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domingo, 16 de fevereiro de 2014

Oscar Watch 2014 - A peleja das atrizes

Da esquerda para a direita: Sandra Bullock (Gravidade), Amy Adams (Trapaça), Meryl Streep (Álbum de família); Cate Blanchett (Blue jasmine) e Judi Dench (Philomena)


A doce Jasmine

George Clooney, que dividiu a cena duas vezes com Cate Blanchett, falou que ela é uma das duas maiores atrizes vivas. A outra é Meryl Streep. George Clooney pode não ser a autoridade máxima nessa matéria, mas não deixa de ser uma autoridade destacável. Em sua primeira colaboração com Woody Allen, Blanchett arrepia, arrebata e hipnotiza. É a melhor atuação de uma carreira de melhores atuações. O Oscar conquistado há noves anos, como coadjuvante por O aviador, é muito pouco para traduzir seu imenso talento. À Academia, resta somar dois mais dois e fazer justiça tanto à matemática quanto a australiana mais fascinante a já ter pisado na terra do cinema.

Prós:
- Ganhou todos os prêmios possíveis e imagináveis da temporada
- É a favorita absoluta em sua categoria em uma temporada com poucos favoritos absolutos no Oscar
- As personagens femininas de Woody Allen costumam render Oscar a suas intérpretes. Diane Keaton, Penélope Cruz, Diane West e Mira Sorvino são alguns exemplos
- É muito querida pela Academia
- Entre as atrizes já oscarizadas que disputam o prêmio neste ano, é a que mais merece um novo Oscar. Descontado o fato de que Meryl Streep venceu há dois anos

Contras:
- Os holofotes sobre um escândalo antigo da vida privada de Woody Allen podem respingar sobre as chances da atriz
- O burburinho positivo em torno da performance de Amy Adams (Trapaça), outra atriz querida, extremamente talentosa e sem Oscar na estante
- O fato de seu filme não ter sido indicado ao Oscar de melhor filme pode privar-lhe alguns votos combinados de eleitores mais tradicionais

Sexta indicação
Indicações anteriores
Atriz por Elizabeth em 1999
Atriz coadjuvante por O aviador em 2005
Atriz coadjuvante por Notas sobre um escândalo em 2007
Atriz coadjuvante por Não estou lá em 2008
Atriz por Elizabeth: a era de ouro em 2008

Vitória anterior
Atriz coadjuvante por O aviador (2005)

A eterna dama

James Bond se afeiçoou a ela como a nenhuma mulher em sua longeva carreira no cinema. Não é para menos. Judi Dench é uma mulher que vai além do encantamento pontual. Atriz profunda, repleta de predicados e envolta em um carisma absolutista, ela se vale de todos os seus recursos para viver a personagem título da comédia dramática Philomena, uma mulher em busca do filho separado dela há mais de 50 anos. Dench empacota o filme como somente as grandes atrizes o fazem com uma elegância, no entanto, que é só dela.

Prós:
- Atriz britânica em filme britânico costuma prosperar na categoria. Kate Winslet e Helen Mirren que o digam
- É a atriz mais veterana em um ano de ótimos desempenhos de veteranas
- Assim como ocorre com Blanchett, o filme se escora em seu desempenho

Contras:
- Não ganhou nenhum prêmio na temporada e é improvável que o primeiro seja justamente o Oscar
-A ideia de que o Bafta, caso lhe seja outorgado, bastará

Sétima indicação
Indicações anteriores
Atriz por Mrs. Brown em 1998
Atriz coadjuvante por Shakespeare apaixonado em 1999
Atriz coadjuvante por Chocolate em 2001
Atriz por Iris em 2002
Atriz por Sra. Henderson apresenta em 2006
Atriz por Notas sobre um escândalo em 2007

Vitória anterior
Atriz coadjuvante por Shakespeare apaixonado (1999)

Veterana sim senhor

Há quem torça o nariz para Amy Adams nessa lista entre as atrizes. Muitos criam que Emma Thompson por Walt nos bastidores de Mary Poppins merecesse seu lugar. Subjetividades à parte, o trabalho de Adams em Trapaça pode facilmente ser apontado como o melhor de sua carreira e estamos falando de uma atriz que, pelo filme de David O. Russell, recebeu sua quinta indicação ao Oscar. A única coisa a distinguir Amy de suas rivais é que ela, sabe-se lá Deus por que, não tem um careca dourado para chamar de seu.

