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sábado, 5 de abril de 2014

Crítica: Ninfomaníaca - volume II

Sodomizando o público

Ninfomaníaca – volume II (Nymphomaniac: volume II, FRA/ALE/DIN 2013) é, em muitos sentidos, um filme distinto do primeiro volume. Mas falemos primeiro das similaridades. Tanto lá como cá, Von Trier provoca e frustra o público. Seja em uma anunciada suruba com homens negros, seja na incipiência com que investiga Joe (interpretada por Stacy Martin e Charlotte Gainsbourg) ou na profusão de metáforas inortodoxas que lança mão na figura de Seligman (Stellan Skarsgard), cuja função na narrativa se entremeia entre fazer as vezes do crítico de cinema (em um deboche divertidíssimo do cineasta), do público e, também, do alter ego de Von Trier.  
Às diferenças, então. Como previsto na crítica do blog do volume I, Von Trier se aproxima mais de Joe nesse segundo tomo. As inquietações físico-emocionais da protagonista são circundadas com maior zelo pelo cineasta que se mostra menos hermético e mais dado aos clichês que gravitam o senso comum da sexualidade. O que não quer dizer que Von Trier não faça provocações aqui e ali como quando faz com que o público se simpatize (com muito fundamento) com um pedófilo. Aliás, esta cena já entra para a galeria das melhores de 2014.
Ninfomaníaca –volume II parece enredar a tese de que o sexo é expressão definitiva para a identidade pessoal. O filme é substancioso em elaborar questionamentos irresolutos sobre fetichismos e sadomasoquismo. O estreitamento entre dor e prazer, em Von Trier, é algo muito menos sórdido e complacente do que as chibatadas que K (Jamie Bell) em Joe sugerem.
O desejo escravagista também tem seu espaço e ele pode se manifestar tanto no pedófilo oculto como na ânsia por humilhação que move a relação entre Jerôme e Joe.

Joe em sua busca por satisfação: o desejo por uma experiência radical e inédita lhe aproxima do orgasmo mais puro e metafísico já experimentado

Diferentemente do primeiro volume, são menos os arquétipos e mais os personagens, que articulam a trama. Uma bem vinda mudança de tom e que complementa, ou antecipa, uma mudança radical proposta pelo cineasta na última cena do filme. Pouco antes desta surgir, Von Trier prepara seu público em uma fala de Seligman: “As vezes, tudo o que você precisa é de uma mudança de ponto de vista”. Dito e feito. Apropriando-se de um discurso feminista ressentido, ele surpreende a plateia ao adensar a lógica da impossibilidade de amizade entre homens e mulheres. Radicalizando totalmente a dialética da trama com uma descarga de ironia e cinismo em face de uma atitude condescendente surpreendentemente pueril de um dos personagens.
O mecanismo obriga o público a rever toda a construção dramática que se deu até ali. Enquanto cinema é um exercício estético/ narrativo fascinante.

Por fim, a moral de uma cultura ocidental inflexível e anabolizada em sua relação com o sexo é devassada com rigor e imaginação, dueto possível apenas no cinema de Von Trier. O dinamarquês não se furta a pequenos gestos de malícia como referenciar-se ou incutir humor onde não se poderia concebê-lo, mas mesmo essa masturbação intelectual reforça o status de Ninfomaníaca – volumes I e II de filme robusto, plural, multifacetado e, acima de tudo isso, provocador; ainda que não o seja da maneira que o público projetava. Está aí, finalmente, nessa sodomização ansiada (e muito bem executada) o trunfo definitivo de Von Trier. 

sábado, 15 de março de 2014

TOP 10 - Dez características do cinema de Lars Von Trier


Lars Von Trier está de volta aos cinemas com a segunda parte de seu Ninfomaníaca. A oportunidade enseja uma análise mais vertical da obra do cineasta e dos elementos fundamentais de sua filmografia. O TOP 10 do mês observa as dez principais características do cinema do diretor dinamarquês.

10 - Cronologia temática
Lars Von Trier costuma pensar sua obra em trilogias. As trilogias da Europa, da América (ainda incompleta), do coração de ouro e da depressão compõem um painel que rima abstração com concretude na construção fílmica de um dos cineastas mais autorais da contemporaneidade.

9- Estilização
Um filme de Lars Von Trier parece um filme de Lars Von Trier. Desde o enquadramento desajustado até o ritmo lento, seus filmes têm fôlego próprio. Seus últimos trabalhos têm chamado ainda mais atenção por uma tarimba visual ainda mais peculiar.

8 – Capítulos
Outro aspecto comum em sua filmografia é a divisão do filme em capítulos. Em Ninfomaníaca ele radicaliza ainda mais essa característica levando para as telas oito capítulos. Essa opção reforça sua afinidade com a lógica das óperas tão ressaltada em seus últimos trabalhos.

7- Stellan Skarsgärd
Não há ator com quem Von Trier tenha trabalhado mais. Presente na maioria dos filmes de Von Trier, dos últimos seis só não esteve em AntiCristo, o ator sueco é um parceiro capaz de assumir as funções mais variadas nos delírios narrativos do cineasta mais polarizador da atualidade.

6 - Opulência narrativa
Von Trier não alivia. Seus filmes são frequentemente classificados como pesados. E o são, de fato. Von Trier mitiga seu espectador com dramatizações pujantes e um humor perverso, mas raríssimo. Opções estéticas diversas contribuem para o sentimento de estafa que se estabelece de quando em quando.

5 - Psicologização
Von Trier não esconde sua admiração pela psicologia e ostenta seu conhecimento, por vezes inesperadamente trôpego, em toda e qualquer oportunidade de “psicologizar” os conflitos intrínsecos ao filme e aos personagens.
O choque como autopromoção é uma de suas assinaturas

4 - Protagonistas femininas
O acusam de ser misógino, mas fato é que o cinema de Von Trier se debruça sobre o feminino. Ele já disse que escreve sobre si e feminiliza suas angústias na tela. De qualquer modo, ainda que sofredoras extremas, suas personagens femininas ostentam força indelével no cinema moderno.

3 – Sexo
De alguma maneira, Von Trier sempre circundou o sexo como interesse temático em seu cinema. Ninfomaníaca apenas tonifica um tópico contumaz na filmografia do cineasta. Filmes como Os idiotas, Ondas do destino, Dogville e AntiCristo de alguma maneira, já se ocupavam da questão.

2 – Culpa
Um diversionamento do sexo, em algum aspecto, mas também um conceito absoluto em si.  A culpa é uma das forças motrizes do cinema de Von Trier. Seja de um personagem, como em AntiCristo ou Dançando no escuro, ou seja um traço coletivo como em Dogville ou Melancolia.

