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domingo, 10 de março de 2013

Insight - Quando menos é mais



Entraram em cartaz nas principais cidades do país neste fim de semana dois filmes “menores” de cineastas consagrados. A parte dos anjos, de Ken Loach, é o que a crítica especializada tem chamado de filme mais leve do britânico em anos. Geralmente conhecido por seus filmes de forte comentário político como Ventos da liberdade e Rota irlandesa, Loach arrebatou a riviera francesa – de onde saiu com o prêmio do júri - com uma história sobre um ladrão que acaba de ser pai e, na expectativa de mudar de vida, articula um novo esquema que inclui um olfato apuradíssimo para uísques e a tal da parte dos anjos, termo dado aos 2% do barril que são perdidos devido à evaporação do álcool ao longo dos anos.
Menos leve, mas não menos elogiado, é Killer Joe – matador de aluguel do grande William Friedkin. O cineasta americano anda bissexto e este é apenas seu terceiro filme em dez anos. Adaptado da peça de Tracy Letts, autor que já havia servido de base para o trabalho anterior de Friedkin, Possuídos, Killer Joe – matador de aluguel é uma comédia de humor negro. Chris (Emile Hirsch) contrata o Joe do título, vivido por Matthew McConaughey, para matar sua mãe de maneira a pode sacar o seguro de vida em nome dela. Fazem parte do esquema seu pai e sua madrasta. Como garantia a Joe, ele oferece a irmã. Exibido pela primeira vez no festival de Veneza, Killer Joe foi saudado com um dos exemplares mais vigorosos do cinema americano dos últimos anos.

Tensão e humor: Há quem considere Killer Joe o melhor filme de Friedkin desde O exorcista (1973)

Friedkin e Loach, no entanto, não estão na vanguarda desse movimento. É mais comum do que parece cineastas experimentados conseguirem algumas das melhores críticas, quiçá prêmios, de suas carreiras com trabalhos menores ou menos ambiciosos.
Clint Eastwood, por exemplo, conseguiu seu segundo Oscar como diretor e seu segundo Oscar como produtor por um filme que nem mesmo o estúdio (Warner Bros) apostava para a temporada de premiações. Menina de ouro era o patinho feio em um ano de grandes produções de estúdio como Ray e O aviador, Menina de ouro foi crescendo na temporada e acabou sendo o grande vencedor do Oscar de 2005. Danny Boyle é outro que conseguiu triunfar no Oscar com seu filme menos ambicioso. Sob muitas perspectivas, Quem quer ser um milionário? é um filme menos ventilado do que produções como Trainspotting – sem limites, Sunshine – alerta solar ou mesmo o mais recente 127 horas.
Woody Allen estava apenas dando sequência a seu tour pela Europa e Meia-noite em Paris, filme no qual não despendeu um pingo a mais de energia do que em Você vai conhecer o homem dos seus sonhos ou Para Roma com amor, conquistou público, críticas e prêmios.
Steven Soderbergh, que andava brigado das boas críticas há algum tempo, reencontrou-as com um improvável filme sobre o cotidiano de strippers masculinos. Magic Mike se pagou em um fim de semana e, salvo uma ou outra crítica, foi um dos maiores consensos da carreira do diretor de obras como Sexo, mentiras e videotape e Traffic – ninguém sai ileso.

O maior underdog dos últimos anos no Oscar foi Menina de ouro que começou a temporada de premiações como azarão supremo e se consagrou o grande vencedor do Oscar 2005

Premeditadamente ou por intervenção do destino, cineastas que usam da prerrogativa do low profile para driblar o peso das expectativas e reaver a beleza do storytelling frequentemente acertam. E com assiduidade mais comum do que se percebe, atingem os picos de suas carreiras.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Oscar Watch 2012 - A peleja dos filmes

1- A invenção de Hugo Cabret, 2- O homem que mudou o jogo, 3 - A árvore da vida, 4- O artista, 5 - Histórias cruzadas, 6 - Os descendentes, 7 - Tão forte e tão perto, 8 - Cavalo de guerra, 9- Meia-noite em Paris



O BBB

É compreensível o tipo de preconceito que filmes como Histórias cruzadas despertam em cinéfilos e espectadores mais sofisticados, mas a fita de Tate Taylor é aquele filme de comunhão popular difícil de se desvencilhar. É um dramalhão, é edificante, é manipulador, mas é, também, estranhamente sincero em suas pretensões. Com a ajuda de um elenco coeso e de muito brilho, Histórias cruzadas chega ao Oscar com a pecha de “filme menor”, mas com a maior bilheteria entre os indicados e a maior aprovação entre os variados setores da indústria do cinema.

Prós:
- É um drama construído sobre o trabalho do elenco, o que pode valer votos sentimentais do maior colegiado da academia, justamente os atores
- Pode se beneficiar do hype de suas duas principais atrizes que estão sendo bastante premiadas na temporada
- É um drama de cunho racial e a academia gosta de reconhecer esse tipo de filme
- É, inegavelmente, o filme que reunirá mais “expectadores médios” da cerimônia na torcida

 Contras:
- É um filme com sérios problemas narrativos e um formato demasiadamente convencional
- Não possui indicações para direção e roteiro, o que torna praticamente impossível um triunfo
- É um drama construído sobre o trabalho do elenco e Oscars para membros desse elenco (e dois deles são bem prováveis) já honraria essa condição
- Não é um filme que proponha qualquer tipo de reflexão, diferentemente de alguns dos principais indicados do ano


O independente aprazível

Os descendentes é um filme independente. Mas nem parece. Nem tanto pela presença de George Clooney, mas mais pela extrema sutileza do registro de Alexander Payne e da forma como ele usa o Havaí na história. É um filme praticamente impossível de se desgostar. Isso pode ser uma vantagem na hora h. O drama que flerta conscientemente com a comédia ao mostrar as vias tortas do amadurecimento não é a melhor pedida do ano, mas não deixa de ser uma boa pedida.

