sábado, 20 de julho de 2013

Crítica - O concurso

Fazendo o mesmo, mas de forma diferente

A comédia brasileira está desgastada? A resposta pode ser desalentadora quando você percebe exatamente para onde um filme vai após seus cinco primeiros minutos. O que difere O concurso (Brasil 2013) da média das comédias nacionais que voltaram a brilhar nas bilheterias do país em 2013, é que o filme de Pedro Vasconcellos assume essa “imperfeição” de cara e brinca justamente com a noção de que o que importa é a viagem e não o destino, tanto em sua estrutura narrativa, como em suas soluções dramáticas.
Se beber, não case! (2009) é uma referência, ainda que inconsciente, a aumentar o brilho do filme que consegue brincar com estereótipos sem deixar de preservar a humanidade dos personagens, algo nem sempre tangenciado no filme americano. O grande mérito de O concurso, nesse aspecto, é pegar estereótipos de larga fama no país, como o gaúcho homossexual, o carioca malando, o nerd virgem do interior, entre outros e inseri-los com naturalidade em outro estereótipo, menos notório, mas muito mais fechado que é o do concurseiro, aquela pessoa obstinada em passar em um concurso público que reorganiza toda a sua vida para esse propósito e, por vezes, continua concurseira mesmo depois de uma eventual aprovação.

"Me come ou eu te mato": o dilema nonsense de Bernardinho (Rodrigo Pandolfo) imposto pela voluptuosa participação de Sabrina Sato

Ou seja, brincar com sonhos e estereótipos não é uma primazia deste filme, mas ele é muito feliz ao fazê-lo de forma irreverente e privilegiando o trabalho dos atores em detrimento de maior veracidade do roteiro.
Fábio Porchat, na pele do gaúcho envolto em dúvidas acerca de sua sexualidade, Anderson Di Rizzi, como o nordestino mandingueiro que faz votos a todos os santos, Rodrigo Pandolfo, como paulista do interior virgem e filhinho de mamãe, e Danton Mello, como o advogado malandro carioca, esbanjam química como os quatro finalistas do concurso para juiz federal que perdem as estribeiras no fim de semana que antecede à realização do derradeiro exame para o cargo. O filme torna toda a situação mais dramática ao delimitar que apenas um dos quatro será aprovado. Mesmo com o clima de rivalidade à espreita, eles desenvolvem uma amizade que irá desfilar pelas obrigatórias paisagens das comédias brasileiras (favela, funk, e biblioteca nacional?).

Por fim, trata-se de um filme que não faz feio ao filão do bromance e que incute na comédia brasileira a noção de que ela pode se reciclar sem abrir mão de suas características mais marcantes. O que precisa se delimitar é se é esse o caminho a ser seguido.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Claquete 4 anos - Dez filmes mais significativos dos últimos quatro anos

Não se trata dos melhores filmes produzidos durante a existência do blog. Como o período de quatro anos é relativamente curto para se dimensionar uma lista como essa, e o blog publicou em todos os anos os melhores filmes de cada ano, seria redundante tornar a fazê-lo ainda que de forma englobada. A proposta aqui é lançar um olhar plural e complexo sobre a atividade cinematográfica nesses quatro anos. Os filmes que apontaram os caminhos que o cinema está seguindo, aqueles cujas narrativas reverberam e influenciam o cinema moderno, o maior sucesso de público da história, o maior sucesso de público do cinema nacional, o cinema como fórum e faculdade da arte e por aí vai. A ideia desse top 10 é apresentar os dez filmes mais significativos, não essencialmente melhores, de 2009 para cá. Um brinde à existência de Claquete, que chamou a atenção e contextualizou seu público sobre esses filmes e as reminiscências deles, à época de seus lançamentos.

10 – Avatar (EUA 2009), de James Cameron
É inegável que o épico de aventura de James Cameron, indicado a nove Oscars, engatilhou o 3D em sua potência máxima no cinema. Seria essa a grande importância do filme, se Avatar não tivesse quebrado todos os recordes possíveis e imagináveis de bilheteria com U$ 2, 7 bilhões em faturamento. Não obstante, a fita de Cameron é uma aventura de encher os olhos. Seja pela tecnologia de ponta que viabilizou o universo de Pandora, seja pela narrativa bem amarrada pelo diretor.

