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sábado, 29 de dezembro de 2012

Retrospectiva 2012 - Claquete destaca o melhor do ano

Os cinco melhores trabalhos de direção do ano


Asghar Farhadi (A separação)


Ben Affleck (Argo)

Steve McQueen (Shame)


David Cronenberg (Cosmópolis)

Lynne Ramsey (Precisamos falar sobre o Kevin)


Os cinco melhores roteiros do ano
Argo por Chris Terrio
Um método perigoso por Christopher Hampton
Ted por Seth MacFarlane
Moonrise kingdom por Wes Anderson e Roman Coppola
A negociação por Nicholas Jarecki

As cinco melhores trilhas sonoras
O artista por Ludovic Bource
Cavalo de guerra por John Williams
Drive por Cliff Martinez
Moonrise kingdom por Alexandre Desplat
As aventuras de Pi por Mychael Danna 

As cinco melhores fotografias
007 – operação Skyfall por Roger Deakins
Cavalo de guerra por Janusz Kaminski
Drive por Newton Thomas Siegel
Shame por Sean Bobbitt
As aventuras de Pi por Claudio Miranda

As cinco melhores edições
O artista por Michel Hazanavicius e Anne-Sophie Bion
Precisamos falar sobre o Kevin por Joe Bini
A separação por Hayedeh Safiyari
Virada no jogo por Lucia Zucchetti
Os homens que não amavam as mulheres por Kirk Baxter e Angus Wall


As cinco melhores atuações masculinas  

Jean Dujardin em O artista

Richard Gere em A negociação


George Clooney em Os descendentes

Michael Fassbender em Shame

Rodrigo Santoro em Heleno


As cinco melhores atuações femininas

Rooney Mara em Os homens que não amavam as mulheres

Tilda Swinton em Precisamos falar sobre o Kevin


Naomi Watts em O impossível

Michelle Williams em Sete dias com Marilyn

Gleen Close em Albert Nobbs


As cinco melhores atuações coadjuvantes masculinas

Ezra Miller em Precisamos falar sobre o Kevin & As vantagens de ser invisível

Javier Bardem em 007 – operação skyfall

Albert Brooks em Drive

Nanni Moretti em Habemus papam


Garrett Hedlund em Na estrada


As cinco melhores atuações coadjuvantes femininas

Jessica Chastain em Histórias cruzadas


Shailene Woodley em Os descendentes


Carey Mulligan em Shame


Keira Knightley em Um método perigoso


Bérénice Bejo em O artista 



Os dez filmes que não entraram no TOP 10 do ano de Claquete, que será publicado neste domingo (30), em ordem alfabética: 

007 - operação skyafall (Skyfall, EUA 2012), de Sam Mendes
Argo (EUA 2012), de Ben Affleck
As aventuras de Pi (Life of Pi EUA 2012), de Ang Lee
Cavalo de guerra (War horse, EUA 2011), de Steven Spielberg
Cosmópolis (CAN/EUA 2012), de David Cronenberg
Drive (EUA/DIN 2011), de Nicolas Winding Refn
Moonrise kingdom (EUA 2012), de Wes Anderson
O homem da máfia (Killing them softley, EUA 2012), de Andrew Dominik
O homem que virou o jogo (Moneyball, EUA 2011), de Bennett Miller
Virada no jogo (Game change, EUA 2012), de Jay Roach

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Oscar Watch 2012 - A peleja dos filmes

1- A invenção de Hugo Cabret, 2- O homem que mudou o jogo, 3 - A árvore da vida, 4- O artista, 5 - Histórias cruzadas, 6 - Os descendentes, 7 - Tão forte e tão perto, 8 - Cavalo de guerra, 9- Meia-noite em Paris



O BBB

É compreensível o tipo de preconceito que filmes como Histórias cruzadas despertam em cinéfilos e espectadores mais sofisticados, mas a fita de Tate Taylor é aquele filme de comunhão popular difícil de se desvencilhar. É um dramalhão, é edificante, é manipulador, mas é, também, estranhamente sincero em suas pretensões. Com a ajuda de um elenco coeso e de muito brilho, Histórias cruzadas chega ao Oscar com a pecha de “filme menor”, mas com a maior bilheteria entre os indicados e a maior aprovação entre os variados setores da indústria do cinema.