Prós:
- Depois de O artista, foi o filme mais premiado pela crítica no ano
- Ganhou o Globo de ouro de melhor filme dramático
- É a opção mais consistente para quem resiste embarcar na nostalgia proposta pelos filmes O artista e A invenção de Hugo Cabret
 - É estrelado por uma das figuras mais queridas da Hollywood atual, George Clooney
- É uma opção independente que não desagradaria os chefões de estúdios - diferentemente da consagração de O artista, por exemplo
- É um filme palatável que se não desperta paixões, não gera animosidades

Contras:
- Não é o melhor filme de Alexander Payne e isso pode pesar contra a candidatura do filme
- Muita gente pode resolver premiar o roteiro e George Clooney – notadamente os maiores trunfos do filme – e preterir a fita na disputa principal
- Perdeu a posição de “independente do ano” para o independente e parcialmente estrangeiro O artista
- A maioria dos prêmios que recebeu foi no início da temporada


Manifesto de amor

Quem pode bater O artista? O filme de Michel Hazanavicius não é o melhor do ano. Mas, vencidos os preconceitos, talvez se apresente como o melhor dos nove filmes indicados. Que é o mais charmoso de todos já é favas contadas. Mas O artista também é a prova definitiva de que foi o cinema americano que moldou o cinema – e veio da França essa homenagem. O artista também pode ser a prova definitiva de que a academia está disposta a premiar um filme mudo e em preto e branco em plena era do 3D e em meio a uma consternação midiática por mais audiência na cerimônia de TV. Eleger como melhor do ano um filme com essas características não deixa de ser a concepção ideal do Oscar e uma escolha significativamente progressista.

Prós:
- É uma declaração de amor aberta ao cinema – em particular a Hollywood – e isso parece computar pontos em favor do filme
- É o postulante mais charmoso e simpático de todos e houve anos em que isso foi suficiente para vitórias francas
- É o filme mais premiado da temporada
- Venceu os principais termômetros para o Oscar como o Critic´s Choice Awards, o Bafta, o Globo de Ouro, o Producer Guild Awards e o Director Guild Awards
- É o favorito ao prêmio
- Pode se beneficiar da lógica “se for para premiar um filme que clama à nostalgia, que seja um que a assume de vez em forma e conteúdo”

Contras:
- É demasiadamente progressista para os padrões da academia. Seria o primeiro filme mudo a vencer o Oscar desde o primeiro vencedor do Oscar (Asas)
- Seria o segundo vencedor do Oscar de menor bilheteria da história. Atrás apenas de Guerra ao terror. Mais alarmante ainda é a constatação de que as escolhas seriam tão próximas
- Ainda que se tenha algum financiamento americano, é um filme francês
- A invenção de Hugo Cabret é uma opção de estúdio à nostalgia proposta por O artista
- A trama, descolada das opções estéticas da realização, é demasiadamente simples para um filme vencedor do Oscar

Filme classe A

Um diretor elegante, um super astro, um tema envolvente e roteiristas brilhantes. O homem que mudou o jogo faz jus as suas credenciais. É um filme de incrível força narrativa e improvável apelo emocional. Um filme de estúdio que conjuga clichês de blockbuster com a assertividade do cinema independente. Uma excelente condecoração na lista dos melhores de 2011 no Oscar.

Prós:
- É um filme que faz uso inteligente de variadas metáforas
- Tem um verdadeiro batalhão de profissionais admirados em sua ficha técnica
- É um filme adulto para adultos. Um dos poucos entre os nove finalistas
- Tem o mote da “segunda chance” como um de seus principais alicerces e a academia aprecia isso
- Depois de Histórias cruzadas, é o filme de maior bilheteria em competição

Contras:
- Apesar do filme ter recebido prêmios da crítica, nenhum foi para a fita em si
- É um filme esportivo e isso pode esbarrar no preconceito de muitos votantes
- Não emplacou uma nomeação para direção, o que diminui consideravelmente as chances do filme
- A pecha de que a indicação já é reconhecimento suficiente


O Cinema como elemento transformador

Martin Scorsese é um gênio. Isso é sabido. Mas o que ele faz com A invenção de Hugo Cabret, filme que exalta o cinema como mecanismo definidor de vidas, é mostrar como essa percepção está associada às possibilidades ofertadas pela sétima arte. O próprio diretor admitiu que possui muita identificação com o protagonista de seu filme. Essa confissão diz muito sobre o que é A invenção de Hugo Cabret, em sua concepção primal, e sobre suas chances no Oscar.

Prós:
- É um legítimo "feel good movie" que mistura história e ficção. O Oscar já consagrou filmes desse perfil como, por exemplo, Forrest Gump – o contador de histórias
- Assim como O artista, é uma homenagem altiva ao cinema. Só que mais poética
- É dirigido por Scorsese e, ao que parece, ele anda mais pop do que nunca
- É uma opção de estúdio à nostalgia proposta por O artista
- É um filme familiar e isso poderia pegar bem para o Oscar
- A vitória de um filme em 3D poderia legitimar a tecnologia como ferramenta autoral no cinema

Contras:
- É, na embalagem, um filme infantil. Gênero pouco apreciado pelo perfil majoritário dos votantes no Oscar
- Scorsese foi consagrado no Oscar em período relativamente recente (2007). É raro a academia agraciar um artista em grande escala em período tão curto
- Não tem no elenco um forte chamariz, ao contrário de seus principais concorrentes
- É em 3D e o formato ainda desperta muito preconceito, inclusive entre os acadêmicos
- Não é o melhor filme do ano e há quem possa resistir conceder um Oscar a um “filme homenagem”

A unanimidade invertida

Parece difícil crer que Stephen Daldry, um diretor aclamado pela academia e pela crítica, é o responsável pela inclusão mais discutível da lista. Mas é a verdade pura e simples. Tão forte e tão perto na disputa pelo Oscar de melhor filme é fruto da diversidade de critérios que não se ajustam às flexíveis regras para eleger os concorrentes na categoria. Daldry conheceu, em seu quarto filme, seu primeiro revés crítico, mas ainda não sabe o que é ser preterido pela academia – ainda que tenha ficado pela primeira vez fora da disputa pelo troféu de diretor.

