quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Filme em destaque - Robocop

Missão cumprida

                                                                       foto: Agnews
José Padilha, Joel Kinnaman e Michael Keaton no Rio de Janeiro para divulgar Robocop: não é o filme que os fãs queriam ver, mas é o filme pelo qual nosso tempo urge

“Eu vou fazer o primeiro filme do cinemão a abordar o uso de drones”. A frase de José Padilha é de 2012, proferida pouco depois de ele ter começado a pré-produção da refilmagem de Robocob. O conceito voltou a ser aventado por Padilha na maratona promocional a que ele e os atores Michael Keaton e Joel Kinnaman se lançaram no Rio de Janeiro nesta semana.
Robocop estreou de maneira sólida, mas não entusiasmante nos EUA e a crítica internacional se mostrou dividida em relação à reimaginação bancada por Padilha de um dos filmes mais cultuados dos anos 80.
No Brasil, o filme encontra mais boa vontade. Recebeu matéria de capa, vasta e elogiosa, da revista Veja e foi bem acolhido pelos principais veículos do país.
À Veja, Padilha disse que fez “ o primeiro filme brasileiro em Hollywood” e corou o tom da reportagem assinada pela excelente jornalista Isabela Boscov que expõe como o diretor brasileiro conseguiu impor sua visão e sua dinâmica operacional à sanha controladora dos executivos de estúdio, no caso a MGM.

Calibrando expectativas
“Já vi alguma coisa e posso dizer que é um filme com a cara do Padilha”, disse Wagner Moura em meados de 2013 quando no Brasil divulgava a sua estreia em Hollywood, no filme Elysium. Na acepção do ator que viveu duas vezes o capitão Nascimento para José Padilha, pode-se vislumbrar onde o blockbuster que discute o uso de drones e o “primeiro filme brasileiro feito em Hollywood” se encontram.
“Se ouvir os fãs, eu fico paralisado”, observou o cineasta ao justificar a distância de seu filme para o original e é justamente a memória do original o principal ponto de desequilíbrio nas críticas sobre o filme. Para Luísa Pécora, que escreveu a crítica para o portal IG, “Robocop de José Padilha tem mais política e emoção do que o original” e, na avaliação dela, isso é algo muito positivo. Já para o New York Times, apesar desse esforço de Padilha em trazer uma assinatura própria e um pensamento mais moderno, as opções estéticas e narrativas do original ainda são mais fortes.

Criador e criatura: o inferno está cheio de boas intenções e o cinema de José Padilha é implacável com nossa condescendência

Se falta humor e violência, o novo Robocop busca um espectro político que reflete a obra de Padilha. O fato de o diretor ter tido controle sobre o corte final demonstra que essa visão estrangeira (uma característica celebrada no primeiro Robocop, feito pelo holandês Paul Verhoeven) é algo prezado pelo estúdio. O que não quer dizer que Robocop não seja um filme de ação e não congregue clichês e outras idiossincrasias do gênero.
“Quando você automatiza a violência, você abre as portas para o fascismo”, observa Padilha na coletiva realizada no Rio de Janeiro.  Não é um terceiro Tropa de elite, mas as nuanças observadas nos outros dois filmes foram conscientemente resgatadas pelo diretor ao abordar o universo de uma tropa de elite de um homem, no caso máquina, só.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Crítica - Philomena

Uma história de interesse humano

Philomena (Philomena, ING 2013) é um filme de encantamento único. Dirigido com sobriedade, mas adornado em carinho, por Stephen Frears, o drama inspirado em uma extraordinária história real, emociona ao apostar no talento de Judi Dench que busca rima no cinismo calibrado de Steve Coogan.
Philomena (Dench) foi forçada a renunciar a seu filho pelas freiras que cuidavam dela em uma residência mantida pela igreja católica na Irlanda. Os bebês de mães solteiras eram vendidos, por assim dizer, a abastados americanos que tentavam a adoção.
No aniversário de 50 anos do filho da qual foi separada, Philomena é tomada por um enorme desejo de localizá-lo. É aí que entra em cena a figura do jornalista Martin Sixsmith (Coogan), um jornalista caído em desgraça após ter sido envolvido em um escândalo político. 
Instigado pela filha de Philomena a ajudar a mãe a encontrar seu filho perdido, Sixsmth, um típico inglês pedante de classe média, resiste a embarcar em uma história de “apelo humano”, mas para fugir da depressão que lhe assedia, acaba cedendo.
O filme de Frears, com roteiro de Coogan e Jeff Pope, a partir do livro “The lost child of Philomena Lee", de Martin Sixsmith, então se organiza como um legítimo filme sobre humanidades. Em momento algum há o interesse de atacar a igreja católica ou estabelecer uma lógica melodramática. Frears evita o pieguismo, seja na trilha sonora sempre eficiente de Alexandre Desplat, seja no tempero certo ofertado pela singeleza do humor.
Coogan e Dench: dupla dinâmica

