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segunda-feira, 12 de abril de 2010

Para explicar o mundo


O sucesso foi acachapante. Tropa de elite virou fenômeno pop. Alastrou bordões a torto e a direito e promoveu o mais improvável dos heróis nacionais ao Olimpo, o capitão Nascimento. O segundo filme está em produção, irá se passar dez anos depois dos eventos do primeiro filme (o que nos coloca no ano de 2007) e Nascimento (personagem de Wagner Moura) já será coronel. A corrupção que permeia polícia e Estado continuará sendo o foco deste segundo filme.
O primeiro filme, premiado com o Urso de ouro no festival de Berlim de 2008, se debruçava sobre os intestinos da polícia militar carioca. Sobre a precariedade da estrutura do órgão, da falta de planejamento e inteligência no combate ao crime e da péssima qualificação dos homens destacados para fazê-lo. Conforme instruí o capitão Nascimento logo nos primeiros instantes do filme, “ninguém quer subir no morro para morrer, então policiais e traficantes chegam a um denominador comum”. O salário, no valor de R$ 900 na época em que se passava o primeiro filme (1997), não ajuda na prevenção dessa tragédia social anunciada. O BOPE (batalhão de operações policias especiais) é uma divisão de elite da polícia militar carioca, da qual o capitão Nascimento faz parte. Nesse batalhão dentro do batalhão, se ganha melhor (mas não tanto) e zela-se pela “pureza” da polícia. Ou seja, no BOPE não entra corrupto. Pelo menos essa é a afirmação de Rodrigo Pimentel, autor do livro em que o filme se baseia.
A truculência com que o BOPE age no combate ao crime incomodou sociólogos, filósofos e demais observadores sociais. O BOPE do filme, é bom que se diga. Tropa de elite foi acusado de ser fascista e de fazer apologia de um estado policialesco. Com toda a estranheza que o termo sugere.

Capitão Nascimento: Elevado ao status de herói por uma sociedade que se exime de responsabilidades


“A vingança da classe média”, esbravejaram uma porção de revoltosos no festival do Rio de 2007. Tropa de elite não é nada disso. É um filme que toca na ferida com a isenção e a coragem necessárias para fazê-lo. Evita discursos demagógicos e sublinha a verdade, cujos olhos teimam em desviar. No ciclo do tráfico de drogas, todo mundo tem sua responsabilidade. Desde o Estado leniente até o playboy e a patricinha que gostam de “tirar onda”. Um filme corajoso o suficiente para não assumir pontos de vista. A verdade dos fatos surge da força da história, da vivacidade de seus personagens e da contundência do registro. José Padilha não protege seu “anti-herói” capitão Nascimento. Quem o faz é o povo brasileiro em mais uma distorção que só corrobora a tese aventada no filme. A de que nos recusamos a assumir a responsabilidade pelos nossos atos. A de que os valores morais colidem com nossos anseios primitivos. Tropa de elite não é sucesso de público por nenhum desses méritos. É sucesso por ser cinema de ação convincente produzido no Brasil, pela força das atuações, pela catarse coletiva com que acena e por tratar de temas bem brasileiros (a corrupção e a violência). É justo que seja sucesso em virtude desses fatores, mas não é justo que esses fatores afastem do público o real sentido de ser da fita. Mas como Tropa de elite muito acertadamente enfatiza, esse não é um mundo justo.

José Padilha recebe o urso de ouro em Berlim: Consagração em um júri presidido por um notório esquerdista, o cineasta Costa Gravas. Caia ali, em definitivo, a pecha de que o filme era um veículo fascita


Para ler: Elite da tropa, de Luis Eduardo Soares, André Baptista e Rodrigo Pimentel , editora Objetiva
Para ver: The Shield (série de TV com as sete temporadas produzidas disponíveis em DVD para venda e locação)
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Essa é a última edição da seção PARA EXPLICAR O MUNDO. A partir do mês que vem, a seção dá vez a nova coluna, Numerologia, que já estréia no final deste mês. Isso provocará um rearranjo no line up das colunas e seções de Claquete. A partir de maio as colunas e seções mensais ficam assim:
1a semana = Grandes momentos do cinema
2a semana = Movies great partnerships
3a semana = tira teima
4a semana = Numerologia
As demais colunas e seções permanecem com sua periodicidade inalterada.

terça-feira, 9 de março de 2010

OSCAR WATCH - Para explicar o mundo

Por que Guerra ao terror ganhou o Oscar?

