terça-feira, 16 de agosto de 2011

Perfil - Jason Sudeikis

Talento para a coisa


Nascido em 18 de setembro de 1975 em Fairfax na Virgina, no oeste americano, Daniel Jason Sudeikis sabia que o humor estava em seu DNA. Na escola Shawnee Mission West High School, em que também estudou Paul Rudd, organizava festivais de humor em que sempre se destacava pelo espírito zombateiro. Sudeikis deu sequência a sua busca por um lugar ao sol no humor americano em Las Vegas onde frequentou trupes de humor que se apresentavam em casas noturnas da cidade. Foi em um desses espetáculos que um olheiro do Saturday Night Live lhe abordou e Daniel abandonou esse primeiro nome e passou a assinar artisticamente como Jason Sudeikis. Desde 2003 no ar no SNL, Sudeikis também colabora com os textos do programa, o comediante vem ganhando espaço no cinema. Assim como outras figuras como Eddie Murphy, Adam Sandler e Will Ferrel projetadas no mais longevo programa de humor da tv americana, Sudeikis tenta se viabilizar como astro de cinema.
Sua primeira aparição em um lançamento de grandes proporções foi em Jogo de amor em Las Vegas (2008), em que fazia um dos amigos idiotas de Ahston Kutcher. E Sudeikis provou saber fazer um idiota tão bem que foi chamado para viver outros em comédias românticas de tom similares. Em Caçador de recompensas (2010) e Amor à distância (2010), Sudeikis já contou com mais tempo em tela para demonstrar todo o seu talento em ser repugnante. Mas o ator deixou transparecer nesses três trabalhos, uma profunda capacidade de promover empatia com o público e um talento visceral para a comédia física. E desde que o canadense Jim Carrey surgiu, nenhum outro comediante conseguiu fazer da cara de tacho algo genuinamente engraçado – que Ben Stiller nos perdoe.

Roupa de gala: Sudeikis foi o host do MTV Movie Awards em 2011

Talvez tenha sido isso que motivou os irmãos Farrelly a escalarem Sudeikis como protagonista, ao lado de Owen Wilson, de sua nova comédia. Em Passe livre (2011), ele faz um sujeito casado vidrado em qualquer rabo de saia. É ele o fiador da comédia no filme dos Farrelly que, não à toa, escreveram as melhores piadas para seu personagem.
O potencial de Sudeikis pode ser observado pelo crescente número de produções para o cinema que estrela. Em 2011, além de Passe livre, o ator lança Quero matar meu chefe – em cartaz nos cinemas – e A good old fashioned orgy. Dois filmes que assumem seu viés sarrista e fazem do sexo uma matéria prima do humor. E é Sudeikis quem põe a cara a tapa nesse aspecto. Há quem possa se surpreender com o tipo pegador que ele faz em Quero matar meu chefe (ele é o único dos três principais personagens que, de fato, transa; e as conquistas são Jennifer Aniston e Julie Bowen), mas isso é, na verdade, um decalque do Jason de fora das telas. Após o divórcio de Kay Cannon, concluído em março do ano passado, Jason engatou um romance com a loira January Jones (de Mad men e X-men: primeira classe) que já se dissolveu em janeiro desse ano. Os amigos atestam que Jason não tem o que reclamar quando o assunto é mulher. Sudeikis veio mesmo para conquistar Hollywood.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Crítica - A árvore da vida

Sobre humanidade...