Há algumas belezas que tornam Philomena um filme mais insinuante. A busca pelo filho perdido de Philomena revela a Martin muito sobre perdão e dignidade e oferece poesia e conforto a Philomena ao descobrir, entre outras coisas, que seu filho convivia com um segredo tão angustiante como o dela.
Indicado a quatro Oscars (filme, roteiro adaptado, trilha sonora e atriz), Philomena é um filme simples que sobeja por uma realização madura, de propósitos bem estabelecidos e conta com dois atores no auge da forma. Coogan, mais conhecido pelas comédias, capricha no registro dramático e confia ao cinismo de seu personagem o norte do filme. Judi Dench é sempre outra história. Mas em Philomena ela demonstra como a sutileza serve bem às grandes intérpretes. Com doçura e graciosidade, Dench sobe o tom do registro nos momentos certos e sempre arrebata a plateia.
Com tantos predicados, Philomena distingue-se essencialmente por ser um filme que faz justiça, tanto ao básico do cinema, como à extraordinária vida de uma mulher que soube buscar paz no caos. 

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Oscar Watch 2014 - Os resultados do Bafta rearranjam a corrida pelo Oscar?


A maior premiação do cinema britânico, realizada no último domingo (16), consagrou 12 anos de escravidão como o melhor filme do ano. Além do principal prêmio, Chiwetel Ejiofor foi eleito o melhor ator pelo filme. Foram os dois prêmios concedidos à fita de Steve McQueen. Gravidade, por seu turno, levou seis Baftas (filme britânico, direção, fotografia, trilha sonora, som e efeitos visuais) enquanto que Trapaça ficou com outros três (roteiro original, maquiagem e atriz coadjuvante para Jennifer Lawrence).
Em termos de resultados, o Bafta tem pouca influência nas escolhas da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, que outorga o Oscar. De uns tempos para cá, no entanto, quem acompanha a cobertura da temporada de premiações em Claquete sabe que a Academia britânica aumentou seu grau de influência na fase de indicações. Obviamente esse grau de influência tem desdobramentos.
No caso dessa corrida pelo Oscar em particular, particularmente mais longa do que a dos últimos anos, essa influência pôde ser percebida pela opção de Leonardo DiCaprio (O lobo de Wall Street) em detrimento de Matthew McConaughey (Clube de Compras Dallas). A vitória de Barkhad Abdi (Capitão Phillips) entre os atores coadjuvantes ajuda a entender não só porque ele chegou ao Oscar e seu companheiro de cena, Tom Hanks – indicado ao Bafta, ficou pelo caminho, mas ajuda a perceber a força da indicação de DiCaprio.
A distribuição dos prêmios no Bafta, em pleno período de votação para definição dos vencedores do Oscar, demonstra muitas incertezas. Apenas Cate Blanchett, dos considerados favoritos entre os intérpretes, venceu. McConaughey e Jared Leto, nem sequer foram indicados, e Jennifer Lawrence repetiu o que aconteceu no Globo de Ouro e superou Lupita Nyong´o.
A performance de Gravidade, vencendo prêmios como filme britânico e trilha sonora, também sugere uma nuvem de fumaça. Assim como 12 anos de escravidão, por seu turno, que só converteu duas de suas dez indicações em vitória. Trapaça, ao contrário, venceu três prêmios em que não era – nem de longe – considerado favorito. O que isso quer dizer? Que Gravidade é um filme sobre o qual paira consenso absoluto, o que é muito bom para as chances do filme no Oscar; que 12 anos de escravidão surge enfraquecido para a corrida pelo Oscar, a despeito dos prêmios conquistados no sindicato dos produtores e no Globo de Ouro; e que Trapaça é um filme que segue construindo seu momentum. Não era nem de longe o melhor entre os indicados a roteiro original, mas a vontade (e necessidade) de premiar Russell falou mais alto. No Oscar, em que Spike Jonze concorre com Ela, a permuta fica mais difícil. 
Ejiofor com seu prêmio: sua vitória aumenta suas chances e
as de DiCaprio no Oscar
O que o Bafta sugere, e nessa corrida particular essa sugestão tem grande poder de combustão, é que 12 anos de escravidão, a despeito de sua seriedade e de tratar de um tema sobre o qual pairam cobranças por reconhecimento da Academia (escravidão), está mais distante do Oscar de melhor filme. Matthew McConaughey pode sim ser batido pelo eterno injustiçado Leonardo DiCaprio, ou mesmo por qualquer um de seus oponentes. E, finalmente, que caminhamos para a primeira divisão entre diretor e filme desde que a academia ampliou para até dez filmes os selecionados em melhor filme. No ano anterior, vale lembrar, essa divisão ocorreu, em um gesto de tremenda incoerência, por que Ben Affleck não estava indicado ao Oscar por Argo. Ou seja, não foi uma divisão legítima, já que Argo não competia em melhor direção. Russell tem suas chances em direção, mas Cuarón está na dianteira inegavelmente e McQueen pode ser a potencial surpresa, nem tanto pelo seu trabalho, mas pela tentação de fazer história ao premiar o primeiro diretor negro com o Oscar.
Um Bafta estranho anuncia um Oscar mais imprevisível do que de hábito e, justamente por isso, mais emocionante.  