Prós:
- É um drama construído sobre o trabalho do elenco, o que pode valer votos sentimentais do maior colegiado da academia, justamente os atores
- Pode se beneficiar do hype de suas duas principais atrizes que estão sendo bastante premiadas na temporada
- É um drama de cunho racial e a academia gosta de reconhecer esse tipo de filme
- É, inegavelmente, o filme que reunirá mais “expectadores médios” da cerimônia na torcida

 Contras:
- É um filme com sérios problemas narrativos e um formato demasiadamente convencional
- Não possui indicações para direção e roteiro, o que torna praticamente impossível um triunfo
- É um drama construído sobre o trabalho do elenco e Oscars para membros desse elenco (e dois deles são bem prováveis) já honraria essa condição
- Não é um filme que proponha qualquer tipo de reflexão, diferentemente de alguns dos principais indicados do ano


O independente aprazível

Os descendentes é um filme independente. Mas nem parece. Nem tanto pela presença de George Clooney, mas mais pela extrema sutileza do registro de Alexander Payne e da forma como ele usa o Havaí na história. É um filme praticamente impossível de se desgostar. Isso pode ser uma vantagem na hora h. O drama que flerta conscientemente com a comédia ao mostrar as vias tortas do amadurecimento não é a melhor pedida do ano, mas não deixa de ser uma boa pedida.

Prós:
- Depois de O artista, foi o filme mais premiado pela crítica no ano
- Ganhou o Globo de ouro de melhor filme dramático
- É a opção mais consistente para quem resiste embarcar na nostalgia proposta pelos filmes O artista e A invenção de Hugo Cabret
 - É estrelado por uma das figuras mais queridas da Hollywood atual, George Clooney
- É uma opção independente que não desagradaria os chefões de estúdios - diferentemente da consagração de O artista, por exemplo
- É um filme palatável que se não desperta paixões, não gera animosidades

Contras:
- Não é o melhor filme de Alexander Payne e isso pode pesar contra a candidatura do filme
- Muita gente pode resolver premiar o roteiro e George Clooney – notadamente os maiores trunfos do filme – e preterir a fita na disputa principal
- Perdeu a posição de “independente do ano” para o independente e parcialmente estrangeiro O artista
- A maioria dos prêmios que recebeu foi no início da temporada


Manifesto de amor

Quem pode bater O artista? O filme de Michel Hazanavicius não é o melhor do ano. Mas, vencidos os preconceitos, talvez se apresente como o melhor dos nove filmes indicados. Que é o mais charmoso de todos já é favas contadas. Mas O artista também é a prova definitiva de que foi o cinema americano que moldou o cinema – e veio da França essa homenagem. O artista também pode ser a prova definitiva de que a academia está disposta a premiar um filme mudo e em preto e branco em plena era do 3D e em meio a uma consternação midiática por mais audiência na cerimônia de TV. Eleger como melhor do ano um filme com essas características não deixa de ser a concepção ideal do Oscar e uma escolha significativamente progressista.

Prós:
- É uma declaração de amor aberta ao cinema – em particular a Hollywood – e isso parece computar pontos em favor do filme
- É o postulante mais charmoso e simpático de todos e houve anos em que isso foi suficiente para vitórias francas
- É o filme mais premiado da temporada
- Venceu os principais termômetros para o Oscar como o Critic´s Choice Awards, o Bafta, o Globo de Ouro, o Producer Guild Awards e o Director Guild Awards
- É o favorito ao prêmio
- Pode se beneficiar da lógica “se for para premiar um filme que clama à nostalgia, que seja um que a assume de vez em forma e conteúdo”

Contras:
- É demasiadamente progressista para os padrões da academia. Seria o primeiro filme mudo a vencer o Oscar desde o primeiro vencedor do Oscar (Asas)
- Seria o segundo vencedor do Oscar de menor bilheteria da história. Atrás apenas de Guerra ao terror. Mais alarmante ainda é a constatação de que as escolhas seriam tão próximas
- Ainda que se tenha algum financiamento americano, é um filme francês
- A invenção de Hugo Cabret é uma opção de estúdio à nostalgia proposta por O artista
- A trama, descolada das opções estéticas da realização, é demasiadamente simples para um filme vencedor do Oscar

Filme classe A

Um diretor elegante, um super astro, um tema envolvente e roteiristas brilhantes. O homem que mudou o jogo faz jus as suas credenciais. É um filme de incrível força narrativa e improvável apelo emocional. Um filme de estúdio que conjuga clichês de blockbuster com a assertividade do cinema independente. Uma excelente condecoração na lista dos melhores de 2011 no Oscar.

