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sexta-feira, 5 de abril de 2013

Espaço Claquete - A casa dos sonhos


É interessante observar a relação de cineastas consagrados em gêneros diversos – majoritariamente no drama – com o cinema de horror. A incursão tende a ser benéfica ao gênero, mas ruidosa nos bastidores. Walter Salles falou poucas e boas de sua experiência ao dirigir Água negra, um filme de horror que busca amparo na comparação com a fase sessentista de Roman Polanski. Acontece mais ou menos a mesma coisa com Jim Sheridan, de filmes como Meu pé esquerdo e Em nome do pai, e sua estreia no gênero com A casa dos sonhos (Dream house, EUA 2011). Ficou famosa no metiê cinematográfico a briga entre o diretor e o estúdio em virtude da insatisfação do primeiro com o final do filme. Como Sheridan, por contrato, não detinha o corte final ele exigiu que seu nome fosse retirado dos créditos. O que não aconteceu.
Desentendimentos à parte, A casa dos sonhos é um filme muito melhor que essa contenda de bastidores faz crer. E ter Sheridan, um diretor habilidoso no desenho dos personagens, torna A casa dos sonhos um estranho no ninho do filmes de terror modernos.
Estamos na seara do horror psicológico, muito mais instigante e propício ao exercício do medo e apreensão. Will Atenton (Daniel Craig) é um editor que se demite para passar mais tempo com a família na nova casa que adquiriram em um bairro aparentemente tranquilo e, também, escrever um livro para o qual já assegurou contrato.
A relação com a mulher (Rachel Weisz) e as filhas não poderia estar melhor. A harmonia familiar sofre um baque quando eles descobrem que a casa para a qual se mudaram foi palco de um múltiplo assassinato em que morreram mãe e filhas e o pai, que enlouqueceu, é o principal suspeito. A partir daí, A casa dos sonhos sofre um giro de 180º em seu plot e o que parece desarranjado a princípio logo passa a fazer muito sentido. Sheridan deixa as pistas para a montagem do quebra-cabeça nos lugares certos.
O desfecho, no entanto, realmente parece descolado da construção ornamentada até então por Sheridan a partir do texto de David Loucka. É como se as peças fornecidas por Sheridan e Loucka levassem a um final mais ambíguo, menos concreto. É perceptível a imposição do estúdio quanto ao desfecho do filme. O estúdio quis montar o quebra-cabeça, enquanto que Sheridan preferia que o público o fizesse. Com a liberdade de suas interpretações.
Essa intervenção francamente prejudicial, no entanto, não fere de morte o filme – ainda que o apequene sem dúvida alguma.  

sexta-feira, 12 de março de 2010

Critica - Entre irmãos

Um drama muito particular

Entre irmãos (Brothers, EUA 2009), refilmagem do filme dinamarquês de mesmo nome dirigido por Susanne Bier, é uma intrincada trama sobre a psicologia que move uma família. Um pai que fora omisso e opressor (Sam Shepard) e seus dois filhos que reagiram a isso de maneiras opostas. Tommy (Jake Gyllenhaal) enveredou pela vadiagem. Flertou com a marginalidade e acabou preso. Sam (Tobey Maguire) seguiu os passos do pai e tornou-se militar. O filme começa com Sam no Afeganistão que ao escrever uma carta para sua esposa (Natalie Portman) rememora os dias que antecederam sua partida para a guerra.
Nessa memória, somos apresentados a fissuras familiares que dão o tom das relações entre aqueles personagens. Desde o esforço de Sam para ser um pai atencioso, até o empenho de Tommy em confrontar todos da família.

Pai e filho separados por um abismo de ressentimentos



Duas reviravoltas transformam o já atribulado cotidiano dessa família. A primeira delas é a notícia da morte de Sam em combate. E a segunda, que ocorre alguns meses depois, é a de que ele não estava morto. Sam voltaria para casa após ter sido resgatado das mãos de terroristas.
É aí que reside o grande trunfo do filme. Sam precisa se adaptar à vida em sociedade novamente. Algo extremamente difícil, mas que se torna ainda mais complicado quando ele percebe claramente que foi superado. Que as pessoas seguiram adiante. Que de memória carinhosa, sua presença avança à perturbação psicológica. Não é algo fácil de digerir. Na verdade, é uma situação que intensifica, e muito, o quadro de paranóia que impreterivelmente acomete veteranos de guerra.
O diretor Jim Sheridan e o roteirista David Benioff optaram por manter a estrutura do filme original. O que se configurou em um acerto. As ligeiras mudanças apenas servem a uma contextualização de tempo e espaço. No entanto, Sheridan, embora seja prolifero em tratar de dramas familiares pontuados por conflitos externos (Em nome do pai, Terra dos sonhos e Fique rico ou morra tentando), evita imprimir impressões pessoais ao filme. Seria oportuno e bem vindo, alguma sutileza da realização para distingui-lo de filmes que se desdobram sobre o mesmo tema. Até mesmo porque trata-se de uma refilmagem. Contudo, o maior erro é o do distribuidor/estúdio que sugere um filme completamente diferente no material promocional. Os trailers apontam rumos que em momento nenhum se delineiam no filme. Um desserviço que pode contribuir para uma incorreta apreciação da película. Sheridan não realizou um grande filme, mas certamente entrega um filme muito melhor, e complexo, do que aquele que o trailer promete.



Tobey e Jake em cena do filme: A guerra só potencializou rachaduras familiares