1-Reverberação filosófica
Como atestam as posições anteriores desta lista, Von Trier é chegado em um café filosófico. Em Ninfomaníaca este interesse é mais vívido do que qualquer outra interjeição mais gráfica sobre sexo. Von Trier filosofa em seus filmes como se o amanhã dependesse disso. 

sábado, 18 de janeiro de 2014

Crítica - Ninfomaníaca: volume I

Arquidiocese do desejo

O desprezo de Lars Von Trier pelo público ganha novos contornos com o lançamento de Ninfomaníaca –volume 1 (Nymphomaniac: volume I, FRA/DIN/ALE 2013) que suscita recepção mista por ser um filme frustrante naquilo que promete: sexo. O interesse de Von Trier, a despeito de suas primeiras e ambíguas manifestações a respeito do projeto, não era fazer um filme pensativo a respeito do cinema pornô, de suas fronteiras com a arte e a representação do prazer. Esses são apenas interesses circunstanciais a gravitar uma pauta muito mais absoluta, complexa e indelével. Nossa relação com o sexo. A moral dela. As bifurcações entre desejo e culpa.  A mitigação da identidade entre como nos percebemos e como os outros nos percebem. Como afetamos aqueles que passam por nossas vidas e como o sexo pode rapidamente se transformar em elemento de afirmação ou negação.
Esse interesse psicanalítico sempre pautou o cinema de Von Trier e é com algum espanto que deve se receber, pelo menos por parte da crítica especializada, a reação negativa ao filme. Do público leigo, instado pelo marketing agressivo que antecedeu o lançamento do filme, reação adversa ao filme lento, introspectivo e cheio de pequenas sodomias por parte da realização era esperada.
Se há um traço negativo neste primeiro volume de Ninfomaníaca é a opção de Von Trier em concentrar-se menos em Joe, essa personagem com nojo e raiva de si mesma, e mais nas construções arquetípicas que articula para dar vazão ao seu raciocínio. O que induz o entendimento de que o cineasta deve inverter esse prisma no segundo volume. Joe (uma pouco essencial Charlotte Gainsbourg) aqui funciona mais como um mcguffin, para cunhar o termo hitchcockiano que remete ao elemento detonador de uma trama e não necessariamente ao fio condutor dessa mesma trama, do que como uma personagem. As analogias entre cultura erudita, seja a música ou a literatura, e simplicidades como o jeito de cortar as unhas ou a pescaria, e o sexo contribuem para a ineficácia do erotismo pretendida pelo dinamarquês. O diretor não quer excitar, quer que reflitamos sobre a banalidade oculta na complexidade do tema que apresenta.

O perto e branco iconoclástico de "Delírios", o quarto capítulo de Ninfomaníaca: vertente freudiana a serviço de uma narrativa que sabe precisamente onde vai chegar 

A criatividade insuspeita de Von Trier na emulação de uma teoria cativante, mas que se provaria falha mais adiante, no quinto e derradeiro capítulo denominado "A pequena escola de órgão"

O terceiro capítulo, denominado "Sra. H", é uma representação tensa e monocromática do rompimento no seio familiar em virtude do sexo fora do casamento. A situação ganha em absurdo porque o marido da Sra. H parece cego à total falta de interesse de Joe nele. Assim como Joe parece evitar o pensamento de que age com crueldade nefasta ao brincar com os sentimentos alheios e é aí, justamente, que o público se depara com a abismal diferença entre a Joe machucada e com pena de si mesma, que narra sua história a Seligman (Stellan Skarsgard) e a Joe (Stacy Martin) que como um animal em agonia vai sangrando seu sexo a rodo. Essa diferença é responsável pelo sentimento de incompletude que toma o filme em seu ato final, que na verdade não corresponde ao fim de maneira alguma. Na última cena, algo que apenas havia ficado sugerido no segundo capítulo ("Jerôme"), ganha contornos de descoberta arrasadora. O gosto pela humilhação é uma das poucas respostas sexuais de Joe, no que um exercício de especulação possa remeter a sua primeira experiência sexual com Jerôme. Essa divagação, no entanto, fica para o segundo volume.

Ninfomaníaca é uma ode a manipulação desde seu primeiro momento. Von Trier abafa o som e mantém a tela escura brincando com a ansiedade elevada de sua audiência. Os pingos da chuva no telhado, em latas e finalmente no chão são pequenas demonstrações de que é ele, o cineasta, quem dita o ritmo dessa história de compulsão sexual gráfica, irrigada de analogismos e urdida à pscinálise. Ao público, resta frustrar-se; como geralmente o sexo é, provoca Von Trier.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Filme em destaque - Ninfomaníaca: volume 1




Precedido por uma campanha de marketing intensa e avassaladora, sem precedentes na esfera de lançamentos de arte, o primeiro volume de Ninfomaníaca, a nova travessura do dinamarquês Lars Von Trier, estreia nesta sexta-feira na ressaca de críticas divididas e do silêncio desafiador do realizador que, de maneira inédita, consentiu que os produtores montassem uma versão censurada, e a dividisse em duas partes, para lançamento comercial.
A versão de Von Trier, sem cortes e, segundo dizem, mais apimentada, esteve para ser lançada em Cannes, mas para que o momentum não passasse, será exibida em evento de gala no festival de Berlim no próximo mês.
Como vivemos uma era capitalista, depois do lançamento do segundo volume, algumas distribuidoras do filme, inclusive a Califórnia no Brasil, aventam a possibilidade de lançar a versão de Von Trier, que totaliza quase seis horas, nos cinemas.
“Digressionismo”, limitou-se a dizer Von Trier quando questionado por uma revista cultural alemã sobre a qual gênero pertenceria Ninfomaníaca. À época, o filme não estava pronto e o diretor acrescentou que não falaria mais sobre a fita, já que havia se comprometido a “deixar seus filmes falarem por ele”. Stellan Skarsgaard, um dos atores mais frequentes na filmografia do diretor, fala e diz que “assistir Ninfomaníaca é tão excitante quanto comer uma tigela de cereal”. O ator faz menção ao erotismo frustrado, a mecanicidade da compulsão sexual da ninfomaníaca vivida por Stacy Martin e Charlote Gainsbourg em momentos distintos da vida da personagem principal, Joe, a ninfomaníaca em questão.
Mas por que digressionismo? Porque Ninfomaníaca basicamente é um filme falado. Uma depressiva egocêntrica que encontra ouvidos curiosos e os explora em busca de condenação ou absolvição e que, pelo menos no que concerne este primeiro volume, não encontra.
Como de hábito em se tratando de Von Trier, Ninfomaníaca é dividido em tomos. São oito no total e cinco neste primeiro volume. O filme, em si, é o desfecho da trilogia da depressão filmada por Von Trier a partir de AntiCristo (2009) e continuada em Melancolia (2011). Trata-se da quarta trilogia informal da carreira do cineasta, resta incompleta a trilogia sobre a América, iniciada com Dogville (2003), acrescida por Manderlay (2005), mas a terceira parte, Washington, permanece não filmada. A primeira trilogia, intitulada Europa, é constituída pelos filmes Elemento de um crime (1984), Epidemia (1987) e Europa (1991). A segunda trilogia, denominada “coração de ouro”, é formada pelos títulos Ondas do destino (1996), Os idiotas (1998) e Dançando no escuro (2000).
A estética do choque parece servir os propósitos de Von Trier que aqui acolhe o público para digredir com ele a respeito do ponto G das angústias humanas: o sexo.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Insight - O trailer de Ninfomaníaca