Talvez A árvore da vida (The tree of life, EUA 2011) não seja um filme para se gostar. Certamente não é do tipo para desgostar. É difícil elaborar a relação que o espectador terá com a nova obra de Terrence Malick. Assim como seus filmes anteriores, o tom contemplativo prevalece, mas a proposição existencialista intrínseca à narrativa faz com que a fita assuma um viés polarizante irrevogável.
Em um primeiro momento A árvore da vida se abre para as mais distintas interpretações. Esse movimento se dá pela opção de Malick em evitar conflitos em seu filme. O grande conflito é externo. Afinal, qual é a função do homem no planeta? Podemos definir a essência da vida? São questões que Malick, convergindo graça e arrogância, tenta responder em duas horas e meia não cronológicas de filme.
E consegue? Não necessariamente. Há quem possa dizer que a ideia não era prover respostas, mas fomentar a reflexão. Não deixa de ser um raciocínio válido, ainda que incompleto. Desde as imagens que remetem à criação do universo, passando pela evolução das espécies, o que Malick parece dizer é que a espiritualidade é o caminho para o homem aceitar sua insignificância ante tamanho gigantismo da natureza. Logo no início da fita é colocada a questão entre o caminho da graça e o da natureza. O off dos personagens reproduz questionamentos que caracterizam angústias não só dos personagens, mas do público também.
Ainda sobre esse off, ele se prova um recurso anacrônico em A árvore da vida. Embora traduza o estado de espírito dos personagens e a linha de raciocínio do filme de Malick, ele empobrece as próprias imagens que o diretor cria. A experiência sensorial surge inconvicta mediante a opção de sublinhar a própria grandiloquência. Em contrapartida, se não fizesse isso, Malick corria o risco de não se fazer entender. Isso tudo ocorre porque o diretor decidiu afastar-se de alguns dogmas do cinema. Não por decidir-se por não ser comercial ao apresentar uma história de perda familiar de maneira metafísica, mas por fazê-lo de maneira viciada.
A árvore da vida não deixa de ser mais um filme em que Malick demonstra seu interesse antropológico. A fita se relaciona – e isso é saudável – com os trabalhos anteriores do diretor. O interesse em entender o homem é um dos meios para entender a natureza, o universo. Malick nunca escondeu isso. Essa disposição faz bem à A árvore da vida. As relações no seio da família O´Brien estabelecem um painel, ainda que conservador, belo e pungente sobre angustias humanas universais. O rigor do pai (Brad Pitt) e a graça da mãe (Jessica Chastain) digladiam-se dentro de Jack (na infância Hunter McCracken e na fase adulta Sean Penn) e essas reminiscências vão ao encontro da literatura filosófica e terapêutica.

Disciplina, amor e reflexão: três palavras de ordem em A árvore da vida


Malick acerta ao fluir o ponto de vista da narrativa. Predominantemente infantil – assumindo a perspectiva de Jack, inclusive no nível da câmara - e por vezes se posicionando como observador (e Sean Penn geralmente aparece quando essa é a situação).
É inegável que Malick fez um filme para se divagar a respeito. A ideia, mais do que a preocupação se A árvore da vida será apreciado ou não, parece ser se o filme transmite toda a pluralidade do pensamento humano sobre si e sobre o espaço que ocupa.
É nesse aspecto que a trama falha. Plasticamente belo, o que ajuda a forjar uma complexidade inexistente em termos de proposta, A árvore da vida falha em sua afirmação primal. É, sem dúvidas, um filme de referências filosóficas inesgotáveis, mas referências não garantem legitimidade em qualquer trabalho que se apresente. Apenas permitem que essa legitimidade se eleve. As conjecturas de Malick impressionam na mesma medida que cansam espectadores dispostos a uma experiência metafísica mais profunda ou a um exercício intelectual mais altivo. Como de hábito em sua filmografia, Malick ficou imerso entre ambos. Não é o pior dos mundos, mas torna imerecida a alcunha de obra-prima.

