domingo, 7 de abril de 2013

Insight - O gênero de terror está esgotado?


A hesitação da The Weinstein Company em confirmar o quinto filme da série Pânico e a discussão sobre a possibilidade de reiniciar a série no cinema lançam a pergunta: o gênero está esgotado? A franquia assinada por Wes Craven, ele próprio um papa do gênero, foi o último grande sopro de originalidade no cinema de horror. O quarto filme, lançado em 2011, no entanto, não rendeu o esperado pelos produtores nas bilheterias. Nos últimos anos, salvo uma ou outra pequena exceção, o gênero tem sido engolido por refilmagens pouco imaginativas e derivados do último grande filme original do gênero: Jogos mortais.
Dois cineastas, no entanto, compõem a resistência. O americano Sam Raimi e o mexicano Guillermo Del Toro, ambos com um histórico de sucesso no gênero, patrocinam o que pode ser uma nova virada para o gênero. Del Toro tem produzido novos nomes, majoritariamente latinos, em filmes como O orfanato (2007), Não tenha medo do escuro (2010) e Mama, em cartaz nos cinemas. Sam Raimi faz o mesmo. Ele esteve por trás de filmes como Possessão (2012) e 30 dias e noite (2007) e agora produz o remake do filme que lhe deu fama, A morte do demônio.
A predileção por diretores latinos, o argentino Andrés Muschietti é o responsável por Mama e o uruguaio Fede Alvarez o diretor de A morte do demônio, está relacionada à gramática visual do cinema latino, mais inventiva e porosa do que a de diretores emergentes de outros cantos do mundo.

Cena de Mama, filme de terror que mexe com as emoções: sobrevida no gênero

Vem do Uruguai, também, uma das últimas propostas ousadas no gênero. Lançado em 2011, o uruguaio A casa foi rodado de maneira a parecer ser um único plano-sequência de 80 minutos em uma câmera digital. O filme tem remake americano garantido com supervisão do diretor do original, Gustavo Hernández.
Esse movimento que parece buscar uma nova postura estética para o cinema de horror tem a ver com a saturação do terror gore materializado em filmes como O albergue e as sequências de Jogos mortais.
Muschietti foi selecionado por Del Toro depois que este viu um curta dirigido pelo argentino na internet. Daí, o mexicano decidiu produzir um longa a partir daquele curta. Assim surgia Mama, um dos primeiros sucessos de público e crítica do ano. A trajetória de Mama para chegar aos cinemas é sintomática tanto das possibilidades ensejadas pela internet como da carência que aflige o cinema de horror no tangente a talentos e ideias. Mas também é um sinal claro de que não há, neste momento, sinais de esgotamento. Sam Raimi, que rodou em 2009 o último grande filme do gênero (Arrasta-me para o inferno) acredita que a nova versão de A morte do demônio pode ser ainda mais hypada do que a original. Seria um alento para um gênero que anda precisando... 

"O filme mais aterrorizante que você verá": a promessa do slogan de A morte do demônio se cumprirá?

sábado, 6 de abril de 2013

Em off


Nesta edição de Em off, algumas apostas do blog para o line up do festival de Cannes 2013, o enigma de Robert Downey Jr. caindo na boca do povo, a promessa de um ano magnífico para Julianne Moore, as façanhas cada vez mais elogiosas de Matthew McConaughey, as elucubrações de Danny Boyle e o que há no futuro de Tim Burton.

Um ano para chamar de dela
Julianne Moore é daquelas atrizes obrigatórias para quem gosta de cinema. Extremamente talentosa, Moore, no entanto, ostenta poucos prêmios. Alguma redenção pode estar à espreita com a safra de 2013, já que ela estrela nada mais nada menos do que seis filmes com lançamento programado para este ano. De petardos comerciais (como o remake de Carrie – a estranha) a perolas indies (a estreia de Joseph Gordon-Levitt na direção com Don Jon e a comédia dramática The english teacher), Moore será uma das presenças recorrentes da temporada cinematográfica e isso é muito bom.
Além desses filmes, Moore estrela ainda o tocante What Maise knew, que integrou a seleção do último festival de Toronto, o thriller de ação Non stop ao lado de Liam Neeson e o início da saga que pretende ocupar o posto deixado por Harry Potter, The seventh son.