A nudez e o sexo chamam a atenção no primeiro trailer completo de Ninfomaníaca, divulgado no início desta última semana. Mas não é o que mais chama a atenção neste material promocional. Há, obviamente, o DNA do cineasta Lars Von Trier em cada fotograma e é isso que chama mais atenção. Ninfomaníaca, na forma como se apresenta neste trailer introdutório, é um projeto meticulosamente planejado pelo dinamarquês. No que tem de chocante e no que tem de analítico. Desde Anticristo (2009), o filme mais hermético, translúcido e psicanalítico do cineasta, Von Trier acostumou-se a fazer obras centradas nas mais profundas camadas da existência humana.
A sexualidade, nesse contexto, é um tema muito rico e muito pouco explorado por Von Trier nessa referência. O trailer sugere que o cineasta não está apenas interessado em escandalizar. Ainda que o escândalo seja algo pertinente à linguagem e aos objetivos pretendidos.
Há o cuidado em exibir cenas que expõem o psicológico da personagem Joe (Charlotte Gainsbourg) e a maneira com que ela se relaciona com sexo, com as descobertas que a remetem a este universo, e com as pessoas que a cercam.
O sexo e a nudez, tão aventados na cobertura midiática francamente explosiva que se sucedeu nesta semana, são o que menos impressiona nesse trailer tão bem planejado narrativamente. Von Trier, em sua obsessão, fez um trailer com alma própria e que anuncia um filme, que como já se sabe será dividido em dois volumes, reflexivo ao limite do imponderável. 



quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Em off

Nesta edição da seção Em off, o grande filme do feriadão é uma flor de Woody Allen; a lista de filmes mais assustadores de outro cineasta nova-iorquino; o hype de 50 tons de cinza ganha volume; a Disney ri à toa; a profecia de Ang Lee a espera por ela: Ninfomaníaca.

Os filmes mais assustadores segundo Scorsese
Martin Scorsese, como muitos já sabem, é um cinéfilo inveterado. Daqueles de fazer o mais cinéfilo dos cinéfilos se sentir uma fraude. Até porque Scorsese é, também, um dos maiores cineastas de todos os tempos. Ao Daily Beasy, o diretor de clássicos como Taxi driver, A última tentação de cristo e Os bons companheiros revelou sua lista de filmes mais assustadores da história do cinema. Há alguma coisa mainstream aí, mas o predomínio é dos clássicos marginais e obscuros da era do preto e branco. Aprendam crianças!

1- Desafio do Além (1963), de Robert Wise
2- A Ilha dos Mortos (1945), de Mark Robson
3- O Solar das Almas Perdidas (1944), de Lewis Allen
4- O Enigma do Mal (1982), de Sidney J. Furie
5- Na Solidão da Noite (1945), de Alberto Cavalcanti, Charles Crichton, Basil Dearden e Robert Hamer
6- Intermediário do Diabo (1980), de Peter Medak
7- O Iluminado (1980), de Stanley Kubrick
8- O Exorcista (1973), de William Friedkin
9- A Noite do Demônio (1957), de Jacques Tourneur
10- Os Inocentes (1961), de Jack Clayton
11- Psicose (1960), de Alfred Hitchcock

Confira o trailer clássico de Desafio do além


A profecia de Ang Lee e seu grau de acuidade
Ang Lee, vencedor de dois Oscars de melhor direção, disse que a indústria chinesa superará Hollywood em termos de faturamento em dez anos. Isso, sem se preocupar em se comunicar com o resto do planeta. “O grupo que fala chinês é provavelmente quatro vezes maior que as pessoas que falam inglês", exortou o taiwanês. Lee não está sozinho nessa previsão. Enquanto muitos apreciam o exotismo de Bollywood, há quem entenda que o mercado chinês represente o verdadeiro risco para Hollywood. Não à toa, os grandes estúdios americanos se movimentam para realizar parcerias com estúdios chineses, agradar censores e todo tipo de manobra para evitar que a reserva de mercado chinesa se torne cada vez mais atraente para o público local.

No compasso da Ninfomaníaca
O marketing é agressivo e até faz lembrar uma megaprodução hollywoodiana. Com direito a censura do YouTube e tudo. É bem verdade que Ninfomaníaca é o filme mais caro da carreira de Lars Von Trier. Tão caro que o próprio diretor abriu mão do corte final da fita, algo impensável para um cineasta tão autoral e intransigente como o dinamarquês. Como se sabe, serão duas versões. Uma hard core, que será exibida fora de competição no festival de Cannes em 2014, e outra mais leve, mais comercial que será dividida em dois capítulos. O primeiro será lançado no Brasil em janeiro de 2014. O segundo, talvez, apenas após Cannes. Quem esteve no Brasil, para uma cirurgia plástica e para a divulgação de um calendário que estrela, foi Uma Thurman, que atua em Ninfomaníaca. A atriz falou que admira o dinamarquês a quem considera “gênio, atrevido e um pouco louco”. No final das contas, tudo isso rima com marketing.

A Jasmine de Woody Allen

O melhor filme de Woody Allen desde o melhor filme de Woody Allen! Essa é a pecha que recebeu Blue Jasmine, que estreia nesta sexta-feira (15) em circuito comercial no Brasil. Mas qual é o melhor filme de Woody Allen antes de Blue Jasmine? Aí está a graça. Tem quem ache que é Meia-noite em Paris (2011), tem quem ache que é Match point- ponto final (2005) e tem quem vá até Noivo neurótico e noiva nervosa (1977). De qualquer jeito, Blue Jasmine – “uma comédia que não faz rir e ainda assim é hipnotizante” nas palavras do crítico A.O Scott do The New York Times – avoca aquele tipo de consenso irresistível.
Cate Blanchett faz uma socialite falida, depois da prisão do marido por fraude financeira, que precisa se adaptar à vida de pobretona. Allen foca nas compulsões, obsessões e impulsos dessa mulher que precisa se reinventar e pode ruir antes disso. 

Vivendo o hype!
A Entertaiment Weekly desta semana destaca em sua capa o casal protagonista de 50 tons de cinza. Além de um editorial fotográfico estrelado por Jamie Dornan e Dakota Johnson, a reportagem traz bastidores da produção e a nova data de lançamento do filme: 15 de fevereiro de 2015. A mudança de agosto de 2014 para o valentine´s Day do ano seguinte se deve pelos sucessivos imprevistos que marcaram a produção nos últimos meses.


Rindo à toa
A Disney, que já esfrega as mãos para 2015 quando lançará entre outros filmes as aguardadas sequências de Os vingadores e Star Wars, anunciou nesta semana que quebrou o recorde de bilheteria mundial em um ano em 2013. Com U$ 3,79 bilhões em faturamento e com dois meses e três lançamentos separando 2013 do fim, a Disney tem mesmo muitas razões para comemorar.  

