quinta-feira, 13 de março de 2014

Espaço Claquete - True Detective

A HBO vinha ficando para trás em matéria de originalidade e vanguarda na tv americana. Depois de reinventar, ou talvez seja melhor tirar o prefixo “re”, o conceito de dramaturgia na tv com "The Sopranos", a poderosa empresa vinha perdendo para redes mais novas como AMC – com "Breaking bad", "Mad men" e "The Walking Dead" , Showtime – "Dexter", "Weeds", "Californication" e tantas outras – e até Netflix – com "House of Cards". Eis que depois de igualar o jogo com boas produções como "Girls" e "Game of Thrones', a HBO volta a dominar um território em que reinou soberana por muito tempo com "True Detective".
A antologia, formato de série popularizado recentemente por "American Horror Story", revoluciona mais uma vez a linguagem televisiva no que pode ser sintetizado como “a melhor resposta a Breaking bad” feita por um programa de tv. "True Detective" é o flerte mais bem ensaiado entre literatura e tv. Chega a ser quase uma apropriação. Não só pelo ritmo e ambientação da narrativa, como pelos próprios interesses dramatúrgicos a moverem a trama. A investigação sobre um serial killer não é mais importante do que as inclinações morais e emocionais dos personagens principais ou da fixação da Louisiana, Estado em que a trama se desenvolve, como um personagem central e ativo na narrativa.
Escrita por Nic Pizzolatto, roteirista de poucos créditos, e dirigida em seus oito episódios por Cary Fukunaga – uma ousadia para a tv moderna – "True Detective" se destaca pela rigidez estética (ressaltada pela música coordenada com destreza mediúnica por T Bone Burnett), pela fotografia irresoluta de Adam Arkapaw e pelo forte viés filosófico a respaldar os episódios. Agregando estrutura de thriller à lógica de conto de fadas, o primeiro ano da série se deixa contaminar pela aura da Luisiana, o estado americano que mais aceita o fantástico. Werner Herzog já havia trabalhado bem este conceito no remake de Vício frenético (2009). Aqui, no entanto, Pizzolato vai além. O aspecto interiorano, o ar de decadência e o forte apelo religioso da região pairam sobre "True Detective" de modo a recrudescer tanto o principal mote da trama, como as angústias dos personagens.
Personagens, saliente-se, viscerais em suas imperfeições. Matthew McConaughey consegue a proeza de ser sutil em uma caracterização que por vezes parece um tanto over. Mas é só impressão. O ator arrebata na pele de Rust Cohle, detetive melancólico, pessimista, introspectivo e arredio que precisa se ajustar a seu parceiro no mesmo compasso que seu parceiro precisa se ajustar a ele.  Marty Hart, o parceiro em questão, é vivido com a habitual excelência por Woody Harrelson. Não é um personagem fácil, certamente menos chamativo do que Cohle, e Harrelson o humaniza de maneira notável.
"True Detective" rejeita o convencional com todas as suas forças. Não há desenho narrativo mais bem adornado na tv atualmente. Pizzolatto soube distanciar-se dos arquétipos disponíveis e bancou uma produção autoral, viva e com propriedades narrativas absolutas e reconhecíveis. É algo mais forte do que o que se vê no cinema, na tv e mesmo na literatura policial. É algo novo, genuíno e profundamente instigante. É bom, é cru, é inteligente. É, também, um problema. Pois com o segundo ano confirmado (história, personagens e atores serão diferentes) estabelece-se o imperativo de, ao menos, manter-se o nível. Não será uma missão fácil e a Luisiana, com seus furacões, crendices e torpor, podem ganhar ainda mais relevância em uma revisão histórica.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Crítica - Clube de Compras Dallas


If I gonna die, I wanna die with my boots on...



