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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Espeço Claquete - And the Oscar goes to...


No embalo do Oscar que se avizinha com toda a sua imponência, relevância, cafonice e importância, os diretores Rob Epstein e Jeffrey Friedman, documentaristas de prestígio que no ano passado se aventuraram na ficção com Lovelace, lançam um documentário reverente, mas com inegável valor histórico, sobre este que não só é o principal prêmio do cinema, mas também um parâmetro de medição de excelência universal.
A produção, lançada agora no início do ano e exibida com exclusividade no Brasil pelo canal TNT, que também exibirá o Oscar com exclusividade neste ano, não deseja se aprofundar nas idiossincrasias da Academia de Artes e ciências Cinematográficas de Hollywood. A princípio, ordena um contexto histórico básico, realçando que a Academia não foi criada para conceder prêmios, mas que essa vocação se manifestou ainda em seus primórdios. Observa também que os vencedores eram repassados aos jornais com antecedências, mas depois que o Los Angeles Times vazou os vencedores em um determinado ano, uma empresa de auditoria, a PWC, passou a ser a responsável pela apuração, cujo resultado é mantido em sigilo até a abertura dos envelopes na cerimônia. A primeira transmissão do Oscar pela tv foi nos anos 50 e esse é apenas um dos elementos históricos resgatados pelo documentário.
Os primeiros negros indicados, as primeiras vitórias (em um recorte que pretende pintar a Academia com cores progressistas), os aspectos políticos (Michael Moore, Marlon Brando, macarthismo), os principais apresentadores. Ainda que não contribua com nenhuma revelação bombástica, esse aspecto histórico de And the Oscar goes to... é válido para quem não conhece tão a fundo a história do Oscar e da Academia que o outorga.
Você não sabia, mas o decote de
Julia Roberts é vital para a narrativa de
Erin Brockovich
Outro ponto de atração do documentário é o elenco de figuras do cinema reunidas para falar de cinema e Oscar, um deleite para qualquer cinéfilo. George Clooney, Steven Spielberg, Cher, Helen Mirren, Annette Bening, Billy Cristal, Benicio Del Toro, Ellen Burstyn, Tom Hanks, Jennifer Hudson, Jane Fonda, o montador Kirk Baxter, a atual presidente da Academia Cheryl Boone Isaacs, o diretor de fotografia Janusz Kaminski, Jason Reitman e John Voight, entre outros.
Há, também, muita competência na manipulação de imagens de arquivo, de maneira a incitar reflexões interessantes como o prestígio inerente ao Oscar, o ressentimento da derrota e a delicadeza de se competir entre pares.
Em outra frente, Rob Epstein e Jeffrey Friedman têm o cuidado de explicar categorias menos famosas como som, direção de arte e figurinos adensando a importância desses setores para um filme. É ótima, por exemplo, a explicação do figurinista de Erin Brockovich – uma mulher de talento para os decotes de Julia Roberts no filme e de como essa apresentação da personagem acrescentava valor à narrativa.
A diferença entre roteiro original e adaptado também é aventada, assim como a criação e extinção de categorias.
And the Oscar goes to... é um filme que agrada tanto o espectador ocasional, interessado em uma aula revisionista sobre o Oscar, como ao cinéfilo mais ardoroso e engajado na premiação.

Detalhes de bastidores, como uma fala de Angelina Jolie adolescente, no tapete vermelho de uma cerimônia nos anos 80, em que dizia que não queria ser atriz ou Sidney Poitier evitando politizar o fato de ter sido o primeiro negro a ganhar o Oscar de melhor ator na coletiva pós-cerimônia são lampejos da importância do Oscar para nós, eles e todos os outros.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Veneza e a crise


