Soa pueril dizer que o 11 de setembro transformou o cinema americano. Ou que ainda os eventos daquele fatídico dia tenham promovido uma profunda modificação no olhar dessa arte tão global e abrangente para com o mundo a sua volta – ainda que em um recorte essencialmente americano.
Mas seria igualmente pobre afirmar que o cinema americano não reagiu com contundência criativa à maior tragédia proporcionada pelo homem em solo americano.
O primeiro vestígio do 11 de setembro no cinema americano foi o desejo de voltar a tragédia. Filmes como alguns dos listados no TOP 10 do mês, A última noite, de Spike Lee, A vida durante a guerra, de Todd Solondz e Lembranças, de Allen Coulter erguem seus dramas da sombra do 11 de setembro no convívio de personagens essencialmente amargurados.
Chicago, um musical colorido que tinha o cinismo e o show business como alvo, foi o primeiro vencedor do Oscar após os atentados, revelando como a indústria reagiria a eles. Hollywood, a princípio, focou nas comédias e nas fantasias. As franquias Harry Potter e O senhor dos anéis, que chegaram aos cinemas no mesmo ano dos atentados terroristas, foram o principal alicerce do cinema americano naquele período. O cinema americano, aos poucos, foi interiorizando os ataques terroristas. Fossem em filmes como Vôo United 93 ou em movimentos que sinalizavam busca pela tolerância e compreensão do outro (os Oscars de Crash e Quem quer ser um milionário? – ambas produções independentes que penaram para ver a luz do dia). Ambos os filmes, vicejados por clichês e soluções sentimentalistas, denotam essa intenção de capturar as contradições humanas mediante situações limites (pobreza, intolerância, violência) por uma ótica paternalista (moralista).
Cena de Os infiltrados, de Martin Scorsese: a paranóia e a violência ganharam destaque em filmes que assinalavam as contradições humanas
Em contrapartida, diretores como David Fincher, Christopher Nolan, Clint Eastwood e Martin Scorsese rodaram filmes sobre paranóia, desilusão, terrorismo e passagem do tempo. Nolan apresentou um filme de super herói que, além de prover uma desesperadora concepção do terrorismo (Batman – o cavaleiro das trevas), versa sobre a capacidade de se realizar sacrifícios e ter esperança no homem. Scorsese fez uma refilmagem de uma fita de ação oriental (Os infiltrados) e acrescentou desmedidos componentes de violência e paranóia em um pessimista retrato da condição humana. Depois fez um outro elaborado estudo sobre paranóia (Ilha do medo). David Fincher fez um notável filme sobre a passagem do tempo (O curioso caso de Benjamin Button) e sobre como o ser humano é trivial, opaco e redundante em escala universal .Terrence Malick , em A árvore da vida, resgata a discussão com muito menos vigor. Coube a Clint Eastwood a pecha de ser revisionista. Menina de ouro, Gran Torino, Invictus e Além da vida, separadamente, já possuem brilho. Juntos mostram a predisposição do cineasta de refletir um mundo marcado pela segregação e incompreensão. Gran Torino, em particular, é um libelo de tolerância.
Com os dez anos do 11 de setembro, a crônica cultural busca iluminar a representatividade dos atentados terroristas na produção de cinema nos EUA. Essa representatividade está vinculada à introspecção que pode ser notada no cinema independente e sua tentativa de capturar ruídos existenciais, um interesse perene desse tipo de produção acentuado pela vulnerabilidade pós-11 de setembro, ou no espetáculo hollywoodiano de filmes como Avatar e Harry Potter.
Clint Eastwood entrou em sua melhor fase como cineasta após os atentados terroristas de 2001: incompreensão, perdão, tolerância são algumas das palavras chaves dos filmes que tem feito de lá para cá...
O cinema americano ainda irá especular muito sobre o 11 de setembro. O distanciamento histórico talvez respalde a ousadia que ainda tateia em busca de abrigo. A recente morte de Osama Bin Laden abre mais um sem número de possibilidades.
O que de mais significativo ocorreu foi a busca pelo diálogo com o público. Se As torres gêmeas é uma homenagem a uma figura heróica como a dos bombeiros, Zona verde é o dedo em riste de Hollywood para a administração Bush. Nenhum desses filmes fez grande sucesso. O que ajuda a entender porque as produções bancadas pelos estúdios são tão espaçadas.
O cinema americano continuará cercando o 11 de setembro. Às vezes de forma mais sutil, outras de maneira indireta e outras tantas mais enfaticamente. Contudo, a grande “mudança” já aconteceu. E aconteceu na esteira dos próprios ataques. A capacidade de descortinar a tragédia como um campo de estudo sobre humanidades.
