domingo, 14 de agosto de 2011

Insight

O produtor Brad Pitt


Você o conhece como ator. E de uns tempos para cá tem se impressionado com as ótimas escolhas que Brad Pitt tem feito. Bastardos inglórios (2009), O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford (2007), Queime depois de ler (2008), Babel (2006) e o inédito Moneyball (2011) são alguns dos filmes em que Pitt se destacou como ator. O que muitos espectadores/leitores ignoram é que esse upgrade na carreira como ator se relaciona intrinsecamente com a descoberta de uma nova faceta de Brad Pitt por Brad Pitt: o produtor de cinema.
Tudo começou quando ele e Jennifer Aniston criaram a Plan B, que Pitt assumiu o controle inteiramente após o divórcio. A ideia era conferir visibilidade com o apoio da imagem do casal a projetos que não obteriam financiamento de outra maneira. Com a separação, a Plan B preservou a vocação para apoiar filmes menores, mas Pitt engajou-se na cata a esses filmes.
Um impulso positivo foi Os infiltrados, que Pitt considerou estrelar, mas comprometido com as filmagens de Babel – em que também atuava como produtor executivo – preferiu abster-se. Manteve-se como o segundo principal produtor da fita – abaixo apenas de Graham King que é uma espécie de agente do estúdio Warner Brothers entre produtores. Pitt lutou para que o estúdio bancasse uma campanha para o Oscar e deu resultado. Os infiltrados sagrou-se o grande vencedor do Oscar daquele ano e Pitt, além de possuir uma produtora, se viabilizava como produtor eficaz.

Pitt troca uma ideia com o diretor de Babel, Alejandro Gonzales Iñarritu: papel de coadjuvante e produção executiva


O drama indie Correndo com tesouras (2006), dirigido por Ryan Murphy – hoje festejado por sua cria Glee – foi dos primeiros projetos acolhidos pela Plan B. Pitt bancou o retorno de Angelina Jolie aos filmes de respaldo artístico em O preço da coragem (2007), do qual é o principal produtor. Ele participou ativamente da pré-produção ao lado do diretor inglês Michael Winterbottom. Curiosamente, a ideia de dramatizar a trajetória do jornalista americano Daniel Pearl morto por terroristas no Paquistão foi dos primeiros projetos da Plan B ainda com Jennifer Aniston ligada à produtora.
Ao intensificar sua atividade como produtor, Brad Pitt passou a peneirar mais os roteiros que recebia e não se furtou a hipótese de produzir os filmes em que tinha interesse em atuar. Foi assim com O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford, O curioso caso de Benjamin Button (em que retomou a colaboração com David Fincher), A árvore da vida (que estreou neste fim de semana nos cinemas brasileiros) e nos filmes ainda em produção Cogan´s trade e World war Z.
Foi pela recusa da Sony em lhe apresentar o roteiro do remake americano de Os homens que não amavam as mulheres, que David Fincher lança no final deste ano, que o ator recusou o papel que acabou ficando com Daniel Craig. O estúdio queria que Pitt assinasse o contrato com o roteiro ainda inconcluído. O Brad Pitt produtor não poderia compactuar com isso, portanto, o Brad Pitt ator disse não.

Brad Pitt foi a Cannes, em 2007, como produtor de O preço da Coragem e marido da estrela do filme. Na foto, acompanha os demais integrantes da equipe


Embora continue lançando, em média, um filme por ano como ator, Pitt investe com maior propriedade na função dos bastidores. Te amarei para sempre (2009), A vida íntima de Pippa Lee (2009), Kick Ass-quebrando tudo (2010) e Comer, rezar, amar (2010) têm em comum o nome de Brad Pitt como produtor. Uma característica que os três últimos apresentam é a atuação de Pitt como produtor, mesmo sem o envolvimento da Plan B. É Pitt alargando seu portfólio como produtor e investindo no metiê independentemente de atuar resguardado por sua produtora. Não que o futuro da Plan B esteja vinculado às conquistas pessoais de Pitt. A empresa já firmou acordos de distribuição com três grandes estúdios hollywoodianos: Paramount, Fox e Warner.
Brad Pitt caminha para constituir um legado totalmente diferente do que o que sua aparência já se encarregou de fazer.

