domingo, 11 de setembro de 2011

Questões cinematográficas - O cinema americano depois do 11 de setembro

Soa pueril dizer que o 11 de setembro transformou o cinema americano. Ou que ainda os eventos daquele fatídico dia tenham promovido uma profunda modificação no olhar dessa arte tão global e abrangente para com o mundo a sua volta – ainda que em um recorte essencialmente americano.
Mas seria igualmente pobre afirmar que o cinema americano não reagiu com contundência criativa à maior tragédia proporcionada pelo homem em solo americano.
O primeiro vestígio do 11 de setembro no cinema americano foi o desejo de voltar a tragédia. Filmes como alguns dos listados no TOP 10 do mês, A última noite, de Spike Lee, A vida durante a guerra, de Todd Solondz e Lembranças, de Allen Coulter erguem seus dramas da sombra do 11 de setembro no convívio de personagens essencialmente amargurados.
Chicago, um musical colorido que tinha o cinismo e o show business como alvo, foi o primeiro vencedor do Oscar após os atentados, revelando como a indústria reagiria a eles. Hollywood, a princípio, focou nas comédias e nas fantasias. As franquias Harry Potter e O senhor dos anéis, que chegaram aos cinemas no mesmo ano dos atentados terroristas, foram o principal alicerce do cinema americano naquele período.
O cinema americano, aos poucos, foi interiorizando os ataques terroristas. Fossem em filmes como Vôo United 93 ou em movimentos que sinalizavam busca pela tolerância e compreensão do outro (os Oscars de Crash e Quem quer ser um milionário? – ambas produções independentes que penaram para ver a luz do dia). Ambos os filmes, vicejados por clichês e soluções sentimentalistas, denotam essa intenção de capturar as contradições humanas mediante situações limites (pobreza, intolerância, violência) por uma ótica paternalista (moralista).

Cena de Os infiltrados, de Martin Scorsese: a paranóia e a violência ganharam destaque em filmes que assinalavam as contradições humanas


Em contrapartida, diretores como David Fincher, Christopher Nolan, Clint Eastwood e Martin Scorsese rodaram filmes sobre paranóia, desilusão, terrorismo e passagem do tempo. Nolan apresentou um filme de super herói que, além de prover uma desesperadora concepção do terrorismo (Batman – o cavaleiro das trevas), versa sobre a capacidade de se realizar sacrifícios e ter esperança no homem. Scorsese fez uma refilmagem de uma fita de ação oriental (Os infiltrados) e acrescentou desmedidos componentes de violência e paranóia em um pessimista retrato da condição humana. Depois fez um outro elaborado estudo sobre paranóia (Ilha do medo). David Fincher fez um notável filme sobre a passagem do tempo (O curioso caso de Benjamin Button) e sobre como o ser humano é trivial, opaco e redundante em escala universal .Terrence Malick , em A árvore da vida, resgata a discussão com muito menos vigor. Coube a Clint Eastwood a pecha de ser revisionista. Menina de ouro, Gran Torino, Invictus e Além da vida, separadamente, já possuem brilho. Juntos mostram a predisposição do cineasta de refletir um mundo marcado pela segregação e incompreensão. Gran Torino, em particular, é um libelo de tolerância.
Com os dez anos do 11 de setembro, a crônica cultural busca iluminar a representatividade dos atentados terroristas na produção de cinema nos EUA. Essa representatividade está vinculada à introspecção que pode ser notada no cinema independente e sua tentativa de capturar ruídos existenciais, um interesse perene desse tipo de produção acentuado pela vulnerabilidade pós-11 de setembro, ou no espetáculo hollywoodiano de filmes como Avatar e Harry Potter.

Clint Eastwood entrou em sua melhor fase como cineasta após os atentados terroristas de 2001: incompreensão, perdão, tolerância são algumas das palavras chaves dos filmes que tem feito de lá para cá...



O cinema americano ainda irá especular muito sobre o 11 de setembro. O distanciamento histórico talvez respalde a ousadia que ainda tateia em busca de abrigo. A recente morte de Osama Bin Laden abre mais um sem número de possibilidades.
O que de mais significativo ocorreu foi a busca pelo diálogo com o público. Se As torres gêmeas é uma homenagem a uma figura heróica como a dos bombeiros, Zona verde é o dedo em riste de Hollywood para a administração Bush. Nenhum desses filmes fez grande sucesso. O que ajuda a entender porque as produções bancadas pelos estúdios são tão espaçadas.
O cinema americano continuará cercando o 11 de setembro. Às vezes de forma mais sutil, outras de maneira indireta e outras tantas mais enfaticamente. Contudo, a grande “mudança” já aconteceu. E aconteceu na esteira dos próprios ataques. A capacidade de descortinar a tragédia como um campo de estudo sobre humanidades.

sábado, 10 de setembro de 2011

Cantinho do DVD

Rachel Weisz, depois do Oscar conquistado em 2005, decidiu que só faz filme com pedigree. Embora não admita a mudança de rumo formalmente, a atriz dá sinais claros disso. Disse não à terceira parte de A múmia e só participou de produções mais bem conceituadas – pelo menos no papel. Em 2011 estará em A casa dos sonhos, filme no qual conheceu o atual marido, Daniel Craig, em 360º, no qual reedita a parceria com o cineasta Fernando Meirelles, e em The deep blue sea, fita que começará a ser exibida neste mês nos festivais de Toronto e Londres. Em 2010, só lançou um filme – A informante – que é o destaque da seção Cantinho do DVD desta semana.