quinta-feira, 29 de março de 2012

Claquete repercute - Anticristo

Anticristo é, sob muitos aspectos, o filme mais íntimo, mais passional, de Lars Von Trier. Fruto de uma depressão profunda e um mal estar que o levou a uma crise existencial tão enraizada nela mesma, Anticristo é uma leitura bipolar da relação de Von Trier com o mundo, com o cinema e com ele mesmo.   
Talvez por isso tenha sido um projeto que suscitou tantas polêmicas e dilatou a resistência à pessoa do cineasta. No festival de Cannes de 2009, onde lançou o filme, Von Trier se auto-proclamou o melhor cineasta do mundo e recusou-se a explicar seu filme, taxado por muitos de misógino e apelativo. As declarações de Von Trier eminentemente transformaram o status de Anticristo e provocaram uma percepção mais conspícua naqueles propensos às simbologias que, francamente, transbordam no filme.
A começar pelo caráter terapêutico que a feitura do próprio exerceu sobre Von Trier e pelas projeções nele embutidas.
As opções estéticas do diretor dinamarquês merecem especial atenção. A estrutura do filme objetiva confrontar noções espessas e conflituosas de psicologia e religiosidade. A culpa, conceito tão cristão e enraizado na tradicional educação ocidental, é o principal vértice sobre o qual Von Trier ergue seu filme – um drama psicológico que se transfigura em terror. Há esse casal que protagoniza um dos mais belos prólogos da história do cinema. Eles fazem sexo, filmado com estilização cênica assoberbada por Von Trier, e enquanto o gozo é experimentado, um acidente terrível tira a vida do filho pequeno do casal. Tudo poderia ter sido evitado se o gozo fosse adiado. É a ilação que fica. A partir daí, o cineasta divide seu filme em três capítulos e mais um epílogo. E acompanha o processo de flagelação física, emocional e psicológica da mulher – vivida com assombrosa dedicação pela atriz Charlotte Gainsbourg – cujo marido (Willem Dafoe), terapeuta, julgar poder contornar.
Uma classificação pertinente, e que circulou à época do lançamento de Anticristo nos cinemas, é de que se trata de um “torture porn psicológico de arte”. De fato, é preciso ser entusiasta da psicologia para apreciar Anticristo – mesmo que não compactue com o desalentado processo criativo de Von Trier, essa condição é necessária para que o filme se torne mais inteligível e menos “viajado”.
Por outro lado, é impossível resistir à técnica da fita. Com fotografia monocromática, direção de arte exuberante, uso poderoso da trilha sonora e uma noção de câmera tão extenuante quanto envolvente, Anticristo é um testamento de um diretor no auge criativo e com profunda compreensão da linguagem cinematográfica e, mais ainda, ansioso por desafiá-la.

Sexo, culpa e estilo: Anticristo é um petardo estético de Lars Von Trier, mas é também uma aguçada provocação às convenções ocidentais em diferentes campos como religião e psicologia  


A violência em todo o seu realismo cru está lá para chocar ou se ajusta etimologicamente à estrutura do filme? Um pouco de ambos. O choque é algo valioso em Anticristo. É um elemento desestabilizador do qual Von Trier se beneficia e possibilita que sua narrativa alcance tons mais sugestivos pela objetividade das imagens.
Feminilidade, cristianismo, sexo, terapia, desejo... são questões que se intercambiam na poderosa mise-en-scène estabelecida.
É, como aferido, um filme muito íntimo. Gerado em um processo depressivo ao qual, na posição de espectadores do filme, estamos todos alienados. O sentido que Von Trier acena é, em última análise, um mistério que nunca excederá a densidade estética e a ousadia temática da própria obra.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Retrospectiva 2011: Cenas de cinema (gente)

Justin wants it all
2011 entrou com muita gente torcendo o nariz para Justin Timberlake e termina com uma vibração bem diferente. Na música, muita gente contestava a opção de Timberlake se dedicar tanto a uma improvável carreira no cinema. Do outro lado, muita gente questionava se o ex- n´sync poderia segurar a onda em Hollywood. Justin mostrou que segura o tranco muito bem. Depois de brilhar em A rede social, estrelou comédia romântica e filme de ação. Terminou o ano dizendo que irá voltar à música em breve e com a garantia de estrelar o novo filme dos irmãos Coen. Justin quer tudo e todos querem Justin.

O novo dono do pedaço: em 2011, Justin aconteceu no cinema...


Francamente...
Já James Franco entrou em 2011 como um dos atores mais descolados do cinema atual. De quebra, teve um recorde gostoso de se ostentar. Além da indicação ao Oscar (merecidíssima) por 127 horas, o ator dividiria a tarefa de apresentar a cerimônia com a bela Anne Hathaway. E foi aí que as coisas começaram a mudar para James franco. A performance da dupla foi para lá de desagradável e enfadonha e Franco se viu na mira de toda sorte de críticos. Resultado? Sumiu do mapa. Propostas cessaram e ele foi jogar a culpa nos roteiristas da cerimônia no programa do David Letterman. E o que dizer quando se é ofuscado por um macaco no único filme que lançou em 2011?


Being Steve Soderbergh
Em 2011 alguma estrela colidiu com Saturno na casa sol de Steve Soderbergh. Metáforas astrológicas a parte, só uma sessão de descarrego poderia devolver Soderbergh ao seu estado de normalidade. E não se fala de Contágio, filme em que o cineasta imagina o impacto de uma pandemia biológica na humanidade, que foi um dos highlights do ano. Fala-se da inominável indecisão que acometeu Soderbergh. Ele entrou o ano confirmando um boato que Matt Damon deflagrara ainda em 2010: que se aposentaria após o desenvolvimento dos dois projetos que estava envolvido. No festival de Veneza, onde exibiu Contágio, disse que não se trataria de uma aposentadoria e sim de um período sabático – como conjecturou Claquete em seção Insight no início do ano. Não obstante, elegeu um novo trabalho (Magic Mike), cancelou os tais outros projetos e não falou mais em período sabático, aposentadoria, pintura (o que faria enquanto não dirigisse) ou qualquer coisa que o valha.


Vivendo a melancolia de Von Trier
Pense rápido. Qual foi o último ano que Lars Von Trier lançou algum filme e não se viu envolvido em polêmicas fabricadas pelo próprio? Isso mesmo. A resposta talvez esteja na década de 80. Em 2011, porém, o dinamarquês se superou. Como bem sabe o leitor, declarou simpatia a Hitler, descobriu-se nazista, virou persona non-grata - ainda que de mentirinha - do festival que o fez grande e antes de anunciar que não participaria mais de entrevistas coletivas se declarou um incompreendido: “Não tenho culpa se não sabem apreciar meu senso de humor”, disse à Folha de São Paulo ainda sob o embargo em Cannes. Von Trier, como atesta seu belo filme, é um sujeito de profunda e indevassável melancolia.


Scarlett em pêlo
Insegurança é mesmo uma coisa maldita. Assola até mesmo belezas como a de Scarlett Johansson. Foi a insegurança, estivesse ela presente ou não, que fez com que La Johansson tirasse fotos do próprio corpo nu e as enviasse ao então marido Ryan Reynolds. A razão de essa informação ter vindo a público foi o fato das tais fotos terem sido hackeadas e causado um grande rebuliço na internet e redes sociais. É a mesma insegurança, puseram-se a conjecturar as revistas de fofoca, que faz com que Scarlett pule de galho em galho. Só não dão deixem Sean Penn saber disso.

O ciúme mora ao lado...
Para quem não sabe, Penn e Scarlet tiveram uma curta relação de aproximadamente quatro meses. O love terminou porque o ator vencedor de dois Oscars fazia uma marcação muito cerrada. 


O brasileiro de maior sucesso em Hollywood

Que nos perdoe Rodrigo Santoro e que Fernando Meirelles não nos ouça, mas o posto de brasileiro mais bem sucedido em terras estrangeiras pertence a um carioca radicado na Califórnia. Estamos falando, é claro, de Carlos Saldanha. Em 2011, ele fez uma homenagem ao Rio de Janeiro, em um momento para lá de oportuno para a cidade, com uma das animações mais rentáveis do ano. Rio consolidou o status de Midas do criador de a Era do gelo. Mas aquele filme, que ganha mais um capítulo em 2012, não era uma criação inteiramente de Saldanha. A Blue Sky e a Fox o apoiaram e Rio mostrou que Saldanha é sim um artista criativo. O bom momento foi reconhecido no Brasil, onde até estrelou campanha promocional para a Nextel. Agora é esperar se ele será o primeiro brasileiro a ganhar um Oscar de fato. As chances nunca foram tão grandes.


