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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Crítica - Robocop

Blockbuster com tutano; talvez até demais

José Padilha fez o filme que quis fazer e fez um filme que quem quer que tenha assistido aos dois Tropa de elite reconhece sua assinatura em Robocop (EUA 2014). O que mais chama a atenção e conta pontos a favor do cineasta brasileiro nessa sua promissora e elogiável estreia no cinema americano é que ele não se intimidou ante a expectativa de refilmar um clássico oitentista tão venerado por fãs e crítica como o é Robocop. Ao invés de tornar-se refém da versão de Verhoeven, Padilha fez um filme com pensamento próprio e ambições calibradas em sua filmografia.
A começar pela valorização do debate entre homem e máquina. O homem é capaz de suplantar a máquina? Ao trazer o elemento familiar para um dos principais eixos da narrativa, Padilha subverte a lógica estabelecida pelo primeiro filme e adiciona mais um elemento de combustão em seu filme. Mas o traço político é o que mais interessa o diretor. Michael Keaton faz Raymond Sellers, uma espécie de Steve Jobs do mal. A definição talvez seja vã, mas é Padilha quem força a comparação ao vestir o personagem como Jobs e até mesmo colocar uma das frases mais famosas do pai da Apple na boca do presidente da OmniCorp: “As pessoas não sabem o que querem até que alguém mostre a elas”.
Sellers é o principal fornecedor de drones e robôs para o exército americano e tenta a todo custo derrubar uma lei que proíbe o uso de máquinas em solo americano. A direita ultraconservadora americana, representada pelo jornalista Pat Novak (Samuel L. Jackson), apoia a visão de Sellers de que nenhum policial precisa morrer para manter as ruas das cidades americanas seguras.
Quando Robocop começa, a opinião pública é majoritariamente contrária à ideia de robôs atuando nas ruas americanas, mas Sellers tem uma brilhante ideia. Colocar um homem dentro da máquina. Produzir um “faz de conta” robusto e cativar o público. Ganhar a opinião pública. É aí que entra Alex Murphy (Joel Kinnaman), detetive honesto que depois de sofrer um atentado fica à beira da morte. Sua mulher (Abbie Cornish) aprova que ele faça parte do programa pioneiro oferecido pela OmniCorp.  

O Robocop em ação... 

... e Michael Keaton, de volta à boa forma, como a melhor coisa do filme

José Padilha não está mais interessado na ação do que em escrutinar o jogo político que se ergue por trás da existência do Robocop e é desse desbravamento que Robocop se ocupa em sua maior parte. O diretor brasileiro não estava brincando quando disse que iria fazer um filme que discutisse o uso de drones. Robocop vai fundo na discussão, mas peca justamente por não oferecer um ponto de vista mais lapidado. A direita, embora caricata, não surge vilanizada no filme e o vilão de Keaton (o grande atrativo do filme em conjunto com Jackson) é mais acinzentado do que os anos 80 permitiriam ser.
A família de Murphy também parece logo deixada de lado pela narrativa, como se fosse um apêndice necessário apenas para estabelecer o conflito entre homem e máquina que caracteriza uma das muitas diferenças entre o Robocop de Padilha e o de Verhoeven.
Outro problema do filme é a falta de catarse. Mesmo quando Robocop “se vinga” do responsável pelo atentado a Murphy, tudo parece mecanizado demais. Talvez tenha sido uma opção de Padilha para realçar essa automatização da violência, mas o filme carece de violência – uma contingência de mercado – o que acaba por esvaziar de sentido essa alternativa.
A discussão proposta pelo diretor, no entanto, não se perde ou anula. Robocop é um blockbuster com o louvável desejo de querer fazer a audiência pensar. Padilha fez um filme que repete em muitos aspectos a estrutura do segundo Tropa de elite, mas sem o ranço pedagógico que impregnou no filme em questão. Ele deixa com o público a competência de julgar e fecha seu filme com uma provocação à América.
A prolixidade de Robocop talvez seja a razão da divisão que o filme incitou na crítica, mas é inegável - gostando do resultado obtido por Padilha ou não - que se trata de um filme de personalidade, descaradamente atual e, ainda que com menos humor, tão provocador quanto o filme original.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Filme em destaque - Robocop

