (2006)

Desventuras em série (2004)


A árvore da vida (2011)


A lenda do cavaleiro sem cabeça (1999)


Ali (2001)



Guillaume Schiffman por O artista
Francês – 46 anos
 Primeira indicação
 Principais colaboradores: Michel Hazanavicius e Joann Sfar
 Os melhores trabalhos no crivo de Claquete
Gainsbourg – O homem que amava as mulheres (2011)
O artista (2011)





Jeff Cronenweth por Os homens que não amavam as mulheres
Americano – 50 anos
 1 indicação ao Oscar
A rede social em 2011
 Principal colaborador: David Fincher




Os três melhores trabalhos no crivo de Claquete

Os homens que não amavam as mulheres (2011)
A rede social (2010)
Clube da luta (1999)



Robert Richardson por A invenção de Hugo Cabret
Americano – 57 anos
Seis indicações ao Oscar e duas vitórias
Platoon em 1987
Nascido em 4 de julho em 1990
JFK – a pergunta que não quer calar em 1992 (Oscar)
Neve sobre os cedros em 2000
O aviador em 2005 (Oscar)
Bastardos inglórios em 2010
Principais colaboradores: Martin Scorsese, Quentin Tarantino e Oliver Stone


Os cinco melhores trabalhos no crivo de Claquete

Ilha do medo (2010)

O aviador (2004)

Reviravolta (1997)

The doors (1991)

Platoon (1986)




Janusz Kaminski por Cavalo de guerra
Polonês – 52 anos
Quatro indicações ao Oscar e duas vitórias
A lista de Schindler em 1994 (Oscar)
Amistad em 1998
O resgate do soldado Ryan em 1999 (Oscar)
O escafandro e a borboleta em 2008
Principal colaborador: Steven Spielberg



Os cinco melhores trabalhos no crivo de Claquete

O resgate do soldado Ryan (1998)
O escafandro e a borboleta (2007)
Munique (2005)
Prenda-me se for capaz (2002)
Minority Report - a nova lei (2002)

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Causos de cinema - Noite de Oscar


Existia uma tradição na família de Antônia. Que para muitos conhecidos era excêntrica. Assistir reunidos a noite do Oscar. Era algo realmente familiar. Mais excitante do que noite de natal e mais badalado do que desfile de carnaval. Todos os anos reuniam-se mais de 20 membros da família de Antônia. Revezavam-se os anfitriões e os pratos da noite, preservava-se o amor incondicional pelo cinema e aquela “obsessão do bem” pelas celebridades da sétima arte.

Em 2001, Antônia resolveu participar de uma promoção de uma marca de esponja de aço. O prêmio era a passagem, com direito a acompanhante, para o tapete vermelho do Oscar. Começou então um novo concurso, no âmbito familiar, para ver qual seria o acompanhante de Antônia na surreal viagem. A disputa foi intensa. Organizaram-se critérios de avaliação, situações passíveis de recurso e muitos outros pontos que legitimavam aquele certame. Era oficial, embora a viagem ainda não fosse.
Convencionou-se que o vencedor da vaga de acompanhante na noite do Oscar teria que ser conhecido antes da divulgação do resultado oficial da promoção da esponja de aço. Depois de quatro fases, a prima Gabriela sagrou-se vencedora.
Foi mesmo Gabriela quem acompanhou Antônia às intermediações do teatro Kodak.Toda a comoção por visto no passaporte, saque das economias e pedido de demissão (no caso de Gabriela) haveriam de valer a pena.
Era tarde em Los Angeles. O calor era desleal. Mas o ânimo de Antônia e Gabriela contagiava a galera que com elas pacientemente esperava a chegada da primeira limusine. Para surpresa de Antônia havia muitos latinos. Todos, naturalmente, falavam espanhol. Ela até procurou por algum brasileiro, mas não achou. Intimamente se sentiu ainda mais especial.
Elas já estavam hás seis horas em pé, sob sol escaldante, com algumas garrafinhas de água retornáveis que Gabriela tanto insistiu que levassem, quando o empurra empurra começou. Os seguranças, armários rochosos  quase impenetráveis para as vistas daquelas baixinhas do sul brasileiro – há de ponderar que para todo golpe de sorte, há um atentado do azar, pois o sul produz as mulheres mais altas da nação e a falta de altura de Antônia e Gabriela nunca havia sido tão dramática. Mas Antônia não havia ganho uma promoção com mais de 3 milhões de inscritos, desapontado alguns familiares tão cinéfilos quanto ela e se desfeito de suas economias para fitar um Armani de gravata amarela. Agarrou Gabriela e pôs-se a se debater ferozmente por seu objetivo. A muvuca chamou a atenção de alguém que passava no tapete vermelho. Era alguém emburrado. Era Russell Crowe, ator que concorria ao Oscar naquela noite pelo papel em Gladiador. Crowe aproximou-se de um segurança, que também vestia Armani, mas não usava gravata amarela, apontou para Antonia e cochichou alguma coisa. O segurança anuiu com a cabeça, Russell Crowe sorriu e seguiu adiante. Quando parou para conversar com um repórter, o ator voltou a olhar para a ala dos fãs exaltados atrás daquele cordão humano e viu que Antônia e Gabriela tinham espaço para observar o tapete vermelho. Antônia juntou as mãos em um gesto de agradecimento. Crowe sorriu como quem consentia. Voltou-se para o repórter e a noite seguiu seu rumo.  