9 – Toy story 3 (EUA 2010), de Lee Unkrich
Três das melhores bilheterias de 2013 são animações. Essa estatística não deve mudar até o fim do ano. Ela ocorre em parte pelo maior volume de produções, mas principalmente pela qualidade delas. As animações se segmentaram, mas em essência se ratificaram como um gênero familiar – o que é raro na Hollywood atual. As receitas avantajadas calcadas em qualidade tem como símbolo o fecho de uma das melhores trilogias do cinema. Toy Story 3 é sintomático do sucesso da Pixar enquanto estúdio e seara criativa, com prêmios da crítica e da indústria e mais de U$ 1 bilhão em bilheteria.

8 – Distrito 9 (EUA/AFS 2009), de Neill Blomkamp
Não é nenhum exagero apontar Distrito 9 como a ficção científica mais eloquente e politicamente assertiva dos últimos 30 anos. Talvez desde Blade Runner, o caçador de androides (1982) nossa humanidade não tenha sido tão bem abordada pelo gênero. A discussão sobre desigualdade social é um plus desse cativante filme de estreia do sul africano Blomkamp na direção. Com produção de Peter Jackson, Distrito 9 foi uma surpresa em 2009 e sua resiliência garante o interesse pela continuidade da carreira do diretor.

Cena de Distrito 9: a ficção científica com instrumento de compreensão de nossas imperfeições e fragilidades

7 – A origem (EUA 2010), de Christopher Nolan
Nesses quatro anos não houve filme tão original ou provocativo quanto esse tento cinematográfico de Christopher Nolan. Apenas essa razão já lhe garantiria lugar nessa lista, mas A origem é um marco, também, por ser uma produção de grande orçamento estritamente original bem sucedida em uma época de pane criativa em Hollywood em que os grandes orçamentos vão todos para adaptações e refilmagens nem sempre desejáveis.

6 – Tropa de elite 2 – o inimigo agora é outro (Brasil 2010), de José Padilha
Esse talvez seja o filme mais fraco, irregular e desonesto intelectualmente da lista. Talvez. Mas é inegável que o maior sucesso de público da história do cinema brasileiro é, também, um brilhante exercício de gênero com um desenvolvimento complexo e bem estruturado de personagens e uma técnica de equivalência hollywoodiana. Por essa grandeza bem desenhada, do tipo “cinema é a nossa praia”, Tropa de elite 2 não poderia deixar de figurar nessa lista.

5 – Shame (ING 2011), de Steve McQueen
Desprover a nudez de erotismo é um exercício de estilo que apenas artistas plásticos de alto gabarito são capazes de configurar. Fazê-lo em um filme que discute o sexo só comprova o talento do artista plástico e cineasta Steve McQueen para canalizar no cinema estética e narrativa em direcionamentos antagônicos, mas complementares. Shame é um filme todo pensado para causar impacto. Sensorial, emotivo e intelectual. Um tipo de cinema que não se vê por aí.

Desejo e perdição: Shame é um filme que aliou vigor estético a despudor narrativo como poucos na existência de Claquete

4- César deve morrer (ITA 2012), de Paolo Taviani e Vittorio Taviani
Os limites e o alcance da arte são encorpados nesse vitorioso filme italiano que acompanha presidiários ensaiando e encenando uma peça shakespeariana. As linhas que separam documentário e ficção se perdem em um neologismo cinematográfico poderoso e cheio de sentido. A gramática do cinema é relativizada e renovada por realizadores dispostos a pensar fora da caixa.

3– Cópia fiel (FRA/ITA/BEL 2010), de Abbas Kiarostami
Outro filme que discute os limites entre arte e cópia. Representação e autenticidade. Kiatostami expande seu comentário do mundo da arte ao casamento em um filme de linguagem moderna e obstinação ímpar. O próprio filme se apresenta ao espectador como um produto a mercê de sua interpretação. Estamos diante de uma obra autêntica ou de uma simulação bem engendrada?

2– Bastardos inglórios (FRA/EUA/ALE 2009), de Quentin Tarantino
O auge de um autor sempre merece destaque. No cinema americano, Quentin Tarantino – encontrando par em Terrence Malick – é o grande polarizador em matéria de cinema autoral. Bastardos inglórios, para todos os efeitos sua obra-prima, é uma apólice de seguro de Tarantino para a posteridade. O filme que ousou reescrever um dos capítulos mais tristes da humanidade com irreverência, catarse, violência e legendas. Muitas legendas para o público americano.