Crítica
Deus e o leitor sabem como Hollywood gosta de um filme denúncia. De posição liberal, a indústria do cinema já fez perolas desde Todos os homens do presidente (1976) a filmes mais polarizados como O jardineiro fiel (2005). A informante (The whistleblower, EUA 2011) divide com o filme de Fernando Meirelles o talento de Rachel Weisz. A atriz vive Kathryn Bolkovac, uma policial americana que integra as forças de paz da ONU no pós-guerra na Bósnia no final dos anos 90. A informante, pelo fato de ser inspirado em fatos reais, aguça o interesse da audiência ao acompanhar a experiência de Bolkovac na Bósnia. Imbuída de um sentimento de justiça muito forte (e a verbalização desse sentimento pela personagem pode incomodar o espectador em algum momento), a policial se pega presa em um emaranhado de interesses escusos que envolvem prostituição, violência e tráfico internacional de mulheres em uma teia de conspiração que envolve os mais graúdos departamentos da missão das Nações Unidas naquele país. Com poucos aliados e com um sistema trabalhando contra, Bolkovac tenta desalinhar um fluxo que fica mais assustador à medida que vamos percebendo o envolvimento político de figuras que deveriam ajudar na reconstrução do país e que, instados por imunidade diplomática, se encharcam na fossa de degradação de um país em meio ao caos étnico.
Narrativamente, A informante se vale de algumas elipses que pesam contra o interesse no filme. Não ajuda o fato de, a princípio, a diretora Larysa Kondracki querer chamar a atenção para os dramas pessoais de Bolkovac. Esse expediente é abandonado, sem cerimônias, lá pela metade do filme – quando A informante de fato engrena.
A fita conta ainda com um elenco convidativo. Monica Bellucci, Vanessa Redgrave e David Strathairn fazem pontas de luxo aferindo sofisticação à produção. Como filme denúncia, apesar do longo intervalo entre o lançamento da fita e os eventos por ela retratados, A informante funciona muito bem. Já como thriller de espionagem, carece de fôlego. Talvez nas mãos de um diretor mais experiente, ou com domínio irrestrito de linguagem – como os diretores Alan J. Pakula e Fernando Meirelles dos filmes citados na crítica, A informante alcançasse uma repercussão mais fiel à gravidade de seu conteúdo.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Em off

Nesta edição de Em off, comparações entre Star Wars e Os vingadores; duas produções que fazem os fãs do cinema de ação salivar pela chegada de 2012; por que John C. Reilly merece sua atenção; o Capitão América sem a bandeira e muito sério; a versatilidade de Wagner Moura estampada em revistas e as apostas do blog para os prêmios no 68º festival de Veneza.



O patinho feio da temporada
Já existem grandes expectativas acerca de três nomes para a disputa do Oscar de melhor ator. Há grande comoção para George Clooney (que está em The descendants e Tudo pelo poder), Michael Fassbender (A dangerous method e Shame) e Ryan Gosling (Drive e Tudo pelo poder), mas um outro ator com trabalhos sólidos pode roubar uma vaguinha dos três belos aí de cima.Trata-se de John C.Reilly. Ator competente, que transita com desenvoltura tanto pela comédia como pelo drama, Reilly está em We need to talk about Kevin, uma das maiores sensações do festival de Cannes desse ano, e em Carnage, a elogiada comédia dramática de Roman Polanski.
Reilly não é exatamente um novato em matéria de estrelar filmes oscarizáveis. Em 2002 esteve em As horas, Gangues de Nova Iorque e Chicago, acabou indicado ao prêmio de coadjuvante por este último.

 Tilda Swinton e John C.Reilly em cena do elogiado We need to talk about Kevin: expectativas de indicação ao Oscar para ambos...



Luke Skywalker e Han Solo
O diretor Joss Whedon, em recente entrevista à revista Total Film, disse que está bastante empolgado com as filmagens de Os vingadores. Whedon afirmou que a principal storyline do filme mais aguardado de 2012 se concentrará na figura do Capitão América, “afinal é Steve Rogers quem acabou de chegar neste mundo”, disse o diretor em alusão aos eventos mostrados no final do filme Capitão América: o primeiro vingador.
“Ele é o nosso Luke Skywalker”, explicou Whedon puxando uma analogia com o universo criado por George Lucas. “Ainda que mais sarado”, se divertiu Whedon. E se Rogers é o Luke Skywalker de Os vingadores, quem seria Han Solo? “Definitivamente Tony Stark”. Já deu para sentir o espírito do lançamento mais aguardado do verão americano de 2012.

O elenco de Os vingadores (Scarlett Jonhansson, Jeremy Renner, Tom Hiddleston, Chris Evans e Chris Hemsworth) em momento de descontração durante as filmagens
 
 
O cinema de ação em 2012
Além de Os vingadores, outro filme bastante aguardado em 2012 é a continuação de Os mercenários. A sequência do culto ao cinema brucutu deverá vir ainda mais bombada do que o filme original de 2010. Simon West, de filmes como Con air- a rota da fuga e Tomb Raider, irá dirigir.
O elenco, que não para de crescer, conta com Sylvester Stallone, Jason Stathan, Jet Li, Terry Crewes e Randy Couture. Além do retorno desses figurões, Bruce Willis e Arnold Schwarzenegger foram confirmados em participações maiores do que suas rápidas pontas no filme original. Chuck Norris e Jean Claude Van Damme – que havia recusado participar do primeiro filme – são as novidades no elenco.