Julianne Moore em The seventh son, com lançamento previsto para novembro nos EUA: um ano intenso e plural


Cadê o McConaughey que estava aqui?
Há pelo menos dois anos se discute, nos mais variados fóruns cinéfilos, o giro de 180º impresso por Matthew McConaughey em sua carreira. Uma série de projetos, iniciados com o ótimo drama O poder e a lei lançado em 2011, colocaram o marido de Camila Alves no mapa dos atores mais requisitados e celebrados do momento. E a meritocracia não para de crescer. McConaughey parece decidido a só escolher os projetos certos. Ainda com o lançamento de Mud pendente, o ator começa a colher os frutos da primorosa sequência de trabalhos enfileirada (Magic Mike, Killer Joe, Bernie e The paperboy). Está no novo longa de Martin Scorsese, o antecipado The Wolf of Wall Street e perdeu peso para viver um aidético em Dallas Buyers Club. Mas esses eram projetos já anunciados. A novidade mais recente, divulgada na última semana, é de que o ator será o protagonista de Interstellar, ficção científica de Christopher Nolan e seu primeiro trabalho após a conclusão da trilogia do cavaleiro das trevas.
A notícia é sintomática do novo status do ator em Hollywood. Não obstante, ele ainda protagonizará uma minissérie policial para a HBO.

McConaughey bem mais magro, em imagem de dezembro de 2012, no set de filmagens de Dallas Buyers club: além do respeito de crítica e público, indicações ao Oscar pairam no horizonte

O que esperar do próximo filme de Tim Burton?
Tim Burton é um excelente cineasta. Conceitualmente e visualmente, é dos mais significativos da atualidade. Contudo, já há algum tempo vem sendo questionado pelo fato de ter se acomodado narrativamente e de seu cinema, e muitos veem a parceria com Johnny Depp como catalisadora disso, ter perdido expressividade.
O site Deadline divulgou na última semana que Burton será o diretor de Big eyes, filme cuja premissa grita por um diretor com o talento e a sensibilidade estética e narrativa de Burton. O filme mostrará um casal de pintores famosos por fazerem retratos de crianças com olhos grandes. Margaret e Walter Kane foram dois dos primeiros artistas a comercializar obras de arte como produtos nos idos dos anos 50 e 60. A união terminou e eles travaram longas disputas nos tribunais. Christoph Waltz e Amy Adams estão vinculados ao projeto e devem interpretar os protagonistas.
Big Eyes, que será produzido pela The Weinstein Company pode representar o retorno de Burton às boas críticas. O último filme do diretor a angariar massiva aprovação crítica foi Peixe grande (2003). E lá se vão dez anos!

O enigma de Robert Downey Jr.

Em 12 de fevereiro de 2012, claquete publicou na seção Insight um artigo bastante analítico sobre as escolhas de Robert Downey Jr. em sua fase mais dourada no cinema e sobre como elas o conduziram para um impasse. Downey Jr. é um bom ator ou apenas um sujeito eficiente em verter versões de si mesmo na tela grande? E mais: por que a durabilidade de séries como Homem de Ferro e Sherlock Holmes poderia se provar prejudicial à percepção que o público tem dele. A mais recente edição da revista Serefina, que estampa o ator em sua capa, apresenta uma matéria com questionamentos semelhantes. A ideia de que Downey Jr. esteja se esgotando já ronda Hollywood há algum tempo e Homem de ferro 3 será um valioso instrumento para apontar o caminho que o ator deve seguir daqui para frente.