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Crítica - 47 ronins

Um filme ronin

Keanu Reeves é um astro acidental. É daqueles que as curvas da carreira só podem fazer sentido em uma revisão histórica cheia de boa vontade. O que difere o novo 47 ronins (47 ronin, EUA 2013) de Matrix (1999) é a ambição. Em ambos os filmes, Reeves faz o escolhido. Na produção que se esmera na mais famosa história de cunho moral do Japão, ele faz o mestiço Kai que é tratado como um ser inferior até que precisa assumir posição vital em uma luta por legado e honra de um povoado. Em Matrix, como se sabe, ele faz Neo, o salvador da pátria da humanidade. A sombra de Neo talvez seja o elemento diversionista neste filme que às vésperas de seu lançamento nos EUA foi desacreditado pelo estúdio, a Universal.
Reeves, o elemento fantástico e a opção por sublinhar os efeitos especiais deslocam o filme de seu eixo central e o configuram em um projeto desequilibrado.
Keanu Reeves vive momento "Neo não está mais aqui..." 
Difícil dizer o porquê de o estúdio desacreditar do filme com ele prestes a ser lançado no mercado, tendo em vista que essas são escolhas de produção executiva e feitas na pré-produção.
Isso posto, ao que se propõe, diversão rasa com embalagem pop cult, 47 ronins entrega o que promete. Os efeitos especiais são ótimos, a excêntrica cultura japonesa (da perspectiva ocidental) garante interesse sempre em elevação, Reeves revisita Neo à francesa, e os sentimentos de honra e vingança movem os costumeiros clichês intra e extradiegéticos que costumam mover.

Uma curiosidade é que os atores japoneses parecem estar em um filme muito mais sério do que de fato estão e contrastam com o tom relaxado de Reeves em cena. É um aspecto revelador da dicotomia que é um filme como 47 ronins no mundinho de Hollywood em que um projeto é descartado às vésperas do lançamento pelas mesmas razões que o levaram a ser aventado.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Oscar Watch 2014 - A peleja das atrizes

Da esquerda para a direita: Sandra Bullock (Gravidade), Amy Adams (Trapaça), Meryl Streep (Álbum de família); Cate Blanchett (Blue jasmine) e Judi Dench (Philomena)


A doce Jasmine

George Clooney, que dividiu a cena duas vezes com Cate Blanchett, falou que ela é uma das duas maiores atrizes vivas. A outra é Meryl Streep. George Clooney pode não ser a autoridade máxima nessa matéria, mas não deixa de ser uma autoridade destacável. Em sua primeira colaboração com Woody Allen, Blanchett arrepia, arrebata e hipnotiza. É a melhor atuação de uma carreira de melhores atuações. O Oscar conquistado há noves anos, como coadjuvante por O aviador, é muito pouco para traduzir seu imenso talento. À Academia, resta somar dois mais dois e fazer justiça tanto à matemática quanto a australiana mais fascinante a já ter pisado na terra do cinema.

Prós:
- Ganhou todos os prêmios possíveis e imagináveis da temporada
- É a favorita absoluta em sua categoria em uma temporada com poucos favoritos absolutos no Oscar
- As personagens femininas de Woody Allen costumam render Oscar a suas intérpretes. Diane Keaton, Penélope Cruz, Diane West e Mira Sorvino são alguns exemplos
- É muito querida pela Academia
- Entre as atrizes já oscarizadas que disputam o prêmio neste ano, é a que mais merece um novo Oscar. Descontado o fato de que Meryl Streep venceu há dois anos

Contras:
- Os holofotes sobre um escândalo antigo da vida privada de Woody Allen podem respingar sobre as chances da atriz
- O burburinho positivo em torno da performance de Amy Adams (Trapaça), outra atriz querida, extremamente talentosa e sem Oscar na estante
- O fato de seu filme não ter sido indicado ao Oscar de melhor filme pode privar-lhe alguns votos combinados de eleitores mais tradicionais