Missão cumprida

                                                                       foto: Agnews
José Padilha, Joel Kinnaman e Michael Keaton no Rio de Janeiro para divulgar Robocop: não é o filme que os fãs queriam ver, mas é o filme pelo qual nosso tempo urge

“Eu vou fazer o primeiro filme do cinemão a abordar o uso de drones”. A frase de José Padilha é de 2012, proferida pouco depois de ele ter começado a pré-produção da refilmagem de Robocob. O conceito voltou a ser aventado por Padilha na maratona promocional a que ele e os atores Michael Keaton e Joel Kinnaman se lançaram no Rio de Janeiro nesta semana.
Robocop estreou de maneira sólida, mas não entusiasmante nos EUA e a crítica internacional se mostrou dividida em relação à reimaginação bancada por Padilha de um dos filmes mais cultuados dos anos 80.
No Brasil, o filme encontra mais boa vontade. Recebeu matéria de capa, vasta e elogiosa, da revista Veja e foi bem acolhido pelos principais veículos do país.
À Veja, Padilha disse que fez “ o primeiro filme brasileiro em Hollywood” e corou o tom da reportagem assinada pela excelente jornalista Isabela Boscov que expõe como o diretor brasileiro conseguiu impor sua visão e sua dinâmica operacional à sanha controladora dos executivos de estúdio, no caso a MGM.

Calibrando expectativas
“Já vi alguma coisa e posso dizer que é um filme com a cara do Padilha”, disse Wagner Moura em meados de 2013 quando no Brasil divulgava a sua estreia em Hollywood, no filme Elysium. Na acepção do ator que viveu duas vezes o capitão Nascimento para José Padilha, pode-se vislumbrar onde o blockbuster que discute o uso de drones e o “primeiro filme brasileiro feito em Hollywood” se encontram.
“Se ouvir os fãs, eu fico paralisado”, observou o cineasta ao justificar a distância de seu filme para o original e é justamente a memória do original o principal ponto de desequilíbrio nas críticas sobre o filme. Para Luísa Pécora, que escreveu a crítica para o portal IG, “Robocop de José Padilha tem mais política e emoção do que o original” e, na avaliação dela, isso é algo muito positivo. Já para o New York Times, apesar desse esforço de Padilha em trazer uma assinatura própria e um pensamento mais moderno, as opções estéticas e narrativas do original ainda são mais fortes.

Criador e criatura: o inferno está cheio de boas intenções e o cinema de José Padilha é implacável com nossa condescendência

Se falta humor e violência, o novo Robocop busca um espectro político que reflete a obra de Padilha. O fato de o diretor ter tido controle sobre o corte final demonstra que essa visão estrangeira (uma característica celebrada no primeiro Robocop, feito pelo holandês Paul Verhoeven) é algo prezado pelo estúdio. O que não quer dizer que Robocop não seja um filme de ação e não congregue clichês e outras idiossincrasias do gênero.
“Quando você automatiza a violência, você abre as portas para o fascismo”, observa Padilha na coletiva realizada no Rio de Janeiro.  Não é um terceiro Tropa de elite, mas as nuanças observadas nos outros dois filmes foram conscientemente resgatadas pelo diretor ao abordar o universo de uma tropa de elite de um homem, no caso máquina, só.

domingo, 29 de maio de 2011

Insight

Do documentário à ficção: por que tem gente que faz a passagem?

Vivemos em um momento em que o gênero documentário, que para alguns nem mesmo deveria ser classificado como gênero, cada vez mais se mescla à ficção. Se funde a ela em estrutura narrativa, linguagem e técnica. Paul Grengrass levou ao cinema de ação, com a série Bourne, algumas esquematizações inerentes ao documentário e lançou tendências. O cineasta Michael Mann utiliza o digital, que por ser mais barato é tão caro ao nicho do documentário, em longas como Colateral (2004), Miami Vice (2006) e Inimigos públicos (2009), com vistas a obter uma representação do real mais satisfatória.
Mas há outra bifurcação nessa espiral de aproximação entre documentário e ficção no cinema. José Padilha é um valioso às nesse jogo de cartas. Documentarista consagrado, com filmes como Ônibus 174 (2002) e Garapa (2009), o diretor realizou dois longas de ficção de imenso apelo nacional e que, assim o são, por sua vocação para documentar a verdade e fomentar o debate social. Características primárias a qualquer definição do documentário.