Tempo de Fassbender
Ninguém se despiu tanto em 2011 nos cinemas quanto Michael Fassbender. Literalmente. O alemão de ascendência irlandesa beijou muito, e fez outras coisas também, para ganhar o leão de ouro de melhor ator por Shame, filme que investiga as amarguras de um executivo nova-iorquino com compulsão sexual. Ele revisitou o clássico Jane Eyre, renovou o olhar sobre um dos vilões mais complexos da cultura pop em X-men: primeira classe e foi, finalmente, entender as compulsões sexuais na pele de Yung em Um método perigoso. Mas todos esses personagens apenas favorecem o decreto mais cristalino de 2011: é chegado o tempo de Fassbender.


O declínio de Johnny Depp
Desde 2003, Johnny Depp é visto em Hollywood como a prova de balas, de críticas ou de fracassos. Mas 2011 será lembrado como o ano que mudou essa perspectiva. Tudo bem que Jack Sparrow foi sacado para render mais um bilhão de dólares para a Disney e fazer criador e criatura ficarem cada vez mais uniformes, mas Depp seguramente já viu dias melhores.
O ano começou com a mira em Depp por causa de O turista, thriller de espionagem muito mal recebido pela crítica. Apesar da boa recepção à animação Rango, o novo projeto de Depp e do diretor Gore Verbinski (Lone ranger) se viu em maus lençóis. Aliás, o projeto que já havia sido aprovado foi posto em suspensão para uma revisão de orçamento. Algo impensável há algum tempo atrás. O fracasso retumbante de The rum diary e algumas declarações infelizes de Depp (“me sinto abusado sexualmente quando pouso para fotos”) não ajudaram a tornar sua vida algo mais palatável em 2011. E claream as razões do porque a Disney está tão reticente em relação a Lone ranger.



A virada de Colin

Colin Farrell era uma das promessas de Hollywood no alvorecer da década passada. Mas um conjunto de polêmicas e más escolhas nas telas lhe afastaram do famigerado rótulo. Olhando para 2011, é possível dizer que essa nova condição foi para lá de positiva para o irlandês com cara de mau. Em 2011 foram três trabalhos. A ponta para lá de divertida como um “cheirador” de cocaína compulsivo e bem escroto em Quero matar meu chefe, o papel de coadjuvante como o assustador vampiro Jerry no remake de A hora do espanto e como um guarda costas boca suja em London Boulevard (este ainda inédito no Brasil).
Farrell deixou a expectativa de ser um astro para trás para se assumir como um ator em busca de bons papéis e, de preferência, divertidos.   


Taylor mostra o muque
Em 2011 certamente o team Taylor cresceu muito. Com a proximidade do fim da saga Crepúsculo, Taylor Lautner procura se resolver como astro de ação. Enquanto Robert Pattinson pena para se desvencilhar da aura de galã, o intérprete do lobo Jacob logo achou moradia no cinema de ação. Tudo bem que Sem saída não é aquela coca-cola gelada e não rendeu a bilheteria esperada, mas Taylor mostrou desenvoltura e segurou as pontas como principal nome no cartaz. Algo que seus companheiros de Crepúsculo ainda não conseguiram fazer. O caçulinha do trio mostrou que quer mais em Hollywood do que um conto de fadas moderno.

Taylor para a Rolling Stone americana: Mamãe quero ser um action star...


Mais um ano na vida de Brangelina
Não tem jeito. Entra ano e sai ano e só dão eles. Foram boatos de casinhos com assessoras (no caso de Brad) e pelo menos uns cinco rumores de divórcio. Estes só foram superados pelo número de rumores que davam conta de que o casal adotaria mais um rebento. A própria Angelina Jolie desmentiu os boatos (por ora) em uma reveladora entrevista à Vanity Fair. Angelina disse, também, em outra ocasião que tem poucos amigos e que todas as suas confidências são para Brad. Além de dirigir um filme, envolto em polêmicas, Jolie também se viu cercada de boatos com relação à excessiva magreza que apresentou nos últimos meses.
No meio tempo, Brad Pitt vendeu duas casas e comprou outras três. O casal viajou o mundo junto e separado, se revezou cuidando das crianças e filmando e ambos têm indicações para o próximo Globo de ouro. No final das contas foi um ano tão agitado quanto qualquer outro para o casal vinte de nossa era.

Brad Pitt e Angelina Jolie no início do mês de dezembro na premiere americana de In the land of blood and honey, que marca a estreia de Angelina como diretora e roteirista


Cada vez mais confiável
2011 começou com Matt Damon chegando aos cinemas sob as ordens de Clint Eastwood em Além da vida. Naquele filme, um sucesso de crítica moderado, ele vivia um médium em conflito com seu dom. O ano termina com Damon sob as ordens de outro cineasta de prestígio e novamente vivendo um homem em conflito. Em Compramos um zoológico, uma das melhores opções desse fim de ano nos cinemas, ele vive um viúvo que durante a elaboração do luto muda radicalmente sua vida. Compra o tal do zoológico. A colaboração com Cameron Crowe recebe críticas tão moderadas quanto as obtidas por Além da vida. Contudo, Damon parece acima do bem e do mal. Os filmes dividem opiniões. Ele não.


Tem como não amar?

A outra grande interpretação de Compramos um zoológico é de uma menina de 13 anos. Trata-se de Elle Fanning. A irmãnzinha (não em tamanho) de Dakota. Em 2011, ela pôde ser vista roubando cenas em Um lugar qualquer, Super 8 e no já citado Compramos um zoológico. Dona de um sorriso hipnótico, um charme minimalista e uma energia que desconhece limites, Elle é mais do que uma estrela em franca ascensão. Ela é a constelação toda. Ah, e ainda é talentosa que só.


Ryan facts
Faz dois anos que Ryan Reynolds foi eleito o homem mais sexy do mundo pela People. Em 2009, o mundo parecia que seria dele. Mas foi só chegar 2011 para essa impressão se dissipar. Com o fiasco de Lanterna verde, um dos maiores fracassos do ano por qualquer ângulo que se observe, Reynolds viu a ascensão de outro Ryan em 2011. O Ryan que encabeçou a lista de destaques do ano em Claquete. Trata-se de Ryan Gosling. Para todos os efeitos, ele foi o Ryan do ano.

Duelo particular dos Ryans: não precisa coçar o queixo, você ganhou com sobras...


Química para que te quero!

Jake Gyllenhaal e Anne Hathaway não são um casal, mas bem que poderiam ser. Eles ocuparam o pódio da química nas telas em 2011 com a fofurice sexy em Amor e outras drogas. Também mandaram bem Justin Timberlake e Mila Kunis em Amizade colorida, Mila Kunis e Natalie Portman em Cisne negro, Matt Damon e Emily Blunt em Os agentes do destino, Ryan Gosling e Emma Stone em Amor a toda prova e Chris Evans e Anna Faris em Qual seu número? Os reprovados na matéria foram Robert Pattinson e Reese Whiterspoon em Água para elefantes, Ahston Kutcher e Natalie Portman em Sexo sem compromisso e Amanda Seyfried e Shiloh Fernandez em A garota da capa vermelha. E o que dizer dessa Natalie Portman, hein? Pelas barbas do profeta!

Natalie Portman: abusando dos créditos em química em 2011

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Crítica - Melancolia

Mal estar da alma!