Sexta indicação
Indicações anteriores
Atriz por Elizabeth em 1999
Atriz coadjuvante por O aviador em 2005
Atriz coadjuvante por Notas sobre um escândalo em 2007
Atriz coadjuvante por Não estou lá em 2008
Atriz por Elizabeth: a era de ouro em 2008

Vitória anterior
Atriz coadjuvante por O aviador (2005)

A eterna dama

James Bond se afeiçoou a ela como a nenhuma mulher em sua longeva carreira no cinema. Não é para menos. Judi Dench é uma mulher que vai além do encantamento pontual. Atriz profunda, repleta de predicados e envolta em um carisma absolutista, ela se vale de todos os seus recursos para viver a personagem título da comédia dramática Philomena, uma mulher em busca do filho separado dela há mais de 50 anos. Dench empacota o filme como somente as grandes atrizes o fazem com uma elegância, no entanto, que é só dela.

Prós:
- Atriz britânica em filme britânico costuma prosperar na categoria. Kate Winslet e Helen Mirren que o digam
- É a atriz mais veterana em um ano de ótimos desempenhos de veteranas
- Assim como ocorre com Blanchett, o filme se escora em seu desempenho

Contras:
- Não ganhou nenhum prêmio na temporada e é improvável que o primeiro seja justamente o Oscar
-A ideia de que o Bafta, caso lhe seja outorgado, bastará

Sétima indicação
Indicações anteriores
Atriz por Mrs. Brown em 1998
Atriz coadjuvante por Shakespeare apaixonado em 1999
Atriz coadjuvante por Chocolate em 2001
Atriz por Iris em 2002
Atriz por Sra. Henderson apresenta em 2006
Atriz por Notas sobre um escândalo em 2007

Vitória anterior
Atriz coadjuvante por Shakespeare apaixonado (1999)

Veterana sim senhor

Há quem torça o nariz para Amy Adams nessa lista entre as atrizes. Muitos criam que Emma Thompson por Walt nos bastidores de Mary Poppins merecesse seu lugar. Subjetividades à parte, o trabalho de Adams em Trapaça pode facilmente ser apontado como o melhor de sua carreira e estamos falando de uma atriz que, pelo filme de David O. Russell, recebeu sua quinta indicação ao Oscar. A única coisa a distinguir Amy de suas rivais é que ela, sabe-se lá Deus por que, não tem um careca dourado para chamar de seu.

Prós:
- Alterna como poucas a desenvoltura em filmes de ambições comerciais e filmes de ambições artísticas
- É a candidata mais jovem na disputa, mas com credenciais tão sólidas – ou até melhores – do que concorrentes
- O fato de ser a única na disputa que ainda não tem um Oscar
- O apreço que a Academia demonstrou pelo trabalho do elenco pode reforçar ainda mais o “pró” destacado acima
- O burburinho positivo sobre Trapaça pode beneficiá-la
- Ganhou o Globo de Ouro e, embora não tenha concorrido diretamente com Blanchett, é a única que ganhou prêmio significativo não vencido pela australiana
- Não foi indicada ao prêmio do sindicato dos atores, mas a Academia quebrou uma escrita no ano passado ao premiar Christoph Waltz entre os atores coadjuvantes; ele também não havia sido indicado ao SAG
-Foi dirigida por David O. Russell e isso significou Oscar para intérpretes nos últimos filmes dele

Contras:
- Não foi indicada ao prêmio do sindicato dos atores e é improvável que a perfomance vencedora do Oscar seja uma ignorada pelo sindicato
- O peso de que a indicação já possa ser reconhecimento suficiente
- É a menos “estrela” do elenco de Trapaça e, por que não, da categoria de melhor atriz
- A percepção de que a aura de eterna perdedora que marcou figuras como Peter o´Toole possa estar se construindo para Adams

Quinta indicação
Indicações anteriores:
Atriz coadjuvante por Retratos de família em 2006
Atriz coadjuvante por Dúvida em 2009
Atriz coadjuvante por O vencedor em 2011
Atriz coadjuvante por O mestre em 2013

O álbum de indicações

Esta é a 18ª indicação ao Oscar de Meryl Streep, a atriz que qualquer um veria lendo a lista telefônica. De credenciais reconhecíveis e talento interminável, Streep volta a ser nomeada por um trabalho bom, digno e elogiável, mas não do tipo que mereceria uma indicação ao Oscar. Mas quem se importa? Ela não persegue mais prêmios, apenas vislumbra a supremacia entre os imortais.