A opção pelo título em inglês não é um capricho, mas a preservação da natureza de uma expressão que traduzida perderia o impacto. Ron Woodroof (Matthew McConaughey) é um caubói e na singeleza de sua vida de macho texano, a expressão em questão diz muito sobre a essência do personagem, mas também sobre a essência de Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club, EUA 2013), para todos os efeitos a grande surpresa da edição 2014 do Oscar com suas seis indicações (filme, roteiro original, ator para Matthew McConaughey, ator coadjuvante para Jared Leto, montagem e maquiagem).
O filme do diretor Jean-Marc Vallée é sobre a gana de viver. Durante muito tempo, o roteiro de Clube de Compras Dallas, inegavelmente um dos trunfos do filme, esteve incluso na famigerada blacklist de Hollywood, como é conhecida a lista de “projetos malditos”. Um tema complexo, controverso ou um texto caro, infilmável valem passaporte à democrática blacklist e Clube de Compras Dallas demonstra com sua narrativa apaixonada, catártica e passional que é um filme de paixão; um filme que brigou tanto por sua vida como o personagem ao qual joga luz.
Essa é uma das belezas do filme que abre esplendidamente com Ron fazendo sexo com duas mulheres, aparentando saúde fragilizada e fitando um caubói tentando manter-se montado em um touro. A apresentação do personagem é o casamento perfeito entre um texto ciente de seus objetivos e um intérprete disposto a atendê-los.
Ron se descobre aidético e o filme opta por se ocupar menos de sua raiva e mais de sua força de viver. Bronco e preconceituoso, Ron se descobre engajado em fornecer drogas não aprovadas pelo governo americano, mas satisfatoriamente manipuladas em outros países para pacientes com o vírus HIV. A cruzada de Ron ganha simpatia porque ele não precisaria fazer aquilo e apenas McConaughey, dominando um personagem tão abstrato em suas motivações, oferta a humanidade que muitos desconfiam já não existir em nosso mundo.
É aí, nesse contexto, que muitos veem uma crítica feroz à indústria farmacêutica e o conluio desta com as autoridades públicas na aprovação de remédios. A crítica está lá, mas em momento algum ela recebe a primazia da dramaturgia. Ron Woodroof está no comando do show e ele é um personagem que reúne todas as condições de comandar a narrativa. Há uma cena em que fica claro que apesar de estar fazendo o bem, o personagem é moralmente desviado. Quando uma mulher que lhe atrai busca associação no clube que ele montou para distribuir os remédios que trazia de outros países, ele faz sexo com ela em uma clara sugestão da realização de que houve uma concessão da parte dele que ele não fez, por exemplo, a um rapaz que só tinha U$ 50 e não os U$ 400 necessários para ingressar no clube.
Esse despudor em apresentar um personagem em toda a sua verdade e focar em uma história humanisticamente irrepreensível, configura Clube de compras Dallas em um filme poderoso. Muito em parte pelo trabalho de McConaughey que vai muito além da perda assustadora de peso. Dosando a emoção da caracterização com precisão de equilibrista, o ator encontra em Jared Leto uma bússola. Interessante ver como os dois atores se mostram generosos em cena.

Clube de compras Dallas é um filme que se justifica plenamente em sua cena final. Aqueles com gana de viver, vivem. 

segunda-feira, 10 de março de 2014

Crítica: Inside LLewyn Davis – balada de um homem comum


Não se vê nenhum dinheiro aí...

Em um certo momento de Inside Llewyn Davis – balada de um homem comum (Inside Llewyn Davis, EUA 2013), o empresário musical vivido por F. Murray Abraham diz para Llewyn Davis, um homem que tenta aos trancos e barrancos vingar como músico, que não vê nenhum dinheiro nele. De forma dura e até mesmo cruel, o tipo avisa o procrastinado Davis que ele não tem o carisma e a simpatia de um cantor solo. Que ele deveria voltar a fazer dupla com seu antigo parceiro.  O que o homem ignora, é que o antigo parceiro de Davis se jogou da ponte George Washington. As pessoas costumam se jogar da ponte do Brooklin, lhe desautoriza outro personagem, vivido com rabugice por John Goodman. Esses dois recortes entregam: estamos em um território que os Coen conhecem bem. Dos losers. Dos expelidos do sonho americano.
Os Coen se aferram a um fiapo de trama, um homem que quer vingar na música no Greenwich Village de 1961, quando a cena folk emergia com toda a sua força em Nova Iorque, e que por razões diversas fracassa ruidosamente. Flagrando seu protagonista o tempo todo, os Coen fazem um tour de force de direção, uma raridade na cinematografia atual de fluxo constante e narrativa congestionada, exaurindo uma ideia remota em um filme muito rico sobre um zé-ninguém.
O caráter cíclico das andanças para lugar nenhum de Davis é muito bem salientada no final do filme quando a audiência se convence de que nenhuma catarse virá. Que Llewyn Davis continuará sendo o derrotado que sempre foi. Mas por quê? A pergunta é menos capciosa do que aparenta ser. Davis é um tipo autodestrutivo. A toda chance que tem de prosperar ele se sabota, ainda que inconscientemente. Engravida a mulher do amigo que lhe estende a mão, abre mão dos royalties de uma música apenas para ser pago na hora e comete outras displicências no curso do filme. O que os Coen sugerem muito sutilmente, e todo o filme é construído sobre sutilezas, é de que Llewyn Davis não dá certo na vida porque de alguma maneira quer dar errado. Há certa graça na sarjeta e como a canção que abre o filme e anuncia o seu fim, a forca não é raiz das preocupações de Davis, mas sim padecer eternamente no cemitério (um trabalho fixo, uma vida regrada?).

Oscar Isaac como Llewyn Davis: um ator que aceita o desafio de se expressar nas miudezas...

