O ano era 1987. Hollywood ainda não estava, pelo menos assumidamente, entregue as caixas registradoras das bilheterias e Oliver Stone era o cara que tinha feito o mundo se resignar com a guerra do Vietnã (com o filme Platton) no ano anterior. Wall Street era um frisson ainda distante. Uma ideia que ainda não tinha forma na cabeça do cidadão médio. A globalização e suas vicissitudes capitalistas eram matéria para ensaístas e teóricos e não costumavam ser pauta em produções voltadas para o cinemão. Mas Stone e o roteirista Stanley Weiser resolveram subverter essa lógica. Wall Street –poder e cobiça realinhou a forma como Hollywood via Wall street e vice versa. Ajudou também no boom da bolsa de valores, que em meados da década de 90 se tornou um fenômeno irreversível. Gordon Gekko e seu bordão “a ganância é boa” tornaram-se modelo para toda uma geração de corretores e operadores da bolsa e o filme se tornou referencial para toda e qualquer produção que abordasse as entranhas do capitalismo, mesmo que não fosse ambientada no universo da bolsa de valores. Outra influência notável do filme diz respeito ao ceticismo com que os yuppies são enxergados pela sociedade. Houve até mesmo filmes que tentaram repercutir essa noção, como Primeiro milhão (Boiller room, EUA 2000) em que um grupo de jovens se mira nos “mandamentos” de Gordon Gekko para fazer dinheiro fácil. Literalmente. Não foi o filme de Stone que fez Wall Street tão nociva quanto a percebemos. A fita apenas descortinou essa realidade, ainda que a tenha revestido de charme e fascinação.
Shia LaBeouf é uma promessa de Hollywood. O problema é que ele já era uma promessa há quatro anos quando estrelou o inesperado hit de verão Paranóia (2007). O ator de 24 anos já enfrentou problemas com bebidas, frequentou o noticiário policial, se envolveu com a colega de elenco Megan Fox (dividiram a cena nos dois primeiros filmes da série Transformers) e virou queridinho de Steven Spielberg. Foi o diretor de Indiana Jones e a caveira de cristal (2008) quem disse que Shia “é o próximo Tom Hanks”. Querendo ajudar, Spielberg só aumentou a pressão sobre seu pupilo. Wall Street –o dinheiro nunca dorme será o primeiro filme que LaBeouf estrelará que não será produzido ou dirigido por Spielberg. Oliver Stone cutucou em recente entrevista à Entertainment Weekly: “Esse será seu primeiro filme adulto. É positivo para ele se livrar dessa aura de astro juvenil e começar a se debruçar sobre um material mais relevante.” Em uma comparação livre, LaBeouf faz um papel semelhante ao que Charlie Sheen desempenhou na trama original. “Mas as coisas são diferentes”, advertiu em entrevista coletiva em Cannes, onde esteve para divulgar a produção. Foi em Cannes, também, que o ator que namora a colega de elenco Carey Mulligan (que também faz sua namorada no filme) revelou ter achado ruim sua participação no último filme de Indiana Jones. Segundo ator, ele não correspondeu às expectativas do público e nem as do diretor. Wall Street – o dinheiro nunca dorme representa a virada na carreira de LaBeouf. O cinema de ação (foi protagonista em Controle absoluto) não parece talhado para sua persona. Mesmo com mais um Transformers no forno, LaBeouf se prepara para a guinada. Será que Oliver Stone está certo? No final das contas, Tom Hanks não é exatamente um astro de ação...
A vida imita a arte: oator e sua namorada, colega de Wall street, Carey Mulligan
É preciso seguir alguns preceitos para ser qualificado como uma comédia romântica moderna. Amor à distância (Going the distance, EUA 2010) segue a risca esses preceitos. Existe a preocupação em agradar meninos e meninas. A estrutura do filme segue a tradicional fórmula boy meets girl, they fall inlove and they suddenly realize they´re perfect to each other, mas o discurso mudou. A escatalogia tem vez e propriedade em um cenário dominado pelos filmes de Judd Apatow ( O virgem de 40 anos) e sua turma. É preciso caprichar também nas referências pop em um mundo pós 500 dias com ela (filme que não tem nada demais, mas é excelente nisso). Há também o cuidado com o casting. As comédias românticas modernas que se prezam, prescidem do galã acima de qualquer suspeita e da estrela do comercial de condicionador. É aí que chegamos a Justin Long (cada vez mais confortável na função de protagonista) e Drew Barrymore (em mais um revés como produtora). Barrymore, que passou a namorar Long durante as gravações do filme, chamou uma mulher – a diretora Nanette Burstein – para rodar um filme de menina, mas com jeitão de menino. Amor à distância, embora agrade pelo charme de seus protagonistas e pela proposta de se adequar ao movimento vanguardista que move as comédias românticas atuais, não se sustenta como entretenimento suficientemente satisfatório para o abrangente público que pretende alcançar. Focasse em um nicho específico e o sucesso seria certeiro. Não à toa, o filme é um fracasso de bilheteria. Um julgamento injusto para com uma fita divertida e com algumas boas sacadas de um humor cínico que cada vez mais invade os romances hollywoodianos. De qualquer maneira, é positivo ver um esforço de mudança. Mesmo que no fim das contas, todos os caminhos levem a Roma.