Prós:
- Alterna como poucas a desenvoltura em filmes de ambições comerciais e filmes de ambições artísticas
- É a candidata mais jovem na disputa, mas com credenciais tão sólidas – ou até melhores – do que concorrentes
- O fato de ser a única na disputa que ainda não tem um Oscar
- O apreço que a Academia demonstrou pelo trabalho do elenco pode reforçar ainda mais o “pró” destacado acima
- O burburinho positivo sobre Trapaça pode beneficiá-la
- Ganhou o Globo de Ouro e, embora não tenha concorrido diretamente com Blanchett, é a única que ganhou prêmio significativo não vencido pela australiana
- Não foi indicada ao prêmio do sindicato dos atores, mas a Academia quebrou uma escrita no ano passado ao premiar Christoph Waltz entre os atores coadjuvantes; ele também não havia sido indicado ao SAG
-Foi dirigida por David O. Russell e isso significou Oscar para intérpretes nos últimos filmes dele

Contras:
- Não foi indicada ao prêmio do sindicato dos atores e é improvável que a perfomance vencedora do Oscar seja uma ignorada pelo sindicato
- O peso de que a indicação já possa ser reconhecimento suficiente
- É a menos “estrela” do elenco de Trapaça e, por que não, da categoria de melhor atriz
- A percepção de que a aura de eterna perdedora que marcou figuras como Peter o´Toole possa estar se construindo para Adams

Quinta indicação
Indicações anteriores:
Atriz coadjuvante por Retratos de família em 2006
Atriz coadjuvante por Dúvida em 2009
Atriz coadjuvante por O vencedor em 2011
Atriz coadjuvante por O mestre em 2013

O álbum de indicações

Esta é a 18ª indicação ao Oscar de Meryl Streep, a atriz que qualquer um veria lendo a lista telefônica. De credenciais reconhecíveis e talento interminável, Streep volta a ser nomeada por um trabalho bom, digno e elogiável, mas não do tipo que mereceria uma indicação ao Oscar. Mas quem se importa? Ela não persegue mais prêmios, apenas vislumbra a supremacia entre os imortais.

Prós:
- O peso de seu nome é um inegável ímã para eleitores indecisos
- Não há quem desgoste de Meryl Streep e figuras como Blanchett, Adams e Bullock não têm cativos o voto conservador
- Se o clima for fazer história (Oscar de filme para uma ficção científica passada no espaço, primeiro Oscar para um diretor negro), a vibe pode beneficiar um quarto Oscar para a atriz
- A atriz defende um papel difícil, antipático e o faz com incrível humanidade. É o tipo de papel que costuma conquistar votos

Contras:
- Ganhou seu terceiro Oscar há dois anos. Mesmo sendo Streep, há quem possa achar supervalorização concedê-la um quarto Oscar em espaço de tempo tão curto. Afinal, foram 30 anos para ela receber o terceiro
- Para todos os efeitos, é a performance mais fraca entre as nomeadas e todo mundo sabe disso
- O pouco espaço que seu filme recebeu no Oscar pode prejudicar suas chances
- A pecha de que a expansão do próprio recorde de indicações já é reconhecimento suficiente

Décima oitava indicação
Indicações anteriores
Atriz coadjuvante por O franco atirador em 1979, atriz coadjuvante por Kramer VS Kramer em 1980,atriz por A mulher do tenente francês em 1982, atriz por A escolha de Sofia em 1983, atriz por O retrato de uma coragem em 1984, atriz por Entre dois amores em 1986, atriz por Ironweed em 1988, atriz por Um grito no escuro em 1989, atriz por Lembranças de Hollywood em 1991, atriz por As pontes de Madison em 1996, atriz por Um amor verdadeiro em 1999, atriz por Música do Coração em 2000, atriz coadjuvante por Adaptação em 2003, atriz por O diabo veste Prada em 2006, atriz por Dúvida em 2009, atriz por Julie & Julia em 2010, atriz por A dama de ferro em 2012

Vitórias anteriores:
Atriz coadjuvante por Kramer VS Kramer (1980)
Atriz por A escolha de Sofia (1983)
Atriz por A dama de ferro (2012)

Ah, se eles soubessem...

A indicação de Sandra Bullock por Gravidade talvez seja exagero, mas é certo que ela fez por merecer muito mais no filme de Alfonso Cuarón do que em Um sonho possível, filme que valeu a ela sua estatueta. A Academia queria premiar Bullock, um pilar de Hollywood há pelo menos 20 anos. Esperasse mais três anos e a premiaria por um trabalho mais digno. De qualquer forma, Bullock voltando ao Oscar quebra a escrita de que a estatueta amaldiçoa as estrelas vencedoras.