1-A rede social (EUA 2010), de David Fincher
É o filme da geração Y, dizem muitos por aí. É verdade. Mas A rede social é muito mais. Um dos roteiros mais brilhantes jamais feitos é um filme sobre nosso tempo, tanto em sua organização narrativa – de diálogos em velocidade da luz e cortes multifacetados – como em sua narrativa épico-existencial sobre jovens erguendo impérios digitais e desvinculando-se de laços vívidos reais.  
Não à toa comparado a Cidadão Kane, A rede social é um filme que cresce de tamanho a cada revisão.

O maior de seu tempo: A rede social é o filme testamento de uma geração e de uma linguagem cinematográfica moderna 

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Filme em destaque - O concurso

Sem pagou, passou

Comédia nacional faz graça com cultura enraizada em grande parte da população brasileira de prestar concurso público e brinca com estereótipos em voga na cena nacional

“A equivalência que tem entre os dois filmes é a química desses quatro caras juntos”, opina LG Tubaldini Jr, produtor de O concurso, a respeito das comparações entre o filme, que chega nesta sexta-feira (19) aos cinemas do país, e o filme original da trilogia Se beber, não case! (2009), encerrada neste ano.
A comparação, cada vez mais constante, partiu de um dos mais renomados nomes do elenco. O ator Fábio Porchat, há alguns meses, anuiu com a perspectiva de que o filme era um “Se beber, não case! brasileiro”. O diretor Pedro Vasconcellos, em coletiva de imprensa que Claquete participou, refutou a ideia. “Antes desse filme, foram vários os que tinham como mote um grupo de amigos aprontando todas em um fim de semana”. Para Tubaldini, a memória do filme dirigido por Todd Philips se impõe, até mesmo porque “Se beber, não case! zerou as piadas com quatro caras aprontando todas”.
A ideia de fazer uma comédia já estava consolidada para Tubaldini à época do lançamento de Qualquer gato vira-lata em 2011. A ideia de fazê-la com o pano de fundo dos concursos públicos surgiu de seu convívio social. “Tenho muitos amigos de formação jurídica que prestam concursos. Uns conseguem passar e outros não, mas todos têm ótimas histórias. Com o tempo fui percebendo que os contos, os adágios davam base para um ótimo roteiro e aí convidei o Pedro para a empreitada”, explica o produtor. Vasconcellos, que estreia na direção de cinema com O concurso, credita aos atores o eventual sucesso que seu filme possa experimentar. “Quando se trabalha com atores virtuosos como esses, fica fácil o trabalho de um diretor”.
E que atores são esses? Fábio Porchat assume, na leitura do diretor, o estereótipo mais difícil. Ele faz um homem pressionado pelo pai a ser juiz e que vive um conflito interno sobre sua sexualidade. Seu personagem é gaúcho de Pelotas em uma das muitas atitudes irreverentes do filme em relação a estereótipos brasileiros. Anderson Di Rizzi, que vive trajetória ascendente na tv Globo, vive um cearense muito família e muito devoto de todos os santos possíveis e imagináveis. Rodrigo Pandolfo vive um engomadinho paulista do interior, virgem, e com grave problema de auto-estima. Danton Mello personifica o malandro carioca, arquétipo mais reconhecível de todos, como um advogado espertalhão. Os quatro são finalistas em um concurso para juiz federal e estão na cidade maravilhosa para a realização do exame oral, marcado para as 8h de uma segunda-feira. Serão muitas as aventuras pelas quais passará a trupe no fim de semana que antecede a prova. A comparação com Se beber, não case! ganha força aí, mas o filme apresenta um repertório de gags bem brasileiras que não aprofunda a analogia. Além do mais, todos os personagens recebem especial atenção do roteiro, algo que não se verifica no filme de Todd Phillips.