Ele não é a figura usual do que convencionamos chamar de Guru, mas Gordon Gekko é referencial em termos de noções capitalistas. O mundo de Wall Street parece regido por suas diretrizes. Claquete selecionou os principais mandamentos de Gordon Gekko (frases disparadas pelo personagem no primeiro filme que refletem sua visão de mundo).
10 – “Almoço é para fracos” Prioridades são prioridades e não podem ser postergadas por trivialidades como o almoço ou mesmo uma boa noite de sono. Em dado momento do filme, Gekko – ao telefone - acorda seu pupilo Bud Fox (Charlie Sheen) e o adverte: “o dinheiro nunca dorme”.
9 - “O que vale a pena ser feito, vale a pena ser feito por dinheiro” Não se iluda. Magnânimo e misericordioso só Deus e seu filho. No mundo em que vivemos ninguém faz algo bom por você sem que esteja lucrando em algum nível pessoal com isso. Um provérbio de Gekko que vale para toda nossa vida em sociedade.
8 - “Se você precisa de um amigo, arranje um cachorro” Outro provérbio Gekkiano bem sacado. Em um mundo feroz como o de Wall street (e por que não no mercado de trabalho em geral) confiar em alguém pode ser mortal. Para Gekko a amizade pode ser o primeiro passo para o fracasso nesse ramo.
7 - “É tudo sobre dinheiro, o resto é conversa.” Outra perola que reforça a visão central do yuppie. Quando alguém vem te falar que o dinheiro é o que menos importa em uma transação de qualquer natureza, desconfie mais do que aquele que parece mal intencionado.
6 - “Não é uma questão de suficiência, camarada. É o jogo. Alguém ganha, álguem perde. Dinheiro não é perdido ou feito, ele simplesmente é transferido de uma percepção para outra.” Aqui Gekko demonstra sua visão cética e objetiva sobre a razão de ser de Wall street e de pessoas como ele. Uma verdadeira aula sobre o conflito de percepções entre gente de Wall street e gente que não é de Wall street.
5 - “Eu não crio nada. Eu domino. Nós fazemos as regras, camarada. As notícias, guerra, paz, fome, o clipse do papel. Nós tiramos aquele coelhinho da cartola enquanto todo mundo senta e fica imaginando como nós fizemos.” Gekko finaliza sua explanação sobre como funcionam as coisas no topo dos edifícios empresariais.
4 - “Eu não jogo dardos em um quadro. Eu aposto em coisas certas. Leia Sun Tzu, A arte da guerra. Toda a batalha é vencida antes de sequer ser lutada.” Aqui o yuppie discorre sobre o tipo de estratégia que julga indicada para operar na bolsa, mas seu pensamento pode ser transposto para outros patamares da vida em sociedade.
3 - “Se você não está dentro, você está fora” Novamente Gekko sublinha a força da percepção. Não há espaço para achismos e consciência. Ou se firma dentro do clube, compactuando com seus dogmas, ou se resigna do lado de fora.
2- “A ganância, na falta de uma palavra melhor, é boa. A ganância é certa. A ganância funciona. A ganância esclarece, leva adiante e captura o espírito revolucionário. A ganância, em todas as suas formas; ganância por vida, por amor, por dinheiro, conhecimento marcou a ascensão da humanidade.” Aqui Gekko expõe seu segredinho sujo. Para o yuppie, algo tão sórdido é positivo para o desenvolvimento. No que muitos gostam de classificar como ambição, Gekko enxerga o pior do ser humano contribuindo para o que de melhor a humanidade é capaz de conceber.