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Causos de cinema é um conto ficcional e tem periodicidade mensal em Claquete. Sempre brincando com personalidades do cinema, grandes filmes,curiosidades cinéfilas e afins. Deixe sua opinião e sugestões!

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Questões cinematográficas - A figura do preparador de elenco e o que ela representa para o cinema

É cada vez mais frequente nas produções nacionais a figura do preparador de elenco. Existem profissionais altamente conceituados e cujos trabalhos já viraram referência no meio. É o caso, por exemplo, de Fátima Toledo que assistiu Fernando Meirelles em Cidade de Deus e, depois de trabalhos nos dois Tropa de elite e no recente Dois coelhos, já figura como a mais proeminente e reconhecida profissional no mercado.
O trabalho do preparador de elenco consiste, basicamente, em municiar emocionalmente os atores para viver os personagens e honrar a visão do diretor. É um trabalho válido, principalmente, em circunstâncias como a de Cidade de Deus, em que a produção se viu lidando com diversos atores não profissionais.

Cena de Tropa de elite: os dois filmes de José Padilha contaram com os préstimos de um preparador de elenco


Nesse contexto, o preparador de elenco age de maneira a direcionar esses atores para uma representação mais naturalista, ruidosa, extrema. Tirado desse contexto, a figura do preparador de elenco tornar-se um tanto quanto obsoleta. No último festival de cinema de Tiradentes (MG), uma interessante discussão se embrenhou nos bastidores do evento. Atores anônimos e famosos, como Selton Mello, levantaram voz contra a preparação de elenco. Para eles, a profissão surgiu da carência de bons diretores de atores no Brasil. Procede esse argumento. De fato, não há a figura do preparador de elenco em produções com atores profissionais em nenhum outro país do mundo. Adotando Hollywood como parâmetro se verifica a existência do diretor de elenco. Esse profissional costuma atuar mais fortemente na pré-produção. Cabe a ele, ainda que essa “regra” seja bem flexível e no final das contas depende de cada diretor, selecionar os candidatos aos papéis, conduzir entrevistas e testes para submeter ao diretor. O profissional pode ou não atuar no set, mas dificilmente instruirá o ator sobre como atuar. Em Hollywood, essa função é apenas do diretor.
A preparadora Fátima Toledo em foto de
divulgação:
expoente na profissão, ela
já preparava elencos desde Pixote nos
anos 80. No entanto, popularizou-se na
última década