Padilha orienta Seu Jorge nos sets de Tropa de elite 2: teses sociais que movem filmografia



Padilha não está sozinho. João Jardim é outro documentarista que aceitou o flerte da ficção e se abriu às possibilidades que dele se ensinuam. Amor?, um dos melhores filmes de 2011 sob qualquer perspectiva, embaralha as percepções entre ficção e documentário ao propor um jogo de espelho entre linguagem, método e dramatização.
Bennett Miller, um americano de 47 anos, é outro documentarista que enxergou na ficção uma janela criativa que lhe favorece. Debutou na ficção sendo indicado ao Oscar de direção por Capote (2005). Um filme jornalístico sobre um episódio jornalístico. Pode se dizer que, em parâmetros meramente empíricos, Miller realizou um documento, ainda que com a liberdade do jornalismo literário¹. Seu próximo filme (Moneyball), que tem no elenco o astro Brad Pitt, surfa na mesma onda. Recuperar a história de um homem que fez de tudo para seu time de baseball dar certo.
O documentarista Jefferson De optou pela ficção para contar uma história de amizade e cumplicidade em um bairro violento da periferia de São Paulo. Se Bróder fosse um documentário, provavelmente não seria tão eloquente quanto objetivava seu diretor.

Bennett Miller (à esquerda), com o roteirista Dan Futteman e o ator Phillip Seymour Hoffman: estréia elogiada na ficção


Essas opções não apontam restrições em um gênero ou formato. Pelo contrário. Reforçam a pluralidade do cinema e derrubam um tabu. Não está só no documentário a verdade; e a ficção pode alinhar fatos e versões com mais veracidade e isenção do que um documentário respaldado em anos de pesquisa. José Padilha rodou os dois Tropas de elite com o mesmo tino e obstinação que caracterizou seus documentários menos famosos. Bennett Miller tem na figura de Capote o mesmo interesse que tinha na de Tom Cruise, no documentário que dirigiu sobre o astro em 1998. O interesse de Jefferson De era mostrar que o Capão Redondo é mais do que abrigo para delinquentes e traficantes. Esses documentaristas enxergaram que a ficção pode ser mais apaixonante e, por vezes, mais fecunda do que o documentário. É uma opção legítima e que, em seu viés imaginativo, como fizera João Jardim, resplandece todo o vigor narrativo dessa arte chamada cinema.

Cena do premiado Bróder: cinema verdade que encontra abrigo na ficção


1- gênero jornalístico em que se reporta uma notícia tomando como parâmetro os alicerces da literatura 

terça-feira, 22 de março de 2011

Em Off

O último filme em que Ashton Kutcher não apareceu pelado, o novo filme de Tom Hanks, o que Sexo sem compromisso tem a ver com Um lugar chamado Notthing Hill e porque é melhor desconfiar do Robocop de Padilha são alguns dos destaques desta edição do Em Off.


Efeito Kutcher I

Pense rápido! Qual foi o último filme em que Ashton Kutcher não apareceu nu?
Errou quem pensou em Efeito borboleta (2004). Errou também quem foi ao longínquo 2000 para apontar Cara, cadê meu carro?. Não foi também em Por amor (2009) em que ia para a cama com Michelle Pfeiffer. Ele aparece apenas descamisado em filmes como Par perfeito (2010), Idas e vindas do amor (2010), De repente é amor (2006) e A família da noiva (2005). Mas o único filme em que Kutcher não exibe pele em demasia é O bicho vai pegar (2006). Também pudera, né?! Na animação, sua contribuição se restringe a dublagem....

To sexy to put a shirt: com 20 minutos de Sexo sem compromisso, Kutcher já havia exibido seu derrière...
 