Prós:
- É sobre o 11 de setembro e há quem possa se sentir tentado pelo aspecto sentimental que o filme envolve
- Tem um verdadeiro batalhão de profissionais admirados em sua ficha técnica
- É um drama edificante e vai que...

Contras:
- Só tem uma indicação fora a de melhor filme e seria desmoralizante para o Oscar um filme triunfar nesses termos
- Sem indicações para direção, roteiro ou montagem a pecha é mesmo de figurante
- A falta de aprovação crítica lhe é amplamente desfavorável
- De todas as premiações majors, só esteve entre os finalistas do Critic´s Choice Awards


Nostalgia do presente

Tem quem enxergue em Meia-noite em Paris uma ode ao passado. Não deixa de ser. Mas a verdadeira meta de Woody Allen aqui é valorizar o presente. A nostalgia, advoga o autor, é muito recomendável desde que manejada com moderação e sobriedade. Não podemos nos confinar em nós mesmos. O filme, por conciliar tão bem essas propostas aparentemente antagônicas, é classificado como “o melhor Woody Allen em anos”. Exageros a parte, é um filme romântico sobre como manter uma postura otimista em relação a vida.

Prós:
- É um filme afável e “pra cima”. Difícil de alguém não gostar
- Pode se beneficiar da máxima “a volta de Woody Allen”
- Seria um jeito de a academia prestigiar as comédias e com o pedigree internacional de Woody Allen

 Contras:
- É um filme leve, mas não é o único do ano
- Já foi lançado há muito tempo nos EUA
- A pecha de que a indicação já é suficiente
- A preferência de honrar Woody Allen na categoria de roteiro original
- O baixo número de indicações também é um empecilho


Abraçando o mundo

A ideia de falar sobre a criação do universo, a concepção de fé humana e a relação entre graça e natureza, a partir do microcosmo de uma família conservadora americana dos anos 50 parece uma ideia megalomaníaca e é. Não a toa, o cineasta Terrence Malick levou anos para materializá-la em um filme que gerou opiniões dissonantes, mas igualmente apaixonadas. A árvore da vida não é um legítimo vencedor do Oscar de melhor filme, mas sua presença na categoria ajuda a desmistificar a sisudez da academia.

Prós:
- É o vencedor da Palma de ouro
- Seria uma demonstração de que a academia pensa mais o cinema como arte do que como indústria
- É um filme que conta com cabos eleitorais poderosos
- É um projeto grandioso e o Oscar já reconheceu filmes desse perfil

Contras:
- A pecha de que a indicação já é suficiente
- Não é o melhor filme do ano e todo mundo sabe disso
- Seria uma forma de reconhecer Cannes como uma plataforma mais importante em termos de reconhecimento artístico e isso pode despertar a rivalidade dos membros da academia
- É um filme difícil, pouco visto e nem um pouco pop (ao contrário do pouco visto, mas muito midiático O artista)


Épico sentimental

É bem verdade que a participação de Steven Spielberg no Oscar 2012 é menor do que se antecipava, mas o intuito foi parcialmente alcançado. Cavalo de guerra, um filme à moda antiga, sobre uma guerra pouco retratada pelo cinema e sob o improvável ponto de vista de um cavalo está na disputa por seis estatuetas, incluindo melhor filme. Cavalo de guerra é um filme que apela às emoções fáceis, mas o faz com generosidade, honestidade e exuberância técnica. É justa sua presença na categoria.

Prós:
- É um épico que dialoga com grandes filmes do passado como os dirigidos por John Ford e Howard Hawks
- É filme de Steven Spielberg e esse nome tem um peso...
- É genuinamente emocionante
- O Oscar já premiou filmes que se utilizam descaradamente de artifícios manipulativos como Crash – no limite e Quem quer ser um milionário?

Contras:
- A ausência nas categorias de direção e roteiro adaptado podem lhe ser fatais
- Não goza de unanimidade crítica
- Premiar um filme em que o herói é um cavalo pode soar estranho
- O tom fabular da história vai contra as últimas escolhas da academia na categoria
- Não ganhou um prêmio sequer de melhor filme na temporada de premiações

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Oscar Watch 2012 - Primeiras impressões sobre a lista do Oscar

É inegável que, como todo ano, a lista dos indicados ao Oscar gerou algumas controvérsias. O que o Oscar 2012 tem, que os anteriores em período recente não tiveram, é uma profunda divisão na concepção de cinema que a academia anualmente propõe à indústria. Não é novidade que a academia é uma instituição conservadora. Mas como enquadrar nessa definição as indicações ao Oscar de filme e direção para A árvore da vida? Filme esquecido pelos sindicatos e lembrado apenas por uma ou duas associações de críticos. Filme de profundo viés filosófico que rachou a crítica por onde quer que tenha passado. Esse filme encabeçou, ao menos, 5% dos votos de todos os membros da academia (já que os indicados a melhor filme são escolhidos por todos os votantes).
Ainda que haja toda a máquina de Harvey Weinstein por trás de O artista, é preciso louvar o desprendimento de contemplar um filme francês, praticamente mudo e em preto e branco com dez indicações. O artista pode se tornar o primeiro filme mudo vencedor do Oscar de melhor filme em 80 anos. Não é pouca coisa. A invenção de Hugo Cabret, por sua vez, pode se tornar a primeira produção em 3D a receber tal honraria. São passos, notadamente, progressistas.