O cinema de ação em 2012 II
Outro filme para se salivar é Tales from the gangster squad. Dirigido por Ruben Fleischer, de Zumbilândia e do ainda inédito por aqui 30 minutos ou menos, a fita acompanha a caçada a um poderoso traficante de drogas na costa oeste americana. O traficante será vivido por Sean Penn. Os policiais em seu encalço serão Ryan Gosling e Josh Brolin. E o elenco do filme ainda conta Nick Nolte, Emma Stone, Robert Patrick, Giovanni Ribisi e Anthony Mackie. As gravações começaram esta semana e a estréia está agendada para o outono americano do ano que vem.


Steve Rogers quer Oscar

Chris Evans é um bom ator. Mas muita gente não acha. O próprio Evans sabe disso. Depois de cativar como o Capitão América, personagem que em virtude da exposição e responsabilidade foi alvo de grande hesitação por parte do ator, Evans estréia nos próximos dias nos EUA Puncture. O filme foi uma das atrações mais elogiadas do festival de Sundance 2011. Na fita, Evans faz um advogado embrenhado em um caso complexo e que exigirá que ele vá até seus limites éticos e emocionais.
O ator sabe que o Oscar não virá agora, mas sabe também que a estatueta dourada começa a ser conquistada com respeito. O trailer de Puncute, ainda sem previsão de estréia no Brasil, o leitor confere abaixo.





As apostas para Veneza
Nessa quinta-feira foram exibidos mais dois filmes muitos aguardados no lido. Killer Joe, novo longa de William Friedkin, e Faust, do russo Alexander Sokurov. A dois dias da premiação, Claquete, um tanto no escuro, aponta suas apostas para os prêmios que serão outorgados pelo júri presidido por Darren Aronofsky no sábado (10).

Leão de ouro
A dangerous method
Possibilidade: O espião que sabia demais
Prêmio especial do júri
Carnage
Possibilidade: Killer Joe
Copa Volpi de melhor ator
Michael Fassbender (Shame)
Possibilidade: Gary Oldman (O espião que sabia demais)
Copa Volpi de melhor atriz
Kate Winslet (Carnage)
Possibilidade: Kyka Scodelario (O morro dos ventos uivantes)
Leão de prata de direção
Alexander Sorukov (Faust)
Possibilidade: Steve McQueen (Shame)
Melhor fotografia
O espião que sabia demais
Possibilidade: Un etté brulant
Melhor roteiro
Alpis
Possibilidade: Carnage


Toronto Começa!


A capa da edição desta semana da revista The Hollywood Reporter destaca um dos filmes mais aguardados da temporada, A dangerous method, que estará no evento canadense. Durante os próximos dias, Toronto será destaque também aqui em Claquete.



Seu nome é consenso
Wagner Moura é o que chega mais perto de unanimidade em matéria de cinema nacional. Em cartaz nos cinemas com O homem do futuro, Moura acrescenta mais um trabalho de relevo a sua filmografia. Vivendo um mesmo personagem com variações de personalidade, maturidade e experiência – em virtude dos lapsos temporais que a trama propõe - Moura novamente angaria elogios rasgados por sua atuação cheia de minúcias.
A caracterização em O homem do futuro é a segunda do tipo multifacetada que Moura apresenta em 2011. Vale lembrar que ele também recebeu ótimas críticas por Vips, filme que não recebeu tantas críticas elogiosas quanto seu protagonista.
“O desafio é o que me move”, disse o ator em entrevista a revista Rolling Stone na ocasião do lançamento de Tropa de elite 2. Aliás, Moura volta a estampar a capa de uma revista de prestígio. Às vésperas de aportar em Hollywood (está no elenco da ficção Ellysium), o ator abre o jogo para GQ brasileira sobre técnicas de atuação, ansiedade e outras coisinhas que certamente não incomodariam o capitão Nascimento.

Moura todo fofo na capa da Rolling Stone de outubro de 2010 e com aquele olhar agudo na capa da GQ de setembro de 2011

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Cenas de cinema

Pacino, o grande


O astro americano Al Pacino passou pelo festival de Veneza no último fim de semana para ser homenageado com “um prêmio cuja história eu não estou exatamente familiarizado”, argumentou o ator. Pacino também exibiu no festival italiano Wild Salome, sua nova incursão na direção. Um híbrido de documentário e making of sobre o texto de Oscar Wilde com referências shakespearianas. Pacino, que foi só sorrisos durante sua passagem por Veneza, admitiu ter tido dificuldades em delimitar os rumos do filme.
De qualquer maneira, a presença do ator foi muito festejada e badalada no lido. Ah! O prêmio que ele recebeu já foi outorgado a gente como Takeshi Kitano, Abbas Kiarostami e Sylvester Stallone pela contribuição a arte de fazer filmes.