 
Efeito Kutcher II


Exibicionista, não seria incorreto afirmar que Ashton Kutcher ajudou a popularizar o Twitter nos EUA. Primeira celebridade de escala mundial a aderir à rede social, Kutcher serviu como expressão do status jovem da plataforma.
Casado com a atriz Demi Moore e receptivo à curiosidade alheia, seus filmes sempre rendem uma média bastante satisfatória. O ator tem um público cativo (formado majoritariamente por teens de classe média) que está disposto a prestigiá-lo em seus arroubos de vaidade fílmica. Desde Jogo do amor em Las Vegas, lançado no verão americano de 2008, Kutcher lançou cinco filmes (três produzidos por ele) e teve uma média de bilheteria de U$ 70 milhões nos EUA. Não chega a ser um campeão de bilheteria, mas o jeito despojado e moderninho de Kutcher vende e quem paga, paga bem.



Um lugar chamado Nothing Hill 12 anos depois = Sexo sem compromisso

Se você reparar são muitas as semelhanças entre Sexo sem compromisso, em cartaz nos cinemas, e Um lugar chamado Notthing Hill que arrastou multidões para os cinemas em um dos últimos grandes sucessos da carreira de Julia Roberts no gênero. Tanto lá quanto cá, há uma mulher autosuficiente, receosa de uma relação íntima e um homem um tanto abobado ansioso por ela. Tanto lá quanto cá o sentimento surge depois do sexo e tanto lá quanto cá o homem é “magoado” antes do final feliz. É bem verdade que essa estrutura também pode ser encontrada em outros filmes, o que não tira o mérito dessa comparação em particular...



Considerações sobre o novo Batman


Christian Bale, Michael Caine, Joseph Gordon Levitt, Anne Hathaway, Tom Hardy e, muito possivelmente, Marion Cottilard estarão o novo filme do Batman. The dark knight rises terá a difícil missão de, no mínimo, se equiparar a O cavaleiro das trevas. Até o título alude ao filme que Heath Ledger imortalizou como do coringa.
Não será fácil para Christopher Nolan igualar o feito de O cavaleiro das trevas. Nas bilheterias a missão pode até ser realizada, mas a qualidade do filme de 2008 não é fácil de ser reproduzida. Assim como ocorreu com Heath Ledger, que meio mundo desaprovou como escolha para intérprete do coringa, Anne Hathaway – a primeira vista – não parece talhada para viver a mulher gato. Mas Nolan sabe o que faz e nós não sabemos o que dizemos.



O Robocop de Padilha

Na última semana foi confirmada a contratação de José Padilha como diretor do reboot que a MGM planeja para Robocop. Os executivos do estúdio, que é bom lembrar enfrenta uma recuperação judicial, se impressionaram com o trabalho de José Padilha nos dois Tropa de elite. A opção pelo brasileiro chega depois da consideração dos nomes de Darren Aronofsky (que chegou a participar da pré-produção antes da quebra do estúdio) e do espanhol Juan Carlos Fresnadillo (diretor de Extermínio 2).
Padilha, em entrevista ao Motion TV online, demonstrou segurança e entusiasmo com a nova empreitada: “Eu só faço filmes que me interessam pelo conteúdo. Podem esperar um controverso, diferente, irônico e violento Robocop”, afirmou.
Contudo, as barbas precisam ficar de molho. O olhar clínico de Padilha para a violência no Rio de Janeiro e sua perícia em construir cenas de ação com recursos limitados pode ser muito importante do ponto de vista técnico, mas falta ao diretor exuberância ficcional. Robocop é um blockbuster americano. Essencialmente fantasioso. O descompasso terá de ser apurado na confecção do roteiro, já iniciada em conjunto com Josh Zetumer (que teve mais roteiros descartados do que filmados até a presente data).