Claquete Repercute - O virgem de 40 anos

Entre muitos sensos comuns na comédia romântica americana, dois se destacam. O primeiro versa sobre o público alvo: as mulheres. O segundo, mais complexo, delimita a estrutura e a moral do gênero que resiste a sexualização itinerante – e as quebras de certos tabus inerentes - pela qual passou a sociedade nas últimas décadas.
O virgem de 40 anos (The 40 year old virgin, EUA 2005) derruba essas convenções com certa desenvoltura. O primeiro longa metragem de Judd Apatow é debochado, jovial, maduro, engraçado, romântico e sexualizado do começo ao fim. A sinopse já antecipa a ação. Steve Carell faz Andy, um sujeito tímido, mas atencioso, que trabalha em uma loja de eletrônicos. O que a gente logo descobre é que Andy é virgem. Algo que seus amigos, igualmente na casa dos 40, julgam inconcebível. Seth Rogen, colaborador de Apatow desde os tempos da tv, Paul Rudd e Romy Malco fazem os amigos em questão.
Em seu primeiro momento, O virgem de 40 anos brinca com as expectativas do público em observar o cotidiano desse cara gente boa, mas que não tem lá muita ginga. A figura do nerd, atualmente em alta na cultura pop, foi celebrada com carinho por Apatow em seu filme. É aqui o marco zero do movimento que culminaria no sucesso estrondoso de séries como The big bang theory e Glee.
Mas a contribuição de O virgem de 40 anos não se limita a extinguir o bullying cultural que a figura do nerd tanto sofria. A fita é uma comédia de situação que evolui para uma comédia romântica masculina sem se fissurar. Provar que o público masculino aprecia sim comédias românticas, desde que com o termostato (ou açúcar se preferir) ajustado, talvez seja a grande realização de Judd Apatow. Não à toa, foi com Apatow que surgiu uma nova definição de comédia – o bromance. Nesse tipo de comédia, festeja-se “o amor entre amigos de fé e irmãos camaradas”, para se referenciar em algo que a música brasileira já havia descoberto em Erasmo e Roberto anos antes.
Foi a turma de Apatow que deu seguimento ao recém-nascido gênero. Filmes como Superbad – é hoje e Eu te amo cara rezam a cartilha de O virgem de 40 anos, ainda que apresentem conflitos diferentes e que não versem sobre o amor romântico.

O romance está no ar: O virgem de 40 anos assume seu lado fofo, mas sem dar muita bandeira

A importância da fita estrelada por Steve Carell ainda não se reduz a todos esses elementos listados acima. O oxigênio que Judd Apatow bombeou na comédia americana – que lhe valeu o topo na lista da revista americana Entertainment Weekly como a pessoa mais influente de Hollywood na década passada à frente de figuras como Will Smith, Steven Spielberg e Tom Hanks – cristalizou a necessidade de se investir em novas frentes. Mais gente da TV se experimentou no cinema (Tina Fey, Jason Sudeikis, Tracy Morgan e Charlie Day para citar alguns) e a instituição comédia romântica percebeu que podia ser mais sacana. Trazer os namorados para debaixo dos lençóis também.
O virgem de 40 anos não é a descoberta da pólvora, como o entusiasmo pode fazer parecer, mas é a combinação mais rarefeita de talento, timing e oportunidade. E em Hollywood esses três fatores também costumam dar samba.

sábado, 13 de agosto de 2011

Momento Claquete # 18

Pais & filhos
Papai Brad e sua prole: na foto, o trio de rebentos adotados em diferentes partes do mundo 


"Um dia você vai me superar": Kirk Douglas brinca com o filho Michael em uma foto rara que o leitor de Claquete tem acesso

Quase sessenta anos depois...: Michael Douglas mima uma de suas filhas com a segunda mulher Catherine Zeta Jones 


Princesa moderna: Suri Cruise é tudo aquilo que Tom Cruise sonhou e ele não se cansa de babar


O chefão e a condessa: Francis Ford Coppola carrega Sofia em seus ombros. Hoje, já não é mais assim...