Dando um tempo nas metáforas
Steven Soderbergh exibiu, fora de competição, Contágio. A ficção científica que conta com grande elenco (Matt Damon, Kate Winslet, Marion Cottilard e Gwyneth Paltrow) recebeu a pecha de “thriller eficiente”. No que o diretor respondeu que estava mesmo “dando um tempo nas metáforas para se divertir”. O que chamou mais atenção no lido foi a aparente indecisão do cineasta quanto a sua aposentadoria. Soderbergh vinha anunciando sua aposentadoria com alarde, mas muitos duvidavam de suas intenções. Antes de chegar em Veneza, o diretor havia concedido entrevista ao New York Times e dito que estava mesmo saturado da pressão de fazer filmes. A ideia era se expressar artisticamente através da pintura e que, se a grana apertasse, poderia retornar com outro filme do Ocean (da série Onze homens e um segredo).
Em Veneza, Soderbergh apresentou uma versão diferente. O cineasta disse que se trata, na verdade, de um período sabático. Fato é que, após lançar em 2011 Contágio e Haywire, o diretor já tem programado para ano que vem Magic Mike, sobre as desventuras do universo do strip masculino com Matthew McConaughey, Jéessica Biel e Channing Tatum. Baseado nas memórias deste último.



No shame at all
Existe um favorito disparado nos bolsões de apostas para levar a Copa Volpi de melhor ator do festival de Veneza 2011. Trata-se do alemão de ascendência irlandesa Michael Fassbender. Presente em dois dos grandes filmes do festival, A dangerous method e Shame, Fassbender vem colhendo elogios fervorosos por sua atuação neste último. Sua segunda colaboração com o diretor Steve McQueen. Em Shame, Fassbender vive um homem solitário com forte compulsão sexual. O ator admitiu que foi difícil rodar algumas cenas mais sensuais, mas disse que ficou feliz com “um filme que fala sobre dilemas essencialmente humanos”. McQueen, por sua vez, disse que agora que seu ator preferido está ficando mais famoso, sabe que irá ficar mais difícil para fazerem filmes juntos. “Não vai ser fácil fazer um filme sem ele!”


O ano dos britânicos
São três candidatos ingleses na disputa pelo leão de ouro. Só perde em quantidade para a produção americana. Mas os britânicos se equiparam em qualidade. Os três filmes ingleses exibidos até aqui acumularam elogios fervorosos. O grande destaque é Shame. Favorito de grande parte da crítica que dá como certo o prêmio de ator para Michael Fassbender. Mas O espião que sabia demais, adaptação classuda do autor John Le Carré, e O morro dos ventos uivantes – nova versão do livro que já foi levado às telas uma porção de vezes – mantiveram um bom nível que desperta burburinho de prêmios. É muito difícil que os três filmes saiam premiados. Se isso vier a acontecer, ficará configurado um feito inédito em Veneza com mais de dois filmes britânicos sendo premiados em uma mesma edição.

O diretor sueco Tomas Alfredson, o quarto da direira para a esquerda, posa com o elenco do filme O espião que sabia demais antes da premiere da fita na noite de segunda-feira (5) em Veneza


Sobre representação
Embora sem provocar o júbilo incensado pelos filmes exibidos nos três primeiros dias de festival, o grego Alpis causou boa impressão. O filme de Yorgos Lanthimos, que já venceu mostras paralelas em Cannes, por exemplo, chamou a atenção dos jornalistas presentes no lido por seu aspecto lúdico e original. A trama acompanha quatro personagens que formam um grupo especializado em substituir pessoas mortas para atenuar o luto da família. “Quis lançar um questionamento sobre representação”, explicou o diretor na coletiva de imprensa. Alpis, pela ousadia, é ventilado como um possível ganhador do prêmio de roteiro.

domingo, 4 de setembro de 2011

TOP 10 - dez diferentes abordagens do terrorismo após o 11 de setembro

O cinema americano, pode-se dizer, ainda não estourou sua cota do 11 de setembro. Ainda há muito a ser rememorado, analisado e aprofundado no cinema. Mas depois do maior atentado terrorista da história da humanidade, a pauta se estabeleceu não só na cinematografia daquele país como na de outros países também. Da Palestina à França, o interesse em refletir a conflagração e as consequências de tamanha hediondez insurgiu com propriedade e diversidade. A seção TOP 10 deste mês apresenta dez abordagens diferentes do terrorismo e seus compulsórios efeitos em filmes que foram produzidos a partir da queda das torres gêmeas.


10 – People - histórias de Nova Iorque, de Danny Leiner (People, 2005)
Esse pequeno filme independente foca em uma Nova Iorque ainda marcada e ressentida dos atentados terroristas de 2001. A ação se passa um ano após os aviões se chocarem com o World Trade Center. A trama do filme de Danny Leiner segue um punhado de personagens, de classes sociais e etnias distintas, tentando superar traumas pessoais com o vestígio dos atentados terroristas impregnado no clima da cidade.
É um trabalho interessante sobre como o ser humano é capaz de se desvencilhar de sombras, mas soa um tanto maniqueísta.


9 - Em busca de Osama Bin Laden, de Roger Goodman (EUA 2002)
Um documentário produzido quase que a toque de caixa por produtores associados à Discovery Network. Com figurões como a ex-secretária de estado americana Condolezza Rice, o ex-secretário da defesa Donald Rumsfeld e mais um punhado de analistas dos serviços de inteligência americano, este documentário alinhado com a visão americana cumpre uma função estratégica: vender o trabalho desempenhado pelo governo republicano de George W. Bush.
É interessante observar, no entanto, o raciocínio político que se estabeleceu a partir dos atentados terroristas de 11 de setembro e como esse filme curto (tem pouco mais de 60 minutos) atende a uma demanda dos americanos naquela época, a cabeça do homem mais assustador que a humanidade viu desde Adolf Hitler. De certa forma, Em busca de Osama Bin Laden alimenta essa iconografia.