A nova brincadeira de Tom Hanks

Afastado da direção desde sua estréia, que ocorreu com The Wonders – o sonho não acabou (1996), Tom Hanks volta às telas de cinema em 2011 e também para trás das câmeras com Larry Crowne. A história de um cara que já foi nove vezes funcionário do mês e que após ser demitido resolve se reciclar cursando uma faculdade chega ao país em julho. Frequentar a faculdade da comunidade local irá lhe proporcionar uma experiência renovadora. A comédia com tom existencial deve reforçar, como se fosse preciso, o estereótipo de bom moço de Hanks. Julia Roberts está lá para garantir que isso aconteça. Confira o trailer:


domingo, 17 de outubro de 2010

O que quer José Padilha com Tropa de elite 2?

 


Antes de qualquer coisa é recomendável para quem achou o primeiro Tropa de elite fascista, ou uma apologia vitaminada de um estado policialesco, que assista este segundo filme. Desarma expectativas. É mais ou menos por aí que se passa a entender um pouco das intenções de Padilha com este novo Tropa. Ele almeja, mais do que assumir discursos de direita ou esquerda, entender o Brasil e no meio do caminho empurrar um monte de gente para essa “zona de entendimento”. Essa constatação é reforçada ao direcionar o olhar para os documentários realizados por Padilha (os dois filmes estrelados pelo Nascimento de Wagner Moura ainda são as únicas obras de ficção na carreira do cineasta). Tanto o documentário Garapa (sobre famílias miseráveis no Nordeste brasileiro) quanto Ônibus 174 (sobre uma mal sucedida ação do BOPE transmitida ao vivo para todo o país) buscam radiografar dicotomias de um país que mesmo flagrante no noticiário nos parece desconhecido. O diretor ainda realizou um outro documentário (encomendado pela rede de TV britânica BBC) sobre expedições antropológicas e suas relações com tribos indígenas. O segredo da Tribo (2009) não chegou a ter distribuição comercial no país. Ficou restrito a alguns festivais como a Mostra de cinema de São Paulo.
Quem não fica restrito é Padilha. O diretor põe embaixo do braço as muitas teorias do cinema e as alterna quase que de maneira frenética em seus filmes. Em uma análise superficial este Tropa de elite 2 tem uma estrutura de direita e um discurso de esquerda (inversamente proporcional ao primeiro filme). Mas essa constatação é fruto de uma análise superficial, algo que não encaixa com a filmografia de Padilha e os propósitos alinhados a ela.

Circo midiático: Em Tropa de elite 2 padilha tem muitos alvos...



É fato que com Tropa de elite 2 José Padilha ambicionava incomodar. Talvez mais do que tenha incomodado (pelo menos alguns setores intelectuais que se ajustam à esquerda) com o primeiro filme. A coragem de Padilha, exaltam alguns entusiasmados com o mote central dos filme (a banalização da política pelos políticos), tem de ser louvada. De fato, Padilha é intransigente a ponto de lançar seu filme em plena época de eleições. Mas esse fato é coincidência mercadológica. O público ecoa uma mensagem que no fundo não está presente na obra. O que Padilha quer é levar os políticos para as cordas. Trazer alguns assuntos sérios (como a segurança pública, a fome, a violência) para o centro do debate. Em entrevista no fim de setembro à Folha de São Paulo o cineasta disse: “Não sou bobo de acreditar que o filme (Tropa de elite 2) possa influenciar as eleições. Mas se plantar algo positivo no público, gerar o debate, pode, quem sabe, influenciar nas eleições de daqui a três anos.” A frase não é gratuita. O que Padilha quer é fazer com que o brasileiro se interesse por política mesmo quando não há campanha eleitoral na TV. Fazê-lo entender que é nossa responsabilidade cobrar responsabilidade no trato da coisa pública. Pode parecer pueril acreditar que um filme possa fazer isso. E é. Mas José Padilha é um artista. Politicamente engajado, mas ainda um artista. E essa é a postura socialmente requerida de artistas pensantes como Padilha. É isso que garante o equilíbrio do pêndulo social. Esse dado nos leva a brilhante reflexão proposta pelo crítico Inácio Araújo em seu blog. Ao destrinchar suas impressões do filme de maneira muito parelha a crítica que o leitor leu em Claquete, Araújo faz uma observação interessante: “Bem, aí entra o outro filme que me veio à cabeça: Arquitetura da Destruição". Esse magnífico ensaio sustenta que Hitler não aspirava senão a criar um mundo de beleza, livre de impurezas como retardados mentais, ciganos e, claro, judeus.
Acho que isso pode ser um paradigma: o caminho do excesso, no caso, não leva à sabedoria, como dizia William Blake. Leva ao desatino. Então, penso, todo esse excessivo combate à instituição política que vemos em Tropa leva a quê?”
Em outro momento, o crítico argumenta: “ eu me pergunto se vivemos num país de imaculada pureza dominado por um núcleo de desviantes corruptos ou coisa parecida.
O Congresso Nacional, por onde o filme passeia a horas tantas, não seria então representativo do que é o Brasil, do que somos nós?
Somos todos bons e os políticos são ruins? É isso, então? A idéia é consoladora, é verdade, mas é uma pena que não seja muito realista.
O filme sustenta, talvez com razão, que levará muitos anos para solucionarmos problemas como a corrupção, porque não é corrupção de uma pessoa, mas de um sistema”, finaliza.
Enfim, o que Padilha quer é o que quer todo cidadão de bem. O fato de defender um Brasil puro soa utópico e de certa forma é. Mas promove conforto a classe média saber que alguém tem culhões de enquadrar os políticos. Mesmo que com a devida licença à brasileira exibida antes da ação começar: Trata-se de uma ficção.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Crítica - Tropa de elite 2