Prós:
- É um filme que faz uso inteligente de variadas metáforas
- Tem um verdadeiro batalhão de profissionais admirados em sua ficha técnica
- É um filme adulto para adultos. Um dos poucos entre os nove finalistas
- Tem o mote da “segunda chance” como um de seus principais alicerces e a academia aprecia isso
- Depois de Histórias cruzadas, é o filme de maior bilheteria em competição

Contras:
- Apesar do filme ter recebido prêmios da crítica, nenhum foi para a fita em si
- É um filme esportivo e isso pode esbarrar no preconceito de muitos votantes
- Não emplacou uma nomeação para direção, o que diminui consideravelmente as chances do filme
- A pecha de que a indicação já é reconhecimento suficiente


O Cinema como elemento transformador

Martin Scorsese é um gênio. Isso é sabido. Mas o que ele faz com A invenção de Hugo Cabret, filme que exalta o cinema como mecanismo definidor de vidas, é mostrar como essa percepção está associada às possibilidades ofertadas pela sétima arte. O próprio diretor admitiu que possui muita identificação com o protagonista de seu filme. Essa confissão diz muito sobre o que é A invenção de Hugo Cabret, em sua concepção primal, e sobre suas chances no Oscar.

Prós:
- É um legítimo "feel good movie" que mistura história e ficção. O Oscar já consagrou filmes desse perfil como, por exemplo, Forrest Gump – o contador de histórias
- Assim como O artista, é uma homenagem altiva ao cinema. Só que mais poética
- É dirigido por Scorsese e, ao que parece, ele anda mais pop do que nunca
- É uma opção de estúdio à nostalgia proposta por O artista
- É um filme familiar e isso poderia pegar bem para o Oscar
- A vitória de um filme em 3D poderia legitimar a tecnologia como ferramenta autoral no cinema

Contras:
- É, na embalagem, um filme infantil. Gênero pouco apreciado pelo perfil majoritário dos votantes no Oscar
- Scorsese foi consagrado no Oscar em período relativamente recente (2007). É raro a academia agraciar um artista em grande escala em período tão curto
- Não tem no elenco um forte chamariz, ao contrário de seus principais concorrentes
- É em 3D e o formato ainda desperta muito preconceito, inclusive entre os acadêmicos
- Não é o melhor filme do ano e há quem possa resistir conceder um Oscar a um “filme homenagem”

A unanimidade invertida

Parece difícil crer que Stephen Daldry, um diretor aclamado pela academia e pela crítica, é o responsável pela inclusão mais discutível da lista. Mas é a verdade pura e simples. Tão forte e tão perto na disputa pelo Oscar de melhor filme é fruto da diversidade de critérios que não se ajustam às flexíveis regras para eleger os concorrentes na categoria. Daldry conheceu, em seu quarto filme, seu primeiro revés crítico, mas ainda não sabe o que é ser preterido pela academia – ainda que tenha ficado pela primeira vez fora da disputa pelo troféu de diretor.

Prós:
- É sobre o 11 de setembro e há quem possa se sentir tentado pelo aspecto sentimental que o filme envolve
- Tem um verdadeiro batalhão de profissionais admirados em sua ficha técnica
- É um drama edificante e vai que...

Contras:
- Só tem uma indicação fora a de melhor filme e seria desmoralizante para o Oscar um filme triunfar nesses termos
- Sem indicações para direção, roteiro ou montagem a pecha é mesmo de figurante
- A falta de aprovação crítica lhe é amplamente desfavorável
- De todas as premiações majors, só esteve entre os finalistas do Critic´s Choice Awards


Nostalgia do presente

Tem quem enxergue em Meia-noite em Paris uma ode ao passado. Não deixa de ser. Mas a verdadeira meta de Woody Allen aqui é valorizar o presente. A nostalgia, advoga o autor, é muito recomendável desde que manejada com moderação e sobriedade. Não podemos nos confinar em nós mesmos. O filme, por conciliar tão bem essas propostas aparentemente antagônicas, é classificado como “o melhor Woody Allen em anos”. Exageros a parte, é um filme romântico sobre como manter uma postura otimista em relação a vida.

Prós:
- É um filme afável e “pra cima”. Difícil de alguém não gostar
- Pode se beneficiar da máxima “a volta de Woody Allen”
- Seria um jeito de a academia prestigiar as comédias e com o pedigree internacional de Woody Allen

 Contras:
- É um filme leve, mas não é o único do ano
- Já foi lançado há muito tempo nos EUA
- A pecha de que a indicação já é suficiente
- A preferência de honrar Woody Allen na categoria de roteiro original
- O baixo número de indicações também é um empecilho


Abraçando o mundo

A ideia de falar sobre a criação do universo, a concepção de fé humana e a relação entre graça e natureza, a partir do microcosmo de uma família conservadora americana dos anos 50 parece uma ideia megalomaníaca e é. Não a toa, o cineasta Terrence Malick levou anos para materializá-la em um filme que gerou opiniões dissonantes, mas igualmente apaixonadas. A árvore da vida não é um legítimo vencedor do Oscar de melhor filme, mas sua presença na categoria ajuda a desmistificar a sisudez da academia.

