
Antes de qualquer coisa é recomendável para quem achou o primeiro Tropa de elite fascista, ou uma apologia vitaminada de um estado policialesco, que assista este segundo filme. Desarma expectativas. É mais ou menos por aí que se passa a entender um pouco das intenções de Padilha com este novo Tropa. Ele almeja, mais do que assumir discursos de direita ou esquerda, entender o Brasil e no meio do caminho empurrar um monte de gente para essa “zona de entendimento”. Essa constatação é reforçada ao direcionar o olhar para os documentários realizados por Padilha (os dois filmes estrelados pelo Nascimento de Wagner Moura ainda são as únicas obras de ficção na carreira do cineasta). Tanto o documentário Garapa (sobre famílias miseráveis no Nordeste brasileiro) quanto Ônibus 174 (sobre uma mal sucedida ação do BOPE transmitida ao vivo para todo o país) buscam radiografar dicotomias de um país que mesmo flagrante no noticiário nos parece desconhecido. O diretor ainda realizou um outro documentário (encomendado pela rede de TV britânica BBC) sobre expedições antropológicas e suas relações com tribos indígenas. O segredo da Tribo (2009) não chegou a ter distribuição comercial no país. Ficou restrito a alguns festivais como a Mostra de cinema de São Paulo.
Quem não fica restrito é Padilha. O diretor põe embaixo do braço as muitas teorias do cinema e as alterna quase que de maneira frenética em seus filmes. Em uma análise superficial este Tropa de elite 2 tem uma estrutura de direita e um discurso de esquerda (inversamente proporcional ao primeiro filme). Mas essa constatação é fruto de uma análise superficial, algo que não encaixa com a filmografia de Padilha e os propósitos alinhados a ela.
Circo midiático: Em Tropa de elite 2 padilha tem muitos alvos...
É fato que com Tropa de elite 2 José Padilha ambicionava incomodar. Talvez mais do que tenha incomodado (pelo menos alguns setores intelectuais que se ajustam à esquerda) com o primeiro filme. A coragem de Padilha, exaltam alguns entusiasmados com o mote central dos filme (a banalização da política pelos políticos), tem de ser louvada. De fato, Padilha é intransigente a ponto de lançar seu filme em plena época de eleições. Mas esse fato é coincidência mercadológica. O público ecoa uma mensagem que no fundo não está presente na obra. O que Padilha quer é levar os políticos para as cordas. Trazer alguns assuntos sérios (como a segurança pública, a fome, a violência) para o centro do debate. Em entrevista no fim de setembro à Folha de São Paulo o cineasta disse: “Não sou bobo de acreditar que o filme (Tropa de elite 2) possa influenciar as eleições. Mas se plantar algo positivo no público, gerar o debate, pode, quem sabe, influenciar nas eleições de daqui a três anos.” A frase não é gratuita. O que Padilha quer é fazer com que o brasileiro se interesse por política mesmo quando não há campanha eleitoral na TV. Fazê-lo entender que é nossa responsabilidade cobrar responsabilidade no trato da coisa pública. Pode parecer pueril acreditar que um filme possa fazer isso. E é. Mas José Padilha é um artista. Politicamente engajado, mas ainda um artista. E essa é a postura socialmente requerida de artistas pensantes como Padilha. É isso que garante o equilíbrio do pêndulo social. Esse dado nos leva a brilhante reflexão proposta pelo crítico Inácio Araújo em seu blog. Ao destrinchar suas impressões do filme de maneira muito parelha a crítica que o leitor leu em Claquete, Araújo faz uma observação interessante: “Bem, aí entra o outro filme que me veio à cabeça: Arquitetura da Destruição". Esse magnífico ensaio sustenta que Hitler não aspirava senão a criar um mundo de beleza, livre de impurezas como retardados mentais, ciganos e, claro, judeus.
Acho que isso pode ser um paradigma: o caminho do excesso, no caso, não leva à sabedoria, como dizia William Blake. Leva ao desatino. Então, penso, todo esse excessivo combate à instituição política que vemos em Tropa leva a quê?”
Em outro momento, o crítico argumenta: “ eu me pergunto se vivemos num país de imaculada pureza dominado por um núcleo de desviantes corruptos ou coisa parecida.
O Congresso Nacional, por onde o filme passeia a horas tantas, não seria então representativo do que é o Brasil, do que somos nós?
Somos todos bons e os políticos são ruins? É isso, então? A idéia é consoladora, é verdade, mas é uma pena que não seja muito realista.
O filme sustenta, talvez com razão, que levará muitos anos para solucionarmos problemas como a corrupção, porque não é corrupção de uma pessoa, mas de um sistema”, finaliza.
Enfim, o que Padilha quer é o que quer todo cidadão de bem. O fato de defender um Brasil puro soa utópico e de certa forma é. Mas promove conforto a classe média saber que alguém tem culhões de enquadrar os políticos. Mesmo que com a devida licença à brasileira exibida antes da ação começar: Trata-se de uma ficção.