Prós:
- O peso de seu nome é um inegável ímã para eleitores indecisos
- Não há quem desgoste de Meryl Streep e figuras como Blanchett, Adams e Bullock não têm cativos o voto conservador
- Se o clima for fazer história (Oscar de filme para uma ficção científica passada no espaço, primeiro Oscar para um diretor negro), a vibe pode beneficiar um quarto Oscar para a atriz
- A atriz defende um papel difícil, antipático e o faz com incrível humanidade. É o tipo de papel que costuma conquistar votos

Contras:
- Ganhou seu terceiro Oscar há dois anos. Mesmo sendo Streep, há quem possa achar supervalorização concedê-la um quarto Oscar em espaço de tempo tão curto. Afinal, foram 30 anos para ela receber o terceiro
- Para todos os efeitos, é a performance mais fraca entre as nomeadas e todo mundo sabe disso
- O pouco espaço que seu filme recebeu no Oscar pode prejudicar suas chances
- A pecha de que a expansão do próprio recorde de indicações já é reconhecimento suficiente

Décima oitava indicação
Indicações anteriores
Atriz coadjuvante por O franco atirador em 1979, atriz coadjuvante por Kramer VS Kramer em 1980,atriz por A mulher do tenente francês em 1982, atriz por A escolha de Sofia em 1983, atriz por O retrato de uma coragem em 1984, atriz por Entre dois amores em 1986, atriz por Ironweed em 1988, atriz por Um grito no escuro em 1989, atriz por Lembranças de Hollywood em 1991, atriz por As pontes de Madison em 1996, atriz por Um amor verdadeiro em 1999, atriz por Música do Coração em 2000, atriz coadjuvante por Adaptação em 2003, atriz por O diabo veste Prada em 2006, atriz por Dúvida em 2009, atriz por Julie & Julia em 2010, atriz por A dama de ferro em 2012

Vitórias anteriores:
Atriz coadjuvante por Kramer VS Kramer (1980)
Atriz por A escolha de Sofia (1983)
Atriz por A dama de ferro (2012)

Ah, se eles soubessem...

A indicação de Sandra Bullock por Gravidade talvez seja exagero, mas é certo que ela fez por merecer muito mais no filme de Alfonso Cuarón do que em Um sonho possível, filme que valeu a ela sua estatueta. A Academia queria premiar Bullock, um pilar de Hollywood há pelo menos 20 anos. Esperasse mais três anos e a premiaria por um trabalho mais digno. De qualquer forma, Bullock voltando ao Oscar quebra a escrita de que a estatueta amaldiçoa as estrelas vencedoras.

Prós:
- De todas as atrizes em disputa, é a que faz campanha mais fervorosamente
- Carrega o filme sozinha sendo a única pessoa em cena na maior parte do filme
-Está no filme de maior bilheteria e é a atriz que mais faz bilheterias entre as indicadas. Isso já contou em outro ano em que também disputava com Meryl Streep
- Sua atuação demandou grande esforço físico e isso costuma sensibilizar muitos votantes

Contras:
- Ganhou recentemente e não tem o peso do nome de Meryl Streep
- Cate Blanchett também carrega um filme sozinha e um filme mais complexo do que Gravidade
-Está em uma ficção científica e elas não costumam render performances premiadas com o Oscar

Segunda indicação
Indicação anterior
Um sonho possível (2010)
Vitória anterior

Um sonho possível (2010)

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Oscar Watch 2014 - o tema do ano no Oscar



Todo ano é a mesma coisa. Críticos e analistas se põem a conjecturar sobre qual é o tema mais vívido na safra de filmes de Oscar. Há quem note um comentário sutil da Academia nesta elaboração e há quem perceba a preponderância do acaso no agrupamento de alguns títulos que se comunicam. No ano passado, por exemplo, existia um forte apelo político com candidatos como Lincoln, Argo e A hora mais escura e a escravidão, novamente em voga com 12 anos de escravidão, também se destacava no já citado Lincoln e em Django livre.
Neste ano, parece certo apontar que o tema preponderante é a sobrevivência. Neste ano fica difícil defender uma intervenção pensada da Academia na constituição dessa frente temática. Até porque, se o nível da competição é altíssimo, os filmes são radicalmente diferentes entre si. Produções como Capitão Phillips, Gravidade, Trapaça, 12 anos de escravidão e Clube de Compras Dallas apresentam personagens e conflitos dramáticos que podem ser resumidos como batalhas pela sobrevivência. Em Capitão Phillips, filmado com aquele indefectível esmero documental de Paul Greengrass, um capitão faz o possível para sobreviver a uma inusitada, ainda que até certo ponto esperada, ameaça pirata. Gravidade apresenta a batalha solitária de uma astronauta de primeira viagem à deriva no espaço enquanto que Trapaça mostra um grupo de personagens tentando sacar da cartola versões melhores de si mesmos.
Em 12 anos de escravidão há o epíteto; o protagonista – sequestrado e feito escravo pelo período de 12 anos – declara querer viver e não sobreviver, mas é de sua luta pela sobrevivência que o filme se ocupa. Clube de compras Dallas talvez apresente a mais tradicional luta pela sobrevivência encampada pelo cinema, a batalha contra uma doença em uma época em que incompreensão e intolerância tornavam a AIDS ainda mais fatal.