1 - “A mercadoria de maior valor é a informação” Essa é a descoberta da pólvora. Tanto em uma corrida eleitoral como a que vivenciamos tanto quanto no dia a dia da bolsa de valores, a informação é a commodity de maior valor venal.
Ele é um dos grandes personagens do cinema. É inegável. A primeira vez que vemos Gordon Gekko ele está ao telefone. Na segunda vez, ele está, ao mesmo tempo, falando ao telefone, atendendo assessores, recebendo um corretor que traz algumas ofertas de ações e medindo a própria pressão. Gordon Gekko é a materialização do capitalismo selvagem. É a consumação plena do sonho americano em sua faceta menos lisonjeira e poética. É, por essa combinação de fatores improváveis em um personagem de cinema criado nos anos 80, um ícone. No último festival de Cannes, em que Wall street – o dinheiro nunca dorme teve premiere mundial, Michael Douglas - o ator que criou o ícone - disse que não sabe ao certo o porquê das pessoas serem tão simpáticas a figura de Gekko: “talvez seja o safado que exista dentro de mim”, disse em tom de brincadeira. Douglas supõe que o apreço por Gekko talvez esteja ligado ao seu método de compor o personagem: “É preciso curtir representar vilões. Gordon Gekko era um cara que não tinha remorsos. Era de certa maneira puro”, relembra o ator. Não será dessa maneira que reencontraremos Gekko. Na sequência, ele - que depois de sair da prisão fica impedido de operar com ações - tenta apaziguar sua relação com a filha em uma nítida demonstração de remorso. Douglas não esconde o fato de que Gekko estará mais vulnerável no segundo filme. “É um personagem diferente. Ele não conta com as mesmas coisas que tinha no primeiro filme”, afirma o ator em referência ao império financeiro que Gekko havia construído antes de o vermos pela primeira vez ao telefone. “Será curioso ver como reagirá Gordon Gekko ao ver que o mundo que ele encontrou hoje é regido pelos princípios financeiros praticados por ele lá atrás, mas com ele hoje sendo um homem, até certo ponto, mudado”, disse ao L.A times o roteirista Stanley Weiser. Resta saber se após Wall street – o dinheiro nunca dorme, o ícone Gordon Gekko sairá fortalecido ou mais humano. Para o bem ou para o mal, essa resposta começa a ser escrita em 24 de setembro, dia do lançamento mundial do novo filme.
+ Eles, sempre eles, os paparazzi são os responsáveis pela primeira imagem, ainda que não oficial, de X-men:first class. Um reboot que a Marvel e a Fox estão planejando para a saga mutante. Na foto, January Jones aparece como Emma Frost, também conhecida como a rainha branca, integrante do clube do inferno. Frost e Clube do inferno serão dois dos motes da nova aventura mutante que chega aos cinemas em junho de 2011.
+ A fox searchlight fechou o contrato para a distribuição do filme Tree of life, nova produção do cineasta Terence Malick. O filme estrelado por Sean Penn e Brad Pitt, embora prometido para o final deste ano, ainda não está concluído. Malick ainda não terminou de editar a fita.
+ E parece que Woody Allen anda pensando melhor sobre ter Carla Bruni em seu filme. Informações apuradas pelo tablóide britânico Daily Mail dão conta de que a produção de Midnight in Paris contratou uma atriz francesa para refazer todas as cenas de Carla Bruni no que foi classificado pela imprensa internacional de “seguro”. Esse seguro existe porque consta de que a primeira dama francesa além de não estar fazendo um bom trabalho como atriz (algo que a própria previra, mas todos julgaram ser apenas charme), pode dar um petit (com t já que, embora italiana ela está francesa) e decidir cancelar sua participação no filme. Allen e assessoria negam essa informação e afirmam que a francesa contratada é apenas uma adição ao elenco, embora não especificada. Enfim, o futuro dirá se com essa notícia, terá sido o ovo ou a galinha...
+ Foi divulgado na semana passada a lista dos filmes que se inscreveram para disputar a indicação brasileira na corrida pelo Oscar de filme estrangeiro. Rumores indicam que o sucesso de bilheteria Chico Xavier será o escolhido. Não há um grande filme nacional na disputa este ano. Mas aqueles que fazem valer o voto são As melhores coisas do mundo (embora não tenha o perfil do Oscar) e Cabeça a prêmio. O novo trabalho de Arnaldo Jabor (Suprema felicidade), que terá premiere nacional no próximo festival do Rio, também concorre.