A consagração de Sacro GRA como o grande vencedor da 70ª edição do festival de cinema de Veneza revela algumas camadas sobre o festival, o momento político e cultural da Itália e, ainda, sobre o cinema como um todo. A escolha do documentário italiano não foi comemorada ou saudada como um acerto supremo do festival, mas também não foi contestada como frequentemente acontece na esteira do abissal desacordo que há entre crítica e júri nos festivais de cinema. Houve um questionamento pontual por parte da crítica internacional pelo fato de Philomena, favorito da crítica, ter levado apenas o prêmio de roteiro. A crítica americana, por sua vez, pesou a mão no fato do país não ter levado um prêmio sequer, mesmo com recorde de produções em concurso.
Houve sim uma surpresa geral pela escolha do júri presidido pelo cineasta italiano Bernardo Bertolucci. Sacro GRA não figurava nas bolsas de apostas, apesar de sua boa cotação entre a crítica. Além do mais, se tratava de um documentário, gênero jamais consagrado com um Leão de ouro no festival. A septuagésima edição já havia feito história por incluir dois documentários na seleção oficial e com a outorga do júri foi além. É disso que tratam, majoritariamente, as reminiscências do festival. Mas há, também, o fato de que o cinema italiano não triunfava em Veneza desde 1998 e o fez, agora, com um filme que mostra anônimos responsáveis pelo fluxo de Roma (da Itália). O filme acompanha um punhado de personagens que vivem ou trabalham às margens da cidade, no rodoanel que a circunda (a sigla GRA vem de Gran Racccordo Anulare). Os personagens, todos reais, são interpretados pelas pessoas que vivem aquelas vidas. Trata-se de um documentário que borra os limites entre ficção e verdade, tais como Amor? e Jogo de cena.  A opção por este filme, que é italiano, fala tanto da crise que vive a Itália, política, de confiança, como da crise que vive o cinema (e Veneza). A opção por um documentário que relativize ficção e representação em uma seleção tida pela crítica como mediana ascende a luz amarela no mesmo compasso em que destitui o documentário de forma de cinema. Tratar o documentário como gênero é uma necessidade e Veneza sinaliza nesse sentido chamando para si uma responsabilidade e relevância que, conforme atestado na seção Insight desta semana, vinham se perdendo.
O júri, nesse sentido, fez uma escolha consciente que se comunica mais com o status quo do que com a mostra que julgava.
O cinema grego, outro grande vitorioso da noite, com os prêmios de direção e ator, evoca raciocínio semelhante. Miss violence, outro filme a falar de crise, no âmbito familiar metaforizado, é um cinema de um país em crise que se obriga a liberdades autorais, transgressividade e, no contexto político e cultural aludido pelo júri de Bertollucci, deve ser recompensado. Veneza, no final das contas, soube se impor à falência que insurge nos festivais de cinema.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Em off

Nesta edição da seção Em off, algumas apostas para o próximo festival de Toronto; o veredicto de Ricardo Darín; um documentário que irá merecer sua atenção e os filmes americanos que prometem polarizar as atenções no ano.

Darín habla...
Em entrevista concedida à edição de julho da Playboy Brasil, o ator argentino Ricardo Darín refletiu sobre sua expressividade no cinema argentino; disse que os Oscars vencidos pelo país pouco repercutiram em matéria de mudanças significativas na produção cinematográfica portenha; avaliou que a Globo, ainda que indiretamente, é prejudicial ao desenvolvimento do cinema brasileiro; disse que Maradona é melhor que Pelé “por coração e sem hipocrisia” e se mostrou entusiasmado com os protestos que ganharam as ruas do Brasil em junho. “Não é preciso muita educação para saber quando se está sendo desrespeitado”, ponderou.

Darín acha que é cultuado no Brasil mais por conta de programadores cinéfilos que "dão vez ao cinema argentino" do que por seus próprios méritos

Ela merece um filme
Malala Yousafzai, a adolescente paquistanesa que sobreviveu a um atentado perpetrado pelo Taliban no Paquistão, será tema do novo documentário de David Guggenheim, vencedor do Oscar em 2007 por Uma verdade inconveniente.
Ela foi atacada por defender o direito de meninas frequentarem escolas. O Taliban havia vetado a presença de meninas nas escolas por entender que esse fato violava mandamentos islâmicos. Ela foi atingida com um tiro na cabeça em outubro de 2012. Na semana retrasada, foi aplaudida de pé em conferência das Nações Unidas em Nova Iorque ao dizer que não irá se silenciar e pedir engajamento da ONU pelo direito à educação.