Analisando friamente, é possível entender a lógica que move a proliferação do preparador de elenco no Brasil. Tanto pela pouca oferta de atores habituados com a linguagem empregada no cinema (a linguagem da tv ainda é uma constante no cinema), como pela concisão da produção de um longa-metragem no país. Até mesmo pelos mecanismos de captação e produção de cinema, os diretores não dispõem de muito tempo para pré-produção e ensaios dirigidos com os atores. Contudo, o sucesso do preparador de elenco é indissociável da percepção de que os diretores de cinema no Brasil não estão suficientemente seguros de suas habilidades na direção de atores. Afinal, compete a eles ensejar nos atores, por variadas técnicas, o que pretendem tanto dos personagens como de suas caracterizações. David Fincher, notório perfeccionista, conversou muito com Rooney Mara sobre Lisbeth Salander (personagem de Os homens que não amavam as mulheres) para se certificar que ela a havia entendido. O mesmo Fincher rodou 99 takes da cena inicial de A rede social, até que toda a força dramática da cena fosse por ele capturada. Darren Aronofsky submeteu Natalie Portman a uma rotina exaustiva de treinos e privações, muito semelhante às de sua personagem em Cisne negro, para que ela “entrasse” em Nina Sayers. Esses exemplos permitem intuir que as técnicas utilizadas pelos preparadores de elenco (“se bater, se jogar no chão”, como pontuou o ator Marat Descartes que se negou a ser “treinado” por Fátima Toledo em 2 coelhos) não são tão heterodoxas assim. Contudo, o fato dessa preparação estar sendo terceirizada no Brasil pode fraturar a relação entre atores e diretores. Além de, inadvertidamente, ampliar o mal que deseja combater: a pouca afinidade entre atores e diretores em matéria de cinema.
É com apreensão que o cinema brasileiro deve observar a prosperidade dessa função. Ela afere a falsa impressão de que o mercado de cinema no Brasil está mais profissional. Incorre-se no risco de deixá-lo mais marginalizado e viciado.               

David Fincher e Rooney Mara conversaram muito sobre Lisbeth Salander antes de começarem a filmar. A atriz, em entrevista recente, disse que seria difícil voltar à personagem nas sequências sem a colaboração de Fincher

Insight

A "experiência" O artista

Existem filmes que precisam ser vistos no cinema. Experimentados no universo paralelo que se erige quando as luzes se apagam e a tela se ascende. O artista é um desses filmes. Não exclusivamente por ser em preto e branco, sem diálogos ou sobre um momento definidor do cinema, mas também por essas razões. A fita de Michel Hazanavicius congrega beleza plástica à beleza emocional. Explica-se: raras vezes um filme consegue ser tão simples na forma e tão profundo no alcance quanto faz O artista. Por essa simples razão, já merece o prestígio. Nesse sentido, um adendo preciso ser feito em favor do Oscar. Não fosse pela atenção recebida pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, O artista, em virtude se sua “excentricidade”, passaria longe dos cinemas brasileiros. Mesmo assim corre o risco de passar incólume por receio de uma audiência deseducada de um cinema mais cru, menos intervencionista. De qualquer maneira, O artista no Oscar (o filme pode ser o segundo vencedor do Oscar de menor bilheteria na história. O primeiro é Guerra ao terror), significa que o prêmio, ao contrário do que pregam seus detratores, não mira apenas na indústria. O artista é tudo, menos industrial.
A experiência de se assistir a ele, portanto, é bastante primal. Conduz à nostalgia, nos empalidece com o deslumbre da ingenuidade e nos favorece sentimentos como compaixão e satisfação. Mas tudo isso de uma maneira muito bem delineada. Hazanavicius faz muito bom uso da técnica à disposição no século XXI para rodar um filme sobre o cinema do passado, para falar – também – sobre o cinema do presente. Para os cinéfilos, há ainda o deleite de se mergulhar nas referências cinematográficas – que são muitas.
É lógico que O artista pode ser muito bem apreciado em casa. Em uma tv de última geração ou em uma cópia fajuta no computador, mas a grandeza dessa carta de amor ao cinema só pode ser devidamente dimensionada em uma sala de cinema. Principalmente para aqueles espectadores (quase que a totalidade do público frequentador de cinema na atualidade) que não viveu a era do cinema mudo. É essa a experiência definitiva que O artista, esse filme cheio de predicados, tem a oferecer.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Oscar Watch 2012 - A peleja dos atores

Gary Oldman (O espião que sabia demais), Brad Pitt (O homem que mudou o jogo), George Clooney (Os descendentes), Jean Dujardin (O artista) e Demián Bichir (Uma vida melhor)



Ele fala!