O devaneio de Danny Boyle
O novo filme de Danny Boyle, um sofisticado suspense envolvendo hipnose e roubos de obras de arte (Em transe) é um das estreias do fim de semana nos EUA – no Brasil o filme chega no início de maio. Em uma das muitas entrevistas que fez para promover o filme, Boyle disse que não planeja mais trabalhar em produções de grande orçamento. Por isso rejeita a possibilidade de conduzir uma aventura de James Bond, ao qual frequentemente é vinculado. Some-se a isso, a percepção de que, para Boyle, uma grande estrela distorce um filme. Na visão do diretor vencedor do Oscar por Quem quer ser um milionário?, um astro de cinema desequilibra expectativas e perspectivas em um filme. Seja durante a produção do filme ou na recepção do público.
Apesar do radicalismo de Boyle, sua análise não está de toda errada. Um astro, de fato, altera o DNA de um filme. Essa questão já foi discutida por Claquete anteriormente sob muitos ângulos (clique aqui para conferir um deles) e voltará à pauta em uma futura seção Insight.

Algumas apostas para Cannes
Será anunciado nos próximos dias o line up do festival de Cannes 2013. Pode ser que não surja de pronto uma lista fechada com os 20 filmes que disputarão a Palma de ouro, mas cerca de 17 ou 18 filmes já devem ser confirmados. Como já é notório, a 66ª edição de Cannes terá Steven Spielberg como presidente do júri da principal mostra competitiva e O grande Gatsby como filme de abertura. Claquete indica alguns filmes que, na avaliação do blog, farão parte do evento. 

+ The Bling ring, de Sofia Coppola (EUA)
Sofia, que esteve em Cannes com Maria Antonieta em 2006, ainda deve um grande filme ao festival. Seria essa a chance? O filme já está pronto e Sofia é cult o suficiente para se garantir como uma das grandes atrações. De quebra, Emma Watson seria um ímã no tapete vermelho.

+ Blood ties, de Guillaume Canet (EUA)
O filme é americano, mas o diretor é francês. Aliás, diretor que também é ator e casado com Marion Cotillard, que protagoniza o filme. Ser um thriller dolorido e com forte proeminência dramática ajuda.

+ La granda bellezza, de Paolo Sorrentino (ITA)
Os últimos quatro filmes de Sorrentino debutaram em Cannes. O filme já está pronto. É só fazer as contas.

+ Twelve years a slave, de Steve McQueen (ING)
O novo do diretor de Shame com os astros Michael Fassbender e Brad Pitt, além da nova sensação Quvenzhané Wallis. Thierry Frémaux, diretor do festival de Cannes, deve estar se matando para garantir este filme no evento.

+ Jeunie et Julie, de François Ozon (FRA)
Depois de figurar dois anos consecutivos em Veneza, esse poderia ser o filme de retorno de Ozon a Cannes, onde somente disputou com Swimming pool em 2003. O filme ainda está em pós-produção. Se não ficar pronto a tempo, é certeza em Veneza. 

+ Lowlife, de James Gray (EUA)
Gray é um dos queridos de Cannes. Neste tenso drama estrelado por Joaquin Phoenix, Jeremy Renner e Marion Cotillard deve engatar sua segunda participação consecutiva na riviera francesa. Concorreu à Palma de ouro por seu último filme, Amantes em 2008.

+ Only God forgives, de Nicolas Winding Refn (EUA)
O diretor de Drive, uma das sensações do festival em 2011, e Ryan Gosling juntos novamente. Quem vai resistir? Cannes certamente não.

+ The past, de Asghar Farhadi (FRA)
Primeiro filme do diretor de A separação após a consagração internacional do filme vencedor do Oscar em língua estrangeira. É também seu primeiro filme fora do Irã e com astros franceses como Bèrenice Bejo e Tahar Rahin.

+Serra pelada, de Heitor Dhalia (BRA)
Um épico brasileiro sobre o maior garimpo a céu aberto do país. Uma história de ganância e violência com a sensibilidade de Dhalia, que causou boas impressões com À deriva, exibido em Cannes na mostra Um certo olhar.

+ The Nymphomaniac, de Lars Von Trier (DIN)
Von Trier em Cannes, a despeito das polêmicas exacerbadas de sua última participação, é sempre certeza. Ainda mais com um projeto tão polarizante como esse - um filme com cenas de sexo explícito. 