Jean Dujardin em cena de O artista: o destaque concedido ao filme já é uma ousadia; premiá-lo seria uma ousadia maior ainda...


Mas como enquadrar a exclusão absoluta de filmes tidos “difíceis” como Um método perigoso, Shame e Precisamos falar sobre o Kevin. Ou mesmo a exclusão de Os homens que não amavam as mulheres (um entretenimento adulto e pensante) das duas principais categorias? São manobras reacionárias de uma ala que ainda se incomoda com determinadas liberdades narrativas. O mesmo pode ser aferido da exclusão de As aventuras de Tintim da categoria de melhor animação. O departamento de curtas e animação da academia ainda resiste ao Motion Capture e não aceita a nova tecnologia como mais um recurso para animar um filme. A Fox fez pesada campanha para que Andy Serkis fosse indicado ao Oscar de coadjuvante por seu trabalho em Planeta dos macacos: a origem. A indicação não veio, muito em parte pela mesma percepção – dessa vez no colegiado de atores. Não se discute os méritos dos trabalhos em si, apenas o alcance deles nesse contexto específico.


(In) coerências
Não surtiram o efeito esperado as novas regras anunciadas pela academia para a escolha dos candidatos a melhor filme. Além de manter o inchaço (foram nove filmes ao invés dos dez dos últimos dois anos), filmes duramente criticados conseguiram vagas. Histórias cruzadas (4 indicações), Tão forte e tão perto (2 indicações) e A árvore da vida (3 indicações) passaram longe de ser unanimidades junto à crítica. O baixo número de indicações, e a pouca consistência delas, atesta que os novos critérios ainda não foram satisfatoriamente depurados pelos acadêmicos.
Cavalo de guerra, apesar de ostentar seis indicações, é um que parece caído de pára-quedas na categoria principal. Sem nenhuma indicação para categorias de atuação, roteiro ou direção, o filme de Spielberg deve confirmar as expectativas e fazer figuração na noite do dia 26 de fevereiro.
As categorias de roteiro demonstram uma crise em particular. Tudo pelo poder, um excelente drama político de alta voltagem, só foi lembrado na categoria de roteiro adaptado e ganhou a companhia de O espião que sabia demais, outro filme que poderia ter maior atenção. Candidatos a melhor filme ficaram sem indicação nessa categoria, casos de Histórias cruzadas, Tão forte e tão perto e o já citado Cavalo de guerra.
É o caso de Missão madrinha de casamento, comédia contemplada na categoria de roteiro original e que, supostamente, deveria ser a décima concorrente a melhor filme.
As categorias de roteiro nunca estiveram tão desencontradas da de filme quanto nesses últimos anos e, especialmente, em 2012.
Outra nota curiosa diz respeito ao filme Pina, de Win Wenders. A produção estava na última lista de candidatáveis ao Oscar de filme estrangeiro e foi parar na categoria de documentário. Enquanto isso, o favorito absoluto, Project Nim (um dos filmes mais elogiados do ano), não conseguiu uma indicação. O detalhe mais interessante é que Pina foi rodado em 3D e abre margem para a possibilidade da melhor ficção e  do melhor documentário do ano serem ambos produções 3D.

Brad Pitt e Jonah Hill, ambos indicados ao Oscar, em cena de O homem que mudou o jogo: com seis indicações (filme, roteiro adaptado, ator, ator coadjuvante, montagem e som), a fita de Bennett Miller é um dos raros casos de candidaturas consistentes ao Oscar de melhor filme


França, estúdios e símbolos
Não há como negar que esse Oscar tem certo sotaque francês. Três dos principais concorrentes estão intrinsecamente vinculados ao país presidido por Nicolas Sarkozy. Um deles, inclusive, conta com a esposa do dito cujo no elenco. O artista é uma produção francesa sobre Hollywood; Meia-noite em Paris é uma nostálgica viagem de Woody Allen ao momento definidor de Paris e A invenção de Hugo Cabret apanha o surgimento do cinema na França. Mas a França também está presente na categoria de animação (A cat in Paris) e pode ser consagrada em muitas outras categorias. Michel Hazanavicius goza de certo favoritismo entre os diretores. Apenas Scorsese, premiado recentemente, lhe oferece certo risco. Jean Dujardin já ganhou Palma de ouro, Globo de ouro e pode completar a trinca com o Oscar. Seria o primeiro europeu a triunfar na categoria principal de atuação desde Roberto Benigni, se desconsiderarmos - é claro - os ingleses Daniel Day Lewis e Colin Firth. Berenice Bejo também pode prevalecer entre as atrizes coadjuvantes. Ludovic Bource parece uma aposta segura entre os compositores e há mais chances para artistas franceses em outras categorias.
É interessante observar que, além dessa invasão francesa (de deixar os sempre prestigiados britânicos enciumados), a nostalgia parece mover este Oscar – conforme prognósticos em Claquete já apontavam.
Esqueça os três filmes já citados e se concentre, por exemplo, na categoria de ator coadjuvante. Com exceção de Jonah Hill, são todos atores consagrados (e bem veteranos) que jamais receberam um Oscar.
Há, ainda, filmes como Sete dias com Marilyn, Cavalo de guerra e A dama de ferro que podem ser observados sob o mesmo prima.
Fitas como Histórias cruzadas, O homem que mudou o jogo e Tão forte e tão perto atendem àquela demanda pelo drama com histórias de superação e força emocional.