O diretor Pedro Vasconcellos, de cabelo comprido no canto inferior da imagem, confere junto a seu quarteto de protagonistas um take

De Chaplin a Pirapora
O filme foi rodado em 30 dias com orçamento de R$ 5 milhões e promove a tão falada estreia de Sabrina Sato no cinema. A agora atriz faz uma atiradora de facas que persegue o personagem de Pandolfo com a finalidade de desvirgina-lo.
Alternando-se entre o pastelão e o nonsense, O concurso quer “brincar com os sonhos dos brasileiros. Com esses estereótipos, mas sem deixar de tratar os personagens de maneira humana”, avalia Vasconcellos. “Comédia é verdade assim como qualquer gênero, mas é mais técnica”, opina Pandolfo que viajou para Salto de Pirapora para se inspirar na composição de seu personagem, cidadão da fictícia Piraporinha. Di Rizzi, por sua vez, enxerga muito de Chaplin em seu personagem e reconhece que o trabalho em cinema é “mais delicado” do que na tv.
Elenco e produtores já pensam na sequência e torcem para que o público abrace o filme. “Não acredito em fazer filmes para o público. Sei que é estranho para um produtor dizer isso”, expõe Tubaldini, “acredito em filme bom. Depois é só deixá-lo acontecer”.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Crítica - O homem de aço

Habemus super

O que mais impressiona em O homem de aço (Man of steel, EUA 2013) é que ao longo de seus 140 minutos são muitos os bons momentos do filme. Sua potencialidade é oxigenada a todo o tempo por um texto muito ambicioso, mas pouco focado. A potencialidade não se consuma muito em parte a uma direção desvinculada, em essência narrativa, do que propõe o roteiro. Em miúdos: Zack Snyder não era o diretor certo para o roteiro que foi filmado. A forma como foi filmado é a grande avalista dessa constatação.
O tom solene é um direito adquirido dos filmes de Superman e deveria receber a mesma mesura que outros cânones do universo do homem de aço receberam. Há a correta opção de intercalar momentos cruciais da formação de Clark Kent, assim como a consolidação de sua percepção como figura central nos rumos da humanidade antes de assumir sua identidade secreta como jornalista do Planeta Diário, mas há, também, a interjeição de dilemas esgotados no universo do personagem. Não obstante, há a maquiagem do filme de ação profundo quando, na verdade, toda a construção valorizada por Snyder ecoa em cenas – realmente fantásticas – de destruição de fazer inveja em Michael Bay.
Se o aspecto visual de O homem de aço enche os olhos, sua massa narrativa apresenta gorduras. A história não é tão densa para justificar uma metragem tão longa. A grande maioria dos personagens são apenas penduricalhos narrativos desprovidos de qualquer efetividade dramática, inclusive o vilão Zod que desperdiça o talento do ótimo Michael Shannon. A exceção é Lois Lane (Amy Adams), personagem mais interessante do longa. Muito bem construída, em seus conflitos e imperfeições, a personagem é outra escanteada quando o quebra-quebra se impõe.

Entregue à humanidade: Superman se prepara para encarar Zod em um dos momentos mais megalomaníacos do filme de Snyder

Outro grande problema do filme é a total falta de humor. O único momento gracinha surge quando o Superman está em custódia do exército americano e batendo um papinho com Lois. Muito pouco para um filme que tem um personagem bem menos trágico do que, por exemplo, o cavaleiro das trevas.
O dilema existencial do Superman é outra má formulação do filme. Nunca nos convencemos da hesitação de Clark em assumir seu protagonismo à frente da humanidade e não é um problema de Henry Cavill, muito eficiente em cena e correto em evitar emular Christopher Reeve. A ideia de beber na fonte da trilogia do cavaleiro das trevas resultou em um filme irregular (o que seria Clark vagando pelos EUA em busca de sentido na vida tal qual o Bruce Wayne de Christian Bale em Batman begins?), moroso (ainda que com cenas de ação frenéticas) e que esconde suas consideráveis virtudes em um balaio de muitos defeitos.
Não é um filme ruim. Longe disso! Mas é um filme que, além de esquecível, compromete severamente – no âmbito da percepção da indústria cultural - os avanços conquistados pela trilogia de Nolan na seara das adaptações cinematográficas de HQs. 