Prós:
- É o vencedor da Palma de ouro
- Seria uma demonstração de que a academia pensa mais o cinema como arte do que como indústria
- É um filme que conta com cabos eleitorais poderosos
- É um projeto grandioso e o Oscar já reconheceu filmes desse perfil

Contras:
- A pecha de que a indicação já é suficiente
- Não é o melhor filme do ano e todo mundo sabe disso
- Seria uma forma de reconhecer Cannes como uma plataforma mais importante em termos de reconhecimento artístico e isso pode despertar a rivalidade dos membros da academia
- É um filme difícil, pouco visto e nem um pouco pop (ao contrário do pouco visto, mas muito midiático O artista)


Épico sentimental

É bem verdade que a participação de Steven Spielberg no Oscar 2012 é menor do que se antecipava, mas o intuito foi parcialmente alcançado. Cavalo de guerra, um filme à moda antiga, sobre uma guerra pouco retratada pelo cinema e sob o improvável ponto de vista de um cavalo está na disputa por seis estatuetas, incluindo melhor filme. Cavalo de guerra é um filme que apela às emoções fáceis, mas o faz com generosidade, honestidade e exuberância técnica. É justa sua presença na categoria.

Prós:
- É um épico que dialoga com grandes filmes do passado como os dirigidos por John Ford e Howard Hawks
- É filme de Steven Spielberg e esse nome tem um peso...
- É genuinamente emocionante
- O Oscar já premiou filmes que se utilizam descaradamente de artifícios manipulativos como Crash – no limite e Quem quer ser um milionário?

Contras:
- A ausência nas categorias de direção e roteiro adaptado podem lhe ser fatais
- Não goza de unanimidade crítica
- Premiar um filme em que o herói é um cavalo pode soar estranho
- O tom fabular da história vai contra as últimas escolhas da academia na categoria
- Não ganhou um prêmio sequer de melhor filme na temporada de premiações

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Crítica - O homem que mudou o jogo

Inteligente e cativante!

É sempre entusiasmante se deparar com um filme que consegue ser inteligente e emotivo ao mesmo tempo. Ainda que seja uma fórmula aparentemente banal, é de difícil confecção e todos os envolvidos em O homem que mudou o jogo (Moneyball, EUA 2011) podem se orgulhar de terem produzido um drama que consegue ser edificante, sem resvalar no pieguismo itinerante que marca esse tipo de história, e bem articulado narrativamente sobre um tema mais racional do que emotivo.
A princípio, O homem que mudou o jogo é um filme sobre gestão. Humana e administrativa. É, também, um filme sobre segundas chances. Sobre personagens que são confrontados com novas oportunidades de vencer um jogo injusto como é o da vida. É, ainda, um filme sobre o confronto de visões em um ambiente tão apaixonado como o esportivo. De um lado, o eixo moderno representado pelo gerente do Oakland A´s, time  modesto da Califórnia, Billy Beane (Brad Pitt) e seu assistente formado em economia Peter Brand (Jonah Hill) que introduzem um novo modelo para contratar jogadores esmerado em estatísticas e projeções matemáticas. Do outro lado está o tradicional e centenário jeito de se viver o baseball com todas as suas idiossincrasias e crendices.
É a partir dessa lógica do “homem contra o sistema” que o diretor Bennett Miller, suavemente, tece um drama coeso, límpido e profundamente humano. Que se vale de um esporte pouco famoso internacionalmente para erigir comentários tanto sobre a natureza humana, como a respeito da modernização de estratégias de gestão que sucessivamente despertam interesse de empresas que atuam em diferentes nichos. 

Brad Pitt, em grande momento como ator, em cena do filme: mérito de agregar temas intercambiáveis em um drama inteligente, fluente e cativante


O roteiro, assinado por Aaron Sorkin e Steven Zaillian a partir do livro “Moneyball: the art of winning a unfair game” de Michael Lewis, é seguramente o maior brilho do filme. O texto impede que o espectador pouco familiarizado com a modalidade fique alienado, ao mesmo tempo em que flameja o fã de baseball. Não é preciso dizer que o roteiro concilia harmoniosamente as diferentes propostas encorpadas no filme.
Com seis indicações ao Oscar (filme, roteiro adaptado, ator, ator coadjuvante, montagem e som), O homem que mudou o jogo é um filme que registra o ímpeto empreendedor que distingue os homens dos meninos – como uma cena crucial do filme sugere. É Brad Pitt, em atuação notável, quem estabelece complexidade ao personagem central. Pitt o reveste de humanidade em toda a sua abrangência: arrogância, carisma, insegurança, fé, esperança...
É, enfim, um ator que faz o filme ficar melhor, assim como seu personagem fez com o jogo.