Momento Claquete # 34

Roger Ebert 
(18 de junho de 1942 - 04 de abril de 2013) 

Roger Ebert e Tommy Lee Jones em foto de 2005


“Roger didn´t just write about movies. He couldn´t shut up about them”, Peter Travers, critico de cinema da versão Americana da revista Rolling Stone

O crítico posa ao lado da atriz francesa Julie Delpy ...

... e troca afagos com Marisa Tomei

“Os filmes não serão os mesmos sem o Roger”, Barack Obama, presidente dos EUA

“Poucas pessoas que eu conheci em minha vida se importavam tanto com o cinema”, Martin Scorsese, diretor de filmes como Os infiltrados e Touro indomável

“Um crítico de um tom diferente – que escreveu inteligentemente e apaixonadamente sobre filmes e não fama”, John Cusack, ator de filmes como Identidade e Alta fidelidade

Ebert presta atenção no que Spielberg tem a dizer...   

... e se diverte com Martin Scorsese 

O crítico banca o paparazzi e registra Billy Bob Thorton 

“Roger Ebert. Sonhador lúcido. Rei da palavra escrita...”, Cameron Crowe, diretor de filmes como Jerry Maguire- a grande virada e Quase famosos

“Obrigado senhor Ebert”, Steve Carell, ator de filmes como O virgem de 40 anos e Pequena miss Sunshine



sexta-feira, 5 de abril de 2013

Espaço Claquete - A casa dos sonhos


É interessante observar a relação de cineastas consagrados em gêneros diversos – majoritariamente no drama – com o cinema de horror. A incursão tende a ser benéfica ao gênero, mas ruidosa nos bastidores. Walter Salles falou poucas e boas de sua experiência ao dirigir Água negra, um filme de horror que busca amparo na comparação com a fase sessentista de Roman Polanski. Acontece mais ou menos a mesma coisa com Jim Sheridan, de filmes como Meu pé esquerdo e Em nome do pai, e sua estreia no gênero com A casa dos sonhos (Dream house, EUA 2011). Ficou famosa no metiê cinematográfico a briga entre o diretor e o estúdio em virtude da insatisfação do primeiro com o final do filme. Como Sheridan, por contrato, não detinha o corte final ele exigiu que seu nome fosse retirado dos créditos. O que não aconteceu.
Desentendimentos à parte, A casa dos sonhos é um filme muito melhor que essa contenda de bastidores faz crer. E ter Sheridan, um diretor habilidoso no desenho dos personagens, torna A casa dos sonhos um estranho no ninho do filmes de terror modernos.
Estamos na seara do horror psicológico, muito mais instigante e propício ao exercício do medo e apreensão. Will Atenton (Daniel Craig) é um editor que se demite para passar mais tempo com a família na nova casa que adquiriram em um bairro aparentemente tranquilo e, também, escrever um livro para o qual já assegurou contrato.
A relação com a mulher (Rachel Weisz) e as filhas não poderia estar melhor. A harmonia familiar sofre um baque quando eles descobrem que a casa para a qual se mudaram foi palco de um múltiplo assassinato em que morreram mãe e filhas e o pai, que enlouqueceu, é o principal suspeito. A partir daí, A casa dos sonhos sofre um giro de 180º em seu plot e o que parece desarranjado a princípio logo passa a fazer muito sentido. Sheridan deixa as pistas para a montagem do quebra-cabeça nos lugares certos.
O desfecho, no entanto, realmente parece descolado da construção ornamentada até então por Sheridan a partir do texto de David Loucka. É como se as peças fornecidas por Sheridan e Loucka levassem a um final mais ambíguo, menos concreto. É perceptível a imposição do estúdio quanto ao desfecho do filme. O estúdio quis montar o quebra-cabeça, enquanto que Sheridan preferia que o público o fizesse. Com a liberdade de suas interpretações.
Essa intervenção francamente prejudicial, no entanto, não fere de morte o filme – ainda que o apequene sem dúvida alguma.  

