Frenesi de perversidade
A caça (Jagten, DIN 2012) não é um filme sobre pedofilia,
ainda que remeta a esse aterrador universo e seja ventilado por ele
constantemente. O novo, denso e frequentemente impactante filme de Thomas
Vinterberg é um estudo, deverás ruidoso, da perversidade humana em múltiplas
formas. Desde a mais remota e ligeira vergonha até a incivilizada propensão
infantil à crueldade, passando pela boçalidade dos adultos e culminando na
complacência com que certas articulações humanas são conduzidas.
Amparando-se quase que completamente nos cânones do
movimento dogma 95 que ajudou a constituir, a preocupação no uso da luz natural
e a trilha sonora restrita ao ambiente em que se desenrola a ação são
características marcantes em A caça, Vinterberg tece uma trama assustadora
sobre os efeitos de uma mentira mal contada e ainda pior verificada.
Lucas (Mads Mikkelsen) é um homem de 42 anos extremamente
tímido, divorciado, com um filho que a ex-esposa lhe dificulta o acesso, e que
trabalha como professor em uma escola do jardim de infância em um vilarejo qualquer
dinamarquês. A composição de Mikkelsen favorece a percepção de que se trata de
um homem frustrado, mas também conformado com sua rudeza e simplicidade, que
enxerga no hábito de caçar – cultivado junto de amigos bonachões – um sentido
maior que a realidade impõe. Ajuda essa ambientação do personagem, a
aproximação de Nadja (Alexandra Rapaport), estrangeira que trabalha na
escolinha e manifesta interesse por Lucas. Ele se comporta como uma presa
hesitante e Nadja como uma caçadora convicta.
Mikkelsen em uma das cenas mais fortes de A caça, feito presa e tolerante a humilhação, Lucas não tarda a perceber que sua vida mudou para sempre
Lucas é amigo próximo de Theo (Thomas Bo Larssen), ao ponto
de contar com sua confiança para levar ou trazer Klara (Annika Wedderkopp) à
escola. Klara, de apenas cinco anos, é muito suscetível à instabilidade de sua
vida familiar e isso é algo que Vinterberg cristaliza com propriedade na
primeira meia hora de filme. Nessa conjuntura e carente de atenção, é natural
que se volte para Lucas – sempre atencioso e paternal. Um belo dia, a menina
tasca-lhe um beijo na boca e lhe oferta uma cartinha carinhosa. Lucas lhe repreende,
ainda que o faça com carinho, e provoca em Klara um temor por aquela rejeição.
Horas depois a menina conta uma história francamente insustentável – se uma
mínima e séria investigação preliminar fosse conduzida – indicando Lucas como
um agressor sexual. A diretora da escolinha, personagem displicente em sua
atividade, acolhe com o esperado choque o relato da menina sem grandes
questionamentos e um circo, ou uma caça, em que Lucas se torna a
principal atração, ou presa, está armado.
O que interessa a Vinterberg, em termos primários, é a total
falta de interesse na investigação mais aprofundada da acusação. “Por mais que
se tenha imaginação fértil, uma criança não inventaria uma coisa dessas”, diz a
diretora da escolinha a certa altura a outro personagem sobre o depoimento de
Klara – inconsistente, mas gráfico no que precisaria ser. É desse choque de
expectativas do que se espera (de uma criança, de uma sociedade e até mesmo de
Lucas) e o que de fato se desenvolve, que A caça se articula enquanto proposta
dramática.
Perversidade pontual e perversidade generalizada: a crueldade de Klara não necessariamente é a mais acachapante de A caça
Vinterberg quer mostrar que, quando lhe é dada a chance, a
sociedade (enquanto grupo organizado) apressa-se em primitivizar-se. E
sublinha seu comentário ao mostrar que submetido a lei (principal instrumento
civilizatório em uma sociedade) – aqui coadjuvante na arquitetura dramática do
filme - Lucas é inocentado sem grandes questionamentos.
A retumbante cena final, no entanto, demonstra que o lado
primitivo nos homens, uma vez provocado, resiste alerta e ameaçador.
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