8 – As torres gêmeas, de Oliver Stone (World Trade center, EUA 2006)
Quando Oliver Stone anunciou que faria um filme sobre o 11 de setembro, o mundo deu um passo para trás estupefado. O maior conspirador do cinema, reacionário para alguns, que fez um filmaço sobre a morte de JFK, duas espetaculares fitas sobre a guerra do Vietnã e outra certeira sobre Nixon iria, com menos de dez anos de intervalo, aspirar a poeira sobre os escombros da maior tragédia em solo americano. Mas As torres gêmeas não era um legítimo Oliver Stone. Pelo menos sob a perspectiva da intriga. Stone quis fazer uma homenagem àquela figura que saiu maculada da tragédia: os bombeiros.
Seu filme é um cântico de honra e coragem que jubila a profissão e faz do sentimentalismo um cortejo cinematográfico dos mais eficientes em termos dramáticos.



7 - O pecado de Hadewijch, de Bruno Dumont (Hadewijch, FRA 2009)
Na Europa, o preconceito com imigrantes consegue ser ainda mais forte e disseminado do que nos Estados Unidos. A religião, com o Islamismo no centro, é um dos principais focos de conflitos étnicos que marcam a Europa há séculos. De certa forma, esse elogiado filme de Bruno Dumont cerca esse tema. Ao acompanhar Céline (Julie Sokolowski), uma mulher viciada em sofrimento (para fazer uso de uma classificação grosseira mas objetiva), Dumont estabelece matizes para o fanatismo religioso que forja terroristas na Europa oriental e no oriente médio. Um filme introspectivo que pode provocar tanto repúdio quanto fascínio.




6 - 11 de setembro , de Youssef Chachine, Amos Gitai, Alejandro Gonzalez Iñarritu, Shoshei Imamura, Claude Lelouch, Len Loach, Mira Nair, Sean Penn e Danis Tanovic, (11´09´11, FRA/EUA/Egito/Israel/Bósnia/JAP, 2002)
A proposta desse filme reflete a própria proposta desse TOP 10. Universalizar um ato que chocou o mundo e o transformou irreversivelmente. São onze curta-metragens com diferenças de estilo, estética e narrativa que se interrelacionam por ter o 11 de setembro de 2001 como ponto de coalizão. Datas históricas que se erigiram no 11 de setembro, a perspectiva do Oriente Médio, de uma viúva que perdeu o marido nos atentados, entre outras tramas modulam um panorama, ainda que irregular, humano e suficientemente curioso sobre esse evento definidor.



5 - Paranóia americana, de Jeff Renfroe (Civic duty, EUA 2006)
Esse filme descende diretamente do ótimo O suspeito da rua Arlington (1999) que captura maravilhosamente os gargalos da paranóia americana. O filme de Jeff Renfroe atualiza a trama daquele filme com o sabor do 11 de setembro. Um americano desempregado de Nova Iorque (Peter Krause) suspeita que seu vizinho, um estudante islâmico, seja um terrorista e passa a investigá-lo. O filme não tem o mesmo impacto de sua referência estrelada por Jeff Bridges e Tim Robbins, mas mapeia bem o acirramento da tensão étnica em certos bolsões americanos.



4 - Guerra ao terror, de Kathryn Bigelow (The hurt locker, EUA 2009)
A abordagem que esse filme agigantado pelos prêmios que conquistou faz tanto do conflito no Iraque, como do cotidiano de uma guerra enraizada em ações de terrorismo e contra-terrorismo é salutar. Tanto do ponto de vista narrativo, quanto da perspectiva mais global. A guerra que os EUA se lançaram após o 11 de setembro é diferente de todas as outras e este filme, com toda a sua tensão engendrada, expõe isso meticulosamente.



3- O suspeito, de Gavin Hood (Rendition, EUA/África do Sul, 2007)
Um dos reflexos diretos da paranóia que se estabeleceu após os atentados de 11 de setembro foi o chamado “patrioct act”. Medida para lá de problemática perpetrada pelo governo Bush que suspendia, sem aviso prévio, os direitos civis de quem quer que entrasse no radar dos suspeitos dos agentes do governo. Esse filme com elenco de peso (Meryl Streep, Alan Arkin, Reese Whiterspoon, Jake Glynhehaal e Peter Sarsgaard) remonta uma situação recorrente e que rendeu fortes críticas ao governo Bush por parte das Nações Unidas e órgãos dos direitos humanos. Um médico de origem mulçumana (um cidadão egípcio radicado nos EUA) é barrado no aeroporto e, além de ter seus direitos cerceados, é duramente torturado sem indícios sólidos de estar envolvido com células terroristas.
Um ótimo drama e um filme denúncia de grande ressonância.



2- Vôo united 93, de Paul Greengrass (United 93, EUA/INGL 2006)
Uma proposta tão inusitada quanto bem realizada. O inglês Paul Greengrass reproduz aqui, com um elenco formado por atores e profissionais que atuaram na linha de frente do 11 de setembro, os esforços para entender o que se passava a bordo dos aviões sequestrados e, se possível, impedir o pior. Vôo united 93, baseado em transcrições originais, também reproduz o que se passou no interior do vôo que dá título ao filme.
A fita, realista em proporções que escapam às referências, é tensa e emocionante na medida certa. Greengrass encerra seu relato de maneira a constituir uma homenagem àqueles cujas vidas foram ceifadas pelo terror em 11 de setembro de 2001.