Alguns se surpreenderam, outros já antecipavam. Fato é que a vitória de Guerra ao terror no Oscar desse ano mexeu com todo mundo. “Como assim esse filme é o melhor do ano e eu nunca ouvi falar dele?”, alguns se indagaram. Outros observaram com acuidade: “Terceiro filme independente seguido a ganhar o Oscar de melhor filme”. Alguns mais apaixonados exclamaram: “Pelo menos não ganhou a bosta de Avatar” ou “Como assim Bastardos inglórios não venceu?”.
Há uma explicação para tudo, diria Sherlock Holmes. Obviamente, há uma, ou até mesmo algumas, para entender porque Guerra ao terror saiu-se vencedor na noite de 7 de março de 2010.
Primeiramente é preciso reconhecer que o filme tem méritos artísticos e técnicos que lhe credenciam ao Oscar, mas é preciso reconhecer que somente esses não garantem o prêmio máximo a filme nenhum.

um, dois, três, quatro, cinco e... cadê o sexto Oscar que estava aqui?

É preciso estimular o “cinema alternativo”
A mais óbvia e, talvez por isso, mais premente razão dos principais Oscars da noite terem ido para Guerra ao terror, um filme pequeno que quase não viu a luz do dia e que foi renegado por produtores e distribuidores americanos, é justamente doutrinar o olhar de produtores e businessmen do cinema. Ano passado, com o reforço da euforia da era Obama e na esteira de uma forte crise econômica, a academia já havia adotado essa postura pedagógica (ao superpremiar um filme limitado, mas com trajetória de superação e que tratava de esperança). Contudo, as características em 2010 permitem depreender uma elevação no tom da mensagem. Não se premiou apenas um filme que só foi feito depois de aporte de dinheiro europeu, deixou-se de premiar o filme mais caro e de maior bilheteria da história do cinema. Só não lê nas entrelinhas, quem não quiser.
A vitória de Guerra ao terror, inclusive em categorias que não haveria como Avatar perder (caso das duas categorias de som), servem ao propósito de potencializar a mensagem pretendida pela academia. Esse filme é bom o suficiente para ganhar o Oscar de melhor som. E foi feito com 11 milhões de dólares. A academia sabia que ao conceder o Oscar de melhor filme para Guerra ao terror, estava logrando ao filme a pecha de ser o Oscar de melhor filme menos visto na história (arrecadou algo em torno de U$ 14 milhões nos EUA). Mas sabia também que se não agisse assim, produtores e executivos não responderiam a um sucesso de critica que na melhor das hipóteses era circunstancial.
Um Oscar doutrinador: A consagração (mais uma vez) de um modelo de cinema


Por que vamos a guerra?
Guerra ao terror, não é preciso dizer, é superior a Avatar. E o discurso que traz em seu cerne é muito mais arrojado e original. Enquanto o filme evita politizar a guerra, Avatar repete fórmulas ultrapassadas que se vão ao encontro de liberais arruaceiros se desgastam com a mesma velocidade. Guerra ao terror se concentra no que é humano. Avatar finge que se concentra no que é humano. Mas quer exibir tecnologia. Um pensamento bélico que se contrapõe a análise que Guerra ao terror oferece e que o momento pede. Ao invés de mostrar razões de um povo ou de um país, Guerra ao terror mostra porque um homem comum vai a guerra. E qual a relação dele com ela. Em Avatar não há analise, em Guerra ao terror é tudo que há. O fato de ser um filme apolítico (Avatar tambéItálicom o é, mas na superfície não parece), ajuda a conquistar o voto de democratas e republicanos que costumam rejeitar filmes que apresentem um discurso radical. Tanto o é, que em 82 anos de Oscar, Guerra ao terror é apenas o quarto filme de guerra a ganhar o Oscar de melhor filme. Um fato que contradiz a tese de que esses filmes são sempre certezas no Oscar. Fato é que há democratas e republicanos suficientes na academia para garantir que filmes de guerra com discursos ajustados a um outro ideário recebam indicações, mas não há número suficiente para impor a vitória de um filme assim. Kathryn Bigelow, evitando futucar feridas, agradou as duas linhas políticas que existem na academia. Essa política (sempre essa tão devassada arte das relações humanas) também foi preponderante para o triunfo de Guerra ao terror.

Na mira de Guerra ao terror tudo aquilo que escapava aos outros filmes de guerra: O que nos move lá, afinal?

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Para explicar o mundo - Invictus

O presidente Nelson Mandela e o capitão da seleção sul-aficrana de Rúgbi, François Pienaar ...


... em cena dramatizada no filme de Eastwood com os atores Morgan Freeman e Matt Damon