+ Keanu Reeves começa a gravar esta semana Generation um, estréia na direção do roteirista Mark L. Mann. No filme, Reeves irá viver um homem imerso no universo de drogas, bebidas, sexo e indecisões. “É um filme sobre auto - descoberta”, declarou Mann.
+ O ator Javier Bardem disse em entrevista publicada no jornal italiano La Repubblica que não se sente muito confortável atuando em inglês. “É como dançar com as palavras. Não me sinto totalmente cômodo”, disse o ator revelando que também não se sente muito a vontade dançando. O espanhol e sua esposa, a atriz Penélope Cruz, estão "grávidos" do primeiro rebento.
+ Você vai conhecer o homem dos seus sonhos, último filme de Woody Allen, é uma das atrações do Festival do Rio que começa no dia 23 de setembro. Entre os principais destaques estão: Copie conforme, de Abbas Kiarastomi, Les amours imaginaires, de Xavier Dolan, Thehousemaid, de Im Sang-Soo e Tournée, de Mathieu Almaric (todos estes exibidos em Cannes) e Rio sexy comedy, de Jonathan Nossiter. Este último filme, realizado por um americano radicado no Brasil, mostra o choque entre as expectativas dos estrangeiros e o que eles de fato encontram por aqui.
+ Morreu, no último final de semana, o cineasta francês Claude Chabrol. O diretor faleceu em Paris, aos 80 anos, de causas ainda não reveladas. Chabrol foi um dos alicerces do movimento cinematográfico conhecido como Nouvelle Vague.
+ Hereafter foi exibido no último domingo no festival de Toronto. A nova fita de Clint Eastwood dividiu a crítica que cobre o festival, mas a mesma foi unânime em relação a um aspecto: é um Clint Eastwood totalmente inusitado o que se testemunha no filme com pegada sobrenatural. O trailer, você confere agora!
Todo mês de setembro eles tomam conta do noticiário cinéfilo. Os festivais de Toronto e Veneza ocorrem no mês da primavera aqui no Brasil e é neles que florescem os grandes lançamentos que tomarão os cinemas do mundo todo nos próximos meses. A seção Tira-teima deste mês opõe para o cinéfilo que freqüenta Claquete estes dois tradicionais palcos do cinema.
Idade
Veneza: 67 anos
Toronto: 35 anos
O hype
Veneza É considerado padrão de qualidade internacional. Produções exibidas em Veneza imediatamente adquirem prestígio artístico e crítico
Toronto É em Toronto que hoje ocorre a maior feira de distribuidores do cinema. Equiparável aquela que dá verniz ao festival de Sundance. Em Toronto, a coisa é maior, porque não é só o cinema independente que está em foco. Muitos filmes estrangeiros só asseguram distribuição nos EUA após serem exibidos em Toronto
Em comum: Além de dividirem o mesmo mês, os dois festivais apontam tendências similares. Por exemplo, em 2010, há menos filmes em exibição tanto em Veneza quanto em Toronto. Assim como há predomínio de produções americanas. Ambos também têm mostras dedicadas a exibir os trabalhos de novos diretores.
Wall street – o dinheiro nunca dorme surge 23 anos depois de Wall street – poder e cobiça. Nesse meio tempo, Oliver Stone declinou de convites feitos pelo estúdio (a Fox) e pelo ator Michael Douglas para retornar ao universo mostrado no primeiro filme. A justificativa de Stone era de que a mensagem do primeiro filme ainda era atual e suficientemente sonora, portanto, não haveria razão de se fazer um segundo longa sobre Wall street. Mesmo com o segundo filme em vias de ser lançado, Wall street-poder e cobiça continua atual. A história que mostra o sonho americano em sua faceta mais controversa e distópica reverbera atualidade em cada fotograma. O filme tem o mérito de tornar compreensível os mecanismos do mercado financeiro e, na belíssima construção do roteiro de Stanley Weiser e Oliver Stone, conduzir sua platéia para indefectíveis conclusões. Wall street – poder ecobiça é um filme charmoso. O fato de desentranhar as engrenagens capitalistas não faz com que o filme deixe de ser um entretenimento vistoso. Esse paradigma serve ao cinemão na mesma medida que serve ao cinema de gênero. Gordon Gekko (Michael Douglas) foi um dos primeiros vilões modernos a surgirem no cinema. Aquele tipo de personagem que não é absolutamente mal, mas imperfeito em sua humanidade. Falho. Real. Bud Fox (Charlie Sheen) é um corretor que busca o sucesso na profissão e sabe que um valoroso atalho nesse sentido é Gordon Gekko. Disposto a se projetar para Gekko, Bud se vale de alguns expedientes que chamam a atenção do tubarão das finanças. Gekko apadrinha Bud e começa a lhe apresentar seu estilo de jogo no mercado financeiro, em que é preciso enfiar a mão na lama bem mais fundo do que se supõe. O que ocorre é que Bud não consegue deixar sua consciência de lado, o que impreterivelmente lhe desviará do sucesso em Wall street. A fita é feliz ao expor a crueza do mundo dos negócios e as diferentes perspectivas das pessoas que o gravitam. Embora o desfecho espraie um certo moralismo, não redime seus personagens. Tão pouco menora o impacto de suas ações ou subverte a lógica das mesmas. O filme acaba, mas o eco do que ocorre nos porões de Wall street ainda não está esgotado.