1 - Paradise now, de Hany Abu-Assad (Palestina, 2005)


O que faz uma pessoa se tornar homem bomba? Essa é a pergunta chave por trás de Paradise now. Sem ideologismos e respostas fáceis, o diretor Hany Abu-Assad fornece um painel altivo e cheio de ruídos que podem incomodar um olhar ocidental, mas não emite julgamentos. É um filme implacável em sua proposta e irresoluto em seus resultados. Uma análise acinzentada que rejeita critérios obtusos e cerrados de seus interlocutores.

Insight

Performance digital: afinal, isso existe?*


Desde que O planeta dos macacos: a origem estreou, há um mês atrás nos cinemas americanos, a crítica de cinema tem postulado um debate que reúne uma parcela de ideologia, aliado a um oportunismo calculado. Trata-se, em um primeiro momento, do reconhecimento do grande trabalho do ator Andy Serkis no filme que atualmente lidera as bilheterias brasileiras. Em um segundo momento, é a elucubração mais perfeita dos avanços tecnológicos e da agenda que os mesmos ditam à rotina cinematográfica (o 3D, novas estratégias de lançamento, novas plataformas para distribuição de filmes, etc).
Em O planeta dos macacos: a origem, Andy Serkis dá vida a Ceasar, o verdadeiro protagonista da trama – já que monopoliza os olhares da audiência. Ceasar é construído a partir da fusão dos movimentos do ator com os efeitos especiais da Weta (companhia fundada por Peter Jakcson e que hoje responde pelos principais avanços no departamento de efeitos especiais). Serkis já havia feito parte de processos semelhantes na trilogia O senhor dos anéis, onde viveu Gollum, e em King Kong, no papel título. No filme que está nos cinemas, a tecnologia denominada “motion capture” está aperfeiçoada.

Andy Serkis, no set de O Planeta dos macacos: a origem, dando sua contribuição para a criação de Ceasar


O que se discute é a possibilidade de um reconhecimento artístico ao trabalho de Serkis, que com toda justiça se revela um pioneiro nesse eixo de “performance digital”. Como curiosidade fica o registro de que quando não surge animado por computadores, Serkis não desperta grande atenção como nos filmes De repente 30 (2004), O grande truque (2006), Longford (2006) e Cabana macabra (2008).
Muitos se maravilham com a densidade da interpretação de Serkis. Pela capacidade do ator de exprimir sentimentos, mesmo com recursos limitados. A questão é que os recursos não estão limitados. Embora não possa se fazer valer da fala, instrumento cabal para provocar emoções, Serkis tem a seu dispor um mecanismo de fantasia que evolui a passos largos. O impacto de sua atuação certamente não seria tão profundo se os efeitos especiais não estivessem no nível que se testemunha no filme. Se eles não nos fizessem crer que diante de nós está, de fato, um símio. Serkis, é verdade também, contribui fortemente para a consolidação dessa percepção. Mas não o faz meramente por artifícios interpretativos. Por essa lógica, seria ilegítimo postular uma indicação ao Oscar como defendem alguns. Poderia sim, criar-se uma categoria a parte que reconhecesse performances desse tipo. Mas há ainda muito pouca coisa sendo produzida que justificasse a criação de tal categoria. O Oscar de animação, por exemplo, é recente. Datado de 2001. E 90% das animações não utilizam motion capture, o que reforça a segmentação.


Freida Pinto e James Franco gravam cena com Andy Serkis: a tecnolofia favorece o trabalho de interação dos atores


É necessário que a tecnologia se assente e que seja digerida pela indústria de forma orgânica como, por exemplo, fez Gore Verbinski em Rango. O diretor moldou o protagonista de sua animação à Johnny Depp e chamou o ator para dublá-lo em um exercício de metalinguagem muito interessante. Esse tipo de proposta pode se expandir e, quem sabe, merecer no futuro um destaque junto a instituições como a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Por enquanto, seria – além de precipitado – incorreto qualquer movimento nesse sentido.
É preciso louvar sim o grande trabalho de Andy Serkis, mas ter consciência de que a “performance digital” – um conceito ainda em formação – não se equipara em método e dimensão às atuações tradicionais.



* O artigo dessa semana é sugestão da leitora e blogueira Ana Kamila de Azevedo

sábado, 3 de setembro de 2011

Cantinho do DVD

Existem projetos que são ótimos como projetos, mas se revelam filmes decepcionantes. É o caso de Twelve –vidas sem rumo, destaque de Cantinho do DVD desta semana. O diretor Joel Schumacher revive seus piores dias nessa trama enfadonha sobre uma nova droga que surge nas ruas de Nova Iorque. Chace Crawford vive um traficante que trafica para pagar as contas e superar a morte da mãe e 50 Cent vive um traficante que trafica para ganhar dinheiro. Os clichês se avolumam a tal ponto que Schumacher não dá conta de tudo. A crítica a seguir.