Não em O artista. A bem da verdade, no filme sensação da temporada, Jean Dujardin tem uma única fala. Bem no final do filme. Mas Dujardin tem falado muito. Tanto em discursos de agradecimento – quando premiado pelo papel do ator de cinema mudo George Valentin – como em todo e qualquer programa americano, uma vez que virou um darling da temporada. Carismático e boa pinta, o francês parece ser o que os americanos adoram classificar como “the next best thing”. O Oscar pode ser só o começo da história.

Prós:
- Estrela o filme sensação da temporada
- No ano passado, a academia optou por casar o prêmio de melhor filme e melhor ator. Prática recorrente historicamente.
- É a alma do filme e a academia costuma reconhecer esse tipo de atuação. Alguns exemplos são Sean Penn em 2009 por Milk, Jeff Bridges em 2010 por Coração Louco e Colin Firth por O discurso do rei.
- Existe o “exotismo” de apresentar uma atuação sem o recurso da fala. Isso pode impressionar e conquistar muitos votantes
- Ganhou alguns dos principais prêmios da temporada como o SAG (prêmio do sindicato dos atores), Globo de ouro e Bafta.
- É uma opção charmosa ao charmoso George Clooney

Contras:
- Concorre contra George Clooney. E, bem, é George Clooney...
- É estrangeiro e pode ser prejudicado por algum “bairrismo” da maioria dos votantes que tem dois astros americanos como opções
- Existe o “exotismo” de apresentar uma atuação sem o recurso da fala. Há quem possa ser resistente a premiar esse tipo de trabalho

 Primeira indicação

Não exatamente um latin lover

Pense em três filmes com Demián Bichir. Não conseguiu certo? Não se condene. O ator não era mesmo conhecido. Puxando a memória, os fãs de Weeds se lembrarão dele como um traficante que marcou a vida de Nancy (Mary Louise Parker). O próprio ator brincou com o fato de estar na mesma categoria de astros mundialmente conhecidos como George Clooney e Brad Pitt. Bichir não deve se tornar um astro, mas ninguém rouba dele o desconcertante momento que vive na carreira pelo reconhecimento do trabalho no filme Uma vida melhor.

Prós:
- Conta, notadamente, com o apoio e o entusiasmo da classe dos atores que bancou sua nomeação ao Oscar
- É o azarão e tem quem goste de apostar em azarões
- Seria uma opção corajosa da academia e prestigiaria o cinema realmente independente, ou seja, aquele que não é patrocinado por braços dos grandes estúdios hollywoodianos

Contras:
- A pecha de que a indicação já é suficiente
- Mesmo após a indicação, há o risco de muitos acadêmicos não verem sua performance
- É uma categoria essencialmente equilibrada e a vaga de “estrangeiro charmoso" já foi preenchida por Jean Dujardin

 Primeira indicação

O ator oculto

Um ator que sofre preconceito é Brad Pitt. Também pudera, diriam muitos, lindo do jeito que é! Pois Brad Pitt pôs a beleza de lado e revelou-se um ator meticuloso, com ótimas estratégias de carreira, excelente timing cômico e um incrível talento para se desafiar artisticamente. Por O homem que mudou o jogo vai pela terceira vez ao Oscar, a segunda em quatro anos. Já tem na bagagem um leão de ouro em Veneza e outra porção de atuações elogiadas pela crítica. Muitos críticos, aliás, o elegeram o melhor ator do ano, caso do prestigiado círculo de críticos de Nova Iorque. Fica a dica para o ex-rival Tom Cruise.

Prós:
- Tem dois filmes na disputa de melhor produção do ano e apresenta atuações consistentes em ambos
- Coleciona um impressionante número de boas atuações em ótimos filmes nos últimos anos. Está ficando difícil ignorar Brad Pitt
- Ganhou alguns prêmios da crítica na temporada
- Pode se beneficiar de uma divisão nos votos entre Jean Dujardin e George Clooney
- É daquele tipo de atuação que apela ao aspecto sentimental dos votantes. Isso pode contar

Contras:
- Não ganhou nenhum prêmio expressivo na temporada
- Na escala dos astros, perde para George Clooney
- A resistência e inveja que muitos têm do "Brangelina" pode privá-lo de alguns votos
- A percepção de que ele pode ser premiado mais adiante na carreira joga contra seus interesses também