Para pensar!

Tropa de elite 2 – o inimigo agora é outro (Brasil 2010) é o filme que todos estavam esperando. É uma vigorosa trama policial com um respeitável fundo político. Aliás, o filme de José Padilha assume de vez sua face política. O que não chega a ser ruim, mas invalida alguns dos grandes méritos do primeiro filme. Um dos alicerces da narrativa do primeiro filme era justamente não assumir o ponto de vista de seus principais personagens (no caso, Matias, Nascimento e Neto, ramificações de um mesmo tecido social). Aqui o filme assume não só o ponto de vista (em transformação) de Nascimento como muda radicalmente sua postura em relação a determinadas questões. A primeira delas é a abordagem que faz da segurança pública. Se no primeiro Tropa Padilha pegou uma questão complexa como o tráfico de drogas no Rio de Janeiro e a tratou com o devido respaldo moral (isenção) e complexidade (e nunca pedantismo ou apologismos), no segundo filme essas diretrizes se perderam. A corrupção é uma chaga social. É sabido. Mas o filme se incumbe de descortinar uma verdade que, em si, já está descortinada. Na concepção de Tropa de elite 2 a questão da segurança pública se resume a corrupção. Uma simplificação pedante e obstruída por um outro inconveniente do novo filme: o destinatário da mensagem. A classe média era um dos alvos de Padilha no primeiro filme. O diretor enfiava o dedo na cara da classe média e a responsabilizava diretamente pelo círculo vicioso do tráfico instaurado no Rio de Janeiro. No segundo filme, a classe média passa a ser confidente de Padilha que esmiúça os podres genes da Polícia Militar carioca (e de suas politicagens). Não que Padilha não tenha razão em seu manifesto ou que isso faça de Tropa de elite 2 um filme menor. Apenas subtraí valor, e sentido, em comparação com o trabalho anterior.
Padilha também oferece a Nascimento (ídolo pop nacional) uma chance de redenção. Nascimento aprende em Tropa de elite 2 (e na Secretaria de Segurança Pública) que o mundo não é tão preto no branco quanto julgava ser à frente do Bope.
Não há como falar de Nascimento sem perpassar o assombro que é a composição de Wagner Moura. Um ator que é senhor de todas as camadas de um personagem difícil, tão midiático quanto obscuro, e que é os olhos e ouvidos da audiência. É muita responsabilidade e Moura abrilhanta seu currículo, e o filme de Padilha, com sua interpretação de Nascimento nesse filme. Algo genuinamente novo e impressionante.
Os demais nomes do elenco, com destaque para Irandhir Santos como um legítimo antagonista de Nascimento e Sandro Rocha como um miliciano, estão igualmente à flor da pele e contribuem para o registro incandescente que Tropa de elite 2 pretende ser.
Mesmo que Tropa de elite 2 seja um filme inferior ao que se podia esperar (em termos estruturais e não narrativos) é pacífico que Padilha cumpriu seu intento. Depois de uma abertura acachapante (mais de 1 milhão de espectadores) o filme deve colocar a segurança pública no debate nacional. Porque como diz Nascimento em um de seus famosos provérbios: “Missão dada parceiro, é missão cumprida”.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Tropa de elite 2 - Do conceito ao filme