Prós:
- De todas as atrizes em disputa, é a que faz campanha mais fervorosamente
- Carrega o filme sozinha sendo a única pessoa em cena na maior parte do filme
-Está no filme de maior bilheteria e é a atriz que mais faz bilheterias entre as indicadas. Isso já contou em outro ano em que também disputava com Meryl Streep
- Sua atuação demandou grande esforço físico e isso costuma sensibilizar muitos votantes

Contras:
- Ganhou recentemente e não tem o peso do nome de Meryl Streep
- Cate Blanchett também carrega um filme sozinha e um filme mais complexo do que Gravidade
-Está em uma ficção científica e elas não costumam render performances premiadas com o Oscar

Segunda indicação
Indicação anterior
Um sonho possível (2010)
Vitória anterior

Um sonho possível (2010)

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Oscar Watch 2014 - uma corrida de oscarizadas

Uma das particularidades da corrida pelo Oscar de melhor atriz em 2014 é de que as favoritas a receberem indicação são todas atrizes já oscarizadas. No ano passado o fenômeno se deu entre os atores coadjuvantes, mas teve ar de coincidência já que havia outros postulantes de grande categoria às vagas. É diferente do que ocorre neste ano com a categoria de melhor atriz. Nove em dez listas de gurus do Oscar constam os nomes de Cate Blanchett (Blue Jasmine), Emma Thompson (Walt nos bastidores de Mary Poppins), Judi Dench (Philomena), Meryl Streep (Álbum de família) e Sandra Bullock (Gravidade). Há quem aponte chances para Amy Adams (Trapaça), Adèle Exarchopoulos (Azul é a cor mais quente), Julia Louis-Dreyfus (À procura do amor) e Brie Larson do pequeno e pouco visto (Short term 12).  Elas são, para todos os efeitos e propósitos, mais do que azaronas em uma corrida que parece já ter seu grid definido muito antes da largada. Amy Adams e Adèle Exarchopoulos podem se beneficiar do buzz em torno de seus respectivos filmes. No caso de Adams, o tamanho que Trapaça ocupar no Globo de Ouro e no SAG (premiação do sindicato dos atores) adensará suas chances de roubar uma dessas vagas.
Cate Blanchett e Judi Dench parecem imbatíveis na categoria. Meryl Streep conta com o voto dos acadêmicos por qualquer coisa nomeável que faça. No entanto, venceu seu terceiro Oscar há dois anos e isso pode significar que se alguém precisa ser sacrificada, esse alguém poderia ser ela. Ainda assim, é uma alternativa improvável. Dreyfus é um nome muito televisivo para se opor ao pedigree desse time de oscarizadas e Larson precisa surfar na onda que Indomável sonhadora surfou, mas seu filme não tem o mesmo hype de uma das surpresas de 2013.
Cate Blanchett, no melhor desempenho de sua carreira, ruma para seu segundo Oscar, justamente por isso é favas contadas na categoria de melhor atriz

O fator Streep: o peso do nome de Meryl Streep, em cena com Julia Roberts, pode fazer a diferença e fechar a corrida entre atrizes oscarizadas

De qualquer maneira, a pouca hesitação de analistas do Oscar e a acomodação precoce das favoritas e já oscarizadas  no posto de virtualmente indicadas sinaliza o afunilamento de uma percepção que ronda a categoria há alguns anos. A de que não há concorrência efetiva na categoria. É comum a disputa por atriz coadjuvante eclipsar a de atriz e neste ano, afora uma Jennifer Lawrence aqui e uma Oprah ali, não há nada muito definido nesse departamento.
Não custa repetir que se a categoria for preenchida por cinco atrizes já detentoras de Oscar, teremos outro feito inédito nas categorias de atuação. Blanchett foi premiada em 2005 como coadjuvante por O aviador, Bullock como atriz em 2010 por Um sonho possível, Thompson ganhou como atriz por Retorno a Howard´s end em 1993, Dench venceu como coadjuvante em 1999 por Shakespeare apaixonado e Streep prevaleceu em 1980, 1983 e 2012 por Kramer vs Kramer, A escolha de Sofia e A dama de ferro, respectivamente. A primeira vitória foi como coadjuvante.

Brie Larson no elogiado, mas pouco visto, Short term 12: candidata a grande surpresa da lista 

Judi Dench em cena de Philomena: um bom ano para atrizes veteranas

Se há um indesviável aspecto negativo nessa certeza pré-datada, há um lampejo de otimismo à espreita. As atrizes maduras e veteranas, que vinham se queixando da falta de papéis de qualidade para a faixa-etária, dobraram o tempo, Hollywood, as estatísticas e deitaram e  rolaram no cinema em 2013.