Os filmes do ano?
Duas produções que há muito tempo já eram comentadas para a Oscar season 2013/2014 ganharam um baita de um impulso por circunstâncias do lado de cá das telas. O primeiro é Fruitvale station, já em cartaz nos EUA, que mostra o último dia da vida de um jovem negro assassinado por policiais em São Francisco no último dia de 2008. Os EUA hoje vivem momento de igual tensão depois que um segurança branco matou, em alegada legítima defesa, um jovem negro desarmado que tomou como elemento suspeito. O segurança foi inocentado em julgamento, mas a comoção nacional segue e o filme segue nas telas.
O outro é The fifth estate, a primeira cinebiografia de Julian Assange a chegar aos cinemas. O filme, marcado para outubro nos EUA, teve seu primeiro trailer revelado há poucos dias e beneficiou-se do zumzumzum que cerca o caso Edward Snowden, ex-agente da NSA que vazou informações de inteligência americana que comprometem o país à medida que lhe imputa acusações de espionagem disseminada. Assange, fundador do Wikileaks, é um dos grandes defensores de Snowden e, principalmente, desse tipo de atitude em relação às grandes potências.







Algumas baladas de Toronto em 2013 – parte I

Can a song save your life?

A estreia do vocalista da banda Maroon 5 no cinema? Um pouco mais do que isso. O novo filme escrito e dirigido por John Carney, cujo crédito anterior é o premiado Once, tem a produção de Judd Apatow e Mark Ruffalo e Keira Knightley como protagonistas. Além de Adam Lavine (o homem que mexe como Jagger), Catherine Keener, Hailee Steinfield e do soul man Cee Lo Green. A trama gira em torno de uma cantora em início de carreira com o coração partido (Knightley) e um produtor musical em descrédito (Ruffalo) que por artimanhas do destino se juntam para fazer boa música.

Dallas buyers club

O filme que fez Matthew McConaughey pesar menos do que Gisele Bündchen e Jared Leto desaparecer como travesti.  Trata-se do novo filme de Jean-Marc Vallée (C.R.A.Z.Y – loucos de amor) sobre os anos iniciais da Aids e a luta que se seguiu para que aqueles contaminados não fossem discriminados e tivessem amplo acesso a tratamentos de saúde.  O filme terá estreia de gala em Toronto.

Dom Hemingway

Jude Law faz um ex-presidiário, boca suja e ladrão de cofres que busca voltar à ativa. O filme de Richard Shepard, do divertidíssimo O matador (2005) com Pierce Brosnan, promete recuperar o viço de Law, ultimamente em baixa no cinema, como leading man.

The disappearance of Eleanor Rigby: him and her

James McAvoy e Jessica Chastain estrelam esse ambicioso projeto que marca a estreia na direção e roteiro de Ned Benson. Um filme dividido em dois tomos que conta uma história de amor a partir de duas perspectivas.

The invisible woman

O segundo filme de Ralph Fiennes na direção. A trama acompanha a longa e duradoura paixão do novelista Charles Dickens (o próprio Fiennes) com a jovem atriz Nelly Ternam (Felicity Jones) e como essa relação afetou o seu trabalho.

Life of crime

O prequel, ou prequela na versão abrasileirada, de Jackie Brown, o melhor filme menor de Quentin Tarantino. Elmore Leonard roteiriza e Daniel Schechter dirige. Mos Def faz um jovem Samuel L. Jackson e John Hawkes um jovem Robert De Niro. Os meliantes sequestram a mulher (Jennifer Aniston) de um executivo de alto escalão (Tim Robbins), mas não esperavam que ele se recusasse a pagar o resgate.