Com a arma apontada para a platéia. Foi assim que Tropa de elite, maior sucesso de público e crítica do cinema nacional nos últimos anos, se encerrava. Como seguir adiante depois de um final tão eloquente? Tão definitivo? José Padilha, Marcos Prado e Bráulio Mantovani, as três principais mentes por trás do primeiro filme (e do segundo), sabiam que precisavam apresentar algo genuinamente novo. Alguma coisa que escapara, de alguma forma, ao primeiro filme. Mas o quê? Tropa de elite é um filme coeso e muitíssimo bem resolvido, com arestas aparadas e discurso multifacetado. “A primeira coisa foi desenvolver um arco dramático para o personagem Nascimento”, revelou o roteirista Bráulio Mantovani em entrevista à revista Preview. Mantovani alude com sua resposta ao fato de que o protagonista legítimo do primeiro filme era Matias (André Ramiro). “Houve uma mudança na sala de edição. Percebemos que o Wagner (Moura, intérprete do capitão Nascimento) havia roubado o filme. Então mudamos o foco narrativo. Ele se tornou o narrador da história, mas a transformação era do Matias. O Nascimento termina o filme como começou”. Essa então é a primeira diretriz do novo filme. O protagonista de Tropa de elite 2 é Nascimento, promovido a coronel e, logo, a integrante da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro.


Agora ele é mesmo o cara: em Tropa de elite 2, a transformação ocorre com Nascimento...


O personagem de maior ressonância do cinema nacional na última década vai “sofrer como protagonista” garante o roteirista do filme. Era necessário ampliar o escopo da crítica que Tropa de elite pretende ser. Depois da corrupção no âmago da Policia Militar era hora de focar as relações escusas entre polícia e governo. As politicagens que desembocaram nas organizações criminosas conhecidas como milícias.
José Padilha admite que o mais complicado foi elaborar o segundo filme. A realização não foi tão problemática. “Tivemos apoio”, declarou o diretor ao programa Starte da Globo News. O diretor argumenta que teve acesso ao equipamento e as instalações do Bope (Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar), algo que de certa forma faltara ao primeiro filme. Padilha lembra, também, que só realizou este segundo Tropa porque tinha o que dizer. “Detesto a sensação de estar me repetindo.”
O advento do cenário político carioca provocou muitas mudanças no roteiro do filme. “A primeira versão foi minha. Depois o Zé (Padilha) reescreveu. E na sala de edição mudamos algumas coisas, mas nada tão profundo quanto no primeiro filme”, explica Mantovani.

O "Nascimento da vez": no novo filme vemos Matias operando como seu mentor


Invariavelmente, Tropa de elite 2 chega sob altas expectativas. José Padilha armou um verdadeiro esquema de guerra para evitar o que ocorreu na ocasião do lançamento do primeiro filme: uma cópia pirata nos camelôs um mês antes do filme nos cinemas. A primeira exibição da fita ocorreu nesta terça-feira em Paulínia para uma platéia selecionada composta pelo elenco do filme, alguns jornalistas e muita gente do cinema. As primeiras críticas que surgem apontam para um filme vigoroso e que em certos aspectos supera a ousadia do primeiro filme.
José Padilha, as vésperas de se lançar na produção de Nunca antes na história desse país (um filme sobre corrupção à brasileira) não pede para sair. Ele segue provocando o debate na sociedade brasileira. Em recente entrevista à Veja disparou: “Com todo o respeito por quem faz, mas cinema puramente comercial não me interessa”.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Para explicar o mundo