Terceira indicação:
Indicações anteriores:
Melhor ator coadjuvante por Os doze macacos em 1996
Melhor ator por O curioso caso de Benjamin Button em 2009


Camaleão britânico

Já virou lugar comum se embasbacar com o fato de só aos 53 anos Gary Oldman, um ator estupendo, ter sido indicado ao Oscar. Essa peculiaridade esconde o fato de que em O espião que sabia demais, o ator está absoluto. Talvez não fosse merecedor da indicação pelo papel – existiam atores em melhor forma na disputa por uma vaga – mas não se discute o mérito de seu trabalho. Oldmam é quem menos tem chances de ganhar. Mas de todos os concorrentes, é o que há mais tempo faz por merecer a distinção que só o Oscar é capaz de prover.

Prós:
- É um ator historicamente negligenciado por prêmios e um Oscar nesse momento da carreira repararia essa injustiça
- O espião que sabia demais se constrói inteiramente sobre seu personagem e Oldman dá conta do recado. Performances assim já renderam prêmios a atores como Forest Whitaker (O último rei da Escócia) e Philip Seymour Hoffman (Capote)
- É britânico e atores britânicos costumam ser premiados pela academia
- A velha guarda da academia pode preferir o seu trabalho pausado e reflexivo às performances dos favoritos ao prêmio

 Contras:
- Não ganhou nem mesmo o Bafta, prêmio concedido pela Academia de Cinema Britânica
- Não foi indicado aos principais prêmios da temporada como SAG, Globo de ouro e Critic´s Choice Awards
- A pecha de que a indicação já é suficiente
- Não é a melhor atuação do ano, nem de sua carreira. Portanto, seria ilógico premiá-lo

Primeira indicação


Mais Clooney, menos Clooney

Parecia improvável, mas George Clooney se superou novamente. Em 2011 dirigiu, produziu, escreveu e atuou em Tudo pelo poder, thriller político de primeira linha, pelo qual recebeu indicação ao Oscar de roteiro adaptado; e esteve a frente do elenco de uma pequena jóia do cinema independente chamada Os descendentes. São dois projetos que ratificam, mais uma vez, o tremendo talento e visão de Clooney enquanto artista de cinema.
Em Os descendentes ele apresenta uma de suas melhores atuações na figura de um homem maduro diante de adversidades que o redefinirão. A atuação em si já é notável, o conjunto da obra é muito mais do que isso.

Prós:
- É George Clooney
- Foi premiado em 2006 (quando tinha indicações por Syriana – a indústria do petróleo e Boa noite e boa sorte) e volta ao Oscar com dobradinha (Tudo pelo poder e Os descendentes)
- A safra que Clooney apresenta em 2012 é mais encorpada do que a que dispunha em 2006
- É o favorito ao prêmio e nos últimos anos o favorito tem prevalecido
- É a alma do filme e a academia tem reconhecido trabalhos assim nesta categoria nos últimos anos
- Vem colecionando grandes trabalhos em ótimos filmes e a ideia de premiá-lo novamente é muito difundida na indústria
- É uma figura querida pela academia
- Ganhou o Globo de ouro e o Critic´s Choice

Contras:
- É George Clooney
- O Oscar relativamente recente e o fato de estar sendo constantemente indicado ao Oscar podem afugentar alguns votos decisivos
- O próprio já admitiu que as melhores atuações do ano são dos concorrentes Brad Pitt e Jean Dujardin
- Perdeu o prêmio do sindicato dos atores

Sétima indicação
Indicações anteriores:
Melhor ator coadjuvante por Syriana – a indústria do petróleo em 2006
Melhor roteiro original por Boa noite e boa sorte em 2006
Melhor direção por Boa noite e boa sorte em 2006
Melhor ator por Conduta de risco em 2008
Melhor ator em Amor sem escalas em 2010
Vitória anterior:
Melhor ator coadjuvante por Syriana – a indústria do petróleo

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Oscar Watch 2012 - Há fogo sob as cinzas


Eram exagerados os boatos sobre o fim de Nick Nolte. O ator, que ensaia uma nova etapa na carreira ao assumir um papel regular na série de TV Luck – produção da HBO, volta aos holofotes ao receber sua terceira indicação ao Oscar em 2012.