Interpretações à parte, Inside Llewyn Davis não é um dos highlights dos Coen, ainda que seja um filme digníssimo. É muito fácil entender sua ausência no Oscar. Um protagonista antipático, maravilhosamente adensado por Isaac, ator de fino trato e em franca ascensão, uma história que não chega a lugar algum e que apresenta uma moral que os próprios Coen já ofereceram com muito mais adrenalina em filmes como Um homem sério (2009) e O homem que não estava lá (2000).
É um filme, enfim, para a cinefilia e para aqueles que admiram a filmografia dos cineastas. Fora desse círculo, é um filme tacanho e sem grandes aspirações, tal qual seu protagonista. Como um bom folk, o novo filme dos Coen não é para todos os gostos. 

domingo, 9 de março de 2014

Em Off

Nesta edição da seção Em Off, o clube de Leonardo DiCaprio; a primeira imagem de Robert Pattinson e Dane DeHaan em um filme que promete ser cult; Jimi Hendrix vive em novo projeto do roteirista de 12 anos de escravidão; o ponto final no especial Oscar Watch, o possível próximo projeto de Steven Spielberg e um revival do outro lado de Matthew McConaughey.


Em muitíssima boa companhia
Leonardo DiCaprio já tem bem consolidada a fama de injustiçado pela Academia. A injustiça no que lhe tange concerna mais às esnobadas em anos que merecia ser indicado do que o fato de ser derrotado nos anos em que disputou a estatueta. De qualquer modo, por O lobo de Wall Street, DiCaprio colecionou sua quarta derrota no Oscar. Ele está na companhia distintíssima de figuras como Peter o´Toole, com oito indicações e nenhuma vitória, Amy Adams,  cinco indicações, Julianne Moore, que tem quatro nomeações e muitas esnobadas, Glenn Close, seis indicações e Richard Burton, sete indicações.

Filme de Grife
O aguardado Life, sobre a relação entre o fotógrafo Dennis Stock (Robert Pattinson) e James Dean (Dane DeHaan) teve sua primeira imagem divulgada pela revista Entertainment Weekly. A trama acompanha a rotina e a relação entre o fotógrafo destacado pela revista Life para fotografar Dean e o astro de Assim caminha a humanidade. O filme, dirigido pelo ótimo Anton Corbijn (Um homem misterioso e Control) está prometido para 2015 e desde já é forte candidato à galeria de obras cults do ano.


Algumas das fotos de Dean feitas por Stock para a revista Life



Primeiro teaser da cinebio de Jimi Hendrix
O rapper e ator ocasional Andre Benjamin, também conhecido como Andre 3000, é o protagonista do filme que mostra a descoberta de Hendrix em uma boate nova-iorquina em meados dos anos 60. O roteiro e a direção de All by my side são assinados por John Ridley, responsável pelo oscarizado roteiro de 12 anos de escravidão.




Steven Spielberg goes musical
Spielberg anda indeciso sobre qual será seu próximo filme. Depois de iniciar a pré-produção de Robopocalypse para logo depois adiar indefinidamente a produção e transferir a direção de American Sniper para Clint Eastwood, ele sinalizou, de acordo com reportes do Deadline, interesse em dirigir um remake de Amor sublime amor, produção de 1960 baseada em Shakespeare e vencedora de 10 Oscars. O entrave é que os direitos do filme pertencem a Fox, estúdio com o qual Spielberg até hoje não trabalhou. Negociações estão em curso.

A cobertura do Oscar
Não foi a cobertura que Claquete está acostumada a apresentar. Fatores externos impediram que o planejado fosse executado sem concessões. De qualquer forma, foram 50 posts entre dezembro e a última quinta-feira (6) provendo ao leitor do blog, com o especial Oscar Watch 2014, uma das melhores, mais embasadas e contextualizadas coberturas da temporada de premiações. Na fanpage do blog, também houve movimentação nesse sentido. A Oscar season acabou, mas em 2015 tem mais.

Você vai sentir saudades?
Matthew McConaughey é outro homem. Ator oscarizado e com uma invejável lista de grandes atuações e ótimos personagens nos últimos quatro anos, mas há um descamisado passado de comédias românticas no passado de McConaughey. Claquete separou as três melhores:

Minhas adoráveis ex-namoradas (2009)

Como um fotógrafo de celebridades bom vivant, McConaughey protagoniza essa atualização curiosa de os fantasmas do natais passados em que seus relacionamentos fracassados voltam para lhe assombrar. Michael Douglas rouba a cena como o impagável tio Wayne que só dá maus conselhos para o sobrinho egocêntrico.

Armações do amor (2006)

Aqui, o ator faz um homem bem sucedido que se recusa a sair da casa dos pais, eles então contratam os serviços de uma mulher especializada em conquistar homens neste tipo de situação. O filme é divertido e traz Bradley Cooper  Justin Bartha como amigos de McConaughey antes de voarem solo em Se beber, não case (2009).