sábado, 24 de março de 2012

Claquete documenta - Anderson Silva: como água

A aparição de Bruce Lee, logo no início do documentário assinado por Pablo Croce, dá a impressão de que Anderson Silva: como água tem objetivos mais nobres e artísticos do que aqueles que se revelarão ao longo da metragem da fita. Em uma fala muito famosa, Lee dá a sua receita para triunfar nas artes marciais. Anderson Silva é o brasileiro mais bem sucedido do UFC, principal liga das artes marciais mistas – esporte que cresce internacionalmente a passos largos.
É justamente servir como vitrine para o UFC, e para uma antecipadíssima luta que se espraia, que o documentário se apresenta. Pura e simplesmente. É muito pouco. Faltou desvendar a técnica impressionante de Anderson – a qual é aludida pelo título emprestado da fala de Lee - ou, ao menos, tatear o homem por trás do mito – objetivo supostamente primário da fita. Anderson Silva: como água se presta, ainda que desajeitadamente, a incrementar um mito pouco conhecido no Brasil. E aí se percebe outro problema do filme. Ao invés de se esforçar em apresentar o MMA a um público leigo, Anderson Silva: como água opta por se dirigir apenas aos fãs do esporte. Ainda que faça da figura de Chael Sonnen, maior oponente de Anderson Silva em um octógono, um vilão algo canastrão, o filme aliena quem não compartilha com aqueles que estão na tela, da adoração pelo MMA.
Esses são problemas estruturais da fita de Pablo Croce que, como se não bastasse, apresenta problemas narrativos também. Há personagens mal aproveitados, como a tia de Anderson que só surge nos créditos finais - e o espectador só fica sabendo que o criou se recorrer a outros meios alheios ao filme, o pupilo do lutador cuja relação é mal dimensionada, entre outros.
O filme se vale de uma abordagem tradicional, desenha Anderson como um herói incompreendido como se não tivesse outra opção na vida que não lutar no UFC, e tenta alcançar uma comunhão com o público que não existe: a cena final em que o lutador sai em uma ambulância para exames é prejudicada por um off em que Anderson exorta sobre como é importante saber apanhar da vida. Não parece ser ele, um bem sucedido lutador profissional que pouco apanha, o melhor parâmetro nesse departamento.
Como veículo publicitário para o UFC e para seu protagonista, Anderson silva: como água funciona relativamente bem - descontadas todas aquelas incorreções já citadas - mas como documentário é pobre em termos dramatúrgicos e míope narrativamente. 

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Claquete documenta - Quebrando o tabu

Antes de se posicionar contra ou favor da descriminalização do uso da maconha, ou mesmo de sua legalização, é preciso louvar um documentário que se propõe a debater a ética de uma guerra contra as drogas e avaliar, ainda que sob uma perspectiva bastante parcial, seus efeitos. Quebrando o tabu representa um marco evolutivo na carreira do cineasta Fernando Grostein Andrade, que às vésperas de completar 30 anos, promove uma sacudida daquelas no gênero documentário no cinema nacional. Não que Quebrando o tabu e Coração vagabundo, filme de 2009 que acompanhava Caetano Veloso em turnê, sejam obras que rompam esteticamente com cânones do cinema ou que se insurjam contra paradigmas narrativos. Os filmes se encaixam dentro de um esquematismo didático disponível em qualquer manual de roteiro. Mas em compensação, transbordam coragem, poesia e efervescência.



Grostein inicia Quebrando o tabu apresentando seu principal personagem: Fernando Henrique Cardoso. O ex-presidente e sociólogo colaborou com Grostein na confecção do argumento do longa. FHC surge como um questionador que já tem uma certeza. A guerra contra as drogas faliu. É preciso, segundo suas ilações, rever medidas e posturas. O filme acompanha a jornada de FHC em busca de embasamento para uma tese que o filme já defende de pronto - e a bem sacada animação que dá início à fita não faz questão de esconder esse fato. Essa aparente arrogância (os macacos bêbados ao som da potente trilha sonora de 2001: uma odisséia no espaço dão vez ao letreiro do filme) cede espaço a uma construção ideológica bem arquitetada por meio de depoimentos precisos de valiosos cabos eleitorais como os ex-presidentes americanos Bill Clinton e Jimmy Carter, o médico Drauzio Varela e autoridades sanitárias e políticas da Suíça e Holanda.
Quebrando o tabu, no entanto, não se desvia de argumentos antigos dos defensores da legalização da maconha. Contudo, ao sublinhar a hipocrisia e leniência dos governos em relação ao álcool e ao tabaco, o filme atinge seu melhor momento. A ideia de mudar a política de combate às drogas é pontual e itinerante. Mas cercá-la de demandas pouco substanciais – como dar voz a usuários que admitem preferir se arriscar no trato com o traficante do que respeitar a lei – enfraquecem a discussão em seu traçado mais humanitário, reforçando seu viés ideológico.
Quebrando o tabu arranha questões interessantes. Ao abordar as bem sucedidas intervenções dos governos de Portugal, Suíça e Holanda na questão das drogas, o filme dá um passo à frente a seus opositores. Sugere que a famigerada guerra contra as drogas perde de vista a questão da saúde pública e o impacto positivo passível de efeito mediante uma mudança de abordagem. Mas o filme ignora que a simples legalização da maconha não representa o fim do tráfico de drogas como conceito. Não só pelo fato de que outras drogas proibidas continuarão em oferta (e muito provavelmente mais ampla e barata), como que outras vias de acesso à maconha se viabilizarão.