Espaço Claquete - Em busca de um assassino


Selecionado para o festival de Veneza de 2011, Em busca de um assassino (Texas killing fields, EUA 2011), estreia na direção de Ami Canaan Mann (filha do cineasta Michael Mann) é um filme que pesa no contraditório. É perceptível que se trata de um filme que almeja ir além da nomenclatura de fita policial, mas falta à cineasta desenvoltura para filtrar as gorduras de um roteiro que atira para todos os lados e acerta muito pouco.
O roteiro de Don Ferrarone, inspirado em eventos reais, investe na relação passional dos policiais destacados para investigar uma série de crimes cometidos por um serial killer nas cercanias do Texas. O roteiro quer cobrir desde as dificuldades burocráticas da investigação, da falta de recursos e colaboração de moradores das castas mais baixas aos desafios jurisdicionais, a conflitos mais emocionais, como dois detetives divorciados que precisam colaborar ou a angústia de um detetive com forte vocação religiosa.
Mann não consegue direcionar seu filme e o deixa refém de um roteiro pretensamente multifacetado, mas que na realidade é apenas bagunçado. Se essa falta de pulso compromete o resultado desse seu primeiro filme, é possível vislumbrar talento na diretora estreante. Se não tem o apuro visual do pai, Mann é sagaz em aferir intensidade a cenas estratégicas da narrativa. A percepção do que e quando adensar e de quando intervir menos é algo que muitos veteranos ainda fraquejam. Sob essa perspectiva, portanto, trata-se de uma estreia promissora.
Brian (Jeffrey Dean Morgan) é um detetive que veio de Nova Iorque para o Texas e não esconde a obsessão em capturar um assassino que mata mulheres e desova seus corpos pelo Estado do Texas. Seu parceiro, Mike (Sam Worthington), mais cético em relação a seu trabalho e sua relação com ele, não aprova esse afinco todo em capturar o bandido e prefere ater-se aos problemas de sua jurisdição. Sua ex-mulher (Jessica Chastain), detetive em outro condado, compartilha da obsessão de Brian e, por mais essa razão, apresenta problemas de comunicação com o ex-marido.
Há pouco suspense e o desfecho é consideravelmente previsível para um filme que “esconde o ouro”. Isso para um filme que ergue toda a sua dramaturgia a partir da referida investigação é um problema sério.

domingo, 14 de julho de 2013

Insight - O circo pega fogo


Sem grande alarde, uma baita mudança com potencial de rearranjar a divisão de forças em Hollywood está em curso. A Warner Brothers, que apesar do ano fraco em matéria de lucro, há anos se consolidou como o principal estúdio de cinema da atualidade com prêmios e franquias campeãs de bilheteria mudou a direção do estúdio com uma guerra de foice vencida pelo executivo Kevin Tsujihara. Bruce Rosenblum, um dos afetados pela ascensão de Tsujihara ao posto de CEO da Warner, foi para a Legendary Pictures principal parceira de produção da Warner desde 2005 que se encontrava em meio a negociações para a renovação do contrato com o estúdio. A chegada de Rosenblum deu relevo à perspectiva de que a Legendary – estúdio que financiou filmes como Fúria de titãs (2010), O homem de aço (2013), 300 (2006), Se beber, não case! (2009) e a trilogia do cavaleiro das trevas – deveria buscar um acordo de parceria que lhe fosse mais vantajoso e que lhe proporcionasse abertura de expansão para outras mídias e plataformas.
Esse parceiro é a Universal Pictures. Há anos na lanterna dos grandes estúdios de cinema – além da Warner, Fox, Disney, Paramount, Sony e Dreamworks, - a Universal prevaleceu sobre suas concorrentes (Sony e Fox também estavam no balcão de negociações) porque compreendeu o momento que vive a Legendary e ofereceu uma parceria que fazia sentido para ambas as empresas. A Universal colocou na mesa a possibilidade da Legendary atuar na TV, as emissoras de tv NBC, USA e Bravo fazem parte da holding que controla a Universal, nos parques temáticos que a empresa detém ao redor do globo e uma porcentagem mais satisfatória em termos de remuneração pelos lucros dos filmes financiados pela Legendary.
Com todo esse charme, o acordo entre Universal e Legendary foi confirmado oficialmente na última quarta-feira (10).  

O homem de aço, que marca uma das últimas colaborações entre Warner e Legendary custou U$ 225 milhões, valor que a Warner não arcaria sozinha...

O que muda
A Warner se movimenta para buscar parcerias que viabilizem suas produções. Na ausência de fundos de private equity (atividade financeira que pressupõe investimento especialmente em empresas que ainda não são listadas na Bolsa de valores, no caso aqui o investimento se dá em filmes) com musculatura suficiente para bancar produções caras, o estúdio busca consubstanciar-se com bancos. Não há nada fechado no momento. No curto prazo, o que se pode visualizar é um abalo no poder de fogo da Warner, uma vez que os grandes carros-chefes do estúdio nos últimos anos eram produzidos em até 60% pela Legendary Pictures.
Já a Universal fez um movimento substancial para se recolocar no emergente, e ainda não completamente decifrado, cenário de produção cultural que se materializa com a era de ouro da tv, o ocaso dos blockbusters e a ascensão de plataformas alternativas de distribuição de conteúdo cultural.