O sucesso foi acachapante. Tropa de elite virou fenômeno pop. Alastrou bordões a torto e a direito e promoveu o mais improvável dos heróis nacionais ao Olimpo, o capitão Nascimento. O segundo filme está em produção, irá se passar dez anos depois dos eventos do primeiro filme (o que nos coloca no ano de 2007) e Nascimento (personagem de Wagner Moura) já será coronel. A corrupção que permeia polícia e Estado continuará sendo o foco deste segundo filme.
O primeiro filme, premiado com o Urso de ouro no festival de Berlim de 2008, se debruçava sobre os intestinos da polícia militar carioca. Sobre a precariedade da estrutura do órgão, da falta de planejamento e inteligência no combate ao crime e da péssima qualificação dos homens destacados para fazê-lo. Conforme instruí o capitão Nascimento logo nos primeiros instantes do filme, “ninguém quer subir no morro para morrer, então policiais e traficantes chegam a um denominador comum”. O salário, no valor de R$ 900 na época em que se passava o primeiro filme (1997), não ajuda na prevenção dessa tragédia social anunciada. O BOPE (batalhão de operações policias especiais) é uma divisão de elite da polícia militar carioca, da qual o capitão Nascimento faz parte. Nesse batalhão dentro do batalhão, se ganha melhor (mas não tanto) e zela-se pela “pureza” da polícia. Ou seja, no BOPE não entra corrupto. Pelo menos essa é a afirmação de Rodrigo Pimentel, autor do livro em que o filme se baseia.
A truculência com que o BOPE age no combate ao crime incomodou sociólogos, filósofos e demais observadores sociais. O BOPE do filme, é bom que se diga. Tropa de elite foi acusado de ser fascista e de fazer apologia de um estado policialesco. Com toda a estranheza que o termo sugere.

Capitão Nascimento: Elevado ao status de herói por uma sociedade que se exime de responsabilidades


“A vingança da classe média”, esbravejaram uma porção de revoltosos no festival do Rio de 2007. Tropa de elite não é nada disso. É um filme que toca na ferida com a isenção e a coragem necessárias para fazê-lo. Evita discursos demagógicos e sublinha a verdade, cujos olhos teimam em desviar. No ciclo do tráfico de drogas, todo mundo tem sua responsabilidade. Desde o Estado leniente até o playboy e a patricinha que gostam de “tirar onda”. Um filme corajoso o suficiente para não assumir pontos de vista. A verdade dos fatos surge da força da história, da vivacidade de seus personagens e da contundência do registro. José Padilha não protege seu “anti-herói” capitão Nascimento. Quem o faz é o povo brasileiro em mais uma distorção que só corrobora a tese aventada no filme. A de que nos recusamos a assumir a responsabilidade pelos nossos atos. A de que os valores morais colidem com nossos anseios primitivos. Tropa de elite não é sucesso de público por nenhum desses méritos. É sucesso por ser cinema de ação convincente produzido no Brasil, pela força das atuações, pela catarse coletiva com que acena e por tratar de temas bem brasileiros (a corrupção e a violência). É justo que seja sucesso em virtude desses fatores, mas não é justo que esses fatores afastem do público o real sentido de ser da fita. Mas como Tropa de elite muito acertadamente enfatiza, esse não é um mundo justo.

José Padilha recebe o urso de ouro em Berlim: Consagração em um júri presidido por um notório esquerdista, o cineasta Costa Gravas. Caia ali, em definitivo, a pecha de que o filme era um veículo fascita


Para ler: Elite da tropa, de Luis Eduardo Soares, André Baptista e Rodrigo Pimentel , editora Objetiva
Para ver: The Shield (série de TV com as sete temporadas produzidas disponíveis em DVD para venda e locação)
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Essa é a última edição da seção PARA EXPLICAR O MUNDO. A partir do mês que vem, a seção dá vez a nova coluna, Numerologia, que já estréia no final deste mês. Isso provocará um rearranjo no line up das colunas e seções de Claquete. A partir de maio as colunas e seções mensais ficam assim:
1a semana = Grandes momentos do cinema
2a semana = Movies great partnerships
3a semana = tira teima
4a semana = Numerologia
As demais colunas e seções permanecem com sua periodicidade inalterada.