Pai e filho no negócio do carisma: Will Smith nem precisou se esforçar para viabilizar seu filho, Jaden, como astro teen 


Papai já ganhou Oscar: Bryce Dallas Howard se dá bem como atriz, carreira que o pai Ron tentou antes de se tornar um diretor e produtor de sucesso 


Entre orgulhos e vexames: uma das mais conhecidas dinastias de Hollywood anda encolhida ante os frequentes colapsos do mais midiático de seus integrantes. Mas o pai, Martin Sheen, tem amor de sobra para Charlie e Emilio Estevez 


Paternidade redentora: Quem já viu, diz que Ben Affleck é outro homem após o nascimento de sua filha

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Filme em destaque: A árvore da vida


Programado para junho, o mais recente filme de Terrence Malick finalmente estréia nos cinemas brasileiros. Vencedora da Palma de Ouro em Cannes, a produção traz Brad Pitt e Sean Penn em um questionamento existencialista


“Foi a experiência mais exaustiva da minha vida”, sintetizou Brad Pitt na entrevista coletiva de A árvore da vida no último festival de cinema de Cannes – de onde o filme saiu com o prêmio máximo, a Palma de Ouro. Pitt é um dos produtores de A árvore da vida, um projeto particular e muito calejado de Terrence Malick – um cineasta bissexto que reúne um valoroso séquito de admiradores. Outro ator presente na premiere do filme em Cannes foi Sean Penn. Foi a segunda vez que Penn trabalhou com Terrence Malick – a primeira foi em Além da linha vermelha (1998). Quem não esteve na premiere foi o próprio Malick que, ao também não comparecer a cerimônia de premiação, aumentou a própria fama de recluso. “Terrence constrói casas. Ele não quer fazer o papel do corretor de imóveis e ter que vendê-las também”, afirmou Brad Pitt em uma pedestre comparação na tentativa de justificar a ausência do cineasta.
Malick, de fato, teria muito trabalho para vender seu filme. A reação foi dividida. Os aplausos abafaram as vaias, mas elas ainda podiam ser ouvidas. A crítica americana também se dividiu. Críticos do mundo inteiro passaram a questionar a real dimensão de Malick e de sua obra no cinema. A percepção do crítico brasileiro Ricardo Calil captura bem o sentimento da crítica sobre A árvore da vida. Com um artigo intitulado “Terrence Malick é o Dodô do cinema”, o crítico defende que o cinema de Malick emperra na plasticidade das imagens. Na busca pelo plano perfeito (“Malick construiu uma obra inteira a partir do contraluz!”, exclama em certo momento”). Calil, de maneira bem humorada, argumenta que tal qual o jogador que passou por clubes como São Paulo, Botafogo e Cruzeiro, o diretor resiste a fazer um gol feio: “Malick só entraria para a minha seleção de cineastas favoritos se ele fosse capaz de fazer um plano feio. Nem que fosse só um mesmo. Porque, no meio daquela beleza toda de A Árvore da Vida, eu me sentia constantemente compelido a gritar: “Chuta de bico, Malick, porra!”.

Imagens belíssimas: A crítica americana não tem certeza sobre a presença de A árvore da vida entre os melhores filmes no Oscar, mas acha difícil que a fita fique fora de algumas categorias como fotografia e direção de arte