Em miúdos, o estúdio que hoje é refém da franquia Velozes e furiosos precisava do boom que uma parceria como essa pode deflagrar.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Claquete 4 anos - Quem vai brilhar nos próximos quatro anos

Nesses quatro anos, Claquete viu surgirem novas estrelas e muita gente boa brilhar. Do improvável retorno de Mickey Rourke à confirmação do talento de Robert Downey Jr., passando pelas estrelas nascentes de Andrew Garfield, Carey Mulligan, Rooney Mara e Jennifer Lawrence. O blog, agora, faz uma aposta alta em alguns nomes que já estão por aí – uns mais famosos do que outros – e aponta dez figuras que serão protagonistas nos próximos quatro anos. Alguns estão atolados de projetos, outros não têm nenhum, mas Claquete crê que eles brilharão intensamente nos próximos quatro anos.

Bradley Cooper

Mas como assim vai brilhar? Bradley Cooper irá continuar brilhando intensamente pelos próximos quatro anos. O ator está atrelado aos novos filmes de Cameron Crowe e Steven Spielberg, programados para 2015, e no final desse ano estreia o novo longa de David O. Russell. O ator está mais seletivo do que nunca com seus projetos e confirma a disposição de integrar a galeria dos grandes atores de sua geração.

Dane DeHaan

O ator de 26 anos pode ainda não ter despontado, mas já chamou a atenção de cinéfilos mais atentos em filmes como Poder sem limites (2012) e O lugar onde tudo termina (2013). O futuro lhe parece atencioso. Será Harry Osborn na continuação da franquia iniciada com O espetacular homem-aranha e está em Kill your darlings (2013), sucesso indie em Sundance que acompanha a trajetória dos nomes mais expressivos da geração beat. São projetos estratégicos para a deflagração de uma carreira promissora.

Joseph Gordon-Levitt

Levitt ainda não tem muitos projetos engatilhados para os próximos anos. A bem da verdade, apenas a sequência de Sin City, mas sua estreia na direção com Don Jon deve render bons frutos ao artista que se mostra mais completo, entrosado e intuitivo do que muitos criam.

Armie Hammer

Depois que despontou em A rede social (2010), muitos criam que o céu era o limite para Armie Hammer. A elogiada atuação em J. Edgar fez subir a expectativa. Nesta temporada estrela O cavaleiro solitário, ao lado de Johnny Depp, e se prepara para rodar The man from U.N.C.L.E de Guy Ritchie. A escalada deve garantir a Hammer um brilho inédito em sua carreira.

Aaron Taylor-Johnson

Ótimo ator, Johnson faz muito bem o low profile. Mas se prepara para invadir o coliseu hollywoodiano. Volta ao protagonismo com a sequência de Kick-Ass, que o botou no mapa da horda cinéfila, em 2013 e se prepara para aterrissar na sequência de Os vingadores em 2015. No pit stop, a refilmagem de Godzilla em 2014.

Emma Watson

Não há novos projetos para Watson. Mas os que estão por estrear devem garantir projetos igualmente cercados de expectativa por parte de público e crítica. Depois de trabalhar com Sofia Coppola (The bling ring) e Darren Aronofsky (Noah, que estreia em 2014), Watson estará em posição estratégica para subir até onde quiser em Hollywood.

Nicholas Hoult

O garotinho de O grande garoto cresceu e está aparecendo. Hoult cativou na aventura Jack – o caçador de gigantes e na love story zumbi Meu namorado é um zumbi, ambos lançados em 2013. Se prepara para o pós-apocalipse na refilmagem de Mad Max e para o retorno ao universo mutante com a sequência de X-men - primeira classe no ano que vem. O futuro é mais do que promissor!

Hailee Steinfield

São nada menos do que 12 projetos aos quais Hailee está relacionada. Tem ficção científica, conto de fadas, terror, drama... A projeção da indicada ao Oscar por Bravura indômita será inigualável nos próximos dois anos. Uma nova versão de Romeu e Julieta, no entanto, programada para o fim deste ano, deve ascender o pavio.