Na parte superior, o diretor Fernando Grostein e o ex-presidente FHC promovem Quebrando o tabu; na parte inferior o ex-presidente americano Bill Clinton sugere, em entrevista que compõe o filme, que a comunidade internacional precisa rever sua política de combate às drogas


Os prós e os contras não tiram o mérito de Quebrando o tabu; pelo contrário, os reafirma. Incidir sobre uma questão tão polêmica e revestida de ideologias tão proativas é um serviço à sociedade. Em um mundo em que Michael Moore subverte verdades a seus caprichos, não dá para dizer que Grostein erra ao defender tão veementemente a legalização da maconha. É uma postura corajosa que precisa ser respeitada e discutida dentro do jogo democrático que o cinema conclama. Quebrando o tabu pode até soar ingênuo de enxergar um país melhor do que o Brasil demonstra ter vocação. Os exemplos buscados na Europa não convenceram um importante interlocutor do filme; um coordenador de um programa social desenvolvido pelo AfroReggae disse em determinado momento à FHC que não vê o país suficientemente maduro para legalizar a maconha. Quebrando o tabu faz parte desse processo de amadurecimento. Justamente por isso, com seus erros e seus acertos, além de bem vindo, é muito importante.

domingo, 29 de maio de 2011

Insight

Do documentário à ficção: por que tem gente que faz a passagem?

Vivemos em um momento em que o gênero documentário, que para alguns nem mesmo deveria ser classificado como gênero, cada vez mais se mescla à ficção. Se funde a ela em estrutura narrativa, linguagem e técnica. Paul Grengrass levou ao cinema de ação, com a série Bourne, algumas esquematizações inerentes ao documentário e lançou tendências. O cineasta Michael Mann utiliza o digital, que por ser mais barato é tão caro ao nicho do documentário, em longas como Colateral (2004), Miami Vice (2006) e Inimigos públicos (2009), com vistas a obter uma representação do real mais satisfatória.
Mas há outra bifurcação nessa espiral de aproximação entre documentário e ficção no cinema. José Padilha é um valioso às nesse jogo de cartas. Documentarista consagrado, com filmes como Ônibus 174 (2002) e Garapa (2009), o diretor realizou dois longas de ficção de imenso apelo nacional e que, assim o são, por sua vocação para documentar a verdade e fomentar o debate social. Características primárias a qualquer definição do documentário.

Padilha orienta Seu Jorge nos sets de Tropa de elite 2: teses sociais que movem filmografia



Padilha não está sozinho. João Jardim é outro documentarista que aceitou o flerte da ficção e se abriu às possibilidades que dele se ensinuam. Amor?, um dos melhores filmes de 2011 sob qualquer perspectiva, embaralha as percepções entre ficção e documentário ao propor um jogo de espelho entre linguagem, método e dramatização.
Bennett Miller, um americano de 47 anos, é outro documentarista que enxergou na ficção uma janela criativa que lhe favorece. Debutou na ficção sendo indicado ao Oscar de direção por Capote (2005). Um filme jornalístico sobre um episódio jornalístico. Pode se dizer que, em parâmetros meramente empíricos, Miller realizou um documento, ainda que com a liberdade do jornalismo literário¹. Seu próximo filme (Moneyball), que tem no elenco o astro Brad Pitt, surfa na mesma onda. Recuperar a história de um homem que fez de tudo para seu time de baseball dar certo.
O documentarista Jefferson De optou pela ficção para contar uma história de amizade e cumplicidade em um bairro violento da periferia de São Paulo. Se Bróder fosse um documentário, provavelmente não seria tão eloquente quanto objetivava seu diretor.