Melancolia no dicionário é tristeza sem causa, por vezes acompanhada de uma saudade difusa. Um distúrbio emocional caracterizado por um estado de abatimento mental.
Melancolia (Melancholia, Dinamarca/França/Suécia/Alemanha 2011), a nova fita de Lars Von Trier, começa com um prólogo que se pretende, em sua plasticidade, uma obra de arte à parte do filme e, paradoxalmente, um complemento ao próprio filme. De beleza estarrecedora, o conjunto de imagens em slow motion que Von Trier apresenta à platéia vai ganhando significado à medida que o filme vai se resolvendo, e a beleza se transmuta em simbologia. Algo que o próprio filme pretende ser: um emaranhado de simbologias e metáforas. Desde a mais óbvia, o planeta que surge como ameaça à Terra e o estado de espírito da protagonista compartilharem o mesmo nome, até as mais inerentes – como o fato do cavalo de Justine (Kirsten Dunst), tal qual sua dona, não conseguir ultrapassar uma barreira.
Lars Von Trier é um cineasta semiótico. Seu interesse em significantes e significados extravasa os limites do cinema, mas nem por isso Von Trier se limita em termos de linguagem e narrativa. Melancolia é divido em duas partes. Na primeira, intitulada Justine, percebemos ecos do movimento que o diretor ajudou a criar, (Dogma 95), mas que de certa forma abandonou. A câmara trepidante acompanha os principais elementos e personagens de um casamento realizado em um castelo. Quando pousamos os olhos em Justine ela parece feliz. Mas essa impressão vai se dissipando à medida que a noite avança e sua irmã, a contida Claire (Charlotte Gainsbourg), a questiona se está tudo bem. Von Trier conta com a capacidade de ilações de seu público para mostrar que Justine é uma moça de profundo caos emocional que, na iminência do casamento, está a despedaçar-se. A investigação que Von Trier oferece é meramente subjetiva e sugestiva. O pai (John Hurt), que só vê Bettys à sua volta, e a mãe (a sempre poderosa e altiva Charlotte Rampling), castradora e infeliz, com sua metralhadora verbal, insinuam um ambiente familiar em pedaços. A irmã Claire e o marido John (um contido Kiefer Sutherland) tentam manter as aparências, enquanto tudo o mais parece ruir. A primeira parte de Melancolia, que marca em escala gradativa a manifestação desse sentimento em Justine, tem pelo menos uma grande cena. Quando Justine se justifica para sua cada vez mais inquieta irmã e diz que as reclamações que começam a surgir são ilegítimas, pois ela está sorrindo.

Plasticidade e fúria: Ao som de Wagner, Von Trier constrói sua ópera sobre o fim do mundo e o ocaso da humanidade


Mas é no segundo tomo de Melancolia, intitulado Claire, que Von Trier alcança os agudos de sua obra. Quando foca em Claire, o cineasta consegue-através do contraste cada vez mais flagrante entre as irmãs – tecer alguns prodigiosos comentários sobre diferentes percepções de mundo. É instigante perceber como Justine passa a ter uma postura mais serena em face da morte iminente e Claire se desespera. O paralelo é saboroso. Uma irmã se desespera ante à vida e outra com a inevitabilidade da morte.
A ansiosa Claire se depara com duas visões de mundo. A científica, encarnada pelo marido John, e a metafísica na figura da irmã Justine. A proximidade do planeta Melancolia faz com que Melancolia, o filme, se revista de melancolia na iminência do desfecho mais cruel e pessimista que poderia se avizinhar. Nesse aspecto, Von Trier consegue fazer com que seu público se aproxime ainda mais do que vivenciam Claire e Justine. O mal estar da alma, coisa que todo ser humano apresenta com frequência bem particular, se manifesta quando a luz varre, pela última vez, a tela do cinema.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Filme em destaque: Melancolia

O dinamarquês Lars Von Trier, que na foto orienta os principais nomes de seu elenco, apresenta um trabalho de profunda ressonância emocional e sensorial. Claquete ajuda a desvendar a Melancolia de Von Trier


Lars Von Trier tem fama de falastrão. O dinamarquês gosta de tecer comentários sobre muitas coisas. Na promoção de Melancolia, no entanto, ele pouco falou sobre o filme. Não por recusar-se, como fizera à época do lançamento de seu predecessor (AntiCristo), mas por enfiar os pés pelas mãos (aparentemente), em entrevista coletiva em Cannes. De qualquer maneira, Melancolia foi o filme mais comentado do último festival de Cannes – de onde saiu com a Palma de ouro de melhor atriz para Kirsten Dunst.
Von Trier abre seu filme, assim como fizera em AntiCristo, com um prólogo de beleza irrepreensível amplificado pelo potente som da ópera Tristão e Isolda de Richard Wagner.
O prólogo de aproximadamente dez minutos antecipa, de forma intuitiva e simbólica, os eventos que se seguirão nas duas partes que compõem o filme: Justine e Claire. Os nomes das irmãs com as quais Von Trier encena sua versão do fim do mundo.
Melancolia é o planeta, até então ignorado, que irá colidir com a Terra. Melancolia é, também, o estado de espírito da protagonista Justine (Kirsten Dunst). “Não diria que este é o meu filme mais intimo, mais pessoal, mas certamente é dos que mais me orgulho de ter realizado”, afirmou o cineasta em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo.
Pessimista inveterado, Von Trier admitiu, e foi das poucas coisas que admitiu em relação a AntiCristo, que concebera aquele filme em meio a uma depressão muito forte. De certa forma, e Von Trier não descarta essa interpretação, Melancolia é um avanço temático. “É um filme que não poderia ser concebido antes de AntiCristo”, escreveu o Hollwood Reporter em sua crítica à época do festival de Cannes.

Kirsten Dunst, que se entrega despudoradamente ao diretor, em um poderoso close que abre Melancolia


Curiosamente , é de se supor, que Melancolia tivesse um tom diferente caso Penélope Cruz interpretasse Justine. O papel foi escrito para a atriz que chegou a aceitar o convite, mas desistiu para gravar (e ganhar mais) Piratas do Caribe: navegando em águas misteriosas. Kirsten Dunst foi contratada e uma das razões que mais a seduziu no papel de Justine foi que havia, assim como Von Trier, vivenciado um doloroso e lento processo de depressão. A terapia lhe rendeu o prêmio em Cannes e o convite de Von Trier para estrelar seu próximo filme, The nymphomaniac, nas palavras do próprio diretor um pornô filosófico sobre “ a evolução erótica da mulher”.
Von Trier seguirá radicalizando. O diretor que conseguiu se tornar persona non grata no festival que mais o projetou é essa dicotomia ambulante. Esse conclave publicitário de encontro ao artista incendiário e transparente. Melancolia é, de certa forma, a afirmação artística de um cineasta que vive em conflito consigo mesmo. É, nesse aspecto, um filme testamento. Há todo o talento de Von Trier posto à prova de uma história que deflagra tristeza e encantamento, mas também hesitação.