Como perder um homem em dez dias (2003)

No filme, McConaughey faz um publicitário que para fechar uma conta aposta que consegue manter o interesse de uma garota nele por dez dias, mas ele não sabe que a garota em questão (Kate Hudson) está escrevendo uma matéria para uma revista feminina sobre como perder um homem em dez dias. Com premissa simples, mas bem elaborada, essa comédia é um dos grandes sucessos da carreira do ator e uma das melhores comédias românticas da década passada.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Oscar Watch 2014 - Crítica da 86ª edição do Oscar



Tão logo foi divulgada a lista dos indicados ao Oscar 2014, Claquete veiculou um texto, denominado “Primeiras impressões sobre os indicados a 86ª edição do Oscar”. Naquele texto o blog saudava o espírito renovado, consciente e coerente que emanava da lista dos indicados ao Oscar. Não foi a primeira vez que isso aconteceu, especialmente depois da Academia ter reajustado o calendário de premiações, antecipando o anúncio dos indicados ao Oscar.
Não foi a primeira vez, também, que essa boa primeira impressão é empurrada pelo ralo. Há chavões a mil para se explicar o que aconteceu no último domingo (2), quando 12 anos de escravidão foi consagrado o melhor filme de 2013, levando outros dois Oscars na bagagem (roteiro adaptado e atriz coadjuvante) e viu Gravidade ostentar um frisson acima do imaginado angariando sete das dez estatuetas a qual foi nomeado.
“Os velhinhos da Academia são tradicionais”; “houve a opção pelo filme importante”; “o tom político sempre prevalece”; “ o marketing em cima do filme de McQueen era irresistível”; “eles vão resistir até limite à premiar um filme em 3D” e coisas do tipo. A Academia não é mais constituída amplamente por velhinhos e não é de hoje que se imbui da responsabilidade de premiar filmes importantes, mas sempre o fez com convicção. O que se viu no último domingo, foi o resultado de uma corrida marcada pela hesitação. 12 anos de escravidão é um candidato clássico, acadêmico e que em outros anos teria vencido muitos Oscars, se nos fiarmos no crédito dos chavões. Mas a Academia de hoje, fragmentada e em franco processo de renovação, rejeita a ideia de se render ao academicismo. Por que, então, 12 anos de escravidão prevaleceu sobre Gravidade? Porque velhos hábitos demoram a morrer e isso pode ser visto tanto na vitória hesitante de 12 anos de escravidão, algo que, justiça seja feita, pautou a temporada (o filme parecia vencer por cota, já que triunfava apenas na categoria principal e no prêmio do sindicato dos produtores forçou um inédito empate com Gravidade), e que ocorreu no ano passado quando Argo, de filme aparentemente fora da disputa pelo Oscar principal, tornou-se uma unanimidade ímpar. Mas anêmica. Faturou três Oscars. Filme, roteiro adaptado e montagem. Ainda assim, foi uma vitória mais consistente do que a de 12 anos de escravidão.
Destemperos à parte, os acadêmicos se esforçaram para reconhecer a grandeza dos filmes e artistas que fizeram a temporada de ouro do cinema. Não há que se questionar a qualidade ou merecimento dos filmes e trabalhos premiados.
A ausência de surpresas, no entanto, é um problema crônico. Não se pretende a surpresa pelo choque, pelo inusitado, mas como unidade de um pensamento próprio. Gravidade não era o melhor filme do ano, mas ficou bem claro que cativou a academia. Mais do que 12 anos de escravidão, contra o qual concorria na maioria das categorias. Premiar essa ficção científica de inestimável esmero técnico e rodada em 3D configuraria, portanto, surpresa – se considerarmos o retrospecto da Academia e da temporada em questão – mas, principalmente, apresentaria um pensamento próprio, completo, definido. Não como o que se apresentou ao mundo no dia 2. Mas nem tudo é má notícia. A mudança, sinalizam as indicações cada vez mais “fora da caixa” está a caminho. Mesmo assim, com a oportunidade de se premiar documentários instigantes, provocativos e importantes, a academia opta pelo simples e inofensivo A um passo do estrelato. É o mesmo raciocínio tacanho que fez de 12 anos de escravidão e Argo vencedores do Oscar.

Os atores do ano: méritos inquestionáveis....

Quem quer ser um milionário?, vencedor do Oscar em 2009, é muito mais fraco do que Argo ou 12 anos de escravidão. Nem sequer mereceria indicação, mas foi consagrado com oito prêmios. Ali a Academia se pronunciou com convicção. Nos últimos dois anos, espantada com os rumos da temporada de premiações, se conformou com o fato de agir à reboque. Não via em Argo um genuíno Oscar contender, tanto que Ben Affleck ficou de fora da disputa dos diretores, e deu o Oscar ao filme como reparação de uma posição que era legítima. Neste ano, passou recibo de que premiou um filme porque ele é importante e não por ser o melhor. É o segundo ano consecutivo em que direção e filme vão para produções distintas. É o segundo ano seguido em que o vencedor do Oscar de melhor filme não é o campeão de Oscars do ano. Não é mera coincidência.

