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segunda-feira, 8 de abril de 2013

Crítica - Mama

Terror interno

Em mais de uma oportunidade, o produtor Guillermo Del Toro disse, em entrevistas promocionais, que o que o atraiu em Mama (EUA/ESP/CAN 2013) foi a "ideia de uma mulher lutando literalmente contra ser mãe. Fisicamente rejeitando essa possibilidade". Além de ser uma leitura saborosa do conflito da personagem de Jessica Chastain no filme, reside nesta abordagem de fundo psicológico e emocional a força de Mama enquanto cinema. Ao abraçar esse subtexto do filme de Andrés Muschietti, em uma estreia robusta no cinema, o espectador irá se deparar com um tipo de terror muito mais genuíno e prolixo. O poder de uma emoção, seja um trauma violento ou o desejo de pertencer a uma família, é o motor do desenvolvimento do roteiro e a chave do, até certo ponto, anticlimático desfecho.
Mama começa com um prelúdio devastador. Um homem mata seu sócio, a esposa e sequestra as duas filhas pequenas para matá-las e depois se suicidar. Um acidente os leva a uma cabana retirada onde ele decide levar seu plano a cabo. No entanto, uma criatura o mata impedindo que ele faça mal às duas meninas, Lilly (Isabelle Nélisse) e Vitória (Megan Charpentier).

Jessica Chastain está perfeita no papel de uma mulher que resiste à condição de ser mãe: um filme que investiga sob a ótica do terror traumas e angústias 

Passam-se cinco anos e sabemos que o irmão desse homem, o desenhista Lucas (Nikolaj Coster-Waldau) jamais desistiu de procurar por suas sobrinhas e financia um grupo independente para tanto. Certo dia eles a acham e elas estão completamente animalizadas. Resgatadas, inicia-se um intenso tratamento psicológico para tentar recuperar a humanidade nas meninas que sobreviveram por cinco anos se alimentando basicamente de cerejas e, algo que vai se desvendando aos poucos, sob a proteção de Mama – a tal da criatura vista pela primeira vez na cabana e assim nomeada pelas meninas.
Muschietti não faz um filme de terror enclausurado em si. Ainda que apresente recursos sonoplastas aqui e acolá e pregue sustos circunstanciais, Mama é um filme sobre o terror interno. De uma mulher que não quer ser mãe, e o desenho da personagem Annabel, uma roqueira cheia de atitude e com certa descompostura, é muito bem delineado por Chastain; e sobre a proeminência de um trauma tão profundo e remissivo como o abandono que aflige essas duas crianças. A figura catalisadora de Mama, também ela com uma história traumática, torna tudo mais catártico. Um personagem, em um dado momento do filme, define: “um fantasma é uma emoção deformada”. É de emoções deformadas que trata Mama. Tudo pela ótica inusitada do terror. O que faz do filme de Muschietti uma das melhores surpresas do ano no cinema. 

domingo, 7 de abril de 2013

Insight - O gênero de terror está esgotado?


A hesitação da The Weinstein Company em confirmar o quinto filme da série Pânico e a discussão sobre a possibilidade de reiniciar a série no cinema lançam a pergunta: o gênero está esgotado? A franquia assinada por Wes Craven, ele próprio um papa do gênero, foi o último grande sopro de originalidade no cinema de horror. O quarto filme, lançado em 2011, no entanto, não rendeu o esperado pelos produtores nas bilheterias. Nos últimos anos, salvo uma ou outra pequena exceção, o gênero tem sido engolido por refilmagens pouco imaginativas e derivados do último grande filme original do gênero: Jogos mortais.
Dois cineastas, no entanto, compõem a resistência. O americano Sam Raimi e o mexicano Guillermo Del Toro, ambos com um histórico de sucesso no gênero, patrocinam o que pode ser uma nova virada para o gênero. Del Toro tem produzido novos nomes, majoritariamente latinos, em filmes como O orfanato (2007), Não tenha medo do escuro (2010) e Mama, em cartaz nos cinemas. Sam Raimi faz o mesmo. Ele esteve por trás de filmes como Possessão (2012) e 30 dias e noite (2007) e agora produz o remake do filme que lhe deu fama, A morte do demônio.
A predileção por diretores latinos, o argentino Andrés Muschietti é o responsável por Mama e o uruguaio Fede Alvarez o diretor de A morte do demônio, está relacionada à gramática visual do cinema latino, mais inventiva e porosa do que a de diretores emergentes de outros cantos do mundo.

Cena de Mama, filme de terror que mexe com as emoções: sobrevida no gênero

Vem do Uruguai, também, uma das últimas propostas ousadas no gênero. Lançado em 2011, o uruguaio A casa foi rodado de maneira a parecer ser um único plano-sequência de 80 minutos em uma câmera digital. O filme tem remake americano garantido com supervisão do diretor do original, Gustavo Hernández.
Esse movimento que parece buscar uma nova postura estética para o cinema de horror tem a ver com a saturação do terror gore materializado em filmes como O albergue e as sequências de Jogos mortais.
Muschietti foi selecionado por Del Toro depois que este viu um curta dirigido pelo argentino na internet. Daí, o mexicano decidiu produzir um longa a partir daquele curta. Assim surgia Mama, um dos primeiros sucessos de público e crítica do ano. A trajetória de Mama para chegar aos cinemas é sintomática tanto das possibilidades ensejadas pela internet como da carência que aflige o cinema de horror no tangente a talentos e ideias. Mas também é um sinal claro de que não há, neste momento, sinais de esgotamento. Sam Raimi, que rodou em 2009 o último grande filme do gênero (Arrasta-me para o inferno) acredita que a nova versão de A morte do demônio pode ser ainda mais hypada do que a original. Seria um alento para um gênero que anda precisando... 

"O filme mais aterrorizante que você verá": a promessa do slogan de A morte do demônio se cumprirá?