Berenice Bejo no tapete vermelho do último Globo de ouro: ela pode ser mais uma francesa a desbancar americanas. A última foi Marion Cottilard


Outra curiosidade dessa edição do Oscar é que os filmes de maior força na disputa são produções independentes: O artistaOs descendentes e Meia- noite em Paris.
Mas os estúdios, no entanto, parecem mais alinhados do que de costume. A Paramount emplacou A invenção de Hugo Cabret e a Sony conseguiu indicação para O homem que mudou o jogo. Bem verdade que o estúdio esperava uma trinca com Tudo pelo poder e Os homens que não amavam as mulheres. A DreamWorks de Spielberg também colocou dois filmes entre os finalistas: Cavalo de guerra e Histórias cruzadas.
Resta saber se todos esses filmes terão o boom que alguns dos destaques do Oscar passado (O discurso do rei, Cisne negro e O vencedor) tiveram após as nomeações.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Oscar Watch 2012 - Como fica a corrida depois das indicações ao Producers Guild Awards?

A temporada do Oscar 2012 traz algumas idiossincrasias que a difere das duas ultimas. Quando a academia inchou a categoria de melhor filme com dez produções, o sindicato dos produtores (PGA) fez o mesmo. No entanto, nem em 2010, nem em 2011, ambas as listas coincidiram.
A importância do PGA, em termos de Oscar, é que a organização reúne os principais produtores de cinema dos Estados Unidos e é um dos colegiados mais influentes na academia. Contudo, dos principais sindicatos é o que menos acerta no Oscar (tanto em indicações quanto em vitórias) historicamente.
Isso posto, é preciso levar em consideração que foi nos prêmios do PGA ano passado – este ano o evento será realizado em 21 de janeiro – que O discurso do rei iniciou sua jornada rumo ao Oscar. Até então o domínio da temporada era de A rede social.

Cena de Missão madrinha de casamento, a grande "surpresa" da lista do PGA: indicação ao Oscar para o filme, no entanto, continua improvável...


Mas o que a atual temporada enuncia? Primeiramente que, muito dificilmente, teremos dez filmes indicados ao Oscar de melhor filme. Contudo, devemos ter algo muito próximo disso (oito talvez).
O que as indicações do PGA sacramentam são as candidaturas de alguns filmes. The artist, Os descendentes, Meia-noite em Paris, A invenção de Hugo Cabret e Histórias cruzadas, com presença garantida em todos os sindicatos que já anunciaram suas listas e também em premiações como Globo de ouro e Critics´Choice Awards parecem ser as certezas entre os indicados a melhor filme. Muito bem na disputa, e estamos falando ainda de indicações, estão Cavalo de guerra e O homem que mudou o jogo. Ambos entraram na lista do PGA e ostentam algum destaque no Globo de ouro e no Critics. No entanto, os filmes que vivem um boom justamente no momento em que as cédulas de votação para o Oscar foram despachadas são Tudo pelo poder e Os homens que não amavam as mulheres – este último angariando uma boa bilheteria nos EUA. Ambos conseguiram nomeações e devem brigar, mais propriamente entre si, por uma vaga entre os finalistas no Oscar. O filme de Clooney, nesse sentido, pode levar alguma vantagem por contar com um elenco primoroso e a própria figura de Clooney a seu favor. Ambas as produções são distribuídas pela Sony Pictures.

O produtor Scott Rudin (à esquerda) conquistou sua quinta indicação ao PGA consecutiva; a segunda por uma colaboração com diretor David Fincher (a direita). Eles estão na briga por Os homens que não amavam as mulheres


Missão madrinha de casamento, que completa a lista do PGA, é o chamado azarão. Com uma performance bastante sólida na temporada de premiações, seria surpreendente ver a fita indicada ao Oscar de melhor filme com a nova regra estabelecida pela academia. Difícil crer que 5% dos membros votantes colocariam a fita produzida por Judd Apatow no topo de suas listas de favoritos do ano. Portanto, salvo uma improvável vitória nos Globos de ouro, o triunfo de Missão madrinha de casamento se esgota aqui.
Há de se destacar a performance que Meia-noite em Paris vem exibindo nessa temporada de premiações. A fita de Woody Allen, lançada em maio nos EUA, seria em um rápido ranqueamento a quarta força da Oscar season. Atrás apenas de The artist, A invenção de Hugo Cabret e Os descendentes.
Se Meia-noite em Paris surpreende, Tão forte e tão perto e J.Edgar decepcionam. Os dois filmes, de diretores consagrados, logo que foram anunciados eram tidos como legítimos front runners na temporada e agora parecem restritos a corridas menores. O anúncio do PGA serviu, também, para extinguir as chances de nomeação para Harry Potter e as relíquias da morte –parte II e A árvore da vida. Os dois filmes, que suscitavam esperanças de suas respectivas bases de fãs, devem figurar no Oscar em categorias menores. 

Oscar Watch 2012 - É meia-noite em Paris?