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Crítica - Os croods

Parte de um projeto

Assim como no excelente Os incríveis (2004) da Pixar, Os Croods (The croods, EUA 2013), nova animação da DreamWorks, é primordialmente sobre uma família de classe média. Ainda que seja sobre uma família da pré-história e, por força de definição, de homens da caverna. Não que Os Croods seja uma releitura de Os incríveis, mas é inegável que assim como no grande sucesso da parceria Disney/ Pixar, as reminiscências da classe média dão o tom. A diferença é que na animação que chega agora aos cinemas o foco é mais específico. Diz respeito sobre o medo fulminante que tomou conta de parcela considerável da classe média. Seja no Brasil ou nos EUA, condomínios fechados e com propalados sistemas de segurança são já há algum tempo a bola da vez. Os Croods faz graça em cima dessa tendência com a figura de Grug (voz de Nicolas Cage) o patriarca da família que dá nome ao filme que prega ser o medo um valioso instrumento de sobrevivência. A filha mais velha de Grug, Eep (voz de Emma Stone) não comunga dessa visão de mundo do pai e se debela com a ansiedade de sair da caverna – literal e figurativamente.
É desse conflito que Os croods tira a sua matéria prima. Elogiar a qualidade técnica das animações dos grandes estúdios, como Pixar e DreamWorks, é chover no molhado e preguiça de exercer uma análise mais detida. Há, em Os croods, até certa ostentação por parte do departamento de animação do estúdio de seu vigor técnico e criativo.

Medo e classe média: Os Croods mira mais nos adultos do que nas crianças 

O que mais impressiona em Os croods é sua opção de privilegiar o público adulto em detrimento do infantil. Não que o filme não se comunique com os pequenos, mas desde a premissa até as melhores piadas, parece projetado para agradar uma audiência mais madura. Também nesse recorte a Pixar veio primeiro com o ainda impressionante Wall- E. A favor da DreamWorks, nesse momento histórico, pesa a sua boa regularidade. Mesmo sem ideias originais, o estúdio sempre acerta e, com ousadia calculada, estreita seu diálogo com o público adulto.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Crítica - A busca


Desencontrado

Théo (Wagner Moura) é médico, mas esse detalhe serve a A busca (Brasil 2013) apenas para sugerir como ele e Branca (Mariana Lima) iniciaram a relação amorosa que quando o filme começa vive seu pós-fim. Sim, porque para todos os efeitos Théo e Branca já não são mais um casal. Na primeira cena do filme, que introduz essa realidade com a mesma aspereza que apresenta os personagens, vemos Théo se esforçando para ocupar o papel que se espera de um ex-marido não exatamente pacificado com a separação do casal.
Se a relação com Branca é caótica, com o filho Pedro (Brás Antunes) ela é traumática no sentido que se ressente de todo e qualquer movimento paterno.
O filme de Luciano Moura, pronto há dois anos e anteriormente chamado "A cadeira do pai", versa sobre uma introspectiva jornada desse personagem tão cheio de camadas que é Théo exteriorizada na busca pelo filho que foge de casa no fim de semana de seu aniversário.
A busca é um filme que toma algumas liberdades que demandam cumplicidade do espectador. Um exemplo é o fato de Théo e Branca não acionarem a polícia com prontidão ou mesmo considerarem para onde Pedro rumava, visto que isso fica meio óbvio depois de uma explosão de Théo ainda na cena inicial. Contudo, esses pormenores não incomodam a construção que A busca objetiva ser enquanto cinema. O que diminui a força do filme são justamente as soluções do roteiro para conduzir Théo ao encontro de seu filho. Não suas intermitências existenciais, mas as maneiras como elas são ensejadas ao protagonista. A busca, que não descarta a aura de thriller – embora fosse melhor fazê-lo desde o princípio – acaba se transformando em um filme narrativamente irregular e dramaturgicamente inconstante.

Wagner Moura em cena do filme: o ator que é sempre um evento

Se o filme atinge o espectador em cheio, e essa é uma possibilidade que varia de espectador para espectador, é em virtude do trabalho delicado de Wagner Moura. Moura lê e rabisca seu Théo com a propriedade de quem não se incumbe de explicá-lo, mas transmiti-lo. É uma diferenciação de abordagem que precisa ser observada e que resulta em mais uma interpretação sublime de um ator que sabe achar o tom certo de cada personagem, por mais distintos ou semelhantes que eles sejam.