Em busca da perfeição
A árvore da vida estava programado para o festival de Cannes de 2010. Não entrou na seleção do ano passado porque o filme não ficou pronto. E não ficou pronto porque Malick não se convencia de que o resultado final estava satisfatório. Foi na sala de edição que ele descobriu o filme. Para que esse processo se desse foram contratados seis montadores, que atuaram em etapas distintas da montagem. Um deles foi o brasileiro Daniel Rezende. A fama de perfeccionista de Malick quase levou a Fox Searchlight à falência. O braço independente da Fox teve de se desfazer da fita, mas preservou o direito de distribuição nos EUA. A produção seguiu com o aval e apoio dos produtores Sarah Green e Grant Hill que conseguiram incluir a fita no line up de Cannes este ano. É bem verdade que o diretor do festival, Thierry Frèmaux, alimentava o desejo de contar com o aguardado filme de Malick na riviera francesa.
Curiosamente, Malick - na busca pela perfeição – investe no caos. Brad Pitt e Jessica Chastain – que faz a esposa do astro no filme – só tiveram acesso a três ou quatro páginas do roteiro para que pudessem compor suas cenas da maneira mais natural possível. “É um salto no escuro”, afirmou Brad Pitt. “Mas com Terrence vale a pena”, completou.
A história de A árvore da vida, como se sabe, dá saltos temporais desde a época dos dinossauros até o presente, mas o foco maior está em uma família americana suburbana dos anos 50 em que Pitt e Chastain são os pais. Malick perpassa todo o ciclo familiar e a importância deste no ciclo da vida. “É um questionamento metafísico”, escreveu a Rolling Stone americana que apontou o filme, ao lado de Meia noite em Paris, de Woody Allen, como o melhor de 2011 até o momento.

Sean Penn, Jessica Chastain e Brad Pitt momentos antes da premiere oficial de A árvore da vida em Cannes



Cada um com suas próprias conclusões
Mas, afinal, sobre o que é A árvore da vida e por que tanta elaboração na produção do filme? “A árvore da vida não é exatamente um filme abstrato ou hermético, mas isso não significa que não deixe algumas pontas em aberto para que cada um tire suas conclusões”, defendeu Brad Pitt em Cannes. A atriz Jessica Chastain diz que o filme, por meio de sua personagem, tenta entender “por que o Deus que dá é o mesmo Deus que tira”.
“A questão existencial é intrínseca ao filme”, argumenta a produtora Sarah Green. Já Sean Penn, afirmou que o filme congrega valores humanísticos com a importância da família. “É um filme sobre o amor”. O ator não citou, mas uma das mais belas falas do filme o referenda: “The only way to be happy is to love. Unless you love, your life will flash by” ( em tradução livre: o único jeito de ser feliz é amar. Se você não amar, a vida só passará por você).

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Crítica - Melancolia

Mal estar da alma!


Melancolia no dicionário é tristeza sem causa, por vezes acompanhada de uma saudade difusa. Um distúrbio emocional caracterizado por um estado de abatimento mental.
Melancolia (Melancholia, Dinamarca/França/Suécia/Alemanha 2011), a nova fita de Lars Von Trier, começa com um prólogo que se pretende, em sua plasticidade, uma obra de arte à parte do filme e, paradoxalmente, um complemento ao próprio filme. De beleza estarrecedora, o conjunto de imagens em slow motion que Von Trier apresenta à platéia vai ganhando significado à medida que o filme vai se resolvendo, e a beleza se transmuta em simbologia. Algo que o próprio filme pretende ser: um emaranhado de simbologias e metáforas. Desde a mais óbvia, o planeta que surge como ameaça à Terra e o estado de espírito da protagonista compartilharem o mesmo nome, até as mais inerentes – como o fato do cavalo de Justine (Kirsten Dunst), tal qual sua dona, não conseguir ultrapassar uma barreira.
Lars Von Trier é um cineasta semiótico. Seu interesse em significantes e significados extravasa os limites do cinema, mas nem por isso Von Trier se limita em termos de linguagem e narrativa. Melancolia é divido em duas partes. Na primeira, intitulada Justine, percebemos ecos do movimento que o diretor ajudou a criar, (Dogma 95), mas que de certa forma abandonou. A câmara trepidante acompanha os principais elementos e personagens de um casamento realizado em um castelo. Quando pousamos os olhos em Justine ela parece feliz. Mas essa impressão vai se dissipando à medida que a noite avança e sua irmã, a contida Claire (Charlotte Gainsbourg), a questiona se está tudo bem. Von Trier conta com a capacidade de ilações de seu público para mostrar que Justine é uma moça de profundo caos emocional que, na iminência do casamento, está a despedaçar-se. A investigação que Von Trier oferece é meramente subjetiva e sugestiva. O pai (John Hurt), que só vê Bettys à sua volta, e a mãe (a sempre poderosa e altiva Charlotte Rampling), castradora e infeliz, com sua metralhadora verbal, insinuam um ambiente familiar em pedaços. A irmã Claire e o marido John (um contido Kiefer Sutherland) tentam manter as aparências, enquanto tudo o mais parece ruir. A primeira parte de Melancolia, que marca em escala gradativa a manifestação desse sentimento em Justine, tem pelo menos uma grande cena. Quando Justine se justifica para sua cada vez mais inquieta irmã e diz que as reclamações que começam a surgir são ilegítimas, pois ela está sorrindo.