Muitos analistas estão classificando este ano como o da volta de Woody Allen. Mas não foi 2005, quando apresentou Match point- ponto final? Ou então, 2008, com Vick Cristina Barcelona? O que faz de Meia-noite em Paris tão especial? A melhor pergunta, talvez seja, o que faz desse ano de 2011 melhor do que os outros para o alardeado retorno de Wooy Allen?
Depois da consagração do academicismo no ano passado com a vitória de O discurso do rei no Oscar após total domínio do verborrágico A rede social nos prêmios preliminares, Hollywood, nesta temporada, presencia uma nostalgia pelo próprio cinema. Há dois anos, Avatar apontava para o futuro e um dos principais filmes da temporada aponta para o passado. O francês The artist é praticamente mudo, rodado em preto e branco e versa sobre o impacto da chegada do som no cinema. É uma figura de linguagem interessante sob tais circunstâncias. Paris também é base de A invenção de Hugo Cabret. Um filme que também fala das origens do cinema, mas vale-se dos recursos mais recentes para tal.
Em comum com Meia-noite em Paris esses dois filmes, que concorrem ao Globo de ouro de melhor filme e estão bem colocados na disputa para o Oscar, têm esse sabor de volta ao passado. Parecem imbuídos de prover perspectiva a quem faz e quem aprecia cinema hoje. Não à toa foram realizados por um francês e dois dos cineastas americanos mais importantes de todos os tempos.  
Voltando a Meia-noite em Paris, uma de suas maiores qualidades é conseguir ser, ao mesmo tempo, ode ao passado e culto ao presente. Esse preciosismo narrativo é um dos destaques do texto arejado de Woody Allen.
O filme recebeu especial atenção no Globo de ouro com nomeações para filme em comédia/musical, direção, ator em comédia e roteiro. Allen, portanto, concorre em três categorias. Meia-noite em Paris também foi lembrado pelo sindicato dos atores que o nomeou para a categoria de melhor elenco do ano. Um forte indício de que o filme é apreciado pela classe dos atores, maior colegiado entre os votantes da academia.
Já The artist que é sobre Hollywood propriamente dito e sobre uma maneira de fazer filmes relegada ao passado, goza de mais prestígio nessa etapa da temporada de premiações. É líder de indicações tanto no Globo de ouro quanto no Critic´s Choice Awards e o filme mais premiado pela crítica até o momento.
Resta saber se no momento da entrega das estatuetas do Oscar, o relógio ainda estará marcando meia-noite.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Oscar Watch 2012 - Cenas de cinema

Mais fogo na fogueira
Enganou-se quem imaginava que as indicações para o SAG clareariam o horizonte para o Oscar. Os indicados ao SAG 2012, pelo contrário, tornam a coisa toda mais indefinida. É lógico que a lista deixou claro de uma vez por todas que The artist, distribuído pelo expert Harvey Weinstein, vem forte para a temporada. Mas isso já era notório antes das indicações ao SAG. Com esnobadas triunfais (a ausência de Albert Brooks por Drive e Shailene Woodley por Os descendentes entre os coadjuvantes) e um apreço até certo ponto surpreendente pelas comédias (Meia noite em Paris e Missão madrinha de casamento receberam indicações por elenco), o SAG 2012 não deve exercer o ofício que lhe coube nas temporadas de 2010 e 2009 de filtro inconteste.


Os reveses dos reveses
A invenção de Hugo Cabret, que vinha dividindo as atenções com The artist nos prêmios da crítica, se viu completamente fora do SAG. O mesmo ocorreu com outras produções badaladas na temporada como Tão forte e tão perto, Cavalo de guerra e O espião que sabia demais. Este último, depois da esnobada na lista do Critic´s Choice Awards, começa a se vestir como azarão, apesar das boas críticas.
Em contra partida, J.Edgar que vinha sendo eclipsado ganhou força com as lembranças de Leonardo DiCaprio e Armie Hammer. Nick Nolte (Warrior) foi outro que viu sua cotação subir, assim como Melissa McCarthy (Missão madrinha de casamento) que após alguns prêmios da crítica se estabiliza de vez como concorrente ao Oscar de atriz coadjuvante – ainda que sua candidatura não tenha tanta sustância.

Os indicados ao SAG 2012

Elenco

The Artist
Missão Madrinha de Casamento
Os Descendentes
Histórias Cruzadas
Meia-Noite em Paris


Ator

Demián Bichir (A Better Life)
George Clooney (Os Descendentes)
Leonardo DiCaprio (J. Edgar)
Jean Dujardin (The Artist)
Brad Pitt (O Homem que Mudou o Jogo)


Atriz

Glenn Close (Albert Nobbs)
Viola Davis (Histórias Cruzadas)
Meryl Streep (A Dama de Ferro)
Tilda Swinton (Precisamos Falar Sobre o Kevin)
Michelle Williams (Uma semana com Marilyn)


Ator coadjuvante

Kenneth Branagh (Uma semana com Marilyn)
Armie Hammer (J. Edgar)
Jonah Hill (O Homem que Mudou o Jogo)
Nick Nolte (Warrior)
Christopher Plummer (Toda forma de amor)


Atriz coadjuvante

Bérénice Bejo (The Artist)
Jessica Chastain (Histórias Cruzadas)
Melissa McCarthy (Missão Madrinha de Casamento)
Janet McTeer (Albert Nobbs)
Octavia Spencer (Histórias Cruzadas)





Time dos bonitões quase completo
Ryan Gosling e Michael Fassbender não entraram. O que ainda não os exclui do Oscar. Pelo menos por enquanto. Mas deixa encaminhado que a briga lá nos finalmente tende mesmo a se concentrar entre George Clooney (Os descendentes), Brad Pitt (O homem que mudou o jogo) e Jean Dujardin (The artist).

O fator DiCaprio
A inclusão de Leonardo DiCaprio, sempre festejado por seus pares atores, não lhe garante no Oscar. Contudo, a forte semana que vem tendo (já foi indicado ao Critic´s Choice e tudo leva a crer que será lembrado pelo Globo de ouro) pode revigorar sua candidatura e, quem sabe, favorecer o filme que representa (J.Edgar) em outras categorias.

Ao povo o que é do povo
Em 2010 muito se conjecturou da ausência de candidatos “de cor” como a infeliz percepção que ainda se preserva de minorias sugere. Pois bem, em 2011 Histórias cruzadas está aí para lavar a alma dos politicamente corretos. O drama de cunho racial não só é o líder na corrida pelo SAG com quatro indicações, como é o favorito em pelo menos duas delas. Elenco e atriz coadjuvante.
O filme, vale lembrar, é o maior sucesso de público entre os concorrentes. Seguido de perto pela comédia Missão madrinha de casamento.