Al right, al right, al right
Matthew McConaughey é o cara. O jornalista Pablo Miyazawa tuitou na esteira da cerimônia do Oscar que “Matthew McConaughey é o novo Paul Newman”. À parte o fato de ter ganho um Oscar logo em sua primeira indicação, Newman padeceu em setenomeações até sua delongada vitória, a comparação procede. A reinvenção de McConaughey já ocupa espaço em Claquete há algum tempo e impressiona a cada novo trabalho. Sua vitória por Clube de Compras Dallas é incontestável, ainda que todos os concorrentes da categoria merecessem o prêmio. Já seu parceiro de cena, Jared Leto, ainda que esteja ótimo na pele do travesti Ranyon, está um pouco abaixo do padrão desejado para uma performance vencedora do Oscar. Havia concorrentes melhores na categoria, mas não é uma vitória indigna. Como não o são as vitórias de Lupita Nyong´o entre as coadjuvantes, de A grande beleza entre os filmes estrangeiros e a soberania de Gravidade nas categorias técnicas.
A vitória de Cate Blanchett merece um parágrafo só para ela. Nova integrante do clube de intérpretes com dois Oscars na estante, Blanchett é a única unanimidade com vocação de unanimidade em um Oscar que tinha tudo para ser inesquecível e optou por não deixar saudades. 


terça-feira, 4 de março de 2014

Oscar Watch 2014 - Momento Claquete #40

Ladies and gentlemen, the Oscars...

Benedict Cumberbatch "estraga" a foto de Bono e seu U2 no tapete vermelho 

Amy Adams e Bill Murray se reunem para apresentar um Oscar, mas parecem imersos em quadro expressionista... 

Cate Blanchett ao ouvir seu nome como melhor atriz do ano pelo trabalho em Blue Jasmine; ela não esperava... 

That you´ll go Mr. President: Daniel Day Lewis retoca a maquiagem antes de chamar Cate Blanchett para o palco...

Brad Pitt no conchavo para Steve McQueen no backstage: I served pizza tonight, you´re winning...

1001 maneiras de agradar a sua mulher: Jason Sudeikis "paparazza" a belíssima e gravidíssima Olivia Wilde  

Jared Leto, mais feliz do que pinto no lixo, prepara o bote para cima de Anne Hathaway: she won´t see it coming... 

Jennifer Lawrence em mais uma demonstração de puro carisma: Give it to me... 

Christian Bale para Jeremy Renner: you haven´t been nominated and I have no fucking clue of why you are here keeping up whit this selfie shit...

Matthew McCnonaughey aponta para DiCaprio e pensa: you´re the man, but I made you the man...

Alfonso Cuarón, o Mr. simpatia: aquela canção do Pharrell é para mim... 

Lupita não vai deixar o "naughty boy" Jared Leto sair impunemente... 

Joseph Gordon-Levitt finaliza nosso Momento Claquete: that´s all for now, folks

segunda-feira, 3 de março de 2014

Oscar Watch 2014 - Identidade perdida



Aconteceu o que se temia. Pelo quarto ano seguido, a academia depõe contra a própria etimologia e desalinha um serviço tão bem feito no rol dos indicados ao prêmio, estabelecendo vencedores menos calcados no mérito, ou mesmo na percepção da organização enquanto colegiado, e mais na base do marketing e do hype. 12 anos de escravidão, há algumas semanas se anunciou, será incluso na grade curricular das escolas básicas americanas. Houve expressa campanha a destacar o quão importante o filme dirigido por Steve McQueen era e, ainda que a corrida pelo Oscar sinalizasse que ele não ostentava tanta força ante outros indicados – visivelmente mais apreciados – o prêmio de melhor filme era outorgado ao filme em premiações como Bafta, Globo de Ouro, Critic´s Choice e Producers Guild Awards (neste último teve um inédito empate entre os filmes vencedores, justamente com Gravidade) .
Ellen De Generes, host pouca inspirada dessa 86ªedição do Oscar, foi feliz ao registrar o dilema. “Temos dois cenários: ou 12 anos de escravidão ganha, ou vocês são todos racistas”. O filme de McQueen ganhou. Venceu em três categorias, filme, roteiro adaptado e atriz coadjuvante e viu Gravidade com um frisson maior do que esperado, converter em vitória sete de suas dez indicações (direção, montagem, som, edição de som, trilha sonora, efeitos especiais e fotografia).
O ímpeto dos prêmios a Gravidade, amplamente superior tecnicamente a seus concorrentes, revela que era o filme de Cuarón o candidato do coração da Academia, mas como a personagem de Meryl Streep em As pontes de Madison, a Academia fez “a escolha que deveria fazer” e premiou como melhor filme do ano, aquele que acabou por vencer em três categorias com muito pouca convicção. O entusiasmo com Gravidade era tanto que ele venceu em categorias que não foi vencedor nos prêmios dos sindicatos (montagem e edição de som), algo que não se replicou em nenhuma outra categoria do Oscar.
O descenso da coerência na distribuição dos prêmios atinge novo e preocupante patamar em 2014. Depois de premiar uma produção como melhor em filme em 2013 e não dissipar a ideia de que somente o fez para reparar a exclusão de seu diretor dos finalistas entre os diretores, a Academia conseguiu a proeza de transformar o Oscar que se anunciava mais imprevisível em anos, no mais previsível e, sim, entediante da década.
Não se discute os méritos de 12 anos de escravidão ou Gravidade, mas sim o mérito das escolhas que sombreiam o virtuosismo da História e nebulam o futuro da Academia.  Mais repercussão sobre o Oscar, em geral, e sobre essa agravada vicissitude em particular, nos próximos dias em Claquete.