Crítica - Jack, o caçador de gigantes



Sabor de aventura e fantasia!

Jack, o caçador de gigantes (Jack the giant slayer, EUA 2013) é, antes de qualquer coisa, um filme que honra o conto de fadas do qual se origina, “João e o pé de feijão”. Algo que deve ser recebido como boa notícia em meio à onda de atualizações e versões para contos de fadas clássicos que invadem o cinema. Bryan Singer, diretor de ótimos filmes como Os suspeitos (1995), O aprendiz (1998) e X-men (2000) e outros irregulares como Superman: o retorno (2006) e Operação Valquíria (2008), tem no 3D um aliado. Dos filmes lançados em 2013 no formato, este é de longe o que faz melhor uso da ferramenta. Além do fato de que Singer não descuida dos personagens e seu Jack, defendido com vigor pelo justificadamente em ascendência Nicholas Hoult, é um personagem com o estofo dramático necessário para carregar um filme que não pretende ser apenas um simulacro dos efeitos especiais mais caros e atuais do cinema americano.
Jack, o caçador de gigantes se alimenta com propriedade de sua fonte e se apresenta como um entretenimento familiar acima da média nessa temporada cinematográfica. Com bastante ação e sem ser piegas quando a emoção é a matéria-prima, Jack – o caçador de gigantes avaliza o talento de Singer para o cinema blockbuster.
O prólogo do filme perpassa o conto de maneira ágil. O filme então se põe a viabilizar uma releitura desse conto e o faz de maneira charmosa e movimentada.

Jack e Isabelle em momento fofo: a história de amor é bobinha, mas o filme é uma delícia

Jack é um camponês que por força do acaso acaba com feijões ditos mágicos que foram roubados por um monge na expectativa de evitar que caia em mãos erradas. Na mesma noite, novamente por força do acaso, ele recebe a princesa Isabelle (Eleanor Tomlison), em fuga por resistir a casar-se com um homem que não ama. Logo, o feijão que não deveria ser molhado é molhado e Isabelle vai parar na terra dos gigantes. O rei (Ian McShane) monta uma equipe de resgate, da qual fazem parte o corajoso Elmont (Ewan McGregor), responsável pela guarda do rei, o ardiloso Roderick (Stanley Tucci), pretendente de Isabelle, e Jack, que se provará mais engenhoso e corajoso do que muitos criam possível.
O embate final entre os gigantes e os humanos em nada fica a dever aos grandes épicos do cinema em matéria de emoção e adrenalina.
Singer, desde o primeiro X-men, não conseguia fazer entretenimento de qualidade com uma narrativa tão bem azeitada. Seu Superman era um deleite visual, mas narrativamente desarranjado. Seu Jack, o caçador de gigantes é vigoroso, vívido e cativante. 

terça-feira, 2 de abril de 2013

Crítica - Dentro da casa



Assustadoramente sedutor!

Em um dado momento de Dentro da casa (Dans La Maison, FRA 2012), de François Ozon, filme que indiretamente discute a arte em várias de suas esferas, surge um cartaz de Match point –ponto final, obra prima de Woody Allen e, na avaliação do mesmo, seu melhor filme. Talvez, essa rápida e quase imperceptível menção a Allen seja a maneira sutil de Ozon, também ele um cineasta prolixo de média de um filme por ano, sugerir que este excelente filme que esmiúça em camadas cada vez mais insuspeitas a natureza humana seja a sua obra prima. Os filmes, aliás, guardam algumas semelhanças temáticas e estruturais.
Coincidência ou premeditação, Dentro da casa é o melhor filme da carreira irregular, mas ainda assim notável, de um dos mais expressivos e versáteis cineastas franceses.
No filme, Germain (Fabrice Luchini) é um escritor frustrado que ministra aulas de literatura entre o enfado e a desesperança. Eis que ao se deparar com o talento do jovem Claude Garcia (Ernst Umhauer), o professor se toma de vigor e entusiasmo e passa a aconselhar, em privado, o aluno – em uma relação de mestre e pupilo de muitas rotações. Claude escreve com desdém e sarcasmo sobre o cotidiano de uma família de classe média francesa, a família de seu melhor amigo Rapha, mas que mais parece uma cobaia para seu experimento – que muitas vezes pouco remete à literatura.
Sem se perceber, ainda que sua esposa, papel de Kristin Scott Thomas, lhe advirta vez ou outra, Germain se vê enredado em uma auspiciosa trama de manipulação por Claude, que desperta no professor o gosto pelo yoyeurismo.