Bennett Miller (à esquerda), com o roteirista Dan Futteman e o ator Phillip Seymour Hoffman: estréia elogiada na ficção


Essas opções não apontam restrições em um gênero ou formato. Pelo contrário. Reforçam a pluralidade do cinema e derrubam um tabu. Não está só no documentário a verdade; e a ficção pode alinhar fatos e versões com mais veracidade e isenção do que um documentário respaldado em anos de pesquisa. José Padilha rodou os dois Tropas de elite com o mesmo tino e obstinação que caracterizou seus documentários menos famosos. Bennett Miller tem na figura de Capote o mesmo interesse que tinha na de Tom Cruise, no documentário que dirigiu sobre o astro em 1998. O interesse de Jefferson De era mostrar que o Capão Redondo é mais do que abrigo para delinquentes e traficantes. Esses documentaristas enxergaram que a ficção pode ser mais apaixonante e, por vezes, mais fecunda do que o documentário. É uma opção legítima e que, em seu viés imaginativo, como fizera João Jardim, resplandece todo o vigor narrativo dessa arte chamada cinema.

Cena do premiado Bróder: cinema verdade que encontra abrigo na ficção


1- gênero jornalístico em que se reporta uma notícia tomando como parâmetro os alicerces da literatura 

domingo, 17 de abril de 2011

Insight

O cinema que Amor? propõe



Desde sexta-feira em cartaz no país, Amor? é um filme rico em suas camadas. Além da força temática, a fita de João Jardim atrai para si importância pela opção de renovar a linguagem cinematográfica. Jardim avança na proposta de Eduardo Coutinho vislumbrada em Jogo de cena e oferece a seu espectador um filme inebriante. Assentado em uma investigação simples, mas apresentada de maneira sofisticada. Ficção documentada ou documentário ficcionalizado? Os rótulos pouco importam aqui. Mas é inegável que o olhar sobre o documentário precisará mudar. E mesmo sobre as possibilidades de uma narrativa ficcional. O venerado “inspirado em uma história real” pode adquirir novo prisma. Novo desenvolvimento. O frescor de Amor? o é, pela ciência de Jardim de que a força emocional do documentário, combinada com a liberdade criativa da ficção podem acrescer à experiência cinematográfica. Essa é a proposta primária de Amor?. O diretor admitiu em entrevista no festival de Brasília do ano passado que não quis que os atores fizessem pesquisa sobre seus personagens. Muito menos que entrassem em contato com os donos daquelas histórias.

Jardim pensativo no primeiro plano: um filme para renovar a linguagem cinematográfica...


Essas histórias de amor e violência, selecionadas pelo diretor e por Renée Castelo Branco, foram ouvidas em um extenso trabalho de pesquisa da produção. Esse trabalho foi capitaneado por Jardim. De posse das entrevistas, Jardim roteirizou Amor?. “Até pensei em mostrar os verdadeiros personagens na tela, mas, além da privacidade de cada um, havia a privacidade do parceiro de quem falavam”, explica Jardim no material de divulgação concedido à imprensa. “Além disso, havia também questões legais. Poderíamos ou não expor estas pessoas à esta situação? Então, optei por convidar atores. Por isso, Amor? não é um documentário. Nem ficção. É impossível de classificá-lo”.
Pelo menos por enquanto. Não é justificável, ainda que seja tentador, enquadrar Amor? nas concepções vigentes. Em um momento que o documentário cresce como gênero cinematográfico, Amor? vem expandir suas fronteiras. Assim como radicaliza a forma como a ficção se comunica com a realidade. É uma proposta tão inovadora quanto bem vinda. Maravilhosamente executada por João Jardim, um cineasta que – meio sem querer – firmou uma valorosa contribuição para a arte chamada cinema.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Filme em destaque: Amor?