domingo, 2 de março de 2014

Oscar Watch 2014 - crítica dos indicado à 86ª edição do Oscar




Boa notícia. Trata-se da melhor safra do Oscar desde que a Academia expandiu o quadro da categoria de concorrentes a melhor filme, em 2010. É, também, a melhor safra de indicados a melhor filme desde 2008, quando concorriam Onde os fracos não têm vez, Sangue negro, Conduta de risco, Juno e Desejo e reparação.
Os recordistas de indicação do ano, Gravidade, Trapaça e 12 anos de escravidão rivalizam em equidade raríssima. Se Gravidade conta com o peso de ser um blockbuster de bilheteria superior a R$ 600 milhões e o consenso de que se trata, afinal, de um bom filme, 12 anos de escravidão tem o lobby de “de filme importante” e Trapaça conta com o apoio incondicional dos atores. Esses dois últimos filmes, no entanto, alimentam resistência e é aí que Gravidade pode tirar vantagem. 12 anos de escravidão é acusado de ser oportunista e demasiadamente violento enquanto que Trapaça é tido por uma quantidade nada desprezível de pessoas como uma cópia do cinema de Martin Scorsese.
Por falar em Martin Scorsese, é dele o melhor filme do ano. O lobo de Wall Street merecia ganhar tudo e mais um pouco no Oscar 2014, mas não deve ganhar nada – ressalva feita às parcas chances de DiCaprio ser finalmente agraciado com o Oscar (é o melhor entre os atores também). O lobo de Wall Street é o único filme que adentrará o rol dos clássicos e será lembrado no futuro por seu significado e relevância (estética, narrativa e temporal), mas a Academia, como colegiado, não consegue perceber isto.

Leonardo DiCaprio endiabradamente bom em O lobo de Wall Street, o filme mais reflexivo, devastador e provocador da temporada...

...e Spike Jonze orienta Joaquin Phoenix nos bastidores de Ela: por razões diversas, mas que se complementam, Ela e O lobo de Wall Street são os melhores filmes da temporada e é no mínimo frustrante a possibilidade de que saiam do Oscar sem prêmio algum


A categoria principal, de qualquer maneira, ostenta qualidade acima de qualquer suspeita e nenhum filme nela relacionado é indigno de ali figurar. Nebraska, Ela, Philomena e Clube de Compras Dallas, filmes menores e que dificilmente chegariam ao Oscar quando este tinha apenas cinco indicados, são produções que oxigenam o fazer cinematográfico e irrigam o Oscar enquanto instituição. Mas não é possível premiar todos esses filmes. O que não implica dizer que não estamos diante de um ano em que os prêmios serão pulverizados. Gravidade deve liderar à disputa, mas não deve superar cinco Oscars.
Se a contenda por melhor filme parece confinada à Gravidade, Trapaça e 12 anos de escravidão, a disputa por direção deixou escanteada o diretor de Trapaça, Russell parece reunir mais chances na disputa por roteiro original, em que Spike Jonze é favorito por Ela, do que aqui. Fazer história parecer ser o lema do ano na categoria. Resta saber quem virá primeiro: os latino-americanos (o mexicano Alfonso Cuarón) ou os negros (o inglês Steve McQueen)?