Invictus, novo trabalho de Clint Eastwood, trabalha em duas linhas de frente bastante cristalinas e caras ao cinema. O filme de esporte e a biografia. Ambas convergem para que se agigante os aspectos motivacional e redentor pretendidos pela produção.
Os filmes de esporte geralmente são imbuídos de altas voltagens de inspiração e identificação. Algo que encontra ressonância nas incríveis trajetórias de vida que o cinema costuma dramatizar. Invictus é pontual e brilhante em capturar de maneira extremamente bem sucedida um raro ponto de intersecção entre esses dois gêneros. Um raro ponto de intersecção também na vida, já que a arte, nesse caso pode não imitar, mas reproduz a vida com orgulho e reverência.
O filme Invictus se baseia no livro reportagem Conquistando o inimigo, do jornalista e correspondente internacional John Carlin. Livro e filme versam sobre a África do sul do pós- apharteid. Um país que acabara de eleger um negro que estivera preso por 27 anos por ligações com grupos terroristas. Nelson Mandela tinha a sua frente, um país economicamente quebrado, profundamente segregado e pouco tolerante a mudanças estruturais.
Foi justamente no esporte, mais precisamente no rúgbi – esporte genuinamente praticado por brancos, que o presidente e Nobel da paz vislumbrara uma oportunidade de unificar o país. Se não curar as feridas, pelo menos abrandá-las a dor. Mandela iniciou então um trabalho de auto-estima nacional. Um exercício de convencimento duro, exaustivo, arriscado e que punha em risco todo o seu capital político. O filme se concentra nesse recorte. Embora Eastwood valorize detalhes e sugira através de algumas cenas a instabilidade que cercava Mandela e a África do Sul, o filme não cobre a saga de Mandela tão amplamente quanto o livro. O filme por exemplo insinua a insegurança política a qual Mandela se equilibrava, mas Carlin discorre sobre isso com muito mais detalhes. Embora a linha narrativa de ambos seja a mesma, a preparação e a conquista da copa do mundo de rúgbi. “A copa foi o momento em que Mandela atingiu sua legitimidade, quando os brancos aceitaram que poderiam ter um presidente negro”, disse Carlin em recente entrevista ao jornal Folha de São Paulo.
Com a proximidade da copa do mundo de futebol na África do Sul e com um presidente bem menos insidioso e inspirador como Jacob Zuma, vale a pena rememorar o passado para seguir no caminho do futuro certo e próspero.


Cena de Invictus: O esporte como elemento agregador

Para ler: Conquistando o inimigo: Nelson Mandela e o jogo que uniu a África do Sul, John Carlin, editora Sextante
Para ver: Mandela – a luta pela liberdade, dirigido por Billie August
Para saber mais: Nelson Mandela

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Para explicar o mundo - Boa noite e boa sorte


Boa noite e boa sorte (Good night and good luck, EUA 2005) foi um projeto pessoal de George Clooney. Em um primeiro momento, uma homenagem a seu pai, Nick Clooney, jornalista e âncora de um programa jornalístico. Em um segundo momento, Clooney, um ativista liberal, queria difundir a idéia da liberdade de imprensa e do forte e imprescindível componente social que é a atividade jornalística para a manutenção do estado de direito e de suas bases democráticas.

George Clooney, Robert Downey Jr., Jeff Daniels e David Straitharn vivem o time de jornalistas que lutou pela garantia dos direitos civis americanos

O filme, escrito, dirigido e produzido por Clooney (ele faz uma pequena participação negociada para que o capital do filme fosse viabilizado) remonta um fatídico episódio da história americana que vira e mexe, resguardando variáveis e aspectos culturais e históricos, acontece novamente não só naquele país, como também aqui no Brasil.

O governo de Lula vira e mexe tenta amordaçar a imprensa que vive descobrindo escândalos políticos. A proposta surge novamente com o novo texto dos direitos humanos em discussão em Brasília

No filme, acompanhamos o embate do jornalista Edward R. Morrow (brilhantemente interpretado por David Straitharn) contra a caça as bruxas perpetrada pelos senador Joseph McCarthy no movimento que ficou conhecido, por razões óbvias, como macartismo. O senador depreendeu uma verdadeira caçada a comunistas e simpatizantes. Para tanto não se fez de rogado e restringiu alguns direitos, caçou outros e pôs em suspenso mais uma porção. Tortura, prisões mal fundamentadas, pessoas desempregadas e vítimas de boicotes, amigos delatando amigos em troca de favorecimentos, essas são algumas das chagas que acometeram a América durante aquele negro período.

O verdadeiro McCarthy: Clooney optou por não escalar nenhum ator para viver o senador no filme. O próprio aparece em imagens de arquivo, o que enaltece o teor histórico do filme

Foi justamente Murrow e sua itinerante equipe de jornalistas da emissora de TV CBS que se ergueram contra os desmandos de McCarthy. Murrow fez dessa sua cruzada pessoal e teve que comprar o próprio espaço, já que o conflito público com o senador afugentara os anunciantes (algo que se ainda hoje é vital para as emissoras de TV, imaginem naquela época).
Tudo isso está em Boa noite e boa sorte. George Clooney realizou mais do que um excelente drama. Realizou um documento histórico sobre um grave episódio da história americana e sobre a arte de se fazer jornalismo, mesmo na adversidade.

George Clooney dirige um verdadeiro documento histórico


Para ler: Caça às bruxas – macartismo:uma tragédia americana, de Agermiro Ferreira, Editora L&PM
Para ver: Culpado por suspeita (Guilty by suspicion, EUA/FRA 1991) de Irwin Winkler

Para saber mais: Macartismo na wikipédia