Para ver o amanhecer: Em Gravidade, Sandra Bullock faz o possível e o impossível para voltar à Terra; em Trapaça, dois vigaristas pegos em flagrante precisam administrar a ganância de um agente do FBI para não serem presos nem mortos pela máfia; em 12 anos de escravidão, um homem livre feito escravo supera anos de tortura e barbárie para contar sua história e em Clube de Compras Dallas, um tipo machista que se descobre aidético contrabandeia remédios do México para salvar sua vida e daqueles que inicialmente eram objeto de seu preconceito

Presente em variações providencialmente complementares em termos de perspectiva, a sobrevivência em seu grau mais absoluto, como em Gravidade ou 12 anos de escravidão, ou subjetivo, como em Trapaça, é o tema do ano.
O caráter acidental do principal tema a ventilar o Oscar 2014 redimensiona a potência promocional da academia aferindo profundidade a um debate geralmente ralo e superficial circunscritos a preferências pontuais e campanhas de marketing. O segundo grande tema do ano, esse aventado de forma menos acidental, é a forma particularmente americana de lidar com a crise financeira. Se em Blue Jasmine de Woody Allen, há uma comparação cínica entre classes sociais, em O lobo de Wall Street, há uma sátira escrachada de Wall Street enquanto monumento de pujança financeira.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Oscar Watch 2014 - O que David O. Russell tem que os outros não têm e muita gente não enxerga?



David O.Russell anunciou outro dia que terminou o roteiro de um filme de terror que deve ser dirigido por Eli Roth. Outro dia Russell foi indicado pela terceira vez em quatro anos ao Oscar de melhor diretor, coisa que só gigantes como John Ford e Clint Eastwood conseguiram. Não é só. O diretor tornou-se o único a ter conseguido 11 indicações para atores em três filmes consecutivos que foram também nomeados a melhor filme. Russell é o único diretor a ter conseguido nomeação para seu elenco em todas as categorias interpretativas por dois filmes e, para deixar o recorde ainda mais bonito, lançados em anos sequenciais.
O vencedor (2010), O lado bom da vida (2012) e Trapaça (2013) constituem o que Russell gosta de chamar de trilogia da reinvenção. Em uma dessas coincidências entre arte e vida, esses três filmes ajudaram a consolidar a reinvenção de David O. Russell. Hoje queridinho da Academia, Russell já colecionou desafetos e foi conhecido por seu gênio difícil. George Clooney, um homem que coleciona admiradores e tem fama de afável, chegou a dar uma gravata em Russell durante as filmagens de Três reis (1999). A fama de difícil perdurou e ganhou novamente notoriedade quando vazou um vídeo do diretor dando um esporro homérico na atriz Lily Tomlin no set de Huckabees: a vida é uma comédia (2004).
Foi o amigo Mark Wahlberg quem ajudou Russell a capitalizar sua reinvenção. Ele chamou o amigo para dirigir O vencedor e tirou Russell do ostracismo que se enfiara por seis anos. Nesse período o diretor escreveu muita coisa que já começa a ser disputada a tapa em Hollywood, inclusive uma ideia original para uma série de tv.

Russell orienta Wahlberg e Bale no set de O vencedor, filme que caiu no gosto da comunidade artística e selou o início da nova, e próspera, fase do cineasta

Do temperamento difícil a diretor vastamente elogiado por seus atores, algo se perdeu na tradução. "Russell é homem sensível. Seu cérebro é incrível e ele é muito verdadeiro; expressa o que quer que esteja sentindo”, revela o também amigo e cineasta Spike Jonze ao The Hollywood Reporter. “Ele não tem filtro”, observa Jennifer Lawrence à mesma publicação, “ e é isso que eu mais adoro nele”.
Russel tem consciência de que o mundo gira diferente para ele hoje do que girava no início da década passada. “A vida me deu uma segunda chance”, disse ao The Hollywood Reporter. Mas como tudo no universo, a segunda chance de Russell tem um ritmo próprio. Há muita resistência ao cineasta. Ao invés de louvar a façanha de emplacar duas comédias em anos consecutivos entre os principais postulantes ao Oscar (comédia indicada a melhor filme é de uma raridade atroz), houve quem rotulasse o diretor de superestimado por ter filmes “menores” lembrados tão fartamente no Oscar. Outras provocações como “sub-Scorsese” surgiram na esteira do lançamento de Trapaça, filme elogiado pela grande maioria da crítica e abraçado pelo público. Mundialmente, a fita já supera os U$ 200 milhões e se coloca atrás do blockbuster Gravidade como maior bilheteria entre os filmes na disputa pelo Oscar de melhor filme.