Arte: Cinemanews

Atuações
Todos os atores mereciam o Oscar, mas ele fica entre McConaughey por Clube de Compras Dallas e Leonardo DiCaprio. O primeiro vive fase prolífera e renovadora, enquanto o segundo alcança o melhor desempenho de uma carreira maravilhosa e negligenciada pela academia. São dois casos muito acintosos que justificam a polarização, ainda que eles apresentem os melhores desempenhos do ano.
A briga pelo Oscar de ator coadjuvante parece mais definida. Jared Leto, por Clube de Compras Dallas, está ótimo. No entanto, é o mais fraco da categoria. Deve vencer pelo hype e pelo fato de contar com o personagem mais simpático entre os nomeados.
Cate Blanchett, por Blue Jasmine, apresenta a melhor atuação da década até aqui. É muito difícil que perca o Oscar, mas se isso acontecer, só será justificável, e mesmo possível, se a vencedora for Amy Adams por Trapaça, outro colosso de mulher e atriz.
Jennifer Lawrence, possuída de talento e graça, é a melhor atriz coadjuvante do ano e lança um abacaxi para a Academia ainda às voltas com máximas conservadoras: é válido dar a uma atriz de 23 anos seu segundo Oscar e em anos consecutivos? A resposta pode ser Lupita Nyng´o, eficiente em 12 anos de escravidão, mas longe de fazer limonada com laranja como faz Lawrence.
A grande Beleza e A caça são os front runners para filme estrangeiro, com leve vantagem para o primeiro.
Nas categorias técnicas, se a lei da física não for desafiada, Gravidade dominará com 12 anos de escravidão, Capitão Phillips e Trapaça beliscando aqui e lá.
Resta-nos torcer para que, mais do que nos surpreender, o Oscar não renuncie à coerência como tem feito de quando em quando, como em 2013, ao eleger como melhor filme do ano uma fita que não tinha um dos cinco melhores diretores da temporada.  

Claquete selecionou infográficos bacanas que celebram o momento supremo da cinefilia


Números e curiosidades do Oscar ao longo dos anos (em inglês)
 Arte: ABCNews


Os vestidos das atrizes vencedoras do Oscar nos 85 anos do prêmio
 Arte: Cosmopoiltan (sugestão da leitora Aline Viana)


Woody Allen, o Midas as indicações por atuações
Arte: cinema é tudo isso

sábado, 1 de março de 2014

Oscar Watch 2014 - A peleja dos diretores

Ao mestre com carinho

Trapaça não é uma cópia do cinema de Martin Scorsese, mas cristaliza um tributo dos mais respeitáveis a esse mestre da sétima arte. Quis o destino que David O. Russell, diretor de recursos e talentos nada desprezíveis, enfrentasse Scorsese neste Oscar.  Excepcional diretor de atores, Russell tem a seu favor a simpatia crescente que amealha nos bastidores de Hollywood. Aos poucos vai se transformando em uma brand tão atraente e charmosa quanto o próprio Scorsese.

Prós:
- É diretor de atores celebrado e são justamente os atores que constituem o maior colegiado da academia
-É a terceira indicação em quatro anos. Russell não está sendo nada discreto na busca pelo Oscar
- Seu filme é entretenimento de altíssima qualidade e é também seu projeto mais ambicioso
- Conseguiu emplacar indicações por duas comédias em dois anos seguidos. Como não premiar esse cara?

Contras:
- Ao concorrer com um filme que lembra Scorsese em um ano que o próprio concorre não é exatamente o ideal
-Não ganhou nenhum prêmio na temporada e é improvável que vença justamente o Oscar
-Existe muita resistência a seu nome ainda em Hollywood

Quinta indicação
Indicações anteriores
Direção por O vencedor em 2011
Roteiro adaptado por O lado bom da vida em 2013
Direção por O lado bom da vida em 2013
Roteiro original por Trapaça em 2014


Sem concessões

Steve McQueen é homônimo de um dos maiores astros de cinema de todos os tempos. Mas o cinema, para ele, é uma extensão das experimentações artísticas que praticava nas artes plásticas. Artista inquieto, McQueen chega ao Oscar com seu terceiro filme, mas já merecia desde o primeiro, mantendo-se fiel à essência das artes plásticas. Seus filmes se respaldam na absoluta busca pela verdade. Não à toa, 12 anos de escravidão já está sendo chamado por aí de “o filme definitivo sobre escravidão”.

Prós:
- Defende o filme que para muitos analistas vencerá o Oscar de melhor filme. Se a Academia optar por ser tradicional e decidir não dividir o prêmio de direção, seu nome ganha força na disputa
- A tentação de fazer história premiando o primeiro negro na categoria
- É um filme de diretor, em que a mão do realizador se acentua no curso da narrativa
- Diretores em primeira indicação costumam superar diretores que já ostentam múltiplas indicações
- Ganhou alguns prêmios da crítica

Contras:
- Seu filme perdeu força na corrida e isso pode pesar contra suas chances
-A pecha de que a indicação já é suficiente
- Não é o melhor trabalho de direção do ano

Primeira indicação

Desafiando a gravidade

Se tudo correr conforme o script que a temporada alinhou, Alfonso Cuarón será o primeiro latino americano premiado com o Oscar de direção. Diretor com atenção ímpar ao aspecto visual de um filme, ele chegou ao Oscar como favorito por uma ficção científica passada no espaço cujos principais méritos são técnicos e passou a perna em figuras queridas pela Academia como Scorsese, Payne e Russell. São indicadores de que Cuarón realmente pode ir ainda muito mais longe.