domingo, 19 de junho de 2011

Insight

 A doutrina de Lars Von Trier

Muito já foi dito sobre o dinamarquês Lars Von Trier. Recentemente, a carga foi retomada em virtude da virulenta ação de marketing perpetrada pelo cineasta no último Festival de Cannes. Na ocasião, Von Trier disse que entendia Hitler e que pensava ser judeu para então se descobrir nazista. Uma brincadeira insólita que varreu o mundo com uma indignação que ora se inclinava para o teor da brincadeira, ora para a falta de escrúpulos do cineasta em abster-se dos limites aceitáveis em nome da promoção pessoal.
Coerência, no entanto, é algo que não se pode cobrar do dinamarquês. Ele é um dos fundadores do dogma 95, movimento estético que objetiva romper com as diretrizes do cinema praticado em Hollywood. Von Trier rompeu com o próprio manifesto logo em seu primeiro filme pós-movimento, Ondas do destino (1996). Os idiotas (1998) e Dogville (2003) são as produções do dinamarquês que mais se aproximam do manifesto que ajudou a formular.
Mas fosse coerência o grande problema de Von Trier e as coisas estariam bem. Com forte apreço à publicidade, seus filmes sempre se esmeraram em construções visuais arrebatadoras, Von Trier ficou refém da própria imposição. Superar-se sempre. O próprio admitiu profunda depressão, da qual concebeu – como via terapêutica – o não menos polêmico Anticristo (2009). A crise autoral de Von Trier, como bem sabe o próprio, não é infundada. Seu cinema, como atestam críticos de prestigiadas publicações como The Guardian, Los Angeles Times, Hollywood Reporter, Le Monde e a bíblia do cinema Cahiers du cinema, está mergulhado em profunda regressão. O ponto inicial dessa crise talvez date justamente de 2003, com o lançamento de Dogville; um filme arrojado, instigante, mas que atendia às demandas erradas: mal dizer a América. Von Trier, à época, garantia que iria rodar uma trilogia sobre a América. Uma nação escravagista, competitiva, atroz e dominadora – nas palavras do cineasta. Manderlay (2005) era, em proposta e discurso, uma repetição de mal gosto do original. O fato de nunca ter pisado nos EUA parecia cada vez mais evidente no processo de desconstrução prepotente proposto pelo cineasta. A terceira parte da trilogia, Washington, prometida para 2007, não chegou a ver a luz do dia. Foi aí, segundo o próprio Von Trier, que a depressão o visitou. A crise criativa resultou em AntiCristo, que talvez por reunir seus demônios e imperfeições, seja seu melhor filme. Mas com AntiCristo veio mais um ataque de prepotência. Von Trier se declarou o melhor cineasta do mundo e recusou-se a explicar seu filme – uma experiência sensorial de fazer inveja a Godard.

O diretor entremeado pelos protagonistas de Anticristo, no festival de Cannes de 2009: de queridinho à persona non grata


AntiCristo, e mais do que o filme a polêmica que provoca, valeram um sobre-fôlego ao cineasta dinamarquês. Não dá para cravar que foi esse fator que o levou a exagerar, mais uma vez, nas declarações polêmicas; mas é possível assumir isso como provável. Von Trier sabe se promover. A estética de seu cinema encontra em sua personalidade arrogante e – para alguns – imbecilizada, um componente de transgressão que é facilmente tomado como autoral. Não que não seja, mas o contexto da produção comercial favorece esse deslocamento. Von Trier percebe isso muito facilmente. Hoje ele abastece seu cinema da figura transgressora que representa como cineasta. Fosse um autor na mais correta acepção da palavra e o movimento seria contrário. Essa doutrina um tanto quanto peculiar (que não deixa de ser genial sob o ponto de vista publicitário) lhe valeu admiradores e detratores igualmente apaixonados em seus posicionamentos.
Melacholia, seja bom ou ruim, será um filme menor do que seu diretor. Muito bom para Von Trier, muito ruim para seu filme.

sábado, 21 de maio de 2011

Cenas de cinema

Por Ivo Pitanguy

Pedro Almodóvar, na coletiva de imprensa em Cannes de seu novo lançamento, A pele que eu habito, declarou que as referências ao Brasil em seu filme excedem a música (é o quinto filme do espanhol com música brasileira na trilha) e a nacionalidade de um personagem. “A cirurgia plástica é uma indústria muito forte no Brasil”, argumentou o cineasta que não soube precisar se o mais famoso dos cirurgiões plásticos brasileiros, Ivo Pitanguy, está vivo. Sí Almodóvar. Está!


O amor da vida de Banderas
O ex-latin lover de Hollywood, Antonio Banderas foi a premiere de A pele que eu habito, filme que o reúne ao cineasta que o revelou, acompanhado de sua esposa – a atriz americana Melanie Griffith. Banderas, no entanto, não perdia a oportunidade de pular no colo de Almodóvar. “Ele é a minha vida”, dizia todo alegre e entusiasmado.

Almodóvar e Banderas posam para os fotógrafos: o muso de um é o muso do outro


A recepção de sempre

Almodóvar recebeu palmas fervorosas ao fim da exibição de A pele que eu habito. Mas a recepção ao seu filme foi morna. A crítica se dividiu. E em Cannes, com Almodóvar, sempre foi assim. Salvo a exceção de sua estréia na croisette, em 1999, quando arrebatou público e crítica com Tudo sobre minha mãe. O diretor espanhol, como está sempre se experimentando tematicamente, embora preserve o viço estético, nunca mais arrebatou instantaneamente na riviera francesa.


Lars Von Trier – polêmica 2022

O polemista dinamarquês fez uma piada infame e conseguiu seu intento: polarizar as atenções no festival. Mesmo com seu filme Melancholia não surtindo o mesmo impacto de seu antecessor (Anticristo), Von Trier conseguiu se vincular como a lembrança mais vívida dessa edição de Cannes. A piada em que se diz nazista e admite simpatia e compreensão pela figura de Hitler chateou o presidente do festival, o judeu Giles Jacob. Embora amigos, Jacob optou por uma punição extraordinária e baniu o cineasta do evento. Von Trier tornou-se persona non grata no festival.
Em 2009, o júri ecumênico já havia lhe outorgado um prêmio irônico que o próprio Jacob fez questão de desautorizar por considerar censura. Von Trier, no entanto, segue com seu tino provocador e, parece, ter perdido as costas quentes. Pelo menos em Cannes.

O dinamarquês passou os últimos dois dias concedendo entrevistas para jornalistas de todo mundo, mais do que qualquer outro concorrente à Palma de ouro: À Folha de São Paulo, ele disse que pedir desculpas é algo "americano demais"

De mentirinha
No entanto, as coisas não são tão definitivas quanto parecem. O filme, Melancholia, continua elegível para a Palma de ouro. Segundo bochichos na croisette, as maiores chances são para a atriz Kirsten Dunst. E o próprio Von Trier, que não poderá comparecer a cerimônia de premiação, poderá voltar a Cannes em outros anos. “A punição é válida só para esse ano”, afirmou em nota oficial a direção do evento.


Os favoritos de momento I
E a festa está terminando. Um dia antes do anúncio dos vencedores pelo presidente do júri Robert De Niro, Claquete aponta as prováveis escolhas. A briga pela palma reúne três filmes destacados por setores influentes da crítica. São eles The kid with the bike, dos irmãos Dardenne; A árvore da vida, de Terrence Malick e Michael, do austríaco Markus Schleinzer. Contudo, não seria surpresa se em uma disputa com a presença de quatro diretoras, uma mulher vencesse. Nesse sentido, a escocesa Lynne Ramsey com We need to talk about Kevin e a japonesa Naomi Kawase com Hanezu no Tsuki são opções viáveis.


Os favoritos de momento II
Mas se nenhum filme tornou-se unanimidade, embora o nível das fitas tenha agradado, por que não premiar Almodóvar? Essa pode ser a pergunta que algum membro do júri levantará e a resposta poderá vir em forma de Palma de ouro.