Filmes de meninas
Alguém já reparou que nos concorrentes para melhor elenco, o brilho das mulheres é maior? E que as tramas parecem buscar respaldo nesse público?


Quem sai?
A categoria de atriz coadjuvante é a que mais parece definida para o Oscar. Contudo, a pergunta é quem sai para a entrada de Shailene Woodley no Oscar? O palpite de momento é que o empurra empurra fica entre Melissa McCarthy (Missão madrinha de casamento) e Janet McTeer (Albert Nobbs).

Shailene Woodley que quase rouba a cena de George Clooney em Os descendentes: difícil imaginar um Oscar sem ela...


O gordinho de Superbad
Muito se falou sobre possíveis indicações para Jonah Hill por O homem que mudou o jogo. Os prêmios preliminares da crítica não corroboraram essas especulações. Mas não é que elas vieram? Os críticos de Houston o nomearam para melhor coadjuvante e agora o sindicato dos atores subiu o seu passe de vez na temporada. Resta saber se The sitter, recém lançado nos EUA e com péssimas críticas, lhe atrapalhará a jornada por um reconhecimento que ninguém julgava o gordinho de Superbad capaz de receber.


E Gary Oldman como vai?
Resta ao brilhante ator britânico, que só colhe elogios fervorosos por O espião que sabia demais, contar com a simpatia da Hollywood Foreign Press Association (HFPA) para ter seu nome na pauta das temporadas de premiações. Excluído do Critic´s Choice Awards e do SAG e, provavelmente nomeado ao Bafta, o ator precisa de outra premiação major para não ser carta fora do baralho.

Tilda vai comendo pelas beiradas
Quando surgiu em Cannes com Precisamos falar sobre Kevin, só dava Tilda Swinton. O prêmio de atuação não veio e com o começo das especulações para a Oscar season poucos, e Claquete é um dos poucos, incluíam seu nome entre os oscarizáveis. Hoje às vésperas de uma definição mais encorpada sobre quem de fato está na disputa pelo prêmio, Tilda é uma das duas atrizes a figurar em todas as listas de premiações. A outra é Michelle Williams (Uma semana com Marilyn). A atriz ainda lidera o número de prêmios na temporada.
Tilda toda boba com sua estatueta conquistada em 2008 como coadjuvante por Conduta de risco: ela já tem um Oscar, mas quem disse que ela está satisfeita?


Quem é esse cara aí?

A inclusão do mexicano (e não tão bonito) Demian Bichir entre os candidatos a melhor ator por A better life causou certo espanto. Na verdade, o ator – cujo papel de maior destaque havia sido de um traficante na série Weeds – já havia sido indicado ao Spirit Awards. Sua atuação tem sido excepcionalmente elogiada e o SAG tem certa tradição em reconhecer um ou outro ator desconhecido. Todo ano acontece. No entanto, raramente na categoria de ator. O fato reforça a qualidade do trabalho de Bichir em A better life e mostra que o sindicato está de fato observando o que há de melhor em matéria de cinema, não só nadando com a maré.

Vale pelo do ano passado também viu!
Um dos furacões do excelente A rede social foi Armie Hammer, que rapidamente se viu no centro das atenções em Hollywood. Escalado para ser o príncipe de uma das versões de Branca de neve que chegam aos cinemas em 2012, Hammer com seu físico de atleta, também se viu na pele do amante não oficial (e que amante é, né?) de Leonardo DiCaprio em J.Edgar. Depois de concorrer ao SAG de elenco ano passado pelo filme de David Fincher, ele ganha agora uma indicação toda sua.


Nem Freud explica
Se existe um filme que está passando totalmente em branco nessa temporada de premiações é Um método perigoso. O filme de David Cronenberg recebeu boas críticas, mas o tema áspero e hermético do qual trata parece impedir que a fita prospere na temporada de premiações. Curiosamente, Drive – que muitos criam que não vingaria por ser violento demais – vem tendo uma performance surpreendente.


Incoerência?
O elenco de Meia noite em Paris merecia a distinção ofertada pelo sindicato dos atores, mas é inegável que o filme chega à disputa enfraquecido; sem uma menção sequer nas demais categorias de atuação. No entanto, o apoio da classe dos atores pode fazer com que a fita de Woody Allen cresça de tamanho para o Oscar. De qualquer maneira, em termos de SAG, não deixa de ser um corpo estranho.

The comeback of the year
Todo ano tem. E essa temporada está cada vez mais com cara de Nick Nolte. O ator que, dizem, está ótimo na nova série da HBO (Luck) vive um pai treinador de dois irmãos em rota de colisão em um campeonato de MMA (Artes Marciais Mistas) em Warrior, o “mamãe quero ser O vencedor do ano”.
Nolte já concorreu ao Oscar em duas outras oportunidades. Em 1993 por O príncipe das marés e em 1998 por Temporada de caça. Em ambos os casos disputou como ator principal. Nolte que já tem mais de 80 filmes no currículo e marca presença em Hollywood desde os anos 70 não foi tão fundo no poço quanto Mickey Rourke, outro ressurgido das cinzas recente, mas chegou bem perto.



A voz das urnas
80% dos (e) leitores do blog apontaram que Os descendentes deve liderar a corrida pelo Globo de ouro, cuja lista será anunciada amanhã. 12% cravaram em The artist como a opção para maior número de indicações. 

Em uma briga cada vez mais definida entre veteranos, Nolte mostra os dentes 

sábado, 25 de junho de 2011

Crítica - Meia noite em Paris

Paris sob chuva!


