Parece mentira, mas ainda há quem não ache George Clooney um bom ator. Há outra horda que faz questão de diminuir seu talento afirmando que “ele interpreta a si mesmo”. O próprio Clooney, em 2010, quando indicado ao Oscar por Amor sem escalas, falou sobre isso em entrevista à revista Entertainment Weekly destacada em Claquete: "Laurence Olivier desaparecia em seus personagens e não tinha como você reconhecê-lo. Aí você tem Spencer Tracy, ele sempre foi um tipo de... Spencer Tracy. Eu não sei onde me ajusto. Há sempre algo de mim lá". Clooney complementa: "Se pareceu suave, natural ou comum é porque fiz meu trabalho. Quero dizer que sou um profissional. Eu sei o que estou fazendo".
À época, o leitor e blogueiro Elton Telles se manifestou em defesa de Clooney na seção de comentários:
“também defendo completamente o George Clooney nessa questão de que ‘ele interpreta a si mesmo em todos os filmes’. Primeiro de tudo, o ator deve tentar compreender e, de alguma forma, se identificar com o personagem. Em Amor sem Escalas, o ator está em sua melhor atuação: age com naturalidade, é mesmo uma atuação mais contida, que é excelente para o personagem”.
George Clooney a cada ano se consolida como uma das figuras mais expressivas da Hollywood atual. Mesmo morando na Itália. Essa particularidade é acentuada pelo fato do ator se provar, também, um diretor talentoso, um produtor voraz e um roteirista calejado.
Mas voltando à sua persona como ator, parece ingênuo – para não falar em falta de perspicácia analítica – dizer que Clooney interpreta a si mesmo. Ainda que seus personagens, de maneira geral, guardem algumas semelhanças, o mérito do ator está em difundir a individualidade deles em cada composição. O Matt King de Os descendentes é distinto, em forma e relevo, do Ryan Bingham de Amor sem escalas. Ainda que ambos os personagens sejam homens que interiorizam seus problemas emocionais e, no curso do filme, buscam alguma conexão humana e sentido para suas vidas. Clooney mostra sensibilidade ao sublinhar nuanças distintas e transformar inteiramente a lógica dos personagens. Ajuda, é fato, a distância das motivações de um e outro, mas apenas um ator extremamente habilidoso consegue fugir da repetição. É o que Clooney faz em Os descendentes.
Papai Clooney: em Os descendentes, o ator vive um pai que precisa recuperar o direito sob suas filhas
Outro ponto que ajuda à campanha de difamação do talento do ator é seu status de bon vivant. Algo que ronda, irremediavelmente, os filmes em que atua. Até mesmo em Os descendentes (em que ele faz um papel de pai atordoado e com péssimo gosto para vestuário), Clooney parece cool. Esse fato favorece a miopia de seus detratores.
Veja sua performance em Um homem misterioso, ótimo drama de Anton Corbijn infelizmente pouco visto. Na pele do tal homem misterioso do título, Clooney constrói um personagem que mais esconde do que traz à luz e a representação de ator segue a mesma lógica. Uma excelente atuação que o crítico A.O Scott do New York Times considera como a mais sólida da carreira do astro. No entanto, o trabalho, injustamente, foi pouco comentado fora do círculo dos críticos mais atentos.
Outra demonstração do bom tato de Clooney como ator se dá em Tudo pelo poder. Confortável na posição de coadjuvante, ele cria um político de ego sobressaltado e carisma estelar. Há quem identifique nesse personagem, um decalque do próprio ator. Nada mais é do que uma projeção refletida da ótima encenação que Clooney faz de um tipo que ostenta um pouco de Obama e um pouco de Clinton – detalhe que não passou despercebido para quem conhece um pouco dessas personalidades políticas.
É inegável que o ator de hoje é um ator distinto daquele visto em O retorno das almôndegas assassinas (1988). A evolução de Clooney é perceptível para qualquer um, independentemente de sua sensibilidade cinematográfica. Aos partidários da intriga, cabe reconhecer sua resistência ao astro e não desmerecer seu talento tangível não só pela história, mas através dos personagens que dá vida.