O diretor e o elenco de seu mais recente filme: um cultivador de bons personagens e encantador de atores

A razão de tamanha resistência a Russell não reside exatamente em seu “passado negro”. É algo mais relacionado à sua versatilidade.
Excelente diretor de atores, roteirista talentoso e com olhar afiado para diálogos, ele pode ser a conjunção perfeita do melhor entre grandes figuras do cinema americano como Scorsese, Eastwood, Tarantino e Woody Allen. Há quem ainda não identifique isso e há quem se recuse a reconhecer o potencial substancioso de Russell, mas a verdade está lá. No rigor técnico e na desenvoltura dramática de seus últimos trabalhos. Ainda que menos pretensiosos do que seus primeiros filmes, essas produções sugerem um dos cineastas mais completos e sensíveis do cinema atual.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Crítica - Trapaça

A arte da sobrevivência é uma história sem fim

Trapaça (American Hustle, EUA 2013) é um filme sobre vigaristas. Sobre os anos 70. Sobre ambição e sobre àquela necessidade que bate nossa porta de quando em quando de reinventarmo-nos por completo. É, também, um filme de David O. Russell e esse último aspecto vêm ganhando cada vez mais relevância no cinema atual.
Indicado a dez Oscars (filme, direção, ator, atriz, ator coadjuvante, atriz coadjuvante, roteiro original, figurino, direção de arte e montagem), Trapaça é um filme que se escora, com consciência absurda, em seus personagens. E eles são todos fascinantes. Desde aquele que parece confinado ao status de apêndice narrativo (como o chefe do FBI vivido por Louis C.K) até o protagonista Irving Rosenfeld (Christian Bale).
Os anos 70 de figurinos exagerados e boa música surgem na paleta de Russell como uma época de desencanto em que o sonho americano em si precisava ser reinventado. Entornar neste caldo corrupção política, máfia e a mais fina malandragem apenas demonstra a expertise de Russell como narrador.
Irving é do tipo que se garante pela lábia. Ele se apaixona por Sidney Prosser (Amy Adams) tão logo nela repara e descobre que gostam exatamente da mesma música. Esse elemento que une os personagens é um dos muitos em que Trapaça excederá as expectativas do público e se comunicará com ele em outro nível. Outro desses momentos é quando Jennifer Lawrence, na pele de Rosalyn – a esposa de Irving que lhe nega o divórcio – canta "Live and let die" enquanto faxina.
Fossem as grandes cenas, Trapaça já valeria o ingresso, mas o filme mostra também que Russell não só é um sofisticado diretor de atores, como um lapidador de personagens raro no cinema atual.
Sidney e Irving se amam e se jogam no esquema de ludibriar os outros até que são pilhados em flagrante pelo agente do FBI Richie DiMaso (Bradley Cooper), que os convence a colaborar em uma investigação para que ele prenda peixes graúdos. Acontece que DiMaso vai gostando dessa vida de malandragem e começa a enxergar a beleza de  conseguir peixes ainda mais graúdos. A necessidade de reinventar-se, advoga Russell por meio de seus personagens, é um fluxo constante e horizontal.
Enquanto a ganância de DiMaso se multiplica, Irving à medida que prepara o bote para puxar o tapete de um punhado de políticos, entre eles o populista prefeito vivido por Jeremy Renner – a quem se afeiçoa, começa a sentir o peso de suas inconsequentes atitudes. Essa tomada de consciência do personagem, nunca absoluta, afinal, Irving se ressente de adentrar as hostes da máfia e flertar com a possibilidade real de morte, é a linha mestra da dança de gêneros pela qual Russell conduz sua audiência.
Da comédia de erros à sátira, passando pelo thriller e pelo drama mais rebuscado, Trapaça é um cinema tão redondo quanto o talento de seu realizador pode ofertar.
Não há crítica social ou o desejo de radiografar algum tema relevante do presente, Trapaça é entretenimento adulto na sua mais fina concepção. É, também, um tributo ao cinema de Scorsese, em os que personagens precisam se encontrar no imenso tamanho de suas ambições.
Os anos 70 surgem saudosos, românticos e mais coloridos do que talvez tenham sido no filme de Russell que coloca os personagens no comando do show. Jennifer Lawrence brilha como a bipolar e manipuladora Rosalyn. É uma das grandes personagens femininas dos últimos tempos e Lawrence tem o talento necessário para fazer jus a ela. Christian Bale tem a melhor atuação de sua carreira na pele de Irving. O ator precisa ir do dramático ao cômico e o faz com uma organicidade espantosa. Sem perder o cinismo e o charme de vista. Em um olhar ele exprime tudo o que o personagem precisa exprimir. Bradley Cooper é outro ponto nevrálgico do elenco. Além da urgência de sua composição, Di Maso é esperto, mas não raciocina como deveria, Cooper sabe revelar a fragilidade de seu personagem no timing preciso. Mas o grande nome de Trapaça é mesmo Amy Adams. Ela é o coração do filme. É através de sua Sidney, que na maior parte do filme é Edith, que Trapaça viabiliza sua razão de ser: de que essas segunda, terceira, quarta chances dependem rigorosamente de nós. Adams está sensual como nunca, sutil como sempre, mais expansiva do que de hábito e arrebatadora como Trapaça precisa que ela seja. Se há um porém no elenco, é Jeremy Renner, que apesar de bem intencionado, não convence como italiano do povo.