Meia noite em Paris (Midnight in Paris, FRA/ING 2011) é daqueles filmes que tocam o íntimo do espectador. E o faz por ser agradável, inteligente e, mais do que qualquer coisa, pertinente. Com a história de Gil (Owen Wilson), um roteirista de Hollywood enamorado de Paris e do ideário que cerca a cidade, Allen atenta para a importância da fantasia e, de maneira concomitante, adverte que é preciso estar com os dois pés no presente. Saber saborear a vida no que ela nos provê. É preciso apontar que o grande trunfo de Meia noite em Paris, esse filme tão apaixonante e climático, é abraçar essas duas causas sem fazer com que uma anule a outra.
Toda a mise-en-scène remete a um típico filme de Woody Allen e aqui ele dialoga com sua própria obra. A referência mais óbvia é A rosa púrpura do Cairo, ótimo filme de 1985 em que os personagens de um filme ganhavam vida e interagiam com Mia Farrow, mas outras produções surgem na memória do cinéfilo. A declaração de amor que Gil faz à Paris com Adriana (Marion Cottilard) como confidente parece tirada de Manhattan (1979). Woody Allen foi a Paris para se inspirar. Se Carla Bruni surge discreta como musa, Allen se permite reimaginar angústias e picardias de alguns dos seus musos inspiradores (a sugestão que Gil dá a Luis Buñuel para um filme é daqueles momentos que fazem o cinema se tornar algo maior).
Meia noite em Paris vai se construindo sobre cenas memoráveis (como quando Gil corrige o pedante Paul sobre a inspiração de Pablo Picasso para um quadro) e sobre fragmentos de nostalgia de seu diretor. Para embarcar nessa experiência proposta por Allen é preciso estar disposto a se deixar maravilhar pela digressão que se avoluma quando os sinos tocam meia noite em Paris.
Em seu 48º filme, Allen se apresenta mais sentimental, menos irônico, mas não menos cínico. A esnobe noiva de Gil (vivida com gosto por Rachel McAdams) e sua família, e mesmo o intragável Paul de Michael Sheen, não deixam de ser representações de uma sociedade divorciada do romantismo que extravasa em Gil – o sujeito que se regozija com a possibilidade de chuva em Paris.
Meia noite em Paris quer ser esse passeio em Paris sob chuva. Melhor publicidade para a cidade e terapia para o nostálgico não há. Resta saber se o leitor se importa de se molhar?

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Filme em destaque: Meia noite em Paris

Em busca de uma nova obra-prima

Na foto, Woody Allen instrui Carla Bruni, seu primeiro casting para o filme. Com Meia noite em Paris, o diretor americano oxigena sua obra com poesia e nostalgia e Claquete ajuda a entender o por quê 


“Trata-se de um Woody Allen mais sentimental”, avaliou o New York Times em sua resenha para Meia noite em Paris, 48º filme do cineasta americano e o 6º rodado na Europa. O filme, que abriu o festival de Cannes, é – no rótulo mais óbvio – uma declaração de amor de Allen à cidade luz dos apaixonados, Paris. “Só tinha o título do filme. Não sabia o que fazer com ele. Estava apavorado”, admitiu o diretor em entrevista coletiva no último festival de Cannes.
Mas Meia noite em Paris também pode ser descrito como uma ode a nostalgia de um diretor a vontade com seus vícios e suas manias. “A Paris do filme é a Paris que vi nos filmes”, pontuou em entrevista ao Hollywood Reporter. O filme também é uma homenagem a arte. Com menções a Pablo Picasso, Luis Buñuel, Salvador Dalí, F.Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway, Allen clama pela cumplicidade da platéia e, mais que isso, por sofisticação e cultura.
“Nunca me considerei um artista”, exclamou para espanto de todos na abertura do festival francês. Na ocasião, o diretor disse que frequentemente somos pegos na armadilha de fantasiar de que viver em outra época seria melhor. Segundo Allen, esse romantismo é inerente ao ser humano. “Todos querem escapar da vida que vivem agora. Mas, se você pensa em tempos passados, você pensa nas coisas maravilhosas. Só que não tinha novocaína, não tinha ar-condicionado, nada das coisas que tornam a vida de hoje tolerável. Parece sedutor, mas é uma armadilha”, afirmou para gargalhadas do público.

Owen Wilson é o alter ego da vez de Woody Allen e, para variar, está em crise... mas está em Paris

Meia noite em Paris tenta capturar essa dicotomia a qual se refere o diretor. É um filme que mergulha na nostalgia para tirar o positivo do presente. Para isso, Woody Allen contou com um elenco dos mais ecléticos e chamativos. Owen Wilson faz Gil, o protagonista. Um roteirista de Hollywood com dificuldades para escrever um romance. Ele viaja com sua namorada (vivida por Rachel McAdams) e a família dela para Paris, esperançoso de que a inspiração lhe encontre. E ela encontra. Não na figura do ex engomadinho de sua namorada (vivido por Michael Sheen), mas em encontros luminosos com esses grandes artistas do passado. Obviamente, também há um luminoso encontro com o amor. Não é com a namorada que pouco parece compreendê-lo, tão pouco com a primeira dama francesa Carla Bruni que, presença ilustre, faz uma ponta como uma guia de museu. O amor resplandece na figura de Adriana (Marion Cottilard).
Allen, no final das contas, parece ter capturado a poesia do título. Em sua fase européia, o cineasta alterna amargura (Você vai conhecer o homem dos seus sonhos), pessimismo (O sonho de Cassandra), paixão (Vick Cristina Barcelona), humor (Scoop – o grande furo) e poesia (Meia noite em Paris), com a desenvoltura de quem busca uma nova obra-prima (a última foi Match point – que marcou o início da temporada na Europa). A cada filme ele parece mais perto.