Voyeurismo, sofisticação e arte: Dentro da casa propõe uma análise riquíssima sobre a natureza humana

Ozon discute não apenas o poder da imaginação como elemento transformador da realidade, algo já visto este ano no realismo fantástico de Indomável sonhadora, ou o poder da palavra como elemento desestabilizador, tão bem encampado no ótimo Desejo e reparação (2007), mas debate também a arte como catalisadora das emoções humanas. O talento de Claude para a dissimulação vem antes ou é reflexo de seu interesse pela literatura? Germain é ingênuo ou de fato se apaixonou por seu aluno? A realidade opressora de Claude e sua inveja pela família de Rapha foram suficientes para aguçar seu tino literário ou foi apenas um ocasional, e em formação, olhar voyeur? O desejo por Esther (Emmanuelle Seigner), mãe de Rapha, altera os rumos da história ou já fazia parte da história? Ozon responde todas essas perguntas ensejando ainda mais material para análise. A riqueza temática e narrativa de Dentro da casa é vistosa. Há, ainda, a observação da lapidação do talento e de como ele precisa de estímulos, nem sempre éticos, para arvorecer.
Tudo desenvolvido de maneira sensual e sofisticada. Ozon adorna sua trama de mistério com elegância e odor sexual e torna a figura de Claude atraente também para o olhar do público. O personagem revela-se mais – ainda que boa conta de sua iconografia fique por conta do espectador – na cena final – um colosso de dramaticidade e eloquência em que Ozon tira da abstração das ideias a concretude de seu argumento poderoso e sedutor sobre a vergonha, e seu componente de genialidade, que escondemos dentro de nós mesmos e apenas alguns têm a ousadia de revelar. 

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Carta do editor - Às voltas com o cinema


Abril será um mês bastante plural para quem gosta de cinema. Há lançamentos interessantes em quase todos os gêneros. Mama e A morte do demônio são exemplares do terror que prometem se credenciar aos grandes momentos do gênero. A temporada de blockbusters começa com a chegada de Homem de ferro 3. Mas a ação também move os lançamentos de Alvo duplo, estrelado por Sylvester Stallone, Invasão à Casa Branca, do sempre competente Antoine Fuqua, e de O acordo, um dos muitos longas estrelados por Dwayne “The Rock” Johnson em 2013. Tom Cruise volta à ficção científica depois de colaborar com Steven Spielberg em Minority Report - a nova lei (2002) e Guerra dos mundos (2005) em Oblivion. O cinema nacional apresenta dois lançamentos dos mais interessantes com Uma história de amor e fúria, animação que marca a estreia de Luiz Bolognesi na direção, e Abismo prateado, novo longa de Karim Ainouz.
O mês tem ainda as estreias dos novos trabalhos de diretores consagrados por suas veias autorais. O italiano Mario Bellocchio retorna como o elogiadíssimo A bela que dorme; o francês Oliver Assayas também obteve críticas positivas com Depois de maio, prometido para o último fim de semana do mês. Há, ainda, a estreia prometida de To the Wonder, novo filme de Terrence Malick.
Além de prover destaque a todos esses filmes, Claquete destacará outros ótimos filmes na recém-criada seção Espaço Claquete. Filmes como Jovens adultosDublê do DiaboA casa dos sonhosInquietos e Poesia serão resenhados ao longo do mês no blog. A seção TOP 10 destacará dez ótimos comediantes do cinema que você não conhece como comediantes e o mês terá, ainda, o retorno da seção Tira-teima, escolhida pelo (e) leitor para retornar triunfalmente ao blog.