Crítica
Joel Schumacher, talvez mais do que qualquer outro diretor na ativa em Hollywood, oscila vertigisonamente na carreira. Alternando sucessos de público (Um dia de fúria, Em má companhia), sucessos de crítica (Ninguém é perfeito, O cliente, Tigerland, Por um fio, O fantasma da ópera) com fracassos retumbantes e inquestionáveis (Número 23, Batman e Robin, O custo da coragem). Twelve –vidas sem rumo (Twelve, EUA 2010) se alinha a essa última classe dos fracassos. Schumacher chamou seu chapa Kiefer Sutherland para narrar a saga de um traficante branco (e esse detalhe ganha importância em um desnecessário jogo de espelhos subliminar ao qual a fita se presta) e de seus jovens clientes abastados e problemáticos de uma Nova Iorque que Schumacher captura sempre entrecortada. Sempre saturada. A técnica com que a fita é erguida, talvez seja o que de melhor esta apresenta. O subtítulo nacional é óbvio não pela natureza do drama dos personagens, mas pela hesitante condução da trama. Schumacher não parece ter muito o que fazer com o roteiro de Jordan Melamed baseado na obra homônima de Nick McDonell. Daí as imagens granuladas, os movimentos de câmera inusitados, a alternância de closes e a opção pelo off de Sutherland – que se revela o personagem (mesmo sem sê-lo) mais interessante da fita.
Twelve – vidas sem rumo traz em seu escopo alguns novos atores interessantes. Chace Crawford, de Gossip Girl, perdeu mais uma chance de mostrar algum talento; Zoe Kravitz faz figuração como patricinha e, naturalmente, convence; Rory Culkin, o irmão do Macaulay, demonstra que leva jeito para encarnar personagens perturbados e Emma Roberts aparece mais uma vez em um papel que faz lembrar a tia famosa. Outro destaque da fita é o rapper 50 Cent que surge como um traficante. Cent atua como se estivesse em um de seus clipes. Esse desequilíbrio desabona uma história promissora sobre um grupo de jovens de um CEP gabaritado de Nova Iorque às voltas com uma nova e poderosa droga – a twelve do título. Os dramas pessoais do traficante bonitinho (que nunca convencem) e uma trama policial – logo abandonada – avacalham de vez um filme que se revela mais sem rumo do que todos seus personagens somados.

Cenas de cinema

Aplaudido, mesmo ausente
Foi uma histeria. A crítica de cinema se pronunciou com entusiasmo mediante o novo filme de Roman Polanski. Carnage agradou. O grupo de atores formado por Jodie Foster, John C.Reilly, Kate Winslet e Christoph Waltz – os três últimos compareceram à premiere do filme – foi louvado por atuações orgânicas e viscerais. O New York Times considerou “um filme brutal sobre a demolição de fachadas”. O Hollywood Reporter destacou em sua cobertura especial que “Polanski faz um retrato social ácido e pessimista”.
Roman Polanski foi bastante aplaudido e tem seu Carnage na linha de frente para os prêmios – ainda que desponte como favorito aos prêmios de atuação e roteiro.


É Madonna...
Era até certo ponto previsível. W.E, segundo longa metragem de Madonna, foi fortemente vaiado e ridicularizado pela crítica internacional. O destempero das críticas não se refletiu no trato com a diretora na coletiva em Veneza. Madonna agradeceu ao incentivo de Guy Ritchie e Sean Penn, dois diretores com os quais foi casada, e disse que é difícil fazer um filme sobre o amor. Nisso, a crítica não discordou dela.
Em uma das avaliações mais positivas de W.E, a Vanity Fair destacou: “é uma colagem sem vida de clichês amorosos”. Out!

Madonna, na condição de diretora, entre as duas protagonistas de seu filme: vaias e ridicularizações


...mas é Madonna
Resta saber como a Harvey Weinstein, o mega produtor americano semeador de Oscars, vai armar a campanha do filme – programado para estrear em plena Oscar season – depois desse portentoso revés em Veneza.


O triunfo de Cronenberg
“O melhor filme do festival”, bradaram jornais da Itália (Corriere Della Sera), da Inglaterra (The guardian) e dos EUA (New York Times). Trata-se de A dangerous method, de David Cronenberg. Alçado pela crítica a condição de favorito absoluto “em qualquer categoria”, assinalou o New York Times.
A reconstituição da relação entre os psicanalistas Freud e Jung agradou a crítica e aos jornalistas presentes em Veneza. “É um filme econômico, magnificamente escrito e brilhantemente interpretado”, escreveu o Hollywood Reporter em sua resenha.


O mesmo, mas um pouco diferente
David Cronenberg, indagado por jornalistas se considera que seu cinema mudou disse que não. Mas abriu uma ressalva para seu método de produção: “O que mudou é que hoje eu filmo menos e edito mais rápido”, avaliou o diretor canadense que enumera sucessos de crítica desde que estabeleceu a parceria com o ator americano Viggo Mortensen, que em A dangerous method substituiu o austríaco Christoph Waltz como Sigmund Freud.

David Cronenberg posa ao lado de Keira Knightley, a única que não foi unanimidade no filme, antes da coletiva de imprensa de A dangerous method



O mesmo, mas um pouco diferente II
O desafio de Cronenberg será Cosmópolis, seu próximo filme agendado para 2012. Sem Viggo Mortenssen, o diretor conta com Robert Pattinson a frente de um elenco com Paul Giamatti, Mathieu Amalric, Samantha Morton e Juliette Binoche para contar o drama na vida um milionário baseado em Manhattan.


O fator Aronofsky

A pergunta que Claquete lança é: Será que pelo fato de Aronofsky vir de uma experiência tão intensa em um thriller psicológico (Cisne negro), o novo trabalho de Cronenberg ganha força?