Plasticidade e fúria: Ao som de Wagner, Von Trier constrói sua ópera sobre o fim do mundo e o ocaso da humanidade


Mas é no segundo tomo de Melancolia, intitulado Claire, que Von Trier alcança os agudos de sua obra. Quando foca em Claire, o cineasta consegue-através do contraste cada vez mais flagrante entre as irmãs – tecer alguns prodigiosos comentários sobre diferentes percepções de mundo. É instigante perceber como Justine passa a ter uma postura mais serena em face da morte iminente e Claire se desespera. O paralelo é saboroso. Uma irmã se desespera ante à vida e outra com a inevitabilidade da morte.
A ansiosa Claire se depara com duas visões de mundo. A científica, encarnada pelo marido John, e a metafísica na figura da irmã Justine. A proximidade do planeta Melancolia faz com que Melancolia, o filme, se revista de melancolia na iminência do desfecho mais cruel e pessimista que poderia se avizinhar. Nesse aspecto, Von Trier consegue fazer com que seu público se aproxime ainda mais do que vivenciam Claire e Justine. O mal estar da alma, coisa que todo ser humano apresenta com frequência bem particular, se manifesta quando a luz varre, pela última vez, a tela do cinema.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Filme em destaque: Melancolia

O dinamarquês Lars Von Trier, que na foto orienta os principais nomes de seu elenco, apresenta um trabalho de profunda ressonância emocional e sensorial. Claquete ajuda a desvendar a Melancolia de Von Trier


Lars Von Trier tem fama de falastrão. O dinamarquês gosta de tecer comentários sobre muitas coisas. Na promoção de Melancolia, no entanto, ele pouco falou sobre o filme. Não por recusar-se, como fizera à época do lançamento de seu predecessor (AntiCristo), mas por enfiar os pés pelas mãos (aparentemente), em entrevista coletiva em Cannes. De qualquer maneira, Melancolia foi o filme mais comentado do último festival de Cannes – de onde saiu com a Palma de ouro de melhor atriz para Kirsten Dunst.
Von Trier abre seu filme, assim como fizera em AntiCristo, com um prólogo de beleza irrepreensível amplificado pelo potente som da ópera Tristão e Isolda de Richard Wagner.
O prólogo de aproximadamente dez minutos antecipa, de forma intuitiva e simbólica, os eventos que se seguirão nas duas partes que compõem o filme: Justine e Claire. Os nomes das irmãs com as quais Von Trier encena sua versão do fim do mundo.
Melancolia é o planeta, até então ignorado, que irá colidir com a Terra. Melancolia é, também, o estado de espírito da protagonista Justine (Kirsten Dunst). “Não diria que este é o meu filme mais intimo, mais pessoal, mas certamente é dos que mais me orgulho de ter realizado”, afirmou o cineasta em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo.
Pessimista inveterado, Von Trier admitiu, e foi das poucas coisas que admitiu em relação a AntiCristo, que concebera aquele filme em meio a uma depressão muito forte. De certa forma, e Von Trier não descarta essa interpretação, Melancolia é um avanço temático. “É um filme que não poderia ser concebido antes de AntiCristo”, escreveu o Hollwood Reporter em sua crítica à época do festival de Cannes.