Benedict Cumberbatch

Não há ator mais in em Hollywood no momento do que ele. J.J Abrams, seu diretor em Além da escuridão – Star Trek, rasgou seda e disse que ele é o melhor ator com quem trabalhou. Benedict tem nove filmes programados até 2015. Entre eles as duas sequências de O hobbit, em que dublará o dragão Smaug, o novo filme de Steve McQueen e uma das biografias de Julian Assange. O nome dele vai ficar fácil!

Mia Wasikowska

Ela é disparada uma das atrizes mais interessantes de sua geração. Essa que está na casa dos 20 e poucos anos. Para os próximos anos, tem projetos diversos como uma adaptação de Madame Bovary e outra de Dostoievski. Ela vai brilhar, de um jeito ou de outro!

Espaço Claquete - Grande demais para quebrar


O gênero thriller financeiro surgiu nos últimos anos quase que como um dos muitos reflexos da crise que assolou o mundo em 2008. Um dos melhores exemplares desse grupo do qual pertencem os excelentes Margin call – o dia antes do fim (2011) e A negociação (2012) é Grande demais para quebrar (Too big to fail, EUA 2011), produção original da HBO baseada no livro homônimo de Andrew Ross Sorkin.
Filme e livro tratam da eclosão da crise financeira sob a perspectiva da equipe econômica do governo Bush e os esforços do secretário do tesouro (equivalente ao ministro da fazenda aqui) Henry Paulson (William Hurt) para impedir que o sistema financeiro americano entre em colapso.
Dirigido com agilidade e sobriedade por Curtis Hanson, Grande demais para quebrar não dá tempo para o espectador respirar. A velocidade dos desdobramentos que ameaçam a saúde dos principais bancos americanos permite um relevo pedagógico da realização, mas Hanson não se obriga a pajear aqueles que não embarcarem no ritmo atroz dos acontecimentos.
A adrenalina dos homens mais poderosos do mundo flagrados à beira do precipício é algo capaz de render ainda muitos outros bons filmes, mas Grande demais para quebrar parece se interessar majoritariamente por dois aspectos: o primeiro é o componente de criança malcriada que os altos executivos de Wall Street ostentam e isso é algo que o filme é implacável em pavimentar. O famigerado egocentrismo desses homens poderosos e arrogantes ganha nova conotação ao mostrá-los desamparados correndo para baixo das saias do governo. O segundo aspecto, ainda mais esmerado em um comentário político do que o primeiro, diz respeito à volatilidade de um mercado carente de uma regulamentação mais efetiva. Muito já mudou desde 2008, mas muito continua exatamente igual. O olhar inquieto e cheio de incertezas de William Hurt, magnífico como Paulson, na última cena do filme é dessas certezas demolidoras de que o mundo como conhecemos ainda corre perigo.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Filme em destaque - O homem de aço

Com Cristo, Shakespeare e sem cueca

Ambicioso e solene, O homem de aço tem a árdua missão de superar os filmes da Marvel lançados em 2013 em matéria de bilheteria, mapear o futuro da DC Comics no cinema e revitalizar a carreira do filho de Krypton na tela grande