Os favoritos de momento III
Na disputa por melhor ator a briga parece concentrada entre o americano Sean Penn por This must be the place e o italiano Michael Piccolli por Habemus Papam. Na disputa pela Palma de melhor atriz, há mais nomes aventados. Tilda Swinton (We need to talk about Kevin), Kirsten Dunst (Melancholia), Emily Browning (Sleeping beauty) e Elena Anaya (A pele que eu habito).

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Momento Claquete # 15

Angelina Jolie e Dustin Hoffman demonstram cumplicidade na premiere de Kung fu Panda 2, realizada na semana passada em Cannes 


Penélope Cruz chega sob grande comoção para a premiere de Piratas do Caribe: navegando em águas misteriosas no sábado (14) na croisette


O elenco do drama austríaco Michael, que já despontou como um dos favoritos do festival, posa para a tradional foto na entrada do cinema 


O cineasta Gus Van Sant, cujo filme Inquietos abriu a mostra Um certo olhar, devolve a gentileza para os fotógrafos presentes na riviera francesa 


Sean Penn e Brad Pitt, que vivem filho e pai em A árvore da vida, comparecem a exibição oficial do longa na noite de segunda-feira (16) no festival de Cannes. O quinto longa da carreira do cineasta Terrence Malick recebeu vaias e aplausos durante a sessão de 2h40min 


A atriz francesa Marina Fois, que teve performance elogiada no drama francês Polisse, em uma festa que agitou o fim de semana em Cannes 


O presidente do júri Robert De Niro parte para mais um dia árduo de trabalho na croisette 


O cineasta dinamarquês Lars Von Trier, entremeado pelas atrizes Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg, se superou em matéria de polêmica na edição de 2011 do festival francês. Indagado sobre suas influências alemãs, afirmou entender Hitler e simpatizar com sua figura. Pediu deculpas, por pressão da direção do evento, menos de duas horas depois 


Mel Gibson e Jodie Foster passearam por Cannes na manhã dessa quarta-feira (18): "Uma performance demolidora de Mel Gibson em Um novo despertar", escreveu a Cahiers du cinema

sábado, 16 de abril de 2011

"Saúde do mercado de cinema"

Vai ter Nicolas Sarkozy e sua patroa, a primeira dama Carla Bruni. Vai ter Jack Sparrow e Sean Penn em dose dupla. Penélope Cruz também aparecerá. Assim como os diretores mais importantes de sua carreira: Pedro Almodóvar e Woody Allen. O melhor cineasta do mundo também exibirá seu novo trabalho. O dinamarquês Lars Von Trier, que se autodefiniu o melhor cineasta do planeta, apresentará em Cannes a ficção existencialista Melancholia. Mas não é só. As mulheres vão em peso a croisette. Jodie Foster exibirá o seu Um novo despertar fora de competição. Na briga pela Palma de ouro estará a escocesa Lynne Ransay com We need to talk about Kevin, um filme que acompanha um casal que começa a desconfiar dos instintos de seu filho. John C. Reilly e Tilda Swinton estrelam. Outra diretora em que repousam grandes expectativas é a australiana Julia Leigh. Em sua estréia, ela dirige a também australiana Emily Browning (Suker Punch) em Sleeping beauty. Um filme anunciado como uma mistura de fantasia e realidade. Genérico, mas curioso.

O mundo a seus pés: Com Lars Von Trier na programação, é certo que teremos declarações polêmicas na riviera francesa em 2011



O organizador do Festival de Cannes, Thierry Fremaux ao anunciar os 20 concorrentes a Palma de ouro declarou que a seleção de 2011 é um “testemunho da saúde do mercado cinematográfico”. Segundo Fremaux, a inclusão de cineastas prestigiados como Terence Malick (que exibe o aguardado A árvore da vida, prometido para a edição do ano passado), dos irmãos Dardenne, com The kid with the bike e do italiano Nanni Moretti com Habemus papam, ratificam a posição de pulmão cinematográfico de Cannes.
O evento também abrigará a premiere internacional de Piratas do Caribe: navegando em águas misteriosas, honrando outra tradição recente da riviera francesa: ser palco de grandes lançamentos hollywoodianos. Indiana Jones, Kang Fu Panda, Wall street: o dinheiro nunca dorme e Robin Hood foram alguns dos grandes filmes americanos a terem Cannes como plataforma de lançamento.


Os irmãos Dardenne, duas vezes premiados em Cannes, voltam este ano com The kid with the bike


Idiossincrasias

Carla Bruni talvez desfile sua beleza pela croisette. Já a presença de seu marido, o presidente francês só é certa no documentário de Xavier Durringer (La Conquetê), uma crítica voraz a administração Sarkozy. Sean Penn é outra figura muito querida em Cannes. Em 2010, embora no elenco do concorrente Jogo de poder, Penn não compareceu ao festival por estar envolvido com os esforços humanitários no Haiti. Em 2011, Fremaux, ainda que involuntariamente, conferiu duas razões para o ator americano dar as caras. A primeira é o aguardado A árvore da vida em que Penn protagoniza como um homem que busca sentido para a vida. O segundo é This must be the place, do italiano Paolo Sorrentino (em seu primeiro filme internacional), em que o ex de Madonna aparece de batom, cabelos longos e vive um roqueiro em busca de redenção.
Pedro Almodóvar, segundo relatos de bastidores, não queria exibir seu A pele que eu habito em competição. A edição da fita teria sido apressada e Almodóvar estaria prevendo polêmicas acerca de uma cena indigesta. O thriller de terror que reúne o diretor espanhol a Antônio Banderas, no entanto, é o filme que desperta mais expectativas nesse momento.

Um Almodóvar para incomodar muita gente: A pele que eu habito reúne o diretor e Antônio Banderas duas décadas depois de Ata-me



Outros filmes aguardados e que não entraram no line up de Cannes foram On the road, de Walter Salles, The grand master, de Wong Kar Wai e A dangerous Method, de David Cronenberg. Esses filmes, provavelmente, irão compor a mostra oficial de Veneza em setembro.
Na mostra Um certo olhar, o grande destaque recai sobre o novo drama independente de Gus Vant Sant, Restless. Para o Brasil, o interesse aponta para Trabalhar cansa, longa de Juliana Rojas e Marco Dutra. A dupla já esteve em Cannes antes competindo com curtas metragens.
É inegável que a edição de 2011 parece mais inspirada que a de 2010. Diretores de prestígio, produções comentadas com larga antecedência e uma seleção de personalidades cativante. Cannes pode até não cumprir as expectativas que suscita, mas o júri que será presidido por Robert De Niro terá algumas reticências a preencher.



Competição pela Palma de ouro:

A pele que eu habito, de Pedro Almodóvar
L´Apollonide, de Betrand Bonello
Foot note, de Joseph Cedar
Pater, de Alain Cavalier
The kid with the bike, de Jean-Pierre e Luc Dardenne
Hearat Shulayin, de Joseph Cedar
La Havre, de Aki Kaurismäki
Hanezu no Tsuki, de Naomi Kawase
Sleeping beauty, de Julie Leigh
Polisse, de Maiwenn
La source des femmes, de Radu Mihaileanu
Ichimei, de Takashi Miike
Habemus papam, de Nani Moretti
We need to talk about Kevin, de Lynne Ramsay
Michael, de Markus Schleinzer
This must be the place, de Paolo Sorrentino
Melancholia, de Lars Von Trier
Drive, de Nicolas Winding Refn
Once upon a time in a Annapolia, de Nuri Bilgen Ceylan
A árvore da vida, de Terence Malick