Em uma reportagem exclusiva, Claquete desvenda porque Amor?, o novo filme de João Jardim, incomoda tanto quanto agrada


Eduardo Coutinho, reconhecidamente um dos melhores documentaristas do Brasil e do mundo, relativizou de vez a verdade dos documentários com o soberbo Jogo de cena. Antes dessa constatação contingencial é necessário frisar que o gênero documentário no Brasil vive um momento de ebulição. Há poucos dias, em entrevista para o site UOL, o jornalista e fundador do festival É tudo verdade, Amir Labaki, admitiu que os documentários estão mudando. Estão mais sofisticados e carregam forte nos arquétipos, até então, exclusivos da ficção. O que pode ser facilmente diagnosticado em Senna, do britânico Asif Kapadia. No filme, a trajetória do piloto brasileiro é reconstituída obedecendo aos alicerces da trajetória do herói, fundamento semiótico tão caro a filmes como O rei leão, por exemplo.
Amor?, do documentarista João Jardim, avança a questão proposta por Eduardo Coutinho combinada com a apropriação vislumbrada em Senna. Amor? é um filme difícil de definir em sua amplitude temática, mas ainda mais difícil de definir em sua estruturação. Jardim selecionou, tal qual Coutinho para seu filme, histórias de pessoas anônimas e as colocou na tela sob os cuidados de atores. Só que João Jardim, diferentemente de Coutinho, não quer subverter a linguagem cinematográfica. Quer renová-la. Foram escalados atores famosos e sabe-se de antemão que são atores vivendo aqueles personagens. Não há o choque da descoberta. Jardim reconstitui através desses atores, então, as oito histórias selecionadas para seu filme.

A atriz Lilia Cabral se prepara para gravar seu segmento, que abre o filme, em que vive uma mulher que se reconcilia com o marido após vivenciar um episódio de violência física


Onde acaba o amor?
A matéria prima da fita é o amor. Mas não só ele. O que liga as oito histórias é a incidência da violência. Ainda que em escalas e conjunturas distintas, a violência é tão significativa quanto o amor na proposição de Jardim. É dessa bifurcação que surge a grande questão do filme, antecipada pelo ponto de interrogação presente no título. Jardim direciona a pergunta para a platéia em um filme pensativo e original.
Desde o slogan o espectador é convidado à introspecção: “O mais irritante no amor é que se trata do tipo de crime que exige um cúmplice”. A frase de Charles Baudelaire sublinha o paroxismo que a fita de Jardim tenta capturar.
A fita, uma co-produção da Copacabana Filmes e do canal GNT, estréia no dia 15 de abril nos cinemas brasileiros. O elenco conta com Lilia Cabral, Eduardo Moskovis, Letícia Collin, Cláudio Jaborandy, Silvia Lourenço, Fabiula Nascimento, Mariana Lima, Ângelo Antônio e Júlia Lemmertz.


Fotos: divulgação

domingo, 21 de novembro de 2010

Claquete documenta - Senna



É até um pouco niilista classificar Senna (ING 2010) como um documentário. Na verdade, a produção assinada pelo indiano Asif Kapadia é um híbrido de ficção com documentário. Essa realidade traz vantagens e desvantagens. Certamente do ponto de vista do marketing é uma peça valiosa, já que se pode reclamar a primazia em abordar a trajetória de um ídolo das massas em uma narrativa convencional e ajustada aos padrões hollywoodianos de grandes heróis sem abdicar da sobriedade do gênero documental. Por outro lado, reforça a sensação de que o filme sobre o piloto brasileiro não é o filme sobre aquele homem e sim o filme que sua família gostaria que fosse feito.
Vale lembrar que por muito tempo um longa sobre Ayrton Senna foi negociado em Hollywood, mas a família Senna não abria mão do controle criativo sobre a obra. Surgia assim esse documentário que é constituído basicamente por imagens de arquivo (algumas inéditas conseguidas junto a Federação internacional de automobilismo). Em Senna, há um cuidado rigoroso com a imagem do piloto, morto em um acidente no circuito de Ímola em 1994. Senna, o documentário, versa sobre a trajetória de Senna na Fórmula 1 e só. Nada que quem já não esteja familiarizado com a história do piloto já não conheça. Não existe o interesse por parte da realização de investigar o homem por trás do mito, pelo contrário, a intenção é de realçar esse mito em uma potência ainda maior. Para isso alguns subterfúgios narrativos são empregados. O primeiro deles é criar um vilão para o herói Senna. E a figura antipática de Alain Prost, que rivalizou arduamente com Senna nas pistas e nos bastidores da F1, é primordial nesse sentido. Prost ganha tintas pouco lisonjeiras no filme que nos créditos faz uma mea culpa obsoleta ao lembrar que o tetra campeão mundial contribui assiduamente para o instituto Ayrton Senna.
Há pouco espaço para o Senna de fora das pistas no filme. O foco é a competição e seu legado na fórmula 1. Não havia porque supor que o filme não fosse celebrar a figura de Senna, mas em momento algum se articula ir além da simples idolatria.
Senna não é um filme ruim, mas fica aquém de produções mais sérias e comprometidas exibidas diretamente na TV em canais como Biography Channel e Discovery Channel. É lógico que o apelo midiático da figura se impõe. O diálogo que a fita estabelece com quem vivenciou o reinado de Senna na F1 ou sua trágica morte é irreproduzível e, em si, definitivo. É justamente aí que reside a razão de ser deste filme. Reascender a chama que vela por Senna. Quinze anos após sua morte, toda uma geração não reverbera o piloto em sua memória. Esse é o maior pecado de Senna enquanto cinema. O filme não será emocionante, muito menos marcante, para quem não tiver mais de 20 anos. Não é o filme que emociona. É a lembrança que ele provoca. Para um documentário que se alimenta desavergonhadamente de recursos da ficção para propalar uma figura já icônica não deixa de ser um resultado frustrante.