“Não se deve comparar O homem de aço à trilogia do cavaleiro das trevas”, disse Christopher Nolan em janeiro deste ano quando indagado sobre o que esperar do novo filme do superman, do qual é o principal produtor. Se a fala causa surpresa, até porque Nolan foi recrutado pela Warner para fazer pelo homem de aço o que fez pelo homem morcego, a ausência dele na maratona promocional do filme e seu silêncio quase sepulcral desde janeiro denotam que o filme de U$ 250 milhões que chega nesta sexta-feira (12) aos cinemas brasileiros não é, internamente, a unanimidade que se faz crer.
Nolan foi o primeiro nome confirmado em O homem de aço. O nome do diretor Zack Snyder teve que ser aprovado por Nolan que juntamente com David S. Goyer alinhavou o argumento do filme roteirizado por Goyer.
Os primeiros indícios de que as coisas não iam bem surgiram no verão americano do ano passado quando a Warner, com o desfecho da trilogia do cavaleiro das trevas nos cinemas, anunciou que lançaria O homem de aço no verão de 2013 e não no fim de 2012 como inicialmente aventado. Oficialmente, a posição do estúdio era de que, dessa maneira, teria um grande lançamento nessa temporada.
Se por um lado, Nolan parece insatisfeito com o resultado final, por outro Snyder tem em O homem de aço sua última chance de abandonar a pecha de promessa e converter-se em realidade como cineasta. Depois dos sucessos de Madrugada dos mortos (2004) e 300 (2006), o diretor obteve fracassos comerciais e de crítica com Watchmen (2009) e Sucker punch – mundo surreal (2011). O homem de aço também é sua primeira produção assumidamente de linha de frente do estúdio Warner com o qual frequentemente trabalha.
As críticas ao filme, majoritariamente negativas, questionam o tom solene da obra e apontam na falta de humor e conflitos mais bem delineados sérios problemas estruturais da fita de Snyder.
Nolan e Snyder nos sets: ninguém fala, mas discordâncias
afastaram Nolan do dia a dia das gravações
A bilheteria é positiva, mas longe de atingir o sonho dourado do estúdio e O homem de aço não deve chegar a necessária marca do bilhão de dólares para viabilizar o filme da Liga da justiça. Até o último fim de semana, o filme tinha arrecadado nos EUA U$ 271 milhões, o que o coloca atrás justamente de Homem de ferro 3 em termos de faturamento doméstico. No mundo, porém, a surra que o filme leva do rival da Marvel é mais sonora. Faltando estrear em alguns mercados como o Brasil, a fita já arrecadou U$ 315 milhões. O total de U$ 586 milhões apenas cobre o investimento feito pelo estúdio.  Homem de ferro 3, para efeitos de comparação, superou a vistosa marca de U$ 1,2 bilhão.
A despeito da discussão a respeito do custo dos lançamentos de verão, é pacífico que o novo filme do Superman não emplacou.

Sotaque inglês
O escolhido para viver Superman em sua nova encarnação foi o inglês Henry Cavill, cujo trabalho de maior expressão até então tinha sido sua participação na série "The Tudors". Cavill, no entanto, já havia chegado bem perto de ostentar a capa do homem de aço. Ele era a primeira escolha de McG para viver o herói no filme que acabou sendo realizado por Bryan Singer, que tinha uma visão diferente para o que deveria ser feito e buscou um ator (Brandon Routh) mais semelhante ao icônico Christopher Reeves. Cavill também era o preferido de Stephenie Meyer para viver o vampiro Edward, mas também ficou no quase. Com Nolan e Snyder, sua vez chegou e a Empire escreveu que ele tem “o queixo mais esculpido de um Superman jamais visto”. O elogio esconde os dotes dramáticos do ator que foram bem exigidos na versão de Snyder.
“Aqui o conflito é sobre assumir ou não um papel de protagonismo diante do mundo”, disse o diretor em entrevista à Total Film. A natureza de Superman sempre valeu comparações com Jesus Cristo e no novo filme, rodado em tom épico, essa sombra é mais presente. “Não fomos nós quem estabelecemos essa comparação”, diz o diretor em entrevista ao IG.
Mas a relação de um filho superpoderoso enviado à Terra para liderar a humanidade é novamente adensada pelo filme que, diferentemente de Superman- o retorno (2006), reconta a origem do homem de aço sob esse prisma de aceitação e posicionamento diante de um desafio maior.

Henry Cavill e seu super queixo: o maior herói americano tem sotaque inglês

Shakespeare na panela de pressão
A ideia de conflito existencial em Superman remete ao titã da dramaturgia William Shakespeare. E o conflito emanado dos pais de Clark/Kal-el, o pai adotivo Jonathan (Kevin Costner) e o pai biológico Jor-el (Russell Crowe) pauta a narrativa. O primeiro acha que o filho não deve assumir seus poderes para o mundo, enquanto que o segundo (em um nível meramente psicológico em Clark, já que morreu na destruição de Krypton) acha que o filho deve liderar a humanidade contra o mal.
Esse mal é, neste primeiro filme, encarnado pelo general Zod – que em Superman II foi vivido pelo ótimo Terrence Stamp e agora ganha contornos insanos pelo não menos cativante Michael Shannon.
O antagonista é que traz O homem de aço de volta ao universo dos blockbusters e engatilha explosões a torto e a direito que mais do que justificam os U$ 250 milhões gastos na produção.

A ausência de Lex Luthor, da cueca vermelha e uma Lois Lane mais intrépida - vivida pela atriz Amy Adams - talvez sejam as novidades mais efetivas do filme incumbido de revitalizar o Superman no cinema.

Ser ou não ser: Jonathan Kent leva um papo com Clark sobre responsabilidades e sobrevivência