Kirsten Dunst, que se entrega despudoradamente ao diretor, em um poderoso close que abre Melancolia


Curiosamente , é de se supor, que Melancolia tivesse um tom diferente caso Penélope Cruz interpretasse Justine. O papel foi escrito para a atriz que chegou a aceitar o convite, mas desistiu para gravar (e ganhar mais) Piratas do Caribe: navegando em águas misteriosas. Kirsten Dunst foi contratada e uma das razões que mais a seduziu no papel de Justine foi que havia, assim como Von Trier, vivenciado um doloroso e lento processo de depressão. A terapia lhe rendeu o prêmio em Cannes e o convite de Von Trier para estrelar seu próximo filme, The nymphomaniac, nas palavras do próprio diretor um pornô filosófico sobre “ a evolução erótica da mulher”.
Von Trier seguirá radicalizando. O diretor que conseguiu se tornar persona non grata no festival que mais o projetou é essa dicotomia ambulante. Esse conclave publicitário de encontro ao artista incendiário e transparente. Melancolia é, de certa forma, a afirmação artística de um cineasta que vive em conflito consigo mesmo. É, nesse aspecto, um filme testamento. Há todo o talento de Von Trier posto à prova de uma história que deflagra tristeza e encantamento, mas também hesitação.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Crítica - Quero matar meu chefe

Para ver com o chefe!


A comédia americana está cada vez mais fluída e as relações entre a tv e o cinema cada vez mais amistosas. Egressos da tv, Jason Bateman, Charlie Day e Jason Sudeikis já brilham no cinema e Quero matar meu chefe (Horrible bosses, EUA 2011) pode fazer por eles o que Se beber não case fez por Bradley Cooper, Zach Galifianakis e Ed Helms dois anos atrás. O espírito de farra e sátira move os dois filmes. A caricatura calculadamente hiperbólica com que Quero matar meu chefe apresenta alguns personagens se viabiliza como um plus da fita de Seth Gordon. Com um currículo bastante diverso, que vai de documentários como Freakonomics (2010) à direção de episódios de Modern Family e The Office, o diretor mostra-se contido na direção da fita e permite que seu elenco brilhe com improvisações a granel.

Jennifer Aniston e Charlie Day em cena de Quero matar meu chefe: Atores improvisando e se divertindo...


Nesse departamento, Jason Bateman surge como o controlado Nick, um sujeito constantemente humilhado pelo patrão, Dave Harken (Kevin Spacey); Jason Sudeikis faz Kurt que não suporta Bobby Pellitt (Colin Farrell), o filho viciado e preconceituoso de seu patrão que herda a empresa após a morte deste; Charlie Day faz Dale, um tipo histérico que se incomoda com o assédio incessante da dentista para a qual trabalha- vivida por Jennifer Aniston. Jennifer, aliás, está fantástica no papel de tarada. Sem se fazer de rogada na hora de proferir sacanagens. Uma ótima forma de rir de sua persona como american sweetheart. Kevin Spacey é outro que atropela com sua ironia e canastrice. E o que dizer de Colin Farrell sem medo de aparecer careca, barrigudo e histriônico? A participação desses atores ajuda Quero matar meu chefe em seu intento: ser um tremendo sarro.
Jamie Foxx, outro que está hilário, representa outra boa piada do filme que só se anuncia completamente no clímax da fita. Cheio de referências ao universo pop, assumindo sua fonte de inspiração (Pacto sinistro, de Hitchcock) e com extrema capacidade de dosar os pontos altos de seus protagonistas (todos têm chance de brilhar), Quero matar meu chefe é diversão garantida. Das melhores comédias do ano. Tão boa, que não tem perigo em indicar para o chefe.