domingo, 17 de outubro de 2010

Claquete documenta - Os Estados Unidos X John Lennon



Nestas últimas semanas John Lennon tem sido uma pauta itinerante. Em virtude do aniversário do ex-beatle, assassinado há três décadas, todo dia se vê algo a respeito de Lennon no noticiário cultural. Um filme sobre os primeiros contatos dele com a música (O garoto de Liverpool) foi lançado há pouco nos EUA. Claquete documenta registra um dos documentários mais inusitados e, justamente por isso, mais assertivos sobre a figura de Lennon. Os Estados Unidos x John Lennon (The US VS John Lennon, EUA 2006) é um painel elogioso, sem deixar de ser contundente, do Lennon artista. Do Lennon pacifista. Do Lennon midiático. Para elaborar esse painel, os diretores e roteiristas David Leaf e John Scheinfeld debruçaram-se sobre um curioso recorte da vida do cantor. Sua passagem pelos EUA e sua forte oposição a guerra do Vietnã.
Os Estados Unidos x John Lennon captura a inquietação de Lennon em primeiro lugar. O filme abre mostrando a repercussão (negativa) de um comentário de Lennon sobre os Beatles serem mais populares do que Jesus Cristo. A intenção dos realizadores era capturar a essência de Lennon, um inconformista por natureza, e confrontá-la com o rigor de uma América profundamente conservadora. A primeira parte do documentário se dedica a pintar esse John Lennon que é tão prolifero e inventivo em seu diálogo com a mídia e tão enfático e ruidoso na manifestação de suas opiniões políticas. O filme trabalha com a ideia de que o governo americano (sob o jugo da era Nixon) se encontrava nervoso por demais ao julgar que um artista pacifista como Lennon pudesse de alguma maneira representar uma ameaça aos valores americanos. Uma crise institucional ou uma “revolução” (como apresentado no filme) nunca se materializou, mas Lennon, inegavelmente, era um combustível para desgostosos com a guerra (no caso toda uma nação).
Misturando imagens de arquivo (algumas cenas realmente inspiradas) com depoimentos de jornalistas, membros do governo americano à época, amigos de Lennon e de Yoko Ono, os diretores conseguiram mostrar o grau de paranóia de um governo que mais tarde sucumbiria às atividades ilegais conhecidas como o escândalo Watergate. Mostraram também que uma nação que esquece os erros do passado está fadada a repeti-los e o fato do filme ter sido feito sob os anos Bush (e do jornalista Carl Bernstein mencionar Bush nominalmente em sua fala) reveste a fita de um teor político (e porque não pacifista) muito claro.
O filme mimetiza a mensagem de John Lennon com clareza e lucidez uníssonas. Antes de ser um filme político, uma reconstituição histórica valorosa, ou mesmo um dispêndio de imagens e músicas de Lennon, Os Estados Unidos x John Lennon é uma homenagem a um homem que julgou ser necessário se engajar por um mundo melhor. É um eco de sua voz. De sua obra. Daquela que não pode ser lançada em edições comemorativas, mas que em um mundo como o que vivemos jamais envelhece.