É preciso dizer que Trapaça, sem seu elenco, não seria metade do filme que é e é aí que a grandeza de Russell se revela. Ele sabe disso e não faz a menor questão de esconder.  

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Filme em destaque - Trapaça

Golpe à americana
David O. Russell reúne um punhado de seus atores favoritos para uma história divertida, ligeiramente real e que apresenta personagens fascinantes


“David justifica suas personagens femininas. Sabe? Elas não estão lá apenas por estar. Elas tem uma razão dramática para pertencerem àquele universo”, relata Amy Adams que em sua segunda colaboração com o diretor David O. Russell conquistou sua segunda indicação ao Oscar. Ao todo Amy detém cinco indicações ao prêmio da Acadêmia.
Essa preocupação com os personagens é reiterada por Russell na mesma entrevista de divulgação. “Gosto de pensar que meus personagens conduzem a trama. Eu sou todo a favor dos personagens”, explica o diretor que com Trapaça finaliza sua informal trilogia da reinvenção. O primeiro O vencedor, indicado a sete Oscars, incluindo melhor filme, mostrava como o boxeador Mick Ward precisava se afastar da família para vencer na carreira. Em O lado bom da vida, indicado a oito Oscars, também incluindo melhor filme, uma moça bipolar e um rapaz com transtorno obsessivo compulsivo representam a tábua de salvação um do outro. Em Trapaça, que concorre a dez Oscars, assim como os outros, também a melhor filme, dois vigaristas, vividos por Christian Bale e Amy Adams, são forçados a colaborar com o agente do FBI vivido por Bradley Cooper para desbaratar um esquema que envolve máfia, políticos e toda sorte de tipos corruptos.
Trapaça é o filme mais ambicioso de Russell desde Três reis (1999), uma sátira venenosa à guerra do golfo. Trapaça se passa nos anos 70 e perpassa gêneros tão diferentes como a comédia de erros e o suspense, abarcando o drama, o thriller policial e a farsa.
Há quem chame Trapaça, lhe aferindo aspecto pejorativo, de um “Scorsese light” ou “sub-Scorsese”. Para o jornalista e crítico de cinema Roberto Sadovski essa é uma tremenda bobagem. “Apesar de Trapaça habitar um universo familiar ao diretor de Os Bons Companheiros, a pegada é diferente, menos nervosa, mais cômica. Para Sadovski, “o tom leve é uma opção narrativa inteligente” até mesmo para adensar melhor as mudanças de gênero impetradas por Russell.
Trapaça apresenta uma reconstituição de época acachapante. Tanto pela direção de arte como pelos figurinos e penteados. Esse esmero ajuda a entender a ambição de Russell. “Eu posso explicar a minha relação com os anos 70 através de cada um desses personagens. Das músicas que gostam, de seus sonhos...”, diz Russell à reportagem do jornal O Globo.
Esse carinho pelos personagens é mais perceptível em Trapaça do que em qualquer outro trabalho do cineasta, talvez por essa nostalgia incontida, talvez porque a proposta de voltar aos anos 70 pedisse esse carinho, talvez porque o tributo a Scorsese seja apenas uma das muitas nuanças desse filme que consegue ser drama, comédia, suspense, policial e, antes de tudo isso, um filme de David O. Russell, uma das grifes mais reconhecíveis da nova Hollywood.