O papel de Nolte em Guerreiro, filme que merecia mais atenção do que obteve, é precioso. Na pele de um ex-alcoólatra que busca redenção e o perdão dos dois filhos com os quais mantém pouco contato, Nolte brilha em uma composição contida e apoiada nas marcas de sua face. Há alguns belos momentos em que o ator mostra que ainda tem muito estofo dramático para queimar. Sem entregar uma atuação ressonante desde o excelente Lance de sorte (2002), Nolte parecia desorientado na carreira. O último papel com algum destaque foi no Hulk de Ang Lee. E já se ia quase uma década.
Nesse ínterim, Nolte fez algumas dublagens (Os sem floresta, O zelador animal, etc) e algumas pontas em filmes como Hotel Ruanda e Trovão tropical. Nada, como se vê, que lembrasse os áureos tempos do final dos anos 80 e início dos anos 90 – melhor momento de sua carreira.
Nolte é um baita ator. Já trabalhou, e bem, em todos os gêneros cinematográficos e com cineastas da estatura de Martin Scorsese, Neil Jordan, Woody Allen, Terrence Malick, Oliver Stone, entre outros.
Mas Nick Nolte foi, também, um dos precursores daquela corrente célebre na qual Lindsay Lohan é pós-graduada. Os problemas com o alcoolismo levaram Nolte a sucessivas prisões e discussões ríspidas como a que teve com Katherine Hepburn que o acusou de “capotar em cada esquina da cidade”. Nolte deu uma resposta atravessada: “Ainda me restam algumas esquinas!”. Isso foi em 1990.
Esse período já passou, mas o ostracismo de Nolte parecia não ter fim. O ator de filmes importantes como Cabo do medo, O óleo de Lorenzo, Além da linha vermelha, 48 horas, Temporada de caça e O crime que o mundo esqueceu parecia esquecido.
Sua performance em Guerreiro mostra que o que faltava era uma oportunidade. O ator já tem engatilhado para 2012 mais cinco filmes, em todos aparecerá como coadjuvante. Não há nenhum problema nisso. Nolte já mostrou que sabe fazer muito com pouco.


Nolte em cinco takes

Jack Gates em 48 horas (1982)
Como o policial linha dura e com pouco senso de humor (em uma caracterização das mais bem humoradas), Nolte faz par com um ascendente Eddie Murphy nessa que foi um das primeiras comédias de ação produzidas em Hollywood.


Capitão Michael Brennan em Q&A – sem lei, sem justiça (1990)
Nesse filmaço de Sidney Lumet, Nolte faz um policial que atira primeiro e pergunta depois. Um jovem promotor planeja tirá-lo das ruas e, por isso, um novo conflito se estabelece. Mais gordo, Nolte surge absoluto em cena na figura de um homem prestes a explodir a qualquer momento.

Sam Bowden em Cabo do medo (1991)
Em uma caracterização completamente diferente, Nolte faz um advogado cuja família é cerceada pelo criminoso vivido por Robert De Niro. Nolte faz o sujeito comum que é invadido pelo medo, revolta e angústia nessa refilmagem espetacular que Scorsese fez do igualmente clássico Círculo do medo (1962).  


Peter Brackett em Adoro problemas (1994)
Nessa deliciosa comédia escrita por Nancy Meyers e dirigida por Charles Shyer, Nolte tira proveito de sua fama de homem mais sexy do mundo (foi eleito em 1992 pela revista People) na figura de um colunista nova-iorquino de sucesso que mantém rivalidade com a jornalista vivida por Julia Roberts. Um deleite de filme e Nolte faz o tipo arrogante romântico com graciosidade.


Bob Montagnet em Lance de sorte (2002)
Na pele de um apostador cheio de contatos que planeja roubar um cassino na França, Nolte tem um de seus melhores momentos como intérprete nessa fita de Neil Jordan que pertence àquela galeria de “filmes de assalto artísticos”. Nolte nunca esteve mais cativante.

Nolte em cena de Lance de sorte, seu último grande momento no cinema antes de Guerreiro