Existem artistas cuja expressividade remete a determinados períodos da história. Lennon e seu libelo antibélico (Imagine) no calor do Vietnã é um exemplo óbvio. Oliver Stone, por sua vez, perseguiu a fama de polemista e a conquistou. Tentou enquadrar a história americana em seu caledoscópio fílmico por diferentes perspectivas. Seja pelo ponto de vista político (Nixon, JFK – apergunta que não quer calar), do patriótico (Nascido em quatro de julho), do potencial de fabricação midiático dentro da sociedade do espetáculo (Assassinos por natureza), desnudando ídolos (The doors), pelo escopo capitalista (Wall street –poder e cobiça e Um domingo qualquer) ou através de seus traumas (Platoon e As torres gêmeas). Oliver Stone desenhou para si mesmo uma glória improvável. Virou o biógrafo dos presidentes americanos no cinema. Já abordou Kennedy, Nixon e Bush. Os últimos presidentes a ocupar destaque (por boas ou más razões) na história do país e da humanidade. Envaidecido com o alcance de seu cinema e com a disposição que a classe intelectual tem de pensá-lo, o diretor cedeu ao capricho e fez uma biografia da vida de Alexandre –o grande. Alexandre (EUA 2004), talvez seja o primeiro indício de que Stone é, hoje, uma sombra de si mesmo. Um resquício do que um dia fora conteúdo, inquietação e ousadia.
Stone, o grande, orienta Angelina nos sets de filmagens de Alexandre: da expectativa ao ridículo
Oliver Stone foi o primeiro a mexer no vespeiro do Vietnã. É possível ver o impacto de Platton ainda hoje. Quando produções acerca da ocupação americana no Iraque e seus efeitos lá e dentro de casa pipocam nos cinemas com um Iraque ainda em efervescência política e com um conflito armado ainda em aberto. Platoon estabeleceu Hollywood como porta voz da esquerda liberal, embora nem sempre aja dessa maneira. O filme ajudava a construir perspectiva e dava embasamento para críticos da guerra e das políticas americanas, ainda que fosse só um filme. Em menor escala, foi o que se viu com a aceitação quase unânime a Guerra ao terror este ano. Oliver Stone abraçou o personagem que criou para si mesmo e elegeu-se o questionador número 1 dos Estados Unidos da América. Levado mais a sério do que Michael Moore, outro que se tem em grande estima, Stone toca diversos projetos paralelos que tem a América (em diversos momentos da história) como foco. Em The secret history of America, um documentário que produz para o Showtime (canal a cabo americano), Stone especula que seriam os EUA os mentores do nazismo e os responsáveis por sua deflagração (a ascensão de Hitler). Ano passado o diretor lançou o documentário chapa branca Ao sul da fronteira (confira a resenha deste filme no próximo domingo em Claquete documenta) em que mostra o “sonho” da América Latina tocado por Hugo Chavez e seguido pelos “irmãos” Lula, Evo Morales e Cristina Kirchner. Após a crise financeira deflagrada em 2008, resolveu voltar ao mundo de Wall street com Wall street –o dinheiro nunca dorme. O primeiro erro de Oliver Stone foi seguir as diretrizes que questionava nos seus primeiros filmes. Ao se anunciar como portador de uma verdade absoluta (ainda que a mesma seja visivelmente relativa), Stone cai diante de si mesmo. Sua credibilidade se esvazia e sua ressonância se resume a polêmica que um dia foi assertiva. Hoje é só barulhenta.
Como era verde o meu vale: Oliver Stone ganhou dois Oscars de direção no espaço de 4 anos e depois secou a fonte