Prós:
- Ganhou todos os prêmios da temporada
- Seu filme passou a ser cotado como favorito na disputa principal em face de seu domínio entre os diretores em toda e qualquer premiação prévia ao Oscar
-Há muitos hispânicos nos EUA e não pense que a Academia, além de atenta a isso, não reflete esse fenômeno demográfico
- É talentosíssimo e muito querido pelos colegas
- Ganhou o prêmio do sindicato e apenas sete vezes nos últimos 40 anos, o vencedor do sindicato não triunfou no Oscar

Contras:
- O fato da academia ter premiado um diretor por um trabalho em 3D no ano passado pode atiçar a sina conservadora de alguns votantes
- Sua direção se concentra mais nos aspectos técnicos, pouco complexa para o status de um Oscar de melhor direção

Sexta indicação
Melhor roteiro original por E sua mãe também em 2003
Melhor edição por Filhos da esperança em 2007
Melhor roteiro adaptado por Filhos da Esperança em 2007
Melhor edição por Gravidade em 2014
Melhor filme por Gravidade em 2014

O cineasta do banal

Não se engane, não há nada de banal no cinema de Alexander Payne. Angariando sua terceira indicação ao Oscar de diretor em dez anos, justamente pelos três filmes que fez nestes dez anos, Payne concorre por Nebraska. Seu trabalho é menos vistoso na comparação com filmes que ostentam o pulso forte de seus diretores, mas a suavidade com que inflexiona personagens e paisagens justifica sua menção na categoria.

Prós:
- Não concorre pelo roteiro do filme, diferentemente de outras oportunidades, o que concentra suas chances aqui
- É muito querido pela Academia
- Foi a surpresa na lista
- É o representante do cinema independente

Contras:
- Foi a surpresa na lista
- Não ganhou nenhum prêmio na temporada
- A pecha de que a indicação já é reconhecimento suficiente
- Dirige um filme minimalista em um ano de filmes espetaculosos
- Não é o melhor trabalho de direção do ano

Sétima indicação
Roteiro adaptado por Eleição em 2000
Roteiro adaptado por Sideways-entre umas e outras em 2005
Direção por Sideways-entre umas e outras em 2005
Roteiro adaptado por Os descendentes em 2012
Direção por Os descendentes em 2012
Filme por Os descendentes em 2012
Duas vitórias
Roteiro adaptado por Sideways-entre umas e outras (2005)
Roteiro adaptado por Os descendentes (2012)


What else?

Quando você pensa que Martin Scorsese já encerrou sua contribuição para a antologia do cinema, ele oferta ao mundo o novo clássico O lobo de WallStreet, um trabalho vigoroso e que revela um Scorsese endiabrado e ainda muito eficiente em radiografar o mundo e o homem. É, sem qualquer dúvida, o melhor trabalho de direção do ano e um dos melhores da carreira do cineasta que há muito já é uma legenda viva não só do cinema, mas da arte em geral.

Prós:
- É o melhor trabalho de direção do ano
- Com indicações sucessivas nos últimos anos, Scorsese parece ter caído definitivamente nas graças da Academia
- Todo mundo sabe que Scorsese precisa de mais Oscars para a posteridade
- Ang Lee venceu o Oscar de direção ano passado sete anos depois de tê-lo vencido pela primeira vez. Em 2014, faz sete anos que Scorsese venceu por Os infiltrados. Pode ser uma coisa cabalística...

Contras:
- Não é comum na era moderna um diretor ganhar um segundo Oscar em tão pouco tempo
- Essa é uma categoria em que há a nítida preferência em premiar diretores menos experimentados
- Alfonso Cuarón tem um favoritismo muito dilatado
-A campanha de difamação do qual o filme foi vítima pode encontrar eco em muitos votantes

Décima segunda indicação
Direção por Touro indomável em 1981
Direção por A última tentação de Cristo em 1989
Roteiro adaptado por Os bons companheiros em 1991
Direção por Os bons companheiros em 1991
Roteiro adaptado por A época da inocência em 1994
Direção por Gangues de Nova Iorque em 2003
Direção por O aviador em 2005
Direção por Os infiltrados em 2007
Direção por A invenção de Hugo Cabret em 2012
Filme por A invenção de Hugo Cabret em 2012
Filme por O lobo de Wall Street em 2014
Vitória anterior: 
Direção por Os infiltrados (2007)