E as vaias voltaram...
O longa francês Un Été Brulant, anunciado como uma releitura de Godard, não agradou e fez com que vaias fossem ouvidas novamente em Veneza (elas já haviam sido ouvidas na exibição do filme de Madonna e do taiwanês Saideke Balai -este em competição). O novo longa de Philippe Garrel foi recebido com desânimo e desencanto pelo crítica. Os jornalistas presentes em Veneza preferiram concentrar as energias em Monica Bellucci que surge nua em cena gravada apenas um mês depois de ter dado à luz.
Louis Garrel, filho do diretor e protagonista da fita, defendeu seu pai das críticas e disse que há muita intolerância da crítica de cinema com cineastas que pensam fora das convenções. “Parece que não há mais espaço para agressividade no cinema”, pontuou Louis. O jornal britânico Telegraph rebateu as assunções de Louis: “não se trata de agressividade, mas sim de passividade na concepção dos personagens”.


Disputa de alto nível
Com três dias de disputa, a crítica de cinema se regozija com o alto nível do festival. Medido pelos filmes Tudo pelo poder, Carnage e A dangerous Method. As vaias para os outros filmes em competição, inclucive para o premiado Philippe Garrel, só ratificam a excelência de alguns filmes da mostra.


Bendito fruto
Na esteira da escolha do line up do exclusivo festival de Telluride (mais na nota abaixo), que acontecerá entre hoje e segunda-feira nos Estados Unidos, um nome desponta como forte candidato a darling da temporada de prêmios. O de Michael Fassbender, inegavelmente um dos atores mais produtivos da temporada.
Elogiadíssimo por sua atuação como Carl Jung em A dangerous method, exibido em competição em Veneza, Fassbender estará em dose dupla em Telluride. Além de A dangerous method, o festival apresentará Shame, novo longa de Steve McQueen – que já havia dirigido o ator em Hunger (2008).
Ambos os filmes também estarão em Toronto que também deverá ter exibição de Haywire, de Steven Soderbergh. Outro longa com a participação de Fassbender.
Vale lembrar que o ator já colheu fervorosos elogios por dois filmes estreados fora da Oscar season: x-men:primeira classe e Jane Eyre.

Michael Fassbender faz pose para os fotógrafos em Veneza: para o alto e avante...


Para os íntimos
Com acesso para lá de restrito, esse festival organizado para mimar produtores, exibidores, distribuidores e seletos críticos de cinema chega a sua 38ª edição com vitalidade. Serão 28 filmes exibidos em quatro dias de festival. As estréias de gala ficam por conta de The descendants, novo longa de Alexander Payne, Albert Nobbs, de Rodrigo Garcia, A dangerous method, de David Cronenberg, Shame, de Steve McQueen e We need to talk about Kevin, de Lynn Ramsey.
Os atores George Clooney e Tilda Swinton, que juntos já estrelam o oscarizado Conduta de risco – que também foi exibido neste festival – serão homenageados.
O músico baiano Caetano Veloso é o curador convidado para a principal mostra paralela do evento. Entre os destaques dos seis filmes selecionados por Caetano para entreter os convidados estão Deus e o Diabo na terra do Sol, de Glauber Rocha, Vivre sa vie, de Jean-Luc Godard e Se meu apartamento falasse, de Billy Wilder.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Editorial - O cinema como observador

Esse setembro de 2011, embora com poucos lançamentos dignos de nota nos cinemas brasileiros, promete ser um mês de intenso culto a cinefilia. Primeiro por ser o mês que marca a chegada do outono no hemisfério norte e com a estação chegam diversos festivais de cinema. Dois deles, Veneza e Toronto, terão atenção especial do blog. Mas haverá outros: Londres, Roma, Nova Iorque... Todos, de alguma maneira, tentando exaltar uma das maiores qualidades da sétima arte: refletir e repercutir a realidade, como base de um entendimento mais amplo e profundo.
Setembro de 2011 também marcará o aniversário de dez anos do maior atentado terrorista que a humanidade experimentou desde que esse conceito teve origem. E o cinema, como foco de absorção das angústias e transformações humanas, também se viu atingido pelo 11 de setembro. Mais político? Mais intolerante? Mais conservador? Como o cinema americano, em paralelo com o mundial, se apresentam dez anos depois do atentado às torres gêmeas? Como o 11 de setembro influenciou cineastas e modificou determinadas percepções narrativas? Tudo isso será abordado na coluna Questões cinematográficas desse mês. O 11 de setembro também é tema, ainda que indiretamente, da seção TOP 10. Serão listadas dez diferentes abordagens do terrorismo no cinema recente. Um exercício de catarse, de elaboração e de compreensão que o cinema tem se prestado, consciente e inconscientemente, no período recente.
E como observar é uma arte refinada, dois cineastas excepcionais nessa arte ganharão destaque no mês. O primeiro é Robert Altman, falecido em 2006, que apresentava personagens para o escrutínio da platéia como ninguém. Um de seus filmes mais festejados, Short Cuts-cenas da vida (vencedor do Leão de ouro em Veneza) será pauta de Claquete repercute. O outro é Sam Mendes. Talvez não haja na atualidade nenhum cineasta com tamanha propriedade na hora de esquadrinhar a classe média na tela grande. O diretor vencedor do Oscar por Beleza americana será tema de Filmografia comentada.
Com setembro, chegam nas telas brasileiras os últimos lançamentos do verão americano de 2011. Cowboys & aliens e Amizade colorida são dois deles. Uma das seções Insight do mês irá repercutir e analisar o que foi essa temporada pipoca do cinema americano, com seus pontos altos, baixos e devidas exclamações.
Ao leitor, fica o convite para observar.